{"id":25793,"date":"2024-05-27T20:52:58","date_gmt":"2024-05-27T20:52:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/?p=25793"},"modified":"2024-05-27T20:52:58","modified_gmt":"2024-05-27T20:52:58","slug":"a-natureza-poderosa-e-autonoma-de-diambe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/a-natureza-poderosa-e-autonoma-de-diambe","title":{"rendered":"A natureza poderosa e aut\u00f4noma de Diambe"},"content":{"rendered":"\n\t\t<style>\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 25%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-25793 gallery-columns-4 gallery-size-thumbnail'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-004.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-004-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-002.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-002-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-003.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-003-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-001.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Diambe-001-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><br style=\"clear: both\" \/>\n\t\t<\/div>\n\n<p class=\"p1\">A Sim\u00f5es de Assis, Jardins, apresenta a primeira individual de Diambe, intitulada &#8220;Sensa\u00e7\u00e3o T\u00e9rmica&#8221; em S\u00e3o Paulo. Ao redor do mundo dos sonhos e de possibilidades fabulativas de novos seres, dentre os dezenove trabalhos, dez pinturas manifestam escolhas crom\u00e1ticas calorosas, e nove esculturas, feitas em bronze e alum\u00ednio com p\u00e1tinas coloridas, discutem como culturas, em diversos contextos geogr\u00e1ficos, consideram a temperatura local como fator determinante na escolha dos materiais a comporem seus objetos, endere\u00e7ando a assimetria na reciprocidade de recep\u00e7\u00e3o sociocultural estabelecida pela di\u00e1spora africana no Brasil. As obras expostas foram produzidas em um momento cr\u00edtico de temperatura ambiental no in\u00edcio de 2024, com sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica maior que 60 graus Celsius em algumas cidades do sudeste brasileiro. Esse pensamento tamb\u00e9m est\u00e1 presente no projeto expogr\u00e1fico, com bases feitas de argila craquelada, comp\u00f5em e refletem o uso de mat\u00e9rias vivas e elementos ornamentais da natureza. A artista possui obra em exibi\u00e7\u00e3o na cole\u00e7\u00e3o permanente da Pinacoteca e seus trabalhos integram cole\u00e7\u00f5es de importantes institui\u00e7\u00f5es no Brasil, como o Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (MASP), Pinacoteca de S\u00e3o Paulo e Museu de Arte do Rio (MAR).<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">A expandir sua po\u00e9tica atrav\u00e9s de fabula\u00e7\u00f5es de seres que podem ser assimilados como paisagens, figuras zoom\u00f3rficas, alimentos, entidades trans-esp\u00e9cies e manifesta\u00e7\u00f5es de uma memorabilia sonhada, Diambe (Rio de Janeiro, 1993) reverencia a inventividade efervescente que responde a m\u00e1culas e muralhas impostas a corpos dissidentes na contemporaneidade. Em seu processo criativo, materializa criaturas que habitam uma natureza poderosa e aut\u00f4noma, cujo poder sobrepuja o do ser humano e proporciona um escape de uma ilus\u00f3ria situa\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o antropoc\u00eantrica. Paralelamente, na presente exposi\u00e7\u00e3o, Diambe discute como culturas, em diversos contextos geogr\u00e1ficos, consideram a temperatura local como fator determinante na escolha dos materiais a comporem seus objetos, endere\u00e7ando a assimetria na reciprocidade de recep\u00e7\u00e3o sociocultural estabelecida pela di\u00e1spora africana no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em Sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica, materializa\u00e7\u00e3o de um sonho perp\u00e9tuo ignizado por Diambe, apresentam-se pinturas que manifestam escolhas crom\u00e1ticas calorosas, esculturas gotejadas em bronze com p\u00e1tinas coloridas e bases de argila crua que racham em resposta ao tempo. As obras expostas nessa ocasi\u00e3o foram produzidas em um momento cr\u00edtico de temperatura ambiental no in\u00edcio de 2024, com sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica maior que 60 graus Celsius em algumas cidades do sudeste brasileiro. Ar e fogo confundiam-se. O calor alucinante atravessava n\u00e3o somente a mat\u00e9ria, mas a subjetividade posta em fogo no estabelecimento de uma po\u00e9tica do del\u00edrio. As gotas de suor que escorrem pelo corpo dan\u00e7ante. A saliva morna que recebe a \u00e1gua fresca. O suco da fruta mordida que colore o queixo e escorre pelo peito aberto. Nesse contexto de assombroso fervor, o transporte das esculturas em cera do ateli\u00ea de Diambe para a fundi\u00e7\u00e3o em metal tornou-se cr\u00edtico: os corpos derretiam, desmontavam, metamorfoseavam-se em resposta \u00e0 fulminante onda de calor. Esse torpor tamb\u00e9m causa uma zona de descontrole, estabelecendo limites desobedientes sobre a manipula\u00e7\u00e3o da cera de abelha que molda as esculturas. Desse modo, Diambe n\u00e3o det\u00e9m total autoridade pl\u00e1stica sobre a mat\u00e9ria, mas respeita sua pr\u00f3pria ag\u00eancia, sua multiplicidade vital e suas delirantes possibilidades de comportamento. A partir de profunda intimidade com os elementos pl\u00e1sticos, congrega em torno do calor uma rela\u00e7\u00e3o colaborativa com os materiais, sempre em trabalho sin\u00e9rgico e a\u00e7\u00e3o m\u00fatua.