Artista recupera saberes e narrativas indígenas.

21/set

Nos últimos anos, o Instituto Caldeira, Porto Alegre, RS, vem ampliando seu olhar para a arte, a cultura e as diferentes formas de ocupar e transformar a cidade. Desse movimento nasceram duas iniciativas: Horizontes Urbanos e, em parceria com a Fundação Bienal do Mercosul, surgiu a iniciativa do Espaço Bienal, com o lançamento da primeira grande exposição com a mostra “Fogo de Pátio”, do artista indígena de origem guarani, Xadalu Tupã Jekupé – que também pintou um dos murais do projeto Horizontes Urba

A pesquisa de Xadalu atravessa espiritualidade, memória e história e aborda processos de apagamento cultural no território do Pampa. Em sua produção, o artista recupera saberes e narrativas indígenas para colocá-los em circulação no presente. 

Agora, o fogo volta a ocupar o centro da narrativa dentro da galeria. Mais do que representar uma lembrança ancestral, ele é apresentado como um conhecimento vivo, capaz de produzir relações e imaginar futuros. A proposta dialoga com o projeto Horizontes Urbanos, do Instituto Caldeira, voltado à transformação do 4º Distrito de Porto Alegre e à criação de conexões entre arte, cidade, cultura e inovação.

Antes da inauguração da mostra, Xadalu participa do talk “Inovar a história: tecnologia, memória e outros modos de produzir conhecimento”, ao lado do curador, artista e escritor Aldones Nino. A realização de “Tatá Rupa – Fogo de Pátio” é uma iniciativa apresentada pelo Instituto Caldeira, Fundação Bienal do Mercosul e Ministério da Cultura, em parceria institucional com a Galeria Ecarta.

Até janeiro de 2027.

O Mar de Rosas de Paulo von Poser.

11/set

“Mar de Rosas” celebra os trinta anos da exposição que, em 1996, reuniu pela primeira vez um conjunto de obras dedicado exclusivamente à rosa. Desde então, essa flor tornou-se presença constante na arte e na vida de Paulo von Poser, acompanhando sua produção em desenhos, pinturas, aquarelas, gravuras, esculturas, instalações e performances. A rosa surgiu discretamente nos desenhos realizados entre 1980 e 1985 e apareceu como protagonista em uma série desenvolvida em 1988, publicada no calendário do Museu de Arte Contemporânea no ano seguinte. A partir daí, atravessou inúmeras exposições, ora como elemento central, ora integrada às paisagens, às cidades e às reflexões sobre memória, natureza e espaço urbano.

A exposição “Mar de Rosas”, apresentada em 1996 no Espaço Ox, com curadoria de André Millan e Mariângela Bordon, representou um ponto de inflexão nessa pesquisa. Dela nasceu um universo que se expandiu muito além da pintura, dando origem a uma rara coleção de obras, objetos, fotografias, livros, poemas e referências dedicadas à presença e a história da rosa na cultura brasileira e internacional.

Nas décadas seguintes, esse percurso desdobrou-se em projetos realizados no Brasil e no exterior. As rosas dialogaram com as cidades em “Rosas no Ar” e “Rosas na Terra” (1999), transformaram-se em esculturas transparentes na exposição “Horizontes” (2001), participaram de exposições em Paris e Lima, sobrevoaram São Paulo em um dirigível na mostra “Você Está Aqui” (2006), ganharam escala monumental na escultura “Rosé au Calvaire”, instalada em Saint-Flour, na França (2007), permaneceram presentes em séries dedicadas à paisagem, à arquitetura e à cidade e, em 2012, na exposição “Floração”, apresentada no Museu de Arte Sacra de São Paulo, inspiraram desenhos das rosas barrocas presentes no acervo do Museu, e uma série de “Rosas relicários contemporâneos”. Em 2023, essa longa investigação encontrou uma nova dimensão na exposição “Rosas Brasileiras”, apresentada no Farol Santander, que reuniu a coleção construída pelo artista ao longo de décadas e obras de mais de uma centena de artistas brasileiros, provenientes de acervos públicos e privados, unidos pela presença da rosa.

