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AGENDA CULTURAL

Galeria Ipanema : 50 anos

27/ago

A Galeria de Arte Ipanema, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, comemora 50 anos de atividades, e irá

celebrar a data com as exposições “50 anos de arte: Parte I” e “50 anos de arte: Parte II”. Para

a exposição “50 anos de arte: Parte I”, a galeria irá homenagear os artistas Tomie Ohtake e

Hélio Oiticica, com uma seleção de dez obras de cada um, feitas nas décadas de 1950 e 1960,

pertencentes a acervos particulares e ao Projeto Hélio Oiticica. Os dois artistas, de grande

importância na história da arte brasileira, integraram exposições ao longo da trajetória da

Galeria.

O estande da Galeria Ipanemana ArtRio também comemorará os 50 anos de atividade,e  terá

trabalhos do venezuelano Carlos Cruz-Diez, um dos grandes nomes da arte cinética, artista

representado pela Galeria, além de obras de Jesús Rafael Soto, Victor Vasarely, Sérgio

Camargo, Lygia Pape, Maria Leontina, Milton Dacosta, Portinari,  José Panceti e Tomie Ohtake.

 

 

A fundação da galeria Ipanema

 

Fundada por Luiz Sève, a mais longeva galeria brasileira iniciou sua bem-sucedida trajetória em

novembro de 1965, em um espaço do Hotel Copacabana Palace, com uma exposição com

obras de Tomie Ohtake e Manabu Mabe, entre outros. Até chegar à casa da Rua Aníbal de

Mendonça, em Ipanema, passou ainda por outros endereços, como o Hotel Leme Palace, no

Leme, e a Rua Farme de Amoedo, já em Ipanema. Paralelamente a sua ação no Rio, manteve

entre 1972 e 1987 um espaço na Rua Oscar Freire, em São Paulo, projetado por Ruy Ohtake. A

Galeria Ipanema foi uma das precursoras a dar visibilidade ao modernismo, e representou por

muitos anos, com uma estreita relação, os artistas Volpi e Di Cavalcanti, e realizou as primeiras

exposições de Paulo Roberto Leal e Raymundo Colares.

 

 

Arte Moderna e Contemporânea

 

Sua história se mistura à da arte moderna e sua passagem para a arte contemporânea, e um

dos mais importantes artistas cinéticos, o venezuelano Cruz-Diez, é representado pela galeria,

que mantém um precioso acervo, fruto de seu conhecimento privilegiado de grandes nomes

como Hélio Oiticica, Ivan Serpa, Lygia Clark, Sérgio Camargo, Jesús Soto, Mira Schendel,

Guignard, Pancetti, Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Iberê Camargo, Tomie Ohtake, Lygia

Pape, Amelia Toledo, Milton Dacosta, Maria Leontina, Dionísio del Santo, Antônio Bandeira,

Heitor dos Prazeres, Vasarely, Rubens Gerchmann, Nelson Leirner, Waltercio Caldas, Franz

Weissmann, Ângelo de Aquino, Geraldo de Barros,  Heitor dos Prazeres, Joaquim Tenreiro e

Frans Krajcberg. Dos artistas trabalhados pela galeria, apenas Portinari e Guignard já haviam

falecido antes de sua inauguração.

 

 

A palavra do fundador: Fonte de prazer

 

Nascido em uma família amante da arte, Luiz Sève aos 24 anos, cursando o último ano de

engenharia na PUC, decidiu em 1965 se associar à tia Maria Luiza (Marilu) de Paula Ribeiro na

criação de uma galeria de arte. Outro tio, o pneumologista Aloysio de Paula (1907-1990),

médico de Guignard, havia sido diretor do MAM, no final da década de 1950. Com a ajuda de

Luiz Eduardo Guinle e de sua mãe, dona Mariazinha, a Galeria de Arte Ipanema instalou-se em

1965 em um dos salões do Hotel Copacabana Palace, passando depois para o térreo, na

Avenida Atlântica, onde permaneceu até 1973. Ainda jovem, passou a trabalhar no mercado

financeiro, mas é na galeria que encontra sua “fonte de prazer”. Uma característica de sua

atuação no espaço de arte é “jamais ter discriminado ou julgado ninguém pela aparência”. São

várias as histórias de pessoas que pedem para entrar e apreciar o acervo, e estão vestidos de

maneira simples ou até desleixadas, e acabam “comprando muita coisa”. “Há o componente

sorte também”, ele ressalta, dizendo que já teve acesso a obras preciosas por puro acaso.

