Arte Sonora Ano 15

26/jul

Projeto idealizado pelo duo de artistas e professores, Franz Manata e  Saulo Laudares, completa 15 anos com ocupação de dois meses  na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ.  A programação inclui exposições, performances, roda de sample, palestras, exibição de vídeos, happening e uma série de ativações artísticas. O projeto ARTE SONORA, celebra seus 15 anos até o dia 29 de setembro. Para marcar a data, a dupla Manata e Laudares elaborou um extenso programa de ocupação e um grande happening de encerramento.

O Arte Sonora é parte da prática artística de Manata e Laudares. O projeto teve início em 2009 como um curso na EAV e, ao longo dos anos, constituiu uma relevante plataforma de discussão, bem como um banco de dados sobre arte e som. Em parceria com nomes de referência em suas áreas de atuação – como Arto Lindsay, Fausto Fawcett, Cildo Meireles, Ricardo Basbaum e Katia Maciel – o Arte Sonora já assumiu diversos formatos: mostras, workshops, publicações, programas de rádio e residências que abordam o universo sonoro e a influência da música no trabalho de artistas, críticos e pensadores da cultura contemporânea.

“O Arte Sonora é um projeto de formação de natureza pioneira. Quando iniciamos, pouquíssimo se falava sobre essa interseção entre arte e som, e hoje podemos afirmar que todos os artistas ligados a esta atividade estão, de alguma forma, conectados ao projeto. Por lá passaram mais de 250 pessoas. E fechar esse ciclo de 15 anos no Parque Lage, onde tudo começou, faz muito sentido pra nós”, afirma Franz Manata.

A exposição nas Cavalariças, curada pela dupla, reúne obras de um grupo de 17 artistas de diversas regiões do Brasil e de fora do país que, com abordagens muito diversas, investiga a poética do som e suas múltiplas manifestações: Bruno Qual, Caio Cesar Loures, Denise Alves-Rodrigues, Eduardo Politzer, Gabriel Ferreira, Jean Deffense, Juliana Frontin, Leandra Lambert, Leandro Araujo, Leliene Rodrigues, Manata Laudares, Marta Supernova, Marcelo Mudou, Marco Scarassatti, Pedro Victor Brandão, Ulisses Carvalho e Vivian Caccuri.

“Achamos pertinente reunir na exposição os artistas que se destacaram ao longo desses 15 anos de Arte Sonora e que contribuíram para a construção de uma nova cena”, comenta Saulo Laudares. “Um dado interessante é que todos os trabalhos selecionados versam sobre o som, mas não necessariamente emitem áudio. Há, por exemplo, partituras, pinturas e objetos escultóricos apresentados com legendas expandidas de caráter descritivo-poético”.

A abertura contou com uma série de performances em frente às Cavalariças. Entre elas o “Circular Som Sistema”, um triciclo tunado (um módulo de som autônomo que percorre a cidade) idealizado pelo artista Bruno Qual, que possibilita que até 20 pessoas participem de uma roda de sample. Ao longo dos dois meses de ocupação, serão lançados 14 novos programas de podcasts, de forma a expandir o projeto para o ambiente virtual. Incluindo aí um programa histórico com o compositor e multiartista Fausto Fawcett, que produziu uma ópera própria para o Arte Sonora.

Sobre os idealizadores:

Franz Manata é artista, curador e professor da EAV Parque Lage. Saulo Laudares é artista e DJ produtor. O duo começou suas atividades em 1998, a partir da observação do comportamento e da cultura da música eletrônica contemporânea. Os artistas vêm realizando programas de residência e participando de mostras individuais e coletivas, dentro e fora do país.

ARTE SONORA ANO 15 | Programação:

Exposição nas Cavalariças da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, entre 25 de julho e 29 de setembro, com curadoria dos artistas e professores Franz Manata e Saulo Laudares, com 17 artistas de várias regiões do Brasil e outros países, sendo eles: Bruno Queiroz, Caio Cesar Loures, Denise Alves-Rodrigues, Eduardo Politzer, Gabriel Ferreira, Jean Deffense, Juliana Frontin, Leandra Lambert, Leandro Araujo, Leliene Rodrigues, Manata Laudares, Marcelo Mudou, Marco Scarassatti, Marta Supernova, Mary Fê, Ulisses Carvalho e Vivian Caccuri.

Roda de Sample. Na abertura do evento o Circular Som Sistema conduziu, com seu triciclo tunado, um sistema de som autônomo que permite a conexão simultânea de 20 participantes, com artistas da mostra e aberto aos interessados (as) em participar;

Exposição virtual. Site com podcasts já realizados pelo programa ARTE SONORA ao longo dos anos, lançará, semanalmente, programas gratuitamente. Serão 14 podcasts inéditos, entre eles: Arto Lindsay, Fausto Fawcett e Bruno Queiroz, Janete El Haouli, Jocy de Oliveira, Katia Maciel e 40 poetas, Leandra Lambert, Marco Scarassatti, Ricardo Basbaum (2 episódios), Pedra Pomes (Marta Supernova e Anicca) e o coletivo Teto Preto.

Sessão de vídeos, 29 de agosto, das 19h às 21h, no auditório da Escola. A sessão será voltada para os trabalhos sonoros que tem o vídeo como suporte. O evento contará com trabalhos inéditos de artistas de várias regiões do Brasil e dos EUA e Europa, desenvolvidos durante os encontros presenciais e virtuais. Participam da mostra: Denise Alves-Rodrigues, Eliane Terra, Felipe Mussel, Julio Santa Cecília, Leliene Rodrigues, Luísa Sequeira, Mary Fê, Marco Scarassatti e Sama.

