{"id":19768,"date":"2021-01-25T16:36:44","date_gmt":"2021-01-25T16:36:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/?p=19768"},"modified":"2021-01-25T16:36:44","modified_gmt":"2021-01-25T16:36:44","slug":"glauco-rodrigues-na-bergamin-gomide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/glauco-rodrigues-na-bergamin-gomide","title":{"rendered":"Glauco Rodrigues na Bergamin &#038; Gomide"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n\n\t\t<style>\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 100%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-19768 gallery-columns-1 gallery-size-thumbnail'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Glauco-Rodrigues-BG.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Glauco-Rodrigues-BG-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><br style=\"clear: both\" \/>\n\t\t<\/div>\n\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\">\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">A Bergamin &amp; Gomide, Jardins, S\u00e3o Paulo, SP, tem o prazer de apresentar sua primeira exposi\u00e7\u00e3o do ano\u00a0<strong><i>Acontece que somos canibais<\/i><\/strong>\u00a0individual do artista\u00a0<strong>Glauco Rodrigues<\/strong>\u00a0(1929-2004). Entre os dias 06 de fevereiro a 13 de mar\u00e7o de 2021, a exposi\u00e7\u00e3o apresenta cerca de 30 obras que compreendem o per\u00edodo de 1969 a 2002, e conta ainda com texto cr\u00edtico da historiadora e antrop\u00f3loga Lilia Moritz Schwarcz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: black;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><em><b><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Acontece que somos canibais<\/span><\/b><\/em><strong><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">\u00a0por Lilia Moritz Schwarcz<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: black;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Chega em \u00f3tima hora a exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Acontece que somos canibais\u00a0<\/em>que traz as obras da fase pop do artista Glauco Rodrigues. Num momento em que grassa o obscurantismo; em que temos sido lesados por uma crise que \u00e9 pol\u00edtica, econ\u00f4mica, moral, cultural e da sa\u00fade; em que vamos sendo invadidos por uma patriotada f\u00e1cil e que sequestrou os nossos s\u00edmbolos nacionais; em que tomamos um golpe a cada dia, nada como o humor sat\u00edrico e cr\u00edtico do artista ga\u00facho que, com suas cores fortes, seus desenhos em s\u00e9rie, seu fundo branco infinito fez pol\u00edtica a partir da arte. Pol\u00edtica com muita arte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Glauco Rodrigues (1929-2004) nunca coube numa caixinha ou numa defini\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Nascido em Bag\u00e9, no Rio Grande do Sul, ele come\u00e7ou na profiss\u00e3o como autodidata. Logo recebeu sua primeira bolsa de estudos ofertada pela pr\u00f3pria prefeitura da sua cidade e passou tr\u00eas meses na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (ENBA), que aglutinava velhos, mas tamb\u00e9m, novos talentos. De volta, funda em 1951 o Clube da Gravura de Bag\u00e9 junto com os colegas Gl\u00eanio Bianchetti e Dan\u00fabio Gon\u00e7alves. O grupo, que tinha em comum claras simpatias pelo socialismo, passou a se dedicar \u00e0 figura\u00e7\u00e3o, retratando paisagens da regi\u00e3o, num ambiente basicamente rural.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">A conviv\u00eancia com os amigos pintores fez com que Glauco resolvesse se dedicar \u00e0s artes visuais, profissionalmente. Muda-se ent\u00e3o para a capital de seu Estado e participa do Clube de Gravura de Porto Alegre, fundado por Vasco Prado e Carlos Scliar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Em 1958, parte para o Rio de Janeiro em busca de uma carreira mais s\u00f3lida. Nesse contexto, associa-se \u00e0\u00a0<em>Senhor,\u00a0<\/em>uma publica\u00e7\u00e3o onde o amigo Carlos Scliar j\u00e1 colaborava, al\u00e9m de nomes conhecidos no meio carioca, como Clarice Lispector e Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, e os ent\u00e3o novatos Paulo Francis e Jaguar.