Histórias da sexualidade no MASP

20/out

O sexo é parte integral de nossa vida e, sem ele, sequer existiríamos. Por isso, a sexualidade tem desde sempre ocupado lugar central no imaginário coletivo e na produção artística. A exposição Histórias da sexualidade traz um recorte abrangente e diverso dessas produções. O objetivo é estimular um debate – urgente na atualidade -, cruzando temporalidades, geografias e meios. Episódios recentes ocorridos no Brasil e no mundo trouxeram à tona questões relativas à sexualidade e aos limites entre direitos individuais e liberdade de expressão, por meio de embates públicos, protestos e violentas manifestações nas mídias sociais. O MASP, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais. Esse é o sentido do programa de exposições, seminários, cursos, oficinas e publicações em torno de muitas histórias — histórias da infância, da sexualidade, da loucura, das mulheres, histórias afro-atlânticas, feministas, entre tantas outras.

 

Concebida em 2015, esta exposição é fruto de longo e intenso trabalho, e foi antecedida por dois seminários internacionais realizados em setembro de 2016 e em maio de 2017. A exposição se insere em uma programação anual do MASP totalmente dedicada às histórias da sexualidade, que em 2017 inclui mostras individuais de Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco, Henri de Toulouse-Lautrec, Tracey Moffatt, Pedro Correia de Araújo, Guerrilla Girls e Tunga. São mais de 300 obras reunidas em nove núcleos temáticos e não cronológicos – “Corpos nus”, “Totemismos”, “Religiosidades”, “Performatividades de gênero”, “Jogos sexuais”, “Mercados sexuais”, “Linguagens” e “Voyeurismos”, na galeria do primeiro andar, e Políticas do corpo e “Ativismos”, na galeria do primeiro subsolo. A mostra inclui também a sala de vídeo no terceiro subsolo, como parte do núcleo “Voyeurismos”. Algumas obras de artistas centrais de nosso acervo – como Edgard Degas, Maria Auxiliadora da Silva, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Suzanne Valadon e Victor Meirelles – são agora expostas em novos contextos, encontrando outras possibilidades de compreensão e leitura. Ao lado delas, uma seleção de trabalhos de diferentes formatos, períodos e territórios compõem histórias verdadeiramente múltiplas, que desafiam hierarquias e fronteiras entre tipologias e categorias de objetos da história da arte mais convencional – da arte pré-colombiana à arte moderna, da chamada arte popular à arte contemporânea, da arte sacra à arte conceitual, incluindo arte africana, asiática, europeia e das Américas, em pinturas, desenhos, esculturas, fotografias, fotocópias, vídeos, documentos, publicações, entre outros.

 

Nessas histórias, não há verdades absolutas ou definitivas. As fronteiras do que é moralmente aceitável deslocam-se de tempos em tempos. Esculturas clássicas que são ícones da história da arte não poucas vezes tiveram o sexo encoberto. Também os costumes variam entre as culturas e civilizações. Em diversas nações europeias e comunidades indígenas, é natural a nudez exposta em lugares públicos; a poligamia é aceita em alguns países islâmicos; a prostituição é prática legal em alguns estados e condenada em outros; há países onde o aborto é livre mas há outros onde é proibido. Até mesmo o conceito de criança mudou ao longo do tempo, assim como as regras de especificação etária.

 

O único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro, à diferença e à liberdade artística. Portanto, é preciso reafirmar a necessidade e o espaço para o diálogo e que se criem condições para que todos nós – cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades – possa conviver de forma harmoniosa.

 

A exposição “Histórias da sexualidade” tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, Lilia Schwarcz, curadora-adjunta de histórias do MASP, Pablo León de la Barra, curador-adjunto de arte latino-americana do MASP e Camila Bechelany, curadora assistente do MASP. A classificação etária de “Histórias da Sexualidade” é de 18 anos. Desta forma, de acordo com a regulamentação vigente, é restritiva para menores de idade, mesmo com autorização ou acompanhamento de responsável.

 

 

Até 14 de fevereiro de 2018.

Duas vezes Thomas Baccaro

Em dobradinha inédita na cidade, o público poderá conferir neste mês de outubro, os trabalhos do premiado fotógrafo Thomas Baccaro em duas ocasiões. A primeira é a exposição “Viver, Conviver & Reviver”, com 112 fotografias de 53 pessoas com mais de 55 anos, que já percorreu São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. A mostra estará em cartaz no Centro Cultural dos Correios, de 20 de outubro a 15 de novembro. A segunda será na CASACOR Rio, de 24 de outubro a 30 de novembro, no ambiente assinado pela arquiteta Paola Ribeiro, com seis fotografias fine art, registradas na Itália e Grécia.

 

O contato de Thomas com museus, galerias, exposições e artistas começou cedo. Ele herdou da família suas referências artísticas: é filho dos italianos Giuseppe Baccaro, galerista, negociante e leiloeiro de arte, e Fiorella Giovagnoli, restauratrice;  e foi enteado do diretor de cinema Hector Babenco e do fotógrafo Mario Cravo Neto. Aos 42 anos, já realizou mais de 22 exibições individuais de um total de 48 exposições das quais participou. Entre os prêmios, destaque para AI-AP Latin American Fotografía 3 (EUA, 2014); Mostra Istituzionale Forte Sangallo di Nettuno Contemporary Art (Itália, 2012); Prêmio Colunistas Norte e Nordeste (Brasil 2000 a 2008); e Museu de Arte Contemporânea de Americana (Brasil, 1998).

