22 anos da Ricardo Camargo

16/out

Em comemoração a seus 22 anos, a Ricardo Camargo Galeria, Jardim Paulistano, São Paulo, SP, exibe as exposições “Ismael Nery” e “Recorte Modernista”. A exposição coletiva “Recorte Modernista” apresenta ao público um recorte amplo do Modernismo Brasileiro: são 40 obras de um período que teve início com a famosa mostra de Anita Malfatti, em 1917, e que seguiu até o começo do abstracionismo com Antônio Bandeira, nos anos 1950. Di Cavalcanti, Tarsila, Portinari, Volpi, Antonio Gomide e Lasar Segall são alguns dos artistas que preenchem o espaço entre esses dois extremos que abraçam a arte moderna brasileira. Entre os destaques reunidos na Ricardo Camargo Galeria estão desenhos primorosos de Di Cavalcanti. Em “Carnaval” e “Três figuras com tambores” e “Bordel”, o artista cria um retrato amoroso, colorido e brilhante do país, distinguindo-se dos outros modernistas por seu calor e sensualidade. Clima semelhante encontra-se em “Circo”, de Cícero Dias, e em “Parque de diversões”, guache e nanquim de Djanira da Mota e Silva, de seu período em Nova York.

 

Portinari se soma ao grupo com o guache “O espantalho” tema que é retomado e atualizado pelo artista dois anos depois, em “Espantalho”, em Paris, com maior influência, inclusive, das vanguardas da época. “Celebração cubista”, de Antonio Gomide, deixa clara a formação e longa vivência européias do pintor, que conheceu Picasso e começou sob a influência do Cubismo. Entre as raridades que compõem a mostra, está “Paisagem antropofágica com bicho”, grafite sobre papel de Tarsila do Amaral. Outra exceção à regra da exposição é uma obra de Diego Rivera, seu contemporâneo mexicano, com “Camponesa”. Antônio Bandeira encerra a exposição, sendo o único representante da corrente abstrata. Entre as pinturas apresentadas, estão “Montparnasse” e “Saint-Germain”.

 

O papel como suporte ganha cada vez mais relevância nos grandes museus e nas mais importantes coleções do mundo. “Um bom papel é mais importante, vale mais a pena que uma tela mediana. Enriquece-nos, em vez de apenas enfeitar uma parede”, afirma o marchand Ricardo Camargo, que assina a curadoria. Ainda segundo o curador, museus especializados, como o Albertina, em Viena, e o próprio Museu do Vaticano, têm coleções monumentais de papéis feitos há séculos e que resistem perfeitamente ao tempo.

 

Victor Brecheret marca uma das exceções à regra das mostras com a escultura “Dama Paulista”, representação de Olívia Guedes Penteado, incentivadora e mecenas de várias personalidades modernistas e uma das organizadoras da Semana de 22. “Além de, por sua qualidade, constituir uma obra para museus, aqui ela está absolutamente oportuna e justificada”, afirma o curador.

 

 

A palavra do curador

 

O papel dos modernistas

 

Sabe-se que em épocas de crise todos procuram estabilidade e segurança. Assim acontece também no mercado de arte, quando os colecionadores se voltam para os clássicos, os valores já firmados na história. Esta é uma exposição dos clássicos do modernismo no Brasil, entendendo-se modernismo em sentido amplo. Vai de Anita Malfatti, sua protomártir em 1917, até o começo do abstracionismo, com Antônio Bandeira, nos anos 1950. Entre esses extremos, os grandes nomes como Di Cavalcanti,Tarsila, Portinari, Volpi, Gomide, Segall e – constituindo na verdade uma sala especial,uma outra exposição em separado, com outro catálogo – Ismael Nery. Há muito tempo não se reúne um conjunto tão importante e expressivo do grande Nery, com 25 obras, das quais várias participaram de Bienais e exposições em museus. Para a galeria, ao completar 22 anos, é uma honra e um prazer fazê-lo.

 

As duas exposições constam de arte sobre papel – ora desenho propriamente dito,ora pintura (porque também se pinta sobre papel). No Brasil, percebemos que em geral o papel como suporte não tem, infelizmente, o prestígio que tem em todo o primeiro mundo e mesmo nas coleções brasileiras de maior importância. As de Gilberto Chateaubriand e de Hecilda e Sérgio Fadel, as mais completas e famosas, são ricas   em papeis. Creio que há um preconceito a cercar esse tipo de produção, supondo-se – inexatamente – que o papel é mais frágil, mais perecível, mais inadequado que a tela para a longa duração. É verdade que ele exige cuidados, mas a tela também: mal  conservada, ela se deteriorará. Museus especializados, como o Albertina, em Viena, e o próprio Museu do Vaticano, têm monumentais coleções de papeis feitos há séculos que resistem perfeitamente. Por outro lado, talvez exista também a falsa noção de que esteticamente a obra sobre papel é menos nobre, menos completa que a pintura ou a escultura. Isso nem precisa ser discutido. É uma ideia superada, já que hoje todas as hierarquias foram abolidas e as novas técnicas são mais numerosas que as antigas.Com certeza absoluta, um bom papel é mais importante, vale mais a pena, que uma pintura medíocre. Enriquece-nos, em vez de apenas enfeitar uma parede.

