no Victoria & Albert Museum.

23/jan

O artista Jonathas de Andrade exibiu, no Victoria and Albert Museum, em South Kensington, Londres, três de seus filmes:  “Jangadeiros e Canoeiros” (“Rafters and Canoers”, 2025, 15 min), “Jogos Dirigidos” (“Directed Games”, 2019, 26 min), e “Olho da Rua” (“Out Loud”, 2022, 25 min) com apresentação ao vivo da trilha sonora com os músicos Homero Basílio, Antonio José do Rego Barreto Filho e Emerson Rodrigues da Silva. A exibição com apresentação musical integrou o “Brasil Contemporâneo: Simpósio e Concerto de Cinema”, que reuniu importantes artistas, curadores e músicos do Brasil para explorar a prática fotográfica contemporânea, o cinema e o som ao vivo, dentro do programa do V&A Photography Centre, que dialoga com práticas globais de fotografia e imagem em movimento

Jonathas de Andrade apresentou-se com a artista Rosângela Rennó, além dos curadores e pesquisadores Thyago Nogueira e Daniele Queiroz dos Santos, para discutir uma série de projetos curatoriais e comissionados pelo Museu, oferecendo uma visão sobre os contextos culturais, políticos e artísticos que moldam a prática visual contemporânea no Brasil.

Em 2023, Catherine Troiano, curadora do departamento de fotografia do Victoria and Albert Museum, convidou Jonathas de Andrade para uma pesquisa comissionada, e assim ele pode realizar o trabalho a que estava se dedicando. O resultado pôde ser visto na exposição “Permanência Relâmpago”, na Nara Roesler São Paulo, em setembro e outubro de 2025, e em novembro no Victoria and Albert Museum, que passou a abrigar em seu acervo as obras produzidas por Jonathas de Andrade. O MOCA (The Museum of Contemporary Art) de Los Angeles comprou o filme  “Jangadeiros e Canoeiros” para sua coleção. E ainda “Jangadeiros e Canoeiros” vai integrar o prestigioso Festival Internacional de Filmes de Rotterdam, em sua 55ª edição, entre 29 de janeiro a 8 de fevereiro de 2026. Jonathas de Andrade foi convidado por Vanja Kaludjercic, diretora do Festival.

Entre a fotografia e o cinema.

15/jan

O Instituto Moreira Salles (IMS), São Paulo, SP, exibe mostra com fotos inéditas de Agnès Varda e investiga a profunda relação entre sua fotografia e o cinema. “No meu trabalho, na minha vida de artista, sou tão fascinada pela imobilidade da fotografia quanto pelo movimento do cinema”, dizia Agnès Varda. O deslizamento entre o instante fotográfico e o fluxo fílmico, fundamental em sua obra, é um dos focos centrais da exposição no Instituto Moreira Salles (IMS). Reunindo 200 fotografias – muitas delas inéditas -, a iniciativa não só resgata a Varda fotógrafa, um lado menos conhecido da consagrada cineasta, mas também mostra como sua produção está conectada com as questões contemporâneas, como feminismo, combate ao racismo e defesa dos direitos civis. “Ela se interessa pelas possibilidades artísticas da fotografia”, afirma João Fernandes, diretor artístico do IMS e curador da exposição ao lado de Rosalie Varda, filha e parceira de Agnès.

Fez um curso profissionalizante, observou a produção de outros criadores e seguiu conselhos de mestres como Brassaï. O teatro também foi fundamental nesse processo de formação do olhar. Jean Vilar acabava de criar projetos que se tornariam referências incontornáveis, o Festival de Avignon e o Théâtre National Populaire (TNP), e a convidou para documentar essas produções. Agnès também colaborou com a revista Realités, envolveu-se em outros projetos teatrais como a montagem de Papa Bom Dieu – peça encenada pelo primeiro grupo de teatro negro francês com conexões com o Teatro do Negro que Abdias Nascimento fundou no Brasil. Em 1954, quebrando a lógica do mercado de arte, realizou sua primeira exposição, que não acontece numa galeria, mas em sua própria casa-ateliê, na Rua Daguerre, onde viveu até sua morte, em 2019.