Dentre seus clientes, passaram pela galeria também figuras poderosas como o banqueiro e

mecenas da arte David Rockefeller, e Robert McNamara, secretário de defesa do governo

Kennedy.

 

Atualmente Luiz Sève dirige a galeria ao lado de sua filha Luciana, no número 173 da Rua

Aníbal de Mendonça, até finalizar a construção do espaço que tem projeto arquitetônico

assinado por Miguel Pinto Guimarães, previsto para 2016, no endereço original que ocupou

desde 1972, na quadra da praia da mesma rua.

 

Abertura: 02 de setembro, às 19h

Exposição: 03 de setembro a 17 de outubro.

Na ArtRio

 

 

De 09 a 13 de setembro.

Legendas: Hélio Oiticica

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica

Tomie Ohtake

Tomie Ohtake

Tomie Ohtake

Artistas da TRIO Bienal


A TRIO Bienal, exposição que integra as comemorações do aniversário de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, é uma mostra internacional de arte contemporânea em torno de obras tridimensionais, com 170 artistas de 47 países.  A curadoria, a cargo de Marcus de Lontra Costa, sob o tema “Quem foi que disse que não existe amanhã?”  – frase de uma letra do rapper Marcelo D2 – pretende discutir o momento de incerteza e de crise, tanto no Brasil quanto no mundo, e resume a persistência na procura de uma determinada arquitetura no caráter utópico da arte, recarregando fortemente a fé modernista em um mundo mais perfeito, a partir da falta de distinção entre arte e vida.

 
No módulo Utopias, que acontece no Memorial Getúlio Vargas, Glória, Rio de Janeiro, RJ, participam neste módulo os artistas Afonso Tostes – BR, Ai WeiWei – CN, Alex Flemming – BR, Ana Miguel – BR, Anna Bella Geiger – BR, Cildo Meirelles – BR, Fábio Carvalho, BR, Felipe Barbosa – BR, José Rufino – BR, Laerte Ramos – BR, Los Carpinteros – CU, Lourival Cuquinha – BR, Mauricio Ruiz – BR, Nelson Félix – BR, Tom Dale – US, entre muitos outros.

 
Destaque para Fábio Carvalho (fotos) que será representado por um total de cinco obras. Da série “Delicado Desejo” serão apresentadas quatro peças ­ armas de fogo compostas por um patchwork de rendas diversas, com as quais o artista faz uma reflexão da mistura de fascínio e repulsa que muitos têm por armas de fogo, em especial no continente americano. Além das quatro peças da série “Delicado Desejo”, também será apresentado o trabalho “Eros & Psiquê” ­ um fuzil de brinquedo de plástico, dentro de uma vitrine de madeira escura, similar às vitrines onde se exibem armas de fogo reais em coleções, sendo que o fuzil está cercado de borboletas monarcas de plástico, como se estas usassem o fuzil como pouso e abrigo.

 

 
De 05 de setembro a 26 de novembro.

Antônio Dias na Nara Roesler/Rio

25/ago

Antonio Dias ganhou uma revisão de uma parcela singular de sua produção multifacetada: os

papéis do Nepal, exibidos pela primeira vez no Brasil. A mostra “Papéis do Nepal 1977-1986”

está em cartaz até 26 de setembro  Galeria Nara Roesler, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, que traz

nessa iniciativa um aprofundamento no universo do consagrado artista.

 

Pela pluralidade temática e processual, Dias evidencia sua recusa em adotar um único ponto

de vista da produção artística e, com isso, não deixa que o espectador se acomode na

facilidade de um significado pronto da obra. Nas palavras do historiador da arte italiano

Sandro Sprocatti, o trabalho de Dias projeta “uma situação antiperspectiva por excelência,

uma vez que nega a exclusividade de um ponto de vista não só devido à instabilidade

representacional (ambiguidade substancial do signo e do espaço) mas, acima de tudo, porque

implica a pluralidade das condições de fruição, ou seja, as condições existenciais que o

observador tem em relação ao próximo”.

 

Os papéis que figuram na exposição foram produzidos durante uma viagem de Dias ao Nepal

em 1977, com a finalidade de aprender a manufatura de papéis artesanais. A fase do Nepal é

uma ruptura na trajetória pregressa do artista, calcada fortemente no conceitualismo, na

utilização de mídias então incipientes, como o vídeo, e na criação de um léxico visual que

englobava elementos pop, planos geométricos definidos por cor e palavras.

