Museu Judaico de São Paulo

19/nov

 

 

Previsto para visitações a partir do dia 05 de dezembro, será aberto o Museu Judaico de São Paulo (MUJ), espaço que será inaugurado após 20 anos de planejamento, fruto de uma mobilização da sociedade civil. Além de quatro andares expositivos, os visitantes também terão acesso a uma biblioteca com mais de mil livros para consulta e a um café que servirá comidas judaicas.

 

Localizado no antigo prédio do templo Beth-EL – uma das sinagogas mais antigas da cidade – o espaço fica na Rua Martinho Prado, 128, no bairro da Bela Vista, e passou por um processo de restauração, modernização e a construção de um prédio contemporâneo anexo para finalmente receber o público.

 

Com quatro exposições simultâneas – duas de longa duração, sendo elas “A vida Judaica”, sobre os rituais e ciclo de vida judaico e “Judeus no Brasil: histórias trançadas”, que expõe as várias correntes migratórias dos judeus para o Brasil, do início da colonização ao Brasil republicano; e duas temporárias: “Inquisição e cristãos-novos no Brasil: 300 anos de resistência”, sobre a luta dos cristãos-novos para reconstruir suas vidas no País durante os 300 anos de vigência da Inquisição, e “Da Letra à Palavra”, que explora a relação entre a arte e a escrita, a imagem e a palavra, a partir da reunião de 32 artistas basilares da arte contemporânea brasileira.

 

Estão à frente do projeto o presidente Sergio Simon, o diretor executivo Felipe Arruda e, na curadoria, a pesquisadora e crítica Ilana Feldman, além do grupo de voluntários que construiu a instituição.

 

A programação expositiva do museu tem por objetivo cultivar e manter vivas as diversas expressões, histórias, memórias, tradições e valores da cultura judaica, tecendo também um diálogo com o contexto brasileiro, com o tempo presente e com as aspirações de seus diferentes públicos, criando assim uma matriz baseada em princípios de diversidade, resistência e atualidade.

 

“Concebemos o Museu Judaico de São Paulo como um espaço de visões plurais sobre o judaísmo, apresentado como um complexo sistema cultural e identitário, que está sempre se reinventando. A partir da experiência judaica, o MUJ reflete sobre o tempo presente e cria tranças com a diversidade cultural do contexto brasileiro, acionando debates sobre preconceito, intolerância e outras questões sociais e políticas urgentes”, afirma Felipe Arruda.

 

Inspiração no Nordeste

18/nov

 

 

No dia 20 de novembro, a samba arte contemporânea, Shopping Fashion Mall – São Conrado – Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, RJ, inaugura a exposição “Paratudo/Paratodos”, com cerca de 60 obras inéditas do artista paulistano Reynaldo Candia, que buscam referência no Nordeste para falar sobre a cultura brasileira. Serão apresentados pinturas, instalações, esculturas e bordados, produzidos nos últimos três anos, em diversos suportes, como lona, ráfia, couro, algodão, entre outros. O nome da exposição faz alusão à famosa música de Chico Buarque de Holanda, que trata da miscigenação do povo brasileiro, e também à tradicional bebida a base de raízes amargas nordestina. A exposição também estará disponível on-line, no site da galeria (www.sambaartecontemporanea.com), com obras, textos e informações, ampliando a experiência.

 

“Há muitos registros históricos de viajantes e expedições europeias que deixaram documentos iconográficos notáveis e importantes, mas a aventura visual empreendida por este artista-viajante sugere uma torção: ele percorre paisagens tão íntimas quanto públicas, subvertendo o lugar destinado à iconografia nordestina, aplicando um corte preciso capaz de extrair lirismo e forças poética e cromática únicas, inventando um vocabulário semiótico pensado a partir da experiência da alteridade como uma espécie de profanação, na medida em que os objetos e acontecimentos do mundo se abrem a um novo e possível uso”, escreveu a psicanalista e crítica de arte Bianca Dias no texto que acompanha a exposição.

 

Duas grandes instalações trazem obras da série “Porta-retrato nordestino”, composta por cerca de 50 pinturas a óleo, que remetem às fotopinturas, uma tradição que ainda perpetua em muitas casas nordestinas. As obras de Reynaldo Candia fazem referência a esses retratos de família, através de diversas pinturas, com cores contrastantes, que trazem no centro uma cor, destacando o lugar que seria destinado à fotografia. Desenhos arabescos completam os trabalhos, fazendo referência às antigas molduras dessas obras. “As instalações são um simulacro dessas paredes que vi em muitas casas no Nordeste, e trazem contrastes de cores que temos no Brasil”, diz o artista.  “Seu trabalho traz, para o campo codificado das artes visuais, distintas expressões da vida ordinária – aquilo que pertence ao território doméstico – e também instaura uma concepção nova de conflito e de singularidade com implicações sobre as relações entre sujeito e sociedade”, completa Bianca Dias.

 

Os suportes para as pinturas vão desde a tradicional lona até ráfia, embalagens de produtos diversos, entre outros materiais recolhidos na última viagem do artista ao Nordeste, em 2018. Há também pinturas sobre tecidos, como chita e viscose estampada, todos com cores contrastantes. Muitas dessas obras possuem texturas e grossas camadas de tintas. “Minha intenção primaria é produzir um objeto, por isso, trato a tinta como matéria na tela, criando um acúmulo, com várias camadas e uma superfície não lisa”, explica o artista.

 

Seguindo o formato da série “Porta-retratos”, haverá também a série de trabalhos “Nordestinês”, com obras em óleo sobre papel. No centro da pintura, no lugar que seria dedicado à fotografia em um porta-retratos, está escrita uma palavra comumente usada no nordeste, como “vixe” e “arretado”, por exemplo.

 

Casinhas típicas do Nordeste, quadradas e coloridas, também estão presentes na exposição. Quatro delas foram pintadas em páginas de livros de autores nordestinos ou que viveram no Nordeste, formando pinturas/esculturas. Essas mesmas casinhas haviam sido retratadas nas fotografias de Anna Mariani, no livro “Pinturas e Platibandas”, que tem textos de Ariano Suassuna, Caetano Veloso e Jean Baudrillard, e foram bordadas pelo artista para a exposição. “O bordado é muito forte no Nordeste, mas não só entre as mulheres. Durante minha pesquisa descobri que Lampião era um grande costureiro e também bordava”, conta o artista.

Também farão parte da mostra cinco obras da série “Defesa”, feitas em couro ecológico, em referência ao cangaço, reproduzindo símbolos do livro “Estrela do couro/ Estética do Cangaço”, de Frederico Pernambucano de Mello. “Os cangaceiros absorveram de forma muito intensa essa simbologia e a adotaram como defesa. Em vários momentos quando se sentiam ameaçados, riscavam esses símbolos no chão. É como se fosse um amuleto”, diz o artista que usa galhos de diversas árvores típicas do Nordeste como suporte para estas obras.

