Centenário de Athos Bulcão

22/nov

O CCBB Rio, exibe mostra retrospectiva de Athos Bulcão. A exposição celebra o centenário de Athos Bulcão, conhecido pela diversidade de sua obra e inegável importância histórica e cultural. A mostra apresenta mais de 300 obras, incluindo trabalhos inéditos, que tornam possível visualizar seu caminho no Brasil e exterior, desde sua inspiração inicial pela azulejaria portuguesa, seu aprendizado sobre utilização das cores de quando foi assistente de Portinari, até as duradouras e geniais parcerias com Niemeyer e João Filgueiras Lima.

 

Seus famosos painéis coloridos de azulejos estão no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, na Igreja Nossa Senhora de Fátima e no Congresso Nacional. Ele também foi assistente de Cândido Portinari na construção do painel de São Francisco de Assis na Igreja da Pampulha, em BH.

 

A mostra contempla a produção de Athos entre 1940 e 2005, além de trabalhos inéditos de jovens artistas inspirados por sua produção. A exposição investiga o trabalho do artista além da azulejaria, dividida em oito núcleos, como seu uso de cor e da poesia, destaca sua relação com a pintura figurativa, trabalho gráfico e até figurino. A curadoria é de Marília Panitz e André Severo.

 

 

Até 25 de janeiro de 2019.

Cosme Martins exibe pinturas no MNBA

01/nov

Um dos cartões postais do Maranhão é o belo conjunto de azulejos dos prédios centenários da capital do estado, São Luis.  E é este imaginário que inspira, em parte, a exposição do artista Cosme Martins no Museu Nacional de Belas Artes/Ibram/MinC, Cinelândia, Rio de Janeiro, RJ. A mostra “Alma Azulejada – Cosme Martins 40 anos” reúne 12 quadros em acrílica sobre tela da fase figurativa e também da sua atual fase abstrata.  Os trabalhos apresentam uma explosão de pigmentos multicoloridos que fazem brotar de suas telas a alma azulejada do pintor, alternando as cores inquietas da poesia com jardins abstratos. O poeta Carlos Dimuro, curador da exposição, assim define a obra do artista: “azulejar nossos olhos com beleza e imaginação é o labor incansável deste maranhense do mundo”.

 

 

Sobre o artista

 

Maranhense de São Bento, nascido em 1959, Cosme iniciou sua carreira, pintando temas figurativos locais. Na década de 80, mudou-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de expandir o reconhecimento de sua arte. Obteve orientação de grandes artistas como Rubens Gerchman, Luiz Áquila, Aluísio Carvão, Kate Van Scherpenberg e José Maria Dias da Cruz. Estas vivencias com alguns dos grandes nomes da arte brasileira favoreceram a obtenção de prêmios e participações em salões e importantes museus de arte como Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e Museu de Arte Moderna de São Paulo.

 

No desenvolvimento de sua obra, Cosme Martins adquiriu reconhecimento, e interferências de críticos notáveis.  Walmir Ayala, por exemplo, afirmou que sua maneira de pintar era a “nova escrita”. Outro crítico importante, Roberto Pontual, abriu-lhe as primeiras portas para o mercado de arte e hospedou-o em Paris, cidade que o recebeu como vencedor do Prêmio de Viagem através da participação na exposição “A Mão Afro Brasileira em Pintura”. Nessa viagem, Cosme Martins pôde conhecer nomes como Cícero Dias, Manabu Mabe e ainda reencontrar Rubens Gerchman, que lhe deu aulas e foi o primeiro a lhe dizer, anos antes, que sua arte poderia alcançar projeção nacional.

 

Na fase conhecida como “Favelas”, observa-se nos trabalhos de Cosme Martins a transição entre o figurativo e o abstrato: elementos como barracos e pessoas foram se tornando cada vez menos óbvios, até a pintura alcançar a total ausência da figura como podemos perceber nos seus trabalhos atuais. Suas telas apresentam texturas, em terracota, que são construídas com uma técnica que o artista não revela, porém capaz de manter a firmeza e evitar os craquelês. Outro elemento nos trabalhos de Cosme Martins, a variedade de cores é movida pela sensibilidade do artista que confessa não conseguir chegar a um limite até que sua agonia seja substituída pela sensação de prazer ao terminar suas telas.

 

 

Até 02 de dezembro.