 

“Esta é a primeira vez que vou expor no Rio de Janeiro. Era um desejo antigo, pois meu pai teve muitas parcerias na cidade, sempre me falava muito do mercado carioca. Inclusive, estou a procura de uma representação na capital”, revela Thomas, que busca em suas viagens nacionais e internacionais a matéria-prima para suas fotografias. “Este ano fui a Itália e Marrocos, acabo de voltar de uma temporada em Galápagos e logo embarco para um trabalho em Minas Gerais”.

 

A exposição “Viver, Conviver & Reviver” – idealizada pelo programa Itaú Viver Mais, que promove o envelhecimento ativo, além de estimular a arte e a cultura – reúne mais de uma centena de fotografias de Thomas Baccaro. As imagens são acompanhadas pelos textos “A Arte De Ficar Mais Velho”, de Drauzio Varella, e “A Arte de ser Artista”, de Paulo Klein, produzidos com exclusividade para a mostra.

 

“Fazer cada um dos fotografados se sentirem especiais e belos, foi o objetivo deste ensaio. Quis que cada um pudesse viver mais esta experiência, entre tantas já vividas”, conta Thomas, que tem como uma das características de seu trabalho a facilidade de captar espontaneidade.

 

CASACOR: série fotografias clicadas na costa italiana e grega, no ambiente da renomada Paola Ribeiro

De 24 de outubro a 30 de novembro, no Porto Maravilha, acontece a 27ª edição da CASACOR Rio, mais relevante mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo do Brasil. Com exclusividade para a arquiteta  Paola Ribeiro, Thomas irá expor imagens registradas na Grécia e Itália (Sicília e Ligúria), com o tema “água”, já que o ambiente será um spa. Serão seis fotografias em três tamanhos: 1,40m x 1,40m, 60cm x 90cm e  1,10m x 1,65m.

 

“Esta é a sexta vez que participo da CASACOR, entre edições no Rio e São Paulo, junto com a Paola. Como o ambiente é um spa, selecionamos entre tantas outras, imagens de água e mar, transmitindo a ideia da paz e da calma através de tons verdes e azuis”, explica Thomas.

 

Modernismo Brasileiro em Portugal

O museu mais visitado de Portugal e um dos 100 mais visitados do mundo, segundo a The Art Newspaper, publicação internacional especializada em arte contemporânea, recebe exposição com 76 obras pertencentes à Coleção da Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza, CE, de 27 de outubro de 2017 a 11 de fevereiro de 2018. O Museu Coleção Berardo, em Lisboa, apresentará seleção das mais expressivas obras criadas por artistas brasileiros entre as décadas de 1920 e 1960. Com curadoria de Regina Teixeira de Barros e projeto expográfico de Daniela Alcântara, a mostra “Modernismo Brasileiro na Coleção da Fundação Edson Queiroz” faz parte da itinerância com exposições já realizadas na Pinacoteca de São Paulo; na Casa Fiat, em Belo Horizonte; na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre; no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba; e na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro.

 

 

A coleção na mostra

 

Ao longo dos últimos 30 anos, a Fundação Edson Queiroz (FEQ), mantenedora da Universidade de Fortaleza (Unifor), constituiu uma das mais sólidas coleções de arte brasileira, que percorre cerca de quatrocentos anos de produção artística com obras significativas de todos os períodos. Em 2015, a FEQ começou exposição itinerante por todo o Brasil, passando por São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro. A exposição dá a oportunidade para que mais pessoas conheçam um dos acervos de artes visuais mais importantes do Brasil, uma forma de disseminar e democratizar o acesso às artes. O tema da exposição “Modernismo Brasileiro na Coleção da Fundação Edson Queiroz” proporciona uma aproximação com as diversas vertentes, influências e movimentos da arte brasileira do início do século XX. “O recorte escolhido pela curadora possibilita também fazer as mais diversas associações entre a trajetória de nossos artistas e o contexto histórico e artístico internacional. Essas foram décadas marcadas por profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais em todo mundo”, frisa o vice-reitor de extensão da Unifor, professor Randal Pompeu.

 

No Museu Coleção Berardo, um dos destaques será a obra “Duas Amigas”, de Lasar Segall, pintura referencial da fase expressionista do artista. Por um lado, Segall emprega cores não realistas, imbuídas de valor simbólico, por outro, lança mão de princípios cubistas, simplificando as figuras por meio de planos geometrizados. A exposição percorre também os chamados anos heroicos do modernismo brasileiro, apresentando obras de Anita Malfatti, Antônio Gomide, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Ismael Nery, Vicente do Rego Monteiro e Victor Brecheret.

 

A segunda geração modernista, que desponta na década de 1930, está representada por artistas como Alberto da Veiga Guignard, Cândido Portinari, Ernesto De Fiori e Flávio de Carvalho. Deste período, merecem destaque as obras de Alfredo Volpi e José Pancetti que, além de comparecerem com um número significativo de obras na Coleção da FEQ, estabelecem uma transição entre a pintura figurativa e a abstração, apresentada na sequência.

