A Pinacoteca do Ceará apresentou a primeira exposição individual de Alfredo Jaar (Santiago, 1956) em Fortaleza, com curadoria de Moacir dos Anjos. A mostra, com 16 obras produzidas entre os anos 1980 e 2026, exibiu quase cinco décadas de trajetória do artista, arquiteto e cineasta chileno. Entre os destaques estão instalações imersivas já consagradas como “Lamento das imagens” (2002), “O som do silêncio” (2006) e “06.01.2020 18.39” (2022) – esta última inédita no Brasil -, além de “A luz do nosso céu”, obra criada especialmente para o pátio aberto da Pinacoteca. A instalação nasceu de uma visita de Alfredo Jaar ao espaço dois anos antes da abertura: a luz intensa de Fortaleza, que ilumina e ofusca simultaneamente, inspirou o artista cuja prática é fundamentalmente construída sobre as qualidades e paradoxos da luz.
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Dialogar com diferentes formas de perceber o mundo.
Novo episódio de Depois que Tudo Foi Dito, com Josi, estreou no Arte 1. O Arte1 exibiu o terceiro episódio da série “Depois que Tudo Foi Dito”, realizada pelo MAM São Paulo a partir do 39º Panorama da Arte Brasileira: “Depois que tudo foi dito”. O episódio tem como protagonista a artista Josi.
No episódio, Josi fala sobre sua trajetória e sobre uma prática artística atravessada por memórias de Carbonita, Caeté e do Vale do Jequitinhonha, por saberes populares e por experiências vividas durante uma residência artística no Benim. A artista compartilha seus processos com tintas naturais, preparadas a partir de materiais como feijão-preto, pequi, jenipapo, jurubeba, cascas de árvores, terras e pigmentos minerais, e conta como essas matérias vivas se transformam e participam da construção das obras.
Estruturada em episódios dedicados a artistas, curadoria e público, a série busca ampliar o conhecimento sobre o Panorama da Arte Brasileira e apresenta diferentes perspectivas sobre a exposição. As conversas aproximam as obras das trajetórias de seus criadores, do processo curatorial e das experiências dos visitantes, mostrando como a arte pode dialogar com questões presentes no cotidiano e com diferentes formas de perceber o mundo.
O 39º Panorama da Arte Brasileira: “Depois que tudo foi dito”.
Com curadoria de Diane Lima e gerência de projetos de curadoria de Giovanna Querido, o 39º Panorama da Arte Brasileira: “Depois que tudo foi dito” reúne 33 artistas de 11 estados brasileiros, representando todas as regiões do país e aproximando diferentes gerações, linguagens, materialidades e modos de fazer. A exposição parte de uma reflexão sobre o que pode existir para além dos limites já estabelecidos da representação, da linguagem e da própria ideia de arte brasileira.
Panorama da Arte Brasileira.
Realizado desde 1969, o Panorama da Arte Brasileira acompanha há mais de cinco décadas as transformações da produção artística no país e ocupa um lugar fundamental na trajetória do MAM e na História da Arte Brasileira. Ao longo de suas edições, consolidou-se como uma das principais plataformas de reflexão, experimentação e discussão sobre a arte produzida no Brasil.
“Depois que Tudo Foi Dito” é uma realização do Museu de Arte Moderna de São Paulo, com exibição pelo Arte1 por meio de parceria entre as instituições. A concepção e coordenação do projeto são de Ane Tavares; a direção e edição de vídeo são de Marina Paixão; o roteiro é assinado por Ane Tavares e Juliana Pithon; e a trilha sonora é de David Menezes.
Dois artistas representados pela Galatea.
39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP.
Quem visitar o 39º Panorama da Arte Brasileira: “Depois que tudo foi dito” no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP, Parque do Ibirapuera, curado por Diane Lima, poderá conferir obras de Ygor Landarin e Carolina Cordeiro, artistas representados pela Galatea.
Ygor Landarin (Uruguaiana, 1995) apresenta duas obras inéditas comissionadas para a exposição. Da porosidade dos bordados de “Onda mãe” à estrutura mais rígida de “Pedra pai”, o artista incorpora areia, conchas, ouriços e argila coletados em diferentes pontos da costa brasileira.