Entrevistas conduzidas por Franz Manata, com dois artistas e pesquisadores renomados do campo da arte sonora. Em pauta, a influência da matéria sônica presente na pesquisa de cada um deles:

Dia 1º de agosto, no auditório da EAV: Alberto do Campo (Berlim/AL) – artista e professor de arte gerativa e computacional no Institute for Time-Based Media, da Universidade de Berlim.

Dia 15 de agosto, em formato híbrido (entrevistador e público no auditório da EAV e entrevistado na Austrália, online): Rees Archibald (Austrália) – artista sonoro que realiza instalações, composições e performances.

Happening de encerramento, dia 27 de setembro, das 15h às 23h. Live performances inéditas, apresentação de um lineup com Vivian Caccuri e Thiago Lanis, Ed Marola (AKA Eduardo Politzer), Marcelo Mudou e Savio de Queiroz, Gabriel Ferrera e Leandro Araujo, FormigANTI, Azullllllll, Peko, DJ Frontinn (aka Juliana Frontin) e Marta Supernova.

Retrato audiovisual

01/jul

A exposição de Sandra Kogut “No Céu da Pátria Nesse Instante” reproduz falas de um país fraturado e provoca a interação entre o público no Sesc Niterói, RJ.

Sempre transitando entre o cinema, a televisão, a videoinstalação e a arte visual, Sandra Kogut apresenta seu novo projeto: “No Céu da Pátria Nesse Instante”, uma instalação de audiovisual expandido. Em cena, pessoas que participaram ativamente das eleições de 2022, numa espécie de retrato audiovisual de um país dividido. E aí está o trunfo da exposição: para que o visitante possa compreender o que está sendo projetado, ele precisa interagir com o outro, com o vizinho, numa simbologia de reconexão entre as pessoas. A mostra pode ser visitada até 20 de julho.

Numa sala escura, Sandra Kogut projeta frases no ar. São comentários de cidadãos comuns sobre as eleições de 2022, recolhidos ao longo de 2022 e 2023. Ao entrar no local, as pessoas são atingidas por frases que representam posições políticas diversas, tornando-se elas mesmas as telas. “Num lugar que parece não ter nada, você é ao mesmo tempo o suporte e o alvo de comentários de pessoas que não se veem, não se escutam e parecem viver em realidades paralelas. Ao mesmo tempo, para entender o que está acontecendo você precisa do outro. É preciso pedir o apoio de alguém para servir como tela”, explica a artista.

A exposição conta também com um trabalho sonoro de O Grivo, grupo de música experimental, formado pelos mineiros Nelson Soares e Marcos Moreira. Com o apoio de fones, o público pode ouvir um pouco das conversas gravadas pelo projeto. A mostra contempla ainda uma projeção no chão de imagens do 08 de janeiro feitas pela artista. Em 2020, Sandra Kogut ganhou uma bolsa na universidade de Harvard, nos EUA, com a qual registrou os personagens que serviram de matéria-prima para o projeto No Céu da Pátria Nesse Instante. “Meu interesse é falar de política, mas não através das pessoas que estão no centro do poder, os protagonistas usuais, e sim das pessoas comuns, que estão nas ruas. Aqueles que olham para tudo de lado, de trás, do fundo”, diz a artista. O material registrado deu origem ao filme No Céu da Pátria Nesse Instante, documentário longa-metragem que estreou no 56º Festival Brasileiro de Cinema de Brasília e com estreia comercial prevista para o fim do ano. Nessa exposição, a artista utiliza registros que vão além do longa-metragem. “Queria não só fazer um filme como também uma instalação com esse material tão vasto e tão rico, porque tem coisas que não cabem no formato de cinema”, explica a artista.

Sobre a artista

Sandra Kogut nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Vive e trabalha entre o Brasil, a França e os EUA. Estudou filosofia e comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No audiovisual, realizou trabalhos de ficção, documentários, filmes experimentais e instalações. Começou como videoartista nos anos 1980, documentando performances em sua cidade. Uma dessas resultou no vídeo Intervenção Urbana (1984), gravado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nos dois anos seguintes, realizou uma série de projetos experimentais: Egoclip (1985), com o poeta Chacal; 7 Horas de Sono (1986), com o artista plástico e escultor Barrão; e O Gigante da Malásia (1986). Na década de 1990, criou as Videocabines – uma série de instalações no Metrô carioca, na Casa de Cultura Laura Alvim e no MIS de SP – que deu origem ao trabalho Parabolic People, produzido no CICV Pierre Schaeffer (França) e filmado em Paris, Nova Iorque, Moscou, Tóquio, Dakar e Rio. Sandra participou de exposições no Brasil e no exterior, enquanto paralelamente realizou filmes como os premiados Adieu Monde, Passagers d’Orsay e Um Passaporte Húngaro. Entre seus longas de ficção estão Mutum (2007), Campo Grande (2015) e Três Verões (2019), que receberam prêmios nos grandes festivais e correram o mundo. Entre 2016 e 2022 foi comentarista do programa Estúdio I na GloboNews. Foi professora nas universidades americanas de Princeton, Columbia (Film Program) e University of California, San Diego/UCSD. Foi Visiting Scholar na New York University durante quatro anos.

Mostra de Carlos Scliar e Cildo Meireles

24/jun

A Casa Museu Carlos Scliar, Cabo Frio, RJ, completa 20 anos com exposição imersiva que reúne até 25 de junho de 2025, obras de Carlos Scliar e Cildo Meireles.