 

O núcleo da exposição dedicado à abstração geométrica – tendência que desponta nos últimos anos da década de 1940 e se consolida na década de 1950 – abrange pintores do grupo Ruptura, de São Paulo, e artistas dos grupos Frente e Neoconcreto, ambos do Rio de Janeiro. Alguns dos nomes presentes nesse segmento são: Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Hélio Oiticica, Hércules Barsotti, Luiz Sacilotto, Lygia Clark e Willys de Castro, entre outros. Dois pioneiros da arte cinética participam deste segmento: Abraham Palatnik, com um objeto cinético, e Sérvulo Esmeraldo, com um “Excitável”.

 

Para a curadora Regina Teixeira de Barros, as histórias que delineiam a vizinhança física dos trabalhos artísticos das obras proporcionam diversas possibilidades, uma vez que muitas são as opções apresentadas a um só tempo. “O olhar pode vagar de uma pintura a outra, pendurada ao lado, instalada na parede oposta ou entrevista na sala seguinte. De uma única obra, podem-se desdobrar múltiplas narrativas, que se entrecruzam, se espelham, se confundem ou se confrontam à medida que o olhar avança, retrocede, salta ou recomeça”, ressalta.

 

A exposição encerra com a produção das décadas de 1950 e 1960, revelando uma diversidade de expressões artísticas, tão evidentes nas obras de Ivan Serpa, Tomie Ohtake e Iberê Camargo, quanto nas proposições radicais de artistas que haviam participado do movimento neoconcreto carioca. Trata-se do momento em que uma completa revisão de paradigmas se opera e a arte nacional toma novos rumos, aproximando-se da chamada arte conceitual. A exposição reúne ainda uma seleção de artistas que não aderiram a nenhum grupo da época, mas que adotaram uma linguagem abstrato-geométrica singular, mesclando-a com certo lirismo. Destacam-se, nessa seção, os pintores Antônio Bandeira, Maria Helena Vieira da Silva e Maria Leontina.

Oficina de Fotografia

Mostra na Biblioteca Pública do Paraná, que inaugura no próximo sábado, dia 21, fica em cartaz até 30 de dezembro. “Te empresto meus olhos”, mostra produzida por deficientes visuais da Oficina de Fotografia de Juliana Stein, integra Bienal de Arte de Curitiba.

 

No lugar da retina, a emoção dos sentidos; no enquadramento do foco, a percepção do ponto ideal. O resultado dessa especial forma de captar a imagem está na exposição “Te empresto meus olhos”, que inaugura no próximo sábado, dia 21, e fica em cartaz até 30 de dezembro no saguão da Biblioteca Pública do Paraná. A experiência da imagem, seus modos de aparição e produção são o fio condutor do trabalho desenvolvido pela fotógrafa Juliana Stein, que realiza Oficinas de Fotografia para pessoas com deficiência visual desde 2015.

 

– Essa é uma exposição que resulta de nossas formas de experimentação nos campos da fotografia e percepção de mundo. O nome “Te empresto meus olhos” vem do interesse em observar certas práticas e usos que fazemos dos nossos processos de ver. A pessoa com deficiência visual não vê como eu vejo mas eu também não vejo como ela vê, esclarece Juliana Stein.

 

A mostra apresenta fotos em dimensões variadas. Entre os artistas, alunos que acompanham a oficina desde a primeira edição, como Isabel Bruck, Wagner Bittencurt, Antônio Nunes e Anastácio Braga, e também imagens de novos alunos, como Adriana Barbosa.

 

– Cada um de nós vem descobrindo e aprimorando formas de experienciar a fotografia, do toque do que está sendo fotografado e da noção espacial, à presença e ausência de luz, relata Adriana Barbosa.

 

 

A Oficina 

 

Voltada para deficientes visuais parciais ou totais, a Oficina de Fotografia para Pessoas com Deficiência Visual funciona desde 2015. Os alunos não precisam ter equipamento fotográfico, apenas um celular com câmera. “Nos colocamos na abertura para invenção e nas diferenças de mundo entre quem não vê e quem vê”, destaca a idealizadora do curso, Juliana Stein. Para enxergar, pode-se ir muito além da visão biológica, utilizando os próprios sentidos como aliados. As oficinas de fotografia têm sido marcadas pela riquíssima troca de ideias e experiências entre os participantes do grupo. Os objetivos envolvem a descoberta de novas formas de ver o mundo, como explica Juliana Stein.

 

 

A artista 

 

Juliana Stein nasceu em Passo Fundo/RS, formou-se em Psicologia pela UFPR em 1992, viveu por dois anos em Firenze e Veneza (onde estudou história da arte, técnica em aquarela e desenho) e trabalha com fotografia desde o final dos anos 1990. Com uma obra amplamente reconhecida no Brasil e no exterior, participou da 55a Bienal Internacional de Veneza, da 29a Bienal de São Paulo e expôs na Crone Gallery em Berlim, na ShangART Gallery em Xangai e no Carreau du Temple, em Paris. Atualmente exibe a mostra “Não está claro até que a noite caia”, no MON (Museu Oscar Niemeyer), na Bienal de Arte de Curitiba.

