Cosmologia afro-brasileira e referências rituais.

10/ago

A Simões de Assis apresenta a individual de Ayrson Heráclito, “Ojú-Inú”, em seu espaço em São Paulo. A partir da noção iorubá de Ojú-Inú – “olho interno” – Ayrson Heráclito apresenta um conjunto de obras atravessadas pela cosmologia afro-brasileira e pelas referências rituais que orientam sua prática artística.

Com texto crítico de Hélio Menezes, a exposição reúne cerca de 30 obras entre esculturas, aquarelas, fotografias e vídeos. Compartilhando da ideia de percepção estética e espiritual formulada pelo historiador da arte Rowland Abiodun, Heráclito propõe um percurso em que matéria, memória, corpo e ancestralidade se articulam como formas de conhecimento e criação.

Realizada enquanto o artista integra a 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, In Minor Keys, a mostra apresenta trabalhos inéditos que aprofundam questões centrais de sua pesquisa, estabelecendo diálogos entre ritual, história e imaginação.

A trajetória de Efrain Almeida.

07/ago

A Fortes D’Aloia & Gabriel apresenta “O homem nu”, a primeira mostra panorâmica da obra de Efrain Almeida (1964 – 2024) na galeria desde seu falecimento. Reunindo trabalhos produzidos entre 1995 e 2024, a exposição oferece uma vista ampla de sua trajetória e propõe uma leitura de sua produção a partir das relações entre corpo, espiritualidade e desejo. Nascido em Boa Viagem, Ceará, o artista desenvolveu uma obra profundamente marcada pelos materiais, pelos saberes e pelas tradições culturais da região do Cariri, transitando entre escultura, instalação, pintura, bordado e aquarela. Ao longo de quase três décadas, articulou diferentes geografias, crenças, identidades e tradições materiais por meio de uma linguagem visual na qual madeira, tecido, bronze e papel tornam-se suportes para experiências ao mesmo tempo íntimas e universais.

A exposição é centrada nas esculturas de Efraim Almeida, ao lado de aquarelas, pinturas a óleo e bordados. Entre os motivos recorrentes estão corpos e fragmentos do corpo, vestimentas, autorretratos e animais nativos do Nordeste brasileiro, especialmente aves.  Em sua obra, referências ao imaginário católico convivem com a sensualidade do corpo nu, que adquire dimensões tanto eróticas quanto sagradas. Em O Outsider (2017), um autorretrato bordado surge sobre uma camisa de seda translúcida, cuja transparência e aparente leveza reforçam uma recorrente sensação de transitoriedade, onde o rosto aparece como um emblema num suporte esvoaçante. 

Embora profundamente enraizada nas experiências, paisagens e tradições do interior do Ceará, a obra de Almeida nunca se restringe ao registro autobiográfico ou regional. Sua produção transforma referências locais em imagens capazes de evocar experiências universais, fazendo da memória, da espiritualidade, da fragilidade do corpo e do desejo questões compartilhadas. Essa passagem entre o íntimo e o coletivo, entre o local e o universal, encontra paralelo na própria escala de suas esculturas: executadas com notável precisão e frequentemente em pequenas dimensões, elas estabelecem uma relação expansiva com o espaço expositivo, reorganizando a percepção do ambiente e exigindo do espectador uma aproximação atenta. Uma atenção semelhante se estende às representações de animais, observadas com delicadeza e frequentemente apresentadas de modo deslocado na arquitetura. Entre elas, “Lázaro” (2005), escultura em madeira de um cão que estende a língua em direção à parede da galeria, faz referência à figura bíblica do mendigo cujas feridas eram lambidas apenas por cães, condensando em um único gesto dimensões de cuidado, abandono e ternura que atravessam toda a obra do artista.

A exposição é acompanhada por um texto de Márcia Fortes.

Até 24 de outubro.

Cosmologia afro-brasileira e referências rituais.

30/jul

A Simões de Assis, Jardins, apresenta a individual de Ayrson Heráclito, “Ojú-Inú”, em seu espaço em São Paulo. A partir da noção iorubá de Ojú-Inú – “olho interno” – Ayrson Heráclito apresenta um conjunto de obras atravessadas pela cosmologia afro-brasileira e pelas referências rituais que orientam sua prática artística.