Cor e silêncio em Dacosta

“Dacosta – A cor do silêncio”, é o título da exibição retrospectiva de pinturas de Milton Dacosta, sob curadoria de Denise Mattar, atual cartaz da Galeria Almeida e Dale, Jardim Paulista, São Paulo, SP. A exposição reúne 54 trabalhos das mais variadas fases de seu percurso, desde 1930 à década de 1980.

 

A obra de Milton Dacosta (1915 – 1988), pintor fluminense que conseguiu conciliar as tradições a um potente e fértil processo criativo. O pintor volta a ter seu trabalho celebrado por uma individual em São Paulo depois de um hiato de 12 anos.

 

Ao longo de sua trajetória, Milton Dacosta não se deixou limitar por nenhuma escola, assumindo influências diversas. “Sem dar importância a elogios ou críticas o artista sempre seguiu o caminho que lhe interessava, da figuração impressionista à metafísica, do cubismo à simetria da luz e da forma concreta à sensualidade da curva”, afirma a curadora.

 

Em vida, o artista foi aclamado pelo público e também pela crítica. Seu trabalho foi reconhecido pelos mais importantes nomes da área, de Sérgio Milliet a Mário Pedrosa, de Samson Flexor a Waldemar Cordeiro. Em 1955, o júri da IIIª Bienal Internacional de São Paulo conferiu a ele o prêmio de melhor pintor nacional.  Então com 40 anos de idade, recebia o reconhecimento máximo de seu trabalho em meio ao acirrado embate entre figuração e abstração que havia na época. Milton Dacosta era uma das raras unanimidades daquele contexto. Para Denise Mattar, a aceitação de sua obra era resultado de um percurso particular de um pintor excepcional, que sabia estabelecer diálogos com as obras de artistas que o interessavam e manter-se, ainda assim original.

 

Seguindo uma trajetória cronológica, a exposição “A cor do silêncio” tem início com os primeiros trabalhos do jovem pintor. “Paisagem Urbana”, de 1937, e a icônica “Autorretrato”, de 1938, são deste período. Com forte influência dos movimentos parisienses e do naturalismo com acentos impressionistas, as telas já enunciavam uma das principais características de sua obra: enquanto predominava o realismo expressionista de cunho nacionalista de artistas como Di Cavalcanti e Portinari, ele mantinha-se fiel às suas predileções.

 

Nos anos 1940, Milton Dacosta volta-se à pesquisa estrutural da imagem, trilhando uma fase de descobertas. Neste período, interessa-se pelas figuras longilíneas e pela metafísica de De Chirico, cuja influência é nítida em trabalhos como “Ciclistas”, de 1941, e “Carrossel”, de 1945. Ao contrário do artista italiano, entretanto, as telas do brasileiro são de clima solar, não associado a angústias, mas ao lúdico, tema constante. Após uma temporada de viagens e estudos nos Estados Unidos e na Europa, o pintor retorna ao Brasil no final dos anos 1940 e, num primeiro momento, retoma as figuras alongadas que já realizava anteriormente. Em seguida, inicia uma fase geométrica, cheia de oposições. “O claro é contraposto ao escuro, a frente é também perfil, a luz se define pela sombra. O artista distorce cabeças, decupa rostos e corpos em triângulos e círculos e, a partir deles, elabora contrastes marcados por linhas estruturais ortogonais ou curvilíneas, numa construção quase musical”.

 

Em 1952, já casado com a também pintora Maria Leontina, o artista  passa a realizar as (de)composições geométrico-figurativas. É desse período a série com a qual recebeu o prêmio na IIIª Bienal Internacional de São Paulo, em 1955. Em “Sobre a Horizontal”, obra de 1954, retrata uma natureza-morta apenas entrevista, construída com traços ortogonais, decomposta em figuras geométricas utilizando-se da têmpera, em tonalidades azuis, ocres suaves e brancos luminosos, sobre intenso fundo negro.

 

Pouco a pouco, Dacosta abandona as alusões figurativas, alcançando um construtivismo lírico e singular, cada vez mais conciso. Trabalhos como “Em Branco”, de 1956, “Em Roxo”, de 1957, e “Em Verde”, de 1958, pertencem a este momento e mostram a precisão compositiva e o apurado cromatismo do pintor. A crítica considera essa fase como o ápice de sua carreira. O artista, entretanto, não compartilhava dessa opinião. “Ele nunca foi seduzido pelo movimento concretista e nem mesmo pelos neoconcretos, era fiel apenas a ele mesmo e à sua busca interior”, define a curadora Denise Mattar.