 

Há duas exceções às regras nesta mostra. Primeiro, a inclusão de um desenho-quase pintura de um não brasileiro da mesma época do nosso modernismo: Diego Rivera, o mais ilustre muralista mexicano. É que, tendo surgido a oportunidade de mostrá-lo, a galeria não poderia deixar passá-la: é um trabalho excepcional, de grande força expressiva.  Segundo, a presença de uma escultura de Victor Brecheret. Além de, por sua qualidade, constituir uma obra para museus, aqui ela está absolutamente oportuna e justificada. Trata-se de um retrato de Dona Olívia Guedes Penteado, a grande patrona do modernismo brasileiro. Certamente a aura dessa peça e a memória benfazeja de Dona Olívia trazem bons augúrios e contribuirão para o sucesso da exposição.

Ricardo Camargo

 

 

Até 18 de novembro.

Na Silvia Cintra+Box4

Na exposição “Você vê os pássaros? Sempre quis que você visse os pássaros daqui”, sua primeira individual na galeria Silvia Cintra+Box4, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, o artista e poeta Omar Salomão irá apresentar uma série inédita de pinturas, esculturas, cadernos de desenhos e fotografias.

 

A mostra começa com uma fotografia de uma imagem de Iemanjá envolta numa concertina farpada, dessas usadas para a proteção de casas. Ao lado dela, quatro desenhos em azul escorrido, que foram molhados no mar e aonde se lê trechos de poemas. Em seguida vem o trabalho que dá título à exposição, uma série de desenhos em nanquim retratando pássaros em revoada. A concertina farpada ainda aparece em duas séries, “Guardar”, que são desenhos em nanquim dobrados, envoltos pela rigidez deste material e “Circuito de Afetos”, onde a concertina ganha cores fluorescentes e aparece atada em placas de madeira, plástico bolha e outros restos. As cores fluorescentes seguem nas séries “Síntese” e “Lance”.

 

O artista lança sobre compensados pintados vários dados e depois repinta a superfície formando uma pintura totalmente aleatória, apenas com a memória desses cubos. Esses mesmos dados pintados surgem depois em pequenas caixas de madeira, presas na parede, dando uma ideia de confinamento das possibilidades sugeridas pelo lance de dados. A exposição termina com a série “Quadro de Avisos”.

 

Os cadernos de Omar, que são tanto processo quanto obra final, aparecem trancados dentro de quadros de avisos com chave, podendo ser abertos ou não.

 

 

Sobre o artista

 

O poeta e artista Omar Salomão nasceu em 1983. Em 2017 lançou “Pequenos Reparos”, pela Editora José Olympio, seu terceiro livro. Participou de diversas exposições como a 3ª Bienal da Bahia, 18º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil e da individual “Nebula: a sombra de nuvens manchando a cidade”, no OI Futuro Ipanema.

 

 

De 19 de outubro até 18 de novembro.

Individual de José Patrício

Até 18 de novembro, o Instituto Ling, Porto Alegre, RS, apresenta a exposição “Explosão Fixa”, que traz dezenove obras que perpassam os 40 anos de carreira artística do artista pernambucano José Patrício.

 

Com a curadoria de Eder Chiodetto, na mostra estão telas e instalações representativas do universo criativo de Patricio: empregando materiais diversos e banais – como tachas, botões, fios elétricos, dados e quebra-cabeças de plástico -, o artista remove o uso tradicional desses materiais e os reorganiza para criar intrincados mosaicos que exploram a dimensão lúdica do cotidiano. A exposição apresenta também um conjunto de fotografias inéditas.

 

Conhecido principalmente por suas instalações de chão da série “Ars combinatória”- composta por milhares de peças de jogo de dominó -, José Patrício é influenciado pelos movimentos artísticos geométrico e concreto brasileiros. O artista fundamenta seus trabalhos em combinações numéricas lógicas, sugerindo que mesmo a mais rígida das fórmulas matemáticas tem o potencial de conter sua própria expressividade. Dessa forma, sua obra enfatiza a relação frágil entre ordem e sua possível dissolução. Para Chiodetto, Patrício “cria um lugar original no campo da arte, na fronteira entre a pintura, o desenho e a assemblage” e realiza “um exercício libertário, uma nova e inspiradora forma de ser e estar no mundo”.