Com texto crítico de Hélio Menezes, a exposição reúne cerca de 30 obras entre esculturas, aquarelas, fotografias e vídeos. Compartilhando da ideia de percepção estética e espiritual formulada pelo historiador da arte Rowland Abiodun, Heráclito propõe um percurso em que matéria, memória, corpo e ancestralidade se articulam como formas de conhecimento e criação.

Realizada enquanto o artista integra a 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, In Minor Keys, a mostra apresenta trabalhos inéditos que aprofundam questões centrais de sua pesquisa, estabelecendo diálogos entre ritual, história e imaginação.

Ayrson Heráclito (Macaúbas, 1968). É artista, professor e curador. Possui doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo, e mestrado em Artes Visuais pela UFBA. Com um olhar particular, a obra de Ayrson Heráclito evidencia as raízes afro-brasileiras e seus elementos sagrados, projetando ações e práticas que compõem a história e a cultura da população negra.

Outro importante marco na carreira do artista foi Transmutação da Carne, iniciado em 1994. A obra surgiu a partir de um documento que descreve as torturas cometidas pelos senhores de engenho contra os escravizados. Em 2015, Heráclito reapresentou Transmutação da Carne durante a exposição Terra Comunal, da artista sérvia Marina Abramović (1946), no Sesc Pompéia. Uma de suas principais pesquisas é Sacudimentos, sobre o tráfico negreiro entre a Bahia e o Senegal, realizada em 2015 e apresentada na 57ª Bienal de Veneza (2017). Composta por vídeos e fotografias, a obra é construída a partir de rituais de limpeza da Casa dos Escravos na Ilha de Goré e de um grande engenho de açúcar no Brasil, exorcizando os fantasmas da colonização.

Integrou a 61st International Art Exhibition of La Biennale di Venezia (2026), com curadoria de Koyo Kouoh, intitulada “Minor Keys”; 16ª Bienal de Sharjah, Emirados Árabes; After the End of the World: Pictures from Panafrica, The Art Institute of Chicago; 35ª Bienal de São Paulo; 18ª Bienal de Arquitetura de Veneza tendo conquistado o Leão de Ouro de melhor participação nacional; 57ª Bienal de Veneza; Bienal de fotografia de Bamako, Mali; e da Trienal de Luanda, Angola. Em 2021 e 2022, teve uma grande exposição individual, “Ayrson Heráclito: Yorùbáiano” no MAR, Rio de Janeiro e na Pina Estação, São Paulo. Foi um dos curadores-chefes da 3ª Bienal da Bahia, curador convidado do núcleo “Rotas e Transes: Áfricas, Jamaica e Bahia” no projeto Histórias Afro-Atlânticas no MASP, que esteve em cartaz no MASP e no Instituto Tomie Ohtake. Recebeu o prêmio de Residência Artística em Dakar do Sesc_Videobrasil e a Raw Material Company, Senegal. Possui obras em acervos do Museu Solomon R. Guggenheim, Nova York; Musem der Weltkulturen, Frankfurt; MAR – Museu de Arte do Rio; Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador; MON, Curitiba; Videobrasil e Coleção Itaú. 

Leitura panorâmica.

13/jul

Iran do Espírito Santo realiza expoaição no Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, São Paulo, SP, sob curadoria de Fernanda Lopes. 

A primeira exposição de Iran do Espírito Santo em Ribeirão Preto é uma leitura panorâmica das últimas duas décadas de produção do artista. Com quase 30 trabalhos realizados entre 2008 e 2025, “Iran do Espírito Santo: Recorrência” reúne desenhos e esculturas, algumas de caráter instalativo, nos quais objetos comuns como lâmpadas, vinis, latas, globos de luz antigos, conta-gotas, bulbos, tigela, fechadura, porcas e roscas, moedas, fitas, lâminas, pregos e gotas, ganham novos corpos em mármore, granito, aço inoxidável, alumínio, cristal, aquarela, lápis e guache.

