{"id":25602,"date":"2024-04-12T18:27:26","date_gmt":"2024-04-12T18:27:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/?p=25602"},"modified":"2024-04-12T18:27:26","modified_gmt":"2024-04-12T18:27:26","slug":"mano-penalva-na-simoes-de-assis-curitiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/mano-penalva-na-simoes-de-assis-curitiba","title":{"rendered":"Mano Penalva na Sim\u00f5es de Assis Curitiba"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\">\n\n\t\t<style>\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 25%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-25602 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possibilidades de revis\u00e3o da hist\u00f3ria social do Brasil apresenta-se atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria do movimento. Polivalente, esse movimento pode acontecer de in\u00fameros modos: migra\u00e7\u00f5es populacionais, varia\u00e7\u00f5es de mar\u00e9, din\u00e2micas comerciais e de troca e, pr\u00f3prio ao corpo cultural, a dan\u00e7a. Apesar das variantes sedutoras, opto por manter esta investiga\u00e7\u00e3o historicamente pr\u00f3xima ao &#8220;movimento&#8221;, pela insubordina\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio fen\u00f4meno carrega consigo em rela\u00e7\u00e3o ao desapego disciplinar e \u00e0 liberdade de deslocamento no pensamento.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em Dois pra l\u00e1, dois pra c\u00e1, exposi\u00e7\u00e3o individual de Mano Penalva em Curitiba, \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o do olho que comanda o deslocamento, que ativamente distorce a imagem fru\u00edda ao passo que o espectador se move no espa\u00e7o. As salas expositivas, idealmente neutras, tornam-se um diagrama de coreografias planejadas pelo artista. Nas obras da s\u00e9rie Ventana, produzidas com ripas de madeira multicoloridas, \u00e9 como se cada canto assobiasse, chamando para mais perto, em disputa com os chamarizes em si mesmo. Os trabalhos demonstram uma repulsa \u00e0 frontalidade, a um ponto de vista \u00fanico, herm\u00e9tico e pr\u00e9-fixado, quest\u00e3o amplamente discutida pela pr\u00e1tica escult\u00f3rica contempor\u00e2nea. Amb\u00edguo, os objetos tridimensionais de Penalva se apresentam camuflados de pinturas postos \u00e0 parede; sem a inten\u00e7\u00e3o do engano, mas com o truque do fasc\u00ednio. A apontar para uma crise de classifica\u00e7\u00e3o em um mundo de objetos e nomes cambiantes, o trabalho engendra compreens\u00f5es intervalares em sua pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p class=\"p1\">Penalva incentiva uma observa\u00e7\u00e3o livre da forma, pautada pelos apetites sensoriais a serem saciados atrav\u00e9s do movimento em diversos \u00e2ngulos, em mudan\u00e7as completas de cor e composi\u00e7\u00e3o em determinadas posi\u00e7\u00f5es. Com esses trabalhos, portanto, o artista prop\u00f5e ao espectador uma insinua\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a defronte \u00e0s obras: dois pra l\u00e1, dois pra c\u00e1. Tal movimento pendular, como as contas de um \u00e1baco &#8211; ou como seus Alpendres que balan\u00e7am ao vento -, joga pontos de refer\u00eancia a primorosos sistemas est\u00e9ticos de origem popular, assim como sobrescreve um incontorn\u00e1vel legado da arte cin\u00e9tica, sobretudo do modernismo latino-americano. Esse res\u00edduo hist\u00f3rico que acompanha a produ\u00e7\u00e3o de Penalva \u00e9 an\u00e1logo ao ru\u00eddo visual causado pelos trabalhos apresentados, onde fen\u00f4menos \u00f3pticos &#8211; como o moir\u00e9 &#8211; se intensificam e se acumulam na retina de quem absorve os trabalhos, impregnando o pr\u00f3ximo trabalho com o zumbido do anterior. Desse modo, Penalva reverencia a sofistica\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rios visuais igualmente populares &#8211; e, por consequ\u00eancia, suas