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AGENDA CULTURAL

José Bechara em “Fluxo Bruto”

20/jul

Exposição no Salão Monumental do MAM, Parque do Flamengo, Rio, com trabalhos inéditos, celebra os 60 anos do artista, e sua trajetória iniciada em 1992.  A exposição “Fluxo Bruto”, com abertura no dia 25, com trabalhos inéditos de José Bechara, celebra seus 60 anos e sua trajetória iniciada em 1992. A curadoria é de Beate Reifenscheid, curadora e diretora do Ludwig Museum, Koblenz, Alemanha.

 

No próximo dia 27 de julho, das 15h às 18h, haverá uma conversa gratuita e aberta ao público, com o artista e os curadores Beate Reifenscheid, Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, curadores do MAM Rio. A distribuição de senhas será feita a partir das 14h, na bilheteria do Museu. A palestra será ministrada em língua inglesa, sem tradução. Capacidade 50 pessoas.

 

A mostra reúne trabalhos tridimensionais em grande escala, realizados em alumínio, mármore, madeira e vidros planos, além de pinturas sobre lona. O conjunto é formado por trabalhos inéditos, alguns deles desenvolvidos a partir de obras anteriores, que ganharam “novas ativações, contaminados pelas demais peças e pelo espaço arquitetônico”, comenta o artista.

 

José Bechara diz que “Fluxo Bruto” propõe uma “mirada para trabalhos em permanente alteração. Em estado bruto, esses trabalhos movimentam-se no curso da produção, e devem se concluir na obra a seguir”. “Com exceção das pinturas, todos os demais trabalhos serão ‘construídos’ no espaço expositivo durante os dias de montagem, a partir de escolhas frente às relações espaciais e de vizinhança entre as obras”, explica o artista. Na grande parede branca do Salão Monumental, com trinta metros de comprimento, estarão três diferentes trabalhos com vidros planos, pertencentes ao que o artista chama de “pesquisa recente”.

 

Beate Reifenscheid afirma que “José Bechara é um dos artistas mais interessantes da cena de arte contemporânea brasileira. Iniciou a carreira como pintor, com uma forma de linguagem radicalmente reduzida, compromissada, ainda hoje, com a arte concreta no sentido mais amplo da palavra. São a sua noção e o seu entendimento profundos das estruturas construtivas que formam o esqueleto interno de suas pinturas, que modulam cores num tipo de espaço flutuante, ilimitado”. Ela observa que “fica claro também que o foco do artista está sempre em penetrar o espaço e compreender suas dimensões em percepção. O concreto e o não concreto estão fundamentados diretamente no nível das perspectivas possíveis”. A curadora destaca que “na arte contemporânea, o vidro é um material recém-explorado e artistas famosos, como Pierre Soulages, Gerhard Richter e Ai Weiwei, fizeram experiências com ele. As obras em vidro de José Bechara salientam a percepção conceitual do construtivismo brasileiro e a transferem para uma abordagem contemporânea”.

 

O primeiro, “Rabiscada”, utilizará cerca de dez placas – transparentes e leitosas – algumas suspensas e outras apoiadas no piso com cerca de 3,5m de altura e 10m de largura. Em meio às placas, uma linha geométrica formada por cerca de 20 varas finas, com 2m cada, na cor laranja percorrerá toda a extensão do trabalho desenhando por vezes à frente, por trás e também suspensas ou apoiadas na parede.

 

O segundo trabalho em vidro, “Sobre brancos”, abrange quatro placas de vidro suspensas contra a parede branca principal do Salão monumental. A obra contém outros elementos de “variados tons de branco, incluindo papel vegetal e finas lâmpadas brancas de neon também na cor branca”.

 

O terceiro trabalho em vidro, com o título provisório “ ngelas”, é o que exigirá maior logística na montagem, e demandará um guindaste para içar ao local expositivo três esferas maciças de diferentes mármores, pesando a maior cerca de 1,6 tonelada e as duas menores 250 kg cada, aproximadamente.  Todos os elementos (vidros e esferas) estarão suspensos a alturas entre 2 metros e 30 cm do piso.

 

Na grande parede de concreto, ao fundo do Salão monumental, estará uma nova versão da peça “Miss Lu Super-Super (2009-2017)”, que terá sua volumetria ampliada e ganhará elementos “intrusos” também em alumínio, chegando ao tamanho aproximado de 10m X 10m X 3m.

 

Na parede que faz face ao terraço, estarão três pinturas inéditas de aproximadamente 1,7m0 X 3,30m cada, além de um díptico “Visto de frente é infinito“, de cerca de 1,80m X 5m, pertencente à coleção Dulce e João Carlos Figueiredo Ferraz, e outras duas pinturas da coleção Gilberto Chateaubriand/MAM Rio.

 

Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, curadores do MAM, observam no texto que acompanha a exposição, que os trabalhos de José Bechara, em alumínio, mármore, madeira, placas de vidro, tinta e oxidação de emulsões de cobre e ferro, são “tridimensionais que se confundem com pinturas, bidimensionais que se aproximam de esculturas”. “Trabalhos inéditos por estarem, de fato, sendo vistos pela primeira vez ou por reunirem peças realizadas em anos anteriores em outros arranjos, como a ampliação da volumetria original ou a adição de elementos intrusos, pensados a partir da relação com o espaço arquitetônico ou do diálogo com o conjunto da exposição”, comentam.

 

 

Trajetória

 

José Bechara iniciou sua trajetória com uma exposição individual no Centro Cultural Candido Mendes, no Rio de Janeiro, em 1992, mesmo ano em que integrou as coletivas “Gravidade e Aparência”, e “Diferenças”, ambas no Museu Nacional de Belas Artes, e “9X6”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, todas no Rio de Janeiro.

 

“Só me lembro dessa coisa de 25 anos de trabalho quando alguém me pergunta. Como todos os dias acontece alguma coisa nova, tem sempre um ‘acidente’ novo no ateliê, eu não penso nisso. Dou mais atenção ao que pode acontecer do que o que aconteceu. Todo dia se parece com o primeiro dia. Quanto à idade, é a mesma coisa, já que todo dia tenho um novo plano. Estou sempre pensando em fazer alguma coisa que precisa de  tempo pra ser feita, então acho que não tenho muito interesse em idade. Tenho uma leve obsessão pelo porvir. Ainda”, diz o artista.