 

Abertura: Sábado, dia 21/10, às 11h

 

Visitação: Segunda a sexta-feira, das 8h30 às 20h | Sábados, das 8h30 às 13h

Circuitos da Bienal de Arte de Curitiba                                               

 

 Até 30 de dezembro no saguão da Biblioteca Pública do Paraná.

 

22 anos da Ricardo Camargo

16/out

Em comemoração a seus 22 anos, a Ricardo Camargo Galeria, Jardim Paulistano, São Paulo, SP, exibe as exposições “Ismael Nery” e “Recorte Modernista”. A exposição coletiva “Recorte Modernista” apresenta ao público um recorte amplo do Modernismo Brasileiro: são 40 obras de um período que teve início com a famosa mostra de Anita Malfatti, em 1917, e que seguiu até o começo do abstracionismo com Antônio Bandeira, nos anos 1950. Di Cavalcanti, Tarsila, Portinari, Volpi, Antonio Gomide e Lasar Segall são alguns dos artistas que preenchem o espaço entre esses dois extremos que abraçam a arte moderna brasileira. Entre os destaques reunidos na Ricardo Camargo Galeria estão desenhos primorosos de Di Cavalcanti. Em “Carnaval” e “Três figuras com tambores” e “Bordel”, o artista cria um retrato amoroso, colorido e brilhante do país, distinguindo-se dos outros modernistas por seu calor e sensualidade. Clima semelhante encontra-se em “Circo”, de Cícero Dias, e em “Parque de diversões”, guache e nanquim de Djanira da Mota e Silva, de seu período em Nova York.

 

Portinari se soma ao grupo com o guache “O espantalho” tema que é retomado e atualizado pelo artista dois anos depois, em “Espantalho”, em Paris, com maior influência, inclusive, das vanguardas da época. “Celebração cubista”, de Antonio Gomide, deixa clara a formação e longa vivência européias do pintor, que conheceu Picasso e começou sob a influência do Cubismo. Entre as raridades que compõem a mostra, está “Paisagem antropofágica com bicho”, grafite sobre papel de Tarsila do Amaral. Outra exceção à regra da exposição é uma obra de Diego Rivera, seu contemporâneo mexicano, com “Camponesa”. Antônio Bandeira encerra a exposição, sendo o único representante da corrente abstrata. Entre as pinturas apresentadas, estão “Montparnasse” e “Saint-Germain”.

 

O papel como suporte ganha cada vez mais relevância nos grandes museus e nas mais importantes coleções do mundo. “Um bom papel é mais importante, vale mais a pena que uma tela mediana. Enriquece-nos, em vez de apenas enfeitar uma parede”, afirma o marchand Ricardo Camargo, que assina a curadoria. Ainda segundo o curador, museus especializados, como o Albertina, em Viena, e o próprio Museu do Vaticano, têm coleções monumentais de papéis feitos há séculos e que resistem perfeitamente ao tempo.

 

Victor Brecheret marca uma das exceções à regra das mostras com a escultura “Dama Paulista”, representação de Olívia Guedes Penteado, incentivadora e mecenas de várias personalidades modernistas e uma das organizadoras da Semana de 22. “Além de, por sua qualidade, constituir uma obra para museus, aqui ela está absolutamente oportuna e justificada”, afirma o curador.

 

 

A palavra do curador

 

O papel dos modernistas

 

Sabe-se que em épocas de crise todos procuram estabilidade e segurança. Assim acontece também no mercado de arte, quando os colecionadores se voltam para os clássicos, os valores já firmados na história. Esta é uma exposição dos clássicos do modernismo no Brasil, entendendo-se modernismo em sentido amplo. Vai de Anita Malfatti, sua protomártir em 1917, até o começo do abstracionismo, com Antônio Bandeira, nos anos 1950. Entre esses extremos, os grandes nomes como Di Cavalcanti,Tarsila, Portinari, Volpi, Gomide, Segall e – constituindo na verdade uma sala especial,uma outra exposição em separado, com outro catálogo – Ismael Nery. Há muito tempo não se reúne um conjunto tão importante e expressivo do grande Nery, com 25 obras, das quais várias participaram de Bienais e exposições em museus. Para a galeria, ao completar 22 anos, é uma honra e um prazer fazê-lo.

 

As duas exposições constam de arte sobre papel – ora desenho propriamente dito,ora pintura (porque também se pinta sobre papel). No Brasil, percebemos que em geral o papel como suporte não tem, infelizmente, o prestígio que tem em todo o primeiro mundo e mesmo nas coleções brasileiras de maior importância. As de Gilberto Chateaubriand e de Hecilda e Sérgio Fadel, as mais completas e famosas, são ricas   em papeis. Creio que há um preconceito a cercar esse tipo de produção, supondo-se – inexatamente – que o papel é mais frágil, mais perecível, mais inadequado que a tela para a longa duração. É verdade que ele exige cuidados, mas a tela também: mal  conservada, ela se deteriorará. Museus especializados, como o Albertina, em Viena, e o próprio Museu do Vaticano, têm monumentais coleções de papeis feitos há séculos que resistem perfeitamente. Por outro lado, talvez exista também a falsa noção de que esteticamente a obra sobre papel é menos nobre, menos completa que a pintura ou a escultura. Isso nem precisa ser discutido. É uma ideia superada, já que hoje todas as hierarquias foram abolidas e as novas técnicas são mais numerosas que as antigas.Com certeza absoluta, um bom papel é mais importante, vale mais a pena, que uma pintura medíocre. Enriquece-nos, em vez de apenas enfeitar uma parede.

