| Crítica
Paulo Herkenhoff
Pierre Courthion
Frederico Morais
Olívio Tavares de Araújo
Lisette Lagnado
Leon Kossovitch e Mayra Laudanna
"São simples os signos de Iberê. O artista se concentra num grupo básico. É com este discurso econômico que a obra constrói a sua eloqüência. Carretel: Memória como operação de passagem do símbolo ao signo. Brinquedo de infância, módulo, taça, falo. Ritmo, equilíbrio, ordem. Máquina do tempo no desenrolar da extensão da linha imaginária. Cruz: Assinalação de lugar. Encontro (não com o drama da Paixão) entre o vertical e o horizontal. Malévitch e Mondrian. Cubo: Dados sem números: sorte cega, ação precisa: matéria em volume. Dado: Como evitar Mallarmé? Uma pincelada, um golpe de tinta jamais abolirá o acaso ... Mão: Quase um alerta, concitando ao olhar. Hora X (1984) e outras horas como estações de um drama. Seta: Caminhos do pincel, pegadas em tinta, direções do olhar. Dinâmica:espaço/tempo: Movimento. Antimobilidade. Sousândrade:'Lá era aqui!'."
Paulo Herkenhoff
HERKENHOFF, Paulo. Alguns do múltiplo Iberê. In: IBERÊ Camargo.Texto Evelyn Berg, Icléia Cattani, Pierre Courthion, Paulo Herkenhoff, Wilson Coutinho.Porto Alegre: Margs; Rio de Janeiro: Funarte, 1985. p. 57-64, il. color. (Coleção contemporânea, 1).
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"Tentemos reconhecer o que caracteriza fundamentalmente a pintura de Iberê Camargo acompanhando, no artista, o que chamamos o processo de criação. Há inicialmente uma primeira concepção figurativa, a procura de uma arte táctil que encontrará no não-figurativo sua expressão mais alta e realizar-se-á finalmente no gestual. Iberê Camargo tem a presciência de não se fiar inteiramente no demonstrativo. Ele sabe que em arte as melhores realizações ultrapassam o raciocínio dedutivo. Entrega-se e abandona-se à inspiração que não é ´sopro artificial´ de que falou Mallarmé, mas uma abertura para o desconhecido. (...) Camargo sempre virou as costas para a arte oficial e toda tentativa nesse sentido morreu em embrião. Há arranhões, traços de revolta. Sentimo-lo como que impaciente para viver sua arte. Ele tem também o dom de insinuar aquilo que gostaria de evocar. Assim é que na sua pintura sente-se em toda parte o mar, sem vê-lo jamais, pois tudo é signo e tudo nele se resume no signo. É por isso que Camargo se comunica conosco. Sua pintura é virulenta, às vezes mesmo vulcânica como uma lava cuja torrente chega até nós."
Pierre Courthion (Tradução: Anamaria Skinner)
COURTHION, Pierre. Iberê Camargo: nascimento de um artista. In: IBERÊ Camargo.Texto Evelyn Berg, Icléia Cattani, Pierre Courthion, Paulo Herkenhoff, Wilson Coutinho.Porto Alegre: Margs; Rio de Janeiro: Funarte, 1985. p. 65-69, il. color. (Coleção contemporânea, 1).
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"Ao contrário de Bandeira, de suas ´féeries´ luminosas, tudo em Iberê Camargo é energia, drama, emoção à flor da pele. 'Eu não pinto modelos, pinto emoções´, afirma o artista. O quadro é sempre um abismo emocional, uma angústia sem fim. Mais de uma vez ele se comparou a Sísifo. Em seu ateliê, em Porto Alegre, aponta-me uma tela que acabara de retocar pela enésima vez, me diz: ´Parecia, de início, que eu ia pintar uma alvorada. Terminei fazendo um noturno. O que posso fazer? Tenho uma visão trágica da vida. Não sou um homem alegre, não vejo nenhum futuro para a humanidade, nenhum céu (...).'São dois os tempos perceptivos em sua pintura. O primeiro aproxima-se do tátil, é altamente provocativo, sensorial. Apenas o interdito secular nos inibe de tocar a superfície pintada e sentir fluir, nos dedos, torvelinho de emoções tumultuadas. Tem-se a sensação de que o quadro foi concluído ali, naquele exato momento. A tinta aparece, ainda, molhada, o gesto vibra, a cor pulsa entre negros e violetas. Bem próximo ao quadro, portanto, o que se sente é a pura materialidade da pintura. Depois, a distância, os planos se abrem e as formas se organizam, surgindo, como conseqüência, misteriosas figuras, fantasmas ameaçadores."
