Os 80 anos de Raul Córdula

24/abr

A exposição “Espaço-Tempo”, na galeria Amparo 60, Boa Viagem, Recife, PE, marca a exibição comemorativa dos 80 anos de Raul Córdula quando, a partir do dia 25, a galeria Amparo 60 será o cenário para a primeira exposição de 2023. “Espaço-Tempo” é uma retrospectiva do trabalho de Raul Córdula, artista cuja exposição marca, ainda, o início das celebrações dos 25 anos da Amparo 60 comemorados este ano.

“Espaço-Tempo” é uma retrospectiva da obra corduliana, numa trajetória de 63 anos anos dedicados à arte. São trabalhos de várias fases do artista em diversas técnicas – desde o início, na década de 1960 até obras mais recentes, criadas em 2023 – como pinturas, gravuras, aquarelas sobre papel e guaches sobre papel.

Raul Córdula é autor de textos críticos, professor, gestor, curador, agitador da cena cultural e artística, um pensador da arte e suas derivações. Aos 80 anos, confessa que ainda está procurando entender o que é velhice. Além de continuar produzindo obras de intensa beleza geométrica, se permite criar novos atalhos, em caráter libertador, ao fazer inusitadas estripulias estéticas à la popart.

– Eu preciso disso para encarar viver a partir de 80 anos, afirma.

“O ano de 2023 é super importante para a galeria. Estamos completando 25 anos de história e vamos comemorar isso ao longo dos próximos meses. Nesse clima festivo, achei mais do que justo e pertinente convidar Raul Córdula, esse grande artista paraibano, radicado no Recife há tanto tempo, para abrir nosso calendário, nessa mostra que é celebrativa de sua trajetória”, explica a galerista Lúcia Costa Santos.

O projeto Espaço-Tempo reúne trabalhos de várias fases do pintor cuja seleção foi feita pelo próprio artista. “Meu trabalho começou na geração dos anos 1960, passou pelo abstracionismo e depois ela tornou-se mais geométrica, o que sigo fazendo até hoje”, diz Raul. São mais de 20 obras que mostram o percurso do artista.

 

José Bechara na Paulo Darzé Galeria

 

A Paulo Darzé Galeria, Salvador, BA, inaugura exposição individual de pinturas de José Bechara, com o título “O Galaxie do amor para sempre”. Constituída basicamente de pinturas em acrílica e oxidação de ferro sobre lona usada de caminhão. A temporada de exibição da mostra permanecerá aberta ao público até o dia 27 de maio.

 

Pequena entrevista sobre a mostra:

1 – A pesquisa formal é um dos fundamentos essenciais e nela o questionamento do espaço, do tempo, da memória, tendo como suporte na pintura, a lona de caminhão, lona usada, que através de emulsões de cobre e de ferro promovem a sua oxidação, acrescida de tintas e pigmentos, e a experimentação com suportes e técnicas variadas, com domínio e risco, isto é, sem certezas, que marcam seu trabalho, continuam nesta mostra?

1 – De modo geral sim. mas já se vão 30 anos de produção e para essa exposição na galeria, escolhi reunir apenas pintura. A “coisa nova”, digamos, é a introdução de cores altas e por vezes luminosas, a ordenação de espaços que contam com uma grade mais cerrada e contrastes mais elevados. O conjunto também traz elementos circulares nascidos talvez da vontade de somar uma ideia de energia centrífuga, forças de expansão, talvez… poderia descrever seguindo o caminho fruto de pesquisas, se há algum material prevalente, formato e dimensões na execução das obras (quantas?) desta mostra? Não tenho o número preciso de pinturas na mostra porque isso dependerá das escolhas de montagem, mas podemos considerar cerca de 20 trabalhos. O uso da lona usada de caminhão permanece, acho que por conta de dramas permanentes, presentes no que chamamos de poética tais como a memória, a ação do tempo sobre todas as coisas, e minha vontade de elogiar as falhas, os defeitos que, tal como vejo, são parte da beleza da vida.

2 – Pode explicar o título, pois parece-me estar ligado a uma memória afetiva da adolescência. Se sim, o que o trouxe, ao criá-la, até esta lembrança ao executar as obras? Que carga emocional ela contém na sua execução, em seus significados e sua existência?

2 – O “Galaxie do amor para sempre”, título da exposição, é o título de um dos trabalhos da mostra. e surge por acidente: ao introduzir, por impulso uma cor metálica na tal pintura, me lembrei, sabe-se lá por  que,dos cromados de um carro que eu utilizava, um pouco clandestinamente, na adolescência… um Galaxie preto com muitos cromados, um carro muito grande, no qual, nos primeiros encontros, fui além dos beijos. O resto é fantasia e é para sempre.

3- Em conversa que tivemos, você afirmou: “Eu nunca trabalho com certezas, eu considero uma pintura ou uma

escultura pronta, mas aquilo poderia ter sido feito de outra maneira também. Eu escolhi aquele material, aquelas dimensões, aquela aparência geral, mas isso é uma possível manifestação de uma ideia. Mesmo que você dê como pronto, o trabalho tem sempre uma vibração de dúvidas”. Quais são as dúvidas que permanecem e as dúvidas novas após fazer esta série?

3 – São as mesmas, os tais dramas permanentes. Mas, neste momento, um tanto purificadas, inseparáveis de minha observação do mundo como, por exemplo, uma certa ambivalência entre a potência da vida e sua fragilidade perante o inesperado. A presença de coisas e pessoas através da memória e seus vestígios. A essa altura reconheço grandeza no erro, na falha, nas imperfeições e, nesse aspecto, penso, por exemplo, em Chaplin, naquele personagem que falha todo o tempo, ao mesmo tempo que carrega suas falhas de ternura, compaixão e humanidades.

