A mais abrangente retrospectiva de Vik Muniz.

11/dez

O Centro Cultural Banco do Brasil e o Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_Bahia) têm o prazer de convidar para a exposição “A Olho Nu”, de 13 de dezembro a 29 de março de 2026, a maior e mais abrangente retrospectiva de Vik Muniz. Com curadoria de Daniel Rangel, “A Olho Nu” reúne mais de 200 obras, de 37 diferentes séries, com quatro esculturas feitas recentemente, especialmente para esta mostra em Salvador. O patrocínio é do BB Asset, com a Lei de Incentivo Federal à Cultura, do Ministério da Cultura, e produção é da N+1 Arte Cultura. De junho a agosto “A Olho Nu” esteve no Instituto Ricardo Brennand, em Recife, onde recebeu mais de 70 mil visitantes. No MAC_Bahia, o público verá obras fundamentais do artista, de diferentes fases de sua trajetória, desde os anos 1980 até os dias de hoje. Especialmente para esta exposição em Salvador ele criou as esculturas “Queijo”, “Patins”, “Ninho de ouro” e “Suvenir #18”, todas da série “Relicário”.

“Essa é a primeira grande retrospectiva dedicada ao trabalho de Vik Muniz, com um recorte pensado para criar um diálogo entre suas obras e a cultura da região”, destaca o curador Daniel Rangel. Ele explica que a mostra segue uma linha do tempo que revela a evolução de sua criação artística: das esculturas iniciais à transição para a fotografia, chegando às séries atuais. Logo na entrada do MAC_Bahia, o visitante será recebido pelas esculturas – ponto de partida da exposição e núcleo essencial para compreender o processo criativo do artista. A maior parte dessas peças pertence à série “Relicário”, não exibida desde 2014 e decisiva para entender a passagem do artista do objeto para a fotografia. O recorte curatorial privilegia montagens feitas para serem fotografadas, e revela como o uso de objetos cotidianos aproxima sua obra da arte pop e popular.

Daniel Rangel observa que, ao iniciar sua carreira com esculturas, Vik Muniz passou a explorar massa, volume, volatilidade e suas relações com a percepção. A necessidade de fotografar esses trabalhos para registro despertou seu interesse pela fotografia – inicialmente por insatisfação com imagens produzidas por terceiros. Ao assumir a câmera, percebeu que podia construir cenas pensadas exclusivamente para serem fotografadas, marco que definiu um novo rumo para sua criação. Essa virada – a fotografia como registro à tridimensionalidade concebida para a lente – é um dos eixos centrais da exposição.

A mostra apresenta também as obras “Oklahoma”, “Menino 2” e “Neurônios 2”, só vistas anteriormente em uma exposição do artista em Nova York, em 2022, e recentemente no Instituto Ricardo Brennand. O percurso expositivo se encerra com a série “Dinheiro vivo” (2023), criada em parceria com a Casa da Moeda do Brasil a partir de fragmentos de papel-moeda. O vasto repertório de materiais utilizados por Vik – que vai literalmente do lixo ao dinheiro – sustenta a poética da ilusão e da mimetização que marca sua produção, sempre permeada por humor, crítica social e surpresa. Elementos que, segundo o curador, “seduzem o olhar e convidam o público a despir-se de uma visão tradicional, permitindo enxergar tudo ‘a olho nu’”. “Vik Muniz é um ilusionista”, resume Daniel Rangel. “Um mágico na construção de imagens que não existem, mas que se tornam reais, fazendo do espectador cúmplice de um fazer artístico que nos captura como em uma mágica.”.

Uma exposição híbrida.

08/dez

Em um ambiente de penumbra, o visitante se encontra experimentando o universo ficcional, fantástico e sombrio de duas personagens femininas que inventam mundos e sugerem viagens tanto espaciais quanto temporais. É dentro dessa atmosfera que as artistas e cineastas Darks Miranda e Mariana Kaufman apresentam “A gruta, a ilha”, exposição de audiovisual expandido que ficará em exibição a partir do dia 20 de dezembro, na galeria de arte do Sesc Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, com curadoria da artista e professora Anna Costa e Silva. Tendo como base a produção em vídeo das duas artistas, “A gruta, a ilha” conta também com esculturas, objetos e instalações que, juntamente com as projeções audiovisuais, compõem o universo da exposição. Até 22 de fevereiro de 2026, enquanto estiver em cartaz, a exposição contará com uma agenda de conversas com alguns convidados de diferentes áreas, sempre aos sábados, no final de tarde. 