\u00a0 De curta dura\u00e7\u00e3o, apenas cinco anos &#8211; de 1959 e 1964 -, a Revista fez hist\u00f3ria, por conta de sua import\u00e2ncia para as letras nacionais e as artes gr\u00e1ficas; \u00e1rea em que Glauco Rodrigues rapidamente se destacou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Nessa \u00e9poca, e para sobreviver na cidade grande, Glauco se dedicou tamb\u00e9m a fazer retratos da elite local e daquela que circulava pela animada capital do pa\u00eds. Eram retratos pouco comportados, que inclu\u00edam cenas inusitadas e personagens inesperados; tudo numa mesma tela. O artista participou em 1960 do IX Sal\u00e3o Nacional de Arte Moderna, quando obteve um pr\u00eamio que lhe facultou viajar ao exterior. J\u00e1 na Europa, tomou parte da Bienal de Paris e, por conta de um convite da embaixada brasileira, morou em Roma entre os anos de 1962 e 1965, quando teve oportunidade de participar da XXXII Bienal de Veneza. Voltou-se ent\u00e3o para o abstracionismo; g\u00eanero muito estimado naquele contexto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Ao retornar ao Brasil, toma parte da exposi\u00e7\u00e3o Opini\u00e3o 66, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, junto com artistas como Anna Maria Maiolino, H\u00e9lio Oiticica, Ivan Serpa e Lygia Clark. Por outro lado, se ressente com o novo ambiente pol\u00edtico do pa\u00eds, marcado pelo Golpe de 1964. Definitivamente, o Brasil que deixara n\u00e3o era mais aquele para o qual reencontrava.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Decide, ent\u00e3o, que era chegada a hora de contar a\u00a0<em>sua<\/em>\u00a0hist\u00f3ria visual do Brasil. Datam dessa \u00e9poca, telas do artista com clara influ\u00eancia da arte pop, que anunciava uma est\u00e9tica em s\u00e9rie e avessa ao que considerava ser o \u201chermetismo da arte moderna\u201d. O uso de cores fluorescentes, brilhantes e vibrantes &#8211; feitas com tinta acr\u00edlica, poli\u00e9ster e l\u00e1tex -, empregadas at\u00e9 ent\u00e3o quase que exclusivamente na publicidade, nas capas de revistas, nos cartazes de rua e nos objetos de consumo, tamb\u00e9m caracterizava o g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Glauco, que convivera com esse movimento quando no exterior, aderiu a ele traduzindo-o para o contexto brasileiro. O g\u00eanero tamb\u00e9m combinava com os sentimentos do artista na \u00e9poca de seu retorno ao Brasil. O diagn\u00f3stico previa uma grave crise da arte, e a maneira de apresent\u00e1-la era produzindo obras cr\u00edticas \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o da cultura popular capitalista, t\u00e3o marcada pelo consumo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">O pintor passa a rever, de maneira iconoclasta, obras brasileiras cl\u00e1ssicas, temas ligados \u00e0 identidade nacional &#8211; os ind\u00edgenas, a natureza tropical, o futebol, o carnaval -, bem como assuntos vinculados \u00e0 hist\u00f3ria nacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Como morava perto da praia, Glauco come\u00e7ou a retratar cenas cotidianas de\u00a0 banhistas, acrescidas da combina\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de elementos simb\u00f3licos e inusitados &#8211; garotas de biqu\u00edni ao lado de militares; atores conhecidos, usando diminutas sungas, contracenando com pessoas an\u00f4nimas e vestidas de maneira mais convencional; o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar ladeado por frutas tropicais; a imensa escultura do Cristo Redentor convivendo com frases pop do tipo: \u201co que contamina o homem n\u00e3o \u00e9 o que