 

O artista toma então um caminho de regresso à figuração, processo de retomada que se estendeu pelos anos 1960. As linhas retas começam a se flexibilizar e as curvas se insinuam ao espectador, a exemplo de “Mulher com o rosto apoiado sobre a mão”, “Figuras”, da década de 1950, e do conjunto de quatro obras intituladas “Figura com Chapéu”, realizada entre os anos de1958 e 1961. No final da década de 1960, e até seus últimos anos de vida, o artista realiza as sensuais “Vênus”, sempre marcadas por linhas sinuosas, criadas pelo desenho livre e sem amarras. “Figura e Pássaro”, de 1964, “Vênus e Pássaro”, entre 1969 e 1970, “Figura”, de 1964, são exemplos dessa fase, que se tornou um sucesso no iniciante mercado de arte da época.

 

 

Até 24 de novembro.

120 anos de Di Cavalcanti

19/set

Um dos mais importantes artistas do modernismo brasileiro, Emiliano Di Cavalcanti é o tema da mostra retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” entrou em cartaz no mês em 02 de setembro, mês em que se comemora 120 anos de nascimento do artista. Entre pinturas, desenhos e ilustrações, mais de 200 obras, realizadas ao longo de quase seis décadas de carreira e que hoje pertencem a algumas das mais importantes coleções públicas e particulares do Brasil e de outros países da América Latina, como Uruguai e Argentina.

 

Obras icônicas e outras pouco vistas foram distribuídas em sete salas do primeiro andar da Pina Luz, sob a curadoria de José Augusto Ribeiro. Segundo o pesquisador, a exposição pretende investigar como o artista desenvolve e tenta fixar uma ideia de “arte moderna e brasileira”, além de chamar a atenção para a condição e o sentimento de atraso do Brasil em relação à modernidade europeia no começo do século XX. “Ao mesmo tempo, o título se refere aos lugares que o artista costumava figurar nas suas pinturas e desenhos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares – lugares e situações que, na obra do Di, são representados como espaços de prazer e descanso”, explica Ribeiro. Além da atuação pública de Di Cavalcanti como pintor, a mostra destaca aspectos menos conhecidos de sua trajetória, como as ilustrações e charges para revistas, livros e até mesmo capas de discos. Também foi abordada sua condição de mobilizador cultural e correligionário do Partido Comunista do Brasil (PCB). “Esse engajamento reforça o desejo de transformar o movimento moderno em uma espécie de projeto nacional”, completa Ribeiro.

 

A Pinacoteca prepara um catálogo que reunirá três ensaios inéditos escritos pelos autores José Augusto Ribeiro, curador da mostra, Rafael Cardoso (historiador de arte e do design), e Ana Belluzzo, professora e crítica de arte. O livro trará ainda reproduções das obras apresentadas, uma ampla cronologia ilustrada e um compilado de textos já publicados sobre a trajetória do artista. A exposição tem patrocínio de Banco Bradesco, Sabesp, Ultra, Escritório Mattos Filho e Alexandre Birman.

 

 

Até 22 de janeiro de 2018.

Cícero Dias no CCBB/Rio

28/jul

O Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB, Centro, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a partir de 02 de agosto, a retrospectiva com cerca de 130 obras do pintor pernambucano Cícero Dias (Escada, Pernambuco, PE, 1907- Paris, França, 2003) provenientes de grandes coleções públicas e privadas brasileiras e algumas de outros países como Austrália, China e França, contextualizando sua história e evidenciando sua relação com poetas e intelectuais e sua participação no circuito de arte europeu.

 

Na edição carioca a exposição foi acrescida da emblemática obra de 12 metros, “Eu vi o mundo… ele começava no Recife”, que causou comoção no Salão Revolucionário de 1931, e do painel Visão carioca, com 8 metros de comprimento. Curadoria de Denise Mattar e Curadoria Honorária de Sylvia Dias, filha do artista.

 

 

Roteiro

Dia 02 de agosto, ás 17h30min – Visita com a curadora Denise Mattar

19hs – Exibição do filme “Cícero Dias, o Compadre de Picasso”, direção de Vladimir Carvalho, duração: 79 min.