 

Completa a exposição a série de pinturas “Ervas Daninhas”, com imagens e nomes de plantas que tem devastado pastos no Nordeste. “Para mim, elas são símbolos de resistência, pois são retiradas e voltam a nascer. Essas pinturas são densas e faço com espátula e não com pincel, para depositar grossas camadas de tinta, deixando a espessura aparente”, ressalta o artista.

 

Sobre o artista

 

Reynaldo Candia nasceu em São Paulo, SP, 1975. Formou-se em História da Arte e Comunicação visual.  Realizou cursos no MASP e Tomie Ohtake, dentre outros lugares, e frequentou ateliês como assistente. Participou de diversas coletivas, editais e salões, entre eles, o Abre-Alas, na Gentil Carioca, programa de exposições no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e Novíssimos, no IBEU. Foi Premiado em diversos salões, dentre os quais, 43° Salão de Santo André – SP, 17º Salão de pequenos Formatos UNAMA – PA, 11º Bienal do Recôncavo – BA, 10º Salão Latino Americano – Santa Maria – RS. Participou da residência artística na Bienal de Cerveira, em Portugal, em 2012 e em 2018, e na Dinamarca, em 2016, onde possui obras em seus acervos. Possui obras no acervo do Museu de Arte  Contemporânea de Torun, na Polônia; na Fundação Bienal de Cerveira, em Portugal; no Núcleo Cultural da Universidade da Amazônia; na Fundação Espaço Cultural da Paraíba (FUNESC); no Museu de Arte de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, entre outras. Dentre suas principais exposições, destacam-se “Sinais do apocalipse” (2020), no Centro de Arte Contemporânea de Torun, na Polônia; “Grupo Em Branco – Ato Contínuo” (2018), no Museu da Cidade de São Paulo; “Mãos as obras” (2017), no Circuito SESI; a mostra no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e “Novíssimos”, na Galeria do IBEU, ambas em 2016.

 

Até 23 de janeiro de 2022.

 

 

 

 

 

Lourival Cuquinha: Crapulocracia

16/nov

 

 

 

 

 

A Central Galeria, São Paulo, SP, apresenta em seus últimos dias de exibição, “Crapulocracia”, a primeira mostra individual de Lourival Cuquinha na galeria. A exposição é a terceira de uma trilogia de exposições do artista que vêm acompanhando os últimos capítulos políticos do país e a consequente derrocada do pacto democrático.

 

Lourival Cuquinha, Recife, 1975. Vive e trabalha em São Paulo. Multidisciplinar, estudou na UFPE (Recife, 1993-2002) onde frequentou cursos diversos como Engenharia Química, Filosofia, Direito e História. Foi reconhecido em diversas premiações e programas de residência como: Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais (2017), Prêmio Marcantônio Vilaça (2012), Prêmio Brasil Contemporâneo – Fundação Bienal de São Paulo (2010), Artist Links – British Council (2009), entre outros. Suas exposições individuais incluem: Transição de Fase, Funarte (Belo Horizonte, 2018); O Trabalho Gira em Torno, MAMAM (Recife, 2015); Territórios e Capital: Extinções, MAM Rio (Rio de Janeiro, 2014); Capital: destruction-construction, PROGR Foundation (Bern, Suíça, 2012); Topografia Suada de Londres: Jack Pound Financial Art Project, Centro Cultural Correios (Recife, 2012). Entre as coletivas recentes, destacam-se: À Nordeste, Sesc 24 de Maio (São Paulo, 2019); Panorama da Arte Brasileira, MAM-SP (São Paulo, 2017 e 2011); Bienal Sur, Centro Cultural Parque de Espanha (Rosário, Argentina, 2017); 5o Prêmio Marcantônio Vilaça, MAC-USP (São Paulo, 2015). Sua obra está presente em importantes coleções públicas, como: CCSP (São Paulo), MAM-SP (São Paulo), MAR (Rio de Janeiro), MAMAM (Recife), entre outras.

 

Cuquinha e a disputa do simbólico

 

Pollyana Quintella

 

Lourival Cuquinha é amplamente reconhecido no cenário brasileiro por estressar as relações entre arte e política. Lourival Cuquinha é amplamente reconhecido no cenário brasileiro por estressar as relações entre arte e política. Do furto do parangolé de Hélio Oiticica, no início dos anos 2000, às icônicas bandeiras compostas de notas de dinheiro, o artista se dedica há mais de vinte anos a perscrutar as fantasias e as ficções sociais que rondam a prática artística, seus limites, validações e atribuições de valor, bem como as relações íntimas entre exercício político e dimensão simbólica. Crapulocracia, sua primeira mostra individual na Central Galeria, é a terceira de uma trilogia de exposições que vêm acompanhando os últimos capítulos políticos do país e a consequente derrocada do pacto democrático. A primeira delas, OrdeMha, foi realizada em 2016, em paralelo ao golpe exercido sobre o mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff, enquanto a segunda, Dos meus comunistas cuido eu (Roberto Marinho), presenciou a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018. Todas elas, por meio de diferentes estratégias, buscam situar o trabalho do artista à luz desses acontecimentos.

 

No centro da exposição de 2016, uma grande lâmina rotativa, tal qual as placas de Petri – recipientes cilíndricos utilizados por cientistas para analisar microrganismos –, expunha o equivalente a um metro quadrado de lama tóxica da Vale despejada no Rio Doce, como se fosse possível encapsular a catástrofe. Se a lama cumpria o papel de presentificar o desastre e aproximar de nós o evento (tantas vezes reduzido a uma abstração narrativa em razão do bombardeio de notícias e informações), ela também instigava certo fascínio meditativo pela substância em movimento, pondo em tensão as relações entre estética e política ou entre frágeis dicotomias como ação e inação, atividade e passividade.

 

Desta vez, dois torniquetes atualizam o repertório das recentes tragédias brasileiras. Um exibe o petróleo que atingiu as praias do litoral nordestino em 2019, enquanto o outro expõe as cinzas das queimadas que se multiplicaram no território nacional em 2021, formando uma espécie de inventário das destruições que não cessam de nos atravessar. No Brasil do presente, não é exagero dizer que a realidade supera a fantasia; sobra delírio, mas falta imaginação. Lama, fogo, bolsa de colostomia, tudo soa como pura literalidade. Para que metáforas? Resta saber se ver as substâncias assim de perto será o suficiente para perturbar nossa anestesia.

