My Way

11/jan

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

Mario Quintana

 

Em seu “Poeminho do Contra” Mario Quintana faz troça, nada circunstancial, do fato de ter sido rejeitado (novamente) como membro da Academia Brasileira de Letras (assim reza a lenda), e de maneira sarcástica, dentro de seu linguajar direto e sem pompa, característica do poeta que acabou por deixar uma marca indelével na literatura brasileira, nos fala do eterno embate entre permanência e efemeridade. Para Hannah Arendt a permanência de uma obra de arte dá à Humanidade uma sensação de imortalidade pelo que é criado por meros mortais, uma constância que se sobrepõe ao tempo.

 

Reunidos em torno da ideia de apresentar o seu mundo particular tanto das ideias quanto das imagens, os artistas da mostra “My Way” abrem o ano expositivo da Casa França-Brasil, Centro, Rio de Janeiro, RJ, com liberdade de apresentarem novos trabalhos ou revisitarem questões que entendam ainda em voga de processos anteriores e que precisem ser novamente evocados pelo olhar do outro, pelo público que, como dizia Marcel Duchamp, “…mais tarde se transforma na posteridade (…), estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior”.

 

A exposição pretende ressaltar a diversidade de pensamentos, e de como é possível estarem lado a lado, conviverem pacífica e harmoniosamente linguagens as mais variadas, que se apresentam não como um impedimento ao diálogo, ao contrário, como motor que faz girar a engrenagem do saber, da curiosidade, do despertamento e do deslumbramento. Cada um faz a sua jornada íntima. Como diz a música: “eu vivi uma vida plena, viajei por todos os caminhos, mas mais do que isso, eu fiz do meu jeito”.

 

Osvaldo Carvalho (curador)

 

 

 

Artistas: Angela Od, Bet Katona, Cesar Coelho, Eduardo Mariz, Fábio Carvalho, Gabriel Grecco, Helena Trindade, Hugo Houayek, Jozias Benedicto, Leonardo Videla, Lia do Rio, Marcia Clayton, Osvaldo Carvalho, Osvaldo Gaia, Otavio Avancini, Patrizia D’Angello, Paulo Jorge Gonçalves, Rafael Vicente, Raimundo Rodriguez, Rodrigo Pedrosa, Stella Margarita, Suely Farhi, Viviane Teixeira.

 

 

 

 

Até 11 de fevereiro.

 

No MAM de Salvador

09/jan

O público baiano poderá conhecer e ver a obra do pintor Aurelino dos Santos a partir do dia 15 de janeiro, quando o Museu de Arte Moderna da Bahia abre a exposição do artista plástico, mostra que leva o seu nome, com texto e curadoria de Caetano Dias, apresentando cerca de 50 obras do acervo da Paulo Darzé Galeria e de coleções particulares.

 

 

Sobre o artista

 

Aurelino dos Santos é um artista popular. Esta palavra não no sentido de conhecido, para aquele que está na mídia ou se torna referência numa conversa sobre arte, mas popular na acepção de um homem do povo, que vive uma vida simples, numa casa simples, em local de extrema simplicidade, arredio a conversas – não sabe ler nem escrever, apenas grafa o nome como se desenhasse, e tem grande dificuldade de penetração no universo da linguagem, mas criador de um trabalho primordialmente com a pintura, com composições onde a geometria é o que mais chama atenção. Aurelino dos Santos já ultrapassou os 70 anos de idade. Nasceu em 1942. Vive numa casa de extrema simplicidade nos arredores de Ondina, bairro de Salvador, e produz arte compulsivamente. É um autodidata, que escolheu ou foi escolhido pela pintura para realizar sua trajetória na vida. E mesmo com tudo isto pontuando sua existência exibe uma arte sutil e requintada na sua criação, criando obras onde a geometrização é uma característica, marcada por uma representação de planos, formas e cores, construindo paisagens, ao mesmo tempo vistas de perfil e de cima, com cores às vezes fortes ou monocromáticas, outras suaves e vibrantes. Suas obras acumulam um misto de referências variadas, que passa pelo barroco, chegando ao concretismo e o neoconcretismo, formulando paisagens que traduzem a vida urbana de uma maneira única, formadas por triângulos, retângulos, quadrados e círculos, planos verticais e horizontais, uma geometria pessoal e uma visão misteriosa para o indecifrável da criação de uma obra de arte, ao levar quem vê seu trabalho para um envolvimento com o desconhecido, o secreto, o mistério, o encantado, e o encantamento que fascina no primeiro olhar. A sua arte é pintar. Falar sobre Aurelino é falar de sua pintura.

