Fotos de Miguel Rio Branco

17/jul

A exposição de fotografias da série “Maciel”, um dos cartazes atuais do MASP, Paulista, São Paulo, SP, reúne 61 imagens produzidas em 1979 por Miguel Rio Branco na área de prostituição de mesmo nome, no Pelourinho, em Salvador, BA. Esta é a maior apresentação da série, com uma seleção inédita feita para a mostra.

 

“Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno” é a frase que Rio Branco captou de uma parede no interior de uma casa no bairro do Maciel. A sentença de tom profético oferece uma chave de entendimento para o universo dessa região do Pelourinho, abandonada por décadas pelo poder público e conhecida por ser local de prostituição e criminalidade mas também lugar de moradia das populações marginalizadas. Por meses, Rio Branco frequentou o Maciel e estabeleceu um vínculo de afinidade e afeição com seus retratados - como fez Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) nos bordéis parisienses no final do século 19 que ele representou. A princípio, Rio Branco fez um pacto com seus retratados de que as imagens não seriam exibidas em Salvador, o que lhe garantiu uma relação próxima e franca, possibilitando que a atitude altiva e resoluta dos personagens ganhe protagonismo e poder nas imagens.

 

A exposição foi organizada em quatro paredes, e cada uma delas enfatiza determinados aspectos da obra de Miguel Rio Branco. Na primeira, temos a fotografia que captura a frase-título da mostra, além de diversas cenas de rua em que o estado de deterioração dos edifícios dialoga com o uso que os habitantes deram a eles. Na segunda parede, o sexo se torna mais presente, em retratos e cenas de nudez que adentram os interiores. Na terceira, observamos imagens feitas de dentro para fora ou de fora para dentro dos bares, das casas e de prostíbulos. O interior volta a dominar as fotografias da quarta parede da exposição registrando complexas montagens feitas com imagens de revista no interior da zona, estabelecendo relações entre as fotografadas e outras representações do sexo e da mulher.

 

A exposição das fotografias de Miguel Rio Branco faz parte do eixo de programação do MASP com mostras em torno dos temas da sexualidade e do gênero, e dialoga diretamente com a exposição “Toulouse-Lautrec em vermelho”, localizada na galeria do primeiro andar do museu, e “Tracey Moffatt: Montagens”, que se encontra na sala de vídeo do segundo subsolo.

 

O MoMA, de Nova York, acaba de incluir em sua coleção 35 fotografias de Miguel Rio Branco, espanhol radicado no Brasil. É a primeira aquisição de suas obras pelo museu. A série, em preto e branco, retrata cenas do subúrbio de Nova York nos anos 1970 – o artista viveu por dois anos na cidade, dividindo apartamento com Hélio Oiticica.

 

 

 

Até 01 de outubro.

Hélio Oiticica no Whitney, NY

13/jul

 

 

O Whitney Museum of American Art, NY, apresenta “Hélio Oiticica: To Organize Delirium”, a primeira retrospectiva americana em grande escala exibindo duas décadas do trabalho do artista brasileiro. Um dos artistas mais originais do século XX, Oiticica (1937-1980) criou uma arte que nos desperta para nossos corpos, nossos sentidos, nossos sentimentos sobre estar no mundo: arte que nos desafia a assumir um papel mais ativo. A partir de investigações geométricas em pintura e desenho, Oiticica logo mudou para escultura, instalações arquitetônicas, escritas, filmes e ambientes em larga escala de natureza cada vez mais imersiva, obras que transformaram o espectador de um simples espectador em um participante ativo.

 

A exposição inclui algumas de suas instalações em grande escala, incluindo “Tropicalia” e “Eden”, e examina o envolvimento do artista com música e literatura, bem como sua resposta à política e ao ambiente social de seu país. A exposição capta a emoção, a complexidade e a natureza ativista da arte de Oiticica, enfocando em particular o período decisivo que passou em Nova York na década de 1970, onde foi estimulado pelas cenas de arte, música, poesia e teatro. Enquanto Oiticica se engajou em primeiro lugar com muitos artistas da cidade, ele acabou vivendo um isolamento auto-imposto antes de retornar ao Brasil. O artista morreu no Rio de Janeiro, em 1980, aos 42 anos.

 

 

A Tropicália

 

O estilo musical da “Tropicália”, que toma o nome da instalação homónima 1966/67 de Helio Oiticica, tornou-se um movimento artístico e sociocultural no Brasil. Após o golpe militar em 1964, a música popular desempenhou um papel fundamental na resistência estética e cultural ao clima político instalado. A música continuou a desempenhar um papel importante no trabalho de Oiticica em seus anos de Nova York, onde assistiu a concertos de rock no Fillmore East. A exposição apresenta uma lista de reproduções de músicas inspiradas por compositores e músicos do período de vigência da “Tropicália”, como Caetano Veloso e GiIberto Gil, além dos músicos do rock and roll em especial Jimi Hendrix, de quem Oiticica se inspirou na década de 1970.

 

 

Apoios e curadoria

 

Esta exposição foi organizada pelo Whitney Museum of American Art, Nova York; Carnegie Museum of Art, Pittsburgh e o Art Institute of Chicago. “Hélio Oiticica: Organizar Delirium” tem curadoria de Lynn Zelevansky; Henry J. Heinz II; Carnegie Museum of Art; Elisabeth Sussman, curadora e curadora de fotografia de Sondra Gilman; Whitney Museum of American Art; James Rondeau, presidente e diretor de Eloise W. Martin; Art Institute of Chicago; Donna De Salvo, diretora adjunta de Iniciativas Internacionais e Curadora Sênior, Whitney Museum of American Art; com Katherine Brodbeck, curadora associada, Carnegie Museum of Art. O apoio à turnê nacional desta exposição é fornecido pela Fundação Andy Warhol para as Artes Visuais e o National Endowment for the Arts. Apoiado em Nova York, pelo Comitê Nacional do Whitney Museum of American Art. Conta ainda com o apoio generoso fornecido pela Art & Art Collection, Tony Bechara; a Garcia Family Foundation e a Juliet Lea Hillman Simonds Foundation. O suporte adicional é fornecido pela Evelyn Toll Family Foundation. O Fundo de Exposição da Fundação Keith Haring também oferece apoio genérico de doações.