Fonte: Maria Hirszman.

Blinded by the Light na Casa da Cultura de Comporta.

11/jul

A Fortes D’Aloia & Gabriel convidou a Mendes Wood DM para colaborar na quinta edição de sua mostra anual de verão em Comporta, Portugal. “Blinded by the Light” – em cartaz até 30 de agosto – é uma exposição coletiva que percorre a relação entre luz e sombra, explorando seu poder transformador como forças capazes de alterar tanto o ambiente físico quanto os estados psicológicos. Nesse contexto, a paisagem torna-se um espaço de transformação, onde fenômenos de percepção, memória e tempo convergem.

No cenário sociopolítico contemporâneo, experiências de sobrecarga sensorial e privação semântica se entrelaçam e disputam nossa apreensão da realidade. O ato de obscurecer e revelar torna-se não apenas uma exploração formal, mas também uma metáfora para as configurações turbulentas de Estados, fronteiras, logísticas sociais e imperativos políticos que regem o momento atual. As obras apresentadas em “Blinded by the Light” navegam pelo espectro entre o brilho e a sombra, o claramente definido e o nebuloso. A exposição abrange uma variedade de mídias, da pintura e fotografia à escultura e ao cinema.

A mostra apresenta obras inéditas de Laís Amaral, Paloma Bosquê, Rodrigo Cass, João Maria Gusmão, Marina Perez Simão, Marina Rheingantz, Maaike Schoorel, Pol Taburet, Antonio Tarsis e Janaina Tschäpe, além de trabalhos recentes de Nina Canell, Matthew Lutz-Kinoy, Leticia Ramos, Mauro Restiffe, Erika Verzutti, e pinturas históricas de Frank Walter.

Idealizado por Maria Ana Pimenta, sócia e diretora internacional da Fortes D’Aloia & Gabriel, o projeto Comporta estreou em 2021 e desde então se consolidou como uma plataforma vibrante de intercâmbio artístico, indo além dos modelos tradicionais de exposição. Instalado na Casa da Cultura – um antigo celeiro de arroz transformado em espaço cultural, parte da Fundação Herdade da Comporta – o projeto mistura arte contemporânea com a atmosfera única da região, proporcionando um ritmo mais lento e contemplativo de fruição. Enraizado na abertura e no diálogo, o projeto reflete o espírito colaborativo da galeria, fomentando parcerias significativas com instituições que compartilham dessa mesma visão. Esse formato flexível permite um processo curatorial mais intuitivo e cultiva sinergias únicas, incentivando novas conversas com parceiros afins. Ao longo dos anos, a Mostra de Verão de Comporta tornou-se um ponto de encontro para colecionadores, curadores, artistas e galeristas, oferecendo um ambiente mais espontâneo e orgânico do que os circuitos formais de feiras e galerias de arte.

A exposição de 2025 será acompanhada por um ensaio de Cindy Sissokho, curadora e produtora cultural que co-curou o Pavilhão Francês na 60ª Bienal de Veneza em 2024.

De Isaac Julien para Lina Bo Bardi.

26/mar

A Nara Roesler São Paulo apresenta até 24 de maio, a exposição “Isaac Julien – Lina Bo Bardi – A Marvellous Entanglement – Photographs & Collages” exibindo 20 obras, 16 delas totalmente inéditas – derivadas do filme “Lina Bo Bardi – A Marvellous Entanglement” (2019), ni qual Lina Bo Bardi (1914-1992) é representada por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. O texto crítico é de Solange Farkas, fundadora da Associação Cultural Videobrasil, em 1991, e curadora de diversas bienais e exposições.

As novas colagens do cineasta e artista britânico Sir Isaac Julien (1960), apresentadas pela primeira vez, se destacam pelo uso singular das cores, evocando diversos motivos poéticos e ecológicos na obra de Lina Bo Bardi.

A mostra na Nara Roesler ocorre simultaneamente à exibição inédita no Brasil, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), da videoinstalação, com nove telas, do filme “Lina Bo Bardi – A Marvellous Entanglement”, de Isaac Julien, no novo anexo do museu, no edifício Pietro Maria Bardi.