 

José Bechara se programa para participar, em setembro, da Bienalsur, em Buenos Aires, em outubro, da Bienal de Beijing, e em dezembro apresentará uma individual na galeria norte-americana Diana Lowenstein, por ocasião da Art Basel Miami. Em fevereiro de 2018, fará um projeto especial para a galeria XF Projects, em Madri. O artista expôs este ano em Portugal, com curadoria de Miguel Sousa Ribeiro, no Espaço Adães Bermudes, em Alvito, no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, e no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra. Esteve presente na ARCO 2017 (Feira de Arte Contemporânea), em Madri, nos espaços da galeria espanhola XF Projects (Palma de Maiorca e Madri), e das galerias portuguesas Mario Sequeira, na cidade de Braga, e Carlos Carvalho, em Lisboa. Em 2016, integrou a exposição “(In) Mobiliario”, na Galeria Habana, em Havana; “The agony and the ecstasy – Latin American art in the collections of Mallorca; A review based on contemporaneity”, no Museo d’Art Modern i Contemporani de Palma, em Palma de Mallorca, Espanha; “Este lugar lembra-te algum sítio? – 1º momento”, no Centro para os Assuntos de Arte e Arquitetura, Guimarães, Portugal; e a premiada “Em polvorosa – Panorama das Coleções MAM Rio”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em novembro de 2015, o Ludwig Museum fez uma grande individual do artista, com curadoria de Beate Reifenscheid.

 

 

Minibio de José Bechara

 

José Bechara nasceu no Rio de Janeiro em 1957, onde trabalha e reside. Estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), localizada na mesma cidade. Participou da 25ª Bienal Internacional de São Paulo; 29ª Panorama da Arte Brasileira; 5ª Bienal Internacional do MERCOSUL; Trienal de Arquitetura de Lisboa de 2011 e das mostras “Caminhos do Contemporâneo” e “Os 90” no Paço Imperial – RJ. Realizou exposições individuais e coletivas em instituições como Fundação Eva Klabin–BR; Culturgest – PT; Instituto Figueiredo Ferraz–BR; Fundação Iberê Camargo – BR; MEIAC – ES; Instituto Valenciano de Arte Moderna – ES; MAM Rio de Janeiro – BR; MAC Paraná – BR; MAM Bahia – BR; MAC Niterói – BR; Instituto Tomie Ohtake – BR; Museu Vale – BR; Ludwig Museum (Koblenz) – DE; Haus der Kilturen der Welt – DE; Ludwig Forum Fur Intl Kunst – DE; Kunst Museum – DE; Museu Brasileiro da Escultura (MuBE) – BR; Centro Cultural São Paulo – BR; ASU Art Museum – USA; Museo Patio Herreriano (Museo de Arte Contemporáneo Español) – ES; MARCO de Vigo – ES; Es Baluard Museu d’Art Modern i Contemporani de Palma – ES; Carpe Diem Arte e Pesquisa – PT; CAAA – PT; Musee Bozar – BE; Museu Casa das Onze Janelas – BR; Casa de Vidro/Instituto Lina Bo e P.M. Bard –  BR; Museu Oscar Niemeyer – BR; Centro de Arte Contemporáneo de Málaga (CAC Málaga) – ES; Museu Casal Solleric – ES; Fundação Calouste Gulbenkian – PT; entre outras. Possui obras integrando coleções públicas e privadas, a exemplo de MAM Rio de Janeiro – coleção Gilberto Chateaubriand – BR; Pinacoteca do Estado de São Paulo – BR; Museu Oscar Niemeyer – BR; Centre Pompidou – FR; Es Baluard Museu d’Art Modern i Contemporani de Palma – ES; Instituto Figueiredo Ferraz – BR; MAC Niterói –  Coleção João Sattamini – BR; Instituto Itaú Cultural – BR; MAM Bahi – BR; MAC Paraná – BR; Ludwig Museum (Koblenz) – DE; Culturgest – PT; Benetton Foundation – IT; CAC Málaga – ES; ASU Art Museum USA; MOLAA – USA; Ella Fontanal Cisneros – USA; Universidade Cândido Mendes – BR; MARCO de Vigo – ES; Brasilea Stiftung – CH; Fundo BGA – BR.

 

 

Sobre Beate Reifenscheid  

 

Beate Reifenscheid é historiadora da arte, crítica de arte e curadora, especializada em Arte Contemporânea e Arte do século XX, relações artísticas entre Europa e China, e no papel dos museus e suas exposições. Estudou História da Arte, Estudos Alemães, Jornalismo e Comunicação na Ruhr-University, em Bochum, Alemanha, e na Universidade de Madri, Espanha. Em 1985 se tornou Mestre em Arte, e em 1988 recebeu seu PhD em História da Arte, pela Ruhr-University Bochum. Integrou de 1989 a 1991 a equipe do Saarland Museum, em Saarbrücken, Alemanha, onde chefiou, de 1991 a 1997, o Departamento de Pinturas e Desenhos, e também o de Departamento de Comunicação. Desde 1997 é diretora do Ludwig Museum, em Koblenz, Alemanha, e desde 2000 profere conferências em diversas instituições. É, desde 2013, professora honorária na Universidade de Koblenz-Landau, na Alemanha. Preside o ICOM (Comitê Internacional de Museus) da Alemanha.

 

 

 

De 26 de julho a 05 de novembro.

A arte de Eduardo Kac

19/jul

A Luciana Caravello Arte Contemporânea, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, mostra a inédita exposição “Em órbita : Telescópio interior”, de Eduardo Kac. Um impacto espacial na arte contemporânea nacional. O artista projetou a primeira obra de arte internacional no espaço, senão escândalo, polêmica, surpresa absoluta, o talento de Eduardo Kac mostra-se mais vez em sua total originalidade criativa.

 

 

O telescópio interior de Eduardo Kac

Por Eleanor Heartney (*)

 

A trajetória da ciência ocidental poderia ser escrita como uma história do desejo ou das tentativas de a humanidade se livrar de restrições externas. De Copérnico a Galileu até Newton e Einstein, o cenário de um mundo fixo dirigido pela Lei Divina evoluiu para outro no qual a matéria, o espaço e o tempo são mutáveis, e se interpenetram e transformam uns aos outros. Nesta narrativa, a força da gravidade é uma das limitações mais poderosas impostas sobre a humanidade, pois exerce não somente uma força física, que literalmente nos prende no chão, mas também uma força metafórica que determina os limites e a direção do possível. O nosso mapa-múndi, por exemplo, tem uma parte de cima e uma parte de baixo, alinhado de norte a sul, como se o nosso globo suspenso realmente tivesse uma correta orientação. Considere-se também a língua escrita, que vai se desenrolando em intervalos fixos de espaço e de tempo, mais uma vez como se houvesse uma orientação correta ou incorreta.