 

 

Trecho de um ensaio

 

Para sua exposição individual no Museu Afro-Brasil, Aurelino – A Transfiguração do Real, onde foram mostradas mais de cem peças, Urania Tourinho Peres escreveu um longo ensaio, fruto de suas conversas com o pintor e sua formação de psicanalista, com o título “Porque é beleza”, onde inicia com estas palavras: Ainda que não se saiba exatamente o que é a loucura em suas variadas formas de manifestação, e, sobre a obra de arte muita interrogações nos acompanhem, Aurelino dos Santos é reconhecido como louco e artista. Não é sem admiração e assombro que contemplamos sua arte. Sua produção traz a marca de um estilo que confere à sua pintura uma unidade. Quem tem acesso à sua obra não sente dificuldade em identificá-lo em sua produção e afirmar: “Este é um Aurelino” – maneira habitual de reconhecimento de um artista, na qual a obra ganha a identidade do autor”.

Memorial por Tulio Dek

07/jan

O Memorial Municipal Getúlio Vargas, Glória, Rio de Janeiro, RJ, apresenta, a partir de 12 de janeiro,a exposição “Memorial por Tulio Dek”, uma grande instalação do multiartista no susolo da instituição. No percurso do salão circular, 50 pinturas do artista, de 1m x 1,40m, suspensas do teto, de modo a que o público caminhe em meio a elas. No lugar de telas, o artista mandou imprimir em tecido cru uma padronagem semelhante ao pijama usado por Getúlio Vargas, na madrugada de 24 de agosto de 1954. Tulio Dek fará intervenções com pintura em cada um dos recortes de tecido, usando palavras ou frases que discutem aquele momento marcante na história brasileira. A escrita, uma característica do trabalho de Tulio Dek, que também é poeta e compositor, busca “remeter à dor que Getúlio vivenciou naquele dia”, conta o artista.

 

Em um espaço anexo ao salão circular, Tulio Dek colocará uma porta, para o público atravessar. Do outro lado estará um púlpito. “É como se Getúlio quisesse dizer algo depois de sua morte”, comenta o artista. Atrás do púlpito, visível apenas para quem contornar o púlpito, estará um projétil do mesmo calibre usado pelo presidente em sua morte.

 

O jornalista, escritor e dramaturgo Luis Erlanger é o curador. No texto que acompanha a exposição, ele afirma que “Tulio Dek levou a inquietação da sua veia poética para o caminho das artes plásticas. Abrindo, com vigor, espaço para seus pensamentos e dúvidas, manifestados na sua estética bonita de se ver e, ao mesmo tempo, contundente”. “O Memorial Getúlio Vargas virou um cenário ideal, logo após as eleições que dividiram o país de forma assustadoramente radical, para aprofundar dilemas sobre os quais, mesmo que inconscientemente, o Brasil se debruçou, de forma beligerante. Uma de nossas maiores lideranças políticas, em capítulos que contribuíram a dar um toque ficcional à história do Brasil, Vargas conquistou o poder pelos dois lados da balança: como ditador, flertando com o nazi-fascismo, e pelo voto popular”, observa o curador.

 

 

REFLEXO

 

Nascido em 1985, em Goiânia, e radicado no Rio de Janeiro, Tulio Dek está com obras em exibição também na exposição “Reflexo”, na TNT Arte Galeria, em São Conrado, com esculturas e pinturas inéditas. Com curadoria de Marco Antonio Teobaldo, estão na exposição doze pinturas, e duas esculturas da série “Reflexo”, em que centenas de cápsulas de munição compõem as formas de duas mulheres e um torso de uma menina. Em setembro último, Tulio Dek participou durante um mês de uma residência artística no Thomaz Hipólito Studio, em Marvila, Lisboa, que resultou em uma exposição no mesmo local. Obras suas integram uma mostra coletiva em cartaz na Square One Contemporary Art Agency, na capital portuguesa, com curadoria de Rui Afonso Santos, do Museu de Arte Contemporânea do Chiado, que também fará a curadoria da individual do artista programada para o primeiro trimestre de 2019, também na Square One Contemporary Art Agency. Desde 2012, Tulio Dek voltou seu processo criativo para o desenho e para a pintura, sem abandonar seus textos. De 2015 a 2017 morou na Itália, onde dividiu um ateliê com um escultor ligado à Academia de Arte de Florença (Florence Academy of Art). “Meu processo de criação é muito solto, e não acredito na perfeição. O que me interessa é o processo em si e o que eu quero dizer. Não me identifico com a formação acadêmica, onde se exige uma perfeição de formas e acabamento que não tem a ver comigo”, conta.

 

 

Memorial TD

 

Luis Erlanger

 

Tulio Dek levou a inquietação da sua veia poética para o caminho das artes plásticas. Abrindo, com vigor, espaço para seus pensamentos e dúvidas, manifestados na sua estética bonita de se ver e, ao mesmo tempo, contundente.