A atual exposição não pretende ser uma retrospectiva. É uma celebração. Reúne obras de diferentes momentos, escolhidas por Paulo von Poser e pela curadora Flávia Daud, revelando a permanência e a transformação de um mesmo tema ao longo de três décadas. Mais do que uma flor, a rosa tornou-se uma linguagem da alma do artista. Presente nas mais diversas culturas e tradições espirituais, símbolo de beleza, regeneração e mistério, ela permanece como um enigma humano inesgotável. Cada nova obra representa uma tentativa de aproximar-se desse centro simbólico, onde natureza, memória e imaginação se encontram.

Celebrar os trinta anos de “Mar de Rosas” no Clube Atlético Monte Líbano é celebrar um percurso artístico que continua em pleno florescimento.

Intervenção artística inédita.

08/set

O processo de criação também pode fazer parte da experiência do público.

O Instituto Ling, Porto Alegre, RS,  abriu seu espaço para que visitantes acompanhassem a artista paulista Juliana dos Santos enquanto desenvolvia uma obra inédita diretamente em uma das paredes do centro cultural.

Por uma “geografia da ação”: corpo, matéria, território.

Pensar o Brasil a partir de seus agentes artísticos e de suas respectivas regiões pode nos colocar diante de uma complexa teia de interações: a biodiversidade dos nossos biomas e como esses integram as relações entre corpo e território, as manifestações culturais tão próprias de cada lugar que atravessam os procedimentos artísticos e informam como artistas se compreendem no mundo, as diferentes formas como os sistemas das artes se organizam e apresentam possibilidades de trabalho para as comunidades artísticas locais. Diante de toda essa efervescência poética e cultural, tão celebrada pelo projeto Ling Apresenta, esta edição, que ocorrerá ao longo de 2026, destaca a matéria-prima como instância que vem carregada do entrelaçamento entre as questões citadas e a singularidade das mãos, dos territórios, das identidades e das linguagens de quem dela usufrui. O projeto curatorial que responde pela região Sudeste apresenta intervenções de Rubiane Maia (Minas Gerais/Espírito Santo), Advânio Lessa (Minas Gerais), Juliana dos Santos (São Paulo) e Raphaela Melsohn (São Paulo), que evidenciam a matéria-prima como elemento organizador de gestos, de procedimentos, de modos de fazer arte e de inventar linguagens. As trajetórias e processos de criação de Rubiane, Advânio, Juliana e Raphaela são indissociáveis de seus manejos e aprendizados com a matéria-prima. Em suas experimentações, matéria-prima, corpo, contexto e métodos constituem o que podemos chamar, como nos propõe o geógrafo e professor Milton Santos, de uma “geografia da ação”. Assim, vemos o ateliê, os espaços de trabalho, o território poético e o lugar de origem de cada artista referendando-se, de diferentes maneiras, como a matriz de cada “pedaço de matéria”. E a matéria, por sua vez, acontece nos trabalhos como uma fração muito específica de uma realidade social, afetiva, ambiental; como agente mediador de um labor com o lugar onde o trabalho se dá; como mobilizadora de uma busca de sentido estético e de pertencimento. Assim, as intervenções propostas ressaltam como o tempo/espaço de criação é produzido e praticado, numa ação de coesão entre processos de experimentação com a matéria e suas experiências de significação. 

Galciani Neves

Detalhe da exposição Juliana dos Santos: Temporã, realizada na Pinacoteca de São Paulo, em 2025.

Até 03 de outubro. 

O manifesto do Salão de 1954.

04/set

A Pinakotheke, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ,  convida para a abertura da exposição “Revolta em Preto e Branco”, no dia 11 de setembro,  que revisita o histórico Salão Preto e Branco, de 1954, realizado pelo Ministério da Educação, no Palácio Capanema, no Rio de Janeiro. Com curadoria de Shannon Botelho, estudioso do assunto, “Revolta em Preto e Branco” reúne 61 obras de 50 artistas, oito delas que efetivamente participaram da exposição de 1954, e “que hoje podem ser vistas novamente juntas”, destaca Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke: “Natureza-morta”, de Iberê Camargo; “Peixe”, de Tomás Santa Rosa; “Composição”, de Aldo Bonadei; “Triângulo preto”, de Danilo Di Prete; “Luares sobre a cidade negra”, de Antonio Bandeira; “Sem título”, de Ione Saldanha; “Svolvær”, de Frank Schaeffer; e “Acampamento de oleiro”, de Glauco Rodrigues. 