 

Mas, e se as restrições da força da gravidade pudessem ser suspensas – como de fato ocorre quando estamos fora da Terra? Uma experiência radical de percepção humana está atualmente sendo realizada a bordo da Estação Espacial Internacional, na qual astronautas de várias nacionalidades realizam diversos experimentos científicos. Operando numa zona livre da força da gravidade, a Estação Espacial é um ambiente onde é possível se livrar de limitações físicas, geopolíticas e disciplinares. Nesse processo podemos perguntar pela primeira vez: São possíveis novos tipos de experiência humana? Será que, sem a força da gravidade, a humanidade conseguiria superar certas divisões que foram, durante muito tempo, consideradas inevitáveis?

 

Telescópio Interior de Eduardo Kac aborda tais questões. A obra é parte de questionamentos de longa data acerca do que o artista chama de Space Poetry (Poesia Espacial) e foi realizada por Thomas Pesquet na Estação Espacial Internacional em 2017. A obra tem uma forma radicalmente concisa: é composta de duas folhas de papel cortadas e modeladas para formar uma palavra com três letras: MOI (significando “eu” em francês). Para criar o M, a primeira folha é dobrada e cortada de tal maneira que, de uma perspectiva, sugere o formato daquela letra, enquanto que de outra perspectiva parece uma figura humana. Um círculo cortado e removido no meio desta folha de papel transforma-se na letra O, e também é uma abertura pela qual se insere um cilindro formado a partir da segunda folha de papel. Este se torna ao mesmo tempo “eu” e “olho” (“I” e “eye” são homófonos em inglês) – formando um telescópio pelo qual uma variedade de visões podem ser vislumbradas. Observada de um outro ponto de vista, a obra evoca a imagem de um corpo humano com o cordão umbilical cortado, transformando o Telescópio Interior em uma escultura. Fisicamente produzido no espaço sideral (a obra não foi trazida da Terra), o MOI não tem parte de cima ou de baixo e pode ser orientado em qualquer direção. Como tal, fornece um modelo para uma consciência livre da força da gravidade e um sentido radicalmente novo de subjetividade.

 

Telescópio Interior agrega várias preocupações do artista. Estas incluem o seu interesse de longa data pelos aspectos visuais e cinéstéticos da poesia. Aqui, flutuando livremente no espaço, este poema é dirigido igualmente a públicos terrestres e celestiais. Como tal, está em diálogo com outras obras do artista que facilitam a comunicação entre espécies e entre formas orgânicas e inorgânicas de vida. Também dá continuidade às suas obras anteriores transmitidas ao espaço sideral numa tentativa de se comunicar com seres extraterrestres. E por superar quadros de referência estritamente prescritos, a obra continua a desenvolver o sonho de Kac de uma realidade em rede, onde a mutualidade substitui relações baseadas em hierarquias e poder. Telescópio Interior, portanto, expressa uma visão utópica que aponta para além das mentalidades apocalípticas que hoje em dia restringem o nosso pensamento. Kac, ao contrário, nos oferece uma visão otimista de um futuro expandido, a ser possibilitado pela readaptação da espécie humana.

 

(*) Crítica de Arte em Nova York e editora colaboradora das revistas Art in America e Artpress. Entre seus livros estão Art and Today, Postmodernism e Postmodern Heretics. Heartney é co-autora de After the Revolution: Women who Transformed Contemporary Art e The Reckoning: Women Artists in the New Millennium

 

De 20 de julho a 19 de agosto.

Mats Hjelm no MAM-Rio

Em sua primeira individual no Brasil, cartaz do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Parque do Falmengo, Rio, RJ, o artista sueco Mats Hjelm mostra videoinstalação “A Outra Margem”. O artista, com forte presença internacional, realiza sua primeira exibição individual no Brasil. Seu trabalho investiga a relação entre videoinstalação e cinema documental, tendo como temas recorrentes a relação da arte com movimentos de justiça social, e o entrelaçamento das pequenas historias particulares e das grandes narrativas globais. Em “A Outra Margem” (2017), especialmente concebida para o espaço do museu, Mats Hjelm propõe uma reflexão sobre o Atlântico como lugar de passagem, e suas histórias de diáspora e colonização. O trabalho discute a busca de identidade no percurso de volta a terra-mãe, e o mistério da libertação através da navegação para “outro” lugar. Mats Hjelm também tirou proveito do fato de o MAM estar localizado próximo ao mar, junto à Baía de Guanabara, aberta para o oceano Atlântico, que é o personagem principal da obra.

 

A videoinstalação em quatro canais, 45’, em loop, consiste em uma dupla projeção de sete metros de comprimento, em cada um dos dois lados de uma parede central do espaço expositivo. De um lado, o público verá imagens de água, mar, margens e costas de diversos pontos do Atlântico Norte e do Atlântico Sul. No outro lado, serão projetados ensaios visuais com depoimentos, imagens documentais, paisagens, textos, e música. Assim, a obra mistura cinema documental e narrativo em um trabalho de grande escala. Mats Hjelm introduz uma meditação sobre o mar ao utilizar, por exemplo, a peça “As Cinzas”, de Samuel Beckett (1959), escrita para rádio, em que um homem idoso tem alucinações com memórias do pai e o mar, ao passo que se recusa a abrir a porta para uma visita em sua casa. Tomado por alucinações nostálgicas e momentos de euforia, o velho representa para Mats a velha Europa em declínio tentando se ater a uma grandeza que não existe mais.