Carolina Cordeiro (Belo Horizonte, 1983) exibe “O tempo é”, instalação idealizada em 2023 e revisitada para o Panorama. Placas de zinco e espelhos artesanais se distribuem em estruturas de aço, trazendo para a sala de exposição um material familiar às construções e moradias brasileiras e presente também em outros territórios do Sul Global.
Nas obras dos dois artistas, os materiais dizem mais do que sua aparência sugere. A areia e a argila recolhidas por Ygor Landarin, assim como o zinco empregado por Carolina Cordeiro, trazem para o museu experiências ligadas a territórios brasileiros e formas cotidianas de vida. Ao lhes dar lugar na construção das obras, os artistas abrem espaço para outras maneiras de perceber, narrar e imaginar o mundo – questão que percorre esta edição do Panorama.
Até 24 de janeiro de 2027.
Presença de Brumadinho no mapa internacional.
29/set
O colecionador Bernardo Paz prepara novo museu de arte contemporânea em Brumadinho. Idealizador do Inhotim, MG, Bernardo Paz avança em um novo projeto cultural que deve ampliar ainda mais a presença de Brumadinho no mapa internacional da arte contemporânea.
O empreendimento vem sendo noticiado como um novo museu a céu aberto, localizado nas proximidades do Inhotim, instituição que Bernardo Paz começou a idealizar nos anos 1980 e que abriu ao público em 2006. Segundo informações publicadas pela imprensa, o espaço circula com nomes provisórios como Instituto Bernardo Paz e Museu das Árvores. A proposta mantém diálogo com uma das marcas mais reconhecidas da trajetória de Bernardo Paz: a aproximação entre arte, paisagem, arquitetura e natureza em escala monumental.
Bernardo Paz amplia legado cultural em Brumadinho.
As reportagens indicam que o novo projeto já teria recebido investimentos expressivos, com paisagismo em andamento, plantio de milhares de árvores e a previsão de pavilhões distribuídos em uma área cercada por mata. Também foi noticiado que o acervo reunido para o espaço pode chegar a cerca de 3 mil obras de arte contemporânea. Entre os nomes mencionados nas matérias estão artistas como Anna Maria Maiolino, Sonia Gomes e Michael Heizer. A imprensa também aponta negociações envolvendo outros artistas internacionais, em sintonia com a proposta de criar um espaço voltado à produção contemporânea em diálogo com território, memória, matéria e experiência.
Nos últimos anos, Bernardo Paz também protagonizou um movimento decisivo para a institucionalização do Inhotim, ao transferir de forma definitiva obras, galerias e parte significativa da estrutura do instituto para uma governança voltada à perenidade da instituição. Essa passagem consolidou o caráter público de um projeto que nasceu de uma coleção privada e se tornou referência cultural brasileira.
Mais do que a criação de um novo espaço expositivo, a iniciativa aponta para a continuidade de uma visão cultural de longo prazo: produzir experiências em que arte e natureza não funcionam como cenários separados, mas como partes de uma mesma paisagem sensível, pública e transformadora.
Exposição de Suely Farhi no CCJF.
28/set
O Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), Cinelândia, Rio de Janeiro, RJ, abre, no dia 13 de outubro, a exposição “As Palavras”, da artista e poeta visual carioca Suely Farhi. Com curadoria de Luiza Interlenghi, a mostra reunirá dez instalações, produzidas desde 1994 até hoje, incluindo obras inéditas, que trazem como tema o universo feminino. Esta será a primeira vez que a artista reúne trabalhos com essa temática.
“Suely Farhi investiga o limiar entre palavra, imagem e espaço – a linguagem transmuta a realidade. As palavras – substantivo feminino plural – desenham o invisível e aderem aos objetos para iluminar a força da mulher”, escreve a curadora Luiza Interlenghi no texto sobre a concepção da exposição.