 Na segunda sala, o público verá trabalhos de artistas também signatários do manifesto que originou o Salão de 1954, e outros, com pesquisas estéticas semelhantes. Entre esses grandes nomes, há obras de Portinari a Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Fayga Ostrower. Uma terceira sala traz a questão para o presente, com trabalhos de artistas que continuam a tratar da relação entre arte, política e meios de produção, entre eles, Amilcar de Castro, Antonio Dias, Andréa Hygino, Carlos Zílio, Elizabeth Jobim, Germana Monte-Mór, Iole de Freitas, Bruno Dunley e a dupla Faixa Protesta, formada por Gustavo Speridião e Leandro Barboza.

Estarão ainda na exposição documentos, fotografias e reproduções de artigos de jornais publicados em 1954, e será lançado pela Pinakotheke Editora o livro “Revolta em Preto e Branco”, com 128 páginas, e textos de Shannon Botelho e Luiza Interlenghi, que foi assistente de Glória Ferreira na primeira revisita crítica ao Salão de 1954, realizada em 1985, pelo Instituto Nacional de Artes Plásticas da Funarte, como Sala Especial do 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Junto com os ensaios, o livro traz documentos de imprensa do período, guardados no Centro de Documentação e Pesquisa da Funarte, e a crônica que Eneida de Moraes publicou no “Diário de Notícias” em 18 de maio de 1954, com o pedido: “vá ver o Salão, sua presença dirá aos nossos pintores que eles não estão sós”.

Shannon Botelho dedica “Revolta em Preto e Branco” à Glória Ferreira: “Esta exposição é também uma expressão de reconhecimento e apreço por Glória Ferreira (1947-2022), cuja pesquisa dedicada ao Salão Preto e Branco foi fundamental para preservar, ampliar e inscrever sua memória na história da arte brasileira. Foi por meio de uma de suas publicações que tive meu primeiro contato com o Salão e, anos mais tarde, tive a honra de tê-la como coorientadora de minha pesquisa de mestrado, quando pudemos estabelecer muitas trocas em torno de seu trabalho e, posteriormente, da pesquisa e da remontagem do Salão. Glória dedicou-se com rigor, generosidade e persistência a reunir documentos, testemunhos e vestígios, fazendo da pesquisa também uma forma de cuidado com a memória e de construção de um legado para a História da Arte no Brasil. É, portanto, com profundo respeito, admiração e gratidão que esta exposição reconhece sua contribuição e mantém presente, entre nós, a memória de seu trabalho”.

Contexto Histórico do Salão de 1954: O Protesto dos Artistas.

Em seu texto no livro, Shannon Botelho descreve o cenário político e artístico que motivou o Salão de 1954, que ficou posteriormente conhecido como Salão Preto e Branco. “A década de 1950 marcou um momento de inflexão para as artes visuais no Brasil. A consolidação de museus dedicados à arte moderna – MAM-RJ e MAM-SP – a criação da Bienal de São Paulo, a ampliação da crítica especializada e a redefinição das políticas culturais contribuíram para transformar profundamente o sistema artístico”.

À época da realização do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, o Brasil vivia “a retomada de um projeto nacional-desenvolvimentista que atribuía ao Estado um papel central na condução do crescimento econômico”, implementada por Getúlio Vargas, então eleito presidente da república.”A ampliação da infraestrutura, os investimentos na indústria de base e a criação de instrumentos voltados ao financiamento e à expansão da economia nacional expressavam uma estratégia que buscava reduzir a dependência externa e acelerar o processo de industrialização brasileira”, observa o curador. O governo passou a “adotar mecanismos cada vez mais rigorosos de controle das importações. Nesse contexto, a Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil (Cexim) assumiu papel decisivo na definição dos produtos considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional”.

Na hierarquia dos produtos e máquinas considerados essenciais, ficaram de fora “os materiais destinados à produção artística – tintas, pigmentos, pincéis, telas, papéis especiais e vernizes, em grande parte importados”.

“À medida que a crise se aprofundava, tornava-se evidente que o problema deixava de ser a dificuldade enfrentada por determinados artistas e assumia uma dimensão coletiva, mobilizando pintores, gravadores, escultores, críticos e entidades representativas em torno de uma reivindicação comum: a revisão dos critérios de importação aplicados aos materiais artísticos. Da insatisfação da classe, frente às dificuldades em produzir seus trabalhos, nascia o projeto de executar um salão inteiramente em branco e preto como forma de protesto. Liderados por Iberê Camargo, Milton Dacosta e Djanira, os artistas publicaram o manifesto político do III Salão Nacional de Arte Moderna. Os organizadores do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, foram Iberê Camargo, Bruno Giorgi, Oswaldo Goeldi e Tomás Santa Rosa. O Júri de Seleção e Premiação foi formado por Milton Dacosta e Djanira.