 

Em suas incursões recentes pela África ocidental, o artista vem investigando o percurso de movimentos afro-americanos na região, acompanhado a questão complexa da reconquista da identidade ancestral africana dentro de um contexto pós-colonial.  Desde o início de sua trajetória, os direitos civis americanos são temas de seu interesse, e o trabalho mostrado no MAM se inscreve dentro do debate de resgate da memória da escravidão na atualidade. Outro tema latente de seus trabalhos é a relação de interdependência entre África e Europa, e música e imagem são elementos usados por Mats Hjelm nesta instalação para comentar o assunto.  A Europa em delírio simbolizada por Beckett definha diante da vitalidade e jovialidade do novo mundo. Mats se interessa tanto pela África ancestral (como se vê na trilha musical do filme que usa música milenar do Mali, com o instrumento khora) tanto na nova África que surge após os movimentos de descolonização ou guerras civis, como no caso da Libéria. No filme, Mats revela algumas das contradições e as violências do colonialismo de forma poética. Isto sempre com o mar ao fundo, e a água como elemento comum. Nesse filme alternam-se imagens da Europa, Libéria, Detroit, e as praias do Rio de Janeiro – lugares que Mats Hjelm tem percorrido nos últimos anos com seus projetos de arte e documentário. Ouvimos, por exemplo, o depoimento de Preston Jackson, o personagem principal de um documentário que vem fazendo desde 2012 na Libéria, contar sobre o momento em que viu o Atlântico pela primeira vez. Não tendo visto o horizonte antes, ainda menino acreditou ingenuamente na história contada por seu tio que o mar era um infinito campo de futebol. Da mesma Libéria vemos imagens do luxuoso Ducor Hotel da capital Monróvia em ruínas, construído para sediar a conferência pan-africana nos anos 1970 que visava a uma unificação maior dos países africanos, e, posteriormente destruído durante a sangrenta guerra civil que terminou em 2002. Desde então o país encontra-se em lenta reconstrução, evidenciado em outras imagens.

 

Em outro momento, conhecemos Kojo, um americano que viaja com a missão religiosa de sua igreja pan-africana em Detroit para a Libéria, refletindo sobre a função da religião em sua vida, e da África como a terra-mãe. Em seguida, um ensaio poético lembrando o mito sebastianista lusobrasileiro – o rei que surge das águas para libertar o povo cativo – é falado por uma mulher com imagens da costa africana e brasileira em alternância. O texto lembra a descoberta do mar por Preston, quando diz que o mar tem o gosto inusitado de sal para quem nunca sentiu.

 

 

Sobre o artista

 

Mats Hjelm é artista visual e documentarista. Nasceu em 1959 em Estocolmo, onde vive e trabalha. Seu trabalho investiga a relação entre videoinstalação e cinema documental, tendo como temas recorrentes a relação da arte com movimentos de justiça social, e o entrelaçamento de histórias particulares e narrativas da política global. Há mais de vinte anos trabalha na Europa, Estados Unidos e África Ocidental, África do Sul, e mais recentemente no Brasil. É escultor formado pela Konstfack University na Suécia, assim como em Cranbrook Academy of Fine Art nos Estados Unidos. O trabalho de Mats Hjelm já foi exibido em mostras individuais e coletivas no Moderna Museet em Estocolmo; Museum of African American History, Detroit, EUA; Biennale Africaine de la Photographie, Bamako, Mali; Dubai International Film Festival; Museum of Contemporary Art of Chicago; Walker Art Center, Minneapolis; Bienal de Veneza; Yokohama Triennale, entre outros. Tem obras nas coleções do Moderna Museet, Malmö Art Museum, Uppsala Art Museum e The National Public Arts Council Sweden. As atividades de Mats Hjelm incluem cursos em vídeo e cinema dentro da arte contemporânea. Hjelm é também cinegrafista, colorista, programador e especialista em videoinstalações para diversos fins.

 

 

A palavra da curadoria

 

Videoinstalação inédita do sueco Mats Hjelm, A outra Margem integra a programação periódica de exposições temporárias de artistas contemporâneos brasileiros e estrangeiros, cujas obras, sobretudo quando não representadas nas coleções do Museu de Arte moderna, complementam seu atual perfil moderno e contemporâneo. Mas a tal relevância, somam-se questões específicas deste trabalho que justificam e reforçam ainda mais o MAM, situado à beira-mar do Rio de Janeiro, como um espaço privilegiado para a realização desta exposição, já que a cidade situada no Atlântico sul é, de acordo com as escolhas poéticas de Mats, uma das margens visíveis do trabalho.

 

A outra margem nos propõe uma reflexão poética sobre o Atlântico como lugar de passagem entre as diversas margens desse oceano que une as histórias de diáspora, colonização e o mistério da libertação por meio da navegação para “outro” lugar, e o horror do cativeiro à espera daqueles que o navegam contra sua vontade e o caminho de volta à terra mãe.

 

A sintaxe multimidiática de Hjelm, produzida por meio da correlação editada de imagens, textos, músicas, cantos – meios frequentemente separados por noções de linguagem autônomas e puras, legadas pelo modernismo – integra-se num todo hibridizado, como equivalente poético de nosso polarizado cotidiano. Consequentemente, A outra margem tem uma forte pulsão semântico-narrativa que a faz transbordar da estrutura interna dos sistemas linguísticos, para o mundo externo com o qual poeticamente se conecta.

 

Tal transbordamento não resulta, porém, da edição linear de sons e imagens que se sucedem numa sequência dada. São quatro projeções simultâneas, duas a duas, na frente e no verso da tela que nos mostram em um dos lados registros sonoro-visuais de obras literárias, musicais – de pessoas e paisagens – gravadas às margens do Atlântico, combinadas em fluxos que nem sempre se encaixam logicamente. No outro lado da tela, projeções de imagens aquáticas nos sugerem o caminho líquido formado pelas margens que delimitam o Atlântico qual uma gigantesca web oceânica que vem permitindo a circulação geográfica de massivos contingentes humanos. Uma história impossível de ser completada na esfera discursiva, mas que pode ser aqui poeticamente experimentada.

Fernando Cocchiarale

Fernanda Lopes

 

 

De 25 de julho a 03 de setembro.

Millan exibe Mestre

Artista português que vem ganhando destaque na cena artística brasileira, Tiago Mestre expõe pela primeira vez na Galeria Millan, Vila Madalena, São Paulo, SP. A mostra “Noite. Inextinguível, inexprimível noite.” empresta seu título do poema “Lugar II” do poeta português Herberto Helder (1930-2015) e reúne um conjunto de 60 obras que exploram a questão da forma e do mito do projeto moderno no âmbito da escultura. Materiais como argila, bronze e gesso dão corpo a obras que se posicionam numa constante negociação entre projeto e imprevisibilidade, entre programa e liberdade expressiva.