 

Esse repertório, repetido sistematicamente e embaralhado entre si, questionava o caráter da

convenção social e da instituição artística como produtora de significados codificados e

estanques, validados por um sistema de inserção e representatividade internacional, a que o

regional deveria se submeter – o que se tornava evidente pelos títulos em inglês das obras,

como a famosa série “The Illustration of Art”.

 

 

Até 26 de setembro.

Na Bergamin&Gomide

Com curadoria de Felipe Scovino, “Atributos do Silêncio” faz referência às possíveis qualidades

ou atmosferas que o silêncio emana, tais como a delicadeza, o vazio, a suavidade, a

invisibilidade, o antiespetáculo, o apagamento e o etéreo. A nova mostra da

Bergamin&Gomide, Jardins, São Paulo, SP, reúne obras de Anna Maria Maiolino, Waltercio

Caldas, Mira Schendel, Lygia Pape, Luiza Baldan, Cao Guimarães, Leonilson, Caio Reisewitz,

Brígida Baltar e outros.

 

 

Atributos do Silêncio

Felipe Scovino

 

As obras reunidas para esta exposição fazem referência às possíveis qualidades ou atmosferas

que o silêncio emana, tais como a delicadeza, o vazio, a suavidade, a invisibilidade, o

antiespetáculo, o apagamento e o etéreo.

 

O conceito de silêncio tem sido tema de recentes exposições, mas o que nos interessa refletir

nesta mostra é a sua capacidade de múltipla representação e como as atmosferas citadas se

comportam e podem se conectar em uma rede de significados e transbordamento de sentidos.

 

Refletindo sobre a obra de Leonilson, Para quem comprou a verdade (1991), percebemos a

exposição de uma fragilidade que é tanto dos materiais empregados quanto do próprio

sujeito, que se revela audaz e corajoso. Estão contidos, nesse pedaço de bordado, seus medos,

dramas, frustações, solidão, mas significativamente sua voz. É a sua fala com o mundo, a sua

exposição ao outro, seu espaço de vida e celebração. Estes são aspectos passíveis de serem

atribuídos às obras dos artistas selecionados. O sentimento de despertencimento é abordado

de maneira mais dramática com a série Obituários (1998), de Jorge Macchi. É a morte que

encaramos nas páginas recortadas de um jornal. O artista recortou, dentro do caderno de

obituários do periódico, as informações sobre os falecidos, resguardando apenas as cruzes ou

as estrelas que determinam a religião do morto. Há um choque ao confrontarmos ao mesmo

tempo uma escultura e a realidade do material. A maneira como o artista transforma uma

estrutura de papel em um corpo desfeito de carnalidade. Vazado e triste, desolado e solitário,

Obituários reflete ausência e falta, mesmo sem sabermos quem eram aquelas pessoas e suas

histórias de vida.

 

Na obra de Thiago Rocha Pitta, a fluidez da natureza e o seu estado constante de

transformação sempre suave se tornam aparentes através da delicadeza e da construção de

um tempo próprio, estendido, deslocado e demorado que o olhar do artista nos oferece.

Ademais, pintura e vídeo estão se fazendo simultaneamente, porque há uma materialidade

pictórica e uma gestualidade na forma como a natureza das coisas nos é apresentada. A

câmera aproxima-se da natureza, mudando a nossa perspectiva e escala sobre o mundo e

transformando a própria materialidade da superfície em frestas, aberturas, descidas, pequenas

depressões e vales que se constroem e se desfazem na mesma velocidade. O artista nos alerta

sobre uma velocidade e transformação constante, mas que muitas vezes nos passam de forma

imperceptível, e é por essa escala de silêncio e suavidade que ele também se interessa.

 

Os espaços escavados ou apagados, marcados pela gestualidade, em Anna Maria Maiolino

efetuam uma espécie de inversão do plano. Ao mesmo tempo em que tanto a geração

anterior, a dos neoconcretos, quanto a geração de Maiolino pesquisavam e inventavam uma

saída do plano em direção ao espaço tridimensional, Mais buracos (1975/2000) não deixa de

operar essa tarefa, mas o sentido é outro: seu espaço é o interior, a cavidade, e não o ar ou a

exterioridade. Ele não é um desenho no espaço, mas um corpo, ou melhor, as entranhas de

um corpo, agora visível e irrefutável.