O título da exposição faz referência a uma das obras do artista que integram a Coleção Figueiredo Ferraz. Recurrency (1999) foi apresentada pela primeira vez na 48ª Bienal de Veneza, quando Iran integrou a representação brasileira em uma das mais importantes e antigas exposições do mundo. Composta por discos de cobre, latão e aço inoxidável, ela reproduz, em escala ampliada, moedas de diferentes países, na maioria de países europeus, anteriores ao Euro, acumuladas indistintamente pelo artista durante algumas viagens. Inscrições, imagens e valores de troca foram eliminados, retornando esses objetos à sua forma mais básica e abstrata (um círculo ou um cilindro), e, assim, deslocando nossa atenção para a presença física desses objetos, evidenciando peso, volume e materialidade. Além de apontar para dinâmicas monetárias e a ideia de mercadoria no campo da arte, Recurrency chama atenção para uma chave de leitura importante para a obra de Iran do Espírito Santo: a recorrência como método de investigação da realidade.

Para o artista, tudo começa no desenho. É a partir dessa recorrência que se estrutura todo seu pensamento e sua produção. Iran parece desenhar como quem procura alguma coisa, movido pelo desejo de contato. Ele é uma maneira de entender a realidade das coisas cotidianas, uma ferramenta para identificar empiricamente as regras que governam o que está à nossa volta. Aqui, o que é tido como pequeno e prosaico ganha uma espécie de densidade. Iran olha, olha de novo, olha mais uma vez. E a cada volta parece encontrar algo que não tinha percebido antes. São objetos que, quando são colocados em palavra, permanecem sempre os mesmos. Lâmpadas são sempre lâmpadas. Assim como fechaduras, moedas e latas. Mas, quando são dados a ver, reaparecem forçando novas interpretações.

Insistentes, esses objetos são, nas palavras de Iran, como “sonhos recorrentes”. Essas “coisas que se insinuam e que cobram uma maior atenção” em alguns momentos deixam o espaço do papel para ganhar o espaço tridimensional. Aqui, elas têm sua identidade cotidiana suspensa, deixando a funcionalidade de lado para se aproximarem da abstração. Entre o reconhecimento e o estranhamento, essas esculturas convivem com uma curiosa ambiguidade: afirmam seu peso e sua presença física, estabelecendo inclusive outras relações com o espaço ao seu redor, ao mesmo tempo em que parecem quase imateriais, como imagens tornadas sólidas. Os elementos permanecem os mesmos. O que muda é o nosso olhar ou a nossa percepção sobre eles. Revelando uma prática construída pela atenção paciente, Iran do Espírito Santo nos leva a ver não o que estava escondido, mas o que até então passava despercebido.

Fernanda Lopes.

Até 26 de setembro.

Encontro entre artista expositor e curadoria.

20/maio

O artista Adriano Mangiavacchi, que acaba de completar 85 anos – mais da metade deles vividos no Brasil -, participará de um bate-papo com a curadora de sua exposição “Pintar é Preciso”, como parte da programação do CIGA (Circuito Integrado de Galerias de Arte), iniciativa da ArtRio. O encontro será no próximo sábado, 23, às 15h, na Galeria Patrícia Costa, no Shopping Cassino Atlântico, Rio de Janeiro, RJ.

Desde 2023, Adriano Mangiavacchi vem se dedicando à aquarela, linguagem que passou a orientar sua produção mais recente. A leveza e a fluidez desse meio serviram de ponto de partida para a série de pinturas realizadas ao longo do último ano, agora apresentadas ao público na Galeria Patrícia Costa. 

“O conjunto de aquarelas e a série pinturas, cuja execução foi inspirada nas aquarelas, são os elementos dinamizadores dessa nova exposição de Adriano Mangiavacchi. Apontam para um novo campo de investigação e de ambivalências, provocadas pela luminosidade das cores, criando condições adversas de percepção. As sutis variações cromáticas se mesclam umas dentro das outras, guardam uma relação entre si e apresentam, ao mesmo tempo, uma liberdade de gestos e desdobramentos de formas e planos de cores que se erguem através das tintas, seja na superfície da tela ou do papel, em zonas interligadas. O artista utiliza técnicas diferenciadas, mas sempre potencializando o cromatismo, seja pela saturação ou acumulação; pela urgência ou pelo imediatismo; ou pelo próprio jogo de luz e sombra”, define Vanda Klabin.

Até 06 de junho.