Além das obras inéditas, outras mais antigas foram atualizadas. “A temática principal do meu trabalho são esses pontos de tensão, de questionamento, de pensamento. Eu nem notava se estava fazendo algo que era feminino ou não”, afirma a artista. Sobre a atualização de algumas obras, ela diz: “Acho que esse milênio está ensinando a ver muito claramente algumas questões. Não quer dizer que eu não fosse feminista, mas a gente vai sabendo e vendo mais claramente certas coisas, inclusive até do meu próprio passado, coisas que vivi sem falar”, completa.
Na última semana da exposição, será realizado o jogo “Oráculo dos pensamentos”, às 17h, criado pela artista. Será realizado no dia 19 de novembro, com a participação dos artistas e poetas visuais Adriana Maciel, Elaine Pauvolid, Martha Niklaus, Maria Moreira, Monica Barki, Fernanda Junqueira, Fernando Gerheim, Simone Cupello, Xico Chaves e outros. “O jogo é um objeto facilitador de conversas públicas. Cartas estarão sobre as cadeiras e os artistas começam a ler um trecho do texto ao acaso. Ao ler uma frase do oráculo fala o que pensa, sente, intui ou deseja. E assim segue o jogo”, conta a artista.
Sobre a artista.
Suely Farhi nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, onde vive e trabalha. É arquiteta, artista e poeta visual. Explora os sentidos que brotam no encontro entre palavras e lugar. Realizou várias exposições individuais no Rio de Janeiro, como no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), Museu da República, no Paço Imperial, entre outros. Participou de mais de 100 exposições coletivas no Brasil e no exterior. Participou de antologias de poesia visual, como “Obra nome”, no Museu de Alcobaça, Portugal, com curadoria Wagner Barja; “Yá sé leer – imagén y escritura en el arte latinoamericano”, no Centro Wifredo Lam y la Galería Rubén Martínez Villena de la Habana Vieja, Cuba, com curadoria Ibis Hernández Abascal, Margarita Sánchez, Sandra Contreras y Elvia Rosa Castro; “Europalia”, em Bozar, Bruxelas, Bélgica, com curadoria de Sonia Salcedo del Castillo e “Visualidades Brasileiras – Funarte 50 anos”, no Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro, com curadoria de Luiza Interlenghi.
Até 22 de novembro.
Artista recupera saberes e narrativas indígenas.
21/set
Nos últimos anos, o Instituto Caldeira, Porto Alegre, RS, vem ampliando seu olhar para a arte, a cultura e as diferentes formas de ocupar e transformar a cidade. Desse movimento nasceram duas iniciativas: Horizontes Urbanos e, em parceria com a Fundação Bienal do Mercosul, surgiu a iniciativa do Espaço Bienal, com o lançamento da primeira grande exposição com a mostra “Fogo de Pátio”, do artista indígena de origem guarani, Xadalu Tupã Jekupé – que também pintou um dos murais do projeto Horizontes Urba
A pesquisa de Xadalu atravessa espiritualidade, memória e história e aborda processos de apagamento cultural no território do Pampa. Em sua produção, o artista recupera saberes e narrativas indígenas para colocá-los em circulação no presente.
Agora, o fogo volta a ocupar o centro da narrativa dentro da galeria. Mais do que representar uma lembrança ancestral, ele é apresentado como um conhecimento vivo, capaz de produzir relações e imaginar futuros. A proposta dialoga com o projeto Horizontes Urbanos, do Instituto Caldeira, voltado à transformação do 4º Distrito de Porto Alegre e à criação de conexões entre arte, cidade, cultura e inovação.
Antes da inauguração da mostra, Xadalu participa do talk “Inovar a história: tecnologia, memória e outros modos de produzir conhecimento”, ao lado do curador, artista e escritor Aldones Nino. A realização de “Tatá Rupa – Fogo de Pátio” é uma iniciativa apresentada pelo Instituto Caldeira, Fundação Bienal do Mercosul e Ministério da Cultura, em parceria institucional com a Galeria Ecarta.
Até janeiro de 2027.
O Mar de Rosas de Paulo von Poser.