 

Há duas exceções às regras nesta mostra. Primeiro, a inclusão de um desenho-quase pintura de um não brasileiro da mesma época do nosso modernismo: Diego Rivera, o mais ilustre muralista mexicano. É que, tendo surgido a oportunidade de mostrá-lo, a galeria não poderia deixar passá-la: é um trabalho excepcional, de grande força expressiva.  Segundo, a presença de uma escultura de Victor Brecheret. Além de, por sua qualidade, constituir uma obra para museus, aqui ela está absolutamente oportuna e justificada. Trata-se de um retrato de Dona Olívia Guedes Penteado, a grande patrona do modernismo brasileiro. Certamente a aura dessa peça e a memória benfazeja de Dona Olívia trazem bons augúrios e contribuirão para o sucesso da exposição.

Ricardo Camargo

 

 

Até 18 de novembro.

Nós, os Gatos

O produtor cultural e artista plástico Marcio Meneghini, falecido este ano, era apaixonado por seu gato Cadu. Dessa paixão nasceu uma grande coleção de peças relacionadas ao mundo felino. Para homenagear Márcio, seu irmão, Écio Cordeiro de Mello, organizou a exposição “Nós, os Gatos”, que abre dia 17 de outubro no Parque das Ruínas, Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ.

 

Serão cerca de 100 peças sobre este bicho misterioso, dono de sete vidas. De brinquedos comprados em lojas de fast food até peças garimpadas em feiras de antiguidades pelo mundo, Marcio foi criando, pouco a pouco, um acervo que convida a todos a conhecerem um pouco mais sobre seu amor pelos animais de estimação. Um programa para toda a família, com classificação livre.

 

Se os gatos têm sete vidas, eles também têm muitas imagens. Pode ser Maneki Neko, o gato da sorte na cultura japonesa; ou Bastet, a personificação da deusa da fertilidade Antigo Egito; e ainda um personagem divino, muito comum nas culturas celta, persa e nórdica. O gato tem sua figura adorada em diferentes épocas, povos e culturas. Do melhor amigo das bruxas para companheiro fiel de Marcio Meneghini, esse animal felino é o tema central da exposição que tem entrada é gratuita e fica em cartaz até o dia 29 deste mês.

 

 

Sobre Marcio Meneghini – Por Cláudia Boechat

 

Um anjo endiabrado. Curioso, singular, querido. Assim era o Marcinho. Angelical por sua generosidade, alegria, solidariedade, carinho. Encapetado por suas travessuras e prazer de viver. Talvez por essas qualidades se apegou a um bichinho bem parecido com ele: o gato, sagrado e profano. Divino no Antigo Egito e favorito das bruxas; animal sensível e amoroso, além de famoso por suas traquinagens.

 

 

De 17 a 29 de outubro.

Na Silvia Cintra+Box4

Na exposição “Você vê os pássaros? Sempre quis que você visse os pássaros daqui”, sua primeira individual na galeria Silvia Cintra+Box4, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, o artista e poeta Omar Salomão irá apresentar uma série inédita de pinturas, esculturas, cadernos de desenhos e fotografias.

 

A mostra começa com uma fotografia de uma imagem de Iemanjá envolta numa concertina farpada, dessas usadas para a proteção de casas. Ao lado dela, quatro desenhos em azul escorrido, que foram molhados no mar e aonde se lê trechos de poemas. Em seguida vem o trabalho que dá título à exposição, uma série de desenhos em nanquim retratando pássaros em revoada. A concertina farpada ainda aparece em duas séries, “Guardar”, que são desenhos em nanquim dobrados, envoltos pela rigidez deste material e “Circuito de Afetos”, onde a concertina ganha cores fluorescentes e aparece atada em placas de madeira, plástico bolha e outros restos. As cores fluorescentes seguem nas séries “Síntese” e “Lance”.

 

O artista lança sobre compensados pintados vários dados e depois repinta a superfície formando uma pintura totalmente aleatória, apenas com a memória desses cubos. Esses mesmos dados pintados surgem depois em pequenas caixas de madeira, presas na parede, dando uma ideia de confinamento das possibilidades sugeridas pelo lance de dados. A exposição termina com a série “Quadro de Avisos”.

 

Os cadernos de Omar, que são tanto processo quanto obra final, aparecem trancados dentro de quadros de avisos com chave, podendo ser abertos ou não.

 

 

Sobre o artista

 

O poeta e artista Omar Salomão nasceu em 1983. Em 2017 lançou “Pequenos Reparos”, pela Editora José Olympio, seu terceiro livro. Participou de diversas exposições como a 3ª Bienal da Bahia, 18º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil e da individual “Nebula: a sombra de nuvens manchando a cidade”, no OI Futuro Ipanema.