 

 

Tulio faz política com tinta.

 

Suas causas trafegam muito além de qualquer discussão ideológica, rejeitando a divisão simplista entre esquerda e direita. Um artista que expõe e provoca reflexão com uma visão humanista do mundo.

 

O Memorial Getúlio Vargas virou um cenário ideal, logo após as eleições que dividiram o país de forma assustadoramente radical, para aprofundar dilemas sobre os quais, mesmo que inconscientemente, o Brasil se debruçou, de forma beligerante. Uma de nossas maiores lideranças políticas, em capítulos que contribuíram a dar um toque ficcional à história do Brasil, Vargas conquistou o poder pelos dois lados da balança: como ditador, flertando com o nazi-fascismo, e pelo voto popular.

 

 

Um expoente do populismo – “o pai dos pobres”. 

 

Para culminar, seu suicídio é um dos episódios mais marcantes e traumáticos da nossa vida pública.

 

Como político, pode ter entrado para a história. Como ser humano, agiu contra um instinto básico (a sobrevivência) e preferiu matar-se a perder o poder.
Sem uma desnecessária conexão, este projeto de TD vem impregnado de elementos, tanto no conteúdo quanto na plasticidade, que estiveram presentes na trajetória de Vargas, e que, ainda hoje, com mais intensidade, inquietam a sociedade e as famílias. Um convite a passear por um labirinto de ideias fácil de se sair. Difícil é ultrapassar os impasses que trazemos do nosso passado, ainda mais contundentes na nossa contemporaneidade. Dos brasileiros e da humanidade.

 

Obras para o prazer visual mas também para fazer pensar. Numa viagem lúdica que reforça a tese de que a arte redime o ser humano.E o que fica na história mesmo é a arte.

 

PS: coincidentemente, as iniciais do artista formam a sigla TD –  abreviação da expressão norte-americana “TrueDat”, corruptela de “truethat”, que significa que o fato é verdadeiro. Na era de “fakenews”, precisamos mais ainda da verdade.
Luis Erlanger é jornalista e escritor

 

 

Até 05 de maio.

 

Roberto Scorzelli, esculturas inéditas

A Galeria Evandro Carneiro Arte, Gávea, Rio de Janeiro, RJ,  apresenta a exposição “Scorzelli”, que reúne obras de Roberto Scorzelli e de seu filho, o designer Marcos Scorzelli. A mostra exibirá 16 obras em acrílica de Roberto Scorzelli, entre telas e papéis e trará, pela primeira vez, 40 esculturas de animais criados no papel por Roberto, e concluídos por Marcos. As peças são inéditas e desenvolvidas em aço após o falecimento de Roberto Scorzelli.

 

Sobre as esculturas em forma de bichos que serão expostas, Marcos Scorzelli conta que, em 1998, encontrou o desenho técnico original dos anos 1960 em um envelope. O acervo era oriundo do “Bestiário” – desenhos litográficos de diversos animais feitos por Roberto. O artista ainda estava vivo e os dois imediatamente começaram a rememorar o contexto em que tudo se originou: a infância de Marcos e Isabella, os dois filhos do artista que inspiraram a criação dos bichinhos em papel espalhados ludicamente pela casa do Joá. Iniciou-se, assim, a brincadeira entre pai e filho que trabalhavam juntos no escritório de arquitetura e design. Durante 14 anos, criaram novos modelos para além dos originais e passaram para os programas de computador, sempre pensando a execução do projeto em papel e ligada à editoração gráfica. O desafio era não perder o conceito. A concepção original era em papel e o rigor conceitual de Roberto o fez perseguir a ideia de não perder material durante a confecção, ou seja, não se poderia romper as matrizes dos bichos durante a execução. Foram anos pensando formatos editoriais diferentes, entre livros, folhetos e cartões de natal, com propostas mais didáticas ou mais lúdicas.

 

 

Até que no ano 2000, quando reformavam a sede da OAB-RJ, cujo projeto envolvia o uso de alumínio, Marcos foi à Alcoa (Camaçari, BA) e teve a percepção de tentar desenvolver os bichos neste material. Havia, contudo, a exigência conceitual de não se perder material em cortes. O conceito original se dava em dobraduras.

 

Em 2012 Roberto faleceu sem ver o resultado da brincadeira apaixonada dos bichos. Marcos desmotivou com a perda do pai, afinal trata-se de um projeto extremamente afetivo. Mas em julho de 2018, entusiasmou-se com uma nova tecnologia a laser capaz de dar forma à chapa de aço, material maleável, que se permite moldar e dobrar, sem perdas nem remendos. Dobras duras de animais que foram se ampliando nas mãos criativas do designer. Assim nasceu a bicharada em memória desse grande artista que foi Roberto Scorzelli e com a ternura que esta história encerra. Ou inicia.