entra na boca, mas o que sai da boca\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">O pop, que bebia da experi\u00eancia gr\u00e1fica e reprodut\u00edvel, entra de frente na obra de Glauco Rodrigues, que passa a criar telas muito coloridas, lembrando as tonalidades chapadas da produ\u00e7\u00e3o industrial. Ao mesmo tempo, o artista quebra a harmonia introduzindo figuras em situa\u00e7\u00f5es variadas, mas que parecem soltas no espa\u00e7o, uma vez que dispostas diante de grandes planos de fundo imaculadamente brancos, e que assim passam a impress\u00e3o de serem infinitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">S\u00e3o dessa \u00e9poca as obras por ele definidas como\u00a0<em>Brasilianistas<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Antropof\u00e1gicas<\/em>. O artista ga\u00facho rel\u00ea a antropofagia de Tarsila do Amaral e do movimento modernista paulistano para tamb\u00e9m devorar assuntos can\u00f4nicos da hist\u00f3ria e das artes no Brasil.\u00a0\u00a0 S\u00e9ries como\u00a0<em>Terra Brasilis\u00a0<\/em>(1970),\u00a0<em>Carta de Pero Vaz de Caminha\u00a0<\/em>(1971),\u00a0<em>No pa\u00eds do Carnaval\u00a0<\/em>(1982),\u00a0<em>Sete v\u00edcios capitais\u00a0<\/em>(1985), fazem parte da guinada pop do artista. \u00a0Atento \u00e0 efic\u00e1cia simb\u00f3lica, Glauco finalizou muitas telas sobre o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e centenas sobre S\u00e3o Sebasti\u00e3o, com o santo sendo personificado no corpo de artistas nacionais, e sempre cobertos de flechas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Ao lado do processo antropof\u00e1gico &#8211; e que o leva a traduzir e deglutir o Brasil a partir de pinturas que carregam, ao mesmo tempo, humor e cr\u00edtica social -, Glauco impregna em suas obras uma clara carnavaliza\u00e7\u00e3o da cultura brasileira. O ind\u00edgena, as frutas, o futebol, as passistas de escolas de samba\u2026 todos recebem cores tropicais e muitas vezes aparecem acompanhados de frases cr\u00edticas; tudo num clima e num ritmo de carnaval.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Seu processo criativo come\u00e7ava com a reprodu\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es postais, de imagens retiradas de revistas ou dos jornais, e de suas pr\u00f3prias fotografias. Era a partir desses registros que o artista recriava ambientes, abusando do verde e amarelo e por vezes introduzindo a pr\u00f3pria bandeira nacional. A disson\u00e2ncia e o deslocamento entre as figuras e as circunst\u00e2ncias apresentadas, o clima de festa, a brincadeira, s\u00e3o elementos que deixam evidente a veia sat\u00edrica do pintor que, em tempos de ditadura, se negava a compactuar com os mitos e estere\u00f3tipos criados e difundidos pelos militares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Na exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Acontece que somos canibais<\/em>, a fase pop de Glauco Rodrigues est\u00e1 muito bem representada. Frutas tropicais, o Cristo Redentor, o Carnaval, as mulheres de biqu\u00edni, os ind\u00edgenas\u00a0<em>kaxinaw\u00e1<\/em>, dividem espa\u00e7os com cenas retiradas da hist\u00f3ria do Brasil. Esse \u00e9 o caso das releituras, na chave do tropicalismo cr\u00edtico, da tela de Almeida J\u00fanior &#8211;\u00a0<em>O derrubador brasileiro<\/em>\u00a0(1875) -, e da obra\u00a0<em>A primeira missa no Brasil<\/em>, de Vitor Meireles (1861). Muito conhecidas, utilizadas quase que como carteiras de identidade, essas duas pinturas devolvem, na chave do patriotismo, faces e expectativas de um pa\u00eds que se quer ver como desbravador e que gosta de se representar na base da (falsa) toler\u00e2ncia e de um suposto (e ilus\u00f3rio) pacifismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">J\u00e1 na perspectiva de Glauco Rodrigues, por\u00e9m, o realismo vira s\u00e1tira e burla, por meio da alus\u00e3o e da