Desse modo, o público poderá ter contato com cenas complementares do mesmo trabalho de Isaac Julien. Tanto no filme como nas fotografias e colagens, Lina Bo Bardi é representada em diferentes estágios de sua vida por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. No filme, as atrizes lêem textos adaptados dos escritos da arquiteta ítalo-brasileilra, envolvendo os espectadores em uma narrativa que se baseia em uma citação de Lina Bo Bardi – “O tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado no qual, a qualquer momento, fins podem ser escolhidos e soluções inventadas, sem começo nem fim”.

 

Influências de produções intelectuais e artísticas.

21/jan

Vozes Negras: legados intelectuais e artísticos para a formação do Brasil, curso oficiado por José Rivair Macedo no Instituto Ling, Bairro Três Figueiras, Porto Alegre, RS.

Em que medida as criações literárias, artísticas e teóricas de personalidades negras oferecem novas contribuições para o entendimento da sociedade brasileira? Em três encontros, o curso se propõe a explorar, de maneira panorâmica, as trajetórias e as influências das produções intelectuais e artísticas de autores negros no Brasil a partir da metade do século XIX. O objetivo é descrever, examinar, interpretar e cotejar o rico e diversificado conjunto de obras escritas, visuais e sonoras, identificando seus temas recorrentes, conceitos estruturantes e a circulação de suas ideias em diferentes contextos históricos e sociais da história brasileira

Sobre o ministrante.

José Rivair Macedo é Doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH-USP; professor de História da África no curso de História e no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS; coordenador da Rede Multidisciplinar de Estudos Africanos do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados – ILEA; coordenador do Grupo Èkè Edé Yorubá: Estudos de História e Cultura Yorùbá na África, vinculado ao de Estudos Africanos, Afro-brasileiros e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – NEABI-UFRGS.

Performance ritualística.

09/set

Será realizado no dia 31 de agosto o lançamento do filme “rawo Bori: oferenda para a cabeça cósmica”, concebido a partir da apresentação da performance ritualística Bori no Octógono da Pina Luz, dirigido por Ayrson Heráclito em parceria com Lula Buarque de Hollanda. A sala de vídeo vai estar disponível até dia 02 de fevereiro de 2025 na Pina Luz em São Paulo.

O artista baiano Ayrson Heráclito, em “Bori” (2008/2022), adapta o ritual tradicional que saúda e fortalece a cabeça, evocando os Orixás, preservando elementos próprios dos terreiros enquanto aproxima o público não iniciado dessas práticas religiosas. Sua poética, ancorada na interpretação de ritos de religiões de matriz africana, busca criar perspectivas de cura para histórias de violência e narrativas da espiritualidade. A obra integra o acervo da Pinacoteca de São Paulo desde 2020 e foi apresentada no Octógono da Pina Luz em agosto de 2022, como parte da exposição “Ayrson Heráclito: Yorùbáiano”.