 

Quanto ao conjunto de fotografias inéditas, o curador sinaliza uma nova postura do artista: “Ao sair do ateliê, onde trabalha incessantemente na construção de suas obras, para percorrer o mundo como um andarilho errante que porta uma máquina fotográfica, seu olhar se volta para a cultura popular, as vitrines e momentos de tensão entre forma, luz e arroubos cromáticos”. Organização: Instituto Ling. Patrocínio: Crown. Realização: Ministério da Cultura e Governo Federal.

Lais Myrrha na Athena

05/out

A galeria Athena Contemporânea, Copacabana, Shopping Cassino Atlântico, Rio de Janeiro, RJ, apresenta, a partir do dia 10 de outubro, “Lais Myrrha – Cálculo das diferenças”, exposição individual com cinco obras recentes e inéditas da artista mineira radicada em São Paulo. Na mostra, serão apresentadas instalações, esculturas e uma fotografia, que se relacionam entre si e tratam da questão da arquitetura e da temporalidade. Todas as obras – com exceção de uma, que é de 2016 – foram produzidas este ano, dando uma dimensão da mais recente produção da artista, que foi um dos destaques da última Bienal Internacional de São Paulo e cujo trabalho atualmente integra a exposição “Condemned to be Modern”, no Los Angeles Municipal Art Gallery (LAMAG), nos EUA.

Em todas as obras é clara a presença da arquitetura e da construção, assim como a questão da temporalidade, seja na ação que o tempo irá exercer sobre o trabalho, transformando-o em algo novo com o passar dos dias, seja na ação que aconteceu e foi “paralisada” pela artista, fazendo o público ver o resultado do que ocorreu no passado. A pesquisa recente de Lais Myrrha sobre os materiais usados na construção civil, como tijolos, cimento e madeira, se desdobra em algumas obras da mostra. Esses materiais cotidianos ganham uma nova significação na produção da artista, cujo interesse, em linhas gerais, é desestabilizar as convenções materiais, políticas e ideológicas que delimitam a vida social, pessoal e política. Os trabalhos presentes nesta exposição destacam um processo desconstrutivo vigente. “Os trabalhos contrastam porvir e ruína; a memória do que poderíamos ter sido e não fomos; a consciência do fracasso que se percebe finalmente como delírio”, afirma a crítica de arte Heloisa Espada, no texto que acompanha a exposição.

 

“Nos últimos anos, venho trabalhando a noção de impermanência e da história, assim como a precariedade dos conceitos de equivalência e equilíbrio. Um elemento importante no meu processo de criação é a escolha e o uso preciso dos materiais, da capacidade que eles têm de produzir signos, funcionando como condensadores de narrativas”, afirma LaisMyrrha.

 

 

Trabalhos em exposição

 

Quatro módulos de vidro compõem a instalação “Cálculo das diferenças” (2017), que dá nome à exposição. Dentro de cada um deles há a mesma quantidade de tijolos inteiros e tijolos quebrados e peças de madeira inteiras e queimadas. “O volume muda quando o material é quebrado ou queimado. O volume do tijolo aumenta e o da madeira diminui”, explica a artista, que relaciona esse trabalho com o valor das culturas na atualidade. Tijolos e madeiras não são meros materiais, mas servem para destacar aspectos importantes sobre a relação entre ruína e história, sobre ruína e valor, cultura e valor. A madeira é reduzida a cinzas enquanto os tijolos a cacos e a pó. Sendo assim, as cinzas ocupam uma fina camada, quase imperceptível da caixa de vidro, os cacos de tijolos ultrapassam o limite dado pela caixa de vidro. As cinzas se diluem e desaparecem misturadas à terra, ao passo que os fragmentos de tijolos podem sobreviver por milênios. “O material bruto, em estado de devir, é confrontado com sua inutilização e sua morte. A equação lida com o que é inconstante e contingente, humano, epotencialmente desleal. As ideias de projeto e escombro – apresentadas por meio de materiais em estado transitório – se conformam em espaços idênticos que podem assumir o papel de caixa ou de caixão”, diz Heloisa Espada.