Para marcar os 20 anos da Casa Museu Carlos Scliar, será inaugurada no dia 29 de junho de 2024, a exposição “Os Artivistas: Carlos Scliar e Cildo Meireles”, que une, pela primeira vez, a obra desses dois importantes artistas. “O Scliar foi fundamental na minha vida”, afirma Cildo Meireles sobre o amigo falecido em 2001. Com curadoria de Cristina Ventura, coordenadora da casa museu, serão apresentadas cerca de trinta obras, sendo algumas inéditas, que cobrem um período que vai desde a década de 1940 até 2021. Completam a mostra obras participativas, inspiradas nos trabalhos dos dois artistas. A exposição, que terá entrada gratuita até o final do mês de agosto, é apresentada pelo Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro através da Lei Paulo Gustavo.

“A ideia é provocar no espectador um convite á reflexão, instigada pela atualidade das questões tratadas pelos artistas em suas obras. Temas como: crimes de estado, meio ambiente, guerra, valor monetário, entre outros. Nosso propósito é que a pessoa pense sobre o seu papel no mundo de hoje”, diz a curadora Cristina Ventura.

As obras de Cildo Meireles e Carlos Scliar serão expostas juntas, como uma grande instalação, sem seguir uma ordem cronológica. São pinturas, desenhos, colagens, estudos, gravuras, objetos e vídeos. De Cildo, estarão as notas “Zero Dólar” (1984) e “Zero Cruzeiro” (1978), a instalação sonora “Rio Oir” (2011), o vídeo “15 segundos” (2021), em homenagem a Marielle Franco, entre outras obras. De Scliar, destacam-se os desenhos “Levante do Gueto de Varsóvia” (1957) e “SOS” (1989), além de desenhos e estudos, alguns inéditos, que tratam de temas como a cultura afro-brasileira e o holocausto. “Sou um grande admirador dos desenhos do Scliar, acho que ele era um desenhista dos mais talentosos do Brasil, verdadeiramente sensível”, afirma Cildo Meireles.

Na mostra, estará, ainda, a matriz da capa da Revista Horizonte, feita por Scliar em 1952, onde se lê: “Assine Apelo Paz”. “A Segunda Guerra Mundial o marcou muito, Scliar foi pracinha, atuou como cabo de artilharia. No período pós-guerra participa ativamente de movimentos a exemplo o Congresso pela Paz ocorrido na antiga Tchecoslováquia, a mensagem trazida na obra é fundamental”, diz a curadora. Uma reprodução tátil desta matriz fará parte da exposição para que o visitante possa manuseá-la. Também estará na exposição um texto inédito do artista, da década de 1980, narrado pela cantora e compositora Marina Lima. No documento, Scliar expressa sua indignação e cansaço diante da nossa construção histórica. A artista cresceu vendo obras de Scliar, colecionadas por seu pai, segundo Marina, “…uma imagem afetiva que nunca esqueço”. A gravação foi feita especialmente para a exposição.

Com trajetórias diversas, Carlos Scliar e Cildo Meireles se conheceram em 1966. “A partir do nosso primeiro encontro, onde mostrei meus desenhos, ele se interessou em mostrar esses trabalhos para alguns colecionadores e a partir daí praticamente me financiou. Sempre foi uma pessoa de uma generosidade muito grande, não só no meu caso, mas também com outros artistas jovens que estavam iniciando. Ele era uma pessoa de um entusiasmo intrínseco, estava sempre incentivando, sempre apoiando”, conta Cildo Meireles. Os dois foram muito amigos durante toda a vida e, em diversos momentos, tratam de questões similares em seus trabalhos, como no período da Ditadura militar. Outras questões também convergem na produção dos dois: a icônica obra “Zero Dólar”, de Cildo Meireles, traz a imagem do Tio Sam, personagem que aparece sobrevoando a Amazônia com asas pretas, como se fosse um urubu, na obra “SOS”, de Carlos Scliar.

Percurso da exposição

A mostra começa com uma linha do tempo sobre Carlos Scliar (1920-2001) e chega-se ao jardim, onde está a grande escultura “Volumes Virtuais”, de Cildo Meireles, doada em 2022 para a Casa Museu. Com seis metros de altura, é a primeira escultura da série feita em metal.  Ainda no pátio, estarão trechos do projeto inédito do painel em mosaico projetado para o Brasília Palace, em 1957, a pedido de Oscar Niemeyer (1907-2012), que nunca chegou a ser executado. A obra traz uma homenagem à cultura afro-brasileira, com elementos da religiosidade africana.

Na sala menor, próxima ao jardim, haverá uma grande caixa em perspectiva, inspirada nas famosas caixas criadas por Scliar, onde o público poderá entrar. Nela, estarão matérias de jornais onde o artista alertava para questões ambientais, trazendo manchetes como “A indignação do pintor”, fazendo um contraponto com o que está acontecendo hoje. “Em muitos momentos, Scliar aproveita o espaço na mídia não para falar de sua obra, mas sim para advertir sobre a forma destrutiva que tratamos nosso habitat. As matérias são atuais, as proporções é que são mais desastrosas”, ressalta a curadora. Ainda dentro da caixa haverá imagens do projeto educativo “Meu lugar, meu patrimônio”, onde adolescentes da rede pública de ensino de Cabo Frio e região, falam sobre questões ambientais, em consonância com a fala de Scliar na década de 1980 e o cenário atual.