 

O petróleo, material de interesse de Cuquinha há alguns anos, também está presente no neon que dá título à mostra – Crapulocracia. A palavra luminosa contaminada pelo combustível fóssil funciona como um marcador temporal do presente, em que as promessas históricas são suplantadas pela realidade pós-utópica e a imaginação coletiva fracassa continuamente em encontrar soluções para as crises em que estamos imersos, enquanto o país é governado por uma besta.

 

Cuquinha, por sua vez, não se restringe à visão curta e nublada de um presentismo encerrado no aqui-e-agora. Trânsitos entre diferentes tempos históricos situam as complexidades políticas em perspectivas mais amplas, como é o caso de Apólice do Apocalipse (2018-2021), iniciada em 2018. Naquela altura, o artista apresentou uma cômoda de vidro antiga contendo uma transcrição da carta de Pero Vaz de Caminha, considerada o primeiro documento escrito no Brasil. Pouco a pouco, a carta ia sendo carcomida por um conjunto de grilos vivos, o que fazia menção direta ao fenômeno da grilagem, cujo nome tem origem no fato de que esses insetos eram utilizados para forjar o envelhecimento de falsos documentos. À luz da ação do artista, a história do país figurava como um gesto inautêntico. Agora, a mesma carta é exposta depois dos efeitos da grilagem, simulando o próprio anacronismo. Afinal, não há nada assim de tão novo no nosso fim do mundo; talvez estejamos mais próximos de um disco arranhado que repete um evento farsesco à exaustão. Junto a isso, a presença de uma lanterna de luz negra permitirá que o público reconheça que a carta foi escrita sobre um papel-moeda, entrelaçando identidade nacional, capital e poder.

 

A relação direta com o dinheiro também está presente em Brasil Sumidouro (2013). Recibos das mais variadas compras realizadas com o cartão de crédito do artista dão forma aos mapas das cinco regiões do país. Trata-se de uma espécie de loteamento simbólico do Brasil a partir de gastos pessoais, nublando as fronteiras entre o público e o privado. Sumidouro – lugar por onde algo desaparece – refere-se ao fato de que os dados impressos em tais notinhas fotossensíveis estão fadados a se apagar com o tempo. Restará apenas a cor do papel, nos fazendo questionar os critérios arbitrários de atribuição de valor no meio da arte.

 

É a obra Vendo Direitos à Venda (2021), contudo, que situa as operações financeiras com mais radicalidade. O artista comprou, em setembro deste ano, 100 ações da Petrobras pelo valor total de R$ 2.493,00. Os interessados em adquirir a obra deverão responder a um breve questionário cuja finalidade é designar se são ou não cidadãos golpistas. Os “brasileiros não golpistas” poderão comprar o trabalho por R$ 5.099,00, valor referente ao preço que as ações alcançaram em maio de 2008, momento de alta da empresa, enquanto “estrangeiros ou brasileiros golpistas” só poderão adquirir o trabalho pelo dobro do preço, R$ 10.198,00. Ao instituir tais condições, Cuquinha desconstrói um suposto espaço de neutralidade garantido pelo capital na comercialização, além de implicar as consequências políticas e econômicas dos últimos anos no seio das ações culturais.

 

Ao longo de todo o percurso definido por Cuquinha, somos reiteradamente provocados: Qual papel resta à prática artística na construção de um imaginário político? Como fazer do campo simbólico um espaço de disputa? Quais as negociações entre sujeito, instituições de poder e os limites da legalidade? Não será possível responder essas perguntas, mas, assim como para Cuquinha, nos caberá sustentar o problema: cutucar, desmontar e revirar as fantasias.

 

 

 

 

Arthur Lescher em Portugal

10/nov

 

Abertura de exposição individual de esculturas de Arthur Lescher a partir do dia 13 de novembro na KubikGallery, Porto, Portuga
Há mais de trinta anos que Lescher apresenta um trabalho sólido como escultor, que resulta da pesquisa em torno da articulação de materiais, pensamentos e formas. Nesse sentido, o artista tem no diálogo particular, ininterrupto e preciso, com o espaço e o projeto arquitetônicos, e a escolha de materiais (que podem ser metal, pedra, madeira, feltro, sais, latão e cobre), elementos fundamentais para destacar o poder desse discurso. Mesmo que o trabalho de Lescher esteja fortemente ligado aos processos industriais, apresentando extremo requinte e rigor, a sua produção não tem a forma como único propósito, na verdade, vai além. Essa contradição abre caminho para o mito e a imaginação, elementos essenciais para a construção da sua Paisagem Minimal.

 

Sobre o artista

 

Artur Lescher nasceu em 1962, em São Paulo, SP, Brasil, onde reside e trabalha. Algumas de suas últimas exposições individuais são: Artur Lescher: suspensão, Estação Pinacoteca, 2019, São Paulo, Brasil; Asterismos, Almine Rech Gallery, 2019, Paris, França; Porticus, Palais d’Iéna, 2017, Paris, França; Inner Landscape, Piero Atchugarry Gallery, 2016, Pueblo Garzón, Uruguai. Participações em exposições coletivas recentes incluem: Tension and Dynamism, Atchugarry Art Center, 2018, Miami, Estados Unidos; Mundos transversales – Colección permanente de la Fundación Pablo Atchugarry, Fundación Pablo Atchugarry, 2017, Maldonado, Uruguai; Everything you are I am not: Latin American Contemporary Art from the Tiroche DeLeon Collection, Mana Contemporary, 2016, Nova Jersey, Estados Unidos; El círculo caminaba tranquilo, Museo de Arte Moderno de Buenos Aires, MAMBA, 2014, Buenos Aires, Argentina; The Circle Walked Casually, Deutsche Bank KunstHalle, 2013, Berlim, Alemanha. Tem obras em importantes coleções como: Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA), Buenos Aires, Argentina; Museum of Fine Arts Houston (MFAH), Houston, Estados Unidos; Philadelphia Museum of Art, Filadélfia, Estados Unidos; Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil.

 

Com o apoio do programa InResidence, uma iniciativa da Ágora – Cultura e Desporto do Porto, E.M.

 

 

 

 

 

Color Bind na Kogan Amaro

 

A Galeria Kogan Amaro, Jardim Paulista, São Paulo, SP, recebe, a partir do dia 11 de novembro, a exposição coletiva “Color Bind”, que conta com curadoria de Marcello Dantas e obras de Felipe Góes, Fernanda Figueiredo, Isabelle Borges, Patricia Carparelli e Shizue Sakamoto, artistas representados pela galeria. Dantas foi convidado pelo espaço para propor uma   curadoria a partir das aproximações de cores das obras, revelando assim relações poéticas distintas entre elas.

Foram privilegiadas em sua seleção obras de predominância cromática. “Existem pelo menos 11 milhões de cores no mundo visível aos nossos olhos, mas a maior parte das pessoas só usam os nomes de onze cores no seu dia a dia. Ou seja, a linguagem verbal é uma ferramenta bastante inadequada para representar a linguagem das cores. Como falar sobre o inominável?”, provoca o curador.