 

Estão presentes na exposição discussões sobre a desmaterialização do objeto e a noção de

“eficácia”, ou melhor, a apropriação de sentido e reflexão da obra de arte como ideia e não

mais objetualidade. Ademais, em um tempo em que o excesso de informação parece ser uma

tônica incondicional e irreversível, a exposição explora o outro lado: a partir de um “nada”, de

“silêncios”, podemos construir uma rede de significados e potências nunca antes imaginada.

São os casos das obras de Brígida Baltar e Cao Guimarães. Em Coleta da neblina (2002), Baltar

investe no processo do artista como personagem e num contexto em que ficção e realidade

convergem, embaralhando as nossas noções firmes e concretas sobre o que nos cerca. A

artista age como uma coletora de imaterialidade, isto é, transmite volume, peso e densidade a

algo que sempre foi identificado como etéreo. O fato de vagar por uma paisagem coberta pela

neblina amplia ainda o senso de silêncio da obra. Já em Guimarães, suas obras ativam

acontecimentos cotidianos triviais que são da máxima expressividade. São trabalhos que o

artista chama de “microdramas da forma”, ou seja, guardam em si uma potencialidade

dramática qualquer. Uma bolha que vaga a esmo, ou ainda uma folha seca cercada pelo

orvalho e vice-versa são imagens que possuem em si mesmas uma enorme dramaticidade. Em

Nanofania (2003) e Concerto para clorofila (2004), índices de imaterialidade – bolha, luz e

sombra – passam a deter texturas, formas, cores, uma estrutura de pele e carne. A nossa

perspectiva é dirigida para ações, lugares e seres que mal percebemos em nosso cotidiano. São

fenômenos cadenciados pelo seu tempo e escala próprios. Os pequenos dramas ou

acontecimentos da vida que são desprezados nos lembram que eles são exatamente o que

constituem a vida. Em Úmido (2015), não sabemos o que se estabeleceu primeiro: a “auréola”

em torno da folha ou o pouso suave desta que depois foi recompensado pelo orvalho da

chuva. Mais uma obra desse artista que chega ao mundo pelo prisma da delicadeza e por uma

narrativa com fortes ligações com a literatura e o cinema. É a ideia do acidente e da

impossibilidade de se confirmar o que vemos com a exata certeza de que a ciência ou a

realidade quer nos impor que transmite à obra de Cao Guimarães um forte imaginário poético.

 

A escala do mundo inverte-se em Sopro (2013), de Maria Laet: voltamos para aquilo que era

dado como supostamente imperceptível, menor ou desprezível. Presenciamos movimentos,

leituras e sintomas de um mundo que acontece sem nos darmos conta. Ademais, a forma

como opera a duração do tempo em suas obras, realizadas por meio de ações performáticas

extremamente singelas, convertendo-se em um ritmo monótono e lento, emprega uma

circunstância de investigação sobre o seu próprio estado. O ato de soprar água-tinta sobre o

papel acaba por provar que tempo e espaço se aliam como potências que provocam um

estado aleatório e de profunda poesia sobre as marcas do papel. Estão ali impregnadas por

entre suas tramas paisagens, variáveis, nuances e fundamentalmente um corpo, que não é

qualquer um, já que está ali contido também um registro imaterial do corpo da artista.

Quando digo que é corpo, não se trata de carne, mas efetivamente pele. E esta imagem ganha

ainda mais preponderância quando metaforicamente a imagem representada pelo sopro se

assemelha a uma impressão digital, à superfície da pele. Esta imagem cria uma consonância

perfeita com Vestígios na transparência (2006), de Maiolino, quando essa imagem metafórica

do corpo, em geral, e da pele, em especial, se faz devido a uma sobreposição de folhas em

papel japonês, em que a artista realiza um desenho na primeira dessas folhas. O desenho em

nanquim cria “rastros” que são absorvidos pelas folhas subsequentes criando uma variedade

de tons e formas derivados do aleatório, que é o indício máximo da própria vida.

 

As fotos de Caio Reisewitz e Luiza Baldan situam-se entre o silêncio e o (largo) intervalo entre a

espera e o esquecimento. Um território preenchido pelo indício de que algo acabou de

acontecer por ali ou há muito é preenchido apenas por memórias. No caso de Baldan, é uma

imagem de qualquer lugar, exatamente pela sua imprecisão espacial e temporal. Existe algo

tão próprio de nós nesses dois espaços (uma casa e uma garagem) por certo pelo fato de

estarem se comunicando com a ideia de espaço privado, mas que ambiguamente nos afasta de

um comprometimento de estabilidade ou segurança, pois são espaços abertos. Silêncio aqui

não está diretamente ligado à ausência humana (até porque existe a possibilidade de

“alguém” ter acabado de passar por ali) nem à economia de gestos, mas ao caráter ambíguo

de presença e solidão que Baldan e Reisewitz empregam nas imagens.

