Catálogo de Sidney Amaral

18/mar

Em cartaz no Museu Afro Brasil, Instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, Parque do Ibirapuera, São Paulo, SP, o artista plástico Sidney Amaral lança catálogo da exposição “O Banzo, o Amor, e a Cozinha de Casa” e participa do projeto “Encontro com Artista”, no próximo dia 21 de março, a partir das 14h.

 

Ao longo do encontro com o público, Sidney Amaral falará sobre sua trajetória, concepção de arte, obra e processo de trabalho, o diálogo ocorrerá no Teatro Ruth de Souza. “Quero falar um pouco sobre minha presença no mundo, como homem negro e cidadão brasileiro, mas também como busco no meu trabalho, através dos afetos, falar de amor, de frustrações e de reencontros possíveis”, afirma o artista plástico.

 

“O projeto Encontro com Artista promove uma interlocução entre os visitantes e o convidado, com o objetivo de ampliar as possibilidades de apreciação estética do participante, a partir do contato com a obra e com a história do artista”, explica Neide de Almeida, coordenadora do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil.

 

Logo após, Sidney Amaral lança o livro-catálogo da exposição “O Banzo, o Amor, e a Cozinha de Casa”., em cartaz no Museu Afro Brasil, da qual fazem parte cinquenta pinturas, desenhos e esculturas. O livro tem prefácio do diretor curatorial Emanoel Araújo e texto crítico do professor e artista plástico Claudinei Roberto.

 

“A grande exposição de Sidney Amaral no Museu Afro Brasil traz surpreendentes apelos “no bom sentido da palavra”, por conta dos muitos caminhos propostos por ele”, afirma Emanoel Araujo.

 

“O livro é resultado de 15 anos de meu trabalho em escultura, pintura e desenho e foi realizado com patrocínio do Prêmio Funarte de Arte Negra 2012, do qual eu fui vencedor”, explica Sidney Amaral.

 

 

A exposição permanecerá em cartaz até 26 de abril.

Manoel Santiago, mestre impressionista

O Centro Cultural Correios, Centro, Rio de Janeiro, RJ, promove a exposição “Manoel Santiago, mestre impressionista”. A mostra, sob a curadoria de Angela Ancora da Luz, revela o trabalho de um artista emblemático da arte no Brasil a partir da década de 1920. Discípulo de Eliseu Visconti, também foi aluno de Rodolfo Chambelland e Baptista da Costa na Escola Nacional de Belas Artes. Depois de uma temporada de cinco anos em Paris, tornou-se professor do Instito de Belas Artes e lecionou, ainda, no Núcleo Bernardelli para alunos como José Pancetti, Milton Dacosta, entre outros.

 

Manoel Santiago foi um dos primeiros artistas a trabalhar com a diluição da pincelada, aproximando-se dos impressionistas, o que faz dele um pioneiro da arte no Brasil. A mostra “Manoel Santiago, mestre impressionista”, procura apresentar obras de todas as fases da vida artística do pintor, desde a inspiração em nossas lendas e a memória da vibrante natureza da floresta amazônica, até as diferentes paisagens do Rio de Janeiro, quando a diluição da pincelada o aproxima dos impressionistas franceses. O modelo vivo, a figura humana e o retrato foram por ele interpretados sob a mesma luz que atravessa a atmosfera e promove o brilho da paisagem. Nesse sentido, a exposição “Manoel Santiago, mestre impressionista” revela um dos mais significativos artistas brasileiros que, através de seu trabalho, revela páginas da arte brasileira fundamentais para a compreensão de sua história e importância.

 

Segundo a curadora Angela Ancora da Luz a obra de Manoel Santiago “…é fundamental para entendermos os rumos da construção de nossa modernidade. Ele parte da fragmentação da pincelada, como os impressionistas, e, explorando os efeitos da luz registra resíduos icônicos, sugestões de figuras que caminham na direção da desmaterialização para se fixarem apenas por meio da tinta na superfície da tela, como em “O Kosmo” de 1919″.

 

A produção da mostra é de Anderson Eleotério e Izabel Ferreira – ADUPLA Produção Cultural, que vem realizando diversas exposições no Brasil, como: Athos Bulcão, Farnese de Andrade, Milton Dacosta, Raymundo Colares, Bandeira de Mello, Carlos Scliar, Debret, Aluísio Carvão, Mário Gruber, Antonio Bandeira, Nazareno Rodrigues entre outros. Patrocínio: Correios.