 

 

De 19 de outubro até 18 de novembro.

Individual de José Patrício

Até 18 de novembro, o Instituto Ling, Porto Alegre, RS, apresenta a exposição “Explosão Fixa”, que traz dezenove obras que perpassam os 40 anos de carreira artística do artista pernambucano José Patrício.

 

Com a curadoria de Eder Chiodetto, na mostra estão telas e instalações representativas do universo criativo de Patricio: empregando materiais diversos e banais – como tachas, botões, fios elétricos, dados e quebra-cabeças de plástico -, o artista remove o uso tradicional desses materiais e os reorganiza para criar intrincados mosaicos que exploram a dimensão lúdica do cotidiano. A exposição apresenta também um conjunto de fotografias inéditas.

 

Conhecido principalmente por suas instalações de chão da série “Ars combinatória”- composta por milhares de peças de jogo de dominó -, José Patrício é influenciado pelos movimentos artísticos geométrico e concreto brasileiros. O artista fundamenta seus trabalhos em combinações numéricas lógicas, sugerindo que mesmo a mais rígida das fórmulas matemáticas tem o potencial de conter sua própria expressividade. Dessa forma, sua obra enfatiza a relação frágil entre ordem e sua possível dissolução. Para Chiodetto, Patrício “cria um lugar original no campo da arte, na fronteira entre a pintura, o desenho e a assemblage” e realiza “um exercício libertário, uma nova e inspiradora forma de ser e estar no mundo”.

 

Quanto ao conjunto de fotografias inéditas, o curador sinaliza uma nova postura do artista: “Ao sair do ateliê, onde trabalha incessantemente na construção de suas obras, para percorrer o mundo como um andarilho errante que porta uma máquina fotográfica, seu olhar se volta para a cultura popular, as vitrines e momentos de tensão entre forma, luz e arroubos cromáticos”. Organização: Instituto Ling. Patrocínio: Crown. Realização: Ministério da Cultura e Governo Federal.

Lais Myrrha na Athena

05/out

A galeria Athena Contemporânea, Copacabana, Shopping Cassino Atlântico, Rio de Janeiro, RJ, apresenta, a partir do dia 10 de outubro, “Lais Myrrha – Cálculo das diferenças”, exposição individual com cinco obras recentes e inéditas da artista mineira radicada em São Paulo. Na mostra, serão apresentadas instalações, esculturas e uma fotografia, que se relacionam entre si e tratam da questão da arquitetura e da temporalidade. Todas as obras – com exceção de uma, que é de 2016 – foram produzidas este ano, dando uma dimensão da mais recente produção da artista, que foi um dos destaques da última Bienal Internacional de São Paulo e cujo trabalho atualmente integra a exposição “Condemned to be Modern”, no Los Angeles Municipal Art Gallery (LAMAG), nos EUA.

Em todas as obras é clara a presença da arquitetura e da construção, assim como a questão da temporalidade, seja na ação que o tempo irá exercer sobre o trabalho, transformando-o em algo novo com o passar dos dias, seja na ação que aconteceu e foi “paralisada” pela artista, fazendo o público ver o resultado do que ocorreu no passado. A pesquisa recente de Lais Myrrha sobre os materiais usados na construção civil, como tijolos, cimento e madeira, se desdobra em algumas obras da mostra. Esses materiais cotidianos ganham uma nova significação na produção da artista, cujo interesse, em linhas gerais, é desestabilizar as convenções materiais, políticas e ideológicas que delimitam a vida social, pessoal e política. Os trabalhos presentes nesta exposição destacam um processo desconstrutivo vigente. “Os trabalhos contrastam porvir e ruína; a memória do que poderíamos ter sido e não fomos; a consciência do fracasso que se percebe finalmente como delírio”, afirma a crítica de arte Heloisa Espada, no texto que acompanha a exposição.

 

“Nos últimos anos, venho trabalhando a noção de impermanência e da história, assim como a precariedade dos conceitos de equivalência e equilíbrio. Um elemento importante no meu processo de criação é a escolha e o uso preciso dos materiais, da capacidade que eles têm de produzir signos, funcionando como condensadores de narrativas”, afirma LaisMyrrha.

 

 

Trabalhos em exposição

 

Quatro módulos de vidro compõem a instalação “Cálculo das diferenças” (2017), que dá nome à exposição. Dentro de cada um deles há a mesma quantidade de tijolos inteiros e tijolos quebrados e peças de madeira inteiras e queimadas. “O volume muda quando o material é quebrado ou queimado. O volume do tijolo aumenta e o da madeira diminui”, explica a artista, que relaciona esse trabalho com o valor das culturas na atualidade. Tijolos e madeiras não são meros materiais, mas servem para destacar aspectos importantes sobre a relação entre ruína e história, sobre ruína e valor, cultura e valor. A madeira é reduzida a cinzas enquanto os tijolos a cacos e a pó. Sendo assim, as cinzas ocupam uma fina camada, quase imperceptível da caixa de vidro, os cacos de tijolos ultrapassam o limite dado pela caixa de vidro. As cinzas se diluem e desaparecem misturadas à terra, ao passo que os fragmentos de tijolos podem sobreviver por milênios. “O material bruto, em estado de devir, é confrontado com sua inutilização e sua morte. A equação lida com o que é inconstante e contingente, humano, epotencialmente desleal. As ideias de projeto e escombro – apresentadas por meio de materiais em estado transitório – se conformam em espaços idênticos que podem assumir o papel de caixa ou de caixão”, diz Heloisa Espada.