“A gruta, a ilha” surge de alguns pontos de contato entre as obras das artistas. Para além de exercerem uma prática artística híbrida, em diferentes mídias, Mariana Kaufman e Darks Miranda, que acaba de ganhar o Prêmio Pipa 2025, têm trabalhado em torno das ideias de imaginação e fantasia como propulsoras da invenção de outros tempos e espaços, a partir da força criadora da arte. 

Darks Miranda e Mariana Kaufman estudaram juntas no curso de cinema da UFF, em Niterói. Anos depois, se encontraram nas formações da EAV Parque Lage e na pós-graduação em Literatura e Artes Visuais, quando começaram a pesquisar artistas e pensadoras como Hito Steyerl, Tacita Dean, Wislawa Szymborska, Donna Haraway, Mary Shelley, Claire Denis e Yoko Ono e a desenvolver os trabalhos apresentados.

Carolina Cordeiro na Artissima 2025.

17/out

Oval Lingotto Fiere, Turim

A Galatea anuncia sua participação na Artissima, que acontece em Turim, Itália, entre 31 de outubro e 02 de novembro. Em sua estreia na feira, a galeria apresenta um projeto solo da artista Carolina Cordeiro (Belo Horizonte, Brasil, 1983), cuja prática multidisciplinar abrange desenho, fotografia, vídeo, escultura e instalação, explorando sistemas simbólicos e a dimensão poética dos materiais a partir das tradições culturais e espirituais brasileiras.

Ocupando o estande Fuxia 2, na seção New Entries, Carolina Cordeiro apresenta um novo capítulo da série América do Sal (2021/2025), que consiste em uma instalação composta por uma grande trama de barbante de algodão da qual pendem pequenas trouxas de sal envoltas em tecido. Disposta paralelamente ao chão e atravessando o estande, a obra convida o público à interação, uma vez que se deve passar por debaixo dela para chegar à parede de fundo, onde outros trabalhos da série serão mostrados.

Monocromática, silenciosa e, ao mesmo tempo, dotada de forte carga simbólica, América do Sal estabelece diálogo com as artesanias de diferentes povos que formam a identidade brasileira, com práticas vinculadas às religiões afro-brasileiras, especialmente o Candomblé. As trouxas de sal remetem tanto aos patuás, que são amuletos de proteção, quanto aos banhos e rituais de limpeza, que sempre devem ser feitos do pescoço para baixo – a mesma medida corporal que define a altura da instalação.

 

Intervenção artística no Museu Emílio Goeldi.

10/out

“O museu é o mundo”, anunciou o tropicalista Hélio Oiticica. 

Em “Um rio não existe sozinho”, o museu é a própria Natureza. A mostra coletiva – em parceria com o Instituto Tomie Ohtake – transforma o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará, uma instituição centenária e referência na produção de ciência na Amazônia,  em um percurso de arte viva. A mostra segue em cartaz até o dia 30 de dezembro, com obras inéditas de nove artistas, e propõe uma experiência imersiva onde as obras se misturam à fauna e flora, conectando ciência, meio ambiente e arte contemporânea para ecoar vozes dos povos da floresta e a mensagem urgente de preservação da maior floresta tropical do planeta.

“Esta ilha de biodiversidade existe em um planeta em colapso. Não é escapismo, é um lembrete do que está em jogo”, afirma Sabrina Fontenele, curadora do Instituto Tomie Ohtake. “A floresta não é cenário, é sujeito político ativo e pulsante”, completa Vânia Leal, curadora convidada.

Sobre as obras e os artistas.