A trajetória do artista chinês Chang Dai-chien.

06/maio

No dia 06 de maio, às 19h, na Cinemateca Capitólio, será realizado o lançamento em Porto Alegre, RS, do documentário “Da Cor e da Tinta”. O filme aborda a trajetória do artista chinês Chang Dai-chien. 

O destaque do documentário é a conexão de Chang com o Brasil, onde viveu entre as décadas de 1950 e 1970. No entanto, sua presença em acervos públicos brasileiros é rara: a Pinacoteca Ruben Berta, em Porto Alegre, é um dos poucos museus do país a preservar obras do artista, servindo como uma locação fundamental para a narrativa do documentário.

Encontro com a pintura de Chang Dai-chien na Pinacoteca Ruben Berta 

Aproveitando a presença em Porto Alegre de Guilherme Gorgulho, notabilizado pesquisador sobre a trajetória de Chang, será realizada uma palestra do jornalista na Pinacoteca Ruben Berta, no dia seguinte ao lançamento do documentário “Da Cor e da Tinta”. O objetivo é apresentar ao público a história do consagrado artista chinês Chang Dai-chien e uma de suas obras, “Passeio ao longo do rio apreciando as flores das ameixeiras” que estará em exibição no local. A aquarela de 1966, com 58 x 47 cm, é uma das únicas pinturas do artista que integram os acervos de museus públicos brasileiros. Uma produção da Hutong Productions, Estados Unidos com direção de Weimin Zhang.

Costurar sentidos.

24/out

Agradeço a vida que teço enquanto o tempo a desfia.

Bianca Ramoneda(1), “Cadernos de costuras”