 

Apresentação

A mostra “O Galaxie do amor para sempre”, de José Bechara, tem curadoria de Daniel Rangel, que no texto de apresentação afirma: “Após fazer as devidas oferendas, Ogum “deveria esperar a próxima chuva e encontrar um local onde houvesse ocorrido uma erosão. Ali devia pegar areia escura e fina e colocá-la no fogo… ao queimar aquela areia, ela se transformou na massa quente que se solidificou em ferro. O ferro era a mais dura substância que ele conhecia, mas era maleável quando estava quente. Ogum passou a modelar a massa quente. Ogum fabricou primeiro a tenaz, um alicate para tirar o ferro do fogo… Ogum passou a produzir toda espécie de objeto de ferro…”. As obras de José Bechara emanam a força de Ogum, orixá forjador, guerreiro, patrono da agricultura e protetor daqueles que viajam pelas estradas. Certamente, o artista não imaginou essa presença quando produziu os trabalhos. Suas referências, grande parte provindas das vanguardas, estão distantes das religiões, sobretudo de matrizes africanas. No entanto, Ogum esteve presente em seu processo de criação, e, ao aportar na Bahia, isso se tornou evidente. Bechara usa o ferro, o cobre e outros metais como pintura, se apropriando dos tons e efeitos obtidos no processo de oxidação como pigmento. Avermelhados, amarronzados, azulados e esverdeados são frequentes, inclusive nos suportes que utiliza – as lonas de caminhão. Essa presença da energia das rodovias é mais um elemento que coloca “Ogum no caminho” das obras, como um oculto coautor. O artista tem consciência do acaso em sua produção, incorporou o intangível como parte de sua práxis e poética. Uma operação alquímica, cujo desconhecido é administrado pela experiência que adquiriu e por uma operação sensitiva-científica controlada por ele. A experimentação se tornou regra, assim como o intercâmbio de saberes e fazeres. A busca por dogmas coletivos e por uma perfeição idílica deixou de ser preponderante, e o artista se sentiu livre para criar sua própria identidade. O trabalho de Bechara é um jogo de fruição infindável que retorna ao mesmo ponto que não se encontra nem no começo nem no final, e se torna cíclico na visão. O que temos diante dos olhos é mutável, uma obra viva que pulsa uma inquietação formal, presente também na personalidade do artista. A lona que cobriu é agora coberta; a oxidação se fundiu como pintura; traços e faixas que, ao mesmo tempo, delimitam e expandem o espaço planificado da tela. A possível perfeição geométrica, aparente nos grids e em outras obras da exposição, se encontra apenas na epiderme da percepção e logo se desfaz nos derretimentos orgânicos dos escorridos de tinta e nas falhas assumidas. Uma organicidade sutil presente em boa parte dos trabalhos, conformados por uma “geometria hesitante”, de quase-retas interrompidas pelo natural imperfeição do gestual humano. Existe aqui uma consciência aparente da impossibilidade de controle do resultado final, assumindo o percurso como tal. O caminho é o objetivo e não a chegada. Uma metodologia que absorve o tempo e o acaso como partes integrantes das obras. Desde a apropriação das lonas, que tiveram passados desconhecidos; até à espera das reações químicas, que dependem do clima; do sol; da chuva; da umidade; da temperatura; do tempo; de paciência; de sabedoria; de erros e acertos. A previsibilidade de um experimento é sempre relativa, e, na maioria das vezes, o descontrole precisa ser assumido. Em uma última interferência, o olho analisa o que precisa ser inserido ou apagado com o uso das tintas e cores. Além das escolhas, de materiais e reações, essa é a fase que Bechara tem o maior controle do resultado de sua ação. A obra seguirá, mesmo na parede e no espaço, se transformando pelo inexorável do tempo e das condições climáticas de onde esteja instalada. Entregue ao mundo pelo autor, vigiada pela mirada histórica da arte, e regida por Ogum, o orixá que nunca descansa. O artista também nunca descansa. Sua vida é um constante ato criativo em busca de soluções formais para resolver questões poéticas. “Um minuto e dezessete segundos”. Esse foi o menor tempo que Bechara levou entre a garagem de seu apartamento até a porta de seu ateliê, localizados em ruas vizinhas. Uma proximidade apaziguante para um artista intenso como ele, quando, no meio da noite, “encontra” o tom correto de uma cor que buscava para cobrir uma das muitas obras em que trabalha simultaneamente. “O Galaxie do amor para sempre” é sobre esse momento; de alívio; de gozo; de intensidade; de apaziguamento e entrega. De um jovem, cujos hormônios estavam explodindo, e finalmente teve sua primeira noite de amor a bordo de um Ford Galaxie, “emprestado” do pai de um amigo, no alto de um cartão postal. De um artista cuja maturidade, rigorosa e consistente, permite adicionar novas camadas ao seu próprio repertório, sem hesitar, renovando sua própria linguagem constantemente. A vida passa e “os passados” se perpetuam no presente, que é fruto do acúmulo dessas experiências vividas, como afirmou Walter Benjamin. Bom saber que Ogum sempre estará em nossos caminhos – nos protegendo, guiando e inspirando – mesmo que a gente não saiba. Ogum Yê! Patakori Ogum!”.