11/set
“Mar de Rosas” celebra os trinta anos da exposição que, em 1996, reuniu pela primeira vez um conjunto de obras dedicado exclusivamente à rosa. Desde então, essa flor tornou-se presença constante na arte e na vida de Paulo von Poser, acompanhando sua produção em desenhos, pinturas, aquarelas, gravuras, esculturas, instalações e performances. A rosa surgiu discretamente nos desenhos realizados entre 1980 e 1985 e apareceu como protagonista em uma série desenvolvida em 1988, publicada no calendário do Museu de Arte Contemporânea no ano seguinte. A partir daí, atravessou inúmeras exposições, ora como elemento central, ora integrada às paisagens, às cidades e às reflexões sobre memória, natureza e espaço urbano.
A exposição “Mar de Rosas”, apresentada em 1996 no Espaço Ox, com curadoria de André Millan e Mariângela Bordon, representou um ponto de inflexão nessa pesquisa. Dela nasceu um universo que se expandiu muito além da pintura, dando origem a uma rara coleção de obras, objetos, fotografias, livros, poemas e referências dedicadas à presença e a história da rosa na cultura brasileira e internacional.
Nas décadas seguintes, esse percurso desdobrou-se em projetos realizados no Brasil e no exterior. As rosas dialogaram com as cidades em “Rosas no Ar” e “Rosas na Terra” (1999), transformaram-se em esculturas transparentes na exposição “Horizontes” (2001), participaram de exposições em Paris e Lima, sobrevoaram São Paulo em um dirigível na mostra “Você Está Aqui” (2006), ganharam escala monumental na escultura “Rosé au Calvaire”, instalada em Saint-Flour, na França (2007), permaneceram presentes em séries dedicadas à paisagem, à arquitetura e à cidade e, em 2012, na exposição “Floração”, apresentada no Museu de Arte Sacra de São Paulo, inspiraram desenhos das rosas barrocas presentes no acervo do Museu, e uma série de “Rosas relicários contemporâneos”. Em 2023, essa longa investigação encontrou uma nova dimensão na exposição “Rosas Brasileiras”, apresentada no Farol Santander, que reuniu a coleção construída pelo artista ao longo de décadas e obras de mais de uma centena de artistas brasileiros, provenientes de acervos públicos e privados, unidos pela presença da rosa.
A atual exposição não pretende ser uma retrospectiva. É uma celebração. Reúne obras de diferentes momentos, escolhidas por Paulo von Poser e pela curadora Flávia Daud, revelando a permanência e a transformação de um mesmo tema ao longo de três décadas. Mais do que uma flor, a rosa tornou-se uma linguagem da alma do artista. Presente nas mais diversas culturas e tradições espirituais, símbolo de beleza, regeneração e mistério, ela permanece como um enigma humano inesgotável. Cada nova obra representa uma tentativa de aproximar-se desse centro simbólico, onde natureza, memória e imaginação se encontram.
Celebrar os trinta anos de “Mar de Rosas” no Clube Atlético Monte Líbano é celebrar um percurso artístico que continua em pleno florescimento.
Intervenção artística inédita.
08/set
O processo de criação também pode fazer parte da experiência do público.
O Instituto Ling, Porto Alegre, RS, abriu seu espaço para que visitantes acompanhassem a artista paulista Juliana dos Santos enquanto desenvolvia uma obra inédita diretamente em uma das paredes do centro cultural.
Por uma “geografia da ação”: corpo, matéria, território.