 

As aproximações de cores foram analisadas via recursos digitais, considerando os componentes cromáticos de cada obra. Após essa etapa, os resultados foram comparados à sequência da escala Pantone, sistema globalmente aceito de identificação e sequenciamento de cores. A partir dessa tabela, as obras foram dispostas no espaço. “Há alguns anos comecei a pesquisar processos curatoriais que sejam como equações: sistemas que uma vez formulados estão abertos a apresentar resultados surpreendentes. O curador propõe uma forma conceitual de organização e, diante de um conjunto existente, aplica essa métrica para revelar algo sobre o qual nem ele mesmo tem controle sobre a resultante”, comenta Dantas.

É necessário ressaltar que o processo da composição dessa mostra foi profundamente abstrato para Marcello Dantas, que é daltônico e não pôde, de fato, compreender o resultado apresentado, apesar de ter concebido sua lógica. “O daltonismo não é não ver as cores, mas sim ter dificuldade em dar nomes a elas quando justapostas lado a lado, exatamente o que eu estava propondo com essa equação: revelar como as cores conversam entre si, sem uma intervenção do gosto humano”, explica. Com isso, a exposição revela ainda que a cor é uma linguagem própria que se infiltra na percepção humana de um modo subjetivo e que não tem uma explicação exata.

 

A palavra do curador

Obras de arte podem se aproximar de várias formas. Curadoria é um processo muitas vezes subjetivo de criar relações que aproximam coisas distintas com base em uma visão de mundo particular, mas que revela algo intangível. Acredito que a curadoria é também um jogo em que regras se estabelecem e que devemos deixar as ondas se chocarem para analisar a espuma. Essa espuma é a fricção que existe latente nas obras.

Há alguns anos comecei a pesquisar processos curatoriais que sejam como equações: sistemas que uma vez formulados estão abertos a apresentar resultados surpreendentes. O curador propõe uma forma conceitual de organização e, diante de um conjunto existente, aplica essa métrica para revelar algo sobre o qual nem ele mesmo tem controle sobre a resultante.

No caso dessa exposição, fui convidado pela Galeria Kogan Amaro a criar um olhar sobre os artistas da galeria. Acreditei que a aproximação pela cor (color bind) poderia ser uma forma de revelar a relação entre tantas poéticas distintas. Abandonamos as obras figurativas deliberadamente para poder buscar a relação entre trabalhos que se aproximam por sua predominância cromática. Existem pelo menos 11 milhões de cores no mundo visível aos nossos olhos, mas a maior parte das pessoas só usam os nomes de onze cores no seu dia a dia. Algumas línguas, como a tsiname, da Bolívia, só têm nomes para três cores: preto, branco e vermelho; e outras, como a dos esquimós inuítes, têm 50 palavras para definir a cor branca, baseadas na sua observação da neve. Ou seja, a linguagem verbal é uma ferramenta bastante inadequada para representar a linguagem das cores. Como falar sobre o inominável?

Para criar a exposição, solicitamos obras novas aos artistas e usamos recursos digitais que analisaram os componentes da cor de cada obra, os comparamos com a sequência da escala Pantone, um sistema globalmente aceito de identificação e sequenciamento de cores, e seguimos essa tabela para dispor as obras no espaço.

Eu tinha consciência de que esse processo seria algo profundamente abstrato para mim, pois nasci daltônico (colorblind) e não poderia, de fato, compreender o resultado aqui apresentado, mas consigo conceber sua lógica. O daltonismo não é não ver as cores, mas, sim, ter dificuldade em dar nomes a elas quando justapostas lado a lado, exatamente o que eu estava propondo com essa equação: revelar como as cores conversam entre si, sem uma intervenção do gosto humano. A cor é uma linguagem própria que se infiltra na nossa percepção por portas que não sabemos bem explicar.

Marcello Dantas

 

 

 

Abertura: 11 de novembro, das 11h às 17h.

Exposição: Até 18 de dezembro.

 

 

 

 

 

 

 

 

Duas exposições de Eduardo Sued

09/nov

 

apresentam a exposição “Eduardo Sued – Ousadias cromáticas”, com um conjunto importante e expressivo de obras inéditas do artista Eduardo Sued, oriundas de seu ateliê, em Jacarepaguá. Além de pinturas, serão expostas experiências tridimensionais feitas em diferentes suportes e materiais, que o artista chama de “pintura-relevo”, onde há a junção da tela com tocos de madeira. Aos 96 anos completados em 10 de junho, o celebrado artista continua ativo, trabalhando diariamente em seu ateliê. A curadora Vanda Klabin, que acompanha sua trajetória desde os anos 1980, selecionou os trabalhos que serão expostos nas duas galerias, simultaneamente, e escreveu o texto crítico que acompanha a dupla mostra.

 

Vanda Klabin conta que as duas exposições “sintetizam a trajetória de Eduardo Sued”. “São momentos diferenciados em sua produção, onde tudo é cor. As mostras permitem um olhar amplo e reflexivo sobre a trajetória desse grande artista, um pensador e o maior colorista do cenário artístico nacional. Um turbilhão de formas e de cores.  Em suas próprias palavras: “Tudo é cor, pode haver sonatas, sinfonias …’”. “Sued sempre revitaliza a linguagem pictórica, com liberdade e intensidades cromáticas. A cor tem um lugar polissêmico em sua obra. Suas pinturas refletem a relação entre a luz, a superfície cromática, uma geometria, o espaço e o tempo. A preocupação com a luminosidade está presente em todas as suas obras”, afirma.

 

Na Danielian Galeria estão obras dos anos 1980, período que Sued desenvolveu “uma orquestração de áreas negras, com vibrantes faixas coloridas divididas em segmentos desiguais”, explica a curadora. “São obras de uma estrutura geométrica com oposiçōes cromáticas mais ousadas e trabalhos de grandes dimensões, onde as proporções e as cores se alteram”.  Ela acrescenta que “nos anos 1990 Sued introduz novos elementos em seus trabalhos: usa tinta de alumínio e pinceladas mais espessas e descontínuas, além de retornar às colagens, presentes nos trabalhos dos anos 1970”.

 

Na Cassia Bomeny Galeria estão concentradas “os vastos cinzas e pratas, que trazem uma luminosidade diferente, acentos mais reduzidos – o cinza matinal ou vespertino, de natureza diversa, pelos tons mais baixos e opacos, um contraste sutil com essas tonalidades e uma identidade cromática própria com seu valor luminoso”.