 

Trajetória da Pintura

Tendo no início de sua carreira uma obra predominantemente de pintura, na sua trajetória passa a desenvolver uma linguagem poética, incluindo esculturas e instalações, além dos desenhos, e realizando em algumas obras um diálogo mais direto com a arquitetura, é preciso saber de antemão que irão ver trabalhos onde a pesquisa formal é um dos fundamentos essenciais para a existência deles, tanto quanto o questionamento do espaço, do tempo, da memória, tendo como suporte na pintura a lona de caminhão, a lona usada, que através de emulsões de cobre e de ferro promovem a sua oxidação, acrescida de tintas e pigmentos, permitindo criar um trabalho de muita liberdade e de inegável beleza. A história da pintura de José Bechara, que começa figurativo, é modificada em seu percurso após um problema de saúde, ter contraído uma hepatite A, que mesmo depois de recuperado, como consequência, o impedia de trabalhar com tinta, fosse acrílica ou óleo. Neste momento é que descobre como suporte a lona de caminhão. “Num posto de gasolina, vendo um cara lavar uma lona de caminhão, paguei para que ele parasse o serviço, o que me permitia olhar e perceber a diferença, a quantidade, daquilo que mais tarde, iria chamar de “ocorrências visuais”. A parte molhada estava mais homogênea porque havia um filtro entre a luz direta e a superfície da lona, que era a água. Ela tornava a superfície mais escura e mais homogênea, diminuía o grau de contraste entre as marcas que a lona recebia de cordas e outras coisas. A lona, propriamente, adquire com o tempo uma cor cinza, chumbo, oferecendo marcas mais claras. Era como uma pintura em uma tela de 11 x 8m. Precisava pensar muito rápido, pois o cara queria continuar lavando. Novamente, como a mesa na janela, havia alguma coisa ali que não sabia o que era. Mas havia alguma coisa… Uma pintura ao contrário, que começava pelo fim”. Com uma incessante capacidade de visualidade para o espectador, ao promover o estímulo e a reação, processo que recupera em cada um de nós, que se a arte existe para conhecimento ou entretenimento, como querem alguns, ela também é tensão, conflito, questionamento, indagação e, essencialmente, pergunta. Jamais resposta. Arte é descoberta. É invenção. A criação da obra de José Bechara é um dos sinais mais evidentes de estarmos diante de todo o construir de um pensamento que se torna ação ou ações, por um fazer técnico, estético e emocional, existencial, e deles termos uma alteração de estrutura, e é isto, creio, que o coloca como um dos nomes mais consagrados pela crítica e pelo público na arte brasileira hoje.

 

Sobre o artista

José Bechara nasceu no Rio de Janeiro em 1957, onde trabalha e reside. Estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), localizada na mesma cidade. Participou da 25ª Bienal Internacional de São Paulo; 29º Panorama da Arte Brasileira; 5ª Bienal Internacional do MERCOSUL; Trienal de Arquitectura de Lisboa de 2011; 1ª Bienalsur – Buenos Aires; 7ª Bienal de Arte Internacional de Beijing; Anozero’19 – 3ª Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra; Bienalsur 2019; Museu Nacional de Riad, Arábia Saudita e das mostras “Caminhos do Contemporâneo” e “Os 90” no Paço Imperial-RJ. Realizou exposições individuais e coletivas em instituições como MAM Rio de Janeiro-BR; Culturgest-PT; Ludwig Museum (Koblenz)-DE; Instituto Figueiredo Ferraz-BR; Fundação Iberê Camargo-BR; Fundação Calouste Gulbenkian-PT; MEIAC-ES; Instituto Valenciano de Arte Moderna-ES; Fundação Biblioteca Nacional-BR; MAC Paraná-BR; MAM Bahia-BR; MAC Niterói-BR; Instituto Tomie Ohtake-BR; Museu Vale-BR; Haus der Kilturen der Welt-DE; Ludwig Forum Für Intl Kunst-DER; Museu Brasileiro da Escultura (MuBE)-BR; Gropius Bau-DE; Centro Cultural São Paulo-BR; ASU Art Museum-USA; Museo Patio Herreriano (Museo de Arte Contemporáneo Español)-ES; MARCO de Vigo-ES; Es Baluard Museu d’Art Modern i Contemporani de Palma-ES; Carpe Diem Arte e Pesquisa-PT; CAAA-PT; Musee Bozar-BE; Museu Casa das Onze Janelas-BR; Casa de Vidro/Instituto Lina Bo e P.M. Bardi-BR; Museu Oscar Niemeyer-BR; Für Intl Kunst-DER-BR; Centro de Arte Contemporáneo de Málaga (CAC Málaga) – ES; Museu Casal Solleric-ES; Fundação Eva Klabin-BR; entre outras. Possui obras integrando coleções públicas e privadas, a exemplo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro-BR; Centre Pompidou-FR; Pinacoteca do Estado de São Paulo-BR; Ludwig Museum (Koblenz)-DE; ASU Art Museum-USA; Museu Oscar Niemeyer-MON-BR; Es Baluard Museu d’Art Modern i Contemporani de Palma-ES; Universidade de Coimbra – CAPC, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra-PT; Coleção Gilberto Chateaubriand-BR; Fundação Biblioteca Nacional-BR; Coleção Ateliê de Gravura da Fundação Iberê Camargo- BR; Coleção Dulce e João Carlos Figueiredo Ferraz/Instituto Figueiredo Ferraz-BR; Coleção João Sattamini/MAC Niterói-BR; Instituto Itaú Cultural-BR; MAM Bahia-BR; MAC Paraná-BR; Culturgest-PT; Benetton Foundation-IT/CAC Málaga-ES; MOLA-USA; Ella Fontanal Cisneros-USA; Universidade Cândido Mendes-BR; MARCO de Vigo-ES; Brasilea Stiftung-CH; Fundo BGA-BR, entre outras. Sua última exposição na Bahia foi na Paulo Darzé Galeria, em 2014, e tinha por título “José Bechara: Coração, seu tempo e a persistência da razão”.