Produzida no ano passado, a obra “Corpo de Prova”” é composta pelas próprias amostras de cimento, uma peça fundida em bronze e uma aquarela. Corpo de prova é a amostra do concreto endurecido, especialmente preparada para testar propriedades como resistência à compressão. A artista se apropria desses materiais descartados pela construção civil e cria um empilhamento com esses objetos, tal como o desenho da aquarela apresenta. Quando algum deles cai no chão, ela o deixa no exato lugar da queda e funde em bronze os demais que resistiram ao empilhamento. “A ação realmente aconteceu, mas você não a vê, o que é mostrado é apenas o projeto e seuresultado”, diz a artista.

 

Quatro placas:uma de granito preto, uma de mármore branco, uma de cimento e outraterra compõe outra obra da exposição. As placas são colocadas lado a lado, com um friso que passa por elas, criando uma linha que atravessa todas as placas. Com o tempo, a linha deixa de ser contínua, pois cada um dos materiais resiste ao tempo de uma forma. “O trabalho vai ser completado pelo tempo, a linha será descontinuada”, conta a artista.

 

Na parede, estará a obra “Soma não nula”, composta por quadrados de ouro medindo um centímetro quadrado e pesando um grama cada, sobre os quais 1 grama de póé distribuído. “Quanto mais passa de um quadrado para outro, mais vai diminuindo a quantidade de pó e aparecendo mais o ouro”, explica a artista. Ela acrescenta, que é a mistura de elementos o pó de vidro e a liga acrescentada ao ouro é o que permite que esses materias possam ganhar forma: “em estado puro, esses elementos são informes”.

 

Completa a exposição a fotografia “Estrutura” (2017), que foi tomada quando filmava o vídeo Delírio, comissionado pelo MASP para exposição Avenida Paulista nesse ano. Mais uma vez, aparece uma coluna numa situação e nesse caso, enquadrada por uma geometria que reforça a fragilidade e instabilidade.

 

Sobre a artista

 

Lais Myrrha nasceu em Belo Horizonte, MG, em 1974. Vive e trabalha em São Paulo. É doutoranda em artes visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.Recebeu diversos prêmios, entre eles, Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio2013, Paço Imperial/ Minc/IPHAN; Bolsa Estímulo à Produção em Artes Visuais Funarte, 2012; Prêmio Atos Visuais – Funarte – Brasília, e Prêmio Projéteis – Funarte – Rio de Janeiro, ambos em 2007. Dentre suas principais exposições individuais estão: “Reparation of Damages” (2017), na Broadway 1602, em Nova York, EUA; “Corpo de Prova” (2017), no Sesc Bom Retiro, em São Paulo; “Entre-Tempos” (2014), no Sesc Palladium, em Belo Horizonte; “Projects on Ashburn, Other Coordenates” (2014), no College Station, Texas, EUA; “Zona de Instabilidade”, na Caixa Cultural Brasília (2014) e na Caixa Cultural São Paulo (2013); a mostra no Paço das Artes, em São Paulo (2011); as mostras na Funarte do Rio e de Brasilia (2008), entre outras. Dentre suas exposições coletivas mais recentes estão: “Live Uncertainty” (2017), na Fundação Serralves, em Portugal; “Encontros no Espaço” (2017), na Funarte Belo Horizonte; “Travessia 5: Emergência” (2017), no Galpão Bela Maré, Rio de Janeiro; “Metrópole: Experiência Paulistana” (2017), na Estação Pinacoteca, em São Paulo; “Avenida Paulista”, no MASP, em São Paulo; “Re-effecter Matter” (2017), na Galleri Susanne Ottesen, na Dinamarca;  “32º Bienal de São Paulo: Incerteza Viva” (2016); “Brasil, Beleza?!”, no Museum Beelden aan Zee, na Holanda; “Quando o Tempo Aperta” (2016), no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, e no Palácio das Artes, em Belo Horizonte; “Empresa Colonial”, na Caixa Cultural São Paulo; “Emergency Measures – Power Station” (2015), nos EUA; “Quarta-feira de cinzas” (2015), no Parque Lage, Rio de Janeiro; Exposição dos artistas finalistas do Prêmio Marcantônio Vilaça (2015), no MAC-USP, São Paulo, entre outras.

 

 

Sobre a galeria

 

A  Athena Contemporânea foi fundada em 2011 pelos irmãos Eduardo e Filipe Masini como um espaço inovador de criação, discussão e divulgação de arte contemporânea. Mais do que um espaço expositivo, a galeria se posiciona como lugar de pesquisa, de aprofundamento conceitual e de trocas artísticas, buscando sempre iniciativas inovadoras. A galeria vem se firmando como uma das mais destacadas no cenário brasileiro, representando conceituados e promissores artistas nacionais e internacionais, e investindo em parcerias com curadores e instituições para o desenvolvimento da carreira de seus artistas.