 

 

Até 01 de outubro.

Por Oskar Metsavaht

04/jul

O Museu da Imagem e do Som, Jardim Europa, São Paulo, SP recebe a instalação multimídia “Soundtrack por Oskar Metsavaht. Em um singular projeto, o artista plástico Oskar Metsavaht assumiu o olhar do personagem Cris, vivido por Selton Mello, e traz para a realidade o projeto final de Cris que teria ficado no universo cinematográfico. A mostra faz um percurso estreito e cada imagem é exibida junto a um headphone, onde é possível ouvir exatamente o que o personagem do longa, um artista e fotógrafo, ouvia no momento de seus próprios retratos.

 

“Nesta mostra, o artista Oskar Metsavaht nos dá a sua experiência de despersonalização. Cris é ele. Ele é Cris. Esta exposição é exatamente a que o personagem Cris teria feito no filme”, explica Marc Pottier, curador da mostra. “Soundtrack é uma instalação, um caminho labiríntico íntimo, pontilhado com uma série de autorretratos em pequenos formatos e fones de ouvido que convidam o público a mergulhar no mundo de Cris”, completa.

 

Na trama, Cris (Selton Mello) mergulha num projeto de autorretratos e captação de sons numa fictícia estação polar de pesquisas. O lugar inóspito e o estado emocional do personagem transbordam para as imagens conforme Cris ouve as músicas que selecionou para cada shooting. O trailer do filme está exibido em looping na montagem e a estreia nos cinemas, marcada para 06 de julho.

 

 

Sobre o artista

 

Oskar Metsavaht é uma personalidade essencialmente criativa. Natural de Caxias do Sul, RS, filho de pai médico e mãe professora de Filosofia e História da arte, ao longo da vida tratou de mesclar um pouco das duas heranças. Médico de formação, sempre manteve o hábito da fotografia. O lado estilista e diretor de arte nasceu quando fundou a Osklen e a colocou no mapa das maiores marcas de moda do país e de reconhecimento internacional.

 

Designer autodidata, Oskar Metsavaht usa a fotografia para registrar tudo aquilo que o inspira para seus projetos. O exercício com as imagens impulsionou o progresso do seu trabalho artístico individual e aflorou uma profissionalização que não tardou.

 

Oskar realizou sua primeira exposição individual, intitulada “Ipanema”, durante a Miami Art Basel, apresentado por Sue Hostetler e Vik Muniz em 2011. De lá pra cá, diversas exposições coletivas e individuais encorpam sua biografia artística que passam por instituições e eventos como a exposição coletiva “Madeby…Feito por Brasileiros”, no Cidade Matarazzo em São Paulo; na “Ocupação Mauá”, durante a ArtRio; no Arte Clube Jacarandá na Miami Art Basel; com individual no Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro; dentre outras. Duas de suas obras, uma pintura e uma videoinstalação, foram selecionadas para fazer parte das coleções do MAR (Museu de Arte do Rio) e do Museu Histórico da Cidade.

 

Exposição / Cinema

 

De 21 de junho a 16 de julho.

Relações de afeto

30/jun


Será inaugurada no dia 08 de Julho, sábado, às 18 horas, a exposição “AFÉTO”, de Roger Cipó, curadoria de Marco Antonio Teobaldo, na Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea, Rua Pedro Ernesto, 32, Gamboa, Rio de Janeiro, RJ. Em sua primeira exposição individual, o fotógrafo volta toda a sua atenção para as relações de afeto constituídas dentro dos terreiros de Candomblé, a partir de sua experiência como iniciado na religião.

 

Depois de percorrer dezenas de terreiros no estado de São Paulo, Cipó foca sua pesquisa no Asè Iya G’unté, localizado em Juquitiba, onde percorreu pelas rotinas mais comuns de seus adeptos, até às mais complexas. As imagens reveladas apresentam a interação dos fiéis entre si, como uma família ao redor de suas obrigações, e, durante as cerimônias, quando os orixás manifestam seu afeto por meio de seus sacerdotes.

 

De acordo com o artista, mais que um registro documental sobre um aspecto específico do Candomblé, o trabalho reitera a importância das relações interpessoais como forma de resistência da cultura afro-brasileira. O resultado da mostra se amplifica quando exibida sobre o sítio arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos, dentro da programação do festival de fotografia FotoRio.

 

A Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea tem acolhido dentro de sua programação, diversas temáticas de exposições de artes visuais, realizadas por artistas do Rio de Janeiro e de outras localidades. A partir de pesquisa realizada pelo curador do espaço, Marco Antonio Teobaldo, os artistas convidados apresentam livremente suas propostas, tendo como ponto de partida as suas percepções acerca do ambiente expositivo e a importante história que ele abriga. Esta experiência tem superado expectativas e trazido excelentes resultados, que se refletem na crescente visitação que o espaço vem recebendo, desde a sua inauguração e o Prêmio Ações Locais, concedido pela prefeitura.

 

A coordenação geral é de Merced Guimarães dos Anjos. A exposição é uma produção da Quimera Empreendimentos Culturais, impressão do Estúdio Print em paraceria com a FotoRio. Uma realização do IPN.

 

 

De 11 de julho a 02 de setembro.