Produzida no ano passado, a obra “Corpo de Prova”” é composta pelas próprias amostras de cimento, uma peça fundida em bronze e uma aquarela. Corpo de prova é a amostra do concreto endurecido, especialmente preparada para testar propriedades como resistência à compressão. A artista se apropria desses materiais descartados pela construção civil e cria um empilhamento com esses objetos, tal como o desenho da aquarela apresenta. Quando algum deles cai no chão, ela o deixa no exato lugar da queda e funde em bronze os demais que resistiram ao empilhamento. “A ação realmente aconteceu, mas você não a vê, o que é mostrado é apenas o projeto e seuresultado”, diz a artista.

 

Quatro placas:uma de granito preto, uma de mármore branco, uma de cimento e outraterra compõe outra obra da exposição. As placas são colocadas lado a lado, com um friso que passa por elas, criando uma linha que atravessa todas as placas. Com o tempo, a linha deixa de ser contínua, pois cada um dos materiais resiste ao tempo de uma forma. “O trabalho vai ser completado pelo tempo, a linha será descontinuada”, conta a artista.

 

Na parede, estará a obra “Soma não nula”, composta por quadrados de ouro medindo um centímetro quadrado e pesando um grama cada, sobre os quais 1 grama de póé distribuído. “Quanto mais passa de um quadrado para outro, mais vai diminuindo a quantidade de pó e aparecendo mais o ouro”, explica a artista. Ela acrescenta, que é a mistura de elementos o pó de vidro e a liga acrescentada ao ouro é o que permite que esses materias possam ganhar forma: “em estado puro, esses elementos são informes”.

 

Completa a exposição a fotografia “Estrutura” (2017), que foi tomada quando filmava o vídeo Delírio, comissionado pelo MASP para exposição Avenida Paulista nesse ano. Mais uma vez, aparece uma coluna numa situação e nesse caso, enquadrada por uma geometria que reforça a fragilidade e instabilidade.

 

Sobre a artista

 

Lais Myrrha nasceu em Belo Horizonte, MG, em 1974. Vive e trabalha em São Paulo. É doutoranda em artes visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.Recebeu diversos prêmios, entre eles, Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio2013, Paço Imperial/ Minc/IPHAN; Bolsa Estímulo à Produção em Artes Visuais Funarte, 2012; Prêmio Atos Visuais – Funarte – Brasília, e Prêmio Projéteis – Funarte – Rio de Janeiro, ambos em 2007. Dentre suas principais exposições individuais estão: “Reparation of Damages” (2017), na Broadway 1602, em Nova York, EUA; “Corpo de Prova” (2017), no Sesc Bom Retiro, em São Paulo; “Entre-Tempos” (2014), no Sesc Palladium, em Belo Horizonte; “Projects on Ashburn, Other Coordenates” (2014), no College Station, Texas, EUA; “Zona de Instabilidade”, na Caixa Cultural Brasília (2014) e na Caixa Cultural São Paulo (2013); a mostra no Paço das Artes, em São Paulo (2011); as mostras na Funarte do Rio e de Brasilia (2008), entre outras. Dentre suas exposições coletivas mais recentes estão: “Live Uncertainty” (2017), na Fundação Serralves, em Portugal; “Encontros no Espaço” (2017), na Funarte Belo Horizonte; “Travessia 5: Emergência” (2017), no Galpão Bela Maré, Rio de Janeiro; “Metrópole: Experiência Paulistana” (2017), na Estação Pinacoteca, em São Paulo; “Avenida Paulista”, no MASP, em São Paulo; “Re-effecter Matter” (2017), na Galleri Susanne Ottesen, na Dinamarca;  “32º Bienal de São Paulo: Incerteza Viva” (2016); “Brasil, Beleza?!”, no Museum Beelden aan Zee, na Holanda; “Quando o Tempo Aperta” (2016), no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, e no Palácio das Artes, em Belo Horizonte; “Empresa Colonial”, na Caixa Cultural São Paulo; “Emergency Measures – Power Station” (2015), nos EUA; “Quarta-feira de cinzas” (2015), no Parque Lage, Rio de Janeiro; Exposição dos artistas finalistas do Prêmio Marcantônio Vilaça (2015), no MAC-USP, São Paulo, entre outras.

 

 

Sobre a galeria

 

A  Athena Contemporânea foi fundada em 2011 pelos irmãos Eduardo e Filipe Masini como um espaço inovador de criação, discussão e divulgação de arte contemporânea. Mais do que um espaço expositivo, a galeria se posiciona como lugar de pesquisa, de aprofundamento conceitual e de trocas artísticas, buscando sempre iniciativas inovadoras. A galeria vem se firmando como uma das mais destacadas no cenário brasileiro, representando conceituados e promissores artistas nacionais e internacionais, e investindo em parcerias com curadores e instituições para o desenvolvimento da carreira de seus artistas.