Local: 2º andar

Lula Cardoso Ayres, retrospectiva

12/jul

O artista pernambucano Lula Cardoso teve uma trajetória intensa usando múltiplas linguagens e suportes. Foi ilustrador, cartazista, cenógrafo, pintor, fotógrafo, artista gráfico, caricaturista e ceramista. Uma obra abrangente que ganhou exibição retrospectiva na Caixa Cultural Recife, Marco Zero, PE, até 27 de agosto, sob o título geral de “Lula Cardoso Ayres: arte, região e tempo”.

 

Amigo de nomes como Gilberto Freyre e Cândido Portinari, a multiplicidade de interesses de Lula levou a curadoria a dividir os 208 itens da coleção em nove categorias distintas, que abrangem a produção desde os anos 20 até os anos 80. Além das obras propriamente ditas, há artigos de jornal, correspondências e peças de cerâmica de Porfírio Faustino, um dos inspiradores do pernambucano. “Esta exposição é a mais importante do que todas as feitas no Instituto Lula Cardoso Ayres, fundado por mim e fechado em 2007. Em termos acadêmicos, é o que sempre quis fazer. A mostra deve resultar em mais pesquisas sobre as obras de meu pai”, opina Lula Cardoso Ayres Filho, guardião da obra do pai e detentor de aproximadamente 70% do acervo exposto na Caixa Cultural. O resto veio de colecionadores particulares e instituições públicas como a Fundação Joaquim Nabuco e a Fundação Gilberto Freyre, realizadora da mostra. Lula Cardoso Ayres viveu entre 1910 e 1987 e esta iniciativa acontece no ano que se completam 30 anos de falecimento do conhecido multiartista.

 

No conjunto de obras em cartaz encontra-se o primeiro trabalho artístico de Lula, realizado aos 11 anos, em 1921. É uma autocaricatura, onde nota-se a influência do primo Emílio Cardoso Ayres, importante caricaturista da época. A passagem por Paris e pelo Rio de Janeiro, nos anos de 1920, colocaram-no em contato com as vanguardas artísticas do período.

 

Em sua pintura o artista criou trabalhos entre as escolas figurativa e o abstrata. “A exposição traz um lado didático, pois talvez ele seja o mais completo artista visual brasileiro. A ideia era torná-la a mais representativa possível. Em sua ausência, também procuramos trazer seu legado pelos estudos de suas obras, não apenas por seus trabalhos prontos. O trabalho dele não se construiu da noite para o dia”, pontua Jamile Barbosa, cocuradora junto com Clarissa Diniz e Eduardo Dimitrov.

 

As fotografias e pinturas de Lula Cardoso Ayres também refletem o quanto ele entrou em contato com manifestações culturais regionais, como o bumba-meu-boi e o maracatu, além de acompanhar de perto o cotidiano do trabalho rural por ter vindo de família de senhores de engenho. Além dessas facetas pernambucanas, também há material que explicita uma relação ainda pouco conhecida entre o artista e a etnia indígena Fulni-ô, de Águas Belas, inspiração para mais fotos e quadros. A mostra também relembra o papel de Lula como ilustrador do clássico “Assombrações do Recife Velho”, de Gilberto Freyre, cuja primeira edição foi lançada em 1955. “Ele já tinha percorrido essa temática antes, ainda nos anos 40. A atenção ao sobrenatural ainda existe hoje, imagine naquela época”, diz Jamile Barbosa. Em sua carreira, Lula se voltou para a reivindicação de um repertório local de imagens, feito a partir de sua vivência em Pernambuco, de onde não saiu mais. Mesmo sua produção essencialmente gráfica, composta por embalagens, rótulos e cartazes, era criada tendo essa baliza em mente. Ao documentar e refletir sobre seu tempo, Lula Cardoso Ayres deu origem a uma obra ainda atual.

 

 

Programação paralela

 

A exposição conta com uma série de três debates a partir do legado deixado por Lula, sempre às 19hs, com entrada gratuita. O primeiro acontece no dia 19 de julho, sobre os desafios do artista moderno, com Wilton de Souza e José Cláudio. No mesmo dia, lançamento de livro com fotografias do artista editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). Já no dia 1° de agosto, a discussão será feita a partir do tema Regionalismo como opção, regionalismo como prisão, com Anco Márcio Tenório Vieira e Eduardo Dimitrov e no dia 22 de agosto, o tema será Lula Cardoso Ayres, entre a figuração e abstração.