 

Este mesmo caráter reaparece em uma obra escultórica na mostra. Trata-se de London Angles

#1 (2014), de Pedro Cabrita Reis. Os materiais empregam simbolicamente uma característica

antropomórfica à estrutura metálica. A luz é pulsão de vida, registro de um corpo

desamparado, triste, solitário, débil. Clama por alguém. Eis um grito surdo que conclama ao

outro para que percebam a sua aparição no mundo. Quer se fazer vidente e visível diante do

silêncio.

 

Inteligência, comprometimento com a ruptura e intuição estavam na base da constituição das

poéticas de Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark e Lygia Pape, importantes

referências para o trabalho de Waltercio Caldas, para conceber espaços relacionados ao corpo,

“ou melhor, ao olhar encarnado em um corpo em movimento a partir da revolução de

elementos puramente planares”.[1] O que Caldas realiza caminha em outro sentido. Percebam

que o observador não é participante da ação, mas reconstrói de forma subjetiva a condição

planar das esculturas e materializa-se naqueles sólidos geométricos. Os planos vazados, ar

enquanto volume, a relação antropomórfica, o espelho como um autorretrato e um elemento

de transferência entre corpo do observador e matéria escultórica constituem Eureca (2001)

como um espaço a ser inventado pelas múltiplas possibilidades de “posições de corpos”:[2]

sua, enquanto observador, e dela, escultura.

 

Planos em movimento a partir da relação entre cheios e vazios, figura e fundo, linhas

horizontais e verticais são o motor da obra de Lygia Pape. Remetendo ao debate sobre a

pintura, o minimalismo e a ilusão gráfica e pictórica do grid que atravessou os anos 1950 e

1960, Pape vai mais adiante: seu interesse, além de ampliar as características formais e

estruturais do desenho e da pintura – ela singularmente constrói um espaço cinético no plano

–, é comprometer-se com o corpo. Estimular, especular, inventar um organismo por entre o

espaço geométrico. Sua linha é luz, corpo, matéria. Com sua economia de métodos peculiar,

vagarosamente constitui uma ação, um método para a aparição de uma linha que se converte

em desejo, ação e libertação do plano. Quer se fazer corpo, portanto. Interessante perceber o

quanto esse debate sobre a operação gráfica e ilusória do plano se faz em uma geração mais

recente de artistas, como é o caso de Carolina Martinez. Operando com uma espécie de

sombra e luz da madeira, Martinez cria espaços de cor e campos de luz (assim como de sua

ausência), combinando um jogo de formas e espaços que se convertem ora em janelas ora em

horizontes, criando, portanto, fortes laços com a prática pictórica. E tudo isso regido por

elementos precisos.

 

Nas obras de Isa Genzken e Otavio Schipper, em que especialmente o som é um referente, o

diálogo delas se dá pelo seu negativo, ou seja, pela ação de obstruir o som e evocar o seu

(suposto) silêncio. O que existe, ou melhor, aquilo que se expande pelo espaço, é a imagem do

som, isto é, as mais distintas suposições que podemos ter sobre qual som poderia ser ouvido

se finalmente aquilo que o impede (um betão, uma solda) fosse solto ou reinterpretado. O

som, portanto, é evidenciado pela forma, mas a nossa expectativa pelo seu acontecimento é

negada pelo silêncio. Não necessariamente a impossibilidade de o som se converter em

audição se constitui como drama ou falência, mas como um fenômeno que nos possibilita criar

inúmeras metáforas para o que pode ser qualificado como som. Parafraseando o pensamento

de John Cage de que o silêncio não existe e, portanto, ele não se reduz à questão acústico-

musical, estas duas obras não afirmam um significado último e derradeiro para o silêncio; ao

contrário, pois mostram sua abertura, complexidade e multiplicidade e apontam finalmente

para o fato de que silêncio e som estão em constante mutação e interpenetração.