 

O conjunto de obras inclui esculturas de diferentes escalas, vídeo, intervenções na arquitetura da galeria e uma grande instalação (elemento paisagístico que organiza toda a exposição). Estes trabalhos remetem aos primeiros intentos humanos de assimilar o natural dentro de um pensamento projetual, mapeando o processo de assimilação da paisagem a partir do intelecto. “A ideia de projeto como pano de fundo, como orquestração de um sistema”, explica o artista.

 

Cada uma das esculturas parece evidenciar um fazer sumário, claramente manual, como se estivesse inacabada ou em estado de puro devir, deixando, muitas das vezes, uma filiação ambígua quanto à sua natureza disciplinar. O uso da cor surge pontualmente, não tanto como sistema, mas antes como recurso que acentua, corrige ou esclarece questões pontuais do trabalho. Essa indefinição semântica, ou transversalidade programática é um dos eixos do trabalho. A problematização da capacidade performática de cada uma das obras é tornada evidente (senão parodiada) em situações como a da escultura de dois morros (obra que a dois tempos é escultura paisagística e nicho para outras obras menores).

 

O vídeo, apresentado no andar superior da galeria, coloca-se como uma espécie de síntese geral da exposição. A imaterialidade deste suporte contrasta de maneira decisiva com o aspecto formal dos restantes trabalhos. Nele, assiste-se a uma transmutação lenta, silenciosa e interminável de formas geométricas e orgânicas, numa referência “apática” ao mito da arquitetura brasileira, à sua relação singular com a natureza e a paisagem.

 

Embora alguns dos procedimentos da arquitetura estejam envolvidos em seu processo – a exemplo dos croquis e as maquetes de estudo – o olhar de Mestre volta-se mais para a percepção da experiência dos corpos no espaço, sejam eles naturais, escultóricos, ou arquitetônicos. Parece ser essa intimidade entre natureza, espaço e forma, que esta exibição de Mestre propõe desvelar.

 

 

Até 12 de agosto.

Frank Schaeffer, centenário

Por ocasião de seu centenário de nascimento, encontra-se em cartaz no Centro Cultural Correios, Centro, Rio de Janeiro, RJ, uma exposição em homenagem ao pintor Frank Schaeffer. A mostra conta com aproximadamente 100 obras, que revelam os momentos mais importantes da carreira do artista através de uma visão panorâmica de sua trajetória.

 

A curadora, Maria Verônica Martins, viúva do artista, optou por agrupar os trabalhos por décadas para uma melhor compreensão da carreira de Frank Schaeffer, privilegiando em sua escolha desenhos, aquarelas, guaches, óleos e pinturas em acrílica sobre tela. Schaeffer buscou na arquitetura das antigas cidades e na natureza, sobretudo o mar, inspiração para seus trabalhos, cuja exibição mostra emoção e lirismo, em sua apurada técnica na realização das obras em cada técnica utilizada.

 

 

Até 06 de agosto.

Carlos Zilio na Anita Schwartz

Anita Schwartz Galeria de Arte, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a partir de 19 de julho, a exposição “Carlos Zilio – Pinturas, desenhos e objetos”, com trabalhos inéditos do artista. Presença constante em exposições no Brasil e no exterior, como “Transmissions: Art in Central Europe and Latin America, 1960-1980”, no MoMA de Nova York, em 2015. Zilio vai mostrar cerca de quinze trabalhos recentes, dentre pinturas, desenhos e objetos, todos desenvolvidos a partir de um tema básico: o tamanduá.

 

A imagem do tamanduá surgiu pontualmente na produção de Carlos Zilio em meados dos anos 1980, com a morte de seu pai. Na época, Zilio se lembrou de uma história restrita ao ambiente familiar. Quando pequeno, seu pai tinha um tamanduá de estimação, no interior do Rio Grande do Sul. Para onde ia, o tamanduá ia junto, como animal doméstico. Em uma viagem, o menino não pode levar seu bicho de estimação, e a volta à casa foi retardada por um forte temporal. O tamanduá ficou triste com a ausência de seu dono, a ponto de morrer. O garoto, claro, ficou arrasado quando chegou em casa e soube do ocorrido. Com a morte do pai, esta história ressurgiu, e Zilio chegou a fazer alguns trabalhos usando a figura de um tamanduá. Mas somente vinte anos depois, em 2008, retomou o tema, e como formato básico para representar o animal usou uma figura encontrada por acaso no piso manchado do corredor de acesso ao ateliê em que trabalhou por 25 anos, em Botafogo, que pertenceu ao pintor Iberê Camargo, do qual foi aluno. “Tem a ver com perdas, indagações e questionamentos em torno das ausências. A materialização de uma ausência”, comenta o artista.

 

Para essa exposição na Anita Schwartz , o artista criou três formatos semelhantes de tamanduá, que são usados como máscaras nas pinturas e nos desenhos.  Os trabalhos recebem várias camadas de tinta – óleo e color jet nas pinturas sobre tela,  e color jet sobre papel e acetato nos desenhos – em um longo processo, e trazem variadas texturas e transparências. Os tamanhos variam de 110cm a 330cm.

 

Os trabalhos fazem referência à memória do artista, como a repetição de elementos que utilizou em produções anteriores – as linhas onduladas, presentes em obras dos anos 1980, ou as setas da pintura “Cerco e Morte” (1974), adquirida em 2014 pelo MoMA de Nova York. Da mesma forma, utensílios e ferramentas que convivem com o artista em seu ateliê – agora instalado em Laranjeiras – e acabaram “ganhando intimidade com o tempo”, se transformaram em objetos que serão expostos. É o caso da chaleira usada por Iberê Camargo, potes que trazem no fundo as inscrições “ontem”, “hoje” e “amanhã”, dispostos em degraus de uma escada, ou ainda “Ryman’s pie”, como uma homenagem irônica ao artista que só usa branco (Robert Ryman, 1930), criada com restos de camadas de tinta branca, que aludem a um glacê de torta.

 

Em 2008, quando Anita Schwartz construiu o prédio de três andares com 700 metros quadrados que abriga sua galeria no Baixo Gávea, inaugurando então um novo patamar para espaços de arte na cidade, escolheu Carlos Zilio para sua mostra inaugural.

