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AGENDA CULTURAL

Gabriela Machado em Ribeirão Preto

A Galeria Marcelo Guarnieri, Ribeirão Preto, São Paulo, SP, apresenta a exposição “Um olhar viajante” da artista Gabriela Machado. Em sua primeira individual na galeria, Gabriela Machado exibe uma seleção recente de desenhos, pinturas e esculturas. Os desenhos e pinturas se apresentam quase sempre em grandes formatos, ocupando o espaço com cores cítricas. A tinta aguada cria uma fluidez aos trabalhos, que tem origem através de uma poética que se cria pelo pensar e fazer concomitantes, fazendo dela não um reflexo da natureza, mas sim uma reflexão do que nela está embutido. Já as esculturas aparecem como um desdobramento deste pensamento poético, elas saem das pinturas e retornam a elas, com o desafio de fazer uma construção através de um material que não é fluido, que necessita de força bruta, que não surge do imediatismo, onde é necessária a percepção da necessidade do tempo, passando pela percepção de como estar no mundo, de como se inserir no espaço.

 

 

 

Sobre a artista

 

Gabriela Machado nasceu em 1960 em Santa Catarina, atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. Dentre as diversas exposições em que participou, destacam-se as recentes: “Cadência”, Paço Imperial, Rio de Janeiro – Brasil, 2012; “Os jardins de Lisboa em Gabriela Machado”, Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa – Portugal, 2011; “Doida disciplina”, Caixa Cultural Rio de Janeiro e São Paulo – Brasil, 2009.

 

Gabriela Machado – Um “Olhar Viajante”, Criando Sempre

 

 

Texto de Jorge Emanuel Espinho

 

Tantas e tantas vezes verificamos – num qualquer percurso artístico de que somos testemunhas -, a coerência e o recorte formal característicos desse criador funcionarem como pragmáticas e invioláveis prisões, que por fim encerram e limitam a própria liberdade criativa do artista. Sua pretensa liberdade fica assim reduzida e rebaixada apenas a uma teórica possibilidade nunca exercida. Se naturalmente esperamos e aplaudimos uma prática livre e inclusiva como parte fundamental da ação do artista, é com frustração e pesar que vemos se vulgarizar um encerramento da sua criatividade bem dentro da própria obra, assim feita percurso a respeitar e prosseguir, assim feita limitação e fronteira, encerramento e repetição. Muitas e demasiadas vezes, o próprio caminhar do artista se faz numa paisagem imutável e esterilizada, em derrapagem de infinito desdobramento dos seus temas e pressupostos, métodos e meios; sem que assim se veja avanço ou diferença, inovação ou aventura…

 

Questões como as lógicas do mercado ou o reconhecimento são muitas vezes apontadas como responsáveis por essa repetitiva continuidade. Aqui preferimos enaltecer e sublinhar a coragem voluntariosa face ao risco da mudança – que presenciamos fortemente nesta exposição -, e a lúcida autocrítica, como alvos a perseguir e alcançar. Uma positiva ambição criativa da artista promove, nesta mostra, novos experimentos, fazeres e avanços.  Será essa, julgamos, a mais elevada razão e motivação do ser criativo.

 

O trabalho de Gabriela Machado vem do desenho e da pintura – e de uma pintura em que o traço é desenhado, livre, expressivo e grosso, tantas vezes fluido e aquoso -, na manifestação solta de uma energia vital que parece querer ser, desde sempre, o grande sujeito escondido, o grande alvo principal, do trabalho da artista. Reconhecida pelas suas grandes pinturas de flores que sempre recusaram ser apenas isso – e que antes se reconfiguram num aquático escorrimento sensual de côr e de encontro, como exemplos momentâneos e poéticos da força delicada e firme que as habita, suspensas em branco vazio -, a artista apresenta nesta mostra individual o lugar múltiplo em que agora se encontra. Ou melhor, que para si criou e permitiu, generosa e disponível, experimentando e abrindo para si própria – e para nós com ela -, o seu mais novo, desse seu agora.

 

Poderíamos, na nossa imparável ânsia de nomear, chamar a esse lugar de Cruzamento, pois nele muito se encontra e cruza, e dele muito em futuro já se descobre. Ou Farol, suspeitando e vislumbrando também já outras paisagens, ainda mais longe, a iluminar criando. Ou talvez Sentido, já que o suave tacto da mão que mexe o barro, traz outro sentir/saber nesse fazer, que é um olhar novo a experimentar: avançando, tacteando, sempre em improviso. Sublinhe-se desde já, que quer seja nas pequenas esculturas ou nas maiores – mais recentes, das quais encontramos um exemplar produzido na própria galeria para esta mostra -, a artista manipula diretamente agora, sem tela mediando, a tal força vital que bailava ébria em suas pinturas. Com simultânea intimidade curiosa e descoberta, familiaridade e novo encontro, aprofundamento e maior leveza.

 

Parece acontecer aqui, e no percurso já longo da artista, uma gradual aproximação ao âmago do acontecimento, seu centro físico, sua origem. Pois se o seu trabalho revelava o resultado pictórico de eventos e manifestações registrados no seu olhar o mundo; agora surge um fazer mais delicado e artesanal, noutro sensível; resultado do encontro com esse mesmo centro. Este centro é, ou torna-se aqui, e claramente reunidos: dispersão e fonte, intenção e forma, corpo e função, lazer e essência. Apetece dizer que, ao contrário de se deixar levar por percursos e passeios lógicos e inócuos pela própria obra, a artista recua em profundidade, avançando: aproximando-se e dando o íntimo corpo que é seu, a esse manancial etéreo de cuja natureza nos foi, ao longo dos anos, sussurrando e discorrendo.

 

Podemos afirmar que se aqui arriscamos essa difusa fonte enquanto origem de sua obra, com maior firmeza dizemos que para onde esta vai e seguirá será mistério a ser desvendado com incerteza e parcimonia. E talvez seja esta a grande qualidade processual a que assistimos nesta mostra: o raro momento de intersecção e cruzamento entre um passado de leitura do real, e o futuro da sua nova escrita que aqui a artista esboça.

 

Onde antes se descrevia inventando, agora se cria a construir; onde se cantavam qualidades agora se afirma a realidade, sempre em seu forte potencial infinito. Por fim, o eterno bailado hipnótico da cor e forma, deu lugar ao sumário espesso do que tudo cria: barro, mão, órgão.

 

Para nós que agora olhamos, mais de longe a querer ver, esta é a fundamental lição de (des)educar o olhar. Talvez para um dia, depois, melhor o (re)criar. Nas palavras de Gabriela Machado, é esse “Olhar Viajante” que aqui se nos apresenta. Orgânico, mais solto, mais fundo e transformado, agora talvez, em Criando Sempre.

 

 

Até 18 de abril.

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