O modernista Portinari no Masp.

15/jun

A exposição “Portinari Popular”, no Masp, Avenida Paulista, São Paulo, SP, revela o olhar branco sob o corpo negro. Retirantes, cangaceiros, sambistas e moradores do morro estão em alguns dos retratos do artista plástico paulista. Um dos principais representantes da escola modernista no Brasil, Cândido Portinari (1903-1962) retrata um Brasil construído pela mão de obra negra, já destacada à margem da sociedade por decorrência do processo escravagista, mas que vê no trabalho sua redenção. O acervo, de cerca de 50 obras, contém obras do próprio MASP, de colecionadores e de outros museus do Brasil e do Mundo. 

As obras variam entre a escassez de água e de vida marcada pelas formas deformadas dos retirantes, o trabalho nas plantações, a vida nas favelas e nas periferias. Algumas imagens, hoje consolidadas como estereótipos da Negritude, tiveram um papel importante naquele período, no qual os negros e negras eram totalmente invisibilizados nas obras artísticas ou apareciam ainda como figuras subalternas. 

Para Renata Felinto, que é artista plástica e doutora em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de São Paulo, Portinari “deu visibilidade ao desejo do Estado Vargas de apagar as diferenças sociais entre negros, brancos e afrodescendentes de forma geral”. Segundo ela, a principal ferramenta usada para cumprir esse propósito foi a representação do negro no trabalho, a exemplo do “Lavrador de Café”. “Portinari incorporou o conceito de pés e mãos exagerados objetivando ressaltar a importância desses membros na labuta diária, no ganha-pão, no enobrecimento dos que plantam e colhem de sol a sol”, analisa.

As mulheres negras aparecem de várias formas: são mulheres grandes, segurando latas de água, baianas descendo o morro, ou simplesmente andando, como a “Mulata de vestido branco”, mulher sem face que caminha ao vento. Com relação à vida urbana, Portinari pintou mais de uma vez as favelas, cujas representações são coloridas e influenciadas pelo Cubismo. Em uma delas, vê-se uma família negra onde o homem toca violão no pé do morro. Em outra, vê-se um homem negro, boêmio, tocando flauta na rua. 

Renata Felinto considera que essas representações que se pretendem elogiosas é comum. “Figuras assim que tendem a estigmatizar negros e negras são recorrentes na produção do período de 1920 a 1960 de alguns artistas modernistas”, conta. Apesar disso, o artista plástico Moisés Patrício acredita que a obra de Portinari cumpre um papel fundamental de revelar as origens do povo brasileiro. “Com sua obra, ele aponta que existe uma nação chamada Brasil, que foi construída por determinadas mãos, por um determinado cenário, por algumas mortes e dores”, considera.

Moisés Patrício entende ainda que Portinari foi um grande observador da cultura brasileira marcada por influências nordestinas, rurais, indígenas e negras. “Ele tentou dar visibilidade para uma parcela da população que sempre foi considera desimportante, excluída, e faz um resgate de elementos simples como a cabaça, a pipa, o baú, que surgem em muitas imagens, dando um ar misterioso às obras”, pontua.

A exposição vai até 15 de novembro e é gratuita todas as terças-feiras.

Fonte: Brasil de Fato.

Três artistas na Almeida & Dale.

12/jun

A exposição “Matéria Escura” reúne obras de Erika Malzoni, Jacque Faus e Manuella Silveira sob curadoria de Ana Roman, no espaço da Almeida & Dale no número 1430 da rua Fradique Coutinho, Vila Madalena, São Paulo, SP.

A partir das obras das três artistas, a curadoria propõe reflexões sobre a instabilidade e a constante mutação da matéria e das imagens, oferecendo um contraponto à hipervisibilidade de nossos tempos.

A curadora Ana Roman se inspira nos estudos da astrônoma estadunidense Vera Rubin, que descobriu a matéria escura – uma forma invisível de matéria que não emite nem reflete luz, mas cuja existência é percebida pelos efeitos gravitacionais que exerce sobre galáxias e estruturas do universo – para formular a exposição que investiga como a materialidade se anuncia ou dissimula e o que ainda escapa à classificação e à interpretação. Em oposição à tradição moderna, iniciada com o Iluminismo, que se resvala na objetividade científica para dominar e esclarecer o mundo, na mostra Ana Roman busca os limites dessa compreensão a partir do desconhecido ou inexato exposto na pesquisa de Vera Rubin.

“Esta exposição tem como ponto de partida esse lugar das incertezas. Erika Malzoni, Jacque Faus e Manuella Silveira chegam a ele por caminhos distintos, mas todas elas tensionam, à sua maneira, a fronteira entre o que aparece e o que sustenta o aparecimento, entre o dentro e o fora das coisas, entre o que a matéria mostra de si mesma e o que ela guarda”, descreve a curadora.