Bordado, tecido, pintura, colagem e poesia se misturam em Costurar Sentidos, exposição coletiva apresentada no segundo andar da Anita Schwartz Galeria de Arte, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, que reúne obras têxteis e derivações de costura como ponto central de produção. A seleção, inicialmente baseada na escolha da técnica, uma vez definida, apontou novos pontos de convergência. São trabalhos permeados por motivos relacionados a construção e a afirmação de identidade, ao resgate e a reverência às memórias afetivas e a ressignificação de sentidos. Falam de questões sociais e temas sensíveis aos autores, ao mesmo tempo em que expressam as suas origens e o caminho percorrido ao longo da sua jornada pessoal e artística. Peças de roupa e pedaços de tecido são matéria-prima tal qual tinta para pintura na criação de Arthur Chaves. A convivência do artista com o universo da costura iniciou-se na infância. Quando criança, ele observava a mãe trabalhando na máquina de costura num quartinho em casa, repleto de roupas e tecidos armazenados. O interesse pela arte têxtil primeiro o levou a estudar design de moda, área em que atuou por um período, antes de migrar para as artes visuais. Hoje, desenvolve colagens têxteis, composições abstratas e grandes instalações. Dani Cavalier combina a linguagem da tecelagem com a da pintura nas suas pinturas sólidas, aproximando o dito universo popular da artesania com a erudição atribuída às belas artes. A artista trabalha com a concretude da matéria e desenvolve obras abstratas, compostas de pedaços de lycra tensionados sobre a estrutura de madeira do chassi. Como num código aberto ou numa partitura musical, a pintura sólida revela o seu processo de feitura: cada passo, cada escolha da trama pode ser lida. O que suscita perguntas sobre o próprio processo de criação, a escolha dos tecidos, a transformação deles em matéria-prima para a composição artística, os caminhos trançados e o tempo de produção. Dani Cavalier estuda diferentes técnicas de artesania brasileira, as quais opera dentro do trabalho. O compartilhamento de saberes, típico do artesanato popular, está ali incorporado e reverenciado. Textile, obra de Duda Moraes, incorpora o encontro de culturas Brasil e França que hoje convivem dentro da artista. Radicada em Bordeaux há oito anos e internacionalmente conhecida por suas pinturas multicoloridas, com fortes referências a luz e a natureza tropical exuberante do Rio de Janeiro, Duda encontrou nos tecidos a ponte de conexão que aproximou o seu processo de criativo do seu atual habitat. A série de trabalhos “Textile” é desenvolvida com materiais de descarte de lojas locais de estofamento. Tecidos nobres como o veludo e a seda, em tons mais invernosos, dão o toque francês aos seus jardins têxteis. Pensando em perspectivas de representação, Jeane Terra desenvolveu uma série de autorretratos. A artista traça um paralelo com o mundo contemporâneo tomado pelas selfies, onde cada vez mais o indivíduo celebra a autoimagem, moldando-a aos diferentes contextos. Presente na mostra está o seu autorretrato em “peles de tinta” costuradas, uma indagação à sua própria identidade e, também, uma investigação sobre os vestígios de seus ancestrais. Para Jeane somos todos uma amalgama das influências e das experiências vividas. Inevitável a alusão a ideia de colcha de retalhos. As diferentes cores da composição representam memórias fragmentadas que se misturam em suas nuances. Há na pintura seca uma cor mãe, uma cor condutora que está presente em todas as outras, chamada pela artista de cor matriz ou cor de condução. Cor que se transforma quando associada a outras, mas que ainda carrega os seus componentes de origem. Em Lagoa-mãe vemos uma reprodução em bordado do perfil da Lagoa Rodrigo de Freitas como era, possivelmente, no final do século XVIII ou XIX. A imagem de origem, garimpada na internet, não deixa ver muitos detalhes. A lagoa hoje é ainda maior, não sofreu aterros e os rios que nela deságuam não estão canalizados ou encobertos. Renato Bezerra de Mello, autor da obra e nascido em Pernambuco, alimenta especial apreço por esse lugar e por sua paisagem, que é para ele, desde a chegada ao Rio de Janeiro, ponto de equilíbrio. No container, localizado no terraço da galeria, apresentamos um vídeo de Rosana Palazyan, que tem como base a obra Rosa Daninha? – um livro objeto em tecido bordado, produzido pela artista, que cabe na palma da mão. Ao subverter a escala diminuta e acrescentar poeticamente elementos inesperados, o vídeo se transforma em obra autônoma. Assim como em outros trabalhos da artista do mesmo período, a obra amplia a reflexão sobre definições e rótulos que transformam seres humanos em daninhas, ao traçar um paralelo entre definições encontradas em livros de agronomia e frases usualmente relacionadas a pessoas que se encontram em situação de exclusão social. O gesto de folhear as páginas do livro real aparece no vídeo como uma passagem de tempo: Ora a Rosa surge linda e vencedora, e como num flashback, passo a passo, nasce e cresce no meio de plantas consideradas daninhas, como a Azedinha. Ora a Azedinha é quem aparece sozinha, como tivesse eliminado a Rosa. E finalmente, em imagens produzidas apenas para o vídeo, as duas convivem até que o vídeo (em loop) reinicie. Dentro desta poética, a artista apresenta ao espectador uma narrativa sem verdades ou repostas absolutas. Poemas em varal, assim a artista visual e performer Yolanda Freyre descreve a sua mais recente série de trabalhos em cambraia, que versam sobre existência e finitude, memórias e sentimentos. Sobre os tecidos, com tamanhos e rendas variadas, Yolanda transcreve poemas nascidos em diferentes momentos, muitos deles recitados em sonhos. Os versos são escritos como pintura, em tinta aquarela, e sugerem pela cor a expressão dos sentimentos “estendidos”, que ganham ainda um delicado alinhavo, em linha de bordar, superposto à aquarela. Ave em arribação é o título de um dos poemas apresentados e se refere ao atual momento de vida da artista, segunda ela o seu terceiro ato: Ave que está preste a levantar seu voo definitivo.

Cecília Fortes, Curadora

(1) Caderno de costuras / Bianca Ramoneda. Rio de Janeiro: Mapa Lab, 2022.

 

Memórias em aquarelas das colônias de Gramado.

15/out

Guardião da Memória

Como forma de preservar as raízes e a identidade cultural da cidade de Gramado, RS, transformando o olhar artístico em herança coletiva, o Parque Olivas de Gramado adquiriu uma coleção de aquarelas que retratam o interior do município.  O acervo com 23 quadros é assinado pelo artista plástico Joaquim da Fonseca, e reproduz as belezas e arquitetura das colônias de Gramado, regiões que deram origem à cidade que hoje é um polo turístico do Brasil.