<\/p>\n<p class=\"p1\">Depois de confeccionados os moldes, recept\u00e1culos que transfeririam suas formas e entidades ao bronze incandescente, os seres em cera retornavam da oficina de fundi\u00e7\u00e3o a Diambe em peda\u00e7os, logo derretidos novamente para corporificar outras subjetividades e produzir novas esculturas com o mesmo material, j\u00e1 impregnado de tantos ciclos de vida e morte. No d\u00e9cimo primeiro andar de um edif\u00edcio no centro de S\u00e3o Paulo &#8211; repleto de frutos, vegetais e ra\u00edzes colhidas na Mata Atl\u00e2ntica, na floresta amaz\u00f4nica ou negociadas em mercados no Benin -, o aroma que exalava da cera de abelha reaquecida por Diambe atra\u00eda frequentemente um pequeno enxame que retornava, em transe, ciclicamente \u00e0 mat\u00e9ria que havia criado. A prepara\u00e7\u00e3o de novos corpos desencadeava um chamado aos seres que produziram aquela massa pl\u00e1stica, em um reencontro no momento da transforma\u00e7\u00e3o material. Esse ecol\u00f3gico fluxo c\u00edclico sugere, inclusive, uma postura harm\u00f4nica e sustent\u00e1vel de lidar com a mat\u00e9ria, em constante muta\u00e7\u00e3o. Apesar das pot\u00eancias po\u00e9ticas do calor, Diambe tamb\u00e9m alerta para os ex\u00edlios clim\u00e1ticos e o racismo ambiental, a denunciar que as mudan\u00e7as causadas pelo aquecimento global afetam de forma mais voraz pessoas com corpos dissidentes e grupos sociais marginalizados. Sua pr\u00e1tica art\u00edstica \u00e9 perpassada pela temperatura desde quando ateava fogo em monumentos p\u00fablicos que reverenciam \u00edcones totalitaristas que, mesmo est\u00e1ticos, continuam a violentar corpos e corroer hist\u00f3rias. O calor, por outro lado, tamb\u00e9m serve como analogia \u00e0 entropia social causada pelos sistemas que mant\u00eam predat\u00f3rias din\u00e2micas colonialistas e imperialistas. Ao fundir corpos de diferentes \u00e2mbitos biol\u00f3gicos e espirituais, Diambe incorpora entidades h\u00edbridas que desafiam categoriza\u00e7\u00f5es e encorajam rela\u00e7\u00f5es mais respeitosas em uma natureza que pode ser aplicada \u00e0s esferas sociais. Sendo pessoa negra, desobediente da binariedade de g\u00eanero, Diambe entende o corpo como lugar e o lugar como corpo, em uma espelhada geografia sempre pol\u00edtica: &#8220;o assentamento (tamb\u00e9m chamado de ib\u00e1) no candombl\u00e9 \u00e9, ao mesmo tempo, a morada do orix\u00e1, o pr\u00f3prio orix\u00e1 materializado e o local onde a rela\u00e7\u00e3o entre pessoa e orix\u00e1 se faz&#8221;. Suas pinturas em t\u00eampera de ovo retomam a origem da t\u00e9cnica milenar origin\u00e1ria do nordeste africano, encontrando-se na indetermina\u00e7\u00e3o entre paisagens figurativas, seres surrealistas, abstra\u00e7\u00f5es crom\u00e1ticas e outras mir\u00edades de possibilidades de exist\u00eancia. Seus trabalhos acontecem propositalmente em uma zona limiar, inegociavelmente h\u00edbrida, a amalgamar reinos naturais e metaf\u00edsicos. Em respeito \u00e0 individualidade dos seres que cria e p\u00f5e no universo, Diambe escolhe que suas esculturas em bronze fundido sejam \u00fanicas, sem outras edi\u00e7\u00f5es. Dessa forma, obedece a epistemologias ancestrais que entendem a cria\u00e7\u00e3o &#8211; art\u00edstica, nesse caso, mas tamb\u00e9m de qualquer outra natureza &#8211; como provedora de ag\u00eancia, dotando um ser de corpo e integrando-o em din\u00e2micas naturais como indiv\u00edduos que, embora aut\u00f4nomos, n\u00e3o existem sem comunidades harm\u00f4nicas de coopera\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s de sistemas de saberes da di\u00e1spora africana e de tradi\u00e7\u00f5es amefricanas, as cria\u00e7\u00f5es e corporifica\u00e7\u00f5es de Diambe se relacionam com a no\u00e7\u00e3o de alimento, de oferenda, como combust\u00edvel do corpo e da alma. Comer \u00e9, portanto, exercer a sua pr\u00f3pria divindade e a do alimento, irradiando energia, prazer, felicidade e alegria de viver. Oferendar isso ao mundo abarca no\u00e7\u00f5es dilatadas de tempo ao criar entidades que, postas nesse banquete-encruzilhada, v\u00e3o durar muito mais tempo que seu pr\u00f3prio corpo, que os vegetais moldados que constituem partes das esculturas e que o ovo utilizado na conserva\u00e7\u00e3o da vivacidade dos pigmentos na t\u00eampera. Ao reconhecer a perecibilidade do pr\u00f3prio corpo, Diambe sonha em dire\u00e7\u00e3o a uma oferenda mais duradoura em temporalidades que extrapolam certas no\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mateus Nunes<\/p>\n<p class=\"p1\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Sim\u00f5es de Assis, Jardins, apresenta a primeira individual de Diambe, intitulada &#8220;Sensa\u00e7\u00e3o T\u00e9rmica&#8221; em S\u00e3o Paulo. 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