Sobre o artista

Ayrson Heráclito (Macaúbas, 1968). É artista, professor e curador. Possui doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo, e mestrado em Artes Visuais pela UFBA. Com um olhar particular, a obra de Ayrson Heráclito evidencia as raízes afro-brasileiras e seus elementos sagrados, projetando ações e práticas que compõem a história e a cultura da população negra. Seus trabalhos transitam entre instalações, performances, fotografias e produções audiovisuais que lidam com as conexões entre o continente africano e as diásporas negras nas Américas. O corpo é um elemento central de sua pesquisa, empregando referências rituais, principalmente do candomblé, como dendê, carne, açúcar e sangue, buscando relacioná-los ao patrimônio histórico e arquitetônico ligado ao comércio escravista. Entre 2008 e 2011, produziu a série intitulada Bori, que significa oferenda à cabeça. A performance apresenta uma espécie de rito no qual Ayrson Heráclito oferece a comida sacrificial ligada a cada um dos 12 principais orixás. São utilizados alimentos como milho, pipoca, quiabo, arroz e fava, colocados em torno da cabeça de cada performer, que estão deitados em esteiras de palha e vestidos com roupas brancas. Outro importante marco na carreira do artista foi Transmutação da Carne, iniciado em 1994. A obra surgiu a partir de um documento que descreve as torturas cometidas pelos senhores de engenho contra os escravizados. Em 2015, Ayrson Heráclito reapresentou Transmutação da Carne durante a exposição Terra Comunal, da artista sérvia Marina Abramovic (1946), no Sesc Pompéia, em São Paulo. Uma de suas principais pesquisas é Sacudimentos, sobre o tráfico negreiro entre a Bahia e o Senegal, realizada em 2015 e apresentada na 57ª Bienal de Veneza (2017). Composta por vídeos e fotografias, a obra é construída a partir de rituais de limpeza da Casa dos Escravos na Ilha de Goré e de um grande engenho de açúcar no Brasil, exorcizando os fantasmas da colonização. O artista participou da 57ª Bienal de Veneza (2017), Itália; Bienal de fotografia de Bamako, Mali (2015) e da Trienal de Luanda em Angola (2010). Em 2022, teve uma grande exposição individual, “Ayrson Heráclito: Yorùbáiano”, que contemplou décadas de produção na Estação Pinacoteca, em São Paulo. Foi um dos curadores-chefes da 3ª Bienal da Bahia, curador convidado do núcleo “Rotas e Transes: Áfricas, Jamaica e Bahia” no projeto Histórias Afro-Atlânticas no MASP, que esteve em cartaz no MASP e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em 2018. Recebeu o prêmio de Residência Artística em Dakar do Sesc_Videobrasil e a Raw Material Company, Senegal. Possui obras em acervos do Musem der Weltkulturen, Frankfurt; MAR – Museu de Arte do Rio; Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador; MON, Curitiba; Videobrasil e Coleção Itaú.

Retrato audiovisual

01/jul

A exposição de Sandra Kogut “No Céu da Pátria Nesse Instante” reproduz falas de um país fraturado e provoca a interação entre o público no Sesc Niterói, RJ.

Sempre transitando entre o cinema, a televisão, a videoinstalação e a arte visual, Sandra Kogut apresenta seu novo projeto: “No Céu da Pátria Nesse Instante”, uma instalação de audiovisual expandido. Em cena, pessoas que participaram ativamente das eleições de 2022, numa espécie de retrato audiovisual de um país dividido. E aí está o trunfo da exposição: para que o visitante possa compreender o que está sendo projetado, ele precisa interagir com o outro, com o vizinho, numa simbologia de reconexão entre as pessoas. A mostra pode ser visitada até 20 de julho.

Numa sala escura, Sandra Kogut projeta frases no ar. São comentários de cidadãos comuns sobre as eleições de 2022, recolhidos ao longo de 2022 e 2023. Ao entrar no local, as pessoas são atingidas por frases que representam posições políticas diversas, tornando-se elas mesmas as telas. “Num lugar que parece não ter nada, você é ao mesmo tempo o suporte e o alvo de comentários de pessoas que não se veem, não se escutam e parecem viver em realidades paralelas. Ao mesmo tempo, para entender o que está acontecendo você precisa do outro. É preciso pedir o apoio de alguém para servir como tela”, explica a artista.

A exposição conta também com um trabalho sonoro de O Grivo, grupo de música experimental, formado pelos mineiros Nelson Soares e Marcos Moreira. Com o apoio de fones, o público pode ouvir um pouco das conversas gravadas pelo projeto. A mostra contempla ainda uma projeção no chão de imagens do 08 de janeiro feitas pela artista. Em 2020, Sandra Kogut ganhou uma bolsa na universidade de Harvard, nos EUA, com a qual registrou os personagens que serviram de matéria-prima para o projeto No Céu da Pátria Nesse Instante. “Meu interesse é falar de política, mas não através das pessoas que estão no centro do poder, os protagonistas usuais, e sim das pessoas comuns, que estão nas ruas. Aqueles que olham para tudo de lado, de trás, do fundo”, diz a artista. O material registrado deu origem ao filme No Céu da Pátria Nesse Instante, documentário longa-metragem que estreou no 56º Festival Brasileiro de Cinema de Brasília e com estreia comercial prevista para o fim do ano. Nessa exposição, a artista utiliza registros que vão além do longa-metragem. “Queria não só fazer um filme como também uma instalação com esse material tão vasto e tão rico, porque tem coisas que não cabem no formato de cinema”, explica a artista.