Djanira teve grande importância naquele Salão ao defender a inclusão do “Quadro-objeto”, de Lygia Clark. Em entrevista dada na abertura da exposição, Djanira disse: “O Salão Nacional de Arte Moderna é uma mostra de artistas de vanguarda, onde tem lugar a exposição de resultados de pesquisas plásticas as mais variadas. (…) Dei minha aprovação a que fossem mostradas as molduras, intituladas pela autora “Quadro-objeto”. Como protesto contra a falta de telas, considero um trabalho original. E como pesquisa, manifesto meus respeitos”.

Expositores da Sala 1.

Iberê Camargo, Tomás Santa Rosa Júnior, Aldo Bonadei, Danilo Di Prete, Antonio Bandeira, Ione Saldanha, Frank Schaeffer, Glauco Rodrigues, Milton Dacosta, Djanira Da Motta E Silva, Oswaldo Goeldi, Bruno Giorgi.

Expositores da Sala 2.

Emiliano Di Cavalcanti, Candido Portinari, Tomás Santa Rosa Júnior, Samson Flexor, Sergio Camargo, Eugênio De Proença Sigaud, Maria Leontina, Carybé, Anita Malfatti, Tarsila Do Amaral, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica, Ivan Serpa, Lothar Charoux, Waldemar Cordeiro, Aluísio Carvão, Frans Krajcberg, Arthur Luiz Piza, Aldemir Martins, Joaquim Tenreiro, Anna Letycia Quadros, Fayga Ostrower, Roberto Burle Marx, Franz Weissmann, Ubi Bava, Octávio Ferreira De Araújo, Sonia Ebling.

Expositores da  Sala 3. 

Faixa Protesto-Gustavo Speridião, E Leandro Barboza, Carlos Zilio, Amilcar De Castro, Antonio Dias, Bruno Dunley, Elizabeth Jobim, Andréa Hygino, Germana Monte-Mór, Maria-Carmen Perlingeiro, Iole De Freitas. 

Até 21 de novembro. 

Um panorama da obra de Tatiana Blass.

28/ago

Ministério da Cultura, Nubank e Instituto Tomie Ohtake apresentam Tatiana Blass – Contrarregra, com curadoria de Ana Roman e Lahayda Mamani Poma. A mostra reúne cerca de 50 obras produzidas entre 2008 e 2026, entre pinturas, esculturas, instalações, vídeos e um conjunto de trabalhos inéditos, oferecendo um panorama da produção da artista e de sua investigação sobre matéria, espaço, luz e tempo.

O título da exposição faz referência à figura do contrarregra, responsável por organizar os bastidores e criar as condições para que a cena aconteça sem ocupar o centro do palco. A partir dessa ideia, a mostra aproxima a prática da artista à lógica teatral ao apresentar obras que deslocam a atenção do resultado para os processos que tornam a imagem possível. Embora tenha a pintura como ponto de partida, sua produção se expande para diferentes linguagens – como esculturas, instalações, vídeos, performances – e materiais, como vidro, bronze, cera, cerâmica, entre outros.

Entre os destaques da exposição estão um núcleo significativo de obras inéditas, desenvolvido especialmente para o Instituto Tomie Ohtake, e trabalhos de diferentes momentos da trajetória da artista. As novas pinturas da série “Contraluz”, realizadas sobre vidro, incorporam a arquitetura, a incidência da luz e o deslocamento do visitante à própria imagem, enquanto obras das séries “Metade da fala no chão”, “Quebra-quebra”, “Nó”, “Noite-dia” e “Contrarregra” evidenciam o diálogo que a artista propõe entre pintura, escultura, som e palavra.

A transformação da matéria ocupa um lugar central na mostra. Em diferentes trabalhos, materiais como cera, vidro, bronze e cerâmica permanecem em constante estado de mudança, incorporando o tempo como parte da própria obra. Em vez de apresentar formas definitivas, Tatiana Blass cria trabalhos que se alteram pela ação da luz, do calor, da gravidade ou da presença do público, fazendo da transformação um elemento constitutivo da experiência expositiva.