 

Em uma perspectiva de tempo na qual vivemos em um transbordamento de imagens em que o

excesso revela também o afogamento em dados inúteis e a banalização da imagem (ela fica

vagando num mundo onde ela não sabe se é um anúncio de publicidade ou uma obra de arte),

as obras desta mostra operam exatamente contra essa automatização. Trazendo as

monotipias de Mira Schendel como um norte poderoso para a discussão, estas obras

despertam outra forma de perceber o mundo, de criar um alfabeto que se caracteriza não pelo

pragmatismo que dele por ora se espera, mas pelo viés da poesia, da delicadeza e

substancialmente de uma relação de opostos (cheio e vazio, dentro e fora, branco e preto,

retilíneo e torto) que se revela como a síntese da condição humana. É um alfabeto que

constantemente precisa ser decifrado, pois ele nunca se completa e é exatamente esse

exercício de descoberta incessante que o “apaga” da sua “função original” e converte essas

obras em discurso silencioso, lento e impactante sobre como ver e sentir o mundo. As linhas

de suas monotipias, que se convertem continuamente em ideogramas e imagens plásticas,

devem ser interpretadas sob a luz das próprias intempéries da vida. Estão lá o drama, o riso, o

silêncio, a vida, o fim. Tudo contido em uma economia surpreendente e mágica.

 

Finalmente, esse conjunto de obras não deve ser pensado como testemunho de um tempo,

mas como compromisso com a vida. Não são obras “datadas” ou “históricas”: possuem vida e

tempo próprios cujas projeções são voltadas para a construção de novos olhares sobre o

mundo.

 

 

De 29 de agosto a 26 de setembro.

Marcello Nitsche, registro de uma trajetória

21/ago

A exposição retrospectiva do artista Marcello Nitsche abarca sua extensa trajetória, desde a

década de 1960 até dias atuais. Sua carreira artística é marcada pelo diálogo estreito com a

cultura pop, pela leitura ativa da paisagem e dos signos urbanos, pela exploração de diversas

linguagens – como pintura, desenho, intervenções no espaço urbano e a realização de filmes

em super-8 mm. Destaca-se, igualmente, sua atuação nos debates e projetos obre arte-

educação e no cenário político da redemocratização do país, nos anos 1980, sobretudo pela

realização da identidade visual da campanha Diretas Já. A mostra reúne mais de cem do artista

nas últimas cinco décadas.

 

“LIG DES” leva à área de convivência da unidade Sesc Pompeia, Água Branca – Oeste, São

Paulo, SP,  grandes esculturas infláveis denominadas bolhas, esculturas de pequeno porte,

obras de suportes e características variadas, maquetes de obras para locais abertos, desenhos,

pinturas, registros em fotografia e em filmes em 8mm, documentando acontecimentos em

torno de sua obra.

 

O diálogo entre o espaço do Sesc Pompeia e a mostra é um destaque a parte, em que se revela

um fator potencializador para a exposição. Segundo a curadora, Ana Maria de Moraes

Belluzzo, “LIG DES” dialoga com as características do espaço, que já foi uma fábrica,

transformado em ambiente nada convencional de cultura e convívio por Lina Bo Bardi”.

 

 
Texto da curadora

 

A nova visão da natureza moderna impõe-se pela paisagem urbana aos jovens artistas

brasileiros atuantes em meados dos anos 1960. Fábrica e cidade constituem a moderna

paisagem e marcam, de modo peculiar, a experiência artística de Marcello Nitsche entrelaçada

à vida de São Paulo.

 

A presença dessas obras no espaço da fábrica do Sesc Pompeia é um estimulante ponto de

partida. O local, transformado pela imaginação da arquiteta Lina Bo Bardi em espaço não

convencional de convívio e cultura, atualiza sua vocação ao mostrar essa obra aberta à

existência no espaço urbano.

 

A experiência de Marcello Nitsche se desdobra num momento em que se agitam convenções

artísticas e o país é assaltado por profundas transformações políticas e culturais, momento em

que artistas alargam o campo perceptive e lançam mão da apropriação estética de coisas que

povoam o entorno imediato dos habitantes da cidade.

 

A contribuição precoce de Marcello brota no interior de movimentos de renovação cultural no

país, em diálogo com coletivos internacionais da época pop, em meio ao debate sobre o novo

realismo e o retorno à figura. É parte dos avanços da nova objetividade brasileira. Em âmbito

paulista, as experimentações acolhidas pelo grupo REX contam com o substrato trazido ao

debate por mestres da Faap, afinados com a pauta arquitetônica.

 

Em diálogo com diferentes interlocutores, sua obra irrompe no vigor das concepções, sob

diferentes mídias. No teor experimental dos anos 1960, 1970, 1980, apuram-se aberturas para

contemporaneidade.