A mostra é o resultado de um longo processo de imersão, que envolveu viagens de pesquisa e encontros entre artistas, mestres tradicionais, cientistas, arquitetos e ativistas. “Um rio não existe sozinho” reúne obras que exploram a relação profunda entre natureza, cultura e memória. Sallisa Rosa, de Goiás, traz uma instalação em barro que resgata o ciclo entre terra e água, enfatizando o cuidado essencial com os rios que nos conectam. Já Rafael Segatto, do Espírito Santo, utiliza remos e cores para criar uma cartografia afetiva que remete às memórias e espiritualidades do mar, apontando caminhos invisíveis que nos guiam. No Pará, o artista PV Dias propõe um vídeo mapping que sobrepõe imagens históricas do acervo do Museu Emílio Goeldi com registros atuais, revelando as marcas ambientais que insistimos em ignorar. Noara Quintana, de Santa Catarina, chama atenção para a fragilidade do ecossistema ao recriar espécies ameaçadas a partir de registros antigos, enquanto Elaine Arruda, também do Pará, narra em sua obra a travessia de três gerações ao longo do Rio Tijuquaquara, bordando memórias femininas na dança das marés. A crise climática ganha formas visuais nas paisagens térmicas de Mari Nagem, de Minas Gerais, que transforma dados da seca histórica de 2023 no Lago Tefé em um alerta urgente. O ativismo indígena se manifesta nas instalações de Gustavo Caboco, do povo Wapichana, que desafia nomes coloniais como o da vitória-régia para reivindicar memória e território. Déba Tacana, de Rondônia, conecta ancestralidade e futuro por meio da cerâmica e do vidro fundido, refletindo sobre direitos humanos e meio ambiente. Francelino Mesquita utiliza materiais naturais como o miriti para criar esculturas que simbolizam a luta pela preservação da floresta e os saberes ancestrais, ressaltando que, apesar da leveza da matéria, a mensagem é pesada: sem floresta, não há futuro.

 

Exposição individual de Ana Kemper.

09/out

A Galeria Mercedes Viegas, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, anuncia a exposição “HIPERMAR”, da artista visual Ana Kemper. A curadoria é da pesquisadora, escritora e artista Eleonora Fabião, que também assina o texto crítico.

Em sua primeira individual na galeria, Ana Kemper traz uma série de fotografias inéditas e uma videoinstalação. Nas imagens, a artista mostra formas de vida aquáticas, botânicas e minerais. Segundo a curadora Eleonora Fabião, “são imagens-acontecimento que brotam quando a artista presta cuidadosa atenção e as coisas retribuem. São lumino-brotações.”

Ana Kemper, que transita entre diferentes linguagens, também atua como pesquisadora, médica acupunturista e fisioterapeuta com atuação transdisciplinar. Sua prática é fundamentada no cuidado interespécies, permeando seu trabalho artístico, clínico e sua pesquisa em ecologia.

“HIPERMAR” pode ser vista até 08 de novombro.

 

Uma Bienal é um grande desafio.

02/out

Quais são os rostos por trás das obras da 36ª Bienal?

Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa da Cidade de São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo e Itaú apresentam a 36ª Bienal Internacional de São Paulo até 11 de janeiro de 2026, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera, Portão 3, São Paulo, SP.

A arte é um exercício coletivo. São necessárias muitas mãos para construir uma exposição. Você já se perguntou quem é o artista e quem são as pessoas que trabalharam em cada obra? Este ensaio explora a categoria do retrato, destacando artistas, equipes de montagem, curadores e funcionários da Fundação Bienal.

Montar uma exposição da dimensão de uma Bienal é um grande desafio. Para registrar esse processo de dois meses, convidamos três fotógrafos a captar detalhes, rostos e momentos de criação da 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática.

A segunda parte desse ensaio visual, realizada entre 18 de agosto e 04 de setembro no Pavilhão da Bienal e em ateliês de artistas, é assinada por Fe Avila. 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática.

Curador geral: Bonaventure Soh Bejeng Ndikung / Cocuradores: Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza / Cocuradora at large: Keyna Eleison / Consultora de comunicação e estratégia: Henriette Gallus / Cocuradores adjuntos: André Pitol, Leonardo Matsuhei.

 

Lançamento de Elisa Stecca e Willy Biondani.

29/set

Edição numerada permite revisitar a poética da natureza em uma experiência visual e tátil.

A instalação “Tangências/Alumbramento”, de Elisa Stecca e Willy Biondani, que desde julho ocupa a sala Maureen Bisilliat do Museu da Imagem e do Som (MIS), Jardim Europa, em São Paulo, se despede com um gesto inédito: o lançamento de uma caixa numerada, reunindo imagens das obras expostas e o catálogo oficial, permitindo ao público levar para casa uma experiência tangível e prolongada da mostra.