MAM 2017 com Anita Malfatti

27/jan


Com curadoria de Regina Teixeira de Barros, mostra celebra centenário da primeira mostra de arte moderna no Brasil. Cerca de 70 obras, entre desenhos e pinturas de retratos, nus e paisagens, ilustram três fases da carreira de Anita Malfatti.
O Museu de Arte Moderna de São Paulo, Grande Sala, Parque do Ibirapuera, São Paulo, SP, abre, no dia 07 de fevereiro, a exposição “Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna”, apresentando obras representativas da trajetória de um dos mais importantes nomes da arte brasileira do século XX. Para retratar a vasta produção da pintora, desenhista, gravadora e professora Anita Malfatti (São Paulo – SP, 1889 – 1964), a curadora Regina Teixeira de Barros concebeu a mostra como uma homenagem ao centenário da exposição inaugural do modernismo brasileiro, uma individual de Anita aberta em dezembro de 1917, e que recebeu severa crítica do conservador Monteiro Lobato na ocasião. A mostra do MAM exibe desenhos e pinturas que ilustram retratos, paisagens e nus de três fases distintas da trajetória artística, expostas ao lado de fotografias e documentos da época como cartas, convites e catálogos, com patrocínio Master: Bradesco, PWC.

 
Cem anos se passaram desde que a Exposição de arte moderna Anita Malfatti alterou os rumos da história da arte no Brasil, por ser a primeira mostra reconhecidamente moderna realizada no país e considerada o estopim para a realização da Semana de Arte Moderna de 1922. Realizada no centro de São Paulo, entre 12 de dezembro de 1917 e 10 de janeiro de 1918, a individual da artista exibia 53 obras, sendo 28 pinturas de paisagem e retratos, 10 gravuras, cinco aquarelas, além de desenhos e caricaturas. O conjunto representava um consistente resumo de seis anos de produção da artista, compreendidos pelos anos de aprendizado na Alemanha (1910-1913) e nos Estados Unidos (1914-1916), além de trabalhos realizados no regresso a São Paulo. Até então, a cidade de São Paulo só havia sediado mostras de arte de cunho acadêmico. Segundo a curadora, a mostra de Anita foi recebida com assombro e curiosidade, tendo visitação intensa e venda de oito quadros expostos, mas após a publicação da crítica de Monteiro Lobato intitulada “A propósito da exposição Malfatti”, no jornal O Estado de S. Paulo de 20 de dezembro de 1917, boa parte do público concordou com as ideias do renomado autor, fazendo com que cinco obras compradas fossem devolvidas. Regina explica que desde então, o nome de Anita ficou associado ao de Lobato. “Adepto fervoroso da arte naturalista, Lobato desdenhou dos ismos da arte moderna (como expressionismo e cubismo), mas não deixou de reconhecer a competência de Anita elogiando o talento fora do comum e as qualidades latentes da jovem artista”, explica a curadora.

 
No MAM, a mostra Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna conta com obras que abrangem diversos aspectos da produção, apresentando uma artista sensível às tendências e discussões em pauta ao longo da primeira metade do século XX. A exposição tem como finalidade apresentar um recorte da trajetória de Anita, dividindo em três momentos: os anos iniciais que a consagraram como o “estopim do modernismo brasileiro”; a época de estudos em Paris e a produção naturalista; e, por fim, as pinturas com temas populares. A exposição inicia com um conjunto de trabalhos realizados na Alemanha, seguido de retratos e paisagens expressionistas exibidos em 1917, que causaram grande impacto no, até então, tradicional meio paulistano, entre as quais os óleos sobre tela “O japonês” (1915/16), “Uma estudante” (1915/16), “O farol” (1915) e “Paisagem (amarela) Monhegan” (1915). Desse período também consta um conjunto de desenhos a carvão, composto de nus masculinos e retratos.

 
Entre a primeira e a segunda parte da mostra, sobressai o interesse pela temática nacional, onde figuram trabalhos famosos como “Tropical” (c.1916), “O homem de sete cores” (1915/16) e “Figura feminina” (1921/22). Além desses, constam obras realizadas a partir do convívio com os modernistas como o pastel “Retrato de Tarsila” (1919/20), a pintura “As margaridas de Mário” (1922) e o célebre desenho “O grupo dos cinco” (1922), que retrata os modernistas Tarsila do Amaral, Mario de Andrade, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade e a própria Anita Malfatti.

