Marcelo Guarnieri exibe Iolanda Gollo Mazzotti

30/set

 

A Galeria Marcelo Guarnieri, Jardins, São Paulo, SP, apresenta até 03 de novembro, “Luz que emana”, primeira mostra na unidade de São Paulo da artista Iolanda Gollo Mazzotti. A exposição reúne pinturas, esculturas e frotagens produzidas durante os anos de 2021 e 2022 e conta com texto crítico do curador Ricardo Resende.

Iolanda Gollo Mazzotti nasceu em 1952, em Caxias do Sul, RS, einiciou sua produção ainda na década de 1990, exibindo seu trabalho em museus como MAM São Paulo; MAM Rio de Janeiro; Paço Imperial do Rio de Janeiro; MAC Paraná; MAC Rio Grande do Sul e Itaú Cultural de São Paulo. Em sua pesquisa, a artista investiga questões relacionadas à luz e ao poder da imagem, através de uma aproximação com o universo da estatuária religiosa e da experimentação com a técnica da gravura em um campo expandido.

Filha e neta de artesãos marceneiros de altares e santos, Iolanda Gollo Mazzotti cresceu rodeada de figuras religiosas, que, ao seu olhar, pareciam sempre perfeitas e inalcançáveis, distanciadas do plano terreno. Movida por essa inquietação e interessada pelos aspectos plásticos daqueles objetos escultóricos, a artista deu início a um trabalho – que já dura mais de vinte anos – de distorção e desmanche da Nossa Senhora da Luz, uma santa da Igreja Católica tradicionalmente invocada por pessoas com deficiência visual, que em sua imagem original carrega uma lamparina.

Sua curiosidade pelas questões do invisível a levou a associar a sua pesquisa sobre a imagética religiosa ao campo das percepções sensoriais, questionando a importância que havia sido socialmente atribuída ao sentido da visão para a experiência humana. Em meados da década de 90, Iolanda Gollo Mazzotti acompanhou de perto o trabalho da APADEV – Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Visuais de Caxias do Sul, trocando experiências e reflexões com os associados em torno das potencialidades e limitações das pessoas videntes e das pessoas não-videntes. Essa vivência permitiu à artista refletir que nem sempre a luz possibilita uma apreensão da realidade, já que pode inibir outros sentidos e, quando em excesso, pode cegar. Retirando a lamparina das mãos da santa em seu trabalho, Iolanda Gollo Mazzotti ressignifica a imagem da Nossa Senhora da Luz como uma maneira de explorar questões não somente filosóficas, como também plásticas. “Em meu trabalho, essa imagem tem a mão vazia porque a luz agora se apresenta de diferentes formas. Modelando, delimitando e se diluindo para gerar diferentes intensidades de sombras.”, diz Iolanda.

Iolanda Gollo Mazzotti apresenta esculturas, pinturas e objetos que se constroem por meio de técnicas como a frotagem, a moldagem e a costura, e materiais como o carvão, a seda e o gesso. Todas essas obras são provenientes de uma única matriz: a escultura de uma Nossa Senhora da Luz. Para produzir um dos trabalhos, são retiradas dessa matriz impressões frotadas em seda com carvão e gesso que geram imagens fragmentadas da santa, como se fossem registros imperfeitos de um corpo sagrado, suspensos pelo teto. Outro conjunto de peças apresentadas se aproxima um pouco mais do campo tridimensional, embora ainda se relacionem com o ato de gravar e com o interesse da artista pela linguagem da gravura. Moldadas sobre tecido, compõem corpos deformados da santa cujos aspectos podem ser percebidos através de um efeito de drapeado. A artista explica que “a santa nunca se reconstrói totalmente, apenas dá indícios de sua totalidade”.

Indo além no exercício de desmanchar tal figura, Iolanda Gollo Mazzotti exibe também os moldes de silicone e as camas de gesso, não mais suspensas e aéreas, mas dispostas no chão, em contato com o solo: “As camas que acolhem os moldes contém a força de uma forma impregnada de conceitos e limitações, mas agora descansam sob uma luz tênue que se desprende da estrutura rígida da matéria.” Outros moldes menores feitos de gesso, resina e cera são apresentados, mas o que se vê são apenas suas cavidades interiores iluminadas por pequenas lâmpadas de baixa voltagem. Duas máquinas em paredes opostas riscam a superfície com carvão – uma linha na horizontal e outra na vertical – e compõem uma cruz desmembrada, deixando também no chão o registro da ação em forma de Galeria Marcelo Guarnieri.