A exposição, que se destacou pela atmosfera imersiva e sensorial, transformou 260 m² em um espaço de encantamento. O percurso curvilíneo, sem cantos vivos, conduziu o visitante por 70 metros de obras têxteis transparentes, esculturas em vidro soprado espelhado, projeções de vídeo e fotografias, combinando diferentes linguagens e suportes para explorar a natureza e suas dimensões poéticas. A ambientação sonora, criada por Cid Campos, completou o cenário onírico, oferecendo pausas de silêncio e contemplação em meio à rotina urbana, enquanto a consultoria de arquitetura de Carlos Warchavchik garantiu uma circulação fluida e envolvente.

O lançamento da caixa é concebido como uma extensão participativa da experiência imersiva. O projeto gráfico, assinado por Pedro Cappeletti, organiza as imagens e folhas em diferentes papéis, permitindo ao espectador montar e explorar as peças de maneiras variadas, tornando-se coautor de sua própria interpretação. A tiragem é limitada a 140 unidades numeradas, reforçando a singularidade do objeto.

A mostra, que entrelaça utopia e razão, fluido e concreto, sonho e realidade, convida a refletir sobre a biodiversidade brasileira, inspirando-se na carta de Pero Vaz de Caminha e reinterpretando fauna e flora de forma fantasiosa e poética. A experiência propõe um mergulho do micro ao macro, em um tempo e espaço suspensos, evocando a contemplação, o encantamento a imaginação como motores do olhar artístico.

 

Dialogando com a obra de Hélio Oiticica.

Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica apresenta vídeo-performance de Stella Mariz na 3ª Chamada Programa Hélio Oiticica. A vídeo-performance “Núcleo I”, de Stella Mariz, integra o Programa HélioOiticica e investiga a relação entre corpo e espaço no ambiente virtual. Criada sob a persona @acaciavelata, a obra utiliza gestos espontâneos e repetitivos para evocar memórias arcaicas e movimentos universais, dialogando com a visão original de Hélio Oiticica para o “Grande Núcleo”.

O Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO) convida para a abertura da exposição coletiva do Programa Hélio Oiticica, com a vídeo-performance Núcleo I (2025) de Stella Mariz, selecionado para dialogar com a obra e o pensamento do artista Hélio Oiticica, no dia 04 de outubro de 2025, das 14h às 18h, no Rio de Janeiro, com curadoria de Cesar Oiticica.

Em “Núcleo I”, Stella Mariz apresenta sua persona Acacia Velata (@acaciavelata), um trabalho de vídeo-performances que desenvolve desde 2021. Coberta por um traje que neutraliza a sensualidade e evidencia apenas o movimento – mãos e pés expostos -, a artista explora o vídeo como um espaço pictórico tridimensional virtual. Filmada por Antônia Ribas, com edição da própria Stella Mariz, a performance acontece em silêncio e sem coreografia, permitindo que gestos espontâneos emerjam como registros corporais de memórias ancestrais. A artista opta por não utilizar inteligência artificial na criação do trabalho, incorporando deliberadamente o erro como parte essencial do processo. Para Stella Mariz, enquanto a IA tende a corrigir e suavizar imperfeições, é justamente na falha humana que reside um potencial criativo único – um espaço onde o inesperado se transforma em gesto expressivo.

As sequências curtas e repetitivas induzem um estado de percepção sensível: um convite a reconhecer movimentos primordiais inscritos no corpo, atravessando categorias de raça, gênero, sexualidade ou território. Inserida em um ambiente digital idealizado, a ação provoca uma experiência subjetiva e simbólica, despertando emoções arcaicas que conectam passado e futuro.

O trabalho estabelece um diálogo direto com a visão original de Hélio Oiticica para o “Grande Núcleo”, em que a interação corporal e a participação ativa do público eram centrais. Em vez de apenas assistir, o espectador é instigado a sentir e perceber, criando novas relações simbólicas no ambiente virtual – uma atualização das proposições de Oiticica no contexto contemporâneo.

Sobre a artista

Nascida no Porto, Portugal, e radicada no Rio de Janeiro, Stella Mariz transita entre escultura figurativa, desenho, fotografia, vídeo-instalação e foto-pinturas em alto-relevo. É também cirurgiã plástica e possui pós-graduação em História da Arte e em Arte e Filosofia (PUC-Rio). Participou de residências artísticas na Art Students League (Nova York) e no Atelier Charles Watson (RJ), além de cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Premiada no Salão Nacional de Arte em Cuba, já realizou diversas exposições individuais e coletivas. Em maio de 2025, apresentou a individual “Denso e Sutil”, com curadoria de Shannon Botelho, no Centro Cultural Correios RJ, explorando os limites entre bidimensionalidade e tridimensionalidade. Ainda este ano, foi selecionada pela mostra de performance arte Verbo, da Galeria Vermelho.