Na antessala do salão principal estarão dois jogos interativos, um ilustrado com a obra de Carlos Scliar e outro Cildo Meireles, e a reprodução tátil da obra “Assine Apelo Paz”. Seguindo, chega-se à sala principal, onde estarão as cerca de trinta obras dos dois artistas, montadas como uma grande instalação, ambientada pela escultura sonora “Rio Oir”, de Cildo Meireles, na qual o artista coleta o som de algumas das principais bacias hidrográficas brasileiras, gravadas em vinil. Neste mesmo espaço estará o vídeo “15 Segundos”, no qual a vereadora Marielle Franco (1978-2018) é homenageada. Na mesma sala, haverá obras que destacam a atuação de Carlos Scliar na área gráfica, junto à redação das revistas culturais Horizonte (1950 a 1956) e na criação da revista Senhor (1959 a 1960), além de trabalhos do período da Ditadura militar, que trazem frases como: “pergunte quem”, “urgente”, “pense” e “leia-pense”, além do texto da década de 1980 narrado pela cantora e compositora Marina Lima. “A ideia é que o visitante entre num espaço que o absorva em vários aspectos, seja pelo som da água, seja pelo que está sendo visto ou pelo que não está sendo visto – haverá uma vitrola girando sem disco, denotando ausência, desconforto”, diz Cristina Ventura.

Na sala de cinema haverá a projeção de dois filmes: um de Carlos Scliar falando sobre o compromisso das pessoas com as questões do nosso planeta e outro de Cildo Meireles contando como conheceu Carlos Scliar e sua relação com ele. Para completar a experiência, no segundo andar da Casa Museu está a exposição permanente, onde se pode ver o ateliê de Carlos Scliar, que permanece exatamente como ele deixou.

Sobre a Casa Museu Carlos Scliar

O Instituto Cultural Carlos Scliar (ICCS) foi criado em 2001, mesmo ano da morte de seu patrono. O processo para criação da instituição foi acompanhado pelo artista, um acordo que fez com o filho Francisco Scliar para manter sua memória. Fundada por Francisco Scliar junto com os amigos: Cildo Meireles, Thereza Miranda, Anna Letycia, Regina Lamenza, Eunice Scliar, entre outros conselheiros, a instituição, aberta ao público em 2004, está sediada na casa/ateliê do pintor, em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Trata-se de um sobrado oitocentista, com cerca de 1000m², adquirido em ruínas por Carlos Scliar, reformado em 1965 para abrigar seu ateliê e ampliado na década de 1970, com projeto de Zanine Caldas. A casa mantém a ambientação dos espaços deixada por Carlos Scliar, com seus objetos pessoais, acervo documental, bibliográfico, gravuras, desenhos e obras. A coleção resulta da produção do próprio artista ao longo de sua vida, somado a uma expressiva e representativa coleção de obras originais dos mais importantes artistas do cenário brasileiro do século XX, os amigos José Pancetti, Djanira, Di Cavalcanti, Aldo Bonadei, Cildo Meireles, entre outros, além de cerca de 10 mil documentos datados desde a década de 1930. Reforçando seu compromisso sociocultural, ao longo dos últimos três anos foram atendidos mais de 1000 estudantes do Estado do Rio de Janeiro, em projetos educativos. Em 2023, a instituição foi agraciada com o Prêmio Darcy Ribeiro de Educação Museal, promovido pelo IBRAM.

Artistas brasileiros em Viena

21/maio

 

O Desacordo: Um Teatro de Declarações, no Neuer Kunstverein, Viena, Áustria, com ação de Maurício Ianês.

Artistas participantes

Vivian Caccuri | Andressa Cantergiani | Maurício Ianês | Daniel Lannes | Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado | Ana Mazzei | Ventura Profana | Luís Roque | Tadáskia | Allan Weber com curadoria de Bernardo José de Souza.

A palavra do curador

A discordância: um teatro de declarações reúne onze artistas brasileiros contemporâneos cujas práticas artísticas provêm de uma ampla variedade de origens culturais e, portanto, apontam para um amplo espectro de preocupações estéticas e políticas. O conjunto de obras desta exposição aborda, portanto, não apenas a sociedade estratificada e sincrética do Brasil, mas também as contradições ideológicas inerentes às práticas artísticas contemporâneas a partir de uma perspectiva transcultural.

Esta exposição coletiva é composta por obras criadas em diversos suportes – escultura, instalação, colagem, vídeo, pintura e performance – e confronta narrativas que refletem sobre a impossibilidade de encontrar um léxico comum. Um léxico para discutir questões políticas inevitáveis, como a luta de classes, as alterações climáticas, as políticas de identidade, os sistemas de crenças heterogêneas, o legado da cultura simbólica e material e outras questões prementes do presente.

Porque vivemos num mundo onde as narrativas hegemónicas foram historicamente forjadas para manter o status quo da desigualdade – tanto étnica, cultural e socioeconómica – o país hoje conhecido como Brasil é apresentado aqui como um palco político no qual as forças capitalistas criaram zonas de extrema desigualdade social. Ex-colónia portuguesa, o Brasil transformou-se num império monárquico independente, cujas enormes ambições desencadearam mais tarde um impulso de modernização para construir uma economia global imbuída de noções positivistas de progresso tecnológico, apesar das infra-estruturas sociais precárias e do empobrecimento massivo da população.

Embora não seja uma exposição que examine a história ou a produção artística brasileira, O Desacordo parte das contradições inerentes a este país – e a qualquer outro país ex-colonizado – para explorar o cultural e exacerbar os conflitos políticos que moldam indiscriminadamente a contemporaneidade. manifestações políticas, artísticas ou não.

