Comigo ninguém pode.

06/maio

Comigo ninguém pode é o nome, em português, da Dieffenbachia, uma das plantas mais comuns nas casas brasileiras, escolhida como símbolo de proteção espiritual. A ambiguidade e o sincretismo do termo original, que também se tornou um ditado popular, podem ser interpretados como “Ninguém pode me domar”, “Ninguém pode me derrotar” ou até mesmo “Não me desafie!”, em alusão à toxicidade da planta. Na evocação espacial de “Comigo ninguém pode”, a mostra coloca em diálogo duas artistas contemporâneas engajadas na reescrita performativa das histórias coloniais: Rosana Paulino (São Paulo, 1967) e Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964). Juntos, seus trabalhos abrem a possibilidade de perceber o transcendente no visível.

Comigo ninguém pode reflete sobre a manifestação da fé e da espiritualidade na cultura brasileira, destacando sua estreita relação com a natureza e com dimensões além do humano. O projeto propõe um visceral jogo de perguntas e respostas sobre como espiritualidade e natureza são capazes de gerar um imaginário público que, ao reescrever a história, reconstrói os muros da memória e ressignifica as ruínas e feridas coloniais por meio de seres fantásticos e mágicos. Por meio de obras novas e históricas, a exposição apresenta uma realidade que desafia o racionalismo universal e os percursos predeterminados moldados pelo capital racial global.

Situada entre o tempo em espiral e as ondas tumultuosas propostas por Varejão, a mostra inclui a instalação difusa Aracnes (1996-2026), de Paulino, um muro de concreto inacabado no qual habita uma frágil rede de fios intercalados por fotografias impressas de corpos subjugados. Esta é envolvida por Still Life amid Ruin (Natureza-morta em meio à ruína) (2026), de Varejão, uma escultura pintada que expõe noventa metros lineares de transmutação voluptuosa: por meio de uma tática barroca que a artista desenvolve desde os anos 1980, o concreto torna-se carne, ouro; a madeira torna-se cerâmica, que se transforma em solo e planta. Essas metamorfoses constituem Comigo ninguém pode (2026), desenho de Paulino que dá título à mostra.

A longa tradição da cerâmica brasileira não apenas dá forma às tecelãs de Paulino, entrelaçadas com ninfas e casulos, mas também sustenta os motivos de flores-flechas e o gesso seco sobre tela deixado por Varejão ao longo do tempo, criando fissuras que atravessam a história, os azulejos e os anjos. Suspensos no alto, parecem flutuar e despencar do céu de concreto, tumultuado e moderno. Figuras ambíguas, são testemunhas das experiências de terror suturadas pelo passado colonial em Varejão, com Paisagem canibal (2003), e em Paulino, com Atlântico vermelho (2026). Ambas também observam uma mulher transformar-se em búfala e perturbam a grade do cânone ocidental ao dialogar com Une petite mort (2005), de Varejão. Juntamente com as muitas outras composições possíveis presentes nesta exposição, a cena recorrente de mulheres negras reduzidas a estereótipos ativa uma experiência regenerativa, enquanto representação das veias, sementes e raízes da sociedade brasileira.

Diane Lima, curadora.

De 09 de maio até  22 de novembro.

As cores naturais de Tito Terapia.

04/maio

A Galatea tem o prazer de apresentar “Terra, cores naturais e a potência de pertencer pelos tons”, primeira individual internacional do artista Tito Terapia (1977, São Paulo, Brasil) que abre no dia 12 de maio na Kevin Kramer Gallery, em Nova York.

A exposição reúne trabalhos inéditos de pequeno e médio formato, em que Tito mobiliza referências tanto da tradição da pintura clássica quanto da arte popular brasileira, dialogando com gêneros centrais do cânone figurativo, como a paisagem e a natureza-morta.

Suas pinturas entrelaçam memórias pessoais enquanto evocam as idiossincrasias de sua comunidade e de seu contexto social. O uso de pigmentos naturais coletados nos arredores de sua casa, na Zona Leste de São Paulo, aprofunda essa relação, incorporando a materialidade da paisagem em cada obra e reforçando a conexão entre sua produção e o território, atribuindo às telas um sentido de pertencimento e resistência.

Atuação em projetos de arte pública.