 

 

Sobre o artista

 

Manoel Santiago nasceu em 1897 em Manaus e faleceu em 1987 no Rio de Janeiro. Cursou a Faculdade de Direito e foi aluno do Curso Livre da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Produziu intensamente ao longo de sua vida, sendo presença destacada nos mais significativos momentos da construção de nossa modernidade. Discípulo de Rodolpho Chambelland e Batista da Costa, quando freqüentou a Escola Nacional de Belas Artes, buscou a direção da fragmentação da pincelada, da luz e da cor que caracterizariam sua paleta. Recebeu aulas particulares de Visconti e obteve o Prêmio de Viagem do Salão Nacional de Belas Artes em 1927, indo para Paris. Em sua volta passa a lecionar no Núcleo Bernardelli, a partir de 1934, tornando-se mestre de Pancetti, Edson Motta, Bustamante de Sá, Milton Dacosta e demais pintores nucleanos, que, a exemplo dos impressionistas, buscavam a pintura plein air, as atmosferas luminosas e a natureza com seus brilhos fugidios, domínio absoluto de Manoel Santiago. Casou-se com Haydéa Santiago, também pintora, que comungava com ele dos mesmos ideais.

 

 

Até 03 de maio.

Gonçalo Ivo na Espanha

11/mar

O pintor Gonçalo Ivo, radicado há 15 anos em Paris, realiza exposição individual na Galeria Materna y Herencia, Calle Ruiz de Alarcon 27, em Madrid, Espanha. Para esta ocasião, o artista selecionou 20 obras distribuídas entre pinturas em diversas dimensões e um conjunto de objetos pintados. Durante o evento, será lançado um livro de autoria de Martin Lopez-Vega sobre o trabalho recente de Gonçalo Ivo, com o selo da editora Papeles Mínimos, de Madrid.

 

 
A palavra de Martin Lopez-Vega

 
“…há uma geografia em sua pintura, fragmentos de musica, sons da selva e das ruas de Paris, marcas da pintura de Zurbaran e Ribera como também todas as cores do mar grego. A obra de Gonçalo Ivo, apesar de abstrata, contém um ritmo interno sutil e dela emana uma partitura pictórica que sugere lugares, lembranças, fatos ligados ao inconsciente.”

 

 
Sobre o artista

 
Foi aluno do pintor  Aluísio Carvão no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro nos anos 70. Recentemente expos na prestigiosa Galerie Boulakia em Paris onde obteve grande repercussão na mídia, inclusive uma extensa matéria no jornal Libération. Baseado em Paris, Gonçalo Ivo desenvolve uma carreira com sólidos resultados na Europa.

 

 
Até 31 de março.

Bienal de Veneza

09/mar

Marcada para maio, a Bienal de Veneza acaba de anunciar a lista de artistas de sua mostra principal. Sônia Gomes, artista conhecida por sua obra delicada e a técnica do bordado, é a única brasileira no elenco da mostra organizada pelo nigeriano Okwui Enwezor.
Na lista de 136 artistas da mostra estão nomes polêmicos, como a performer cubana Tania Bruguera, mantida em prisão domiciliar em Havana desde a virada do ano pela tentativa de fazer uma performance na praça da Revolução, e o coletivo Gulf Labor, que denuncia abusos aos operários em obras como a filial do Guggenheim em Abu Dhabi.
Além de Sônia Gomes, outros quatro brasileiros estarão em Veneza: André Komatsu, Antonio Manuel e Berna Reale, no pavilhão brasileiro, e Tamar Guimarães, brasileira radicada em Copenhague, que terá uma obra no pavilhão belga.

 

Fonte: Silas Martí

Nara Roesler exibe Fabio Miguez

05/mar

A Galeria Nara Roesler, Jardim Europa, São Paulo, SP, abriu seu calendário de exposições de 2015 em SP trazendo a mostra “Horizonte, Deserto, Tecido, Cimento”, que engloba a nova produção de Fabio Miguez, nome consagrado da geração dos anos 1980. Um dos integrantes do antológico ateliê Casa 7 ao lado de Nuno Ramos, Rodrigo Andrade, Carlito Carvalhosa e Paulo Monteiro, Miguez traz à galeria o resultado produzido nos últimos dois anos de uma pesquisa que remonta a 2009.