Bernardo José de Souza

Homenagem ao artista Sidney Amaral

20/maio

Visita tematica – Sidney Amaral: Canto para uma arte incômoda no dia 23 de Maio ás 19h, Virtual via Zoom.

Como parte da Programação do Mês da Abolição, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, Parque do Ibirapuera, São Paulo, SP, oferece a “Visita Temática Sidney Amaral: Canto para uma arte incômoda”, em homenagem a esse artista visual, sua trajetória e obra, indissociáveis de uma perspectiva política e crítica e, a partir disso, refletir também sobre o dia 13 maio.

Educador: Guilherme Renan

Vera Reichert exibe Espelhos D’Água

03/maio

Em um convite à contemplação e à reflexão sobre a relação entre a água e seus diferentes biomas, Vera Reichert apresenta a exposição “Espelhos D’Água” na Caixa Cultural, Praça da Sé, São Paulo, SP, com curadoria do artista e gestor cultural André Venzon. A mostra mergulha nas profundezas dessa temática, explorando novas narrativas e perspectivas poéticas sobre esse elemento essencial à vida. A abertura ao público será no dia 03 de maio, com vernissage no dia 4 de maio, às 10h.

Ao longo de mais de três décadas de imersão na poética da água, Vera Reichert tem investigado e expressado sua visão singular por meio de diversas mídias, como fotografia, vídeo, instalação e escultura. Sua jornada artística é marcada por uma profunda conexão com os ambientes aquáticos, inspirando-se nas nuances e na beleza dos oceanos, rios, lagos e lagoas ao redor do mundo.

As obras exibidas em “Espelhos D’Água” revelam a habilidade da artista em capturar a essência da água em suas mais diversas formas. Fotografias subaquáticas transportam o espectador para um mundo raro, onde a luz dança sobre as superfícies e as cores se mesclam em harmonia. Instalações imersivas proporcionam uma experiência sensorial única, convidando-nos a explorar os mistérios e as maravilhas dos ecossistemas aquáticos. Foram produzidas mais de 30 obras, entre imagens do fundo do mar dentro de escotilhas espelhadas, imagens de superfícies de lagoas emolduradas e em forma de gotas moldadas em calotas de acrílico. Um curta-metragem, selecionado no canal Arte1 sobre seu trabalho, uma gota espelhada e um backlight da lua complementam a exposição, oferecendo ao público uma experiência visual e sensorial única.

Vera Reichert, exibe também criações inéditas, especialmente concebidas para este evento: instalações interativas que convidam o público a mergulhar literalmente na arte e no pensamento da artista, proporcionando uma experiência imersiva e transformadora. “Espelhos D’Água” não apenas encanta visualmente, mas também convida à conscientização sobre a importância da preservação e do uso responsável das fontes e mananciais de água em nosso planeta. Por meio de sua pesquisa visual, Vera Reichert nos lembra da fragilidade e da beleza desse recurso hídrico, instigando-nos a refletir sobre nossa relação com a natureza e as futuras gerações. Não perca a oportunidade de mergulhar nessa experiência única!

Até 16 de junho.

Exposição e palestra no IBEU

26/abr

A exibição da mostra “Hecatombe”, individual de Alessandra Vaghi, segue até o dia 30 de abril na Galeria de Arte IBEU, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ. No dia 29, às 18h, haverá uma conversa com o curador, Luiz Alberto Oliveira a exposição apresenta uma instalação com sacos de carvão e reúne obras como vídeos, fotografia e esculturas em cerâmica. Durante o coquetel para os convidados, a partir das 17h, serão apresentadas sessões do vídeo A Última Ceia.

Segundo Luiz Alberto Oliveira, “o conjunto de trabalhos artísticos que Alessandra Vaghi nos apresenta sob este título oferece várias dimensões de reflexão. A mais imediata diz respeito a uma inflexão que vivemos na sociedade contemporânea: a hecatombe é das matas, em favor dos bovinos. Um segundo viés de devastação ampla foi o da conversão de madeira em carvão, em particular para uso em siderúrgicas. Deixando de fabricar ar, a mata fornece fogo para forjar o ferro; a contemplação dos sacos alinhados de lenho carbonizado inevitavelmente nos questiona sobre sua origem.”

Sobre os trabalhos em vídeo, produzidos e performados pela artista, Luiz Alberto Oliveira nos diz: “De Jorge Luis Borges aos paradoxos quânticos e às histórias em quadrinhos, o conceito de multiverso se disseminou largamente em nossa cultura. O rol de questionamentos que Alessandra nos traz tão sutilmente talvez tenham como eixo integrador, fundacional ainda que indiscernível, fulgurante ainda que obscuro, o mistério mesmo de que as Deusas arcaicas eram símbolo: o da potência multiversal do feminino.”