30/abr

Reforçando a presença brasileira no circuito internacional, Marcello Dantas é nomeado curador da Bienal de Vancouver, ampliando sua atuação em projetos de arte pública, como curador sênior da edição 2027–2029. A mostra, dedicada à arte pública e realizada ao ar livre na cidade canadense, terá detalhes de datas e artistas divulgados nos próximos meses. A nomeação marca o retorno de Marcello Dantas ao projeto. Entre 2013 e 2015, ele já havia participado da bienal com um trabalho de Vik Muniz, desenvolvido em colaboração com comunidades locais e grupos das Primeiras Nações.

Com trajetória que atravessa exposições, documentários e projetos imersivos, Marcello Dantas construiu uma prática ligada à relação entre arte, espaço e participação. Ao longo da carreira, organizou mostras de artistas como Ai Weiwei, Bill Viola, Shirin Neshat e Tunga, além de atuar na direção artística de projetos de grande escala. Recentemente, co-curou a edição de 2024 do Desert X AlUla, na Arábia Saudita, e mantém atuação como diretor artístico do Sfer Ik, no México. Sua experiência também inclui projetos ligados a grandes eventos, como a exposição Pelé Station, apresentada durante a Copa do Mundo de 2006 em Berlim.

Vancouver como território curatorial.

A proposta para a próxima edição da Bienal de Vancouver parte de uma leitura direta do território. Segundo Marcello Dantas, a cidade exige um olhar atento à relação entre urbanização, paisagem natural e história local, incluindo a presença das comunidades indígenas. A bienal, fundada em 2002, opera como uma plataforma de esculturas, instalações e projetos de arte pública distribuídos pela cidade. Parte das obras exibidas ao longo dos anos foi incorporada de forma permanente ao espaço urbano, consolidando o evento como um dos principais programas de arte pública da América do Norte. Para 2027-2029, o curador sinaliza interesse em projetos colaborativos e em formatos menos permanentes, com obras pensadas como experiências em transformação, ligadas a temas como pertencimento, deslocamento e ecologia.

Diálogo com um cenário internacional.

29/abr

A Gentil Carioca anuncia a participação da artista Ana Silva na 17ª edição da Sharjah Biennial, que acontecerá de 21 de janeiro a 13 de junho de 2027, em múltiplos espaços no emirado de Sharjah.

Com curadoria de Angela Harutyunyan e Paula Nascimento, a Bienal parte do tema What remains, sits restive para refletir sobre as reverberações de passados não vividos e os desdobramentos contemporâneos de projetos de emancipação.

É nesse contexto que se destaca a participação de Ana Silva, convidada por Paula Nascimento – ao lado de 109 artistas de diferentes geografias – para desenvolver um trabalho comissionado para a Bienal. Sua presença reafirma a força e a relevância de sua pesquisa, agora em diálogo com um cenário internacional ampliado e com debates urgentes em torno de história, território e imaginação política.

Sobre a artista.

“Ao bordar nossas humanidades sublimes e obscuras nesses rostos semi-abstratos, Ana Silva nos lembra gentilmente que a reapropriação de nossas memórias para melhor construir nosso futuro é um trabalho de corpo a corpo, de coração a coração.”

Charlotte Diez-Bento

Ana Silva vive e trabalha em Lisboa, Portugal, expressa sua criatividade por meio da diversidade de materiais que utiliza. Tela, madeira, metal, tinta acrílica e tecido são elementos que compõem e dão forma à sua arte. Durante suas caminhadas pelos mercados de Luanda, começou a distorcer o uso primário de sacos de ráfia e outros artefatos para um trabalho de memória; de objetos abandonados a objetos revividos: “Não consigo separar meu trabalho da minha experiência em Angola, em uma época em que o acesso a materiais era difícil devido à guerra de independência e à guerra civil. Minha criatividade nasceu da exploração de meu ambiente imediato. Essa experiência teve um grande impacto em minha maneira de trabalhar e em minha vida de modo geral.”

Adriana Varejão e Rosana Paulino em Veneza.

23/abr

Brasil aposta em força feminina e espiritualidade no Pavilhão de Veneza. O projeto curatorial reúne duas das artistas mais importantes do país em um diálogo inédito sobre memória, fé e colonialidade.

A Fundação Bienal de São Paulo anunciou o projeto curatorial do Pavilhão do Brasil na Biennale Arte 2026, que será ocupado integralmente pelas artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino. Intitulada “Comigo ninguém pode”, a exposição tem curadoria de Diane Lima e propõe um encontro inédito entre duas trajetórias fundamentais da arte contemporânea brasileira. Realizada em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, a participação brasileira conta com patrocínio da Petrobras.