 
A partir dessa época, o artista desenvolveu uma imagética concisa, unindo uma iconografia geométrica própria a palavras extraídas, num primeiro momento, de poesias de João Cabral de Melo Neto, entre outras fontes. “Busquei João Cabral porque suas poesias são secas, limpas, de característica substantiva. Quando as palavras são muito bonitas, podem dar um ar de mau gosto”, afirma Miguez.

 

Na definição de Tiago Mesquita, que escreveu o texto de apresentação da mostra, “Não é por acaso que Miguez, para compor essas imagens, se valha de figuras e temas retirados das pinturas de Piero della Francesca e Henri Matisse. Da mesma forma que toma emprestadas palavras dos textos de João Cabral de Melo e Samuel Beckett. O artista elenca um repertório de fragmentos apropriados ou inventados que são sintéticos, diretos. Eles nos sugerem essa beleza que tem algo de vaga, algo de uma memória que se esvai rapidamente. É um telhado, que será um trapézio, uma diagonal, um cinza, um horizonte de partida”.

 

De fato, o que se constata em suas telas atuais é uma destreza límpida na composição com elementos geométricos e de escrita. As formas criadas não ferem a superficialidade da pintura, que, mesmo ao oferecer perspectiva, não se insinua para além da bidimensionalidade. A aparente crueza do traço disfarça a exímia qualidade pictórica, que nesse conjunto é constituída pela sobreposição de camadas finas, parecendo esgarçar-se e permitindo o vislumbre da camada anterior.

 

É que nesses trabalhos, mais do que na maestria do que está visível, o sentido surge além, fora do plano. No encontro entre figuras rudimentares e a escrita substantiva e despida de floreios, o artista situa a tensão entre o que se pode visualizar e os sentidos inerentes aos signos impressos. Os elementos gráficos são reincidentes, como se o artista criasse seu próprio universo, seu léxico particular.

Mesquita define: “É como alguém que, ao te contar de um dia feliz, enumera algumas lembranças dispersas: o clima estava quente, o céu era azul, estava deitado diante de uma parede inclinada. Alguma experiência desse sujeito é contada, mas o que chega a nós são os resíduos: fragmentos soltos com pouca relação entre eles. Não temos uma dimensão íntegra do espaço recriado. Ele parece sem amarração. Como se estivesse a se dissipar e dar lugar ao deserto”.

 

Assim, o espectador é surpreendido pelo hiato que subverte a visão viciada e cotidiana. Nas palavras do crítico Lorenzo Mammi, Fabio Miguez não vai “aderir a um sistema geral de comunicação, em que todo traço é signo de alguma coisa, e sim, ao contrário, fazer com que cada signo se torne traço, ou seja, participa de uma configuração da qual não faria sentido separá-lo, e que modifica ao mesmo tempo em que é modificado por ela.”

 

 

Coleção Figueiredo Ferraz

 

 

Paralelamente à exposição composta de pinturas inéditas, será apresentada no espaço anexo uma mostra com seis obras compostas de óleo e cera sobre diferentes suportes – madeira, vidro, tela, papel – além de uma fotografia. Todos os trabalhos fazem parte da coleção Figueiredo Ferraz, um dos principais acervos do país, pertencente aos colecionadores Dulce e João Carlos Figueiredo Ferraz e localizado na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo.

 

Aberto para visitas individuais ou em grupos, o acervo conta com cerca de mil obras e fica parcialmente aberto para visitação do público no IFF (Instituto Figueiredo Ferraz), espaço localizado no bairro Alto da Boa Vista, aberto em 2011 e concebido para difusão de arte e cultura na cidade.

 

O colecionador tinha um contato muito próximo com os artistas da Casa 7 desde o início do ateliê, fundado em 1982. Foi de artistas como Miguez os primeiros exemplares de sua coleção, iniciada na década de 1980, período em que Ferraz já visitava ateliês e residências de artistas. Entre as obras apresentadas na mostra paralela estão trabalhos representativos de diversas décadas da produção do artista.

 

 

Até 28 de março.