A memória pessoal de um artista

12/abr

O artista Pedro Carneiro, inaugura no dia 14 de abril de 2024, às 13h, no Sesc Madureira, Rio de Janeiro, RJ, sua maior exposição individual: “Antes que a Memória me Esqueça”. Aproximadamente 40 obras – entre pinturas, vídeos e fotografias – ocuparão os espaços expositivos do térreo da instituição. A fé, a religiosidade, o sonho e a sobrevivência diante da violência e do racismo também estão nos trabalhos de Pedro Carneiro. O curador Raphael Couto distribuiu as obras do artista em três grandes núcleos: o primeiro, relacionado ao cotidiano, ao ambiente familiar e afetivo; o segundo, lúdico, o movimento em busca dos sonhos; e o terceiro com obras que fazem comentários mais diretamente políticos. Os trabalhos de Pedro Carneiro partem de sua memória pessoal, principalmente em torno das matriarcas de sua família: as avós materna e paterna, que moravam juntas com as tias do artista em Oswaldo Cruz, bairro vizinho a Madureira. A morte da avó Ridete, em 2023, e a isquemia sofrida pela outra avó, Luiza, provocaram no artista uma urgência em registrar suas memórias. “Ainda que sejam relacionadas a minha memória, tento encontrar um lugar familiar na memória de todos que vejam meus trabalhos”, diz. “A memória é frágil, ela pode se perder, mas resistimos e queremos que ela persista o máximo de tempo possível. Mesmo quando eu partir, eu quero que algumas coisas sejam lembradas”.

O público é recebido pelas fotografias das duas avós, Ridete e Luiza, as matriarcas “anfitriãs” da exposição. Nesta primeira parte, estarão duas séries de pinturas de plantas: “Raízes”, plantas usadas como proteção por religiões afro-brasileiras, destacadas sobre um fundo de spray dourado; e “Do Quintal nº 240”, com plantas do quintal da avó Ridete, com o fundo em tom de rosa, uma característica do trabalho do artista.

“Há um rosa nos quintais, carrancas e álbuns de famílias, nas espadas de São Jorge e numa Coca-Cola na mesa do bar. Um rosa onde o cotidiano é mágico e banal, onde se cata o feijão na mesma mesa em que se lê uma história de super-herói. Há um rosa mágico, entre nuvens contempladas de um quintal no subúrbio, uma rosa dos ventos alegórica e pop. E há um rosa direto e absurdo, que avermelha no sangue dos corpos pretos vitimados ao portar pinhos sóis, guarda-chuvas e furadeiras. Rosa acobreado nos cartuchos de traçantes que riscam a paisagem tal qual Pedro risca a parede. O rosa de Pedro Carneiro é manchado, dissonante, colorido”, destaca Raphael Couto.

Cenas do ambiente familiar estão nas pinturas “Naquela mesa”, “Retomar a memória esquecida”, “Antes de mudar a história da arte da minha rua”, “Aprendendo a respirar”, e as avós, em “Raízes, Vó Luiza” e “Raízes, Ridete”. Em “Take it easy, my brother Charles”, um policial de costas, em silhueta, olha para uma paisagem. “Um dado muito discrepante é que o Brasil tem a polícia que mais mata, e também a que morre mais. Um policial preto que mata um preto. Quero discutir esse sistema. Como se constrói e se perpetua”.

A segunda parte de “Antes que a Memória me Esqueça” tem um caráter mais lúdico, e aborda a luta pela realização dos sonhos, a fé, o respiro necessário para admirar a vida, as curas. Pedro Carneiro diz que “faz parte de nossa vida “parar e olhar o céu”, em uma apropriação do Cartola” – as pinturas “Ao mergulhar no céu” e “Leste – Oeste”. “É importante observarmos um autocuidado, nos protegermos, cuidarmos uns dos outros, e trabalhar para melhorar nossa realidade”. Esses temas estão em obras como a pintura “Herói-tropicaos-marginal”, “Fé: levei as dores para serem lavadas no mar. I e II”, “Caminhar no mundo” e “Carranca”, uma instalação com sal grosso e resina epóxi, que “transpira” com o tempo, criando uma crosta, e uma poça em volta, sem no entanto perder a forma.

Estrelas Cadentes/Balas traçantes

No último segmento da exposição, estão trabalhos que discutem mais diretamente o racismo, a violência urbana, a segurança pública e o conceito de “bala perdida”.

Sobre o artista

Pedro Carneiro nasceu em 1988, Rio de Janeiro, RJ. Tem participado de exposições coletivas importantes, como “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros” – apresentada no Instituto Moreira Salles Paulista, e depois em itinerância em Sorocaba e São José do Rio Preto, em São Paulo, e no Rio de Janeiro, onde esteve no Parque Madureira, na Ocupação MAR, e no Museu de Arte do Rio (MAR). No MAR, Pedro Carneiro integrou também a mostra “Um Defeito de Cor”, que depois foi apresentada no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador, BA. Entre outras coletivas, também participou de “Parada 7”,  no Centro Cultural Hélio Oiticica e Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, e da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, RS.

Acontece em BH

01/abr

A Galeria Albuquerque Contemporânea, Savassi, Belo Horizonte, MG, inaugura a primeira exibição individual de Froiid. O artista apresenta trabalhos realizados a partir de sua pesquisa relacionada ao jogo. Intitulada “Mundaréu”, a exposição estabelece um diálogo com o escritor, ator, jornalista e dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) e as suas “Histórias das Quebradas do Mundaréu” (1973).

Ao explorar o universo confabulado de uma mesa de bar e referências ligadas às dinâmicas do jogo, Froiid, artista multidisciplinar, constrói uma narrativa visual, sonora e sensorial a partir de temas como crime, samba, rap, futebol, torcidas organizadas, inteligências artificiais e violência.

“Com esta sala de estar, marcada pelo seu carácter identitário, Froiid desdobra o tempo livre e nos chama para nos aproximarmos mais uns dos outros, para não perdermos as redes sociais físicas e para apreciarmos a profundidade e riqueza do conhecimento popular”, aponta Ana Salazar Herrera no texto curatorial.