Com a aquisição das obras, o Olivas de Gramado ultrapassa o campo do turismo e da arte e assume o papel de guardião da memória de uma terra. Com a iniciativa, o empreendimento busca preservar para o futuro as raízes, paisagens e memórias que ajudaram a construir a identidade de Gramado.

“Nós do Olivas de Gramado, temos por essência, a valorização da nossa história, das nossas raízes, do legado deixado pelos nossos antepassados. A aquisição deste incrível acervo, retratado pelo talentoso mestre Joaquim da Fonseca, é de grande relevância para a preservação deste importante patrimônio histórico, tornando possível para as próximas gerações a contemplação da arte e o conhecimento sobre nossa verdadeira identidade cultural,” comenta o azeitólogo e sócio do Olivas de Gramado, André Bertolucci.

Uma cerimônia oficial de entrega das aquarelas foi realizada no Espaço Cultural do Olivas de Gramado, marcando o momento em que o acervo passa a integrar definitivamente o patrimônio artístico do parque. Mais que um evento, é um gesto simbólico de reconhecimento a importância das colônias que são um capítulo importante na história de Gramado, além de enaltecer a trajetória de um artista como Joaquim da Fonseca. O acervo ficará em cartaz até o dia 30 de novembro.

A palavra do curador.

“As 23 aquarelas de Joaquim da Fonseca reunidas nesta exposição são testemunhos sensíveis de um tempo fundador. Cada traço e transparência da cor guarda a memória das colônias de imigrantes italianos e alemães que deram origem à cidade de Gramado, na Serra Gaúcha”, resume o curador da exposição, Cézar Prestes, gestor cultural que há anos acompanha o trabalho do artista. “Selecionadas e apresentadas sob minha curadoria, estas obras transcendem o gesto artístico: tornam-se documento, herança e narrativa. O Olivas Gramado, ao acolher e tombar o conjunto de aquarelas, assegura que elas passem a habitar o futuro como guardiãs da história, preservando para sempre as raízes culturais da cidade”.

Sobre o artista.

O artista plástico, designer gráfico e professor universitário Joaquim da Fonseca é referência no cenário cultural gaúcho. Autor de livros sobre viagens e design gráfico, também se destacou como tradutor de obras internacionais de sua área. Aos 90 anos, o alegretense mantém intensa produção artística, tendo na aquarela sua principal forma de expressão. Sua obra registra paisagens litorâneas, urbanas e rurais, explorando os efeitos de transparência da técnica para transmitir sensações de profundidade e distância. Mais que imagens, suas aquarelas se tornaram um exercício de memória e documentação visual de lugares e costumes que marcam a identidade cultural do Rio Grande do Sul. “Encontrei na aquarela a possibilidade de registrar e documentar as impressões da paisagem que me interessa”, explica o artista.

 

O retorno da obra de Ubirajara Ribeiro.

29/set

A Galeria Marcelo Guarnieri apresenta, entre 04 de outubro e 07 de novembro, a primeira mostra do artista Ubirajara Ribeiro (1930-2002) na unidade Jardins, São Paulo, SP. Arquiteto de formação e professor universitário, Ubirajara Ribeiro foi considerado um dos principais aquarelistas do país, embora tenha transitado com liberdade por variadas técnicas e linguagens ao longo de sua carreira.

O artista iniciou sua produção durante a década de 1960, atento às discussões da arte pop no Brasil, integrando, naquele momento, o grupo dos cinco arquitetos pintores com Maurício Nogueira Lima, Flávio Império, Sérgio Ferro e Samuel Szpigel. A partir de então, conservou, durante os quarenta anos seguintes, o interesse do arquiteto pelo desenho, entendendo a importância do traço na estruturação de qualquer uma de suas composições, fossem elas abstratas, figurativas, gráficas ou textuais. Desde a década de 1960 até os anos 2000, seus trabalhos circularam anualmente em mostras institucionais no Brasil e fora dele. A exposição, que reúne cinquenta obras realizadas entre as décadas de 1970 e de 2000, formalizadas em uma diversidade de linguagens tais como aquarela, desenho, pintura e colagem, marca um momento de retorno da obra de Ubirajara Ribeiro após vinte anos fora do circuito.