 

Eduardo Sued por Vanda Klabin

 

A pintura de Eduardo Sued ocupa, na história da pintura brasileira contemporânea, uma posição singular, tanto pelo requinte cromático quanto pela extrema complexidade formal. A produção sistemática e intensa do artista, com o passar do tempo, foi configurando um campo pictórico autônomo, marcado pela disciplina estrita da pintura e pelo espírito de pesquisa permanente.

 

Eduardo Sued tem uma produção contínua e incessante, pois mantém há muitos anos a mesma rotina: acordar cedo e ir para o seu ateliê, dizendo sempre que nasceu com essa vitalidade, que o trabalho é fundamental, uma necessidade interior de estar sempre se desenvolvendo, e que sai diariamente, exaurido do ateliê. Trabalha diariamente em seu ateliê, projeto arquitetônico de seu amigo Luiz Paulo Conde (1934-2015), situado em um condomínio em Jacarepaguá́, no Rio de Janeiro. Considera o lugar da criação, o lugar onde as coisas são geradas. Ele declarou que o próprio ateliê tem o seu mundo: “Os objetos que estão dentro desse espaço e pertencem a você. Por essa razão, Miró e Giacometti, também, gostavam de ter o ateliê repleto de trabalhos. É aqui nesse lugar que o artista resolve fazer alguma coisa”.

 

Acompanho a trajetória de Sued há muitos anos, desde o início dos anos 1980, e conheci o seu ateliê na Rua Viveiros de Castro, em Copacabana, e o ateliê na Rua da Alfândega, no Centro do Rio de Janeiro, onde realizou o trabalho para a Bienal de Veneza, composto de áreas cromáticas cortadas em tecido de seda pura, que atuam no movimento da superfície da obra, como um questionamento dos limites da pintura. Este ateliê no Centro era o local onde sua mulher, a estilista Marilia Valls (1928-2018), criava suas peças para sua loja Blu-Blu.

 

Eduardo Sued nasceu no Rio de Janeiro, em 1925, filho de imigrantes sírios da cidade de Homs, situada a nordeste de Damasco. Estudou na Escola Nacional de Engenharia, no Rio de Janeiro, e abandonou a faculdade no terceiro período para total dedicação às artes plásticas. Contrário às rígidas regras tradicionais e acadêmicas, preferiu frequentar as atividades dos cursos livres. Estudou pintura e desenho com o pintor alemão Henrique Boese, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, em 1949. Nos anos 1950, trabalhou como desenhista no escritório de Oscar Niemeyer; Sued sempre menciona que a matemática o permitiu cultivar, desde o início, a clareza do pensar e a disciplina na precisão do fazer.

 

Em seguida, viajou para Paris, lá frequentou a Académie Julian e a Académie de la Grande Chaumière, onde havia a predominância da Escola de Paris e estavam em curso as principais vertentes do cubismo — o epicentro da pintura moderna. Em 1953, retornou ao Rio de Janeiro, alinhado com as poéticas de fragmentação cubista picassianas e com os valores plásticos modernos, adquiridos durante a sua estada europeia. Estudou gravura em metal com Iberê Camargo, no ateliê da Lapa, um trabalho minucioso e quase artesanal; aprendeu várias técnicas importantes para a sua formação profissional. Passou a produzir gravuras conhecidas como águas-tintas, com cores justapostas em tonalidades suaves, realizadas sobre superfícies granuladas do metal

 

Sued segue o seu caminho, sem se filiar jamais a nenhum movimento ou programas estéticos, mantendo-se independente e distante das discussões entre figurativos e abstratos e/ou das dissidências entre concretos paulistas. Nos anos 1960, também não se submeteu à nova ordem figurativa que estava em vigor. As ideias construtivas encontraram um intenso desenvolvimento no cenário da arte brasileira, após a inauguração da I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. O crítico de arte e seu grande amigo Ronaldo Brito, que acompanha seu trabalho desde os anos 1960, afirmou que “Eduardo Sued é o grande desinibidor da linguagem abstrata de origem construtiva, na pintura moderna brasileira”.

 

Realizou sua primeira exposição individual na Galeria Bonino, no Rio de Janeiro, em 1958, quando apresentou os elementos fundamentais do seu pensamento plástico, as pinturas, guaches e aquarelas, com uma caligrafia cromática e uma linguagem da abstração geométrica. Participou da 41ª Bienal de Veneza, em 1984, com um trabalho inédito, composto de faixas de seda pura coloridas que substituem as tiras verticais alongadas de cor na superfície da tela, como negação da profundidade, na fronteira do tridimensional.

 

Nos anos 1980, surgem novos elementos em seu trabalho. A base da tela rompe o contorno da totalidade da superfície e pulveriza o espaço construído pela forma do quadrado. Uma espécie de “rodapé pictórico”, no qual as diferenciadas zonas cromáticas são divididas em segmentos desiguais, que interrompem a extensão contínua das cores. Em suas palavras: “a base rompe o contorno do quadro, faz com que ele deixe de ser só um quadrado”.

 

No seu pensamento plástico, o ato de pintar tem uma intensa relação com a música. Não trabalha apenas com os olhos, mas com os ouvidos para escutar as exigências das telas. As cores servem para serem vistas e ouvidas e menciona que, quando ele está em dúvida, fecha os olhos e aproxima o ouvido da tela, pensando nos valores de claro e escuro. As cores desabrocham aos poucos: “Ouço o que a tela pede. Costumo ouvir as cores para poder fazer a estrutura cromática das telas”. Utiliza essa correspondência como metáfora da sua vivência pictórica, recomenda ao artista trabalhar com os ouvidos para escutar as exigências das telas.

 

O vocabulário Sued é baseado em estruturas geométricas e ousadas oposições cromáticas, uma totalidade plástica original com uma grande liberdade no tratamento da cor, por vezes saturadas, com combinações ou dissonâncias cromáticas, mas sempre construindo novos direcionamentos.

 

Sued busca harmonizar coisas que não se harmonizam; cores que não se irmanam. O artista parece estar sempre provocando novas situações, assim como as dissonâncias musicais, sendo um ouvinte da música de Arnold Schönberg, Alban Berg, Anton Webern, a famosa segunda escola de Viena, que trabalhavam no sentido da dissolução do sistema tonal, conhecidos pela nova organização sonora, como uma consequência da inevitável desagregação do sistema tonal – o dodecafonismo, escrita musical em que nenhum dos 12 sons da escala cromática tem maior importância do que os outros. O que significa romper com um sistema ou situação estabelecida. Nas numerosas visitas que realizei ao ateliê do artista, havia sempre uma música tocando, muitas vezes dissonante. Sued mencionava que a distância entre um acorde e outro conseguia entrever a presença de um contraponto na pintura, nos valores de claro/escuro e luminosidades.