 

 

De 10 de outubro a 11 de novembro.

Gerty Saruê & Antonio Lizárraga

02/out

Pertencentes à mesma geração, as produções de Gerty Saruê e Antonio Lizárraga expostas na galeria, se desdobram entre desenhos, esculturas em metal, pinturas, monotipias, fotografias e colagens. Em cartaz até 14 de novembro, a mostra sintetiza signos da vida moderna, numa relação entre a plástica e o visual das contradições de uma metrópole.

 

O processo de industrialização da segunda metade do século XX no Brasil, a promessa do futuro redentor, aliado aos lemas da ordem e do progresso, as contradições entre o indivíduo e a sociedade, verbalizadas por códigos e linguagens visuais e gráficas, que desestabilizam o estado atual das coisas; assim, podemos definir brevemente as aproximações entre os trabalhos dos artistas Gerty Saruê e Antonio Lizárraga, que podem ser conferidos a partir do dia 07 de outubro, sábado, 14h, na Galeria Marcelo Guarnieri, unidade Jardins, São Paulo, SP. A mostra destaca obras dos anos 60 aos anos 2000, com técnicas como desenho, escultura em metal, pintura, monotipia, fotografia e colagem.

 

 

Sobre a artista

 

Nascida na Áustria, criada na Bolívia, e com residência a partir de 1954 na cidade de São Paulo, Gerty Saruê, desde cedo percebeu a necessidade em aprender outras línguas. Deste deslocamento geográfico e da linguagem, o encontro com uma cidade em vias de expansão e industrialização – a SP da década de 50 – nasce o olhar para os aspectos materiais e visuais dessa nova dinâmica que se desenhava, entre o frenesi do ritmo da cidade, e o estranhamento por parte de seus habitantes. As engrenagens das máquinas, as ferramentas dos trabalhadores, as planilhas e os diagramas, as plantas urbanísticas, os materiais de escritório, os números e os letreiros infinitos, aparecem em sua produção transfigurados pelo desejo incessante de uma linguagem própria, que encontra sua formalidade em técnicas como colagens, desenhos, gravuras ou fotografias.

 

Superposições e sobreposições, a utilização de materiais descartados e a utilização de signos inexpressivos e impessoais da vida cotidiana, criam uma “gramática” visual própria no trabalho da artista, num diálogo com o seu tempo histórico, e sua figuração em formas, texturas, materiais, e novos arranjos.

 

Algumas obras destacam a multiplicidade de interesses formais desta “nova língua”, como Sem Título, de 1967, uma assemblage em madeira, com peças enferrujadas, que sofreram processo de oxidação, e que, agora, questionam o movimento inerente das coisas e da vida, mas, também, a lógica do consumo produtivista. Burocráticas, de 1980, traz a desordem gráfica, para contestar a aparente ordem desejada, após 30 anos do início da industrialização no país. Síntese, sem fechar a discussão, dos signos e emblemas do momento vigente à época, com crise econômica na América Latina, queda do PIB e inflação, Burocráticas, como em outras obras, é o decalque invertido de uma sociedade. Como se tudo estivesse fora da ordem, e os objetos produzidos pela artista fossem “registros fósseis invertidos de uma sociedade tão preocupada em ordenar e progredir”, sua linguagem se distende como como arqueologia do nosso passado, e cartografia como leitura do presente no instante do acontecimento da obra.

 

 

Sobre o artista

 

Argentino de origem, naturalizado brasileiro desde fins da década de 50, Antonio Lizárraga foi um dos artistas mais proeminentes e múltiplos da sua geração. Designer, programador visual, ilustrador, pintor, escultor e um dos primeiros a realizar intervenções no espaço público, na cidade de SP, colaborou até 1967, como ilustrador para o Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo.

 

Para a mostra da Galeria Marcelo Guarnieri, o fascínio pelo maquinário moderno de escalas monumentais, como escavadeiras e guindastes, projetos urbanísticos de grandes avenidas, aparece acompanhado do interesse pelo acidental, pelo erro, pela ruína, articulando, em suas obras, o orgânico e o mecânico. Em Cubos/Sem Título, de 1990, ao cortar as superfícies, novos planos e estruturas surgem, num objeto tridimensional.

 

Apontado pela crítica de arte como uma das referências da pintura brasileira contemporânea, seja pelo seu particular método de trabalho e processo criativo desenvolvido após um acidente vascular cerebral (AVC), ou a resistência à arte concreta da década de 60, e a necessidade em se manter fora de grupos e escolas, caracterizando assim uma produção crítica e autônoma.