 
No segundo nicho são apresentados os frutos dos anos de estudo em Paris, que representam uma fase mais naturalista em que são produzidas paisagens europeias como nas pinturas a óleo “Porto de Mônaco” (c. 1925) e “Paisagem de Pirineus, Cauterets” (1926), e nas aquarelas “Veneza, Canal” (c.1924), “Vista do Fort Antoine” em Mônaco (c. 1925), somados a desenhos de nus feitos com linhas finas e suaves na década de 1920. São desse período também pinturas singulares como “Interior de Mônaco” (c. 1925) e “Chanson de Montmartre” (1926).

 
Para finalizar, a terceira parte engloba trabalhos realizados nos anos 1930-40, época em que a artista se dedicou a retratar familiares, amigos e membros da elite, além de temas populares. Destacam-se as obras “Liliana Maria” (1935-1937) e “Retrato de A.M.G.” (c. 1933), em que figuram sua sobrinha e o amigo Antônio Marino Gouveia, ambas com tratamento naturalista. Na primeira, o fundo neutro é substituído por uma paisagem à maneira renascentista; na segunda registra uma de suas pinturas que pertencia à coleção do retratado. Nessa fase, apresentam-se ainda paisagens interioranas e temáticas populares como em “Trenzinho” (déc. 1940), “O Samba” (c. 1945), “Na porta da venda” (déc. 1940-50). A mostra se encerra com pinturas aparentemente naïf e reveladores da habitual ousadia da artista, em que utiliza cores fortes para criar espaços mais achatados como em “Composição” (c.1955) e “Vida na roça” (c.1956).

 

 

Sobre a curadora

 
Regina Teixeira de Barros é curadora independente e historiadora da arte especializada em arte brasileira moderna. Possui Mestrado em Estética e História da Arte pela ECA-USP e é doutoranda do Programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte da USP. É professora de História da Arte Moderna e Contemporânea na Faculdade Santa Marcelina desde 2002. Ministra a disciplina de Curadoria de Exposições de Arte na pós-graduação em Museologia, Colecionismo e Curadoria do Centro Universitário Belas Artes. Entre 2003 e 2015, trabalhou na Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde realizou diversas curadorias como Tarsila viajante, Arte no Brasil: uma história do Modernismo na Pinacoteca de São Paulo e Arte construtiva na Pinacoteca. Como curadora independente, destacam-se Antônio Maluf (Centro Universitário Maria Antônia da USP, 2002), Tarsila e o Brasil dos modernistas (Casa Fiat, BH, 2011) e Arte moderna na Coleção da Fundação Edson Queiroz (Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, e Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, 2016).

 

 
De 07 de fevereiro até 30 de abril.

Raimundo Cela no MNBA

11/nov

Na retrospectiva do pintor Raimundo Cela, o Museu Nacional de Belas Artes, Centro, Rio de Janeiro, RJ, exibe na Sala Barroco Italiano, um recorte do percurso de uma dos mais expressivos artistas de sua geração. Cela fez sua primeira exposição individual em 1945, no MNBA, durante a gestão de Oswaldo Teixeira. Como lembra a diretora Monica Xexéo, “Cela cujo trabalho é rigoroso, refinado e vibrante possui uma trajetória própria e diferenciada de seus contemporâneos, como Antonio Bandeira e Aldemir Martins. Exímio gravador, autor de escrita própria, suas obras,formalmente inovadoras,  ultrapassam o tempo em que foram criadas”. A exposição “Raimundo Cela – um mestre brasileiro”busca resgatar a obra de um realizador muito respeitado entre os estudiosos, mas pouco conhecido do público em geral.  Ao todo, cerca de 50 obras de um dos mais proeminentes artistas do Ceará.

 

A mostra, com curadoria de Denise Mattar, inicia com os primeiros trabalhos do artista, marcados pela influência do academicismo. Nessa fase, destacam-se obras como “Último diálogo de Sócrates”, de 1917, premiada no Salão Nacional de Belas Artes e que garantiu ao artista uma viagem a Paris. Outro destaque da mostra, exibido em seu tamanho natural é o painel “Abolição”, de 1938. Primeiro estado brasileiro a abolir a escravatura, em 25 de março de 1884, o Ceará, terra natal do artista, encomendou, em 1938, um painel que simboliza o momento histórico tão marcante na história do Ceará e do Brasil.

 

Na mostra “Raimundo Cela – um mestre brasileiro”, o público poderá ter acesso a uma visão única do Ceará. Em seus quadros está a melhor tradução dessa paisagem nordestina, como na série “Pinturas Brancas”, de marinhas e paisagens. Raimundo Cela também retratou os tipos da sua terra natal,representando   pescadores, vaqueiros, rendeiras e os jangadeiros, como numa série de obras criadas entre 1940 e 1946.