Pensar o Brasil a partir de seus agentes artísticos e de suas respectivas regiões pode nos colocar diante de uma complexa teia de interações: a biodiversidade dos nossos biomas e como esses integram as relações entre corpo e território, as manifestações culturais tão próprias de cada lugar que atravessam os procedimentos artísticos e informam como artistas se compreendem no mundo, as diferentes formas como os sistemas das artes se organizam e apresentam possibilidades de trabalho para as comunidades artísticas locais. Diante de toda essa efervescência poética e cultural, tão celebrada pelo projeto Ling Apresenta, esta edição, que ocorrerá ao longo de 2026, destaca a matéria-prima como instância que vem carregada do entrelaçamento entre as questões citadas e a singularidade das mãos, dos territórios, das identidades e das linguagens de quem dela usufrui. O projeto curatorial que responde pela região Sudeste apresenta intervenções de Rubiane Maia (Minas Gerais/Espírito Santo), Advânio Lessa (Minas Gerais), Juliana dos Santos (São Paulo) e Raphaela Melsohn (São Paulo), que evidenciam a matéria-prima como elemento organizador de gestos, de procedimentos, de modos de fazer arte e de inventar linguagens. As trajetórias e processos de criação de Rubiane, Advânio, Juliana e Raphaela são indissociáveis de seus manejos e aprendizados com a matéria-prima. Em suas experimentações, matéria-prima, corpo, contexto e métodos constituem o que podemos chamar, como nos propõe o geógrafo e professor Milton Santos, de uma “geografia da ação”. Assim, vemos o ateliê, os espaços de trabalho, o território poético e o lugar de origem de cada artista referendando-se, de diferentes maneiras, como a matriz de cada “pedaço de matéria”. E a matéria, por sua vez, acontece nos trabalhos como uma fração muito específica de uma realidade social, afetiva, ambiental; como agente mediador de um labor com o lugar onde o trabalho se dá; como mobilizadora de uma busca de sentido estético e de pertencimento. Assim, as intervenções propostas ressaltam como o tempo/espaço de criação é produzido e praticado, numa ação de coesão entre processos de experimentação com a matéria e suas experiências de significação.
Galciani Neves
Detalhe da exposição Juliana dos Santos: Temporã, realizada na Pinacoteca de São Paulo, em 2025.
Até 03 de outubro.
O manifesto do Salão de 1954.
04/set
A Pinakotheke, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, convida para a abertura da exposição “Revolta em Preto e Branco”, no dia 11 de setembro, que revisita o histórico Salão Preto e Branco, de 1954, realizado pelo Ministério da Educação, no Palácio Capanema, no Rio de Janeiro. Com curadoria de Shannon Botelho, estudioso do assunto, “Revolta em Preto e Branco” reúne 61 obras de 50 artistas, oito delas que efetivamente participaram da exposição de 1954, e “que hoje podem ser vistas novamente juntas”, destaca Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke: “Natureza-morta”, de Iberê Camargo; “Peixe”, de Tomás Santa Rosa; “Composição”, de Aldo Bonadei; “Triângulo preto”, de Danilo Di Prete; “Luares sobre a cidade negra”, de Antonio Bandeira; “Sem título”, de Ione Saldanha; “Svolvær”, de Frank Schaeffer; e “Acampamento de oleiro”, de Glauco Rodrigues.
Na segunda sala, o público verá trabalhos de artistas também signatários do manifesto que originou o Salão de 1954, e outros, com pesquisas estéticas semelhantes. Entre esses grandes nomes, há obras de Portinari a Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Fayga Ostrower. Uma terceira sala traz a questão para o presente, com trabalhos de artistas que continuam a tratar da relação entre arte, política e meios de produção, entre eles, Amilcar de Castro, Antonio Dias, Andréa Hygino, Carlos Zílio, Elizabeth Jobim, Germana Monte-Mór, Iole de Freitas, Bruno Dunley e a dupla Faixa Protesta, formada por Gustavo Speridião e Leandro Barboza.
Estarão ainda na exposição documentos, fotografias e reproduções de artigos de jornais publicados em 1954, e será lançado pela Pinakotheke Editora o livro “Revolta em Preto e Branco”, com 128 páginas, e textos de Shannon Botelho e Luiza Interlenghi, que foi assistente de Glória Ferreira na primeira revisita crítica ao Salão de 1954, realizada em 1985, pelo Instituto Nacional de Artes Plásticas da Funarte, como Sala Especial do 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Junto com os ensaios, o livro traz documentos de imprensa do período, guardados no Centro de Documentação e Pesquisa da Funarte, e a crônica que Eneida de Moraes publicou no “Diário de Notícias” em 18 de maio de 1954, com o pedido: “vá ver o Salão, sua presença dirá aos nossos pintores que eles não estão sós”.