 

 

Sobre o artista

 

Roberto Scorzelli nasceu em 1938, em João Pessoa, PB, e ainda criança, sua família se transfere para o Rio de Janeiro. Em 1955 cursou a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) e, em seguida, Arquitetura na Universidade do Brasil (hoje UFRJ). No início dos anos 1960 expôs na OCA (1963), inaugurando uma série de participações em exposições coletivas e individuais. Uma década mais tarde, passou algumas temporadas em Berna (Suiça), quando trabalhava como arquiteto no Itamaraty. Nesta cidade, desenvolveu o projeto da Embaixada do Brasil e conviveu com Mary Vieira. Segundo ele próprio dizia, foi bastante influenciado pela obra desta artista, captando o rigor geométrico, o uso de papeis finos e transparências em superposições fortes, mas singelas em seu trabalho. Em 1976, criou o seu espetacular “Bestiário” – desenhos litográficos de diversos animais-, expondo-o na Galeria Bonino e iniciando uma trajetória artística também dedicada aos bichos, vivida à luz de muita observação, conforme anota Marc Berkowitz na introdução da edição original deste projeto: “São animais bem e pacientemente observados, por um artista de grande sensibilidade e muita percepção que soube captar e transmitir a graça, a majestade e até a monumentalidade de certos animais”.

 

Ainda nesta época, sempre antenado às tendências artísticas, criou a loja de design Senha, em Ipanema. Scorzelli era um artista bastante diversificado, mesmo porque exercia também a arquitetura. Clarival do Prado Valadares observou e escreveu sobre essa característica múltipla de Scorzelli, em 1979: “Desenho explica pintura porque é corpo e alma dela. Ela, pintura, é somente a voz. Roberto Scorzelli mostrando desenho, está falando em nome de sua pintura.” Na década de 1980, se aprofundou na pintura a óleo, buscando na paisagem a observação das transparências naturais. Desta fase, destacam-se as exposições na Galeria Saramenha (1978, 1981), dentre outras experiências importantes, inclusive internacionais. Nos anos 1990 retorna às composições geométricas, agora na técnica contemporânea da tinta acrílica.

 

Até 16 de fevereiro.

Abstração informal

A exposição “Oito décadas de abstração informal”, – em conjunto com o Museu de Arte Moderna de São Paulo – encontra-se em cartaz na Casa Roberto Marinho, Cosme Velho, Rio de Janeiro, RJ. Em exibição, obras assinadas, dentre outros, por Tomie Ohtake, Roberto Burle Marx, Vieira da Silva, Antônio Bandeira, Iberê Camargo, Maria Martins, Fernando Lindote, Lucia Laguna, Maria Polo, Ivald Granato, Jorge Guinle, Takashi Fukushima, Shirley Paes Leme, Tatiana Blass, Yolanda Mohaly, Nuno Ramos, Maria Bonomi, Leda Catunda, Edith Derdyk, Luiz Aquila, Manabu Mabe e Dudi Maia Rosa. Os trabalhos apresentados datam entre os anos de 1940 a 2010.

 

 

Texto de Felipe Chaimovich e Lauro Cavalcanti

 

A arte abstrata começou a ser praticada no Brasil, na década de 1940. Desde o início, surgiram duas linhas: a abstração informal e a abstração geométrica. A abstração informal caracteriza-se pela expressão de gestos do artista, seja com os materiais da pintura, ou da escultura; como resultado, o estilo de cada artista torna-se muito singular. A abstração geométrica, por outro lado, parte de princípios universais da matemática e da geometria, criando uma identidade mais coletiva. Os artistas que praticaram a abstração informal no Brasil não constituíram grupos permanentes, pois a singularidade do estilo de cada qual se impunha sobre princípios gerais. Assim, não há uma escola da abstração informal, ao contrário da geométrica, que levou à formação de grupos como o Ruptura, o Frente e o Neoconcreto. Da mesma forma, não se destacaram críticos de arte que representassem os artistas informais, embora houvesse aqueles que defendessem a abstração geométrica e acusassem a abstração informal de excessivo subjetivismo.

 

Entretanto, a abstração informal semeou no Brasil um extenso campo de arte gestual e da exploração da matéria da obra de arte. Ao reunirmos duas das coleções mais importante do Brasil, a do Museu de Arte Moderna de São Paulo e a do Instituto Casa Roberto Marinho, exibimos a permanência e a potência da abstração informal ao longo das últimas oito décadas. Apesar de ataques recorrentes contra o informal e dos modismos que defendem a arte geométrica, os artistas que praticaram a abstração informal no Brasil testemunham a coerência de seus estilos singulares, a radicalidade na exploração da matéria artística e o lirismo visual de suas composições. Convidamos o público a reencontrar-se com oito décadas de nossa abstração informal.