 

 

Adriana Coppio em Salvador

19/abr

 

A Alban Galeria, Salvador, BA, anuncia a exposição “Mãe da Lua” de Adriana Coppio, primeira individual da artista na galeria. Esta é também a primeira mostra da artista paulista (nascida em Taubaté, em 1978), na Bahia. “Mãe da Lua”, título que dá nome a uma das telas do conjunto, reúne cerca de 30 obras da artista, entre pinturas e desenhos, evidenciando o aprofundamento de repertório estético e temático de Adriana Coppio, ao longo de uma trajetória artística de mais de duas décadas de produção. A mostra será aberta no dia 27 de abril, permanecendo em cartaz até 27 de maio.

Parte de uma geração de artistas concentrada em São Paulo, nas décadas de 1990 e no início dos anos 2000, Adriana Coppio sempre chamou atenção para seu trabalho pelo fato de que, na contramão de seus parceiros e colegas de geração, a artista fincou seu interesse pela pintura figurativa desde o início de sua trajetória até os dias atuais, ao passo em que as questões ligadas ao cenário da arte de então pareciam pender para a pintura abstrata e, mais além, para obras conceituais, performáticas e afins.

A opção de Adriana Coppio por uma pintura figurativa, no entanto, em nada diminui a radicalidade com que a artista assume tal escolha. À primeira vista, é natural que o espectador se coloque diante de uma de suas pinturas e seja tomado por certo torpor ou desconcerto diante das paisagens, personagens e lugares criados pela artista. Desde o início de sua produção artística, Adriana Coppio nos apresenta e conduz até um Brasil – e para além dele -que nos remete o cânone de nossa pintura moderna, por exemplo.

 

Figuras híbridas

Suas paisagens e espaços (rurais e domésticos) frequentemente são habitados por figuras híbridas (entre humanos, objetos inanimados que parecem dotados de vida, como bonecas antigas e, ainda, outros seres não passíveis de classificação imediata, veloz). Se a modernidade foi responsável por nos agraciar com produções de geniais artistas como Guignard, Di Cavalcanti, Maria Martins – dentre tantos outros e outras figuras incontornáveis – Adriana Coppio traça uma implacável busca por céus de tons cáusticos, imprecisos entre habitarem a noite ou o dia. Se, lá atrás, a luminosidade dos trópicos serviu de motivo para pinturas e obras diversas de nomes variados, na obra de Adriana Coppio vemos um Brasil na via oposta da representação arquetípica e saturada com que fomos atravessados até aqui.  Nas palavras do curador José Augusto Ribeiro, que escreve um ensaio crítico que acompanha a exposição: “A começar por uma luminosidade fluorescente, artificial e quase radioativa que invade o espaço das telas, vinda detrás das figurações, intrometendo-se aos poucos, pelas frestas, entre os motivos da pintura, até chegar, às vezes sólida, chapada, ao primeiríssimo plano (…). Essa luz psicodélica que trespassa as imagens de Coppio sucede do modo como a artista prepara suas telas para a realização do trabalho, por meio de um preenchimento homogêneo do “fundo”, que sela a trama do tecido, com tinta acrílica nas cores amarelo, verde ou rosa.”

A partir das palavras de José Augusto Ribeiro, podemos destacar também o processo pictórico da artista, cujas telas são realizadas com tinta acrílica, notadamente um material menos maleável e que permite poucas (ou quase nenhuma) negociação entre o artista e sua obra, durante o ato da pintura. Pigmento de secagem veloz, a tinta acrílica aparece aqui, nas pinturas de Adriana Coppio, com impressionantes cargas de fluidez, a deslizar pela tela em pinceladas vastas, típicas de quem emprega em suas telas, ao contrário, a tinta a óleo. Tal virtuosidade chama atenção nas obras da artista, ainda que esta seja apenas um aspecto de sua singular e amplamente reconhecida produção visual.

 

Referências cinematográficas

Impressionam também suas referências que, advindas de naturezas distintas, conjugam universos diversos no plano da tela. Do cinema de David Lynch aos livros de folclore brasileiro, de sua vivência no campo desde o início de sua vida até o misticismo de obras literárias como “O Livro Vermelho”, do suíço Carl Jung, pai da psicologia analítica. Deste modo, Adriana Coppio nos convida a percorrer sua exposição como se estivéssemos a assistir a um filme, frame a frame (ou quadro a quadro), ainda que fuja da ideia de uma narrativa fechada ou hermética.

“Quando vou começar um trabalho tenho que me concentrar muito, me fechando no ateliê e acessando o que me faz querer ser artista, que é o material que engloba todo o meu repertório de interesses encontrado até hoje. Como ponto de partida, utilizo imagens oriundas de materiais que me interessam e que servem como uma ponte ou ferramenta para o que se encontra na minha mente. Podem ser fotografias variadas, da minha família, ou outras que eu mesma fiz para capturar algo que me surpreendeu e instigou em determinado momento e quis levar comigo de alguma forma, assim como emprego referências de filmes ou ilustrações de livros que me são preciosos e inspiradores, alguns desde a infância. Em suma, faço um grande quebra cabeças de imagens, passo a observá-las e investigá-las incessantemente, de modo a vê-las todas juntas e construir uma espécie de colagem mental que já é, em si, o início do processo de construção das pinturas”, afirma a artista.

 

Exibição temática no Inhotim

17/abr

 

A titulação extensa “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro”, refere-se a exposição, em cartaz na Galeria Lago, Inhotim, MG. Dividida em cinco núcleos (Novo poder: reformulando uma vanguarda; Vidas públicas; Vida e aspirações do negro; Elas Falam; e Reescrita da história: construção e afirmação da identidade), que estabelecem um diálogo com temas como questões de representação e identidade da figura do negro na sociedade de época passada, e os relaciona à produção contemporânea de artistas brasileiras e brasileiros.