De 05 a 26 de outubro.

 

Exibindo a arte da preservação e da cidadania.

26/set

nstituto Tomie Ohtake, Pinheiros, São Paulo, SP,  apresenta “A terra, o fogo, a água e os ventos – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant”. A exposição reúne obras de 60 artistas das Américas, Caribe, Europa, África e Ásia, que conta com o patrocínio do Nubank, Mantenedor Institucional do Instituto Tomie Ohtake, da SKY, na cota Bronze, e da Fundação Norma y Leo Werthein, na cota Apoio. Concebida como um museu em movimento e dedicada à obra e ao pensamento do poeta, filósofo e ensaísta martinicano Édouard Glissant (1928–2011), a exposição integra a Temporada França-Brasil 2025 como um de seus principais destaques. A iniciativa de intercâmbio cultural é promovida pelo Instituto Francês e pelo Instituto Guimarães Rosa (Itamaraty), com o apoio de um comitê formado por 15 empresas: Engie, LVMH, ADEO, JCDecaux, Sanofi, Airbus, CMA CGM, CNP Seguradora, L’Oréal, TotalEnergies, Vinci, BNP Paribas, Carrefour, VICAT e SCOR. Com curadoria de Ana Roman e Paulo Miyada, a mostra é uma realização do Instituto Tomie Ohtake, correalização do Mémorial ACTe, do Édouard Glissant Art Fund e do Institut Tout-Monde, além de parceria com o CARA – Center for Art, Research and Alliances e apoio institucional do Institut Français.

Parte da pesquisa de longo prazo do Instituto Tomie Ohtake em torno da produção de memória, a exposição dá sequência a iniciativas recentes como a mostra Ensaios para o Museu das Origens (2023) e o seminário “Ensaios para o Museu das Origens – Políticas da memória” (2024), que reuniu representantes de museus, arquivos e comunidades em um intenso debate sobre preservação e cidadania. Com seu título inspirado na antologia poética La Terre, le feu, l’eau et les vents (2010), organizada pelo escritor martinicano, a mostra ensaia o que seria um “Museu da Errância”. 

Errância é uma vivência da Relação: recusa filiações únicas e propõe o museu como arquipélago – espaço de rupturas, apagamentos e reinvenções sem síntese forçada. Contra genealogias rígidas, propõe-se uma memória em trânsito, feita de alianças provisórias, traduções e tremores – um processo institucional movido pelo encontro entre tempos, territórios e linguagens. Ainda que Glissant tenha deixado fragmentos de sua visão para um museu do século 21, não chegou a concretizá-lo. A curadoria imagina como poderia ser esse Museu da Errância em uma mostra de múltiplas camadas e conexões inesperadas entre obras, documentos e paisagens. As duas ideias-chave da organização da montagem da exposição são a palavra da paisagem e a paisagem da palavra, concebidas a partir da concepção de Glissant de “parole du paysage”. Como apontam em texto, “No primeiro caso, o território infiltra-se na fala; no segundo, a linguagem se projeta no espaço, convertendo signos, letras e códigos em relevo, clima ou correnteza”. Para o poeta, a paisagem não é apenas cenário externo, mas força ativa que molda memórias, gestos e linguagens. Além disso, estão presentes em frases, manuscritos e entrevistas do autor outras ideias como Todo-mundo, crioulização, arquipélago, tremor, opacidade, palavra da paisagem e aqui-lá. Para a curadoria, que trabalhou em contínuo diálogo com Sylvie Séma Glissant, trata-se de um arco de assuntos interligados com profunda relevância no mundo contemporâneo, que mais uma vez se vê permeado por discursos e medidas de intolerância perante o diverso e incapaz de criar canais de escuta dos Elementos naturais e das paisagens ameaçados de destruição.