No Instituto Tomie Ohtake

21/jun

A mostra inédita, organizada e realizada pelo Instituto Tomie Ohtake, Pinheiros, São Paulo, SP, sob a curadoria de Paulo Herkenhoff, coloca em destaque a produção e a trajetória de diversas mulheres que desafiaram convenções e limites de suas épocas, nos séculos XIX e XX no Brasil, seja no campo estético ou social. “Invenções da Mulher Moderna, Para Além de Anita e Tarsila” é o resultado de uma extensa pesquisa que o curador Paulo Herkenhoff desenvolve há décadas, alimentada pela contínua reflexão sobre a obra de diversas mulheres artistas brasileiras. Esta mostra, portanto, desdobra o já conhecido comprometimento de Herkenhoff com o registro histórico da produção feminina e com a reflexão teórica sobre suas invenções.

 

Para a exposição, com cerca de 300 obras, além de fotos e documentos, o curador toma como referência dois pilares do modernismo no Brasil, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, e apresenta novos apontamentos sobre suas obras e histórias. Em torno dessas referências, a maior parte das obras e das narrativas presentes na exposição vai mais longe, e apresenta mulheres que são em sua maioria desconhecidas do grande público.

 

Entre mostra e catálogo, o curador não pretende organizar um dicionário/glossário de nomes e imagens, muito menos construir uma grande narrativa completa e acabada, mas situar de maneira historiográfica e crítica diversas personagens que complementam e transformam a história da cultura e da arte no país.

 

Assim, ao invés de uma narrativa linear, a mostra elege diversos núcleos, que se distribuem como uma rede ou uma constelação. Núcleos heterogêneos são estabelecidos e dão visibilidade a questões e temas relevantes, que abrangem tanto dados históricos e factuais quanto tentam evidenciar a subjetividade das artistas escolhidas. As invenções, como sugere o título, dizem respeito às criações dessas mulheres e também à construção da imagem da mulher que foi sendo aberta e lapidada ao longo dos séculos XIX e XX. Além de seu pioneirismo, essas personagens têm em comum o enfrentamento de tensões e conflitos de diversas ordens.

 

Em “Mulheres de Vassouras” – trocadilho entre as mulheres e a cidade carioca que foi polo do café do século XIX e de revoltas de escravos – estão: retratada em pintura anônima, Eufrásia Teixeira Leite (1850 – 1930), intelectual que se relacionava com Joaquim Nabuco e se notabilizou por libertar seus escravos e por seus atos de filantropia; registros da prisão, oriundos do Arquivo Nacional, de Mariana Crioula, negra, casada com o quilombola Manoel Congo e que, ao seu lado, participou da maior fuga de escravos ocorrida em 1838; e obra de Abigail de Andrade (1864 – 1890, França) que, segundo o curador, foi uma das primeiras a executar no Brasil as chamadas pinturas de gênero, pautadas nas cenas cotidiana de interiores doméstico.

 

Para pensar as “Mulheres do Século XIX”, Paulo Herkenhoff se vale da ideia do “muxarabi”. O elemento da arquitetura que lembra uma grade de madeira, de origem árabe, permite entrada da luz, se pode ver de dentro para fora, mas não de fora para dentro. Essa posição representa o lugar protegido e reservado que era designado à mulher e foi, gradualmente, superado conforme mulheres decidiam abandonar tal “mediação” ao pintar e registrar a cidade, encarando e sendo encaradas de volta. No século XIX houve cerca de 50 mulheres conhecidas como pintoras e a exposição reunirá cerca de 15 delas.

 

Já o núcleo “Modernas antes do Modernismo” elenca nomes de artistas que marcaram a época e o local em que viveram, por estarem desvinculadas dos princípios da arte acadêmica, porém não integrando o modernismo organizado como vanguarda no país no começo do século XX. É o caso da espanhola, que chegou ao Brasil nos anos de 1890, Maria Pardos em Juiz de Fora, Minas Gerais, uma pintora da intimidade e do mundo privado e que ganhou diversos prêmios em salões. Outra artista pertencente a este grupo é Nair de Teffé (1886 – 1981, RJ) que, segundo o curador, foi a primeira caricaturista mulher de quem se tem notícia em escala mundial.

 

O segmento dedicado à “Fotografia” evoca a atuação da mulher no século XIX, como a chegada, em 1842, de cinco daguerreotipistas no Rio de Janeiro, dentre eles, uma mulher. A mostra traz a figura que modificou os parâmetros da fotografia no século XIX, Fanny Volk, alemã radicada em Curitiba no ano de 1881. Com interesse voltado ao social, uma de suas pesquisas constava de fotografar o trabalho masculino ao ar livre. Já entre as presenças no início do século XX o curador ressalta as fotografias de Hermínia Nogueira Borges (1894, RJ – 1989, RJ), fundadora do Foto Clube Brasileiro, no Rio de Janeiro, e as cerca de 10 mulheres que dirigiram estúdios, a primeira em 1908, no Estado de São Paulo, e em 1910, na capital. As lentes estrangeiras que chegam ao Brasil no século XIX também são investigadas pelo curador que, no caso, envolve mulheres e homens com olhares não modernista, pois se afastavam de questões nacionalistas e preocupavam-se com a subjetividade e os registros sociais.

 

Um dos pilares da mostra, Anita Malfatti (1889 – 1964, SP), além de pinturas, comparece acompanhada de uma análise crítica do texto “Paranoia ou mistificação?” (1917), de Monteiro Lobato. Para dissecar o texto de Lobato, que ficou célebre pelo impacto que teve na percepção da trajetória da artista, Paulo Herkenhoff   baseia-se no código civil da época. Lobato era Procurador do Estado e os termos de seu artigo refletiam o pensamento retrógrado que tratava a mulher como cidadão minoritário, parcialmente incapaz de tomar decisões. Já sobre Tarsila do Amaral (1886 – 1973, SP), além de uma série de pinturas, a exposição apresenta desenho/estudo do Abaporu (obra de 1928).