A mostra traz obras de cerca de 30 artistas e coletivos: Aline Motta, Ana Elisa Gonçalves, Antonio Obá, Arjan Martins, Desali, Elian Almeida, Erica Malunguinho, Eustáquio Neves, Gustavo Nazareno, Januário Gárcia, Juliana dos Santos, Kika Carvalho, Larissa de Souza, Lita Cerqueira, Moisés Patrício, Mulambö, Nacional Trovoa, No Martins, O Bastardo, Panmela Castro, Paulo Nazareth, Pedro Neves, Peter de Brito, Rafael Bqueer, Robinho Santana, Ros4 Luz, Rosana Paulino, Sidney Amaral, Silvana Mendes, Tiago Sant’Ana, Wallace Pato, Yhuri Cruz, Zéh Palito.

Até 16 de julho.

 

7 artistas no MON

 

Vale registrar que a exposição “Carne Viva – Ambiguidade da Forma”, realizada pelo Museu Oscar Niemeyer (MON), Curitiba, PR, reuniu o trabalho de sete artistas: Washington Silvera, Hugo Mendes, Eliane Prolik, Cleverson Salvaro, Cleverson Oliveira, Cíntia Ribas e Carina Weidle. Com curadoria de Bruno Marcelino e Jhon Voese, a mostra contou com 55 obras, além de textos poéticos de Arthur do Carmo, e poderá ser vista até 16 de abril na Sala 7.

“Temos aqui um feliz encontro de gerações de artistas paranaenses que têm forte ligação com o MON”, diz a diretora-presidente do Museu Oscar Niemeyer, Juliana Vosnika. “Cada um a seu modo, estes artistas transformam a matéria e produzem uma realidade diferente do que vemos no cotidiano. Usando os mais diversos materiais – desde os mais brutos como o concreto até os mais refinados como a laca polida, ou da cerâmica vitrificada até a imbuia esculpida -, fazem com que a forma, em seu sentido mais amplo, seja seu discurso”, comenta.

Segundo os curadores, a exposição oferece a oportunidade de revisitar a expressão “natureza da arte” e retomar sua pertinência. “Em vez de classificar os trabalhos mediante suas propriedades formais, ela descreve sensibilizações e reflexões possíveis, mas que escapam às determinações corriqueiras”, dizem. “Talvez seja esse o efeito da forma ambígua, cujo ânimo também percorre as palavras de Arthur do Carmo.”

Quatro gerações de artistas estão reunidas na mostra. A proposta é aproximar o público e demonstrar na prática a potência estética e política de cada discurso, que pode ser sutil ou mais explícita, mas está presente em cada obra. O visitante percebe que a maioria dos trabalhos é tridimensional, o que evidencia a intenção de permitir um diálogo da exposição com o espaço físico do museu. A mostra ocupou quatro ambientes, além da “antessala”, onde é apresentada uma instalação sonora assinada pelos artistas Eliane Prolik e Cleverson Salvaro.

 

Charles Lessa no Instituto Ling

13/abr

 

O Instituto Ling recebe o artista visual cearense Charles Lessa para realizar uma intervenção artística em uma das paredes do centro cultural. De 10 a 14 de abril o público poderá acompanhar gratuitamente a criação da nova obra, observando as escolhas, os gestos e os movimentos do artista. Após a finalização, o trabalho ficará exposto para visitação até o dia 03 de junho, com entrada franca.

A atividade faz parte do projeto LING apresenta, que este ano conta com a curadoria de Bitu Cassundé, pesquisador e atual Gerente de Patrimônio e Memória do Centro Cultural do Cariri (Crato/CE). Após a finalização do trabalho, Lessa comentará a experiência e o resultado em bate-papo com o público e o curador no sábado, 15 de abril, às 11h, em frente à obra. Faça sua inscrição sem custo.

 

 Beiradas – a margem como centro

A ideia, ou imagem, do que entendemos sobre o Nordeste brasileiro se configura, em muito, pelo olhar do outro, pelo engessamento clichê, preconceituoso, racista, que alimenta narrativas ultrapassadas e solidifica um imaginário colonizado. Mas são muitos os “Nordestes” que se reinventam e se firmam como possibilidades de reconstrução, afinação e reorganização dessas centralidades. Pensar o centro hoje é, principalmente, subverter a ordem e observá-lo a partir das beiradas. Dentro de um mesmo território ecoam diferentes posições, contraposições e reposicionamentos; o corpo, como um agente importante dessas transformações, reorganiza diferentes paisagens por meio dos deslocamentos, das diásporas internas e do desejo. A dialética entre o Corpo e o Território também é atravessada por questões políticas, sociais e culturais, que, a partir do lugar da subjetivação, reorganizam, fabulam e ficcionalizam outras composições desse mesmo território. As beiras, as margens, as bordas, as extremidades se reconfiguram como importantes centros, que elaboram novas perspectivas sobre o Nordeste brasileiro – outras paisagens, outras maneiras de observar um mesmo ponto, de acessar as memórias, a ancestralidade e os mestres e mestras da cultura popular. Estão também na linguagem e na oralidade importantes mecanismos de ativação desses distintos territórios. A curadoria desta edição evidencia um recorte de artistas que possuem a margem como centro, seja numa perspectiva geográfica ou poética.