epistemologias e rela\u00e7\u00f5es sociais -, como na composi\u00e7\u00e3o de elementos da arquitetura vernacular, na composi\u00e7\u00e3o de bancas de feira com lonas e caixas de madeira, na diagrama\u00e7\u00e3o de cartazes com letras pintadas manualmente. As ventanas guardam semelhan\u00e7as com os aparatos arquitet\u00f4nicos postos em v\u00e3os de janelas e portas que permitem o fluxo de ar ao mesmo tempo que bloqueiam a incid\u00eancia solar. Tal solu\u00e7\u00e3o formal, criada em pa\u00edses com climas desafiadoramente quentes, apresenta diversidade caleidosc\u00f3pica de formas e combina\u00e7\u00f5es de padr\u00f5es geom\u00e9tricos &#8211; como em cobog\u00f3s, muxarabis, venezianas e persianas. Pedindo o inverso do que o objeto que as geram prop\u00f5e, as Ventanas de Penalva pedem ao espectador que as descortinem, que as esguelhem, que as desvelem em soslaio. Essa geometria din\u00e2mica encontra di\u00e1logos bem humorados: em Beijo, por exemplo, a par\u00e1bola formada pelo tenso peso da fiada de contas encontra, em uma car\u00edcia tangente, o arco c\u00f4ncavo da forma circular pintada em acr\u00edlica sobre madeira. Essa esp\u00e9cie de colar de mi\u00e7angas, al\u00e9m de sugerir conex\u00f5es religiosas e espirituais densamente ocorrentes nas visualidades populares, fazem c\u00f3cegas no conceito do ornamento, presen\u00e7a temida pelo modernismo minimalista. Em Beleba, esferas imantadas que sugerem divertidas bolinhas de gude, comuns em brincadeiras e rua, tamb\u00e9m simbolizam campos de troca, de conquistas e de estrat\u00e9gias\u00b9. Visualmente, inserem pontos visuais marcantes em meio ao ritmo vertical, como semibreves em uma partitura rotacionada.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ao intitular a mostra como Dois pra l\u00e1, dois pra c\u00e1, o artista desvia o movimento para a dan\u00e7a, e alguns pilares fulcrais bailam no horizonte: a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a m\u00fasica; a corporifica\u00e7\u00e3o de express\u00f5es culturais das mais diversas, miscigenadas, transpostas e reconfiguradas; a dimens\u00e3o afetiva; e a efemeridade da dan\u00e7a, que s\u00f3 acontece em determinado momento e, quando se repete, \u00e9 sempre nova, embora repita uma tradi\u00e7\u00e3o. A dan\u00e7a \u00e9, portanto, inexata em suas recorr\u00eancias, tenha o mesmo princ\u00edpio medidor, uma matriz de instru\u00e7\u00f5es comum. Quadris, ombros, p\u00e9s e m\u00e3os obedecem a cantos intelig\u00edveis que ativam corpos sens\u00edveis, cuja intelig\u00eancia corporal \u00e9 mestra. H\u00e1, por certas matrizes, uma tentativa de esquematiza\u00e7\u00e3o dos movimentos da dan\u00e7a, de modo a control\u00e1-lo, reproduzi-lo em intentos disciplinares, geom\u00e9tricos, cient\u00edficos. Ironizar a tentativa de ensinar algu\u00e9m a ter molejo foi uma das inten\u00e7\u00f5es centrais de Andy Warhol na s\u00e9rie Dance Diagram (1961-1962), onde a sinuosidade e espontaneidade dos movimentos d\u00e3o lugar a linhas duras e vetoriais que instruem sobre o movimento dos p\u00e9s\u00b2. Nas ocasi\u00f5es em que trabalhos dessa s\u00e9rie eram expostos \u2013 em lugares onde ver pessoas dan\u00e7ando causa estranheza, como museus e galerias de arte \u2013, eram raras as vezes em que os observadores n\u00e3o tentavam replicar as instru\u00e7\u00f5es defronte \u00e0s obras.