correspond\u00eancia. Nada \u00e9 exatamente o que ali se apresenta. Nessa nova \u201cMissa\u201d (que n\u00e3o \u00e9 mais a \u201cPrimeira\u201d) desfilam em ritmo de samba, ind\u00edgenas, religiosos e militares, ali\u00e1s, j\u00e1 presentes na cena criada por Meireles. Mas no quadro de Glauco eles dividem espa\u00e7o com pessoas an\u00f4nimas e curiosas, crian\u00e7as, casais e personalidades pol\u00edticas. Aqui, sim, vemos uma verdadeira \u201cGeleia geral\u201d, parodiando a m\u00fasica lan\u00e7ada por Gilberto Gil e Torquato Neto em 1968, numa esp\u00e9cie de homenagem ao Tropicalismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">J\u00e1 o\u00a0<em>Derrubador\u00a0<\/em>de Glauco Rodrigues aparece com uma postura corporal id\u00eantica \u00e0 cena original, produzida por Almeida Junior, mas ao inv\u00e9s de se recostar numa rocha, apoia-se num duplo mapa do Brasil, verde e azul, ali\u00e1s a cor do machado que ele carrega ostensivamente em sua m\u00e3o esquerda. O contorno f\u00edsico do territ\u00f3rio do Brasil, associado \u00e0s cores da bandeira, como que invertem a situa\u00e7\u00e3o, e o que era eleva\u00e7\u00e3o vira agora cr\u00edtica: piada pronta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Ind\u00edgenas, uma m\u00e3e e seu filho, surgem por vezes vestidos como catequizados &#8211; a despeito de manterem alguns sinais identit\u00e1rios, como pinturas corporais e um colar t\u00edpico -, por vezes com suas indument\u00e1rias e instrumentos tradicionais apenas tra\u00eddos pela blague das cores verde e amarela, por um colar de metal ou um rel\u00f3gio no bra\u00e7o esquerdo do rapaz. Como se v\u00ea, est\u00e3o todos juntos\u00a0<em>e<\/em>\u00a0separados; convertidos\u00a0<em>e<\/em>\u00a0famintos, como diz a senten\u00e7a que completa a cena.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Bananas, cajus, milhos, ra\u00edzes, s\u00e3o descritos \u00e0 moda dos naturalistas oitocentistas, mas denunciados, mais uma vez, pela abund\u00e2ncia exagerada do verde e amarelo, por sob o mesmo fundo branco.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Mulheres negras vestidas \u00e0 moda ou com roupas carnavalescas -frequentemente apresentadas em verde e amarelo &#8211; levam \u00e0 m\u00e3o uma menina ind\u00edgena, com seu colar de na\u00e7\u00e3o ostensivamente maior do que seu corpo diminuto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Enfim l\u00e1 est\u00e3o eles, os brasileiros, h\u00edbridos como queria o \u201cmito da democracia racial\u201d &#8211; que nessa \u00e9poca era muito explorado pela Ditadura Militar -, mas, ao mesmo tempo, por demais hierarquizados. Mistura tamb\u00e9m funciona aqui na base do \u201ctodos juntos\u00a0<em>e<\/em>\u00a0separados\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">At\u00e9 mesmo a tipologia gr\u00e1fica toma um formato e import\u00e2ncia fundamentais quando inseridos nas telas de Glauco Rodrigues. De um lado, ela lembra os escritos que acompanhavam as aquarelas dos viajantes do s\u00e9culo XIX, que, n\u00e3o contentes de esbo\u00e7ar pitorescamente a col\u00f4nia dos portugueses, n\u00e3o raro, inclu\u00edam textos e assim procuravam dirimir qualquer d\u00favida de interpreta\u00e7\u00e3o. No caso das telas de Glauco, por\u00e9m, a tipografia assume papel cr\u00edtico, ao mesmo tempo que vira elemento est\u00e9tico. Em geral desenhadas em azul, muitas vezes em verde e amarelo ou com uma palheta pr\u00f3pria, elas se configuram como elementos de car\u00e1ter tipogr\u00e1fico prontamente transformados em letras cursivas, porque feitas pela m\u00e3o do artista que introduz a irregularidade intencional do gesto humano. At\u00e9 nesse aspecto h\u00e1, portanto, duplicidade e ambiguidade; no mesmo lugar onde se l\u00ea com presumida naturalidade, reside o lugar da invers\u00e3o sagaz elaborada pelo artista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">A