Desenvolvida em diálogo com a artista, a expografia transforma as salas expositivas em um espaço de encenação. A montagem incorpora dois palcos, que passam a integrar o percurso do público e estabelecem relações diretas com as obras. Mais do que elementos cenográficos, esses dispositivos evidenciam a ideia de bastidor que atravessa toda a exposição. A mostra traz ainda obras inéditas que resultam do encontro entre Tatiana Blass e o músico Kiko Dinucci. A partir de pinturas recentes da artista, os dois iniciaram um diálogo que resultou na capa do novo álbum do compositor e, posteriormente, em uma série de trabalhos desenvolvidos especialmente para a exposição. 

Pesquisas sobre o espaço e seu entorno.

CHÃO e|and CHAOS + AQUI, de João Modé, abriu no porão do Museu Universitário Solar Grandjean de Montigny, na PUC-Rio, como parte da mostra Respiração, coletiva que inaugura a ART CUT’26, a Trienal de Arte das Universidades Católicas. Com o tema Exercícios de Empatia e curadoria-chefe de Nuno Crespo, Respiração conta com a cocuradoria de Luiz Camillo Osorio e Carlos Eduardo Félix da Costa e é organizada em três núcleos: Suspirar, Respirar e Conspirar.

Criada especialmente para a Trienal, CHÃO e|and CHAOS + AQUI parte das características físicas e da história do Solar, articulando elementos de sua arquitetura a pesquisas sobre o espaço e seu entorno. Entre as intervenções, Modé reveste parte do piso com argila, material amplamente utilizado na construção, em intervenções sutis que revelam detalhes do espaço e dialogam com seus arcos, o pé-direito, as dimensões reduzidas das salas e a umidade. A ocupação de Modé também incorpora objetos provenientes da pesquisa histórica do Solar, como um caramanchão de bambu, e inclui a projeção de AQUI.

AQUI, em processo desde 2009, é um filme autônomo projetado dentro da exposição. O trabalho reúne documentação fotográfica de viagens e deslocamentos realizados por Modé desde o fim dos anos 1980 e reflete sobre as relações entre fotografia, espaço, tempo e memória. A ênfase está nos lugares, em suas dimensões micro e macro, como espaços de memória afetiva e de uma geografia poética. Não aparecem pessoas; algumas vezes, apenas vozes. Nas palavras do artista, “O projeto AQUI pretende questionar o papel da fotografia na formação de uma memória espacial e temporal.” O trabalho recebeu o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2012.

A exposição fica em cartaz até 15 de novembro, com entrada gratuita, no Museu Universitário Solar Grandjean de Montigny, PUC-Rio.

O filme AQUI está disponível na íntegra para assistir online.

O Clube dos Colecionadores.

27/ago

O Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta uma curadoria especial em seu estande na feira Rotas, marcando dois grandes momentos de sua trajetória. 

A edição 2026/2027 do Clube de Colecionadores celebra as quatro décadas do programa com tiragens exclusivas de 70 exemplares de León Ferrari, Mayara Ferrão e Rodrigo Cass. Refletindo a diversidade e a linha curatorial do MAM, a nova edição articula diferentes gerações, linguagens e debates contemporâneos. León Ferrari, figura central da arte latino-americana, cuja produção gráfica e experimental desenvolvida durante seu exílio em São Paulo será tema de uma grande exposição no museu em 2027. A dimensão sensível e metafísica surge na pesquisa de Rodrigo Cass, artista participante do 39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito. Já Mayara Ferrão, a participante mais jovem da edição, articula inteligência artificial e ancestralidade para criar imagens dissidentes que desafiam padrões hegemônicos e resgatam narrativas da tradição afro-brasileira. 

O estande se completa com o lançamento do múltiplo de Carmela Gross, desenvolvido especialmente para comemorar a reinauguração da sede do MAM São Paulo. A edição intitulada Brasil à mão livre é um desdobramento da obra homônima comissionada para o novo restaurante do museu e reinventa o mapa do país valendo-se da liberdade da arte. Nela, o território surge deformado, com estados desfigurados, ausentes ou achatados. Banhada a ouro, a obra exala um brilho sedutor que, em contrapartida, aponta para a tragédia de considerar o território apenas como fonte de extração. Para Cauê Alves, curador-chefe do museu, “A artista nos faz refletir sobre as contradições de tratarmos o mundo não como um organismo vivo, mas como um grande depósito de mercadorias que podem ser esgotadas até o limite e sem consequências para todos”.