 

 

Sobre o artista

 

Carlos Zilio nasceu em 1944 no Rio de Janeiro, cidade onde vive e trabalha. Estudou pintura com Iberê Camargo. Participou de algumas das principais exposições brasileiras da década de 1960 – “Opinião 66” e “Nova Objetividade Brasileira”, por exemplo, ambas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro -, e de mostras com repercussão internacional, como as edições de 1967, 1989 e 2010 da Bienal de São Paulo (9ª, 20ª e a 29ª), a 10ª Bienal de Paris (1977), a Bienal do Mercosul e a exposição “Tropicália”, apresentada em Chicago, Londres, Nova York e Rio de Janeiro, em 2005. Na década de 1970 morou na França. Desde seu retorno ao Brasil, em 1980, participou de diversas mostras coletivas e individuais, entre as quais “Arte e Política 1966-1976”, nos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Bahia (1996 e 1997), “Carlos Zilio”, no Centro de Arte Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, 2000), que abrangeu sua produção dos anos 1990, e “Pinturas sobre papel”, no Paço Imperial (Rio de Janeiro, 2005) e na Estação Pinacoteca (São Paulo, 2006). Possui trabalhos em acervos de prestigiosas instituições como MAC/USP, MAC/Paraná, MAC Niterói, MAM Rio de Janeiro, MAM São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo e MoMA de Nova York. No ano passado, o MAM Rio de Janeiro remontou exatamente no mesmo local sua histórica exposição “Atensão”, realizada em 1976, dentro do programa Área Experimental, que o Museu manteve até 1978. Em 2011, o artista fez também no MAM Rio uma individual com trabalhos recentes. Também se destacam dentre suas  recentes exposições as realizadas em 2010 no Centro Universitário Maria Antonia (São Paulo) e no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Curitiba). As mais recentes exposições coletivas que integrou foram: “60/70: Um panorama-mostra do acervo”, no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, este ano; “Em Polvorosa”, no MAM Rio, “Uma História da Pinacoteca de São Paulo, Galeria Roger Wright, anos 60”, na Pinacoteca de São Paulo, “A cor do Brasil”, no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2016; “Transmissions: Art in Central Europe and Latin America, 1960-1980”, no Museum of Modern Art NY (MoMA), em 2015; “Brazil Imagine”, no Astrup Fearnley Museet, Oslo, MAC Lyon, na França, Qatar Museum, em Doha, e DHC/Art, Montreal, no Canadá, em 2014; e  “Possibilities of the object – Experiments in modern and Contemporary Brazilian art”, na The Fruit Market Gallery, em Edinburgh. Carlos Zilio foi professor na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2008, a editora Cosac Naify publicou o livro “Carlos Zilio”, organizado por Paulo Venâncio Filho, sobre a sua produção.

 

 

Até 26 de agosto.

Débora Bolsoni – Pra Aquietar

Artista exibe na Athena Contemporânea, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, obras inéditas, que fazem uma reflexão sobre o movimento e a quietude. A exposição foi pensada em conjunto com a mostra que Débora Bolsoni apresenta no Drawing Lab, em Paris. A mostra “Débora Bolsoni – Pra Aquietar”, reúne cerca de 30 obras inéditas, dentre desenhos e esculturas. Radicada em São Paulo, a carioca Débora Bolsoni acaba de voltar de Paris, onde realizou uma residência na Cité Internacionale des Arts e exposição individual no Drawing Lab, o primeiro centro de arte contemporânea da França dedicado ao desenho. Com curadoria de Claudia Rodriguez-Ponga o projeto surgiu há mais de um ano. Muitas obras da exposição no Rio foram concebidas em Paris e alguns elementos que compõem essas obras foram encontrados na cidade francesa, tanto na rua quanto em lojas de material de construção.

 

Débora Bolsoni é conhecida por seus trabalhos com formas tridimensionais e que se relacionam com a arquitetura dos espaços e o urbanismo das cidades. Nesse projeto, no entanto, a curadora quis focar na relação da artista com o desenho, com a sua poética. “Mesmo nas esculturas, há o desenho. Os trabalhos fazem uma reflexão sobre a quietude e o movimento. O movimento que fica contido nas obras, que a qualquer momento podem se mexer, podem mudar”, afirma a curadora.

 

Tanto em Paris quanto no Rio, há obras da série “No names, but names”, que é composta por “carrinhos” usados para transporte de mochilas infantis e venda ambulante. No lugar deles, a artista coloca caixas feitas por ela em papel cartão, que são banhadas de parafina, onde a artista faz desenhos usando pastel oleoso. “Os carrinhos são suportes para os desenhos, é um desenho-escultura ou uma escultura-desenho. É uma ideia sobre circulação, sobre algo que passeia entre as coisas. Há uma tensão de que um movimento que está prestes a acontecer”, diz a artista. “Os carrinhos são um movimento interrompido, assim como os desenhos”, ressalta a curadora.

 

Na exposição “Pra Aquietar” haverá um “carrinho” menor chamado “Sônia a Paquetá”, que faz referência à época em que Sônia Braga foi morar em Paquetá. Os desenhos dessa obra representam pegadas no chão. Para Débora, a cidade de Paris é muito feminina e ela passou a observar como as mulheres experimentam o espaço público. Com isso, lembrou de atrizes que representam essa feminilidade e lhe veio à cabeça a atriz Sônia Braga recebendo o prêmio no Festival de Cannes, no ano passado, e do tempo em que ela foi morar em Paquetá, “um lugar mágico”, segundo Débora.

 

Com isso, também surgiu o título da exposição “Pra Aquietar”, que foi retirado da música homônima de Luiz Melodia, de 1973, em que ele também faz referência a Paquetá e à calma das coisas. “Como nas paradinhas da música de Luiz Melodia que dá título à exposição, estes cortes no tempo são, na verdade, a chave de qualquer movimento, sua essência inesgotável”, diz a curadora. “Para criar minhas obras, trago outras expressões artísticas, como a música, e não só as artes visuais”, conta a artista.

 

A exposição terá, ainda, outros trabalhos que possuem elementos urbanos como referência, como “Shelf with Poteau”, que foi inspirada nas barras de ferro que impedem que os carros estacionem nas calçadas de Paris, e “Veneziana”, que é composta por um capacho preto, que imita ferro, que foi achado pela artista na capital francesa. Na obra, que será colocada no chão da galeria, ela fez intervenções com tinta branca.