 

 

Últimos dias, até 20 de novembro.

Obras de Oswaldo Goeldi

30/mai

A galeria Bergamin & Gomide, Jardins, São Paulo, SP, apresenta a exposição “O Universo de Oswaldo Goeldi”. A obra de Oswaldo Goeldi impressiona pela amplitude e profundidade das questões que apresenta. Homens que vagam pelas superfícies negras da cena urbana, pescadores que trabalham em condições extremas, o mar como cenário frequente, personagens desconhecidos que no fundo não conseguem ocultar um sentimento de mistério e solidão.

 

Serão expostos 35 trabalhos do artista que virou referência mundial no campo da gravura. Ao invés de apresentar a sua obra de forma cronológica, temática ou formalista, o grupo de obras na exposição obedece uma sequência de associações que acontecem de forma fluída e subjetiva. Entre as obras selecionadas (xilogravuras, desenhos e aquarelas) estão aquelas com as temáticas mais marcantes de seu trabalho: a solidão, a vida cotidiana dos pescadores e dos homens urbanos.

 

Nas palavras do próprio artista “os fenômenos da natureza me empolgam – trovoadas, ventanias, nuvens pesadas, céu e mar, sol e chuva torrencial e noites cheias de mistério, pássaros e bichos. Os dramas da alma humana me consomem. Sinto-me bem com os simples e às vezes me confundo com eles.”

 

 

Sobre o artista

 

Gravador, desenhista, ilustrador e professor, Goeldi nasceu no Rio de Janeiro, em 1895, onde faleceu em 1961. Expôs na 25ª Bienal de Veneza em 1950 e ganhou o Prêmio de Gravura da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Sua obra já participou de mais de uma centena de exposições póstumas no Brasil, Argentina, França, Portugal, Suíça e Espanha. Hoje, Goeldi é venerado no meio artístico e suas obras são matérias de referência no campo da gravura no mundo todo. Foi no ano de 1923, que iniciou experimentos com xilogravura com o intuito de “impor uma disciplina às divagações a que o desenho o levava”. Em depoimento ao crítico e poeta Ferreira Gullar conta ter sentido “a necessidade de dar controle a estas divagações”. Goeldi é considerado pelos experts como o Pai da Gravura Nacional.

 

 

De 02 de junho a 02 de julho.

Burle Marx em NY

05/mai

Na sexta-feira (6), o arquiteto-paisagista Roberto Burle Marx (1909-1984) ganha uma retrospectiva em Nova York. Até 18 de setembro, o Jewish Museum (Museu Judaico), com sede no Upper East Side, em Manhattan, exibe quadros, maquetes de jardins, tapeçaria, vitrais, vasos, azulejos, capas de livros, colares e ilustrações do artista. Trata-se de uma produção tão prolífica – e de formas e estilos artísticos tão diversos – que Claudia J. Nahson, co-curadora da exposição, na tarde de segunda (2), um dia antes da exposição ser apresentada à imprensa, recebia telefonemas de colecionadores. “A última ligação foi de uma pessoa que tinha uma jóia desenhada por Burle Marx e queria saber se podíamos inclui-la na mostra”, explicou a curadora, que declinou a oferta. “Tem sido assim, pessoas nos oferecendo os mais variados tipos de trabalhos de Burle Marx”, completa Jens Hoffmann, o outro curador da exposição.

 

Com 200 trabalhos de Burle Marx e três anos de preparativos, a mostra “Roberto Burle Marx: Brazilian Modernist” (modernista brasileiro) do Jewish Museum detem agora o crédito de ser a primeira grande retrospectiva do artista nos Estados Unidos, com direito a um livro-catálogo (US$ 50), escrito e editado pela dupla de curadores e que põe em perspectiva para o público internacional o trabalho de Burle Marx, além de apresentar alguns de seus seguidores. A mesma exposição, patrocinada pelo Deutsche Bank, segue em julho de 2017 para Berlim. Em novembro de 2017 (e até março de 2018), ela será apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio.