Três exposições de Baravelli

04/mar

A Galeria Marcelo Guarnieri apresenta uma série de exposições do artista Luiz Paulo Baravelli. A primeira será aberta no dia 07 de março na unidade da galeria em Ribeirão Preto, no mesmo dia o Instituto Figueiredo Ferraz apresenta a retrospectiva “Objeto versus espaço, abstração versus empatia” e a terceira exposição será na unidade da galeria em São Paulo e acontecerá no dia 11 de abril.

 

 
Texto do artista

 

 
Escrevo algumas notas a respeito da exposição; notas soltas em vez de um texto corrido com começo, meio e fim; principalmente porque não quero chegar ao fim!

 
– Anedota (apócrifa?): o pioneiro cineasta russo Serguei Eisenstein fazia filmes muito longos, com três, quatro horas de duração. Quando os exibidores quiseram reduzi-los às duas horas de praxe, Eisenstein reagiu: “Se quiserem cortar meu filme, que cortem no sentido do comprido. Só vão ver meia tela de imagem, mas vão ter a história toda!”

 
– Creio que a palavra “retrospectiva” significa um olhar para trás. Talvez tecnicamente esta exposição seja isso, na medida em que inclui trabalhos dos últimos cinqüenta anos. Mas… estive lendo um pequeno livro que conta a trajetória de Piet Mondrian. Ele começou fazendo paisagens bem figurativas, lá por 1908, 1909 e foi gradualmente simplificando, depurando, geometrizando e, passando pelas abstrações que conhecemos, chegou até a síntese de “Broadway Boogie-Woogie”, em 1943. Imagino que teria sido impossível para ele em 1943 voltar a fazer uma pintura figurativa como as de 1909, 34 anos antes.

 
Sem me comparar a ele, é perfeitamente possível que em 2015 eu, com naturalidade, volte a fazer uma pintura como a “Luis XV”, de 1966. Estes 49 anos de intervalo não tornam (para mim, pelo menos) esta pintura obsoleta, esta palavra que o Modernismo tornou terrível. Com a noção retro assim em cheque, como se pode então dar um nome a esta exposição?

 
– “Se uma coisa começa, começou. Se começou, é assim mesmo”. (Gertrude Stein)

 
– Durante estes cinquenta anos, trabalhei imerso em uma situação onde todo mundo sabe tudo e ao mesmo tempo ninguém sabe nada (eu inclusive). É um exagero retórico, mas dá para saber do que estou falando.

 
– Resumindo um texto de Christoph Asendorf: É comum nos estudos de percepção mostrar às pessoas o desenho em perspectiva isométrica de um cubo. Como as arestas são paralelas a vista não consegue se decidir se ele é côncavo ou convexo. Ver as duas situações ao mesmo tempo é impossível. Diz ele: “Se o cubo é visto como convexo ele se torna um objeto (abstração), se é percebido como côncavo é um espaço (empatia).”

 
Objeto versus espaço, abstração versus empatia pode ser uma porta dupla para entrar nesta exposição.

 
– Trabalho à noite porque é quando a luz está do lado de dentro.

 
– Se há um personagem de ficção com o qual me identifico é com a Sherazade.

 

– Para um visitante que não conheça meu trabalho esta exposição pode trazer uma perplexidade. A variedade do trabalho é enorme e, sem consultar as etiquetas, é difícil adivinhar as datas em que as obras foram feitas. Penso uma explicação que pode ser redutiva, mas serve para começar: lá atrás, no começo da década de 60 me propus a ter uma sensibilidade em vez de ter um método.

 
Naquela época predominava aqui o concretismo, com suas regras, rigores e tabus. Visitando as exposições deles eu pensava : o que estes artistas fazem quando não estão pintando? Será que andam na rua, olham para as pessoas e as coisas? Por que isso não aparece no trabalho? Porque não enfrentam o mundo em sua riqueza e complexidade em vez de se confinar a uma clausura árida e metódica?