 

Em “Escultoras” há obras a partir da primeira metade do século XX, concebidas por artistas como: Nicolina Vaz de Assis (1874, SP- 1941, RJ), que na cidade de São Paulo tem uma de suas mais conhecidas esculturas, a Fonte Monumental na Praça Julio de Mesquita (1927), participa com algumas de suas peças em bronze e um retrato seu pintado por Eliseu Visconti; Zelia Salgado (1904, SP – 2009, RJ), que foi professora da Lygia Pape, ganhará destaque a partir de alguns momentos de sua obra, como o que faz referência à “Unidade tripartida”, de Max Bill; e Adriana Janacopoulos (1897, RJ), reconhecida por conceber monumentos, cabeças e bustos, tem um de seus trabalhos representado.

 

Maria Martins (1894, MG – 1973, RJ) é um núcleo em si. A curadoria evidencia a ousadia de sua produção ao abordar diretamente o desejo como centro poético de sua obra e a cópula como tema direto de algumas. A abordagem do trabalho enfatiza o contraste dessa atitude com o pudor vigente no Brasil naquele período.

 

Já para Lygia Clark (1920, MG – 1988, RJ), a mostra constrói um percurso pelas noções poéticas fundamentais de sua obra, com leitura e análise de conceitos como o de “espaço modulado”, enquanto Lygia Pape (1927 – 2004, RJ) é apresentada por meio de alguns de seus vídeos, como “Eat me” (1975) e “Divisor” (1967). Tomie Ohtake (1913, Kioto, Japão – 2015, SP) é aproximada da pintura de Alina Okinaka (1920, Hokkaido Japão – 1991, SP), formando o núcleo “Mulheres Japonesas”, que traz questões sobre o silêncio, a fala e a escrita, análogas à obra de Mira Schendel que acrescenta, ao silêncio e à fonética, o indivisível.

 

Por fim, produções pouco conhecidas pelo grande público, por partirem de personagens que não vêm do eixo Rio-São Paulo compõem “As Amazonas”, com Julieta de França (1872 – 1951, PA) e Antonieta Santos Feio (1897 – 1980, PA), ambas de Belém e com estudos em arte na França e Itália.  Julieta de França aproximou-se do Art Nouveau e expôs junto de Rodin, na França. Foi uma das primeiras mulheres a enfrentar o regime acadêmico e disputar os espaços com os homens artistas, sendo duramente criticada por isso. Antonieta Santos Feio usou seu olhar atento para representar figuras e personagens locais e seus costumes. Em um primeiro momento suas obras dedicam-se à figura da mulher engajada no trabalho e na religião e depois passa a mostrar a extração da borracha, universo majoritariamente masculino.

 

 

Até 20 de agosto.

Steve Jobs, o visionário

20/jun

Homem que impactou o mundo com sua personalidade e capacidade de inovação, Steve Jobs é o tema da exposição “Steve Jobs, o visionário” no Museu da Imagem e do Som, Jardim Europa, São Paulo, SP. Uma realização da agência ítalo-brasileira Fullbrand, co-realizada pelo MIS. Na exposição, o público terá acesso ao rico universo de Steve Jobs. São 209 itens entre fotos, filmes, reportagens e produtos históricos que mostram a forma como pensava e criava uma das maiores personalidades do século XX.

 

Em “Steve Jobs, o visionário”, há um percurso estruturado por células narrativas – Espiritualidade, Inovação, Competição, Fracasso, Negócios e Sonho – concebido pelo escritório Migliore + Servetto Architects – traz uma experiência rica e profunda do universo de Jobs. O público tem acesso a centenas de pequenas e grandes inovações criadas por Jobs. Entre elas a peça mais rara da exposição: o Apple 1, fabricado em 1976, que foi adquirido em um leilão da Christie’s por U$ 213,6 mil, em novembro de 2010, por Marco Boglione, idealizador da exposição. Hoje, o computador já triplicou de valor. Outro destaque nesse tema é o Lisa, que, lançado em 1983, foi o primeiro computador pessoal a ter um mouse e uma interface gráfica – mas foi considerado como um dos maiores fracassos da Apple.

 

Os visitantes também têm acesso a uma sala dedicada às imagens inéditas de Jobs em sua vida cotidiana feitas por Jean Pigozzi, francês radicado em Nova York, fotógrafo de confiança do inventor.

 

A inspiração para a exposição surgiu a partir de uma mostra sobre o criador da Apple realizada na Itália, porém, o formato implantado no Brasil é totalmente original. Antes de São Paulo, a exposição passou pelo Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz no Píer Mauá. Com apresentação do Ministério da Cultura e Bradesco, “Steve Jobs, o visionário” conta ainda com patrocínio da Cielo e apoio da Superga.

 

 

 

Sobre Steve Jobs

 

Nascido em 1955 em São Francisco, no Estado da Califórnia, EUA, Steve Jobs foi dado para adoção pelos seus pais, que não tinham condição de criá-lo. Desde jovem demonstrou interesse e habilidade para inovar e, em 1976, fundou a Apple, empresa consagrada seguidas vezes como a mais valiosa do mundo. Jobs revolucionou o universo da tecnologia ao lançar produtos como o Macintosh, o iPod, o iPhone e o iPad. Em 1984, demitiu-se da Apple e fundou a NeXT, companhia especializada em desenvolvimento de softwares. Anos mais tarde, em 1996, a Apple comprou a NeXT e Jobs assumiu o cargo de CEO da gigante da tecnologia, onde permaneceu até 2011, quando renunciou ao cargo em função de um câncer. Morreu ainda em 2011, aos 56 anos, em decorrência da doença.

 

 

Até 20 de agosto.

Gautherot no Paço

A exposição “Marcel Gautherot – Brasil: tradição, invenção” é a maior mostra das obras do fotógrafo francês já exibida no Brasil. Com curadoria de Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, e Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS. A exposição está em cartaz no Paço Imperial, Centro, Rio de Janeiro, RJ. A mostra revela a profundidade com que Marcel Gautherot documentou as especificidades geográficas e culturais brasileiras.