Em “Matéria Escura”, as obras se aproximam, portanto, não por uma semelhança formal ou de linguagem, mas por reverberarem de diferentes modos a impossibilidade de domínio e interpretação completa da matéria.

Esculturas e relevos de Anderson Borba.

11/jun

Fortes D’Aloia & Gabriel, FDAG Barra Funda, São Paulo, SP, apresenta “Fugido”, exposição de Anderson Borba que reúne esculturas e relevos produzidos a partir de materiais orgânicos, industriais e encontrados, como madeira, pedra, bronze, argila, papel e alumínio. Dispostas em cortejo ao longo da galeria, as obras assumem a forma de corpos antropomórficos híbridos, marcados por uma fisicalidade instável e por referências que transitam entre formas ancestrais e imaginários extraterrestres. A montagem confere às esculturas uma dimensão ritualística e conspiratória, como se as figuras estivessem reunidas em cerimônia, procissão ou assembleia secreta. Relacionando-se entre si como partes de um organismo maior, as obras ativam uma potência animista por meio da interação entre matéria, gesto e presença abstrata.

Em “Fugido”, Anderson Borba apresenta um conjunto de esculturas e trabalhos de parede que aprofunda seu interesse por formas desviantes, corpos em mutação e narrativas não lineares. O título da exposição evoca deslocamento, fuga e transformação, atravessando questões ligadas à migração, à ancestralidade e à metamorfose da matéria. Entre estruturas de caráter brutalista e composições altamente táteis, as obras constroem um ambiente em que referências históricas, ficcionais e existenciais coexistem em permanente tensão.

Até 1º de agosto. 

TAGS: Anderson Borba, Bernardo José de Souza, Fortes D’Aloia & Gabriel, FDAG Barra Funda, São Paulo, SP, apresenta “Fugido”, exposição de Anderson Borba que reúne esculturas e relevos produzidos a partir de materiais orgânicos, industriais e encontrados, como madeira, pedra, bronze, argila, papel e alumínio.

As pinturas de Rebecca Watson Horn.

A Fortes D’Aloia & Gabriel FDAG Barra Funda, apresenta “A palavra errada”, primeira exposição de Rebecca Watson Horn na galeria. Produzidos integralmente em São Paulo, os trabalhos apresentados resultam de um período de permanência da artista na cidade, durante o qual absorveu ritmos, atmosferas e impressões que atravessam o conjunto da mostra. A exposição reúne as maiores pinturas realizadas por Rebecca Watson Horn até o momento, além de uma série de trabalhos têxteis verticais.

As pinturas de Rebecca Watson Horn são construídas a partir de camadas de tinta a óleo aplicadas sobre juta montada sobre tela, combinação de materiais que produz superfícies densas, marcadas por acidentes, texturas e uma forte dimensão tátil. Em uma paleta que transita entre vermelhos profundos, verdes terrosos, amarelos luminosos, cinzas esverdeados e tons rosados, formas alongadas e campos cromáticos se expandem acompanhando a trama do tecido, incorporando sua estrutura à própria composição.

Ao manipular vestígios da linguagem, Watson Horn cria situações em que o sentido se acumula e se desfaz continuamente. O olhar é convidado a vagar pela superfície ou a se deter em determinados trechos, como se acompanhasse oscilações entre pensamento e sensação, entre a fluidez da imaginação e a materialidade da pintura. Suas composições funcionam como registros visuais de estados perceptivos, articulando ritmos, memórias e associações que resistem à interpretação imediata.

Sobre a artista.

Nascida em Boston e radicada em Nova York, Rebecca Watson Horn (1981) desenvolve uma prática centrada na pintura e no têxtil, investigando as relações entre linguagem, abstração e materialidade. Entre suas exposições individuais recentes estão Sono, na Villa di Geggiano, em Siena, Itália; The Secret Life of Vowels, na Emanuela Campoli, em Paris; Sigils, na Auroras, em São Paulo; Letters as such, na Deli Gallery, em Nova York; Rebecca Watson Horn, na White Columns, em Nova York; e Rub It In, na Soloway, no Brooklyn. Seu trabalho também integrou exposições coletivas como A Study in Form (Chapter Two), com curadoria de Arden Wohl, na James Fuentes, Nova York; Always in my room bc I put effort into it & I love the vibe of my lights, na Starr Suites, Brooklyn; The Practice of Everyday Life, na Derosia, Nova York; JAG Projects at Forland, com curadoria de Jesse Aran Greenberg, em Catskill, Nova York; e Pure Joy, com curadoria de Chella Man, na 1969 Gallery, Nova York.