 

Em uma das paredes da galeria estará uma roda vermelha, criada com carpete e parafina. “Ela estará representando a roda, um ícone do movimento”, afirma a curadora. Também na parede estará a obra “Inutile d’ajouter” onde, em uma pequena barra de ferro a artista apoia uma placa de linho e um azulejo verde com trechos do “manifesto surrealista”, de André Breton (França, 1896 – 1966). Haverá, ainda, uma caixa com textos e azulejos que a artista compra em lojas de materiais de construção usados. “São objetos que já tem uma história”, diz. Ainda em exposição, desenhos feitos em grafite, ecoline e lápis de cor sobre papel, de 2012, que se relacionam com a questão do movimento e com as demais obras. Os desenhos são muito sutis, com pequenos elementos e, às vezes, algumas frases. “Eles trazem silhuetas, que na verdade é uma presença e determina algo que já foi”, explica a curadora.

 

 

Sobre a artista

 

Débora Bolsoni nasceu no Rio de Janeiro em 1975. Vive e trabalha em São Paulo. Mestre em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo e Bacharel em Gravura pela Universidade de São Paulo. Estudou, ainda, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e no Saint Martin School of Art, Londres. Possui obras em importantes coleções, como Pinacoteca do Estado de São Paulo; Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu de Arte da Pampulha; Museu de Arte de Ribeirão Preto; Instituto Figueiredo Ferraz; Pinacoteca Municipal de São Paulo e Remisen-Brande Art Collection. Dentre suas principais exposições individuais estão “No names, but names” (2017), no Drawing Lab, em Paris; “Urbanismo Geral” (2015), na Athena Contemporânea; “Fazer Crer” (2007), no MAMAM, em Recife; “Gruta Pampulha” (2006), no Museu de Arte da Pampulha; “Débora Bolsoni, Programa de Exposições do CCSP’’ (2005), no Centro Cultural São Paulo; “Individual e simultânea” (2001), no Centro Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, entre outras. Dentre suas exposições coletivas destacam-se: “Miniatures, Models, Voodoo and Other Political Projections” (2017), no Blau Project, em São Paulo; “A spear a spike a point a nail a drip a drop the end of the tale” (2016), na Ellen de Brujine Projects, em Amsterdan; “Aparição” (2016), na Caixa Cultural Rio de Janeiro; “Condor Project” (2015), na The Sunday Painter Gallery, em Londres; “Tout Doit Disparaître” (2015), na La Maudite, em Paris; “Southern Panoramas-19 Art Festival SESC Videobrasil” (2015), no SESC Pompéia; “Alimentário” (2014), no MAM Rio e na OCA, São Paulo; “Imagine Brazil, artist’s books” (2013), na Astrup Fearnley Museet, em Oslo; “Betão à Vista” (2013), no MuBe, em São Paulo; “O Retorno da Coleção Tamagnini” (2012), no MAM São Paulo; “Dublê” (2012), no CCSP;  “Mostra Paralela – A Contemplação do Mundo” (2010), no Liceu de Artes e Ofício, em São Paulo; “Corsário Cassino Museu” (2010),no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte; “Absurdo” – 7ª Bienal do Mercosul (2009); “Quase Liquido” (2008), no Itaú Cultural, em São Paulo; “Cover – Reencenação + Repetição” (2008), no  MAM São Paulo; ‘’Contraditório – Panorama da arte brasileira’’ (2007), no MAM São Paulo, entre outras.

 

 

 

De 20 de julho a 19 de agosto.

Vídeos no MASP

17/jul

Tracey Moffatt, é um dos cartazes da programação do MASP, Paulista, São Paulo, SP. A artista nasceu em Brisbane, Austrália, 1960, produz vídeos, filmes e fotografias que têm como referência o universo da cultura visual; a artista utiliza-se de técnicas de direção e imagens do cinema, da história da arte e da cultura popular que giram em torno de temas como sexualidade e identidade. Os vídeos reunidos nesta mostra - ”LOVE” (“Amor”, 2003), “OTHER” (“Outro”, 2009) e “LIP” (“Atrevimento”, 1999) - integram a série “Montages” (“Montagens”, 1999-2015), realizada em colaboração com o editor Gary Hillberg a partir de filmes hollywoodianos e clássicos cult. Estes trabalhos têm como foco os estereótipos e as representações de gênero, classe social e alteridade no cinema.

 

O vídeo “LOVE” (“Amor”) é uma compilação de trechos de filmes em que o amor romântico heterossexual é representado por declarações apaixonadas, rompimentos, rejeições ou violência. A dramaticidade das cenas é intensificada por uma trilha que perpassa os diferentes estágios de um relacionamento, em uma narrativa com começo, meio e fim. Este vídeo revela como papéis masculinos e femininos são traduzidos em clichês cinematográficos. Nas cenas, o amor é um campo de batalha, que evidencia relações de poder baseadas em gênero e posição social.

 

Em “OTHER” (Outro), colonização e desejo se confundem nas representações do “não ocidental” pelo cinema hollywoodiano. Identidade e colonialismo são temas centrais na produção de Moffatt, que tem origem aborígene. Neste vídeo, o outro é interpretado como o exótico sedutor, capaz de despertar medo, curiosidade, fascínio e desejo sexual no colonizador branco. Conforme a narrativa se desenrola, os encontros entre “colonizado” e “colonizador” se intensificam e culminam no ato sexual em si, desfazendo fronteiras e diferenças entre eles. O vídeo revela também uma construção narrativa frequente sobre a colonização veiculada pelo cinema, que, por meio de uma erotização do outro, apazigua romanticamente as violentas histórias coloniais.

 

Por fim, “LIP” (“Atrevimento”) reúne trechos de filmes em que atrizes majoritariamente negras interpretam papéis de empregadas domésticas, babás, cozinheiras e garçonetes “respondendo” às patroas, mulheres brancas. O título faz referência à expressão inglesa “giving lip”, que indica atos de insubordinação, através dos quais um subalterno dirige comentários jocosos e “atrevidos” a um superior, por exemplo. Com este vídeo, Moffatt inverte a noção de subserviência por parte dessas personagens, que, com humor e ironia, satirizam comportamentos racistas e classistas.

 

Esta mostra está em diálogo com as exposições “Toulouse-Lautrec em vermelho”; “Miguel Rio Branco: Nada levarei quando morrer”; “Wanda Pimentel: Envolvimentos e Quem tem medo de Teresinha Soares?”, que integram a programação anual do MASP, cujo eixo temático é a sexualidade.