 

Em 1998, período em que eu era diretora do Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, convidei Eduardo Sued para realizar uma exposição individual, com curadoria de Paulo Sergio Duarte. Essa mostra reuniu cerca de 40 obras, perfazendo vinte anos de trabalho e algumas pinturas recentes. O artista apresentou uma instalação intitulada “Objetos”, em homenagem ao pianista e compositor de jazz Thelonious Monk. São as intituladas réguas, objetos tridimensionais de madeira pintada, geralmente agrupadas e encostadas ou presas na parede.

 

A obra de Paul Klee teve uma enorme importância para o seu trabalho e é considerado um ponto seminal para o desenvolvimento das colagens, que passam a estar presentes em seus trabalhos a partir dos anos 1970. Em 1974, realizou uma exposição na Galeria Luiz Buarque de Hollanda e Paulo Bittencourt, no Rio de Janeiro, com trabalhos em que as colagens estavam presentes e grandes áreas de cor, agora de visualidade plena: “Não mais anexa coadjuvante de um espetáculo estrutural, mas como uma das partes formativas essenciais da obra”.

 

Até os anos 1980, o comportamento do pincel não aparecia na estrutura das telas, que apresentavam diversas tonalidades de cor, com modulações bem ordenadas, porém lisas. Em 1982, na exposição de Eduardo Sued no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, foram apresentadas diversas telas com novas soluções, agora uma palheta com intensas vibrações coloridas e pinceladas oblíquas.

 

Na década de 1990 suas obras apresentam outros dilemas, com as pinceladas espessas e descontínuas, uma nova oposição à superfície planar, adquirindo maior complexidade com o acréscimo de recortes de madeira e elementos tridimensionais, como um questionamento dos limites da pintura, contrapostos aos acúmulos de matéria. Sued chama de pintura-relevo, onde existe a junção da tela com tocos de madeira. Ele afirma: “O prata é o vazio, mas um vazio que é o lugar de alguma coisa e contém a presença do invisível. O vazio vitalizado representa as coisas sem gravidade e sem peso, e foi se estendendo como uma potência na tela. É como se eu estivesse lidando com entes invisíveis e ausentes”.

 

Em 2004, realizamos uma mostra individual intitulada “Eduardo Sued: a experiência da pintura”, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma curadoria em parceria com Ronaldo Brito. A exposição deu ênfase a trabalhos, agora em formatos de grande escala, nos quais Sued agrega à sua pintura sarrafos de madeira pintada nas bordas, exaltando uma condição pública para os seus trabalhos; houve também uma sala especial, com obras mais antigas, consideradas exemplares, sendo eleita a exposição do ano.

 

Até 15 de Janeiro.

 

As galerias Danielian, Gávea, e Cassia Bomeny, Ipanema,

 

Três artistas na Simões de Assis

08/nov

 

A Galeria Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP, inaugura simultaneamente as exposições de André Nacli, Miguel Bakun e Julia Kanter.

 

André Nacli e Miguel Bakun

Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens.

Agnès Varda

 

“Paisagens Interiores” estabelece diálogos poéticos e imagéticos entre a obra de Miguel Bakun, pintor paranaense cuja trajetória foi marcada por um apreço profundo pela paisagem, e de André Nacli, que, pela fotografia, tenta registrar um outro tempo – o das eras geológicas, do crescimento das árvores, do correr dos rios. De um lado, encontramos uma pintura discretamente solar, bastante lavada, marcada pelo uso de verdes, amarelos e azuis pouco saturados e meio manchados; as figuras são pouco definidas, sem contorno, e a urgência da pincelada se faz evidente pelas nesgas de tela que aparecem por detrás, intocadas. De outro, algumas fotografias nítidas trazem recortes da natureza em dias de luz branca e difusa, nas quais a textura dos elementos orgânicos do ambiente se faz intrincadamente visível pela lente; já em outras, apesar da imagem cristalina, há uma névoa densa por toda a superfície que cria uma veladura a embaçar a vista. Em comum, Nacli e Bakun parecem buscar olhar para os mesmos elementos: as típicas araucárias da paisagem paranaense, a mata embaralhada, enquanto também procuram enquadramentos inusitados, ora em composições de pouco ou nenhum céu, ora em perspectivas verticais que recortam apenas um vislumbre da cena. Também em um traço compartilhado pelos dois artistas, os trabalhos sugerem uma certa atmosfera melancólica, talvez pela ausência quase total de figuras humanas ou animais (elementos que, naturalmente, poderiam habitar essas paisagens). Desse modo, mesmo em tempos distintos – afinal, estão distanciados por, praticamente, meio século -, parecem olhar para um mesmo ambiente, um mesmo contexto, um mesmo momento suspenso, que não carrega outras marcas e indícios de civilização que não uma ou outra casinha, e que não revela sua brasilidade a não ser pela espécie de pinheiro típica da região sul do país. Desse modo, é possível notar como tanto o fotógrafo quanto o pintor transmitem em suas obras uma leitura de um lugar, das naturezas que encontram, reproduzindo suas impressões nubladas e suas emoções nostálgicas em cada trabalho. É por isso que a interlocução estabelecida como cerne de “Paisagens Interiores” trata simultaneamente de espaços imaginários e reais, líricos e concretos, imutáveis e fugidios, passados e futuros e, igualmente, sem tempo definido, congelados no gesto da pincelada e no segundo do clique. Bakun e Nacli, mesmo que separados pelo suporte, pela biografia e pela circunstância, encontram-se nessa exposição lado a lado, refletindo sobre o papel da paisagem na construção de uma ideia de lugar, mais do que de um lugar em si.

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Exposição de fotos de Julia Kanter

Diante dos trabalhos de Julia Kater, temos a sensação de que ela parece vagar sozinha, com sua câmera, entre as paisagens, olhando lentamente para a textura da natureza diante de seus olhos. Neste caminho do vagar é que ela encontra os grãos de saturação para suas imagens, nos quais a cor, o som e o movimento são fixados a partir do clique fotográfico, transformando-se em silêncio e em um fluxo atemporal e acalmado. Na série fotográfica Quase um, reunida na mostra individual da artista, ela se coloca em um limiar imaginário existente entre o mar e o céu. Algumas das fotografias partem de uma ideia de contínuo, que nos confunde enquanto espectadores, e, em outros casos, há uma baixa linha do horizonte, que se estende e divide nosso campo de visão. Nestes trabalhos, parece existir uma certa vontade de mar que é interrompida pela imensidão do céu.

Esta vontade de mar relaciona-se ao desejo de habitar um “espaço liso por excelência”[1], ocupado mais por acontecimentos do que por coisas formadas e já percebidas. Neste espaço “liso” não há distinção entre fios nem tampouco entrecruzamentos; há apenas um emaranhado de fibras, que servem como palco e plataforma para a causalidade. Neste desejo, recusa-se aquela paisagem já formada, o espaço estriado, e aponta-se para uma tentativa de construção de uma outra paisagem e de uma outra experiência diante dela.