Até 1º de agosto.

Exposição de Arjan Martins na Itália.

10/jun

A Gentil Carioca anuncia “O Estrangeiro. 35º30’54” N, 12º34’48” E”, primeira exposição individual de Arjan Martins na Itália, em cartaz na Fondazione ICA Milano, com curadoria de Alberto Salvadori até 24 de julho.

O título da exposição faz referência às coordenadas geográficas da ilha de Lampedusa, um ponto emblemático das migrações contemporâneas no Mediterrâneo. Reunindo um conjunto significativo de pinturas recentes, Arjan Martins amplia sua investigação sobre migração, diáspora africana e os legados persistentes do colonialismo.

Ao longo das obras, o Oceano Atlântico surge como um arquivo vivo, onde histórias de deslocamento, trocas e resistência continuam reverberando no presente. Cartografias, embarcações, instrumentos de navegação, corpos e paisagens compõem narrativas visuais que aproximam memória e imaginação, propondo uma reflexão sobre pertencimento, circulação e representação.

Solo show de Chico da Silva.

09/jun

Abertura no Nottingham Contemporâneo – Chico da Silva (Chico da Silva: And the soul is for the birds). Em cartaz até 06 de setembro, a Nottingham Contemporary, London, Inglaterra, apresenta a primeira exposição individual institucional europeia do artista brasileiro autodidata Francisco da Silva, conhecido como Chico da Silva.

Reunindo obras seminais criadas ao longo da vida do artista, a exposição explora o universo visual singular de Chico da Silva – onde a mitologia, o folclore e a imaginação convergem em cenas vívidas de criaturas fantásticas, paisagens cósmicas e mundos interligados.

Celebrando a contribuição e o legado duradouro de Chico da Silva dentro da prática artística indígena contemporânea no Brasil, a exposição também revisita as complexidades envolvendo a autoria, a autenticidade e sua prática coletiva de estúdio, a Escola Pirambu.

A Temporada de Cultura Reino Unido/Brasil 2025-26 é um intercâmbio cultural de um ano entre os dois países que mostra os diversos e vibrantes setores de artes de ambas as nações. Marca 200 anos de relações diplomáticas e foi projetado para fortalecer e construir conexões culturais entre o Reino Unido e o Brasil. É uma iniciativa conjunta entre o British Council e o Instituto Brasileiro Guimarães Rosa (IGR). O programa artístico em ambos os países engloba teatro, cinema, dança, música, literatura, artes visuais e design e apresenta uma série de palestras e conferências acadêmicas.

As astrofotografias de Fredy Vieira.

08/jun

A contemplação do céu noturno, a passagem do tempo e a relação entre o ser humano e o cosmos são os temas centrais da exposição “Ancestral: Luzes do Infinito”, do fotógrafo e artista visual Fredy Vieira aberta ao público desde o dia 5 de junho em Cambará do Sul, RS. A mostra reúne imagens da Via Láctea, constelações e paisagens noturnas registradas principalmente nos Campos de Cima da Serra e em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. As fotografias convidam o visitante a uma experiência de contemplação e reflexão sobre o tempo, a memória e a ancestralidade presentes na luz das estrelas.

Inspirada pela busca de alcançar aquilo que não pode ser tocado, a exposição propõe um encontro entre a escala humana e a dimensão do Universo. Cada imagem resulta da convergência entre o instante do registro fotográfico e o tempo percorrido pela luz dos astros até chegar à Terra, transformando a fotografia em uma ponte entre passado e presente.

Ancestral

é o desejo de alcançar o que não se pode ver. É a tentativa de materializar o intangível, de tocar aquilo que permanece distante, suspenso entre o mistério e a imaginação. As estrelas atravessam todos os registros de Fredy Vieira. Não como objeto, mas como busca. Uma insistência em capturar o céu, em guardar o que, por natureza, escapa. Nessas imagens, a fluidez da paisagem encontra a permanência aparente do cosmos. Aparente porque a luz das estrelas também é passado. O que vemos já aconteceu. Cada brilho é uma lembrança viajando através do tempo. Trinta segundos de exposição. Anos, séculos ou milênios de viagem. Entre esses dois extremos nasce a fotografia. Talvez contemplar as estrelas seja uma forma de enfrentar nossa própria finitude. Um gesto antigo de quem procura compreender não apenas o universo ancestral que nos cerca, mas também aquilo que nos antecede e nos constitui. Olhar para o céu é olhar para o tempo, é olhar para dentro. E contemplar estas imagens é habitar, por um instante, esse encontro entre a imensidão do cosmos e a breve experiência humana.