Uma de suas obras, no entanto, está em exposição permanente há sessenta anos. Trata-se do “Mural-Objeto”, feito em parceria com Sérgio Machado para o salão do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no ano de 1965, e que pode ser visitado até hoje. Tendo a função de dividir os espaços do salão e da cozinha do antigo restaurante do edifício, o “Mural-Objeto” é composto por diversos objetos de madeira, vidro e ferro que remetem a elementos de construção e mobiliários como janelas, caixas, placas, fechaduras e adornos. Configurando-se como uma espécie de mosaico tridimensional que nos dá a impressão de estar diante do seu avesso, é uma peça que encontra ressonância na obra “Mapeinture”, de 1998, apresentada nesta exposição.

Ainda na década de 1960, Ubirajara Ribeiro desenvolveu uma investigação sobre o quadro-objeto, através da qual refletia sobre os elementos constitutivos do quadro, como a moldura, por exemplo, propondo um rearranjo estrutural que fazia a obra transitar entre o bi e o tridimensional. “Mapeinture”, de 1998, se apresenta como frente e verso simultaneamente, um trabalho que, na escrita da junção de duas palavras em francês (Ma peinture: Minha pintura), também pode ser lida como uma espécie de statement bem humorado do artista.

A palavra, aliás, foi um componente com o qual Ubirajara Ribeiro se relacionou em grande parte de sua produção. Leitor de autores do realismo mágico latinoamericano como Gabriel García Márquez, Julio Cortazar e Jorge Luis Borges, e ao mesmo tempo estudioso da cultura oriental e da técnica da caligrafia japonesa, o artista explorou em suas obras as qualidades gráficas, poéticas e filosóficas da escrita. Palavras inventadas, endereços, listas, anotações de horários, garatujas, rabiscos e mensagens passeiam por algumas obras apresentadas nesta exposição.

É o caso do conjunto da série “Nas Vitrines”, realizada durante a década de 1980. O artista apropria-se de sua coleção de postais provenientes de distintas partes do mundo para apresentá-los em nova montagem como dignos de atenção por suas qualidades gráficas e semióticas – o modo como a diagramação e a ilustração representavam elementos urbanísticos e culturais de uma cidade, por exemplo -, mas também pelo valor sentimental que a carta/correspondência carrega em sua materialidade, acessado na maioria das vezes pelo teor do texto e pelo desenho da caligrafia.

A ideia de trânsito e deslocamento também se manifesta em outras obras, como a série de aquarelas e desenhos que registram traçados urbanísticos, fachadas de edifícios ou estruturas de viadutos e que algumas vezes sinalizam endereços como a Boca do Lixo, o Jardim da Luz ou a igreja da Avenida Tiradentes.  Já na década de 1990 e 2000, podemos observar que esses traçados até então reconhecíveis, se libertam, adquirindo uma qualidade mais abstrata na fusão entre caligrafia e outros elementos gráficos como rabiscos, carimbos e até adesivos. Um certo vocabulário próprio que se forma na madurez da obra.

O papel, presença marcante nesta exposição, possuía, para Ubirajara Ribeiro, uma importância de múltiplos sentidos: “O papel se constitui em matéria viva e orgânica que por suas próprias características tem a potencialidade de vir a tornar-se em alguma coisa, inclusive obra de arte. Portanto, não é um mero suporte para grafismos ou camada pictórica, mas é capaz de formar um composto”. O artista questionava o desprestígio que o papel vinha adquirindo no circuito artístico a partir da década de 1980 devido à valorização dos grandes formatos e insistiu em relacionar-se com esse material dentro de sua produção mesmo diante desse contexto. Essa é uma postura que fica clara nas obras apresentadas nesta exposição, onde o papel é objeto e também sujeito. 