É nesse horizonte que se apresenta, pela primeira vez no Brasil, parte da coleção pessoal reunida por Glissant e atualmente preservada no Mémorial ACTe, em Guadalupe. O conjunto inclui pinturas, esculturas e gravuras de artistas com quem o pensador conviveu e sobre os quais escreveu, como Wifredo Lam, Roberto Matta, Agustín Cárdenas, Antonio Seguí, Enrique Zañartu, José Gamarra, Victor Brauner e Victor Anicet, entre outros. São artistas de crescente reconhecimento internacional, que viveram trajetórias de diáspora e imigração, e produziram em trânsito entre línguas, linguagens, paisagens e histórias múltiplas. Trata-se de um valioso recorte da produção artística da segunda metade do século 20, que lida com o imaginário, a figuração, a linguagem e as grafias como recursos carregados de traços de memória, identidade e invenção.

À coleção de obras somam-se documentos, cadernos, vídeos e fragmentos de textos e entrevistas de Glissant, igualmente inéditos. Entre eles, destaca-se o Caderno de uma viagem pelo Nilo (1988) – com notas e desenhos em fac-símile – que vai além do registro de viagem para se tornar um exercício poético-filosófico, no qual o autor questiona a ideia de uma origem única e propõe a noção de origens múltiplas. A mostra apresenta também trechos da extensa entrevista concedida em 2008 a Patrick Chamoiseau, escritor martinicano e parceiro intelectual de Glissant, da qual resultou o monumental Abécédaire. O público poderá conferir dezessete verbetes selecionados pela curadoria, exibidos em seis monitores distribuídos pela exposição. Esses materiais revelam como o poeta elaborava suas ideias no cruzamento entre escrita, oralidade e imagem. Este extenso e rico acervo é apresentado em diálogo com trabalhos de mais de 30 artistas contemporâneos das Américas, Caribe, África, Europa e Ásia – nomes como Chico Tabibuia, Emanoel Araújo, Federica Matta, Frank Walter, Julien Creuzet, Manthia Diawara, Melvin Edwards, Sheila Hicks, Rebeca Carapiá, Pol Taburet, Tiago Sant’Ana, entre outros – que convocam o público a experimentar, de forma sensorial, o entrelaçamento entre paisagem, linguagem e memória. Nas palavras dos curadores: “Entre as peças selecionadas há partituras visuais que serpenteiam pelas paredes como cordilheiras, vídeos em que frases viram espuma marítima e instalações sonoras que transformam poemas em ar e vibração”. Parte dessa proposta inclui ainda obras especialmente comissionadas para a exposição, realizadas por Aislan Pankararu, Pedro França e Rayana Rayo, do Brasil, e por Arébénor Basséne, Hamedine Kane, Nolan Oswald Dennis, Pol Taburet, Kelly Sinnapah Mary e Tarik Kiswanson, de diferentes contextos internacionais, ampliando as vozes e perspectivas que atravessam a mostra.

Está programado o lançamento de um catálogo, em português e em inglês – cuja edição em inglês está sendo coeditada pelo CARA – que reúne textos das instituições parceiras, ensaio curatorial de Ana Roman e Paulo Miyada, verbetes sobre os artistas participantes, além da transcrição de trechos do Abécédaire. O volume inclui também o manuscrito Caderno de uma viagem pelo Nilo, de Glissant, assim como legendas técnicas e ficha detalhada da exposição. Em novembro, no Instituto Tomie Ohtake, a programação se completa com um seminário com a participação de alguns dos artistas da exposição e com importantes intelectuais que dialogam com a obra de Glissant.

O projeto contemplou, ainda, uma residência artística na Martinica, realizada em agosto de 2025, com a participação de Rayana Rayo e Zé di Cabeça (José Eduardo Ferreira Santos). Os frutos dessa vivência, que conta com o apoio da Coleção Ivani e Jorge Yunes e do Instituto Guimarães Rosa, darão origem a intervenções em diálogo com a coleção de arte africana do MON – Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, PR. O evento também integra a Temporada França Brasil. No primeiro semestre de 2026, a exposição tem itinerância prevista para Nova York, no CARA – Center for Art, Research and Alliances.