Ao nos debruçarmos mais atentamente nestas fotografias, percebemos que, além desta linha que se estende horizontalmente, há uma série de cortes feitos em toda sua composição. A fotografia sai do plano, e constrói-se a partir de camadas, que carregam, em si mesmas, os gestos conduzidos pelo corpo da artista. Esta marca de precisa gestualidade nos apresenta uma longa empreitada de pesquisa sobre a paisagem retratada. Kater nos convida a ultrapassarmos uma certa objetividade convencional da fotografia, e sua visão, que constantemente escaneia, disseca e remonta o objeto visível, aponta para a certa invisibilidade que existe no cerne das coisas. Kater não procura duplicar ou replicar pelo corte e pela montagem: ela nos apresenta a singularidade do fenômeno visível.

Quase um é uma metáfora para o modo pelo qual percebemos o mundo. Captamos e decodificamos, continuamente, a partir da luz incidente em nossas retinas, as imagens dos diversos fragmentos espaciais e objetos que nos circundam. Eles tornam-se paisagem a partir do momento em que os entendemos como partes de um todo. Olhar duas vezes para um mesmo lugar é modificar a paisagem. A paisagem não existe sem nossa presença e sem uma unidade temporária que nós mesmos damos a ela.

Nas operações de corte e montagem, realizadas pelo nosso olhar e escancaradas pelas fotografias da artista, revelam-se as cascas do todo paisagem que nos cerca. Estas cascas nos convidam a olhar para dentro, e não através de suas camadas. Neste movimento para dentro é que chegamos às fissuras entre o mundo concreto e o espaço por nós percebido, onde existem e ressoam imaginários profundamente sentidos e, em alguns casos, pouco falados. Em Quase um, Julia Kater nos convida a olhar para as cascas da imagem, nas quais acessamos tanto a memória do instante capturado pela fotografia quanto da performance da própria artista que recorta e remonta sua superfície. Este olhar desestabiliza a certeza de nossas representações de mundo e nos leva a habitar um espaço em que tudo é possível, inclusive vir a ser mar.

Ana Rom

Até 18 de dezembro

Exibição de esculturas de José Resende

 

No dia 13 de novembro, às 14h, a Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS, abrirá sua nona e última exposição de 2021, “Na membrana do mundo”. Com curadoria de Luisa Duarte, Porto Alegre recebe, pela primeira vez, um conjunto significativo de obras – produzidas entre 1974 e 2018 – que marca a trajetória de José Resende.

Em mais de 50 anos dedicados às artes plásticas, uma das principais características de Resende é a apropriação de materiais comuns e ressignificação em instalações com uma forte densidade poética e grande potência visual. Ao todo, serão apresentadas 18 esculturas de grandes dimensões misturando diversos materiais, como parafina, feltro, aço, ferro, chumbo, latão, cobre, madeira, pedra, borracha, que têm ao mesmo tempo o desafio de fazer um trabalho com humor, tensão, oposições de sentido e movimento latente.

 

Até 06 de março de 2022.

In memoriam de Jaider Esbell

04/nov

 

Jaider Esbell transformava mundos e pessoas com sua presença provocadora e generosa. Não vinha para pacificar ou para simplificar, mas para tensionar incansavelmente soluções e arranjos cristalizados, concebidos para manter um status quo violento e opressor. Desmascarava hábitos colonizadores introjetados nas rotinas institucionais, desafiava aqueles que o cercavam a colocar em dúvida suas certezas e, invariavelmente, oferecia modos de resolver impasses, promovendo esforços de diplomacia e tradução com uma energia criadora que parecia inexaurível. Não trilhava caminhos conhecidos ou sequer concebidos antes dele, mas mostrava e demonstrava a necessidade de outras parcerias, outras maneiras de trabalharmos juntos.

 

Era decidido, firme e objetivo, nunca condescendente. Era sempre construtivo, principalmente quando demolia visões ultrapassadas do mundo e da arte. Nos longos meses de preparação da Bienal, poucos momentos foram tão intensos quanto a fala em que Jaider, no pavilhão ainda vazio e silencioso, compartilhou conosco, publicamente, seus sonhos, reafirmando sua atuação fundamental na articulação da cena da Arte Indígena Contemporânea. Fundamental, isto é, para todos, para que chegue mais cedo o momento em que as mudanças que sabemos serem necessárias e inadiáveis possam de fato acontecer.

 

As conversas e trocas com ele foram decisivas na definição da participação de artistas indígenas na Bienal, na realização da mostra Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea no MAM São Paulo e na programação pública batizada por ele como “Bienal dos Índios”.  Sem seu exemplo, teria sido muito mais árido pensar a possibilidade da Relação como qualidade definidora da arte e da experiência humana. O sentido geral da mostra se tornou outro pela sua presença, e agora ele se transforma outra vez por sua ausência. Mas essas trocas tiveram um impacto ainda mais amplo, para além da 34ª Bienal: Jaider Esbell é um dos catalisadores de uma mudança irreversível no debate da arte, da cultura e da diferença no nosso continente.

 

Seus braços iam longe, abraçavam seres, pessoas, saberes, visões de mundo e povos em encontros inaugurais, em que a diferença não era um fim em si mesmo, mas um princípio ativo para iniciativas contracoloniais. Seus olhos brilhavam com a convicção de uma missão a ser vivida, a qual ele podia resumir compartilhando um sonho, criticando os princípios do sistema da arte ou defendendo o sentido ativista e político da atuação tática de artistas indígenas contemporâneos.

 

Para nós, será impossível pensar nesses anos de trabalho e convívio sem sentir saudade do olhar desse artista, curador, escritor, agitador, pensador… desse amigo, desse txai. Sem ele, ficamos com a dor de uma perda gigantesca e irreparável. Ficamos também com a responsabilidade de levar adiante, coletivamente, o que ele iniciou. De seguir no caminho que ele concebeu e demonstrou ser possível. Ficamos com a tarefa de não deixar que o processo que a sua sabedoria soube iniciar se detenha ou regrida, de lutar para que se mantenha contínuo, irreversível e transformador.

 

Jaider Esbell partiu, mas continuará entre nós sua energia, que provoca efeitos imediatos, mas também rearranjos profundos e mudanças duradouras.

Em sua memória, estendemos os braços a todas e todos que foram tocados por sua presença, em especial seus familiares, amigos e aliados de longa data.

 

Gratidão.