Inspirada na planta popular que dá nome à mostra – símbolo de proteção e resiliência -, a exposição parte de uma dimensão sensível e simbólica para articular questões ligadas à história, espiritualidade e natureza. Em uma abordagem instalativa, o projeto rompe com a linearidade do tempo e coloca em diálogo obras históricas e produções inéditas das artistas, abordando feridas coloniais, processos de transformação e a construção de imaginários no Brasil.

A expografia, assinada por Daniela Thomas, foi concebida em diálogo direto com a arquitetura modernista do Pavilhão do Brasil, projetado em 1964 por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral. A proposta é ativar o espaço como parte da experiência, com obras que se distribuem de forma não convencional, criando percursos sensoriais e aproximando pintura, escultura e desenho de uma dimensão quase performativa.

Ao reunir mais de três décadas de produção de ambas as artistas, “Comigo ninguém pode” enfatiza tensões e aproximações simbólicas, materiais e cromáticas. Enquanto Rosana Paulino investiga memória, corpo e reconstrução a partir da experiência da mulher negra, Adriana Varejão explora, por meio da pintura, simulações de materiais como carne, azulejo e concreto. O encontro entre as duas artistas constrói uma narrativa potente sobre identidade, história e imaginação, projetando o Brasil no centro do debate contemporâneo internacional.

Fonte: Das Artes.

O vídeo comissionado de Rose Afefé.

A Gentil Carioca noticia que a artista Rose Afefé participa da 61ª edição da Bienal de Veneza como parte de The Message Is in the Pattern, terceira edição do Post-National Digital Pavilion – programa digital desenvolvido pelo Institute of International Visual Arts (iniva) em colaboração com o British Council.

Desenvolvido em diálogo com a comissão do Pavilhão Britânico de Lubaina Himid, o projeto reúne artistas convidados a desenvolver novas obras digitais que exploram práticas sociais e artísticas, engajamento comunitário e processos de tradução cultural.

Nesta edição, Rose Afefé participa com mais duas artistas Anya Paintsil (Reino Unido) e Rajyashri Goody (Índia). Com curadoria de Beatriz Lobo, Rose apresenta um novo trabalho em vídeo comissionado no âmbito do programa.

Para quem não sabe, ela é a mulher que construiu uma cidade sozinha. Luiz Zerbini, 2024.

Rose Afefé nasceu em Varzedo, no interior da Bahia, em 1988. A partir do resgate de memórias da infância, a artista trabalha em várias mídias, incluindo instalação, pintura e fotografia. Iniciou em 2018 a construção da obra Terra Afefé, uma microcidade em escala humana construída com terra, utilizando a técnica do adobe (tijolo de barro cru) e pintada com cal. Situada na zona rural de Ibicoara, Bahia, na região da Chapada Diamantina, Terra Afefé se apresenta como um lugar de encontro e convivência, que relaciona arte e vida e fomenta perspectivas locais a fim de potencializar os saberes do território. A observação e a interação com a natureza são empregadas para conduzir produções de vida mais pulsantes e espontâneas. A poética desse território desdobra-se, por fim, na produção e fabulação imagética que cerca o fazer artístico de Rose Afefé.

Exposição internacional de Dani Cavalier.

22/abr

A Galatea tem o prazer de apresentar “Dani Cavalier: Tramadas”, primeira exposição internacional de Dani Cavalier, que abre no dia 23 de abril na LLANO, na Cidade do México. Realizada no contexto de um intercâmbio entre a LLANO e a Galatea, galeria que representa a artista, a mostra reúne trabalhos que integram a pesquisa de Dani Cavalier em torno das chamadas “pinturas sólidas”; Nelas, os limites entre pintura, escultura e instalação são tensionados por meio da justaposição de blocos de cor em tecidos reaproveitados.

Ao mesmo tempo em que partem de elementos estruturais da pintura convencional, como tela, chassi, cor e composição, as pinturas sólidas os subvertem. No lugar de tinta e pincel, a artista utiliza retalhos coloridos de Lycra, vindos da coleta de resíduos da produção do período em que esteve à frente de uma marca de moda praia.

Na mostra na LLANO, destacam-se séries que ampliam as possibilidades formais e conceituais de sua prática. Em “As Tensas”, Dani Cavalier trabalha com pedaços maiores de Lycra. As linhas não são recortadas, mas construídas pela força elástica do material ao ser grampeado ao chassi – gesto tradicional do preparo da tela que, aqui, antecede e já constitui a própria pintura. As transições entre cores evocam tanto a fisicalidade investigada pelo neoconcretismo, em diálogo com Lygia Clark, quanto a proximidade com as dobras e inflexões do corpo.