Ubirajara Ribeiro participou de importantes exposições individuais e coletivas ao longo de sua carreira, consolidando-se como um nome expressivo nas artes visuais brasileiras. Entre suas exposições individuais mais relevantes destacam-se a retrospectiva no MAC/USP em 1975, que marcou um momento de reconhecimento institucional, além de mostras no SESC Paulista e no Centro Cultural São Paulo. No circuito internacional, apresentou sua obra em 1993 na Sonoma University Art Gallery e na Biblioteca do Congresso dos EUA. No campo coletivo, participou da 11ª Bienal de São Paulo, de edições dos Salões Nacionais e Paulistas de Arte Moderna (onde recebeu prêmios de aquisição), e de exposições emblemáticas como “O Objeto na Arte – Brasil Anos 60” e “Prospectiva 74” (MAC/USP). Sua presença também foi notável em eventos internacionais como “10 Artistas Brasileños”, Museo de Arte Moderno de Bogotá e “A Cor e o Desenho no Brasil”, que circulou pela Inglaterra, Holanda, Portugal, Espanha, França e Itália.

 

Revisitando a trajetória de Alberto Teixeira.

08/set

A Galeria Berenice Arvani, Jardim Paulista, São Paulo, SP, inaugura no dia 16 de setembro a exposição “Alberto Teixeira – 100 anos”, sob curadoria de João J. Spinelli. A mostra apresenta uma seleção de trabalhos que percorre diferentes momentos da produção do artista. A mostra reúne trabalhos que permitem revisitar a trajetória do artista e promover um resgate histórico de sua obra oferecendo ao público redescobrir aspectos centrais de sua trajetória e a evolução de sua linguagem pictórica ao longo de seis décadas.

O artista iniciou sua carreira em Portugal, explorando a aquarela para registrar paisagens do Algarve e da região praiana de Estoril. A vivacidade de seus trabalhos iniciais já chamava atenção pela composição e pelo domínio técnico da aquarela, garantindo sua participação em exposições coletivas importantes em Lisboa e Estoril. Em 1950, Alberto Teixeira e sua família emigraram para o Brasil, dando início a um novo capítulo de sua obra, marcado por novas paisagens, experiências urbanas e encontros com artistas e professores que influenciariam sua evolução estética.

Entre cursos de gravura no Museu de Arte de São Paulo (MASP) e sessões de modelo vivo na Sala de Arte da Biblioteca Municipal, sua formação técnica e teórica ganhou novos contornos. Foi também nesse período que integrou o Atelier Abstração, coletivo do qual fazia parte Samson Flexor. Entre os fundadores, manteve trocas constantes sobre o abstracionismo em um ambiente de experimentação e diálogo que abriu novos caminhos para sua produção pessoal. Como observa João J. Spinelli: “Os resultados finais foram sínteses formais e conjuntos de relações de contrastes inusitados. Tudo isso, tão diferente do que eu fazia antes na pintura, causou bastante impacto, mas vinha também com o sabor da surpresa, do inesperado, da descoberta (…) assim o assunto ou tema que tudo originara passava a ser secundário e a beleza e a harmonia passavam a ser o principal.”

Participações em Bienais de São Paulo e viagens à Europa e aos Estados Unidos permitiram a Alberto Teixeira contato direto com a produção de artistas como Paul Klee, Picasso, Hans Hartung, Mark Rothko e Karel Appel, além de experiências com movimentos como o Expressionismo Abstrato, Minimal Art e Pop Art. Esses encontros contribuíram para a ampliação de seu repertório e para a consolidação de um estilo próprio, no qual o equilíbrio entre composição, cor e transparência nas aquarelas se tornou marca registrada de sua obra. João J. Spinelli reforça a singularidade da pintura do artista: “Uma característica do trabalho de Alberto Teixeira é a fidelidade a uma linguagem do desenho e da pintura. Ela serviu desde o princípio para traduzir um sentimento de inquietação e perplexidade, quando linhas e cores procuravam assumir uma função interpretativa e de registro psicológico que se ampliaria em toda a evolução das suas realizações.” Opercurso expositivo evidencia tanto a evolução de sua linguagem quanto o diálogo constante entre tradição e inovação em sua produção, reforçando a relevância de Alberto Teixeira para a pintura brasileira e para a história do abstracionismo no país. Além de artista, Alberto Teixeira atuou como professor e formador de novas gerações, transmitindo seus conhecimentos e técnicas em instituições como a Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Sua atuação como educador, assim como seu olhar atento à história da arte, consolidou uma carreira marcada pelo estudo, pela experimentação e pelo compromisso com a reflexão estética.

Até 31 de outubro.