 

As fotografias fazem parte do acervo do IMS e a realização da exposição é uma parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Centro Cultural Paço Imperial. A exposição apresenta mais de 300 imagens, representativas da diversidade temática e da qualidade estética desenvolvida por Marcel Gautherot ao longo de sua carreira no Brasil.

 

A atividade integra as comemorações dos 80 anos de criação do Iphan e da institucionalização da política de proteção do patrimônio cultural brasileiro.

 

 

Até 20 de agosto.

Na Bienal das Américas

14/jun

O fotógrafo Guy Veloso é o convidado brasileiro para participar da próxima edição da Bienal das Américas (Biennial of the Americas), importante evento de arte realizado em Denver, Colorado, Estados Unidos.

 

Trata-se de um formato diferente das bienais mais conhecidas, composto de diversas exposições individuais que são apresentadas ao longo ano. Guy Veloso levará ao público americano seu ensaio “Penitentes”, – exibido anteriormente na 29ª Bienal Internacional de São Paulo -, no qual pesquisou, durante dezesseis anos, grupos religiosos laicos que praticam o pouquíssimo estudado ritual da “Encomendação das Almas”.

 

Segundo a curadora do Museu das Américas, Maruca Salazar, “…as imagens captam um momento no tempo em que a fé, a consciência e o corpo se tornam um”. A mostra “Penitentes” será aberta ao público no dia 22 de junho e ficará por dois meses no Museu das Américas.

 

 

 

Sobre o artista

 

Guy Veloso é fotógrafo desde 1989. Sua obra faz parte do acervo de várias instituições espalhadas pelo mundo como “Essex Collection of Art from Latin America” pertencente à Universidade de Essex, Centro Português de Fotografia no Porto, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna de São Paulo e também o Museu de Arte de São Paulo (Coleção Pireli). A partir de 1998 começou um projeto de documentação de romeiros no sertão do Nordeste “Entre a Fé e a Febre: Retratos”, já em 2012 se interessa e inicia pesquisa acerca de grupos penitentes do país, no qual mantem trabalho paralelo até hoje.

 

 

 

 

Festa brasileira

O Centro SEBRAE de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), Praça Tiradentes, Centro, Rio de Janeiro, RJ, inaugura no próximo dia 20 de junho, a exposição “Festa Brasileira: Fantasia Feita à Mão”, com curadoria de Raul Lody e Leonel Kaz, e concepção visual de Jair de Souza. A mostra ocupará todo o primeiro andar do CRAB, em nove ambientes distintos que irão envolver o público em toda a magia, força criativa e inventividade popular na criação de objetos, adereços, máscaras, vestimentas e instrumentos musicais para as grandes festas brasileiras. As peças reunidas pelos curadores, com apoio do SEBRAE junto a associações de artesãos, foram produzidas especialmente para celebrações populares como a Congada, em Minas Gerais, as Cavalhadas, no Centro-Oeste, as Folias de Reis fluminenses, os Reisados, em Alagoas, o Maracatu Rural, em Pernambuco, o Bumba Meu Boi, no Maranhão, o Boi de Mamão, em Santa Catarina, o Carnaval, em várias partes do país, festejos rituais indígenas da região amazônica, entre outras manifestações.  Os curadores selecionaram ainda importantes conjuntos de pequenas esculturas de arte popular, que representam festas brasileiras, pertencentes a duas das mais respeitadas coleções privadas deste segmento: a de João Maurício Araújo Pinho e Irapoan Cavalcanti de Lyra.

 

Os curadores explicam que dois princípios percorrem a exposição: “o da festa e o da mão que a inventa”. “Por trás da exuberância visual das festas, de seus sons, ritmos e cores, estão as mãos do artesão”, observam. “Festa Brasileira: Fantasia Feita à Mão” celebra “o gesto amoroso de mãos que desejam preencher o mundo de beleza – em geral, mãos anônimas, devotadas e sonhadoras”.

 

Jair de Souza, Raul Lody e Leonel Kaz comentam que o Brasil “…cultuou a liberdade das formas, a exuberância das cores fortes, o gosto da fantasia” devido ao encontro “de uma sensibilidade barroca europeia com as matrizes indígenas e africanas, essas últimas repletas de ritmos, máscaras e pinturas corporais”. “Dessa mistura entre o europeu, o ameríndio e o negro africano surgiram máscaras, indumentárias, coreografias e sonoridades que fazem as festas populares brasileiras”. “Essa criatividade não nasce de um indivíduo isolado, mas da coletividade. É um apaixonado triunfo de todos. É a força da tradição oral, passada de geração a geração. O que a exposição “Festa Brasileira: Fantasia Feita à Mão” celebra é esse raro momento de pertencimento coletivo a que nos entregamos”, destacam.

 

Heloisa Menezes, diretora técnica do SEBRAE, observa que a exposição coloca em foco “as diferentes formas de expressão que unem o homem à sua imaginação e, por meio de suas festas, as transformam no mais genuíno artesanato, criando objetos de grande força dramática, autênticos representantes da cultura e da criatividade brasileira”.

 

 

Percurso da exposição

 

Ao chegar ao primeiro andar do CRAB, o público será recebido por saudações oriundas de blocos, romarias e desfiles estampadas em estandartes pendurados no teto. Nas paredes, a exuberante e colorida padronagem característica da chita de algodão ampliada em até 12 vezes, já indicando a profusão de cores que o visitante encontrará no percurso da exposição.

 

Em uma estante, estarão disponíveis máscaras inspiradas na figura mais presente das festas brasileiras: o boi. Assim, o público poderá percorrer a exposição com a máscara, e depois levá-la para casa como memória da visita.