Bitu Cassundé

 

Sobre o curador

Bitu Cassundé nasceu em Várzea Alegre, CE, 1974. É Gerente de Patrimônio e Memória do Centro Cultural do Cariri (Crato, CE), foi curador do Museu de Arte Contemporânea do Ceará de 2013 a 2020 e coordenou o Laboratório de Artes Visuais do Porto Iracema da Artes de 2013 a 2018. Também integrou a equipe curatorial do projeto À Nordeste, no SESC 24 de Maio, em São Paulo (2019), juntamente com Clarissa Diniz e Marcelo Campos; participou da equipe curatorial do Programa Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural de São Paulo (2008 a 2010); e dirigiu o Museu Murillo La Greca, em Recife (2009 a 2011). Em 2015, participou da 5ª edição do Prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça, da equipe curatorial do 19º Festival Videobrasil e do Projeto Arte Pará. Com Clarissa Diniz, formou a coleção contemporânea do Centro Cultural Banco do Nordeste, vinculado ao projeto Metrô de Superfície. Em 2022, foi curador da exposição Antonio Bandeira: Amar se Aprende Amando, na Pinacoteca do Estado do Ceará. Suas últimas pesquisas se dedicam a investigar as relações de trânsito entre as regiões Norte e Nordeste do Brasil, com ênfase nos ciclos econômicos, nos fluxos migratórios e nas conexões entre vida, desejo e arte. Questões relacionadas à subjetividade, confissão, intimidade e biografia também integram suas pesquisas. Atualmente, desenvolve pesquisa de doutorado em Artes na UFPA e vive entre Crato e Belém.

 

Sobre o artista

Charles Lessa nasceu em Crato, CE, 1993. É artista visual licenciado pela Universidade Regional do Cariri – URCA, desenvolve trabalhos em pintura, com desdobramentos na arte urbana, e escultura. Cria ficções com a pintura figurativa, na qual investiga a estética popular em diálogo com a arte contemporânea. Participou de exposições individuais e coletivas, como Que na próxima existência se houver eu nasça girafa, no CCBNB, em Cariri (2019), e Viagem à aurora de um novo mundo, na galeria b_arco, em São Paulo (2020), e no 72º Salão de Abril, em Fortaleza (2021). Também participou de edições do Concreto – Festival Internacional de Arte Urbana e foi artista pesquisador no Laboratório de Artes Visuais do Porto Iracema das Artes em 2021. Foi indicado ao Prêmio Pipa 2022. Vive e trabalha em Crato, no Cariri (Ceará).

Esta programação é uma realização do Instituto Ling e Ministério da Cultura / Governo Federal, com patrocínio da Crown Embalagens.

 

 

Revisão histórica do Brasil

 

O Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis, será inaugurado com uma exposição que repensa a história do Brasil a partir de obras de doze artistas negros, e uma programação de música, cinema, atividades para as crianças, oficinas e um seminário.

Os curadores Marcelo Campos e Filipe Graciano reuniram aproximadamente 40 obras, que ocuparão um espaço monumental de 3.350 metros quadrados, dos artistas Aline Motta, Arjan Martins, Ayrson Heráclito, Azizi Cipriano, Cipriano, Juliana dos Santos, Lidia Lisbôa, Moisés Patrício, Nádia Taquary, Rosana Paulino, Thiago Costa e Tiago Sant’ana, das quais seis comissionadas especialmente para a exposição. A mostra busca ainda refletir sobre a cidade de Petrópolis, conhecida como “imperial”, e que tem uma forte memória negra.

O Café Concerto do Centro Cultural Sesc Quitandinha, amplo teatro com capacidade para 270 pessoas, vai sediar a programação de música e de cinema. Os curadores são todos negros. A curadoria de música é do cantor, compositor, violonista e poeta baiano Tiganá Santana. A mostra de cinema terá como curador Clementino Junior, cineasta dedicado à difusão da obra audiovisual racializada. O grupo Pretinhas Leitoras, formado pelas gêmeas Helena e Eduarda Ferreira, nascidas em 2008 no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, estará à frente das atividades infantis, que serão feitas na Biblioteca do Centro Cultural. Para ampliar a percepção do público das obras expostas, haverá oito oficinas e laboratórios, nos salões da exposição e nas Varandas. Flávio Gomes, pesquisador do pensamento social e da história do racismo, da escravidão e da história atlântica, será o curador das ações da linguagem escrita, literária e oral paralelas à exposição. Estão também sendo programadas performances com grupos artísticos da região.

No dia 15 de abril, às 19h, haverá um show de Juçara Marçal.

 

Revisões históricas no Brasil

O curador Marcelo Campos diz que passou a observar “o modo como os artistas negros lidam com o período das navegações”. “Este trauma, esta tragédia de nossa sociedade, exibidos nas documentações de maneira normalizada, com ilustrações de grilhões, correntes. Junto com os artistas, pensamos em como lidar com isso”, diz. “De que modo a arte lida com o imaginário do trauma da escravidão, da diáspora”. Ele menciona as pesquisas feitas pelo sociólogo inglês Paul Gilroy, estudioso da diáspora negra, e autor do livro “Atlântico negro” (1993), tema presente nos trabalhos, e lembra que a artista Rosana Paulino, em conjunto de trabalhos de 2016, chamou de “Atlântico vermelho”, em alusão a Gilroy, evocando a violência da escravidão e seus desdobramentos até os dias de hoje. Marcelo Campos conta que em aulas, bibliografias e várias ações, há “importantes revisões históricas no Brasil, com a inclusão de autoras e autores negros”. Enquanto nos anos 1990 os afro-americanos já “iam direto na ferida”, observa, no Brasil as iniciativas eram isoladas. As políticas públicas dos últimos 20 anos, entretanto, com as cotas para estudantes negros, “em que a UERJ foi pioneira”, e a penetração das universidades no interior do país, como Cariri e Recôncavo Baiano, propiciaram a que os negros passassem a ter acesso às diversas áreas de conhecimento. “Esta pressão obrigou a academia e os espaços de arte a se modificarem”. Dos doze artistas convidados, seis foram comissionados para criarem trabalhos especialmente para a exposição: Azizi Cypriano, Juliana dos Santos, Moisés Patrício, Pedro Cipriano, Thiago Costa e Tiago Sant’ana. O título “Um oceano para lavar as mãos” é retirado de um verso da música “Meia-noite”, composta por Chico Buarque e Edu Lobo para a peça “O Corsário do Rei” (1985), de Augusto Boal. “Este verso sempre me chamou a atenção na música. A ideia de limpar – que pode ter sentido de cura, de purificação, presente em obras como as de Ayrson Heráclito – ou de não se fazer nada a respeito”.