 

 

De 10 de outubro a 11 de novembro.

Gerty Saruê & Antonio Lizárraga

02/out

Pertencentes à mesma geração, as produções de Gerty Saruê e Antonio Lizárraga expostas na galeria, se desdobram entre desenhos, esculturas em metal, pinturas, monotipias, fotografias e colagens. Em cartaz até 14 de novembro, a mostra sintetiza signos da vida moderna, numa relação entre a plástica e o visual das contradições de uma metrópole.

 

O processo de industrialização da segunda metade do século XX no Brasil, a promessa do futuro redentor, aliado aos lemas da ordem e do progresso, as contradições entre o indivíduo e a sociedade, verbalizadas por códigos e linguagens visuais e gráficas, que desestabilizam o estado atual das coisas; assim, podemos definir brevemente as aproximações entre os trabalhos dos artistas Gerty Saruê e Antonio Lizárraga, que podem ser conferidos a partir do dia 07 de outubro, sábado, 14h, na Galeria Marcelo Guarnieri, unidade Jardins, São Paulo, SP. A mostra destaca obras dos anos 60 aos anos 2000, com técnicas como desenho, escultura em metal, pintura, monotipia, fotografia e colagem.

 

 

Sobre a artista

 

Nascida na Áustria, criada na Bolívia, e com residência a partir de 1954 na cidade de São Paulo, Gerty Saruê, desde cedo percebeu a necessidade em aprender outras línguas. Deste deslocamento geográfico e da linguagem, o encontro com uma cidade em vias de expansão e industrialização – a SP da década de 50 – nasce o olhar para os aspectos materiais e visuais dessa nova dinâmica que se desenhava, entre o frenesi do ritmo da cidade, e o estranhamento por parte de seus habitantes. As engrenagens das máquinas, as ferramentas dos trabalhadores, as planilhas e os diagramas, as plantas urbanísticas, os materiais de escritório, os números e os letreiros infinitos, aparecem em sua produção transfigurados pelo desejo incessante de uma linguagem própria, que encontra sua formalidade em técnicas como colagens, desenhos, gravuras ou fotografias.

 

Superposições e sobreposições, a utilização de materiais descartados e a utilização de signos inexpressivos e impessoais da vida cotidiana, criam uma “gramática” visual própria no trabalho da artista, num diálogo com o seu tempo histórico, e sua figuração em formas, texturas, materiais, e novos arranjos.

 

Algumas obras destacam a multiplicidade de interesses formais desta “nova língua”, como Sem Título, de 1967, uma assemblage em madeira, com peças enferrujadas, que sofreram processo de oxidação, e que, agora, questionam o movimento inerente das coisas e da vida, mas, também, a lógica do consumo produtivista. Burocráticas, de 1980, traz a desordem gráfica, para contestar a aparente ordem desejada, após 30 anos do início da industrialização no país. Síntese, sem fechar a discussão, dos signos e emblemas do momento vigente à época, com crise econômica na América Latina, queda do PIB e inflação, Burocráticas, como em outras obras, é o decalque invertido de uma sociedade. Como se tudo estivesse fora da ordem, e os objetos produzidos pela artista fossem “registros fósseis invertidos de uma sociedade tão preocupada em ordenar e progredir”, sua linguagem se distende como como arqueologia do nosso passado, e cartografia como leitura do presente no instante do acontecimento da obra.

 

 

Sobre o artista

 

Argentino de origem, naturalizado brasileiro desde fins da década de 50, Antonio Lizárraga foi um dos artistas mais proeminentes e múltiplos da sua geração. Designer, programador visual, ilustrador, pintor, escultor e um dos primeiros a realizar intervenções no espaço público, na cidade de SP, colaborou até 1967, como ilustrador para o Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo.

 

Para a mostra da Galeria Marcelo Guarnieri, o fascínio pelo maquinário moderno de escalas monumentais, como escavadeiras e guindastes, projetos urbanísticos de grandes avenidas, aparece acompanhado do interesse pelo acidental, pelo erro, pela ruína, articulando, em suas obras, o orgânico e o mecânico. Em Cubos/Sem Título, de 1990, ao cortar as superfícies, novos planos e estruturas surgem, num objeto tridimensional.

 

Apontado pela crítica de arte como uma das referências da pintura brasileira contemporânea, seja pelo seu particular método de trabalho e processo criativo desenvolvido após um acidente vascular cerebral (AVC), ou a resistência à arte concreta da década de 60, e a necessidade em se manter fora de grupos e escolas, caracterizando assim uma produção crítica e autônoma.

 

Após o AVC, o artista perdeu parcialmente os movimentos das pernas e dos braços, produzindo, a partir daí, os desenhos ditados, série de trabalhos que se materializavam por meio da ação de outras pessoas que operavam a partir das orientações e comandos que Lizárraga emitia por meio da voz. Antes dos desenhos ditados, porém, vieram os poemas ditados, e talvez, a melhor ilustração sobre como se relacionava Lizárraga com a definição – ou expansão – da ideia de limite, seja mesmo dada por um deles: “existe um homem que constrói mirantes para os peixes começarem a gostar do mar”.