Ao longo de quatro décadas, o Clube de Colecionadores consolidou-se como um pilar fundamental no fomento à arte contemporânea e na expansão do acervo do MAM. Mais do que incentivar o colecionismo, o programa impulsiona a criação artística ao reunir investigações conceituais e técnicas de grande relevância, um legado que se renova e pode ser conferido de perto no estande do museu durante a feira Rotas. 

Um novo olhar.

O Ministério da Cultura e a Fundação Vera Chaves Barcellos convidam para a abertura da exposição coletiva “Uma Força Estranha”, que será inaugurada no dia 29 de agosto de 2026, sábado, das 11h às 17h, na Sala dos Pomares, em Viamão, RS.
Dando continuidade à programação expositiva de 2026, dedicada à produção de artistas mulheres, “Uma Força Estranha” traz um novo olhar para o Acervo Artístico da Fundação, reunindo 53 obras de 36 artistas brasileiras e internacionais. O conjunto contempla trabalhos em desenho, pintura, gravura,  fotografia, vídeo, objeto, instalação, entre outras técnicas e linguagens. A organização é de Vera Chaves Barcellos, com expografia de Arthur Bonfim e textos de Ana Albani de Carvalho

Nas palavras de Vera Chaves Barcellos:
“Uma Força Estranha se inspira em uma das obras primas da música popular brasileira de todos os tempos, a criação de 1978, de Caetano Veloso, eternizada pela incomparável voz de Gal Costa. Em Força Estranha, Caetano traça poeticamente a defesa da criação e da linguagem artística como uma força incontida que impulsiona o/a artista a criar de forma verdadeira e atemporal. Aqui, podemos ver exemplos dessa força estranha nessas verdades expressas em suas mais diversas formas, nas obras deste conjunto de mulheres.”

Artistas participantes.

Regina Silveira, Lia Menna Barreto, Maria Lídia Magliani, Gisela Waetge, Wanda Pimentel, Karin Lambrecht, Marina Camargo, Maria Lucia Cattani, Débora Bolzsoni, Teresa Poester, Helena D’Avila, Fernanda Chemale, Romy Pocztaruk, Dione Veiga Vieira, Ío (Laura Cattani e Munir Klamt), Paula Krause, Brígida Baltar, Lurdi Blauth, Ananda Kuhn, Elaine Tedesco,  Thereza Miranda Alves, Ana Maria Tavares, Lily Hwa, Suely Anna Kelling, Vera Chaves Barcellos, Mara Alvares, Sarah Bliss, Mariana Silva da Silva, Virginia de Medeiros, Heloisa Schneiders da Silva, Carla Borba, Begoña Egurbide, Monika Funke Stern, Marlies Ritter, Teresa Puppo, Francesca Llopis.

Paço Imperial realiza seminário.

13/ago

Evento gratuito acontece nos dias 21 e 22 de agosto, com a participação de artistas, curadores e pesquisadores, e integra a exposição “Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir”.

O seminário contará com a participação de artistas, curadores e pesquisadores, como as curadoras e professoras Izabela Pucu, Luiza Interlenghi e Marisa Flórido Cesar; o historiador, sociólogo e pesquisador Alexandre Barbalho; os artistas Alan Adi, Simone Barreto e Dinho Araujo; a psicóloga, professora e arte-educadora Mariana Bessa e a artista, gestora cultural, educadora e curadora Samantha Moreira.

O seminário terá duas rodas de conversa, uma no dia 21 e outra no dia 22 de agosto, ambas com entrada gratuita. A primeira será “Nordestes e pesquisas em trânsito”, no dia 21 de agosto, sexta-feira, às 16h, que propõe um espaço de diálogo sobre a região e a sua produção a partir do olhar de Izabela Pucu, Luiza Interlenghi, Marisa Flórido, Alexandre Barbalho e Alan Adi. Mais do que pensar o Nordeste como uma unidade homogênea, a ideia é reconhecer o que emerge de diferentes territórios, experiências, temporalidades e modos de produzir conhecimento. Cada pesquisa constrói, desloca ou tenciona determinadas imagens e sentidos atribuídos à região. Assim, a roda busca abrir espaço e alargar conceitos para que diferentes vozes e experiências revelem as diferenças, as contradições, os deslocamentos e as reinvenções. Nesse movimento, a produção artística também se apresenta como campo de criação e disputa, capaz de inventar outras imagens e possibilidades para os Nordestes. Entre pesquisas, produções e experiências, a arte aparece como espaço de trânsito.