Já a série “Marquinha” parte da observação de que mesmo em materiais industriais, variações sutis de tonalidade podem ocorrer entre as produções dos lotes de lycra. A partir dessa constatação, a artista desenvolve composições que exploram variações de branco sobre branco e preto sobre preto, incorporando no título a referência às marcas deixadas pelo sol na pele.

Simone Ronzani estreia no Fuorisalone de Milão.

17/abr

Orientada pela potência estética e estrutural das fibras e matérias orgânicas, a artista visual Simone Ronzani estreia, em 2026, no Fuorisalone de Milão – um dos mais relevantes eventos de design do mundo – com a luminária-escultura “Musa Tropical”. Integrando a curadoria de Pedro Gallasso, a peça traduz pesquisa recente da artista sobre fibras naturais, luz e brasilidade contemporânea.

Entre arte, design e experimentação material, Simone Ronzani transforma um resíduo natural em paisagem luminosa. A obra celebra a abundância e a inteligência da natureza tropical, onde fibra, estrutura e luz se encontram para anunciar o nascimento de um novo ciclo – quando a matéria outrora viva ressurge sob outra forma e ganha nova presença no mundo.

Sobre a artista.

Após mais de duas décadas de atuação como jornalista, Simone migrou para as artes visuais há apenas três anos, construindo, em curto espaço de tempo, uma trajetória consistente e autoral. Nesse período, participou da Casa Cor 2024 com cinco peças no ambiente Estúdio da Estilista, assinado pela arquiteta Marcela Martins; teve três estampas licenciadas para o Cristo Redentor; assinou a instalação artística Pomar Tropicália, premiada como Hors Concours na mostra Morar Mais Rio 2025; e teve o projeto Jardim Carioca selecionado pelo Programa Novos Talentos Brasileiros 2025. Também em 2025, destacou-se com nove peças exclusivas na Casa Design Niterói. Fundadora do ateliê Casa Auguri!, sua produção transita entre arte, design e fazer manual, com foco em narrativas de brasilidade contemporânea.

Miguel Afa em Roma.

23/mar

 

O artista Miguel Afa abre, no dia 24 de março, a exposição solo “O tempo que vive em mim”, uma colaboração entre A Gentil Carioca (Rio de Janeiro e São Paulo) e a galeria italiana rhinoceros, em Roma, Itália. As pinturas foram concebidas e produzidas durante residência artística no espaço, especificamente para esta exposição, e serão apresentadas pela primeira vez.

A série reflete experiências cotidianas de Afa no Rio de Janeiro e em Roma e abrange as relações entre vida, memória e lugar. Como afirma o artista: “Memória é um corpo: saudade é um quintal”, evocando um território afetivo onde memórias, experiências e desejos se encontram.

Até 03 de junho. 

Projeto brasileiro contemplado em Nova York.

11/mar

Artistas brasileiras apresentam exposição inédita em Nova York. Mostra foi o único projeto brasileiro contemplado no edital da Apexart, que teve 658 inscritos de todo o mundo.

Será inaugurada no dia 27 de março a exposição inédita “O útero também é um punho”, na Apexart, instituição educativa e cultural localizada em Nova York, 291 Church St. NYC. Com curadoria de Talita Trizoli e Renata Freitas, a mostra terá cerca de 30 obras de dez artistas brasileiras e de uma argentina radicada no Brasil, feitas em diferentes suportes, como pintura, desenho, escultura, instalação, vídeo e performance, que discutem os direitos reprodutivos das mulheres. Paralelamente à exposição, serão realizadas diversas atividades, como performances, visita guiada, roda de conversa e oficina artística.

A exposição apresentará obras das artistas Guillermina Bustos, Leíner Hoki, Leticia Ranzani, Liane Roditi, Ludmilla Ramalho, Mariana Feitosa, Natali Tubenchlak, Raffaella Yacar, Renata Freitas, Rikia Amaral e Rosa Bunchaft, todas integrantes do coletivo G.A.F. (Grupo de Acompanhamento Feminista). Elas são oriundas de diferentes estados brasileiros, como Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com realidades diversas, mostrando que as discussões sobre o tema perpassam a localidade, idade e raça. 

Mesmo sendo um tema extremamente importante e que vem ganhando cada vez mais discussões na sociedade, no campo das artes visuais ele ainda é muito restrito. Desta forma, a exposição vem cobrir esta lacuna. 

O nome da exposição é uma referência ao poema da brasileira Angélica Freitas, “O útero é do tamanho de um punho”.

Até 23 de maio.