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A investigação das forças naturais.

Sob curadoria de Daniel Donato, Pedro Azaleia exibe “Suspensa Voluta” na Galeria Claraboia, Jardim América, São Paulo, SP.

“Qualquer pista seguida pelo flâneur vai conduzi-lo a um crime”.

Walter Benjamin 

Com a dissolução do sentimento romântico perante a paisagem idílica, os poetas da modernidade despertaram para um alumbramento sombrio diante da paisagem urbana, tal como observa Walter Benjamin em A Paris do Segundo Império em Baudelaire (1938). É no romance policial que essa nova relação com a vida citadina ganha sua forma mais emblemática, ao retratar seus aspectos mais ameaçadores e inquietantes. Nesses textos, a metrópole ergue-se como personagem principal e força motriz dos eventos narrados, não como mero cenário de acontecimentos funestos. O flâneur é a figura que navega entre as fachadas dos edifícios, as galerias, as praças e as calçadas: o homem que se sente em casa na multidão. A cidade passa pelo escrutínio da sua observação a passos lentos, como quem detalha a fisiologia dos espaços e de seus habitantes em busca de pistas dos delitos escondidos. A esse detetive passante reserva-se a tarefa de escavar a imagem de uma cidade perdida na memória coletiva, tal forma se deixa apreender apenas por vestígios estilhaçados e dispersos pelos espaços urbanos.

Essa atmosfera de suspense e tensão romanesca permeia as pinturas recentes de Pedro Azaleia. Em “Suspensa voluta”, as telas reunidas evocam uma ambiência noturna na qual as formas arquitetônicas emergem como ruínas vigilantes, testemunhando com indiferença os acontecimentos ao rés do chão. Em sua altivez, parecem mais nos espreitar do que se entregar à nossa vista. Como um cronista de ruínas, Azaleia dedica-se a seguir os vestígios de um tempo passado, colhidos durante caminhadas pelo centro histórico das cidades, onde se detém nos detalhes ornamentais – volutas, colunas e gradis – de edifícios, muitos deles abandonados, de arquitetura eclética ou barroca. No campo e na floresta, o pintor reencontra essas mesmas formas espirais em pés de maracujá, jiboias ou em certas estruturas fúngicas. 

No ateliê, Azaleia elabora a superfície pictórica por meio de um espatulado denso de diversas camadas de tinta sobre a tela (em média de nove a dez por quadro). Posteriormente, constrói o desenho rasurando a superfície com estilete ou traçando linhas com um uso bastante contido do pincel, sobrepondo imagens arquitetônicas a elementos naturais, em um jogo constante de adição e subtração de matéria. Não há nessa poética um sentimento nostálgico de retorno a uma natureza idílica, mas a investigação das forças naturais no interior da experiência urbana.

Daniel Donato.

Até 14 de novembro.