A artista Marjô Mizumoto exibe até o dia 18 de abril na Galeria Anita Schwartz, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, a exposição de pinturas “Aonde eu queria estar”. O texto de apresentação traz a assinatura de Vanda Klabin.
Marjô Mizumoto manipula a linguagem imagética, fortemente figurativa, com alguns dispositivos narrativos aliados a imagens constitutivas de cenas domésticas, nos direcionando para o universo dos ícones da linguagem da arte pop, que solidifica a sua presença através de fragmentos do cotidiano atuantes na sua órbita poética. A pintura é o seu território preciso e ali encontramos os acordes de seu campo de ação. O plano da fotografia e alguns postulados da colagem são utilizados para aninhar a iconografia do fazer cotidiano no seu processo pictórico. Estabelece um micromundo e na soltura do seu imaginário, focado na construção da figura humana, coteja as experiências dos planos psicológicos e suas figuras emblemáticas adquirem uma função compositiva; a artista funda a sua persona em diferenciados cenários. Na sua estética narrativa, Marjô altera a sua capacidade de estar presente nas cenas efêmeras, sua matriz pessoal, e passa a ser a responsável pela captura do fato cotidiano, como alguém que descreve mundos. Traz, muitas vezes, representações de sua própria vida ou elementos constitutivos de situações visuais complexas e de um tempo saturado de significações.
A estrutura narrativa ganha novos contornos ao se colocar como a observadora de suas experiências vivenciais. Ela desenvolve um vigor cênico para acentuar esse discurso e fundar uma obra resultante da sua ausência. A presença de um outro corpo familiar como protagonista cria um regime de ambiguidades, como um dispositivo pulsional constante para as suas experiências artísticas, sem renunciar a uma contundência plástica. A maternidade é um tema recorrente na sua produção artística e envolve uma construção de códigos culturais. Marjô traz um ângulo diferente ao tocar na questão da identidade, na qual a projeção do corpo feminino não está presente na obra. Institui uma sensibilidade e uma formulação plástica que gravitam em uma linguagem visual própria.
É necessário olhar para as zonas cromáticas e para a dinâmica de sua ocupação. A imagem reina absoluta. Os objetos se instalam em primeiro plano, deixam de ser fugazes e se consolidam em um campo de relação de cores. Agora são materiais de observação, pulsam na superfície da tela, adquirem uma sensação tátil, quase palpável que parece despertar uma outra intimidade na cena. Um desejo de intensificação da realidade se faz presente e novas membranas se interpõem no nosso olhar. A realidade aqui foi fisgada, capturada de um local sem horizontes. Amplia os significados de uma intimidade de um mundo repleto de inquietações, apreendendo nesse território privado que transborda de cor os fios entrelaçados de uma memória acumulada de vivências.
A artista prepondera uma estrutura lógica, extraída de imagens reconhecíveis na vida cotidiana, inflamadas pela matéria pulsante de uma iconografia em que um acontecimento banal ou efêmero adquire uma intensidade plástica inesperada, provocante e, por vezes, acaba por tornar estranhas as representações outrora familiares. No fluxo nervoso dos seus gestos e pinceladas, a artista vai adicionar novos significados para reconfigurar outra ordem no seu trabalho de arte. É um desafio que parece encenar a sua vida, ao discutir continuamente seus enigmas: pensar a arte a partir de uma interpretação, agregar novas entidades e significações. Marjô particulariza os relatos pessoais através da ativação de suas constelações de suas vivências ao assimilar, no seu vocabulário visual, a questão dos retratos, onde captura as sensações subjetivas, que geralmente estão submersas no inconsciente. Na elaboração do personagem central, prevalece a questão identitária do outro, sempre um território duplicado. Quase como um exercício de desejos breves – histórias vividas, vestígios de memórias reconstruídos em cenas domésticas ou de natureza cotidiana -, seu processo de trabalho, ao desarrumar o arrumado, atua como um poder transformador, dado que a artista se apropria de imagens ou objetos removidos de sua natureza cotidiana e amplia seus sentidos em uma narrativa parcial, agora vinculada a um momento transitório; o fluir do tempo não está mais presente, como uma memória suspensa, criando uma multiplicidade de possibilidades e vai redirecionar o observador para novos eixos de leitura e significados. São cenas evocativas e curtas, com tonalidades intensas que passam a ordenar o nosso olhar, que é convocado a adentrar em cenas triviais, como interiores íntimos, flagrantes existenciais ou anotações da vida urbana nesse mundo tenso, expansivo e desigual.
Sua gramática visual traz ressonâncias históricas de artistas como Lucien Freud, Marlene Dumas, Jenny Saville, Edward Hopper e Wanda Pimentel, entre outros. Nesse flerte com a linguagem do trivial, o banal torna-se objeto de investigação plástica, como uma linha decisiva para o entendimento da complexidade do mundo. As cenas deixam de ser fugazes, ganham novos contornos e se consolidam em um campo de relações de cores, pulsátil nas suas fragmentações estéticas. Um momento fraturado, um extravio do cotidiano, convertido em um acontecimento plástico e em tema central. As obras são unidades intensas; uma condensação cromática guarda memórias vivas de sua história e frequentes vestígios familiares detêm um conteúdo ao sinalizar um universo anônimo e trazem à tona as assimetrias do mundo, com suas fissuras, tensões ou enigmas. E é nesse universo que se constrói e se reconstrói, como uma malha flutuante para o olhar, que percorremos esse itinerário estético, tendo a pintura como eixo condutor e como um dispositivo plástico para o entendimento da dinâmica do mundo contemporâneo.
Vanda Klabin é cientista social, historiadora e curadora de arte. Nasceu, vive e trabalha no Rio de Janeiro.
Sobre a artista.
Marjô Mizumoto nasceu em 1988 em São Paulo, SP. Vive e trabalha em São Paulo. Marjô Mizumoto é uma artista visual conhecida por seus retratos a óleo que capturam personagens do cotidiano em cenários quase teatrais. Suas pinturas, que misturam referências da pintura tradicional e elementos do universo Pop, funcionam como crônicas visuais de memórias afetivas e familiares. Formada em Artes Plásticas pela FAAP em 2010 e com pós-graduação em História da Arte pela mesma instituição, Marjô trabalhou com artistas renomados como Rodolpho Parigi e Ana Elisa Egreja, além de colaborar no painel de Candido Portinari na PUC-Rio. Suas obras integram coleções importantes, como o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e o Museu de Arte Contemporânea de Jataí. Marjô foi contemplada com o 8° Prêmio Artes Tomie Ohtake e participou do 32° Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo. Em 2021, recebeu o 11° Prêmio DASartes, consolidando-se como uma das artistas mais promissoras da cena contemporânea brasileira.