Sobre a artista

Sandra Kogut nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Vive e trabalha entre o Brasil, a França e os EUA. Estudou filosofia e comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No audiovisual, realizou trabalhos de ficção, documentários, filmes experimentais e instalações. Começou como videoartista nos anos 1980, documentando performances em sua cidade. Uma dessas resultou no vídeo Intervenção Urbana (1984), gravado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nos dois anos seguintes, realizou uma série de projetos experimentais: Egoclip (1985), com o poeta Chacal; 7 Horas de Sono (1986), com o artista plástico e escultor Barrão; e O Gigante da Malásia (1986). Na década de 1990, criou as Videocabines – uma série de instalações no Metrô carioca, na Casa de Cultura Laura Alvim e no MIS de SP – que deu origem ao trabalho Parabolic People, produzido no CICV Pierre Schaeffer (França) e filmado em Paris, Nova Iorque, Moscou, Tóquio, Dakar e Rio. Sandra participou de exposições no Brasil e no exterior, enquanto paralelamente realizou filmes como os premiados Adieu Monde, Passagers d’Orsay e Um Passaporte Húngaro. Entre seus longas de ficção estão Mutum (2007), Campo Grande (2015) e Três Verões (2019), que receberam prêmios nos grandes festivais e correram o mundo. Entre 2016 e 2022 foi comentarista do programa Estúdio I na GloboNews. Foi professora nas universidades americanas de Princeton, Columbia (Film Program) e University of California, San Diego/UCSD. Foi Visiting Scholar na New York University durante quatro anos.

MAM Rio em cinco perspectivas

12/jul

A mostra “Museu-escola-cidade: o MAM Rio em cinco perspectivas” propõe um exercício de memória no 75º aniversário do museu: um ato de olhar para o passado, para o que já foi feito e as coisas que lá aconteceram, como convite para pensar o que o MAM Rio pode ser hoje e no futuro. Focando nas primeiras três décadas de sua história, a exposição apresenta cinco áreas que ancoram as ações do MAM Rio, e um evento que marcou seu curso. Educação, design, cinema, o experimental e os movimentos de criação artística que atravessaram a existência do museu são os campos de atuação escolhidos, os quais cimentam a relevância de uma instituição intimamente ligada às dinâmicas da cidade.

Como evento, o incêndio ocorrido em 1978 no museu representa um momento de mudanças caracterizado pelo engajamento coletivo de profissionais da cultura e da população, e pela revisão institucional. Em cada um desses eixos, obras do acervo do MAM Rio são apresentadas junto com documentos provenientes, em sua maior parte, dos arquivos do museu, escrevendo histórias por meio de objetos, imagens e impressos.    .

Até 03 de dezembro.

Artista do Recife

O Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Centro, Rio de Janeiro, RJ,  recebe, a partir de 15 de julho, a exposição “Desculpe Atrapalhar O Silêncio De Sua Viagem”, de Lia Letícia, em sua primeira exibição individual na cidade. Com curadoria de Clarissa Diniz, a exposição apresenta singularidades do percurso da artista, que busca redimensionar e representar corpos invisibilizados ou excluídos da história oficial da arte. Na mostra serão apresentadas obras, práticas, intervenções e documentos que, conectando Rio Grande do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro, visam potencializar esses cruzamentos geopolíticos em contínua transformação e expressar um desejo vivo pela criação em coletividade. Com realização de Rosa Melo Produções Artísticas e incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, por meio do Funcultura, a mostra ficará em cartaz até o dia 26 de agosto, sempre com entrada franca.