 

 

Até 09 de junho.

 

Antonio Dias – O ilusionista

22/dez

A exposição presta uma homenagem ao grande artista falecido recentemente, reunindo trabalhos pertencentes aos acervos do Museu – a coleção própria e a de Gilberto Chateaubriand, em comodato na instituição desde 1993. Com curadoria de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, a mostra reúne perto de 60 obras do artista. O público poderá ver o percurso do artista nas décadas de 1960, 70 e 80, em trabalhos feitos em diversos suportes e materiais. Completa a exposição um retrato do artista feito por Ivan Cardoso (1952).

 
“Antonio Dias é um dos mais relevantes artistas brasileiros contemporâneos”, destacam os curadores no texto que acompanha a exposição. Eles explicam que a exposição não buscou “qualquer mediação que não aquela do sequenciamento visual e das relações objetivadas na montagem”, que “confronta o visitante de maneira direta com a maioria as obras”. Dos trabalhos expostos, doze não estão datados.

 
Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes assinalam que desde o início de sua trajetória, Antonio Dias “encontrou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro uma instituição sintonizada com as questões que contribuíram de modo decisivo para a renovação da produção artística brasileira”. “Definitivamente não é possível contar nossa história sem falar de Antonio Dias, assim como nossas coleções não teriam a mesma força sem as quase 60 obras do artista que delas fazem parte e que agora podem ser vistas pelo público do Museu”, afirmam.

 

 
A seguir, uma minibiografia do artista, em texto dos curadores.

 

Nascido em Campina Grande, na Paraíba, Antonio Dias mudou-se para o Rio de Janeiro em 1958, aos 14 anos de idade. No Rio, trabalhou como desenhista, ilustrador e artista gráfico, e frequentou as aulas de Oswaldo Goeldi (1895-1961) no Atelier Livre de Gravura da Escola Nacional de Belas Artes – período em que conheceu artistas ligados ao neoconcretismo carioca, com os quais estabeleceu contato.

 

 
Reconhecimento no Brasil e no exterior

 
Foi, no entanto, a sua participação em exposições como “Opinião 65” e “Propostas 65” – que reuniram em 1965 no MAM Rio e na FAAP, em São Paulo, tanto artistas brasileiros como de outros países; e a Bienal de Paris, em 1969, que despontou com destaque o jovem Dias, tanto nacional quanto internacionalmente. Os jovens integrantes dessas mostras tinham em comum o desejo de ultrapassar as poéticas abstrato-concretas em nome da aproximação da realidade social e política dos anos 1960. Tal tendência já estava em curso desde o final da década de 1950 quando ocorreu a reorientação mundial do foco nas sintaxes formais do abstracionismo, para as possibilidades semânticas sinalizadas pela volta a uma nova figuração. Nessas seis décadas de intensa atividade produtiva, em que viveu em Paris, Milão, Berlim, Colônia e no Rio de Janeiro, Antonio tornou-se uma referência inequívoca da arte contemporânea brasileira, e internacional.

 
Dias nunca parou de produzir ativa e renovadoramente uma obra cujo valor e importância podem ser resumidos com base neste escrito de Giulio Argan: “… uma obra é vista como obra de arte quando tem importância na história da arte e contribuiu para a formação e desenvolvimento de uma cultura artística. Enfim: o juízo que reconhece a qualidade artística de uma obra, dela também reconhece a historicidade”.

 

 

Até 24 de março de 2019.

Tulio Dek na TNT Arte Galeria

O multiartista – pintor, escultor, poeta, compositor e músico – faz sua primeira individual. Em setembro, fez uma residência artística de um mês em Lisboa, que resultou em uma exposição na capital portuguesa.

 

 

A TNT Arte Galeria, São Conrado, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a exposição “Reflexo”, com trabalhos inéditos de Tulio Dek, artista nascido em 1985, em Goiânia, e radicado no Rio de Janeiro. Com curadoria de Marco Antonio Teobaldo, exibe doze pinturas, e três esculturas da série “Reflexo”, em que centenas de cápsulas de munição compõem as formas de duas mulheres e um torso de uma menina.

 

 

 
Em setembro último, Tulio Dek participou durante um mês de uma residência artística no Thomaz Hipólito Studio, em Marvila, Lisboa, que resultou em uma exposição no mesmo local. Agora em dezembro, obras suas integrarão uma mostra coletiva na Square One Contemporary Art Agency, na capital portuguesa, com curadoria de Rui Afonso Santos, do Museu de Arte Contemporânea do Chiado, que também fará a curadoria da individual do artista programada para o primeiro trimestre de 2019, na Square One Contemporary Art Agency.