 

 

Sala dos Espelhos

 

O primeiro espaço da exposição é a Sala dos Espelhos, com uma videoinstalação composta por paredes opostas cobertas por espelhos – gerando uma perspectiva infinita – e multiprojeções em grande formato de 51 fotografias de Rogério Reis, pertencentes à série “Na lona”. Nesta pesquisa, o fotógrafo registrou no subúrbio do Rio foliões com fantasias precárias e espontâneas, um contraponto às imagens espetaculares e suntuosas relacionadas ao Carnaval carioca.

 

 

Festa Feita À Mão

 

Na segunda sala, Festa Feita à Mão, o visitante tomará contato com os cortejos. Estarão dispostas em vitrines obras criadas por artesãos para representar as festas populares. As peças pertencem a duas das mais importantes coleções privadas de arte popular do país – João Maurício de Araújo Pinho e Irapoan Cavalcanti de Lyra. Feitas em barro, madeira, papel, fibra ou tecido, registram a diversidade de nossas festas e revelam a singularidade do artesão e a identidade de grupos, segmentos étnicos e regiões. Dentre as obras, estão cinco raros conjuntos produzidos por Mestre Vitalino, de Alto do Moura/Caruaru, em Pernambuco. As festas representadas vão da Dança do Pau-de-Fita (ou Trança), em Santa Catarina – memória dos festivais de primavera do Hemisfério Norte – às variações de Bumba Meu Boi, presente em vários estados; e às diversas manifestações do Divino Espírito Santo, em Minas, São Paulo, Goiás (como o Batalhão de Carlos Magno, com mouros x cristãos), além do Reisado, no Ceará, Dança e Mascarados, no Vale do Jequitinhonha, em Minas, o Cortejo da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, na Bahia, e Moçambique, que celebra os santos das irmandades dos homens negros, em Taubaté, São Paulo.

 

 

Máscaras da Fantasia 1

 

A seguir, a sala Máscaras da Fantasia 1 reúne máscaras de várias festas brasileiras, muitas ligadas a ritos. “As máscaras transformam as pessoas em deuses, animais ou seres fantásticos”, destacam os curadores. “Pela máscara se pode vivenciar o mito, o fantástico, o cômico. Máscaras modeladas com papel, bordadas sobre tecido, trançadas com fibras vegetais, sempre integrando sentimentos que unem o ideal da brincadeira com o sagrado”. Neste amplo espaço o público tomará contato com figuras impressionantes como o Jaraguá, um dos personagens fantásticos do Bumba meu boi de Alagoas; o Waurá, do povo indígena do Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, que representa um ser da natureza e é usada apenas por homens; o Cazumbá, que simboliza o espírito dos animais no Bumba meu boi do Maranhão; o Tapirapé, confeccionada pelo pajé em madeira e expressiva plumária, para garantir o crescimento da lavoura e a fertilidade das mulheres, em povos indígenas de Mato Grosso e Tocantins; e o Mandu, personagem fantástico que traz as memórias africanas dos ancestrais, em Cachoeira, Bahia. Nesta sala estarão ainda vários outros conjuntos de máscaras, como as que anunciam as Cavalhadas -representações das lutas entre cristãos e mouros – em Pirenópolis, Goiás; além das máscaras de Carnaval de Olinda, Pernambuco, ou em Tatuamunha, em Alagoas, entre outras peças.

 

 

Máscaras da Fantasia 2

 

Ao chegar a Máscaras da Fantasia 2, o visitante conhecerá o núcleo central da exposição. Ali estarão as indumentárias que se integram às máscaras e aos instrumentos musicais, adereços ou estandartes. “A festa é algo que nós vestimos”, lembram os curadores. “Rodamos dentro dela, ritualizamos a sua passagem, renascemos”. Há um fazer artesanal apurado em tudo: costura, renda, tecelagem, pintura, colagem. No centro da sala estarão dois conjuntos que celebram o encontro entre a tradição milenar do uso de matérias-primas naturais das florestas, nas máscaras-indumentárias dos índios Caiapó, de Mato Grosso e Pará, com os contemporâneos materiais reciclados de “latinhas” dos Homens de Lata do Carnaval da Ilha de Madre de Deus, no Recôncavo da Bahia. Ali estarão também, entre muitos outros, os Bate-Bolas, tradicionais do Carnaval do subúrbio do Rio de Janeiro, o Congadeiro, presente em Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, São Paulo, Sergipe e Paraíba; o Zambiapunga, uma palavra quimbundo que vem do nome Zambiapombo (deus criador), tradição do Dia de Todos os Santos na Bahia, memória das festas dos Bacongo, grupo etnocultural Bantu.

 

 

Barracão

 

A sala Barracão traz uma videoinstalação formada por uma parede coberta por 36 mil lantejoulas, onde haverá uma multiprojeção de cinco minutos do filme inédito “O Próximo Samba”, de Marcelo Lavandoski. As imagens foram captadas pelo cineasta ao longo de oito meses no barracão da Escola de Samba Mangueira, revelando a multiplicidade e complexidade do fazer artesanal para o desfile, com o trabalho dedicado de marceneiros, costureiras, pintores, escultores e modeladores, que transformam sonhos em objetos, alegorias e fantasias.

 

 

Batucada Digital

 

O espaço Batucada Digital é interativo, e destaca a presença e a importância da música dos instrumentos artesanais de percussão, que nos aproximam e nos identificam como brasileiros, e entrelaçam nossas raízes europeia, ameríndia e africana. Com paredes forradas por caixas de ovos, para dar isolamento acústico, o público poderá tocar digitalmente doze tipos diferentes de instrumentos de percussão, em seus diversos timbres, a partir de telas sensíveis sobre uma mesa central. Além de interativa, a mesa digital propicia um som conjunto, colaborativo, com até doze pessoas tocando simultaneamente. Os sons emitidos serão de instrumentos como tambor, pandeiro, zabumba, agogô, alfaia, tamborim, surdo, tambor-onça e matraca. Suspensos no teto, sobre a mesa digital, estarão instrumentos musicais artesanais encontrados em todo o país – atabaque, adjá, caxixi, agogô, triângulo e pratos – ou específicos de alguns estados, como alfaia, caracaxá e “porca” (cuíca), de Pernambuco; pau-de-chuva, da Amazônia; maracá, de Mato Grosso; casaca, do Espírito Santo; adufe, de Minas Gerais, entre muitos outros.