Shannon Botelho dedica “Revolta em Preto e Branco” à Glória Ferreira: “Esta exposição é também uma expressão de reconhecimento e apreço por Glória Ferreira (1947-2022), cuja pesquisa dedicada ao Salão Preto e Branco foi fundamental para preservar, ampliar e inscrever sua memória na história da arte brasileira. Foi por meio de uma de suas publicações que tive meu primeiro contato com o Salão e, anos mais tarde, tive a honra de tê-la como coorientadora de minha pesquisa de mestrado, quando pudemos estabelecer muitas trocas em torno de seu trabalho e, posteriormente, da pesquisa e da remontagem do Salão. Glória dedicou-se com rigor, generosidade e persistência a reunir documentos, testemunhos e vestígios, fazendo da pesquisa também uma forma de cuidado com a memória e de construção de um legado para a História da Arte no Brasil. É, portanto, com profundo respeito, admiração e gratidão que esta exposição reconhece sua contribuição e mantém presente, entre nós, a memória de seu trabalho”.
Contexto Histórico do Salão de 1954: O Protesto dos Artistas.
Em seu texto no livro, Shannon Botelho descreve o cenário político e artístico que motivou o Salão de 1954, que ficou posteriormente conhecido como Salão Preto e Branco. “A década de 1950 marcou um momento de inflexão para as artes visuais no Brasil. A consolidação de museus dedicados à arte moderna – MAM-RJ e MAM-SP – a criação da Bienal de São Paulo, a ampliação da crítica especializada e a redefinição das políticas culturais contribuíram para transformar profundamente o sistema artístico”.
À época da realização do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, o Brasil vivia “a retomada de um projeto nacional-desenvolvimentista que atribuía ao Estado um papel central na condução do crescimento econômico”, implementada por Getúlio Vargas, então eleito presidente da república.”A ampliação da infraestrutura, os investimentos na indústria de base e a criação de instrumentos voltados ao financiamento e à expansão da economia nacional expressavam uma estratégia que buscava reduzir a dependência externa e acelerar o processo de industrialização brasileira”, observa o curador. O governo passou a “adotar mecanismos cada vez mais rigorosos de controle das importações. Nesse contexto, a Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil (Cexim) assumiu papel decisivo na definição dos produtos considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional”.
Na hierarquia dos produtos e máquinas considerados essenciais, ficaram de fora “os materiais destinados à produção artística – tintas, pigmentos, pincéis, telas, papéis especiais e vernizes, em grande parte importados”.
“À medida que a crise se aprofundava, tornava-se evidente que o problema deixava de ser a dificuldade enfrentada por determinados artistas e assumia uma dimensão coletiva, mobilizando pintores, gravadores, escultores, críticos e entidades representativas em torno de uma reivindicação comum: a revisão dos critérios de importação aplicados aos materiais artísticos. Da insatisfação da classe, frente às dificuldades em produzir seus trabalhos, nascia o projeto de executar um salão inteiramente em branco e preto como forma de protesto. Liderados por Iberê Camargo, Milton Dacosta e Djanira, os artistas publicaram o manifesto político do III Salão Nacional de Arte Moderna. Os organizadores do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, foram Iberê Camargo, Bruno Giorgi, Oswaldo Goeldi e Tomás Santa Rosa. O Júri de Seleção e Premiação foi formado por Milton Dacosta e Djanira.
Djanira teve grande importância naquele Salão ao defender a inclusão do “Quadro-objeto”, de Lygia Clark. Em entrevista dada na abertura da exposição, Djanira disse: “O Salão Nacional de Arte Moderna é uma mostra de artistas de vanguarda, onde tem lugar a exposição de resultados de pesquisas plásticas as mais variadas. (…) Dei minha aprovação a que fossem mostradas as molduras, intituladas pela autora “Quadro-objeto”. Como protesto contra a falta de telas, considero um trabalho original. E como pesquisa, manifesto meus respeitos”.
Expositores da Sala 1.