Como destaca a curadora, Clarissa Diniz, certamente quem frequenta ônibus, trens e metrôs das grandes cidades já foi abordado por um “desculpe atrapalhar o silêncio de sua viagem”. Mesmo proibidas no Brasil, as atividades comerciais nos meios de transporte são o meio de sobrevivência de milhares de pessoas. O comércio de itens tão díspares quanto balas, pendrives, biscoitos e fones de ouvido divide espaço com músicos, poetas, dançarinos e vários outros artistas que também fazem desses veículos palco para suas performances. Esse contexto de disputa entre desigualdade social e a pujança criadora permeia a produção de Lia Letícia.

“É nessa complexidade política, social e estética das formas de trabalho que se inscreve a obra de Lia Letícia. Nesse contexto, sua obra atua não apenas como denúncia, mas como uma provocativa, irônica, inventiva e bem-humorada terapêutica social. A exposição é um convite para a aproximação desses públicos às práticas da artista que também fará uma criação coletiva junto a doceiras da Saara”, destaca a curadora Clarissa Diniz.

Gaúcha radicada em Recife, PE, desde 1998, Lia Letícia tem sua obra lastreada não na excepcionalidade e pretensa autonomia da arte, mas em seu oposto: sua ordinariedade, suas disputas, suas violências. Para a artista, a arte é parte dos conflitos e construções da cultura e, como tal, deve ser pensada, criticada e tensionada por práticas culturais que se situam à margem do coração de sua hegemonia econômica, política e simbólica. Por isso, há quase três décadas, tem convocado camelôs e artistas de rua para usos não-especializados da ideia de arte e suas práticas políticas. Ela usa o humor e convida mulheres, indígenas, negros e outros sujeitos que foram subalternizados pela colonização para um diálogo e um conjunto de intervenções e propostas que, agora, pela primeira vez serão articulados e apresentados como um corpo.

Lia Letícia considera que sua atuação como artista e seu papel como educadora se retroalimentam. “Toda obra, mesmo quando pensada individualmente pelo artista, traz dentro de si um pensamento coletivo, da vivência do artista enquanto ser social”, afirma.

O trabalho que leva o nome da exposição contou com a participação do musicista Jessé de Paula, que tocava nos coletivos de Recife, e atuou de forma ativa e insubmissa. Segundo Lia Leticia, a conversa com Jessé de Paula mudou, em diversos aspectos, a própria feitura da obra. “Essa tensão, essa fricção entre como uma obra é pensada, como ela é executada e como chega ao espectador é o que me interessa. Busco trazer para dentro do meu trabalho as contradições desses outros corpos e coletividades”.

Também faz parte da exposição “Thinya” (2015-2019), obra realizada pela artista a partir de duas residências artísticas, uma em Berlim – Alemanha -, e outra no Território Indígena Fulni-ô, no agreste de Pernambuco. Com a sinopse “Minha primeira viagem ao Velho Mundo. Minha fantasia aventureira pós-colonial”, o trabalho foi premiado em festivais como o Janela Internacional de Cinema, de Recife, e o Pachamama – Festival de Cinema de Fronteira, no Acre, e tem em sua trajetória a passagem por mostras nacionais e internacionais.

Resistência Retiniana

21/jun

“Uma vez que estes mistérios nos ultrapassam, finjamos ser os seus organizadores”.

Jean Cocteau

A “Resistência Retiniana”, uma expo-instalação, do documentarista Silvio Tendler – no Sesc Niterói até 08 de julho -, diretor premiado, reconhecido no Brasil e no exterior por sua contribuição ao cinema apresenta-se como criador de três projetos distintos: expo-instalação, espetáculo teatral (Olga e Luís Carlos, uma história de amor) e o documentário em longa-metragem (O Futuro é nosso!), produzidos por sua produtora Caliban Produções Cinematográficas.

Para a expo-instalação, “Resistência Retiniana”, Silvio Tendler convidou a artista visual Wira Tini, e os fotógrafos João Roberto Ripper e Antonio Scorza. Assina como curador, fotógrafo e cineasta e, atesta ser “…Uma experiência propositadamente caótica de fotografias, palavras e sons. Subverti o conceito ao criar a “resistência retiniana”, onde o cérebro captaria várias imagens em paralelo (ao invés de apenas uma) e criaria um labirinto de memórias com o que vivemos e sentimos em nossos percursos pela vida”, define o curador que, no texto abaixo, explica o termo como um dos primeiros aprendizados da escola de cinema.