 

A apreciação retrospectiva do repertório do artista deve-se à cordialidade das coleções

públicas e privadas e à presença de versões fac-similares de peças desaparecidas, construídas

pelo Sesc para a ocasião.

 

Que o caráter inaugural dessa obra chegue às novas gerações, reproduzindo a surpresa vivida

por seus pares com o aparecimento de cada novo trabalho de Marcello.

Ana Maria de Moraes Belluzzo

 

 

Sobre o artista

 

Marcello Nitsche é paulistano, e seu trabalho se apresenta nos anos 1960, em meio ao cenário

de uma São Paulo que tem sua paisagem transformada pelo crescimento urbano industrial.

 

 

Até 30 de agosto.

Valéria Costa Pinto na Marsiaj Tempo Galeria

A artista Valéria Costa Pinto, ocupa todo o espaço expositivo da Marsiaj Tempo Galeria,

Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, com a exposição “Do plano ao espaço”. A mostra apresenta obras

bidimensionais e tridimensionais, além de um site specific idealizado para o anexo da galeria.

 

Seu trabalho mais recente volta-se para a pesquisa da intercessão entre o interior e o exterior,

que se confundem nos diversos suportes da mostra: papel, cartão, madeira. A cor, usada

pontualmente pela artista ao longo de sua carreira, serve de ligação entre esses diversos

formatos. Vemos o uso do branco, preto e cinza, mesclados ao vermelho e gradações de rosa.

 

Com texto do crítico Paulo Sergio Duarte, a exposição é composta por seis prints (pigmento

mineral sobre papel de algodão), um relevo em papel e cinco em madeira, além de três

pequenas esculturas. No anexo da galeria, a pesquisa se adensa, radicalizando a ocupação do

espaço através de paredes avolumadas por formas geométricas e cores.

 

 

A palavra da artista

 

Valéria Costa Pinto traz para sua vasta e diversificada obra novas abordagens para as mesmas

questões, aquelas da Bauhaus e do construtivismo russo. “A obra não deve ser muda. É através

do movimento que faço essa interação, procurando sempre a relação entre espectador/obra.

Ora manipulando o objeto, ora fazendo com que o espectador se desloque no espaço ao

redor, ora transformando uma forma definida em outra diferente como se o objeto tivesse

vida. Um objeto dinâmico e não estável. Ressalto o valor afetivo e intuitivo com a obra.”

 

 

Até 12 de setembro.

Exposição na Fundação Vera Chaves Barcellos

A Fundação Vera Chaves Barcellos, Viamão, RS, apresenta a mostra “Destino dos Objetos | O

artista como colecionador” e as coleções da FVCB. Impressões, desenhos, fotografias,

gravuras, fotocópias, objetos, esculturas, colagens e vídeos integram a mostra que reúne um

diverso grupo de 50 artistas de várias nacionalidades. Com curadoria de Eduardo Veras,

“Destino dos Objetos” examina como, por diferentes caminhos, os artistas se fazem

colecionadores, ou, pelo menos, como seus trabalhos podem replicar algo do furor

colecionista.

 

Há aqueles que tratam de isolar, recolher e sacralizar peças específicas, peças que

imediatamente perdem sua função original, mesmo que não renunciem às memórias que

carregam. Há também aqueles em que, mais do que a escolha, despontam as noções de

acúmulo, ordenamento e classificação. Entre uns e outros, o artista emerge como o sujeito dos

desejos e das decisões, oferecendo ou adivinhando um destino para os objetos.

 

A exposição remonta ao gérmen da própria Fundação Vera Chaves Barcellos, cuja origem

encontra-se nas coleções de arte formadas pelos artistas Vera Chaves Barcellos e Patricio

Farías ao longo dos anos, antes mesmo da formalização desse importante centro de divulgação

de arte contemporânea.

 

Participam da mostra artistas brasileiros, latino-americanos e europeus: 3NÓS3, Albert

Casamada, Almandrade, Amanda Teixeira, Anna Bella Geiger, Antoni Muntadas, Boris Kossoy,

Brígida Baltar, Cao Guimarães, Carlos Asp, Carmela Gross, Christo, Daniel Santiago, Elcio

Rossini, Ester Grinspum, Evandro Salles, Feggo, Gisela Waetge, Gretta Sarfatty, Hannah Collins,

Heloísa Schneiders da Silva, Hudinilson Jr., Jailton Moreira, Jesus R.G. Escobar, Joan Rabascall,

Joaquim Branco, Joelson Bugila, Julio Plaza, Klaus Groh, León Ferrari, Lia Menna Barreto, Mara

Alvares, Marcel-li Antunez, Marcelo Moscheta, Marco Antônio Filho, Marcos Fioravante, Maria

Lúcia Cattani, Mariana Silva da Silva, Marlies Ritter, Mario Ramiro, Mário Röhnelt, Michael

Chapman, Nicole Gravier, Nina Moraes, Patricio Farías, Rogério Nazari, Téti Waldraff, Ulises

Carrión, Vera Chaves Barcellos e Waltércio Caldas.