 

 

Artista francês em Ipanema

20/set

 

 

Expoente da arte contemporânea da França ocupa, com obras inéditas e recentes, os dois andares da galeria Nara Roesler, Ipanema, Rio de Janeiro, em sua primeira exposição na cidade. Com obras em coleções prestigiosas como a do Centre Georges Pompidou, em Paris, e representante de seu país na Bienal de Veneza em 2017, Xavier Veilhan mostra esculturas em vários materiais e formatos – três delas interativas -, e um grande móbile, de 4,5 metros, que exploram seu interesse em criar espaços e contextos que alteram a experiência do espaço e a percepção do tempo. Em paralelo à exposição, a Cinemateca do MAM já exibiu filmes de Veilhan.

 

Sobre o artista

 

Xavier Veilhan (1963, Lyon, França, radicado em Paris) é conhecido por trabalhos que transitam entre escultura, pintura, instalação, performance, vídeo e fotografia. Na exposição estarão qinze obras, entre esculturas de dois metros de altura, esculturas cinéticas em madeira, e um grande móbile, de 4,5 metros de altura, que oferecem ao público uma excelente oportunidade de conhecer o trabalho deste grande artista. A originalidade das suas proposições, que tensionam a relação entre o bidimensional e o tridimensional, resulta em espaços e contextos que alteram a experiência do espaço e a percepção do tempo, um dos interesses do artista. Sua obra está em coleções de importantes museus, como o Centre George Pompidou, e além de exposições em instituições de arte ele se interessa por espaços públicos, e já realizou obras específicas para locais em várias cidades do Japão, Coréia do Sul, EUA, Suíça, Suécia, Itália, Portugal, China e França. Suas exposições e intervenções in situ em cidades, jardins e casas questionam nossa percepção ao criar um envolvente percurso em que o público se transforma em participante ativo.

 

 

Beatriz Milhazes em NY

 

Na sua primeira exposição em Nova York em mais de uma década, Beatriz Milhazes apresenta “Mistura sagrada” na Pace Gallery, apresentando dez novas pinturas e uma escultura móvel em grande formato. Os motivos florais e geométricos de Milhazes – entre arabescos e mandalas – têm um aspecto cinético que leva a uma experiência ampliada da pintura, criando uma atmosfera em movimento que extrapola a bidimensionalidade do plano.

Até 29 de outubro.

 

 

Ocorrências visuais de Bechara na LURIX

16/set

 

A LURIXS: Arte Contemporânea, Leblon, Rio de Janeiro, RJ, apresenta até 28 de outubro “Nervo Combustão Fluxo”, exposição individual de José Bechara, com texto de Felipe Scovino.

 

Em sua sexta exposição individual na galeria, o artista ocupa as duas salas expositivas do prédio para apresentar 15 obras inéditas entre oxidação de metais sobre lona e esculturas em vidro. Como aponta Scovino: “O que reúne, com mais força, as obras nesta exposição é o fato de estarem em moto-contínuo mesmo em um estado de aparente repouso. Há uma ação, um devir, que acontece ininterruptamente mesmo essas mudanças não sendo perceptíveis a olho nu.”

 

O crítico evidencia também que o artista “não abandonou o grid – um signo constante em sua trajetória -, mas o tornou mais complexo nos últimos anos. Adicionou mais elementos a essa estrutura, transmitindo uma sensação de agilidade e aumentando a potência alegórica de um estado transitório em suas pinturas.” e conclui “Bechara continua, como um dínamo, a produzir novas e incessantes paisagens movidas a combustão e alta intensidade.”

 

Moto-contínuo

Por Felipe Scovino

 

O que reúne, com mais força, as obras nesta exposição é o fato de estarem em moto-contínuo mesmo em um estado de aparente repouso. Há uma ação, um devir, que acontece ininterruptamente mesmo essas mudanças não sendo perceptíveis a olho nu. É de conhecimento daqueles que acompanham a trajetória de José Bechara que o fenômeno da oxidação de emulsão ferrosa e/ou cúprica sobre lona de caminhão é algo que persiste desde o início da sua trajetória. Uma certa magia acontece na distribuição, quantidade e gestualidade que Bechara emprega utilizando as emulsões sobre a lona. Mas quero ir além desse fato notório e apontar que suas obras na última década, uma ínfima parte aqui exposta, evidenciam outros gestos (ou movimentos, se quiserem assim chamar).