 

 

Até 01 de outubro.

Fotos de Miguel Rio Branco

A exposição de fotografias da série “Maciel”, um dos cartazes atuais do MASP, Paulista, São Paulo, SP, reúne 61 imagens produzidas em 1979 por Miguel Rio Branco na área de prostituição de mesmo nome, no Pelourinho, em Salvador, BA. Esta é a maior apresentação da série, com uma seleção inédita feita para a mostra.

 

“Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno” é a frase que Rio Branco captou de uma parede no interior de uma casa no bairro do Maciel. A sentença de tom profético oferece uma chave de entendimento para o universo dessa região do Pelourinho, abandonada por décadas pelo poder público e conhecida por ser local de prostituição e criminalidade mas também lugar de moradia das populações marginalizadas. Por meses, Rio Branco frequentou o Maciel e estabeleceu um vínculo de afinidade e afeição com seus retratados - como fez Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) nos bordéis parisienses no final do século 19 que ele representou. A princípio, Rio Branco fez um pacto com seus retratados de que as imagens não seriam exibidas em Salvador, o que lhe garantiu uma relação próxima e franca, possibilitando que a atitude altiva e resoluta dos personagens ganhe protagonismo e poder nas imagens.

 

A exposição foi organizada em quatro paredes, e cada uma delas enfatiza determinados aspectos da obra de Miguel Rio Branco. Na primeira, temos a fotografia que captura a frase-título da mostra, além de diversas cenas de rua em que o estado de deterioração dos edifícios dialoga com o uso que os habitantes deram a eles. Na segunda parede, o sexo se torna mais presente, em retratos e cenas de nudez que adentram os interiores. Na terceira, observamos imagens feitas de dentro para fora ou de fora para dentro dos bares, das casas e de prostíbulos. O interior volta a dominar as fotografias da quarta parede da exposição registrando complexas montagens feitas com imagens de revista no interior da zona, estabelecendo relações entre as fotografadas e outras representações do sexo e da mulher.

 

A exposição das fotografias de Miguel Rio Branco faz parte do eixo de programação do MASP com mostras em torno dos temas da sexualidade e do gênero, e dialoga diretamente com a exposição “Toulouse-Lautrec em vermelho”, localizada na galeria do primeiro andar do museu, e “Tracey Moffatt: Montagens”, que se encontra na sala de vídeo do segundo subsolo.

 

O MoMA, de Nova York, acaba de incluir em sua coleção 35 fotografias de Miguel Rio Branco, espanhol radicado no Brasil. É a primeira aquisição de suas obras pelo museu. A série, em preto e branco, retrata cenas do subúrbio de Nova York nos anos 1970 – o artista viveu por dois anos na cidade, dividindo apartamento com Hélio Oiticica.

 

 

 

Até 01 de outubro.

Hélio Oiticica no Whitney, NY

13/jul

 

 

O Whitney Museum of American Art, NY, apresenta “Hélio Oiticica: To Organize Delirium”, a primeira retrospectiva americana em grande escala exibindo duas décadas do trabalho do artista brasileiro. Um dos artistas mais originais do século XX, Oiticica (1937-1980) criou uma arte que nos desperta para nossos corpos, nossos sentidos, nossos sentimentos sobre estar no mundo: arte que nos desafia a assumir um papel mais ativo. A partir de investigações geométricas em pintura e desenho, Oiticica logo mudou para escultura, instalações arquitetônicas, escritas, filmes e ambientes em larga escala de natureza cada vez mais imersiva, obras que transformaram o espectador de um simples espectador em um participante ativo.

 

A exposição inclui algumas de suas instalações em grande escala, incluindo “Tropicalia” e “Eden”, e examina o envolvimento do artista com música e literatura, bem como sua resposta à política e ao ambiente social de seu país. A exposição capta a emoção, a complexidade e a natureza ativista da arte de Oiticica, enfocando em particular o período decisivo que passou em Nova York na década de 1970, onde foi estimulado pelas cenas de arte, música, poesia e teatro. Enquanto Oiticica se engajou em primeiro lugar com muitos artistas da cidade, ele acabou vivendo um isolamento auto-imposto antes de retornar ao Brasil. O artista morreu no Rio de Janeiro, em 1980, aos 42 anos.

 

 

A Tropicália

 

O estilo musical da “Tropicália”, que toma o nome da instalação homónima 1966/67 de Helio Oiticica, tornou-se um movimento artístico e sociocultural no Brasil. Após o golpe militar em 1964, a música popular desempenhou um papel fundamental na resistência estética e cultural ao clima político instalado. A música continuou a desempenhar um papel importante no trabalho de Oiticica em seus anos de Nova York, onde assistiu a concertos de rock no Fillmore East. A exposição apresenta uma lista de reproduções de músicas inspiradas por compositores e músicos do período de vigência da “Tropicália”, como Caetano Veloso e GiIberto Gil, além dos músicos do rock and roll em especial Jimi Hendrix, de quem Oiticica se inspirou na década de 1970.

 

 

Apoios e curadoria

 

Esta exposição foi organizada pelo Whitney Museum of American Art, Nova York; Carnegie Museum of Art, Pittsburgh e o Art Institute of Chicago. “Hélio Oiticica: Organizar Delirium” tem curadoria de Lynn Zelevansky; Henry J. Heinz II; Carnegie Museum of Art; Elisabeth Sussman, curadora e curadora de fotografia de Sondra Gilman; Whitney Museum of American Art; James Rondeau, presidente e diretor de Eloise W. Martin; Art Institute of Chicago; Donna De Salvo, diretora adjunta de Iniciativas Internacionais e Curadora Sênior, Whitney Museum of American Art; com Katherine Brodbeck, curadora associada, Carnegie Museum of Art. O apoio à turnê nacional desta exposição é fornecido pela Fundação Andy Warhol para as Artes Visuais e o National Endowment for the Arts. Apoiado em Nova York, pelo Comitê Nacional do Whitney Museum of American Art. Conta ainda com o apoio generoso fornecido pela Art & Art Collection, Tony Bechara; a Garcia Family Foundation e a Juliet Lea Hillman Simonds Foundation. O suporte adicional é fornecido pela Evelyn Toll Family Foundation. O Fundo de Exposição da Fundação Keith Haring também oferece apoio genérico de doações.

 

 

Até 01 de outubro.

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