 
Quando completei 60 anos, a guisa de balanço fiz uma lista de minhas influências e referências, artistas de todo tipo que vieram antes de mim e com os quais aprendi algo. Entre os trezentos e tantos nomes, Millôr Fernandes, com seus aforismos enganosamente simples: “Livre pensar é só pensar”, “Enfim, um escritor sem estilo”, etc. Li essas coisas ainda moço e adotei, porque me pareceu óbvio. E quando, juntamente com Fajardo, Nasser e Resende, conheci Wesley Duke Lee, em 1964, percebi nele uma atitude semelhante. Sem hesitar o nomeei meu mestre e os dois anos de estudos seguidos de outros de colaboração e amizade foram decisivos para que eu escolhesse meu caminho. Desisti do curso de arquitetura (desistimos, todos os quatro) porque a noção de liberdade e autonomia que Wesley emanava, me “condenou à liberdade”, para usar a frase de outra pessoa de minha lista. Quando, mais tarde, já na década de 70 Fajardo, Nasser, Resende e eu fizemos a Escola Brasil nossa intenção foi colocar os alunos diariamente nesta situação de liberdade informada e consciente.

 
No meu trabalho pessoal no atelier, como na Escola, liberdade não significa falta de critério e que qualquer coisa valha. A liberdade significa também determinar o próprio território. Assim consciente e deliberadamente restrinjo meu trabalho a desenho e pintura, que é meu “soft spot”, a área onde me sinto confortável e eficiente. As experiências em três dimensões do início da carreira foram rareando porque percebi que as peças não resultavam escultóricas, mas pictóricas, como que pinturas e desenhos no espaço. Esculturas são coisas, objetos sólidos e concretos; percebi que o meu mundo é o mundo impalpável da imagem, filha da imaginação.

 
Liberdade gera autonomia e isso tem um primeiro preço: o isolamento. Não conheço outro artista que esteja fazendo um trabalho semelhante ao meu e assim prossigo sozinho. O segundo preço é uma decorrência: eu sou o assunto do meu trabalho.  Dizendo assim parece cabotino e pretensioso, mas explico, com um exemplo: um repórter, vendo um fato qualquer, digamos um atentado terrorista, não pode ignorá-lo e vai relatá-lo com a maior objetividade possível evitando qualquer subjetividade. Já um artista tem uma espécie de dupla personalidade: ele é uma pessoa comum que coexiste no mesmo corpo com um artista, um ‘percebedor/fazedor residente’. O artista vai tentar perceber se esse fato realmente atingiu a pessoa. Se for sensível e honesto pode chegar à conclusão politicamente incorretíssima que não está se importando a mínima com o atentado, mas que naquele mesmo dia foi tocado inexplicavelmente por outra coisa completamente diferente, a sombra que uma árvore projetava no muro da casa e vai tratar disso. Ele não ignora o atentado, apenas percebe e deve ter a coragem de assumir que há um nível acima do óbvio. Um artista não é um repórter, não é um divulgador de boas causas nem um designer que precisa atender a solicitação de um cliente. Não tenho editor nem causas a defender e nem clientes, só minha sensibilidade. É difícil, às vezes.

 
São cinquenta anos dessa atitude que estão à mostra no Instituto Figueiredo Ferraz e nas duas unidades da Galeria Marcelo Guarnieri – Ribeirão Preto e São Paulo.

 
Luiz Paulo Baravelli, fevereiro, 2015

Esculturas de Roberto Hötte

03/mar

O Museu Afro Brasil, Parque do Ibirapuera, Portão 10, São Paulo, SP, apresenta um dos novos nomes das artes plásticas brasileiras com a exposição “Roberto Hötte – Um Escultor de Art Brut”. A mostra é composta por 24 esculturas inspiradas no poema “Os Peixes” da norte-americana Marianne Moore, uma das mais importantes poetisas do século XX.

 
O termo francês art brut (arte bruta, em tradução literal) identifica a produção artística de criadores livres de qualquer influência de estilos oficiais, incluindo as diversas vanguardas, ou das imposições do mercado de arte. Criada em 1945, a expressão é de autoria do pintor Jean Dubuffet.

 
“Com esta exposição o Museu Afro Brasil segue com o propósito de trazer ao público a nova leva de artistas do país”, afirma Emanoel Araujo, diretor curatorial do Museu Afro Brasil. Entre as artistas da nova geração, o museu apresentou a exposição “Horizonte Daqui”, de Carolina Caliento, no ano passado. Atualmente está em cartaz “O Banzo, o Amor e a Cozinha de Casa”, de Sidney Amaral, vencedor do Prêmio Funarte de Arte Negra 2012. “A obra de Hötte faz a sua imaginação viajar por caminhos vários: ora popular; ora erudito; ora artesanal na sua feitura; ora se expressa com uma erudição e sabedoria na organicidade de planos cheios e vazios; ora a cor aparece e se repete como um tecido maleável; ora se organiza como textura rígida que forma uma rigidez à procura do espaço, como se quebrasse seus limites nesse mesmo espaço”, afirma Emanoel Araujo.