 

A exposição contará com uma programação paralela com palestras, conversas com artistas,

além das visitas mediadas e da promoção do Curso de Formação Continuada em Artes – ações

permanentes do Programa Educativo da FVCB, que segue oportunizando vivas experiências

com a arte e estimulando a formação de novos públicos.

 

 

De 22 de agosto a 12 de dezembro.

Arquitetura da Luz

Em sua segunda exposição individual na Galeria Oscar Cruz, Itaim, São Paulo, SP, Hildebrando

de Castro apresenta uma série inédita de pinturas e relevos que comprovam seu domínio

refinado da técnica da pintura, mantendo sempre presente a sua constante preocupação com

a luz.

 

Nessa nova série de obras, ainda relacionadas com a arquitetura, percebe-se que mesmo

sendo uma pintura realista, o artista sempre deixa margem para a imaginação do observador,

na medida em que as composições retratadas flertam constantemente com a abstração

geométrica, a op-art, arte cinética e o construtivismo, porém sem nunca abandonar o terreno

da representação figurativa, é justamente aí que reside todo o mistério e encanto de sua

proposta.

 

 

De 03 de setembro a 24 de outubro.

Adriana Varejão exibe “Pele do Tempo”

Em cartaz no Espaço Cultural Airton Queiroz, UNIFOR, Fortaleza, CE, a mostra “Pele do Tempo”

reúne 32 obras de Adriana Varejão e 4 obras de artistas que a influenciaram, abrangendo 23

anos de trabalho. Uma das artistas brasileiras mais conhecidas internacionalmente, Varejão

realiza trabalhos que se baseiam na pintura e, sobre essa, que é a mais clássica das linguagens

da arte, consegue subverter e abrir inúmeros campos de questão. A curadoria traz a assinatura

de Luisa Duarte.

 

 

De 26 de agosto a 29 de novembro.

Do arcaísmo ao fim da forma na Pinacoteca

A Pinacoteca do Estado, Luz, São Paulo, SP, museu da Secretaria da Cultura do Estado de São

Paulo, exibe até 27 de setembro a exposição “Marino Marini: do arcaísmo ao fim da forma”.

Com curadoria de Alberto Salvadori, diretor do Museo Marino Marini em Florença, a exposição

é a primeira retrospectiva no Brasil do artista italiano reconhecido mundialmente por suas

esculturas em bronze, e um dos nomes fundamentais da arte moderna italiana.

 

A mostra proporciona ao público uma visão ampla e generosa da produção artística de Marini,

expondo 68 peças, entre esculturas, pinturas e desenhos, de distintos períodos de sua carreira

e reúne obras das duas importantes instituições dedicadas à obra do artista na Itália, o Museo

Marino Marini de Florença e da Fondazione Marino Marini de Pistoia – cidade natal de Marini.

 

A exposição “Marino Marini: do arcaísmo ao fim da forma”, tem patrocínio da Pirelli e apoio do

Istituto Italiano di Cultura di San Paolo. Esta iniciativa faz parte do “Ano da Itália na América

Latina” promovido pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da

Itália e já foi apresentada na Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre.

 

 

Sobre o artista

 

Nascido em Pistoia (1901 – 1980), na região da Toscana, Marini cresceu cercado pelas

influências da vizinha Florença, nutrindo uma forte ligação com a arte etrusca e com a arte

egípcia pertencente aos museus da região, desenvolvendo em sua obra quatro temáticas em

particular: o retrato, a Pomona – a encarnação do eterno feminino –, os cavalos e os cavaleiros

e o circo. Por este último era extremamente fascinado, sentindo-se intrigado pela natureza do

ofício do malabarista, do palhaço e dos acrobatas. “A relevância de Marino Marini foi de um

artista que não se comportou como um filólogo, não aceitou os dados históricos consumidos

pelo estudo e pela interpretação antropomorfa do sujeito, mas revelou, no seu trabalho, uma

dimensão de atualidade da matéria numa relação direta entre homem e sujeito”, destaca

Alberto Salvadori.

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