 

Após o AVC, o artista perdeu parcialmente os movimentos das pernas e dos braços, produzindo, a partir daí, os desenhos ditados, série de trabalhos que se materializavam por meio da ação de outras pessoas que operavam a partir das orientações e comandos que Lizárraga emitia por meio da voz. Antes dos desenhos ditados, porém, vieram os poemas ditados, e talvez, a melhor ilustração sobre como se relacionava Lizárraga com a definição – ou expansão – da ideia de limite, seja mesmo dada por um deles: “existe um homem que constrói mirantes para os peixes começarem a gostar do mar”.

Juntos: Emanoel Araújo, Samico e Mário Cravo Neto  

28/set

 

A Galeria Base, Jardim Paulista, São Paulo, SP, de Fernando Ferreira de Araújo e Daniel Maranhão, exibe “Geníaco”, composta por 17 obras entre esculturas, xilogravuras e fotografias de Emanoel Araújo, Gilvan Samico e Mário Cravo Neto sob curadoria de Paulo Azeco. A coletiva busca valorizar a cultura nacional – no sentido mais impactante e restrito que este conceito possa ter -, destacando a simbologia, o etéreo e as religiosidades portuguesa e africana, elementos em comum na produção destes artistas e presentes no imaginário do povo brasileiro.

 
“Ser Poeta é ser um geníaco, um filho assinalado das Musas.” A citação de Ariano Suassuna, em “O Romance d`A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (marco inicial do Movimento Armorial no Brasil), não somente permeia o título da nova mostra da Galeria Base, como também é essencial para compreendê-la e as conexões que são estabelecidas entre os três artistas participantes. “Suassuna idealizou tal movimento como forma de valorização da cultura nordestina, agregando artes visuais, música e literatura a um tronco comum, no qual se encontravam as influências indígenas e aquelas das diásporas africanas e portuguesas na região. Uma forma peculiar de representar o país, seu povo e cultura, através da junção do erudito ao regional”, comenta Paulo Azeco.

 

Gilvan Samico apresenta sua obra fundamentada na Xilogravura, importante técnica da produção nordestina, tendo o Cordel como inspiração primordial. Ao longo de sua carreira, Emanoel Araújo pesquisou a geometrização ancestral dos africanos e a tomou como elemento principal de sua produção, com presença forte da Xilogravura – reflexo também da influência regionalista. Já a Fotografia de Mário Cravo Neto atinge seu ápice nas imagens em branco e preto, as quais retratam a sua Bahia e formulam questionamentos acerca dos pontos mais sensíveis na formação antropológica da região.

 

 

“Suassuna costumava falar em entrevistas sobre a internacionalização da nossa cultura. Valorizar esse tipo de produção artística, brasileira e autoral, é sem dúvida urgente e necessário.”
Paulo Azeco

 

 

 

De 30 de setembro a 04 de novembro.

Juliana Stein no MON

Mostra da artista gaúcha Juliana Stein integra a Bienal de Arte de Curitia, fala “das coisas que só podemos ver quando olhamos meio de lado”, segundo a autora. A curadoria é de Agnaldo Farias. Juliana Stein define a mostra que inaugura dia 30 de setembro no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, como “uma tentativa de articular espaços da fotografia em torno do sentido opaco das coisas que escapam e que nos inscrevem mais do que podemos escrever sobre elas.”

 

As imagens captadas pelas lentes de Juliana situam-se num terreno de experimentação e leitura poética, que conduz naturalmente a uma reflexão sobre os processos de produção e de leitura da imagem fotográfica. As obras expostas analisam as relações entre as palavras e as imagens a partir de indagações como: existe uma imagem para cada palavra? Existe uma palavra para cada imagem?

 

  • A fotografia tem este caráter de traço, de ter estado na frente do objeto e, apesar disto, de funcionar dentro de um circuito enquanto algo lhe falta – argumenta Juliana. – A imagem fotográfica é o registro de algo, mas do quê? – provoca.

 

 

 

Entre a noite das coisas e o visível dentro do invisível 

 

 

Para Juliana Stein, falar e querer dizer não são a mesma coisa. – Nas minhas palavras há sempre mais do que quero dizer, e sempre outra coisa. É como acompanhar a noite das coisas, especialmente daquelas em que o sentido é um risco e não pode ser muito bem previsto, pois está sempre mais além. Falamos para dizer a verdade, que não se diz toda porque as palavras faltam – conclui.

 

No entender da crítica de arte, escritora e curadora independente Adriana Almada, do Paraguai, “a abordagem de Juliana Stein transcende a condição visual para criar uma zona de silêncio que outorga à fotografia um caráter de indício: mostra a partícula visível de um grande invisível – reflete. – Para ela (Juliana), fotografar é uma prática de indagação, de exploração em uma sorte de descontrole produtivo, nesse “deixar-se levar” por personagens e situações que, uma vez traduzidos em imagens, estimulam a percepção desde os tons graves até os sem cor – interpreta Adriana.

