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Contos Saloméicos

No momento em que as questões feministas estão no centro de nove entre dez debates acalorados pelo mundo, a artista visual Ana Luiza Rego abre a exposição “Contos Saloméicos”, onde apresenta sua “Salomé avatar”, fazendo uma releitura contemporânea da polêmica figura bíblica. Coincidentemente, a abertura acontece na data em que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, na Galeria Patricia Costa, no Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, com curadoria de Fernando Cocchiarale. São ao todo nove telas a óleo sobre linho, de grandes e pequenos formatos, onde a narrativa deixa de lado a história bíblica em si, para falar de momentos de solidão, de reflexão, de euforia e poder, numa abordagem com alguns toques de humor. Todas têm nomes femininos, como Sofia, Diana, Isadora… Trata-se de uma Salomé ligeiramente subversiva às convenções sociais ainda vigentes, com uma leitura absolutamente individual e aberta às mais diversas interpretações. A artista ressalta uma curiosidade: Salomé inspirou, por dois mil anos, grandes nomes da Arte, todos masculinos, como Oscar Wilde, Carlos Saura, Strauss, Caravaggio, Regnault, Klimt e Flaubert, entre outros. Seja qual for a interpretação, as obras apresentam composições levadas ao extremo, convidando o olhar do espectador a circular pela superfície da tela, conduzido pelas pinceladas, pela matéria e pelo uso de cor.

 

 

A história de Salomé

 

Salomé era filha de Filipe Antipas e Heródia, que depois deixa o primeiro marido para viver com o irmão deste, Herodes Antipas. Em uma festa em que Salomé dança para Herodes, ele, encantado, diz a ela que pedisse o que quisesse como prêmio, até parte do seu reino. Heródia, no entanto, sentindo-se difamada por João Batista, que pregava para o povo que ela era uma prostituta por ter largado Filipe para se casar com o cunhado, pede a cabeça do evangelizador.

 

Fernando Cocchiarale fala sobre o trabalho de Ana Luiza Rego:

 

“Em 2007 escrevi que as pinturas de Ana Luíza Rêgo essencialmente nunca se afastaram das referências práticas e discursivas que marcaram fortemente sua geração (a chamada geração 80). Passados mais de 10 anos, verifico que − ao lado das transformações poéticas observáveis em seu processo criativo − podemos afirmar  que estas referências permanecem até hoje como essenciais  à sua pintura. Sob a influência genérica do neoexpressionismo alemão, os jovens da nossa Geração 80 esquentaram o corpo-a-corpo com a obra, numa recusa explícita ao distanciamento decorrente de processos mais racionalizados que prevaleceram nas duas décadas anteriores: o grito de uma subjetividade expressa pelo fazer. O trabalho de Ana Luzia Rego e o de outras artistas brasileiras, como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Cristina Canale, apesar de suas notáveis diferenças, pertence inequivocamente a essa genealogia”.

 

 

Sobre a artista

 

Voltando de um hiato de alguns anos na pintura, a artista Ana Luiza Rego nunca descansou com sua vida dividida entre Rio e Nova York, além de frequentes idas à Europa, onde mantém laços familiares. Foram anos de pesquisas visitando exposições e museus pelo Brasil e exterior. Entre as exposições mais marcantes, destacam-se “Geraçōes” – Ana Luiza Rego e Rubens Gerchman – Museu da República – Rio; “Rio” – Galeria Patricia Costa; “Brasilialaniche Knust auf Papier” – MOYA – Museum of Young Art – Vienna; “Arte Brasileira Sobre Papel” – Fundação Medeiros e Almeida – Lisboa; “Arte Brazilleña sobre papel” – Palacio Maldonado – Madrid.

 

 

De 08 de março até 29 de março.