obra de Glauco Rodrigues ficou durante longo tempo basicamente esquecida, talvez por n\u00e3o corresponder ou se encaixar de maneira \u00f3bvia aos c\u00e2nones modernistas da \u00e9poca. Entretanto, nos dias hoje, nesses tempos t\u00e3o dist\u00f3picos em que vivemos, quando a realidade parece exagerada e surreal (mas infelizmente n\u00e3o \u00e9), quando a pol\u00edtica vira espet\u00e1culo f\u00e1cil de autoritarismo, onde o verde e amarelo foram sequestrados de uma parte importante da popula\u00e7\u00e3o, a ironia sutil de Glauco talvez esteja finalmente em casa e diga respeito aos tempos do agora. Esse tempo em compasso de espera e que se apresenta na forma de um presente sem futuro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Os\u00a0<em>kaxinaw\u00e1<\/em>\u00a0de Glauco Rodrigues somos n\u00f3s!\u00a0 O verde e amarelo somos n\u00f3s! Tudo em sua obra \u00e9 arte antropof\u00e1gica, no sentido dado pelos povos amer\u00edndios que fazem da comida um ritual de troca e degluti\u00e7\u00e3o, sem geografia certa ou tempo delimitado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 16.0pt; color: #333333;\">Tudo deve ser digerido e vomitado, numa celebra\u00e7\u00e3o da cultura brasileira que devora aos \u201coutros\u201d, mas tamb\u00e9m a si pr\u00f3pria e a \u201cn\u00f3s\u201d mesmos. Isso porque, \u201cacontece que somos canibais\u201d \u2013 verdes e amarelos, e tropicais<\/span><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #333333;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #333333;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00a0 A Bergamin &amp; Gomide, Jardins, S\u00e3o Paulo, SP, tem o prazer de apresentar sua primeira exposi\u00e7\u00e3o do ano\u00a0Acontece que somos canibais\u00a0individual do artista\u00a0Glauco\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4773,3,6,9524,11,2650,15],"tags":[18527,18517,18524,18505,3003,736,8140,6692,18516,834,18520,2035,18510,4914,1177,2846,18528,18509,18508,18525,18526,2845,18529,2847,18515,228,18506,246,18514,18513,18153,18511,293,18518,338,18521,18523,12261,8994,18512,18522,18519,18507,5896,1523,448,16995],"class_list":["post-19768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte-brasileira-2","category-arte-contemporanea","category-exposicoes","category-galerias","category-oparalelo","category-pinturas-2","category-sao-paulo","tag-18527","tag-a-antropofagia-de-tarsila-do-amaral","tag-a-primeira-missa-no-brasil","tag-acontece-que-somos-canibais","tag-almeida-junior","tag-anna-maria-maiolino","tag-bergamin-gomide","tag-bienal-de-paris","tag-brasilianistas-e-antropofagicas","tag-carlos-scliar","tag-carta-de-pero-vaz-de-caminha","tag-clarice-lispector","tag-clube-da-gravura-de-bage","tag-clube-de-gravura-de-porto-alegre","tag-cristo-redentor","tag-danubio-goncalves","tag-ditadura-militar","tag-enba","tag-escola-nacional-de-belas-artes-do-rio-de-janeiro","tag-geleia-geral","tag-gilberto-gil-e-torquato-neto","tag-glauco-rodrigues","tag-glauco-rodrigues-na-bergamin-gomide","tag-glenio-bianchetti","tag-golpe-de-1964","tag-helio-oiticica","tag-individual-do-artista-glauco-rodrigues","tag-ivan-serpa","tag-ix-salao-nacional-de-arte-moderna","tag-jaguar","tag-jardins","tag-joao-guimaraes-rosa","tag-lygia-clark","tag-movimento-modernista-paulistano","tag-museu-de-arte-moderna-do-rio-de-janeiro","tag-no-pais-do-carnaval","tag-o-derrubador-brasileiro","tag-opiniao-66","tag-pao-de-acucar","tag-paulo-francis","tag-sete-vicios-capitais","tag-terra-brasilis","tag-texto-critico-da-historiadora-e-antropologa-lilia-moritz-schwarcz","tag-tropicalismo","tag-vasco-prado","tag-vitor-meireles","tag-xxxii-bienal-de-veneza"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19768"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19771,"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19768\/revisions\/19771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}