 

 

Entre nessa Festa!

 

Na sala interativa Entre nessa Festa! o público é convidado a fazer seu retrato com celular dentro de uma das 100 imagens com cenas do Carnaval de 2017, feitas especialmente para a exposição pelos fotógrafos AF Rodrigues, Elisangela Leite, Fabio Caffé, Luiz Baltar e Monara Barreto, do coletivo Folia de Imagens – oriundo da Escola de Fotógrafos Populares/Imagens do Povo do Observatório de Favelas da Maré – com a coordenação do fotógrafo e antropólogo Milton Guran.  As 100 imagens, que estarão também expostas em impressão sobre papel, numeradas, serão projetadas em looping, em grande formato, como um cenário. O visitante escolhe a que deseja, clica no número, e se posiciona para sua selfie. Além de ser compartilhada em suas redes sociais, a imagem resultante irá para um banco de dados na internet que ficará disponível durante o período da exposição. O designer Jair de Souza conta que queria que o público começasse e terminasse o percurso da exposição em meio a “uma revoada de imagens fotográficas, estabelecendo um contraponto entre a sala inicial, com as fotos de Rogério Reis, clicadas já na década de 1980, e as atuais, do coletivo Folia de Imagens”. “Um percurso do olhar, capaz de mostrar a criatividade anônima do folião, a brincadeira do acaso, a originalidade de transformar qualquer objeto em fantasia”, observa.

 

 

Loja do CRAB: último espaço

 

O último espaço de visitação é a Loja do CRAB, onde estarão várias peças artesanais de várias regiões do país, de modo a valorizar esta cadeia produtiva das festas –  criativa, ampla, complexa – que envolve centenas de milhares de profissionais, preservando técnicas manuais tradicionais, e reinventando soluções para novos materiais.

 

 

 

De 20 de junho a 28 de outubro.

 

Biquínis no CCBB-Rio

17/mai

A exposição “Yes! Nós temos biquíni”, no CCBB Rio, Centro, Rio de Janeiro, RJ, apresenta os aspectos sociais, históricos e culturais de uma criação revolucionária no mundo da moda e a sua devida apropriação pelos brasileiros, transformando-a em objeto de desejo do mundo todo. O traje nasceu na França, em 1946, mas originou-se há séculos, como mostram as preciosas tangas marajoara do período pré-colombiano. Do pesado traje de banho do século 19 às novas modelagens do século 21, a exposição ressalta as mudanças de comportamento e conquistas da mulher nesse período, os padrões de beleza e sua relação com a arte. A curadoria é de Lilian Pacce.

 

A mostra reúne cerca de 120 obras, entre looks icônicos e históricos de moda praia, fotografias, pinturas, esculturas, vídeos, ilustrações, instalações, artefatos históricos e amplo material iconográfico. Performances, debates e um ciclo de cinema também fazem parte da programação da exposição, que ocupará o 2º andar do Centro Cultural.  A exposição é patrocinada pelo Banco do Brasil.          

 

“A moda, para além de seu propósito inicial que é vestir o corpo, sempre esteve relacionada a questões sociais, culturais, políticas e econômicas. Esta exposição traz uma diversidade, que sempre buscamos para a programação do CCBB e apresenta um diálogo entre o elemento de maior representação brasileira na moda mundial com obras de arte contemporâneas que desafiam o visitante a interpretar essas associações”, comenta o gerente-geral do CCBB Rio, Fabio Cunha.

 

O percurso começa com uma explicação sobre a criação do engenheiro francês Louis Réard, que ousou diminuir a calcinha de cintura alta e revelar o umbigo da mulher – símbolo do vínculo e da ruptura entre duas vidas, zona erógena, centro do corpo humano e do mundo, como se percebe na obra Um.Bigo, de Lia Chaia. Réard queria que sua ideia fosse tão explosiva quanto os primeiros testes nucleares no atol de Bikini – daí surge o nome da peça. Ilustrando modas, modismo e rupturas, uma linha do tempo mostra a evolução do traje de banho, com peças originais desde o século 19 até hoje, looks que sintetizam a imagem de cada década assim como as mulheres que fizeram a fama do biquíni ao longo da história.

 

Na sala seguinte, o visitante descobre que historicamente, apesar de ser uma criação francesa, o crédito pela invenção do biquíni poderia caber aos índios brasileiros e sua forma de cobrir o corpo. Tangas marajoaras datadas do período pré-colombiano, cedidas pelo Museu de Arqueologia e Etnologia – USP, mostram que os trajes já eram usados por aqui muito antes do descobrimento, mas não eram percebidos como “roupa” sob o prisma da moral dos colonizadores portugueses. A sala se completa com obras de artistas nascidos em outros países, mas que escolheram o Brasil para viver, como Claudia Andujar, John Graz e Maureen Bisilliat, que representam o encantamento dos estrangeiros com nossa cultura, e também biquínis inspirados na cultura indígena.