 
A exposição de Roberto Hötte é composta por 24 esculturas, realizadas na técnica de acrílica sobre tecido, resina e papel. “Eu trabalho também com técnicas de pinturas e colagem”, explica Hötte. A concepção das obras revela um diálogo direto com trabalhos de arte popular, de origem indígena e africana.

 

 
Sobre o artista

 
Nascido em Curitiba em 1963, mas radicado na cidade de São Paulo, o artista plástico Roberto Hötte realiza sua primeira exposição individual. Ele é formado em design gráfico pela Faap. “O propósito inicial era desenhos para estamparia. Jamais me passou pela cabeça que a coisa tomaria o rumo que tomou. Mas havia algo que me fez continuar. A leitura do poema de Marianne Moore aconteceu nessa época e ele retrata em palavras questões que me são caras: vida, morte, destruição, regeneração e beleza”, afirma Hötte sobre a concepção das esculturas. “O poema foi tão impactante para mim que eu não consegui verbalizar minhas impressões. A forma que encontrei para interpretá-lo foi transformar aqueles desenhos de estamparia nestas esculturas”, acrescenta.

 

 

Até 10 de maio.

No MAM/Rio

18/dez

O MAM Rio, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, RJ,  inaugura duas exposições: “Operação Condor”, com 113 fotografias do fotógrafo português João Pina, que mostram o que foi a Operação Condor – aliança político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul – e as ditaduras militares nos países latino-americanos nos anos 1970, e “Imagens da escuridão e da resistência, com cerca de 50 obras de artistas e ativistas brasileiros que fizeram de seus trabalhos um instrumento de luta política, tanto na época da ditadura militar quanto nos dias atuais.

 

O trabalho de João Pina foi realizado ao longo de nove anos e resultou na exposição e no livro “Condor” (Editora Tinta da China), com 246 páginas, prefácio do jornalista Jon Lee Anderson e posfácio do juiz Baltasar Garzón.

 

No dia da abertura da exposição no MAM Rio será realizado o lançamento do livro e uma mesa-redonda, às 18h, com a participação do fotógrafo João Pina, do curador do MAM Rio Luiz Camillo Osorio e do jornalista Chico Otavio.

 

Com curadoria de Diógenes Moura, a mostra apresenta fotos em preto e branco das séries “Brasileiros”, “Retratos”, “Paisagens”, “Laboratório”, “Prisões”, “Julgamentos”, “Salas de Tortura” e “Arquivos”. A exposição terá, ainda, uma instalação composta por várias imagens de antigos presos políticos paraguaios, tratadas como cartazes típicos de rua que eram usados para procurar pessoas durante as ditaduras. Por meio destas fotografias, Pina investiga e documenta as histórias de brasileiros e outros sul-americanos que foram diretamente afetados pelas ditaduras militares em geral, e, em particular, pela Operação Condor.

 

Paralelamente à exposição, será realizada a mostra “Imagens da escuridão e da resistência”, com curadoria de Luiz Camillo Osório, que selecionou obras de Antonio Manuel, Augusto Malta, Carlos Zilio, Evandro Teixeira, Hélio Oiticica, Hugo Denizart, Rosângela Rennó e Rubens Gerchman, pertencentes à coleção do MAM Rio e à coleção Gilberto Chateaubriand, em comodato com o Museu.

 

A mostra terá, ainda, a Cosmococa “CC9 Cocaoculta Renô Gone”, projeto que Hélio Oiticica enviou para Carlos Vergara em 1974, que será realizado e apresentado pela primeira vez. Completam a exposição um vídeo do coletivo Atelier de Dissidências Criativas, cartazes lambe-lambe dos artistas Joana Traub Csekö, Isabel Ferreira, Fábio Araújo e Icaro dos Santos, e fotografias do projeto Imagens do Povo, realizado pelo Observatório das Favelas, que alia a fotografia às questões sociais.

 

 

Até 22 de fevereiro de 2015.