 

 

Jacopo Crivelli Visconti e Paulo Miyada

Lucas Arruda e Iberê Camargo

 

O lugar da pintura de Lucas Arruda e Iberê. Curadora apresenta as relações entre as mostras “Lugar sem lugar” e “Tudo te é falso e inútil”, duas exposições na Fundação lberê Camargo.

 

Pode-se dizer, grosso mo­do, que o artista paulista Lucas Arruda vem há dez anos depurando de maneira quase ritualística um mesmo tema: a paisagem como construção do olhar. É o que se pode verificar na exposição “Lucas Arruda: lugar sem lugar”, em cartaz na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS. (*)

 

As pinturas de Arruda nos permitem ver, ao mesmo tempo, um pouco além da abstração e antes da figuração. Construídas a partir de camadas de tinta sobrepostas, escovadas, arranhadas, esfregadas, são obras que invocam o gênero paisagem usando por vezes tão somente a sugestão de uma linha de horizonte. E ela, afinal, que constitui recurso fundamental dessa tradição pictórica, uma espécie de menor denominador comum da composição paisagística, já que, como espectadores, tendemos a atribuir sentido a qualquer marquinha num espaço aberto, a imediatamente interpretar uma linha horizontal como um horizonte, a enxergar nuvens nas mudanças de direção de pinceladas, a ver um chão de terra numa camada grossa de impasto.

 

Os trabalhos da série “Deserto-Modelo”, presentes na mostra, sugerem lugares desprovidos de referências geográficas, mas que se edificam na memória e evocam vistas da natureza, marinhas e de matas. Nossa experiência diante dessas pinturas – embora certamente permeada por memórias, associações pessoais, narrativas indiretas e conotações artísticas históricas – nos remete, sobretudo, ao fenômeno sensual e sensorial da pintura.

 

A insistente frontalidade e a paleta contida de Arruda estão presentes nos vários trabalhos reunidos na mostra. A seleção abrange quatorze anos da produção do artista, incluindo desde pinturas do início da carreira àquelas realizadas em 2021, além de obras em outros suportes, como vídeo e instalação de luz. São obras silenciosas, caracterizadas por uma luminosidade insólita e sutil que se revela aos poucos, recompensando a observação prolongada. Entre o devaneio e a tatilidade da aplicação da tinta, evidencia-se a habilidade extraordinária do pintor. A incansável experimentação pictórica de suas pinturas é comovente, em especial quando vistas ao vivo.

 

Paralelamente, é apresentada a mostra “Iberê Camargo: tudo te é falso e inútil”, uma seleção de obras do artista gaúcho, concebida juntamente com Arruda, pertencentes ao acervo da Fundação Iberê. Oferece-se aqui uma experiência imersiva nas últimas criações de Iberê, a partir das cinco célebres pinturas da série “Tudo te é falso e inútil”, reunidas pela primeira vez na Fundação. Pretende-se dessa forma explorar momentos de intersecção e diálogo entre os trabalhos de Arruda e Iberê, sugerindo pontos de acesso ao entendimento de questões compartilhadas por ambos.

 

“Tudo te é falso e inútil” parece ser para onde converge – e de certa forma submerge – toda a trajetória artística de Iberê Camargo. Elementos constitutivos do léxico singular do pintor – carretéis, manequins, caixas d’água, bicicletas – compartilham com figuras débeis e pesadas, quase andrógenas, o lugar elusivo e movediço demarcado pelas pinturas e desenhos. A seleção – onze pinturas e trinta e cinco desenhos das séries “Ciclistas” e “Idiotas”, além da série completa e esboços preparatórios para “Tudo te é falso e inútil” – busca explicitar justamente o processo obsessivo desse “retorno das coisas que adormeceram na memória”, como definiu o próprio Iberê, no qual a re-emergência dos mesmos elementos oferece ao espectador uma imersão profunda no imaginário singular do artista.

 

Na obra de Iberê, como na de Arruda, há um contínuo retrabalhar de certas imagens. Ambos, ao invés de se intimidar diante da repetição, a abraçam como recurso de decantação e depuração de ideias que, em última análise, nos levam para além do tema e de volta à pintura.

 

Cumpre dizer que, desde o primeiro encontro de Lucas Arruda com a série “Tudo te é falso e inútil”, há sete anos, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, essas pinturas se tornaram uma forte referência para seu trabalho. O artista conta que voltou repetidas vezes à exposição para observar as pinturas: “O que mais me impressionou foi o perfeito alinhamento entre a execução e o assunto do trabalho. O drama daquelas imagens não reside somente no conteúdo, mas em como Iberê as construiu, no modo como a tinta é posta e raspada, riscada, depositada e removida múltiplas vezes, resultando na fantasmagoria das figuras. A angústia do tema é expressa na própria carne da pintura. Parece existir uma ansiedade no fazer, estreitamente conectada ao assunto, que traz uma potência muito grande para o trabalho. Essa qualidade da pintura do Iberê foi uma das coisas que mais me chamou a atenção”. Em “Tudo te é falso e inútil”, resume Arruda, “Iberê tenta captar esse momento em que as coisas perdem sentido”. No entanto, a despeito da atmosfera distópica, “da evidente falta de otimismo manifesta nas pinturas, é notável a capacidade do trabalho de gerar um consolo à inquietação existencial do ser humano”, conclui.

 

Tanto na série “Tudo te é falso e inútil”, de Iberê, quanto na “Deserto-Modelo”, de Arruda, há uma suspensão de referências de espaço e tempo que torna possível dizer que “o lugar sem lugar” onde opera o primeiro e equivale ao deserto do segundo. Este, nas palavras de Arruda, “não tem data, pode vir antes de tudo ou depois de tudo. Você não sabe se o deserto é um momento de formação ou do fim das coisas. E, ao memo tempo, gênese e apocalipse. E algo que busco nas minhas pinturas, essa atemporalidade”. Palavras que poderiam descrever também o espaço ambíguo criado por lberê.

 

Os dois artistas constroem pinturas compostas de inúmeras superposições de marcas, acidentes e camadas que muitas vezes resultam em superfícies onde se vê quase nada. Como bem articulou o colega de oficio Paulo Pasta, é “o emprego de um esforço monumental para expressar a inutilidade de qualquer esforço”. Uma perfeita analogia tanto da arte quanto da vida.

 

Lilian Tone (*)

 

“Lucas Arruda: Lugar sem lugar – Até 16 de janeiro de 2022.

 

“lberê Camargo: Tudo te é falso e inútil” – Até 13 de fevereiro de 2022.

 

Agendamento: bileto.sympla.com.br

(*) Curadora das mostras ”Lucas Arruda: Lugar sem lugar” e “Iberê Camargo: Tudo te é falso e inútil”. Curadora independente que, até recentemente, integrava o Departamento de Pintura e Escultura do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

 

Fontes: Fundação Iberê Camargo-Correio do Povo