 

 
Em janeiro, Tulio Dek fará uma grande intervenção no Memorial Vargas, no Rio, onde usará como suporte para suas pinturas tecidos com padronagem alusiva ao pijama usado por Getúlio (1882-1954). Esses tecidos estarão suspensos ao longo do percurso circular da exposição, de modo a que o público caminhe em meio a eles.

 
A poesia e os desenhos estão presentes na vida de Tulio Dek desde menino, e ele sempre está acompanhado de um caderno de anotações, mesmo durante suas viagens, onde registra suas ideias ou observações sobre o que passa a sua volta. Desde 2012, voltou seu processo criativo para o desenho e para a pintura, sem abandonar seus textos. De 2015 a 2017 morou na Itália, onde dividiu um ateliê com um escultor ligado à Academia de Arte de Florença (Florence Academy of Art). “Meu processo de criação é muito solto, e não acredito na perfeição. O que me interessa é o processo em si e o que eu quero dizer. Não me identifico com a formação acadêmica, onde se exige uma perfeição de formas e acabamento que não tem a ver comigo. Eles ensinam um realismo que não me interessava. Mas como eu queria dominar o uso do bronze, não tinha como fugir, e era obrigado a aprender a técnica para chegar onde eu queria. Passei então a aprender vendo o escultor trabalhar no ateliê. Choquei uma professora da Academia que viu um busto de Beethoven que fiz e rabisquei todo depois. Adoro a Itália, mas depois de dois anos vi que meu tempo ali tinha acabado”, conta.

 
Marco Antonio Teobaldo, que acompanha o artista há seis meses, destaca que Tulio Dek usa seus cadernos de anotações “como reservatórios de ideias”, e que o artista “tem um caminho muito próprio”. “Foi muito precoce como poeta, e tanto na música como na pintura e escultura ele consegue provocar e traduzir muitas inquietações comuns a todos. É a mesma poética com formas distintas”, diz. “A poesia é o que move seu trabalho. A partir dela, ele vai desenvolvendo outras formas de criação”. O curador assinala também o processo solitário de criação de Dek. “Ele trabalha sozinho, sem ninguém por perto. Quando começa uma pintura, só vai parar quando terminar. É muito intenso”.

 

 

 

A cabeça na pintura, e sua ausência na escultura

 

 

O curador chama a atenção para o fato de que na exposição a figura de uma cabeça está muito presente nas pinturas. Já nas duas esculturas os corpos cobertos por cápsulas de armas de fogo estão sem cabeça. “É como se a pessoa ali ficasse impedida de sua ação, sua vontade própria, e se tornasse apenas um alvo. Ela está integralmente alvejada. É um corpo sujeito à violência em sua totalidade, nada escapa. Não há um centímetro que não tenha sido alvo ou vítima da violência”. Nas pinturas, a cabeça, às vezes somente insinuada ou rabiscada, é um elemento de fala, de pensamento, ativo.

 
Marco Antonio Teobaldo observa que Tulio Dek não gosta “de se expor”. “Mesmo suas performances são anônimas. Ele é muito generoso e despojado”, diz.

 
Sobre isso, Tulio Dek comenta que a rotina de shows, intensa em sua vida dos dezessete aos 27 anos não o interessava mais. Ele se voltou então para seus desenhos e escritos. Sua pulsão para a pintura foi algo natural, e ali passou a trabalhar suas inquietações. “A música continua presente, mas ocasionalmente, e apenas no ato de compor. Minha dedicação é total à produção das telas e esculturas”, afirma.

 

 

Até 13 de janeiro de 2019.

Quatro no Museu da República

20/dez

A Galeria do Lago, Museu da República, Catete, Rio de Janeiro, RJ, encerra o ano com a abertura de “Quimera”, mostra que reúne três gerações com quatro artistas e curadoria compartilhada de Isabel Sanson Portella com Ricardo Kugelmas, curador do espaço Auroras em São Paulo. Ana Prata, Bruno Dunley, Veío  e Liuba Wolf são os artistas que expõem suas pinturas, esculturas e desenhos. Trata-se, primeiramente, de um diálogo de gerações onde a exaltação imaginativa em diferentes técnicas aparece como destaque. A Quimera mitológica, símbolo complexo de criações imaginárias do inconsciente, representa a força devastadora dos desejos frustrados, dos sonhos que não se realizam, da utopia e fantasias incongruentes. Monstros fabulosos alimentam, desde sempre, a imaginação do homem com devaneios necessários à expansão da alma.