 

Petrópolis: Uma cartografia negra

Marcelo Campos destaca que a exposição busca também “repensar a cidade de Petrópolis”. Conhecida como cidade imperial, Petrópolis tem uma cartografia de presenças negras, tendo abrigado quilombos em várias regiões do município: Quilombo da Tapera, no Vale das Videiras – com uma comunidade quilombola reconhecida pela Fundação Palmares em 2011 – Quilombo Manoel Congo, Quilombo Maria Comprida, Quilombo da Vargem Grande, e, de acordo com pesquisadores, também no local onde em 1884 foi construído o Palácio de Cristal, no Centro.

Filipe Graciano, arquiteto e urbanista, idealizador do Museu de Memória Negra de Petrópolis, e coordenador de Promoção da Igualdade Racial do Município, conta que a expografia vai salientar a ideia de encontros contida nos múltiplos significados que a palavra oceano traz. “Independentemente de nossa história de apagamento, nosso país se revigora com a presença negra. Além do trauma e da tragédia impostos aos negros, o oceano traz uma perspectiva de encontro, de afeto, cura, cuidado e resiliência”, explica. “As obras dos artistas refletem este encontro de várias culturas, a diversidade cultural da África, na criação dessa memória que atravessa a vida como ela é”. Para ele, a exposição “revisita este apagamento, esses riscados que repensam e refazem essa memória, essa presença”. “A monumentalidade do espaço do Centro Cultural Sesc Quitandinha vai ao encontro da monumentalidade da existência negra no Brasil”, observa. Graciano assinala a importância do olhar curatorial negro, com artistas negros, para contar “outra história, que não a única no Brasil”. “A potencialidade das mãos, de lavar a história”. “A exposição é quase um ato de reparação histórica”, afirma, observando que o trabalho educativo dará uma contribuição para “repensar a memória da cidade”.

 

A obra de Athos Bulcão no Farol Santander

11/abr

Considerado como um artista completo, o Farol Santander exibe pela primeira vez em Porto Alegre, RS, obras de Athos Bulcão. Seus trabalhos percorrem áreas múltiplas como o desenho, pintura, painéis, design de superfície, murais, vestimentas e paramentos litúrgicos. Sua grande marca é a integração da arte na Arquitetura, como os muros escultóricos do Congresso Nacional e também do Hospital Sarah Kubitschek.

A exposição Athos Bulcão traz um recorte de sua extensa obra. Mais de 160 obras podem ser visitadas no mezanino do prédio e também na área externa, resultando uma ampla imersão e rica experiência para o público. O conjunto destaca pinturas, projetos e desenhos, peças gráficas, painéis de azulejos, fotomontagens, máscaras e objetos do período de 1940 a 2000. Três jogos de diferentes padrões de azulejos, estão em uma das salas do mezanino, e permitem que o público tenha a experiência de criar sua própria obra de arte. Na área externa, dois cubos com fachadas de azulejos de diferentes cidades do Brasil e do exterior, convidam o público para conhecer o trabalho de Athos no interior do Farol Santander indo ao encontro que dizia o próprio artista, “a arte existe para impactar, para provocar as pessoas”. O legado doado pelo artista está preservado na Fundação Athos Bulcão, em Brasília. Este acervo inclui as criações de ateliê – desenho, pintura, gravura, fotomontagem, objetos, o trabalho gráfico em jornais, revistas, livros e capas de discos. Athos Bulcão se destacou em seu diálogo direto com a Arquitetura, porém, sua obra vai muito além.

A curadoria da exposição Athos Bulcão é de Marília Panitz e André Severo e a produção é de Daiana Castilho Dias, presidenta do IPAC- Instituto de Pesquisa e Promoção da Arte e Cultura.

 

Sobre o artista

Nascido no bairro carioca do Catete em 1918, Athos Bulcão seguiu o roteiro obrigatório daquela época para jovens ricos ou de classe média, estudar Medicina, Engenharia ou Direito. No seu caso, ficou com a primeira opção, mas abandonou o curso em 1939 para se dedicar à arte. Em 1948 recebeu uma bolsa de estudos do Governo Francês e foi estudar em Paris. Retornou ao Brasil em 1949, e em 1952 foi admitido no serviço de documentação do Ministério da Educação e Cultura, e mais tarde passou a colaborar em projetos do arquiteto Oscar Niemeyer, com quem fez parceria nas obras de construção de Brasília e também com o premiado arquiteto João Filgueiras Lima. Em 2018, uma grande exposição em Brasília foi organizada para marcar os 100 anos do artista, que teve a capital da República como o principal cenário de suas obras monumentais. O artista faleceu aos 90 anos, vítima do Mal de Parkinson, em Brasília, DF, em 2008.

Exposição no Recife

06/abr

 

O artista Bruno Fish inaugurou sua primeira exposição individual, no Museu Murillo La Greca, Parnamirim, Recife, PE. A mostra, que fica em cartaz até o dia 02 de junho, se chama “Cerâmicatomicamente” e apresenta 28 obras, entre esculturas e pinturas, criadas nos últimos 6 anos. São 14 quadros e 14 peças em cerâmica que, de acordo com a produção do evento, carregam influências surrealistas e regionais do artista. Nas obras, são retratados peixes, lobos, primatas, com cores vibrantes e uma fusão com a forma e os hábitos humanos.