A exposição é concebida como um jogo. Ao percorrer a galeria, encontramos obras jogáveis, com destaque para a instalação “É Hora da Onça Beber Água” (2020), uma mesa de bilhar com cerca de 13 metros, que convida o público a criar e jogar com suas próprias regras. A produção de Froiid se estabelece com uma diversidade de materiais e técnicas, como pinturas, fotografias, desenhos, vídeos e instalações sonoras que exploram a riqueza cultural do Brasil.

Em cartaz até 27 de abril.

Signos na Paisagem no CCBB Rio

08/mar

Última sede da itinerância da mostra BIENALSUR 2023 no Brasil evidencia os olhares de artistas de diferentes origens sobre o impacto que as ações humanas vêm promovendo no planeta. Um dos exemplos notáveis da exposição é o vídeo da argentina Gabriela Golder, gravado no Cerro Mariposa (Valparaíso, Chile), que mostra a devastação provocada por um incêndio de enormes proporções, em 2015!

Signos na Paisagem reúne obras de Rochelle Costi e Dias & Riedweg (BRA); Gabriela Golder e Matilde Marín (ARG); Stephanie Pommeret (FRA); Alejandra González Soca (URY); Gabriela Bettini (ESP); Sara Abdu, Zhara Al Ghamdi e Hatem Al Ahmad (SAU). Os trabalhos problematizam a experiência de vida contemporânea e têm como chave, em sua maioria, a questão do meio ambiente. A mostra faz parte da 4ª edição da BIENALSUR, o evento cultural mais extenso do mundo – 18.730 km de arte contemporânea, em 28 países e mais de 70 cidades nos cinco continentes chega ao Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro permanecendo em cartaz até 15 de maio.

“Uma das premissas do trabalho da BIENALSUR é explorar o panorama artístico internacional por meio de uma convocatória livre e horizontal que realizamos para cada edição. A partir deste chamado, surgem os temas principais sobre os quais trabalhamos, bem como um conjunto de projetos de artistas de diferentes contextos culturais, que são selecionados para serem incluídos nas diversas exposições e intervenções realizadas simultaneamente em cada edição do evento”, explica Diana Wechsler, Diretora Artística da BIENALSUR.

Do último chamado aberto surgiu o tema dominante que orienta a seleção de artistas nesta exposição. A experiência vital contemporânea é problematizada em todas as obras; em algumas delas, a questão ambiental é fundamental. “De diferentes maneiras, nosso olhar sobre o ambiente natural – antes identificado entre as disciplinas artísticas convencionais simplesmente como paisagem – é urgente e exige atenção. Há séculos sabemos que as sociedades humanas vêm modificando a natureza por meio da extração de recursos, o que gera um grande impacto no planeta”, diz a curadora.

A exposição

A observação do entorno próximo durante o período de isolamento social entre 2020 e 2021 devido à Pandemia foi o ponto de partida para as observações de Rochelle Costi (BRA), o que a levou a desenvolver sua série Casa & Jardim;. As fotos registraram insetos encontrados na área externa de sua casa/ateliê (localizada a 4 km do centro da cidade de São Paulo). O trabalho não foi apenas uma observação, mas também uma provocação, pois incorporou na paisagem do jardim doméstico placas de plástico em relevo, criando uma topografia na tentativa de imitar a natureza, ao mesmo tempo atraindo e causando estranheza nos insetos, alterando seus comportamentos habituais. A série exibe o contraponto do que a comunidade global estava passando naquela época, quando as rotinas e paisagens cotidianas estavam sendo alteradas e a sensação de estranhamento dominava a sociedade. Este foi o último trabalho da artista, falecida em novembro de 2022.

Em uma linha de reflexão semelhante, o trabalho de Dias & Riedweg (BRA), a série Silêncio, composta por 16 fotografias digitais, observa as marcas no ambiente urbano e adota um tratamento formal dessas fotografias que remove o volume e a cor, deixando apenas as linhas, aproximando-se da imagem de uma gravura em metal. Esta estratégia escolhida para desafiar o olhar é um convite para descobrir, através de pequenos detalhes, a anomalia, o estranho, o que se torna alheio a uma narrativa visual convencional. Por meio destas imagens tiradas em 2020, eles destacam a questão do risco latente e o aviso de que algo se perdeu.

A abordagem de Gabriela Golder (ARG) em “Tierra Quemada” também evidencia momentos de marcas e perdas. O vídeo (2015), gravado no Cerro Mariposa (Valparaíso-Chile), observa a área devastada pelo incêndio: casas e fauna queimadas por um fogo que, segundo depoimento de um morador, “era tão alto como se o mundo estivesse prestes a acabar. A terra queimou”. A convivência entre as intervenções humanas e a natureza expõe suas tensões, e a sensação de saturação, de “fim do mundo”, emerge.

De uma perspectiva diferente, Matilde Marín (ARG) aborda sua série “Temas sobre a Paisagem”, fotografias que, em seu formato extremamente panorâmico, captam a sensação de infinidade experimentada nesses espaços, criando faixas de atmosferas inesgotáveis, linhas e fugas de luz que se tornam imagens cativantes de um momento efêmero que resgata o conceito de beleza na paisagem e seus limites. O ponto de vista escolhido pela artista é ao mesmo tempo sua marca registrada e a marca de sua presença latente.

Já Gabriela Bettini (ESP) traz para a mostra Paisagens Brasileiras-Pernambuco/Maranhão, realizadas a partir das obras de Frans Post – pintor barroco holandês que trabalhou as paisagens do Brasil levando-as para a Europa. A artista é conhecida por suas pinturas hiper-reais que se aproximam da estética da fotografia de arquivo. A memória pictórica de Bettini, rica em referências visuais, resulta em obras que não apenas remetem para a questão colonial, mas também para as disputas identitárias que ocorreram e ocorrem nestes espaços lidos a priori como “paradisíacos”.