 

“O diálogo que se estabelece entre os quatro artistas resulta numa mostra de identidades e poéticas que se aproximam enquanto falam de desejos e expectativas. Embora as práticas sejam distintas existe a mesma procura pela excelência, pela abstração e simplicidade das formas. A eles interessa o prazer criativo, a “brincadeira séria” e a liberdade de sonhar”, avalia a curadora, Isabel Sanson Portella, que também é diretora da Galeria do Lago.

 

 

Sobre os artistas

 

Liuba Wolf

 

Inserida na tradição da escultura moderna desde os anos 1950, é considerada uma das pioneiras entre as artistas mulheres que se dedicaram à arte de esculpir. Inicialmente figurativa, a artista passou, a partir dos anos 1960, por uma significativa mudança formal que a levou à “quase abstração”, tendo a figura do animal como referência. Suas obras, como a própria artista afirma, vêm do inconsciente e são uma “simbiose entre vegetal e animal.” A força e beleza de seus trabalhos inspirou, certamente, toda uma geração de artistas que se seguiu.

 

Véio

 

Artista sergipano dos mais destacados na arte popular brasileira, utiliza a madeira para representar o seu olhar crítico sobre o homem e a vida no sertão nordestino. Transforma restos de troncos da beira do rio, em esculturas coloridas, seres imaginários e personagens místicos que surgem das histórias de assombração ouvidas na infância. O universo de Véio, autodidata e muito enraizado em sua terra natal, é povoado pela tradição popular que o faz perceber o poder da transformação e da luta pela forma pura.

 

Ana Prata

 

A artista entende a pintura como meio de experimentação e linguagem. Seus trabalhos apresentados em Quimera trazem algumas propostas bastante significativas nesse diálogo de gerações e lugares de fala. A procura pela liberdade, o prazer criativo e a imaginação são pontos em comum nos quatro artistas selecionados. Para Ana Prata é importante variar, criar sempre algo novo para que outros sentimentos aflorem. Sua obra está aberta a novas propostas e respostas. E é sempre no olhar do expectador que a narrativa se completará.

 

Bruno Dunley

 

Sua prática é voltada para a abstração gestual, sem, entretanto, perder o foco na representação dos objetos. Para ele existe uma mudança fundamental na função da imagem que deixa de ser forma única de apresentação de uma ideia. As cores utilizadas, delicadas mesmo quando as imagens são violentas, aparecem ora em manchas, ora como fundo para os desenhos. Quase sempre há uma cor predominante, pastel seco aplicado com vigor além de traços em carvão. Bruno não procura a beleza perfeita e absoluta, mas cada vez mais pensa em uma beleza possível, direta. Algo que faça o espectador apurar o olhar e criar sua própria experiência sensorial.

 

 

Até 24 de fevereiro de 2019.

Siron Franco em BH

19/dez

A Fundação Clóvis Salgado, Belo Horizonte, MG, apresenta a exposição do pintor, desenhista e escultor Siron Franco. Suas obras estão presentes nos mais importantes museus do Brasil, como MNBA (Rio de Janeiro), MON (Curitiba), MASP (São Paulo) e MAC (São Paulo), e a exposição, que tem curadoria de Augusto Nunes-Filho, traz à Galeria Arlinda Corrêa Lima do Palácio das Artes 36 quadros do artista.

 

O trabalho de Siron Franco faz uso de uma paleta de cor escura e flerta com o realismo fantástico, representando imagens irreais na pintura. Com um olhar sutil sobre o cotidiano, o artista retrata situações de violência, por meio de figuras quase monstruosas, mesclando humanos e animais. Seu trabalho usa manchas de tinta, uma característica típica dos artistas da época, mas sua obra não chega a ser classificada como abstrata, já que, segundo o próprio Siron, lida com imagens, sejam elas humanas ou não.

 

As obras fazem parte, principalmente, de coleções particulares e a exposição conta, entre outras, com o díptico “Metamorfose” (1979), uma das séries mais famosas do artista, bem como “Sorriso” (1975) e “Espelho” (1975) da série “Fábulas do Horror”. Segundo o curador, “Destacar as obras de Siron Franco é parte do atual programa da Fundação Clóvis Salgado que abre espaço para artistas de todo o Brasil. Com grande satisfação realizamos esse trabalho, que dá acesso à população a obras de grande reconhecimento nacional e internacional, até então inéditas na cidade”, comemora Nunes-Filho.

