A Zipper, Jardim América, São Paulo, SP, exibe até 18 de dezembro, a exposição coletiva “Brasil em Camadas”.
A mostra, propõe romper com a tradição de distanciamento, partindo de um ponto de vista situado no território em questão e descartando a paisagem-espetáculo. Um Brasil observado por quem o habita, com suas dores e conflitos, mas também com seus prazeres, afetos e imaginações.
Nas telas de Miguel Chiquitano, o tema remete à tradição que fascinou os viajantes europeus durante o período colonial. Suas pinturas eliminam a linha do horizonte, e sem ele. E sem horizonte, não há distância: a contemplação é conduzida para dentro da mata, para o emaranhado de raízes e sombras.
A revisão decolonial segue na obra “Mundus Hodiernus”, de Camille Kachani, na qual o artista reconstrói um mapa mundi, inspirado pelo contato com um do século XVII que representava o chamado “mundo moderno”. Os vastos oceanos azuis são compostos por cordas náuticas, miçangas e fragmentos de azulejos encontrados em antiquários de Lisboa, alguns datados de cerca de 1750.
Nas fotografias de João Castilho, a cor ocre-avermelhada, próxima da ferrugem e do minério, afasta a flora brasileira do exotismo tropical vendido no imaginário exterior. Já a escultura de Marco Tulio Resende, composta por madeira e barro de diferentes municípios mineiros.
As fotografias da série “Cabanagem”, de André Penteado, trazem à superfície conflitos históricos brasileiros pouco populares. O título remete à Revolta da Cabanagem (1835-1840), que ocorreu na Província do Grão-Pará, uma das rebeliões mais violentas da história do país, quando populações negras, indígenas e ribeirinhas se levantaram contra domínio econômico dos portugueses na região amazônica, que persistiu mesmo após a independência do Brasil.
A camada do conflito reaparece em chave mais recente na xerografia “Sufoco” (1979), de Mario Ramiro, realizada quando o país ainda vivia sob os efeitos da ditadura militar. Pioneiro do uso de impressões xerográficas e logo depois integrante do coletivo 3NÓS3, Mario Ramiro registra um corpo comprimido contra a superfície da máquina, num gesto em que a precariedade técnica do meio se faz medida do cerceamento político.
No presente, a construção do território avança para o espaço urbano nas pinturas de Ian Salamente. Em um contexto em que as periferias brasileiras são fetichizadas, o artista as toma como pretexto para composições marcadas pelo afeto.
Essa atenção ao Brasil habitado se prolonga nas pinturas de Rodrigo Cunha, que recolhe o país na escala do cotidiano e do interior doméstico. Em telas de tonalidades rebaixadas, figuras solitárias surpreendidas em poses contidas dividem o quadro com paisagens emolduradas dentro da própria pintura..
Em suas composições digitais, Marcelo Tinoco parte da fotografia para reinventar tais cenários naturais por meio de cores intensificadas, contornos acentuados e intervenções que misturam realidade e fantasia. Nas pinturas de Felipe Góes, pinceladas expressivas e paletas vibrantes criam paisagens de “não-lugares”, que fazem da natureza uma experiência sensorial. Já Flávia Junqueira constrói suas instalações justamente em lugares associados ao imaginário turístico brasileiro.
Por fim, a fotografia de Rodrigo Braga projeta a paisagem para um horizonte mítico. Nascido na região amazônica, o artista desenvolve há mais de vinte e cinco anos uma pesquisa sobre as relações entre os seres vivos e o ambiente que os circunda. Em conjunto, as obras discorrem sobre como as imagens do país foram historicamente construídas e continuamente reinventadas. Dessa posição, emerge a densidade de um território assumido em sua própria complexidade.
Até 18 de dezembro.
