 

Temas fundamentais nos dias atuais, o empoderamento feminino e questões ligadas aos padrões de beleza impostos pela sociedade fazem parte do debate proposto pela exposição. A reflexão sobre o corpo e a praia acontece na próxima sala por meio do diálogo das obras de Marcela Tiboni, Claudio Edinger e Elen Braga com criações dos estilistas Amir Slama, Isabela Frugiuele (Triya) e Adriana Degreas, além da escultura de Tiago Carneiro da Cunha. Já a relação entre moda e arte é tratada pela inspiração mútua e parcerias inusitadas – Beatriz Milhazes, Glauco Rodrigues e Jorge Fonseca para Blue Man, J. Carlos para Salinas, Gonçalo Ivo e J. Borges para Amir Slama, Maria Martins para Adriana Degreas. No centro da sala, em destaque, Stripencores, obra de Nelson Leirner de 1967 que ganha um quinto elemento criado especialmente para a mostra.

 

A praia como território geográfico, social e até virtual surge em cenas do dia a dia nas imagens captadas pelas lentes de Alair Gomes, Cartiê Bressão, Fernando Schlaepfer, Frâncio de Holanda, German Lorca, Julio Bittencourt, Otto Stupakoff, Pierre Verger, Rochelle Costi,  Thomaz Farkas e Willy Biondani, além de vídeo de Janaína Tschape e de escultura de Eder Santos. Como contraponto, o trabalho elaborado por nomes que ajudaram a criar a identidade da moda praia brasileira (e projetá-la mundialmente) surge em imagens icônicas: Dalma Callado em foto que alavancou sua carreira internacional nos anos 1970, feita por Luiz Tripolli, e Gisele Bündchen clicada por Jacques Dequeker no início dos anos 2000, já famosa – e ainda Antonio Guerreiro, Bob Wolfenson, Claudia Guimarães, Daniel Klajmic, Klaus Mitteldorf, Marcelo Krasilic, Miro e Vavá Ribeiro.

 

Mas muito antes dos editoriais de moda, era o ilustrador e figurinista Alceu Penna quem “ditava” tendências na extinta revista “O Cruzeiro” com “As Garotas do Alceu”, verdadeiras it girls da época. A praia é vista também pelo traço das ilustrações de Carla Caffé, Filipe Jardim e Paulo von Poser. A sala traz ainda uma videoinstalação com grandes momentos da moda praia nas semanas de moda no Brasil, e uma série de manequins com biquínis e maiôs de caráter excepcional, seja pela construção, modelagem, material ou pela criatividade em si – prova de que o biquíni é a peça mais brasileira de todas.

 

Na última sala, o visitante é convidado a compartilhar experiências de praia, diante das obras de Cássio Vasconcellos, Katia Maciel e Leda Catunda – e da pergunta que fica: qual é a sua praia? “A força de uma peça tão pequena como o biquíni brasileiro, basicamente quatro triângulos de tecido, está diretamente ligada ao emporaderamento feminino ao longo do último século e vai muito além da praia em si. A exposição pretende mostrar essas interfaces, seu impacto nas conquistas da mulher e o lifestyle criado em torno dele”, diz a curadora Lilian Pacce, autora do livro O Biquíni Made in Brazil. A cenografia é assinada por Pier Balestrieri, com comunicação visual de Kiko Farkas, consultoria de arte contemporânea de Sandra Tucci, coordenação geral e produção executiva da Com Tato Agência Sociocriativa.  

 

 

Palestra – A Revolução Feminina na Areia

 

31/05/2017, às 18h30 – Painel sobre as mudanças sociais que acompanharam a evolução dos trajes de moda praia e as conquistas femininas.

 

 

A palavra da curadora

 

Yes! Nós Temos Biquíni explora as conexões entre moda, arte, comportamento e história a partir do final do século 19, quando ir à praia era como tomar remédio: tinha apenas função terapêutica. Desde então, a praia se tornou um espaço democrático de lazer, onde convivem jovens e velhos, ricos e pobres, magros e gordos, atletas e sedentários, branquelos, bronzeados e gente de todas as cores com seus “corpos de praia”.

 

Acima de tudo, a exposição pretende mostrar a força da menor peça do vestuário feminino: o biquíni. E mais do que isso: o biquíni made in Brazil que, numa rara virada de jogo, se tornou objeto de desejo mundo afora. Apesar de ter sido criado na França, o Brasil se apropriou tão bem da peça que se tornou referência em moda praia; o Rio de Janeiro, seu melhor cenário, e a Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sua maior musa, seguida pela modelo Gisele Bündchen.

 

De um exemplar autêntico de 1895 (um vestido de lã com bloomer), passando pela conquista do maiô de perninha até chegar ao mínimo fio-dental, nota-se como os modelos de cada época refletem as respectivas conquistas da mulher – muitas vezes tema de grandes escândalos, seja com a atriz brasileira Leila Diniz expondo sua barriga de grávida num biquíni em 1971, seja com a prisão da nadadora olímpica australiana Annette Kellermann em 1907 por usar o então maiô masculino. A pesquisa deixa claro também que os protagonistas da história, tanto criadores como criaturas, não se deram conta da relevância de seus atos e do impacto que provocariam na sociedade e na arte ao longo do século 20.

 

E através da arte, o biquíni ganha outras perspectivas. A exposição cria diálogos e contrapontos entre arte e moda, de onde surgem texturas, cores e emaranhados ao mesmo tempo que levam para a praia do Rio de Janeiro o despojamento, a diversão, o despudor, o corpo solto. A obra Stripencores de Nelson Leirner de 1967 ganha um quinto elemento, o biquíni, criado especialmente para a mostra.

 

Os vários modos de estar e de ocupar estes territórios de liberdade que a praia, o sol, o mar e o biquíni permitem são retratados em obras de suportes variados como fotografia, pintura, escultura, vídeo, ilustração. De cada um deles surge uma interpretação, uma discussão ou o simples ato da contemplação.

 

As paisagens, a natureza, o comportamento ao ar livre e a apropriação de espaços geográficos, sociais e até virtuais indicam que o biquíni pode se apresentar de muitas formas, mas sempre traz consigo a busca da liberdade feminina e sua relação com o próprio corpo.

Lilian Pacce

   

   

De 17 de maio a 10 de julho.