 

Expondo individualmente pela primeira vez no Palácio das Artes, Siron Franco possui uma admiração especial pelos artistas mineiros. “Minas Gerais é um berço muito instigante da cultura brasileira, na sua música, teatro, artes plásticas e dança, por isso me sinto muito honrado em ocupar uma galeria do Palácio das Artes”, conta. Para o artista, a curadoria é uma oportunidade de revisitar um pouco do seu trabalho. “Todas são obras muito importantes da minha carreira e tenho muito carinho por elas, por isso agradeço muito a oportunidade de expor essa fase do meu trabalho que muita gente ainda não conhece”, comenta.

 

 

Sobre o artista

 

Gessiron Alves Franco, mais conhecido como Siron Franco, nasceu em Goiás, em 1947). Artista plástico brasileiro cuja obra é reconhecida no Brasil e no exterior. Como pintor, alcançou notável reconhecimento em sua participação na 12ª Bienal Nacional de São Paulo (1974). Passou sua infância e adolescência em Goiânia, tendo sua primeira orientação de pintura com D.J. Oliveira e Cleber Gouveia. Começou a ganhar a vida fazendo e vendendo retratos. A partir de 1965, decidiu concentrar-se no desenho. Residiu em São Paulo, frequentando os ateliês de Bernardo Cid e Walter Levi, e integrando o grupo que fez a exposição “Surrealismo e Arte Fantástica, na Galeria Seta”. Muito ligado às questões sociais, o artista realizou uma série de obras sobre o acidente com o Césio 137, elemento radioativo que causaria grandes danos de saúde a várias famílias de Goiânia. Os povos indígenas foram tema de um memorial feito por Siron Franco, em respeito e homenagem ao contínuo massacre dessas populações. A devastação da natureza também é um de seus temas, denunciando a caça e a matança de animais.

 

 

Até 10 de fevereiro de 2019.

Tons de brancos no Paço Imperial

18/dez

O carioca Ronaldo do Rego Macedo mostra 40 trabalhos inéditos em óleo sobre tela e sobre papel na individual, intitulada “Fissão)(Tectônica”, um segmento de sua produção dos anos 2010, que ocupa três salas do Paço Imperial, Centro, Rio de Janeiro, RJ, sob curadoria de Sonia Salcedo Del Castillo. Ronaldo do Rego Macedo é um pintor que não faz concessões no conceito nem na feitura de seus trabalhos.

 

A pintura abstrata recente do artista, professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, é a continuidade de uma pesquisa de décadas, em que a cor constitui pura presença física. Cores vibrantes, criadas por Ronaldo são “soterradas” por camadas muito espessas de tinta a óleo de tons de branco, aplicadas com pincel, trincha, vassoura ou a mão diretamente. Nas telas grandes e pequenas, há vestígios de vermelhos, azuis e roxos implacavelmente cobertas pelos brancos, nos quais a marca das “pinceladas” se faz evidente.

 

“Estou sempre girando em torno do tema da invisibilidade, do silêncio, do vazio. Sempre há algo que nunca se revela inteiramente, fica à sombra (…). A pintura vem para a frente, ela quer nos abraçar, mas há alguma coisa que chama atenção para o que é fluido e recessivo. O título, quando aparece inscrito na pintura, (…) é, muitas vezes, é um signo vazio, que nada significa, ainda bem. E que tem sempre um apagamento, que contradiz essa presença da área pintada”, entrega Rego Macedo.

 

Sobre o apagamento a que o artista se refere, a curadora Sonia Salcedo Del Castillo descreve no texto de apresentação: (…) o vigor impresso à fatura de suas telas resulta em espaço e presença pulsantes. Há nela tal frescor que, por vezes, parece sugerir sabor à sua pintura.”

 

 
Sobre o artista

 

Ronaldo do Rego Macedo nasceu no Rio de Janeiro, em 1950. Fez sua primeira individual aos 23 anos no Rio, à qual se seguiram outras 12 em capitais brasileiras. Desde os 19 anos participa de coletivas no Brasil e em cidades como Montevidéo, Buenos Aires, Cidade do México, Toronto, Pully (Suíça), Viena e Linz (Áustria), Paris, Bruxelas, Cairo, Rabat e Tóquio. O artista esteve nas edições da Bienal Internacional de São Paulo de 1973 e de 1987, quando ganhou Sala Especial, e no Salão Nacional de Arte Moderna de 1972 e 1973. Sua pintura está nas coleções de Gilberto Chateaubriand, João Sattamini, Giovanni Bianco, Antonio Cicero, Brenda Valansi, Lauro Jardim, Marcel Telles (Ambev), e nos acervos do MAM Rio e do Museu Nacional de Belas Artes (RJ). Teve como mestre o pintor Aluisio Carvão, com quem estudou três anos no MAM Rio. Foi ainda aluno de Lygia Pape e Cildo Meireles também no MAM Rio.

 

 

Até 17 de fevereiro.