A Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, Morumbi, São Paulo, SP, apresenta a exposição “África -Ancestralidade e Sincretismos”, que reúne peças de acervos referenciais constituídos por obras de diferentes partes do continente africano.
África: ancestralidade e sincretismos.
O Brasil abriga em seu solo as sementes de uma herança vasta e profunda, germinada a partir do processo histórico do comércio triangular escravagista e da dispersão forçada de povos africanos pelas Américas. Durante mais de três séculos, a imensidão dos valores civilizatórios dessas sociedades se enraizou e floresceu em nosso território.
A coleção de Marco Antônio de Biaggi, inspiração primeira desta mostra, foi cuidadosamente formada ao longo de décadas e será exibida pela primeira vez ao público. A exposição conta com máscaras, esculturas, bustos e objetos que representam poderes e saberes ancestrais transmitidos de geração em geração na África e que, continuamente, foram difundidos em essência e arte por todo o mundo.
Os povos Bantu, originários da África Central – Angola e Congo -, como, entre outros, os Bakongo, que foram cristianizados desde o final do século XV, organizaram o denominado afro-catolicismo principalmente no litoral e nas regiões do centro-sul brasileiro e trouxeram ainda consigo o exímio domínio da metalurgia do ferro e da agricultura. Concentrados inicialmente nas lavras de ouro e, mais tarde, nas fazendas de café do Sudeste, deixaram como legado a força das congadas e a devoção a Santo Antônio esculpido em nó de pinho.
Já os Iorubanos da África Ocidental – herdeiros do Reino de Ifé (berço místico), do Reino de Oyó (centro político-militar) e do exuberante polo artístico de bronzes e marfins dos Bini do antigo Reino do Benin (Nigéria) – transplantaram sua rica cosmologia majoritariamente para a Bahia e Pernambuco. Sua presença moldou de forma irreversível as poéticas e os signos visuais das narrativas afro-brasileiras, ecoando nas sonoridades, no candomblé, na medicina sagrada das folhas e na liturgia dos cortejos.
Dezenas de outros povos aqui representados, não somente os Ashanti, importantíssimos pelo conhecimento do trabalho no ouro e pelo desenvolvimento das tradições de ourives no Brasil colonial, mas também os Maconde, Mangbetu, Luba, Hemba, e Iombe, pelo lado central africano, e os Baga, Bamana, Dogon, Fang, Senufo, Baulé, Mumuye e Mambila, pelo lado ocidental, constituem apenas alguns exemplos.
Sob a vigilância e a opressão do monopólio colonial, onde não havia margem para a liberdade de culto, forjou-se um poderoso mecanismo de resistência espiritual e cultural: o sincretismo afro-brasileiro. Na África, o tributo aos orixás, às forças da natureza e às deidades organizava-se como um mosaico de tradições independentes, variando conforme a nação e o grupo étnico. No Brasil, essas divindades e ritos se reconfiguraram nos mesmos espaços físicos, criando entroncamentos de crenças e terreiros plurais. Foi nesse cenário de adaptação que, muito antes de se sistematizar na multifacetada Umbanda do século XX, a comunhão dos santos católicos começou a se fundir ao panteão dos orixás e inquices.
Assim, o sagrado ganhou novos contornos, moldando-se em ricas dinâmicas e variações, a depender da região do país. Símbolos centrais da fé reconfiguraram-se: o Cristo transmutou-se na paz e na criação de Oxalá, enquanto a Virgem Maria, sob o manto dos Navegantes, fundiu-se à Iemanjá, a grande mãe das águas salgadas. Essa teia de correspondências espelhou também as forças da natureza e das batalhas diárias, onde Santa Bárbara fez-se a tempestade de Iansã (Oyá) e São Jorge, no Sudeste, vestiu as armaduras de Ogum – arquétipo guerreiro que, nas terras baianas, é frequentemente assumido por Santo Antônio -, revelando a multiplicidade e a força de uma devoção que se reinventou e pluralizou para sobreviver.
Essa imensa teia de saberes não moldou apenas o espírito, mas também os sentidos e a estética nacional. A liberdade geométrica e a subversão esquemática da arte africana anteciparam vanguardas e enriqueceram o repertório visual das Américas. Suas formas transbordaram do domínio mítico para o concreto e o abstrato, manifestando-se na arquitetura, no folguedo, no apogeu do carnaval, nas danças e na fatura dos objetos de fé – fontes inesgotáveis de inspiração que atravessaram a modernidade e seguem vivas no século XXI.
Nesta exposição, a força pulsante dessa herança ganha corpo, matéria e narrativa. As obras e poéticas aqui reunidas dialogam intimamente com esse legado visual e espiritual, traduzindo mitologias e signos em arte contemporânea. É um convite para que o olhar do visitante atravesse essa ponte ancestral e sinta, na cor, na linha e no volume, o esplendor contínuo e a resistência da estética e da alma afro-brasileira.
Por fim, gostaríamos de registrar nossos agradecimentos às coleções parceiras que também participam gentilmente desta mostra: CIJY – Coleção Ivani e Jorge Yunes e Coleção César De La Croix, Paris.
Rafael Schunk/Renato Araújo
Curadoria