Para Silvio Tendler, que passou trinta anos lecionando para alunos da PUC-RJ, nos ensina o desafio, quando se reinventa para cada nova criação entregue ao seu público. E reflete sobre “Resistência Retiniana”: “As imagens que selecionei, fotografias minhas de diversas fases, desde o jovem amante da imagem estática que corria o mundo atrás de revoluções, ao cineasta experiente que perdeu parte do movimento das mãos, mas não a vivacidade, e capta o que vê com um celular pela janela do carro”.

Um dos primeiros aprendizados nas escolas de Cinema é o fenômeno da persistência retiniana, que faz com que um objeto permaneça na retina por uma fração de segundo mesmo após desaparecer do campo de visão. O que seria uma falha do olho humano gera a ideia de movimento e está na origem da sétima arte. Subverti o conceito ao criar a “resistência retiniana”, onde o cérebro captaria várias imagens em paralelo e criaria um labirinto de memórias com o que vivemos e sentimos em nossos percursos pela vida.  A ideia surgiu a partir de uma conversa com Alice Maria Ferreira, professora da UnB, que me chamou a atenção para o tempo que o cérebro leva para processar uma imagem. É nessa experiência propositadamente caótica de fotografias, palavras e sons que eu convido o visitante a mergulhar. Ao cruzar o pano preto que nos separa da realidade, entramos em uma caixa escura feita de guerras, dores, afetos, rupturas, carnavais, cidades, povos originários e muita, muita resistência. Convidei dois fotógrafos e uma artista visual para dividir essa experiência comigo. João Roberto Ripper é ligado aos movimentos sociais, à defesa dos Direitos Humanos e às populações vulneráveis. Antonio Scorza transita entre o desalento e a alegria, em um testemunho do Homem e sua busca por sobrevivência. A artista visual Wira Tini, de origem indígena, traz as raízes de um Brasil profundo, a luta das mulheres, e a esperança de um futuro com mais igualdade. Nossa seleção de fragmentos de mundo conta com quatro olhares diversos que se encontram na busca pelo Humano. Selecionei fotografias minhas de diversas fases, desde o jovem amante da imagem estática que corria o mundo atrás de revoluções, ao cineasta experiente que perdeu parte do movimento das mãos, mas não a vivacidade, e capta o que vê com um celular pela janela do carro.

Silvio Tendler, cineasta, fotógrafo e curador

Sobre os artistas

Antonio Scorza: mergulhado no caleidoscópio da vida, transita em favelas e palácios, fome e banquetes, guerras e amores, capturando a contradição impregnada na condição humana em pequenos lapsos de luz. Trabalhou na France Presse, “O Globo”, “Jornal do Brasil” e já recebeu os prêmios World Press Photo, National Press Photographer Association e CNT.

João Roberto Ripper: fotojornalista autodidata, há mais de 50 anos focaliza seu trabalho na afirmação dos Direitos Humanos e busca documentar a delicadeza, a beleza dos rostos e dos fazeres dos socialmente marginalizados. Para Ripper, tão importante quanto fazer a denúncia dos desrespeitos aos direitos, é evidenciar a beleza, dignidade e humanidade de cada um.

Silvio Tendler: em 50 anos de carreira, lançou mais de 80 longas, médias e curtas-metragens com viés histórico, social e político. Acumula as três maiores bilheterias de documentários brasileiros e foi premiado em importantes festivais. Prefere biografar os “vencidos” aos vencedores, por isso ficou conhecido como cineasta dos sonhos interrompidos.

Wira Tini: grafiteira e muralista, traz em seus trabalhos sua raiz ribeirinha e de seus ancestrais do povo kokama, imagens  que retratam a cultura e a vivência nortista,  especialmente mulheres e trabalhadores. Pioneira na cena da arte urbana no Amazonas e primeira mulher a fazer um festival de grafite sobre as mulheres da região Norte.