 

 

 

Sobre a artista

 

 

Juliana Stein nasceu em Passo Fundo/RS, formou-se em Psicologia pela UFPR em 1992, viveu por dois anos em Firenze e Veneza (onde estudou História da Arte, técnica em aquarela e desenho) e trabalha com fotografia desde o final dos anos 1990. Com uma obra amplamente reconhecida no Brasil e no exterior, participou da 55a Bienal Internacional de Veneza, da 29aBienal de São Paulo e expôs na Crone Gallery em Berlim, na ShangART Gallery em Xangai e no Carreau du Temple, em Paris.

 

 

Sobre o curador

 

Agnaldo Farias, um dos curadores e críticos de arte mais reconhecidos do Brasil, responde atualmente pela curadoria do Museu Oscar Niemeyer. Comandou a 29ª Bienal de São Paulo em 2011 e já realizou curadorias para o Museu de Arte Contemporânea e o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo; para o Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro; para o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba; e para o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, entre outros. É também professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

 

 

30 de setembro de 2017 a 25 de março de 2018

No Museu de Arte Sacra de São Paulo

19/set

Duas exposições na capital paulista marcam o início das festividades pelos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida nas águas do rio Paraíba do Sul, na cidade de Aparecida (SP). “Aparecida do Brasil” e “300 anos de Devoção Popular” estão sendo montadas pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS), em parceria com a Arquidiocese de São Paulo (SP) e o Santuário Nacional, e serão inauguradas no dia 21 de setembro, às 11h.

 

Nas dependências do museu, em espaço dedicado a exposições temporárias, “300 Anos de Devoção Popular”, em parceria com o Museu Nossa Senhora Aparecida – Santuário Nacional de Aparecida e curadoria de Cesar Augusto Bustamante Maia e Fabio Magalhães, são exibidas 137 obras – esculturas, ex-votos e objetos em diversos suportes -, homenageando os três séculos de devoção à Nossa Senhora Aparecida. A cada ano, milhões de peregrinos caminham rumo ao Santuário Nacional de Aparecida. Recorrem à padroeira do Brasil para lhe falarem de suas angústias, aflições, ou para expressar suas alegrias, esperanças e agradecimentos por graças alcançadas. “A mãe de Jesus, a Senhora da Conceição Aparecida, continua a ser o ‘grande sinal’, colocado por Deus no céu e na terra para o consolo dos seus filhos e para a certeza de que o mal não terá a última palavra sobre a vida dos homens e sua história”, comenta o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo. A mostra tem como destaques duas esculturas da santa – uma com manto e outra sem – feitas por Francisco Ferreira – Chico Santeiro, o primeiro escultor a produzir uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e também obra assinada pelo artista contemporâneo Paulo von Poser.

 

 

Aparecida de São Paulo – elo histórico 

 

 

A cidade de São Paulo tem uma ligação histórica estreita com o Santuário Nacional. Em 1717, quando foi encontrada a imagem da Padroeira do Brasil, todo o Estado de São Paulo pertencia à então Diocese do Rio de Janeiro (RJ). Com a criação da Diocese de São Paulo (SP), em 1745, que depois foi elevada a arquidiocese, em 1908, Aparecida passou a fazer parte de seu território. Somente em 1958, foi criada, pelo Papa Pio XII, a Arquidiocese de Aparecida. Também foi da Arquidiocese de São Paulo que veio o primeiro arcebispo de Aparecida, o Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, até então arcebispo de São Paulo. Foi o primeiro arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, que, em 1908, obteve do Papa Pio X a concessão do título de Basílica Menor para a primeira igreja construída em 1745, popularmente conhecida como “Basílica Velha”. Nessa ocasião, Dom Duarte também celebrou a dedicação do templo. Até a chegada dos primeiros missionários redentoristas, em 1894, o atendimento pastoral e espiritual da Basílica de Aparecida ficou aos cuidados do clero da Diocese de São Paulo. O lançamento da pedra fundamental do Santuário Nacional, a “Basílica Nova”, aconteceu em 10 de setembro de 1946 e a construção do templo iniciou-se em 11 de novembro de 1955.