Iberê Camargo, Tomás Santa Rosa Júnior, Aldo Bonadei, Danilo Di Prete, Antonio Bandeira, Ione Saldanha, Frank Schaeffer, Glauco Rodrigues, Milton Dacosta, Djanira Da Motta E Silva, Oswaldo Goeldi, Bruno Giorgi.
Expositores da Sala 2.
Emiliano Di Cavalcanti, Candido Portinari, Tomás Santa Rosa Júnior, Samson Flexor, Sergio Camargo, Eugênio De Proença Sigaud, Maria Leontina, Carybé, Anita Malfatti, Tarsila Do Amaral, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica, Ivan Serpa, Lothar Charoux, Waldemar Cordeiro, Aluísio Carvão, Frans Krajcberg, Arthur Luiz Piza, Aldemir Martins, Joaquim Tenreiro, Anna Letycia Quadros, Fayga Ostrower, Roberto Burle Marx, Franz Weissmann, Ubi Bava, Octávio Ferreira De Araújo, Sonia Ebling.
Expositores da Sala 3.
Faixa Protesto-Gustavo Speridião, E Leandro Barboza, Carlos Zilio, Amilcar De Castro, Antonio Dias, Bruno Dunley, Elizabeth Jobim, Andréa Hygino, Germana Monte-Mór, Maria-Carmen Perlingeiro, Iole De Freitas.
Até 21 de novembro.
Um panorama da obra de Tatiana Blass.
28/ago
Ministério da Cultura, Nubank e Instituto Tomie Ohtake apresentam Tatiana Blass – Contrarregra, com curadoria de Ana Roman e Lahayda Mamani Poma. A mostra reúne cerca de 50 obras produzidas entre 2008 e 2026, entre pinturas, esculturas, instalações, vídeos e um conjunto de trabalhos inéditos, oferecendo um panorama da produção da artista e de sua investigação sobre matéria, espaço, luz e tempo.
O título da exposição faz referência à figura do contrarregra, responsável por organizar os bastidores e criar as condições para que a cena aconteça sem ocupar o centro do palco. A partir dessa ideia, a mostra aproxima a prática da artista à lógica teatral ao apresentar obras que deslocam a atenção do resultado para os processos que tornam a imagem possível. Embora tenha a pintura como ponto de partida, sua produção se expande para diferentes linguagens – como esculturas, instalações, vídeos, performances – e materiais, como vidro, bronze, cera, cerâmica, entre outros.
Entre os destaques da exposição estão um núcleo significativo de obras inéditas, desenvolvido especialmente para o Instituto Tomie Ohtake, e trabalhos de diferentes momentos da trajetória da artista. As novas pinturas da série “Contraluz”, realizadas sobre vidro, incorporam a arquitetura, a incidência da luz e o deslocamento do visitante à própria imagem, enquanto obras das séries “Metade da fala no chão”, “Quebra-quebra”, “Nó”, “Noite-dia” e “Contrarregra” evidenciam o diálogo que a artista propõe entre pintura, escultura, som e palavra.
A transformação da matéria ocupa um lugar central na mostra. Em diferentes trabalhos, materiais como cera, vidro, bronze e cerâmica permanecem em constante estado de mudança, incorporando o tempo como parte da própria obra. Em vez de apresentar formas definitivas, Tatiana Blass cria trabalhos que se alteram pela ação da luz, do calor, da gravidade ou da presença do público, fazendo da transformação um elemento constitutivo da experiência expositiva.
Desenvolvida em diálogo com a artista, a expografia transforma as salas expositivas em um espaço de encenação. A montagem incorpora dois palcos, que passam a integrar o percurso do público e estabelecem relações diretas com as obras. Mais do que elementos cenográficos, esses dispositivos evidenciam a ideia de bastidor que atravessa toda a exposição. A mostra traz ainda obras inéditas que resultam do encontro entre Tatiana Blass e o músico Kiko Dinucci. A partir de pinturas recentes da artista, os dois iniciaram um diálogo que resultou na capa do novo álbum do compositor e, posteriormente, em uma série de trabalhos desenvolvidos especialmente para a exposição.

