 

Embora Burle Marx tenha criado e supervisionado mais de 2 mil projetos de paisagismo internacionais, outras facetas da versatilidade artística dele ainda continuam totalmente desconhecidas nos Estados Unidos, sendo raramente discutidas na mídia. “Ainda tendemos a ser míopes em se tratando da arte moderna que vem de fora”, explica Hoffmann. “Mas existe atualmente uma maior seriedade em explorar o modernismo fora da América do Norte ou da Europa, sem aquela ênfase total no fetichismo e exotismo pelo quais o movimento costuma ser visto”. Nos últimos meses, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, confirmou essa tendência, organizando duas exposições que “linkavam” também o trabalho de Burle Marx: “Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988″ (organizada em 2014) e “Latin America in Construction: Architecture 1955–1980″ (exibida no ano passado).

 

A curadora Claudia descreve os diversos estilos de Burle Marx como “um planeta dentro de si próprio”. Exemplos desses mundos do paisagista estão por todos os lados do museu. São fotos do calçadão da praia de Copacabana; desenhos do Arco da Lapa; um auto-retrato, retratos do pai (o judeu alemão Wilhelm Marx) e da mãe (a católica Cecília) e telas inspiradas por Henri Matisse, Cândido Portinari e pelo movimento Cubista.

 

Também expostas estão maquetes para o Ministério da Saúde e Justiça, do Rio de Janeiro, desenhos com a perspectiva do Parque do Flamengo, do jardim suspenso da sede do Banco Safra, em São Paulo, do Parque Del Este, em Caracas, e o design de um mural que Burle Marx criou para o lobby do prédio (projeto do arquiteto austro-americano Richard Neutra) Amalgamated Clothing Workers of America, em Los Angeles. Boa parte dos itens expostos na retrospectiva vieram do sítio do artista em Guaratiba, no Rio.

 

A maior obra da exposição ocupa toda a grande parede do amplo salão do Jewish Museum. Trata-se de um item de tapeçaria em lã, de 26,38 m de largura por 3,27m de altura, comissionado pela prefeitura da cidade de Santo André. Permanentemente exposta no Salão Nobre do Paço andreense, na região do ABC Paulista, a obra agora está fazendo sua segunda viagem internacional (a primeira foi para Paris) desde sua criação em 1969. “Trata-se de uma de minhas peças favoritas. Não somente pelo tamanho colossal, mas pela concentração harmoniosa de estilos de Burle Marx, como o design, pintura e arquitetura”, diz Hoffmann.

 

Os diversos estágios do mais importante projeto de Burle Marx nos Estados Unidos, o calçadão e jardins do Biscayne Boulevard, em Miami Beach, estão documentados na exposição. Há também curiosidades como os projetos não executados do jardim da Organização dos Estados Americanos, na capital americana de Washington D.C., em parceria com o paisagista nascido na Itália e criado na Suíça e Brasil Conrad Hamerman.

 

A homenagem à religião do pai ganha destaque na exposição, com itens nunca antes exibidos. Uma maquete de quatro pilares da sinagoga Congregação Judaica do Brasil, no Rio, foi o derradeiro projeto do artista, em 1994. O Jewish Museum apresenta os desenhos de oito vitrais (não executados) da sinagoga Beit Yaakov, no Guarujá, 1985, e os esboços do projeto para o “Jardim da Árvore da Vida”, inspirado nos ensinamentos da Cabala, que seria construído em Jerusalém.

 

Jens Hoffman credita sua introdução ao “riquíssimo universo de Burle Marx” à artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster, em 1999, época em que trabalharam juntos em uma exposição apresentada em Barcelona. Quando os curadores do Jewish Museum bateram o martelo a respeito da retrospectiva de Burle Marx e começaram a fazer visitas ao Brasil, se depararam com a influência do paisagista na obra de artistas contemporâneos e de diversas mídias. A exposição analisa sete deles, incluindo a francesa Dominique.

 

São eles: o pintor venezuelano baseado em Lisboa Juan Araujo, a escultura paulista Paloma Bosquê, a fotógrafa italiana Luisa Lambri, o artista nova-iorquino Nick Mauss, o músico americano Arto Lindsay (que criou três composições musicais especialmente para a exposição) e a artista carioca Beatriz Milhazes, esta última com a instalação “Gamboa”, série de cinco esculturas suspensas e comissionadas para o lobby do museu, apresentada concomitantemente com a exposição do paisagista até 18 de setembro. “O mais importante legado deixado por Burle Marx foi o que ele fez para proteger a natureza com seus designs e arte, e que seres humanos podem comunicar-se com a natureza sem destruí-la”, diz Milhazes em entrevista para o livro da exposição. Texto e fotos por Marcelo Bernardes/Fonte: baixomanhattan.blogfolha.uol.com.br