120 anos de Di Cavalcanti

Um dos mais importantes artistas do modernismo brasileiro, Emiliano Di Cavalcanti é o tema da mostra retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos” entrou em cartaz no mês em 02 de setembro, mês em que se comemora 120 anos de nascimento do artista. Entre pinturas, desenhos e ilustrações, mais de 200 obras, realizadas ao longo de quase seis décadas de carreira e que hoje pertencem a algumas das mais importantes coleções públicas e particulares do Brasil e de outros países da América Latina, como Uruguai e Argentina.

 

Obras icônicas e outras pouco vistas foram distribuídas em sete salas do primeiro andar da Pina Luz, sob a curadoria de José Augusto Ribeiro. Segundo o pesquisador, a exposição pretende investigar como o artista desenvolve e tenta fixar uma ideia de “arte moderna e brasileira”, além de chamar a atenção para a condição e o sentimento de atraso do Brasil em relação à modernidade europeia no começo do século XX. “Ao mesmo tempo, o título se refere aos lugares que o artista costumava figurar nas suas pinturas e desenhos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares – lugares e situações que, na obra do Di, são representados como espaços de prazer e descanso”, explica Ribeiro. Além da atuação pública de Di Cavalcanti como pintor, a mostra destaca aspectos menos conhecidos de sua trajetória, como as ilustrações e charges para revistas, livros e até mesmo capas de discos. Também foi abordada sua condição de mobilizador cultural e correligionário do Partido Comunista do Brasil (PCB). “Esse engajamento reforça o desejo de transformar o movimento moderno em uma espécie de projeto nacional”, completa Ribeiro.

 

A Pinacoteca prepara um catálogo que reunirá três ensaios inéditos escritos pelos autores José Augusto Ribeiro, curador da mostra, Rafael Cardoso (historiador de arte e do design), e Ana Belluzzo, professora e crítica de arte. O livro trará ainda reproduções das obras apresentadas, uma ampla cronologia ilustrada e um compilado de textos já publicados sobre a trajetória do artista. A exposição tem patrocínio de Banco Bradesco, Sabesp, Ultra, Escritório Mattos Filho e Alexandre Birman.

 

 

Até 22 de janeiro de 2018.

Leda Catunda em Portugal

14/set

As obras presentes na exposição individual de Leda Catunda a partir de 16 de setembro na Kubik Gallery, Porto, Portugal, são essencialmente pinturas-objeto organizadas em várias camadas de tecidos recortados e sobrepostos. Nos tecidos finos e transparentes é possível visualizar imagens e estampas, refletindo naturezas diversas, variando entre abstrações simples e ornamentais e figurações do universo pop, presentes no quotidiano.

 

“As suas imagens de casais amorosos, retiradas da internet e que remetem para situações idílicas, são tão planas quanto as etiquetas e rótulos daquilo que consumiu na sua estadia no Porto. São epítomes de momentos sem densidade, sem história, desterritorializados. É a sua exposição crua e direta, no conforto da “maciez” da forma que as torna perturbadoras, precisamente porque reveladoras de um desconforto provocado pela sobreposição de significados que se anulam. A convergência da sedução visual com a denúncia de platitude vivencial contemporânea cria um potencial eminentemente disruptivo na discursividade destas obras. Obrigam-nos a olhar para além da pele, para o forro mais ou menos desvelado das nossas inquietações, dúvidas e desorientações perante o real”. (*)

 

(*) Retirado de “A Dúvida Orgânica” – texto alusivo à exposição “Leda e a Espessura do Real” de Leda Catunda, autoria de Miguel Von Hafe Pérez.

 

 

Sobre a artista

 

Leda Catunda nasceu em São Paulo em 1961, onde vive e trabalha. Entre suas exposições individuais, destaca-se a mostra “Pinturas Recentes”, no Museu Oscar Niemeyer (Curitiba, 2013) que itinerou para o MAM Rio (Rio de Janeiro, 2013); “Além de Leda Catunda: 1983-2008”, retrospectiva realizada na Estação Pinacoteca (São Paulo, 2009). Uma das expoentes da chamada “Geração 80”, a artista esteve nas antológicas “Como Vai Você, Geração 80?”, Parque Lage (Rio de Janeiro, 1984); e “Pintura como Meio”, MAC-USP (São Paulo, 1983). Sua carreira inclui ainda participações em três Bienais de São Paulo (1994, 1985 e 1983), além da Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2001) e da Bienal de Havana (Cuba, 1984). Sua obra está presente em diversas coleções públicas, como: Instituto Inhotim (Brumadinho); MAM Rio de Janeiro; Fundação ARCO (Madrid, Espanha); Stedelijk Museum (Amsterdam, Holanda); além de Pinacoteca do Estado, MAC-USP, MASP, MAM (todas em São Paulo).

 

Às 18h30min

Performance de Vinicius Massucato, “Um Ciclone Tropical”.