Artistas participantes

Agustín Cárdenas, Aislan Pankararu, Amoedas Wani e Patrice Alexandre, Antonio Seguí, Arébénor Basséne, Cesare Peverelli, Chang Yuchen, Chico Tabibuia, Eduardo Zamora, Emanoel Araújo, Enrique Zañartu, Ernest Breleur, Etienne de France, Federica Matta, Flavio-Shiró, Florencia Rodriguez Giles, Frank Walter, Gabriela Morawetz, Geneviève Gallego, Gerardo Chávez, Hamedine Kane, Irving Petlin, Jean-Claude Garoute (Tiga), José Gamarra, Julien Creuzet, Kelly Sinnapah Mary, M. Emile, Manthia Diawara, Mélinda Fourn, Melvin Edwards, Minia Biabiany, Nolan Oswald Dennis, Öyvind Fahlström, Pancho Quilici, Paul Mayer, Pedro França, Pol Taburet, Raphaël Barontini, Rayana Rayo, Rebeca Carapiá, Roberto Matta, Serge Hélénon, Sheila Hicks, Sylvie Séma Glissant, Tarik Kiswanson, Tiago Sant’Ana, Victor Anicet, Victor Brauner, Wifredo Lam, Zé di Cabeça (José Eduardo Ferreira Santos). 

Até 25 de janeiro de 2026.

 

As práticas artísticas de Lia Letícia.

23/set

O Governo do Estado de Pernambuco, a Prefeitura da Cidade do Recife, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Dona Ledy Arte e Cultura e Rosa Melo Produções Artísticas apresentam Tudo dá, individual de  Lia Letícia sob curadoria de Clarissa Diniz no MAMAM, Recife, PE.

Faz quase 30 anos que Lia Letícia, nascida no Rio Grande do Sul, radicou-se em Pernambuco. Sua mudança para Olinda em 1998 possibilitou a consolidação das práticas artísticas que havia iniciado tempos antes, quando trabalhou na confecção de carros alegóricos no carnaval gaúcho. Uma vez que chegou à terra do frevo, especialmente no ateliê de Iza do Amparo e nas ações do coletivo Molusco Lama, Lia Letícia encontrou espaços, interlocutores e aliados tão instigantes quanto aguerridos para sua formação e atuação como artista. Desde então, tem desenvolvido uma obra vasta em contaminações e colaborações, hackeando e reinventando concepções elitistas de arte que, como velhas fortalezas, ainda hoje erigem muros que inocuamente tentam conter sua vocação ao múltiplo, ao outro ou ao avesso de si.

Letícia Letícia fez performance, pintura, objeto, instalação, vídeo, fotografia, intervenção, serigrafia, direção de arte, gestão de espaços independentes, ilustração, cinema, militância, cenografia, curadoria, educação. Sua prática nunca se restringiu a galerias e museus: ao contrário, esteve fundamentalmente lastreada nas ruas, sets de filmagem, comunidades, salas de aula ou mesmo em grupos de WhatsApp. Não à toa, passaram-se muitos anos até que sua obra pudesse ser apresentada em conjunto numa instituição cultural de relevo: um gesto que, sem qualquer ambição de contemplar toda a sua trajetória, tem todavia a intenção de compartilhar as forças norteadoras de sua poética com os públicos do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. Ocupando todos os andares do MAMAM, a exposição se organiza em quatro núcleos. Neles, aproximamos trabalhos de linguagens e períodos distintos que, todavia, transitam nas mesmas órbitas políticas. No térreo, Nesta terra, tudo dá reúne obras que denunciam o extrativismo (neo)colonial através de uma filosofia da abundância capaz de resistir aos seus projetos de escassez. No primeiro andar, o núcleo Artista desconhecida explora a debochada iconoclastia que tanto identifica a obra de Lia Letícia, enquanto Arriar a bandeira desafia o triunfalismo do poder e suas presunções de progresso. Por fim, Desculpe atrapalhar o silêncio de sua viagem que congrega obras que, a partir da experiência das cidades, insurgem-se contra as injustiças sociais do nosso tempo. Ao longo da exposição, alguns gestos e interesses revelam sua permanência na obra da artista: memórias insurgentes, posicionamentos irônicos, subversões de traços anárquicos, enfrentamentos políticos performativos, criações colaborativas, o caminhar como método, estéticas da abundância. Permeando diferentes temas e estratégias de linguagem, de forma transversal, testemunhamos a iconoclasta vocação da obra de Lia Letícia de arejar as tão estafadas concepções tradicionais de arte, aqui devidamente inscritas – e nutridas – na vida que Tudo dá.

por Clarissa Diniz

Até 09 de novembro.