Hatem Al Ahmad (SAU), por sua vez, resgata em sua vídeo-performance “To Speak in Synergy”, junto aos membros da comunidade de Abha (SAU), uma técnica de cuidado antiga que tende a fornecer certos elementos às árvores em seus processos vitais, ao mesmo tempo em que contribui para sua proteção contra mudanças de temperatura ou, por exemplo, alguns insetos. Através da ação dos corpos na paisagem, ele expõe práticas e conhecimentos tradicionais atualizando-os. Hatem afirma: “O sentido prolongado da temporalidade da performance oferece um reconhecimento das histórias e dos corpos que moldaram e habitaram o passado, bem como da racionalidade de nossos futuros”.

A questão das relações com recursos do passado, o tempo e a forma como ele nos interpela aparece reinterpretada como um cenário fictício na obra de Zara Al Ghamdi (SAU) “Echo of the past”, uma instalação com seiscentas peças de blocos de areia e argila fabricados que busca expressar, através do resgate de técnicas antigas de construção, as formas pelas quais o tempo afeta a existência. As rachaduras visíveis nessa orografia imaginária estariam revelando o colapso dos arquétipos tradicionais ou, pelo menos, tensionando as tradições ancestrais vernáculas com um presente que as altera.

Em uma dimensão diferente, a instalação “Moebius” de Alejandra González Soca (URY) tem como objetivo “Cultivar o vazio”. Segundo ela, “convivem dois tempos de um mesmo rosto para gerar uma matriz de eventos onde a germinação e a ação performática modificam constantemente a peça e, portanto, as possíveis relações com ela”.  “Moebius, continua a artista, “aspira a criar um espaço quase ritual que questiona a ideia de um sujeito autoconsciente e seguro de si mesmo, a partir de uma vulnerabilidade assumida e oferecida. Um evento cíclico e efêmero, onde o que acontece de alguma forma evidencia a mínima distância entre os processos de construção e destruição”. A obra da artista se modifica ao longo da exposição.

“Unir a ecologia, a conservação da natureza e a arte permite um diálogo de ideias que vai além das culturas. É necessário aproximar esses mundos e, assim, abrir o campo de possibilidades para ativar um novo imaginário de colaboração”, é o que afirma a artista Stéphanie Pommeret (FRA), que desenvolve em sua série de fotografias “Tous Migrants”, uma síntese poética possível na qual explora as maneiras como nos relacionamos como migrantes com nosso ambiente. Este projeto realizado na reserva natural da baía de Saint-Brieuc a levou a uma longa observação que resultou na operação de apropriação das fotografias naturalistas de Alain Ponsero, combinadas com suas próprias imagens, servindo para reivindicar “a hospitalidade como o único ambiente que favorece o futuro de nossa espécie”. Descobrir o mundo do outro, conhecer seus conhecimentos, sentir sua sensibilidade desencadeia um novo olhar sobre seu horizonte.

Sara Abdu (SAU) “Anatomy Of Remembrance” oferece um conjunto de paisagens imaginárias que procedem do seu interesse em explorar as qualidades indiciais de sentidos distintos da visão. Com base nas memórias olfativas, ela resgata sua imediatez para evocar uma imagem mental do passado e suas emoções, resultando em cartografias psicogeográficas suspensas com as quais Abdu explora o lugar ou loci da memória dentro de nós e cria um ambiente particular ao enfrentar essas topografias do passado.

No dia 20 de março, dia da abertura da exposição, entre as 17h e as 18h, haverá uma visita guiada com a diretora artística da BIENALSUR, Diana Wechsler, e os artistas Maurício Dias e Walter Riedweg (Dias & Riedweg), Matilde Marín e Alejandra González Soca. Os visitantes que estiverem nas galerias poderão participar livremente, sem necessidade de emissão de ingresso específico.

BIENALSUR

Uma ampla proposta de arte, cultura e pensamento contemporâneo que rompe com a ideia de geografia estabelecida, ao criar uma grande rede de unidades autônomas em torno do evento, que tem o quilômetro zero no Museu da Imigração, Buenos Aires, e se estende a mais de 18 mil km, até Tóquio, Japão, na Universidade Nacional de Belas Artes e Música. Criada pela Universidade Nacional de Tres de Febrero (UNTREF), na capital argentina, nasceu com o propósito de buscar outras dinâmicas para a arte e para a cultura, fazendo chamadas abertas a curadores e artistas de todo o mundo, sem temas pré-determinados.

“A BIENALSUR prova que a arte é a melhor ferramenta para superar as fronteiras políticas e identitárias que colocam em tensão as relações internacionais”, comenta Aníbal Jozami, sociólogo que idealizou a BIENALSUR junto com a historiadora e curadora Diana Wechsler. Ambos são acadêmicos – respectivamente Reitor Emérito e Vice-Reitora da Universidad Nacional de Tres de Febrero, universidade pública da Argentina. A primeira edição do evento foi realizada em 2017, com a participação de mais de 400 artistas em pelo menos 80 espaços, em 34 cidades de 16 países. Em 2019 o mapa foi ampliado para 112 áreas em 47 cidades de 21 países; em 2021, apesar da Pandemia, aconteceu em 120 locais, em 48 cidades de 24 países da América, da Ásia e da Europa.  Mais de 1.800 artistas de todo o mundo participaram das três primeiras edições do evento.