O nome da exposição, “Cerâmicatomicamente”, faz referência ao processo que a cerâmica passa quando submetida à alta temperatura e também ao alcance sem fronteiras da mente. A curadoria é de Felipe Campelo.

 

 

Paulo Monteiro no Instituto Ling

 

A mostra “Paulo Monteiro: Linha do Corpo” fica em cartaz no Instituto Ling, Porto Alegre, RS, até 17 de junho, com visitas livres de segunda a sábado e a possibilidade de visitas com mediação para grupos, mediante agendamento prévio e sem custo pelo site. O público poderá conferir ao todo 67 obras, criadas de 1990 até 2022. Esta programação é uma realização do Instituto Ling e Ministério da Cultura / Governo Federal, com patrocínio da Crown Embalagens.

 

Paulo Monteiro: Linha do Corpo

Esta exposição traz trabalhos de um segmento decisivo na obra de Paulo Monteiro, subsequente a um período de imersão na pintura, no sentido extremo do Expressionismo Abstrato e da Transvanguarda a que aderiu nos anos 1980-90 com o grupo Casa 7, que agitou essas décadas. Já então, a afinidade com as “caricaturas pictóricas” de Philip Guston e sua produção de quadrinhos denunciava a paixão pelo traço. Esta série de desenhos em grafite, os guaches, as peças de parede, as esculturas e as “pinturinhas” recentes assinalam um deslocamento, partindo daquela urgência e excesso expressivo para uma meditação gráfica: um recuo abrupto ao silêncio da linha. O desenho, em sua nudez de efeitos, é aqui o meio para refazer uma gênese, uma decantação da forma como grafia do movimento. Um traço incerto, que ora desliza, ora resiste expondo rebarbas da fricção com o papel. Um passo aquém para ganhar distância, meditar aquele fazer, autenticá-lo. O empasto anterior se torna rarefeito; a efusão converte-se em absorção, a ponto de se reduzir a elementaridades. O papel branco e o grafite preto que o sulca; a massa de argila (depois fundida em metal) que se erige num breve movimento (achatar, cortar e torcer): um mesmo pequeno gesto. A arte torna-se sua reflexividade; desenho mental, percurso errático do desejo. Dobra-se sobre si mesma, abstrai, duplica-se e sonha outros espaços. Instável, volta a desmoronar na massa amorfa. Mas o traço deve conter-se, descolar dos contornos, abstrair para avançar no espaço e, então, aventurar-se. Foi preciso despir-se de toda “coloração”, concentrar-se no gesto elementar, para, enfim, acessar esse núcleo poético que, desde então, perpassa toda a obra. Uma tensão limite entre a mobilidade e a leveza da linha e o peso das massas escultóricas, que nunca se consolida em “boa forma”, mas se articula numa ambiguidade pulsante, esculpindo corpos nas superfícies.

 

Virginia H. A. Aita

 

Sobre o artista

Conhecido como um dos nomes expoentes da geração surgida nos anos 80 no Brasil e tendo participado do notório grupo Casa 7, Paulo Monteiro desenvolveu ao longo das últimas décadas um extenso, coeso e vibrante corpo de trabalho, marcado por uma vontade profundamente particular, mas cuja capacidade de articulação aspira à linguagem universal. Suas pinturas e esculturas atravessam as influências recolhidas da transição do expressionismo abstrato para o neoexpressionismo e do minimalismo para elaborar estados de espírito e situações radicais em suas manifestações mais espontâneas. Baseado na síntese, o núcleo de sua pesquisa se encontra na natureza da conformação da matéria, que se estica em linhas, esparrama-se em marcas gráficas, demarca relevos, cortes, torções, dobras e desmanches, sempre em exercícios marcados pela combinação de delicadeza e rigidez.

A simplicidade de seus gestos não reduz o disparo de múltiplas experiências. Muito pelo contrário, aponta para uma ambiguidade, tão determinada quanto bem-humorada. Sua obra pode ser encarada a partir de aspectos do pensamento metafísico, mas também em diálogo com noções de coreografia e dança, ventilando questões a respeito do deslocamento, das medidas de distância e dos limites que delineiam o que entendemos como dentro e o que especulamos como fora. São manifestações que lidam, sobretudo, com o estado contínuo de transformação das coisas; e com a consciência que nos permite manter-nos sempre abertos para a chegada de novas imaginações. Seu trabalho integra inúmeras coleções permanentes, incluindo: MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo), Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAC-SP (Museu de Arte Contemporânea de São Paulo), MAM-RJ (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) e Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

 

Sobre a curadoria

Virgina H. A. Aita, possui breve incursão pelas artes nos anos 1990 e mestrado e doutorado em Filosofia, especializou-se em filosofia moderna, estéticas anglo-americanas e Arthur C. Danto. Estudou Filosofia e História da Arte na Universidade de Columbia (Barnard College, NY), onde realizou seu pós-doutorado em Estética entre 2015 e 2016, e participou de cursos temporários na School of Visual Arts. Lecionou na UFRGS, na UFBA, na Casa do Saber (SP) e no Instituto Ling. Atuou como curadora na Fundação Iberê Camargo e em projetos independentes, produzindo textos na área de filosofia e crítica de arte. Recentemente coorganizou o IV Seminário Estética e Crítica de arte da FFLCH-USP (“Sentidos na Asfixia”), onde faz pós-doutorado e integra grupos de pesquisa em estética.