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em Dois pra l\u00e1, dois pra c\u00e1, Mano Penalva prop\u00f5e uma ativa\u00e7\u00e3o similar: em uma sala com paredes em tom mais quente, ecoa um bolero que incentiva os visitantes \u00e0 dan\u00e7a. As duas caixas de som sobre trip\u00e9s, defronte aos grandes Alpendres que lavam as paredes do teto ao ch\u00e3o, sugerem dois corpos que, em par, somam-se \u00e0 dan\u00e7a. A instala\u00e7\u00e3o sonora Bolero para o sil\u00eancio &#8211; composta por Penalva e pelo produtor musical Meno Del Picchia -, al\u00e9m de atentar para os hibridismos culturais da Am\u00e9rica Latina, suas influ\u00eancias hisp\u00e2nicas e resist\u00eancias origin\u00e1rias e diasp\u00f3ricas, disserta sobre a import\u00e2ncia do intervalo: a pausa que intercala os passos \u00e9 t\u00e3o importante quantos os elementos cheios. Maestro \u00e9 quem domina o tempo, determina o ritmo e disp\u00f5e as frestas na completude. Cercado de obras que privilegiam a apreens\u00e3o visual em detrimento a outros sentidos, Bolero para o sil\u00eancio amalgama-se com o observador em um processo de igni\u00e7\u00e3o do corpo atrav\u00e9s da audi\u00e7\u00e3o. Nota-se, portanto, uma inexatid\u00e3o nas pr\u00e1ticas da dan\u00e7a: embora haja um decoro que as rejam, cada uma acontece de modo espec\u00edfico, dentro de um par\u00e2metro convencionado. Essa matem\u00e1tica orgulhosamente inexata, descompassada pela generosidade, tende sempre ao transbordamento, a um pouco a mais: surge, assim, a obra Um tanto e meio. Penalva questiona se esse sistema de medida pautado pela partilha n\u00e3o se faz mais pertinente nas rela\u00e7\u00f5es humanas do que a escala de unidade m\u00e9trica, onde, em frieza tal, o que determina o que \u00e9 medido \u00e9 o comprimento de raios de luz no v\u00e1cuo em um intervalo mentalmente incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"p1\">Embora as medidas representem uma lata de um litro e uma de meio litro &#8211; emp\u00edrica, s\u00e1bia e precariamente apropriadas da produ\u00e7\u00e3o industrial, ao reutilizarem latas met\u00e1licas de \u00f3leo de cozinha como recipiente para medida de gr\u00e3os e farinhas em feiras p\u00fablicas -, Um tanto e meio indaga acerca da arbitrariedade dessas conven\u00e7\u00f5es: n\u00e3o se sabe quanto faz um tanto ser um tanto, muito menos meio. A obra prop\u00f5e uma altern\u00e2ncia, sempre din\u00e2mica: de um lado, o cheio intranspon\u00edvel, como esculturas maci\u00e7as de Iran do Espirito Santo que n\u00e3o servem para medida alguma; ou o vazio presente, como nas moedas sem valor de Cildo Meireles. Os objetos em si nada valem, mas pautam o valor das coisas que medem e trocam. Existem virtualmente, em pot\u00eancia. Com conte\u00fado mut\u00e1vel, podendo ser preenchidas com mat\u00e9rias dos mais diversos valores, Um tanto e meio enfatiza a din\u00e2mica da troca. Al\u00e9m disso, indaga se propor possibilidades centradas na generosidade nas din\u00e2micas capitalistas n\u00e3o s\u00e3o encena\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas. Complica-se ainda mais quanto as etapas produtivas s\u00e3o subvertidas pelo paulatino abandono da reutiliza\u00e7\u00e3o das latas industriais, passando a produzir artesanalmente &#8211; e vender &#8211; novos utens\u00edlios medidores com volumes aproximados. Assim, reitera-se um deslocamento central: um instrumento de medida passa a ser de representa\u00e7\u00e3o, em uma ciranda cruzada entre imagem, objeto e significado. Ao mesmo tempo que se referem a uma pr\u00e1tica dada, Um tanto e meio independe dos objetos que a constituem, posto que (in)citam, em senso estrito, os movimentos feitos por outras latas que n\u00e3o aquelas. Incentivando os mecanismos imaginativos, Penalva sugere a possibilidade sonora dessas latas quando cheias, como chocalhos que cumprem a percuss\u00e3o do bolero, a soar o ritmo do cotidiano, o barulho das feiras, o som do baile.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mateus Nunes<\/p>\n<p class=\"p1\">At\u00e9 20 de abril.<\/p>\n<p class=\"p1\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois pra l\u00e1, dois pra c\u00e1 Uma das possibilidades de revis\u00e3o da hist\u00f3ria social do Brasil apresenta-se atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria do movimento. 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