No dia 22 de agosto, às 15h, será realizada a conversa “Territórios, imaginação e educação – processos educativos”, que propõe um encontro entre artistas que, em diferentes edições do projeto, também participaram da construção e da experiência dos processos educativos. A partir dessas vivências, a conversa busca refletir sobre as relações entre arte, território e educação, compreendendo o educativo não apenas como mediação, mas como espaço de encontro, escuta, experimentação e produção coletiva de sentidos. As experiências dos participantes permitem pensar como diferentes territórios atravessam as práticas artísticas e educativas e como a imaginação pode criar outras formas de perceber, ocupar e narrar esses espaços. Nesse percurso, a roda pretende compartilhar experiências e pensar coletivamente os caminhos possíveis para processos educativos que sejam sensíveis às particularidades dos territórios e às múltiplas formas de produzir conhecimento.

A exposição “Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir” pode ser vista até o dia 06 de setembro. Com curadoria de Jacqueline de Medeiros e curadoria adjunta de Cecília Gallindo Cornélio, a mostra apresenta 216 obras de 110 artistas da região Nordeste do Brasil, em uma itinerância iniciada em 2023 no Recife, que já passou por Fortaleza, Natal, São Luís, Teresina, João Pessoa e Aracaju até chegar ao Rio de Janeiro.

A trajetória de Efrain Almeida.

07/ago

A Fortes D’Aloia & Gabriel apresenta “O homem nu”, a primeira mostra panorâmica da obra de Efrain Almeida (1964 – 2024) na galeria desde seu falecimento. Reunindo trabalhos produzidos entre 1995 e 2024, a exposição oferece uma vista ampla de sua trajetória e propõe uma leitura de sua produção a partir das relações entre corpo, espiritualidade e desejo. Nascido em Boa Viagem, Ceará, o artista desenvolveu uma obra profundamente marcada pelos materiais, pelos saberes e pelas tradições culturais da região do Cariri, transitando entre escultura, instalação, pintura, bordado e aquarela. Ao longo de quase três décadas, articulou diferentes geografias, crenças, identidades e tradições materiais por meio de uma linguagem visual na qual madeira, tecido, bronze e papel tornam-se suportes para experiências ao mesmo tempo íntimas e universais.

A exposição é centrada nas esculturas de Efraim Almeida, ao lado de aquarelas, pinturas a óleo e bordados. Entre os motivos recorrentes estão corpos e fragmentos do corpo, vestimentas, autorretratos e animais nativos do Nordeste brasileiro, especialmente aves.  Em sua obra, referências ao imaginário católico convivem com a sensualidade do corpo nu, que adquire dimensões tanto eróticas quanto sagradas. Em O Outsider (2017), um autorretrato bordado surge sobre uma camisa de seda translúcida, cuja transparência e aparente leveza reforçam uma recorrente sensação de transitoriedade, onde o rosto aparece como um emblema num suporte esvoaçante. 

Embora profundamente enraizada nas experiências, paisagens e tradições do interior do Ceará, a obra de Almeida nunca se restringe ao registro autobiográfico ou regional. Sua produção transforma referências locais em imagens capazes de evocar experiências universais, fazendo da memória, da espiritualidade, da fragilidade do corpo e do desejo questões compartilhadas. Essa passagem entre o íntimo e o coletivo, entre o local e o universal, encontra paralelo na própria escala de suas esculturas: executadas com notável precisão e frequentemente em pequenas dimensões, elas estabelecem uma relação expansiva com o espaço expositivo, reorganizando a percepção do ambiente e exigindo do espectador uma aproximação atenta. Uma atenção semelhante se estende às representações de animais, observadas com delicadeza e frequentemente apresentadas de modo deslocado na arquitetura. Entre elas, “Lázaro” (2005), escultura em madeira de um cão que estende a língua em direção à parede da galeria, faz referência à figura bíblica do mendigo cujas feridas eram lambidas apenas por cães, condensando em um único gesto dimensões de cuidado, abandono e ternura que atravessam toda a obra do artista.

A exposição é acompanhada por um texto de Márcia Fortes.

Até 24 de outubro.