“Dada a vastidão do espaço e a imensidão do tempo, é uma alegria compartilhar um planeta e uma época com Annie.”

Carl Sagan

Sobre o artista.

Fotojornalista, astrofotógrafo e artista visual, Fredy Vieira nasceu em Porto Alegre, RS, em 1976. Cursou Jornalismo na Unisinos e é formado em Fotografia Digital pela ESPM. Ao longo de sua trajetória, atuou em veículos de comunicação e agências nacionais e internacionais de fotografia, recebeu o Prêmio Press de Fotografia em 2016 e 2018 e foi cofundador da primeira Feira da Fotografia Artística de Porto Alegre. Em “Ancestral: Luzes do Infinito”, o artista aprofunda sua investigação sobre a paisagem noturna e os vínculos que unem Natureza, Tempo e Memória, convidando o público a habitar, por alguns instantes, o encontro entre a imensidão do cosmos e a experiência humana.

A continuidade de um pensamento visual.

A Cerrado, Brasília, DF, apresenta “Uma continuidade como respiro”, exposição de Claudio Tozzi que reúne mais de vinte obras do artista, entre pinturas e esculturas, realizadas entre 1963 e 2026. 

Com curadoria de Cristiano Raimondi, a mostra propõe um percurso que evidencia a permanência de um mesmo campo de investigação ao longo de mais de seis décadas de produção. Em vez de uma leitura retrospectiva, a exposição acompanha a continuidade de um pensamento visual que se transforma constantemente sem perder sua direção. 

Das obras históricas dos anos 1960 aos trabalhos recentes, emergem questões que atravessam toda a trajetória do artista: a fragmentação da imagem, a relação entre percepção e estrutura e a presença de uma dimensão política inscrita na própria construção visual. 

Até 25 de julho.

A linguagem singular de Gilberto Salvador.

Ao longo de seis décadas, Gilberto Salvador constrói uma obra marcada pelo confronto entre rigor geométrico e impulso orgânico. Essa tensão, presente desde seus primeiros trabalhos, orienta “Geometria Visceral”, individual que a Galeria Mayer Mizrahi, Jardim Paulista, São Paulo, SP, inaugura no dia 15 de junho, sob curadoria de Denise Mattar.

Reunindo pinturas, relevos e composições produzidas entre 2021 e 2025, a mostra apresenta um recorte significativo do conjunto exibido recentemente no Paço Imperial do Rio de Janeiro. Em trabalhos que atravessam pintura, escultura e construção espacial, Gilberto Salvador articula planos recortados, transparências, cor e matéria em composições que investigam equilíbrio, deslocamento e instabilidade.

Ao longo de sua trajetória, o artista desenvolveu uma linguagem singular dentro da arte brasileira. “Na obra de Gilberto Salvador, o orgânico encontra o inorgânico em um campo contínuo de energia”, observa Denise Mattar. A definição atravessa o núcleo apresentado na galeria, onde estruturas geométricas parecem deslocar-se, curvar-se ou expandir-se diante da ação da cor e da matéria.

“O que eu tento efetivamente é fazer uma obra que tenha força própria e que não se prenda a uma utilidade racional, mas sim a uma utilidade emocional”, afirma Gilberto Salvador. Em outro momento, o artista resume uma dimensão central de sua pesquisa: “A arte é como o amor: ou você vive ou não vive”.

Mais do que apresentar um panorama recente da produção de Gilberto Salvador, a exposição “Geometria Visceral” evidencia a permanência e a atualidade de sua pesquisa em momento marcado pela velocidade das imagens e pela dissolução contínua da experiência visual, sua obra reafirma a potência da pintura e da matéria como campos de percepção, tensão e presença.

Até 11 de julho.

Rodrigo Torres em Roma.

O artista Rodrigo Torres abre a exposição solo “Água mole em pedra dura”, uma colaboração entre A Gentil Carioca e a italiana rhinoceros Gallery, em Roma, Itália. Concebida durante uma residência artística realizada entre o c.r.e.t.a, centro de referência em artes cerâmicas da cidade, e a galeria, a mostra reúne um novo conjunto de trabalhos desenvolvidos especialmente para a ocasião e marca a primeira exposição individual do artista na Itália.

A série parte das relações entre matéria, tempo e transformação. Em diálogo com as paisagens do Rio de Janeiro e de Roma, o artista investiga os movimentos de construção e desgaste que atravessam tanto a Natureza quanto a Cultura, propondo uma reflexão sobre aquilo que a terra produz, preserva e inevitavelmente reclama de volta.

Até 13 de agosto.