Frederico Morais
MORAIS, Frederico. Abstração informal. In: DACOLEÇÃO: os caminhos da arte brasileira. Introdução César Luís Pires de Mello; texto Frederico Morais; apresentação Júlio Bogoricin. São Paulo: Júlio Bogoricin, 1986. p. 160, il. color.
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"O momento principal da gravura de Iberê vai de 1958 a 1970, aproximadamente. É quando ele - e vários outros artistas do país - atravessam a passagem da figuração à abstração. Utilizando um tema, carretéis, o pintor (e gravador) gaúcho cumpre uma trajetória absolutamente íntegra e orgânica."
Olívio Tavares de Araújo - 6 de março de 1991
ARAÚJO, Olívio Tavares de. As evoluções da gravura nas mãos do Mestre Iberê. O Estado de São Paulo, São Paulo, 6 mar. 1991.
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"No ato da pintura, você faz um esforço de reconstrução?
Não, nada disso. Eu como pintor sou apenas um operário. Eu procuro fazer meu objeto da melhor forma possível, como se fosse uma mesa, uma cadeira. Atendo a sua necessidade de ser, de seu existir. Eu sei que uma mesa tem tantos pés, não pode ficar solta no espaço. Tenho de me submeter a essa necessidade construtiva do objeto comum para fazer minha pintura da melhor maneira que posso fazer, com meus conhecimentos de pintor, de artesão, de brochador de parede, não mais que isso. Agora se eu tenho essas ansiedades, isso é que é a pergunta. Por que procuras tanto essa imagem? Por que desmanchas tantas vezes, por que tu refazes, me dizem. Um pintor em São Paulo assistiu ao vídeo e disse ter visto desfilar uma humanidade, porque são tantas figuras que surgem, e que eu rejeito. Por que eu rejeito? Gostaria de saber. Para mim, é porque aquela formalmente é mais plástica, tem mais verdade como imagem. Mas eu posso estar dando a definição de um esteta, de um artista. Pode ser que eu esteja até sendo enganado por mim mesmo.
Talvez eu esteja procurando, sem saber, a primeira imagem, a imagem da mãe. Aí, quando a coisa se apresenta, aí satisfaz. Não sei dizer de antemão como ela é, mas sou capaz de reconhecê-la. É ela, eu sei."
Lisette Lagnado e Iberê Camargo
LAGNADO, Lisette. Conversações com Iberê Camargo.Apresentação Paulo Herkenhoff. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 33.
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"É nos anos 50 que Iberê Camargo encontra, segundo declara depois, carretel em fundo de gaveta que o traz à infância, volta que repica no Iberê idoso, anelante do deserto, do espinho, do agreste, a corresponder à insistência renovada da figura. Lúcida, pois melancólica, a posição tardia de Iberê ilustra o gesto anterior, que nela reaparece. Os carretéis são signos que surgem porque já captados pelos significados e marcam a entrada de Iberê em campanha desprovida de flores, cena ou figura humana. Elementos mínimos de figuração, os carretéis escapam à oposição singela do abstrato ao figurativo, pois não se configuram a partir de nomes que aludam, poetizantes, a uma composição ou a seus elementos, tidos como inexprimíveis em si mesmos. Signos memoriosos na pintura ou na gravura, os carretéis comemoram outros, os das batalhas infantis de Iberê e seu primo, a guerrear como Maragatos e Pica-paus: os significados no epos de Iberê cobrem, assim, dois decênios de produção, nos quais os carretéis ora se dipõem nítidos e repetidos uns ao lado ou acima de outros, ora se empurram, se atropelam, se esmagam, fundindo-se, dramáticos, em mancha, que lhes sorve a energia. Na gravura de Iberê, que a estudou no início dos 50 na Itália e sobre ela escreveu útil manualzinho, lança o carretel, signo-pião, como sulco na campina.
Os efeites dos carretéis de Iberê Camargo atribuem-se à combinatória que ora os justapôe, estáticos, ora os atropela, dinâmica, relações constantes, respectivamente, da natureza-morta e da mancha. O despojamento de Iberê reencontra-se em outro gravador, que se inicia com os olhos postos nos ricos nhandutis de Lívio Abramo, para dar guindas em direção a signos despojados."
Leon Kossovitch e Mayra Laudanna
KOSSOVITCH, Leon; LAUDANNA, Mayra. Gravura no século XX. In: GRAVURA: arte brasileira do século XX. Apresentação Ricardo Ribenboim; texto Leon Kossovitch, Mayra Laudanna, Ricardo Resende. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 2000. p. 21.
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