 

Bechara também não abandonou o grid – um signo constante em sua trajetória , mas o tornou mais complexo nos últimos anos. Adicionou mais elementos a essa estrutura, transmitindo uma sensação de agilidade e aumentando a potência alegórica de um estado transitório em suas pinturas. Digo isso porque, para além do fato de o artista não abdicar do processo de oxidação na construção de formas geométricas sobre a lona, há outro regime de temporalidade sendo explorado. Se, nas partes oxidadas encontradas na pintura, a passagem do tempo, demarcada pela ação da emulsão sobre a lona, é vagarosa, minuciosa e “imperceptível” à experiência do olho, nas formas que caracterizam o grid, o nosso olhar percorre a superfície da pintura de forma acelerada e descontínua. Não há centro, tudo está a se mover de forma esquiva e instável. Os pontos de cor, chamativos, quentes e espalhados pelos mais distintos pontos da lona, intensificam essa operação. No díptico Margarida Cabeça Stripe (2018), o que prevalece é a oxidação na lona superior, formando metaforicamente não só uma matéria em combustão, mas a constituição de uma paisagem, notadamente, de um nevoeiro. É perspicaz a escolha, até certo ponto ocasional, que Bechara faz de como, onde e com que intensidade o processo químico da oxidação ocorrerá sobre a lona e, em um segundo momento, as formas alusivas ao mundo que são criadas.

 

Bechara também opera pela fratura e podemos observar essa característica sob dois pontos de vista. Primeiro, eu diria, uma fratura que se dá no material escolhido. O artista faz uso, e não são raros os casos, de remendos, isto é, pedaços de lona sobrepostos sobre a lona maior. Essa operação de corte e costura torna aparente um universo de sujidade, gambiarra, fúria, cheiro e atmosfera de metrópole. Essa fratura, por assim dizer, exala visceralidade. A outra possibilidade de fratura é a divisão em módulos de suas pinturas; sejam dípticos, trípticos ou polípticos. Há a dimensão de uma escala que não se contenta em ser diminuta, circunspecta ou regida por uma timidez formal, pelo contrário, ela deseja o espaço. E essa aparição ao mundo se dá de forma conflituada, determinada, impositiva e essencialmente vigorosa.

 

Por suas obras abraçarem sintomas como ruptura e descontinuidade, evidentes na forma como o artista constrói sua malha geométrica e na dispersão espacial dos círculos cheios e vazados, assim como em barras e outras figuras que habitam o espaço de suas pinturas, elas acabam deixando de lado o ofício das sutilezas. A brutalidade própria da lona de caminhão me parece reforçar esse dado. Bechara deixa transparecer em várias obras palavras (como o nome da fábrica que produziu a lona ou a companhia que transportou tal produto guardado sob a lona) e riscos e vincos que reforçam, respectivamente, o lugar e o uso que foram dados a essas lonas. As pinturas continuam a propagar as histórias e memórias das lonas visto que elas – pinturas – são resultado direto desse material. O caráter de desgaste das lonas e, claro, a passagem de tempo ficam marcados no que chamo de “acidentes”, isto é, suas dobras, cortes e sujidades, que por sua vez são incorporados pelas pinturas.

 

O políptico feito com oxidação em cobre, para além de exibir operações geométricas sobre uma malha, leva a pintura de Bechara para outro terreno simbólico. Sua cor, uma tonalidade entre o esverdeado e o esbranquiçado, e seguramente o processo de oxidação que gerou formas e texturas orgânicas, próximas de um material biológico sendo investigado por um microscópio, acabam por associar a superfície da pintura a pele. Não se sabe bem se humana ou de um bicho. De qualquer forma, a pintura passa a representar um padrão biológico que particulariza a superfície da lona.

 

As duas esculturas que fazem uso do vidro como um desenho no espaço corroboram a ideia de fratura. Com caráter de site specific, as placas de vidro são aproximadas, sempre respeitando um intervalo, e eventualmente suspensas, formando uma malha geométrica. As duas obras se estendem ao longo das respectivas paredes em que estão instaladas, criando uma relação temporária com o espaço: afetando e sendo afetadas por ele. A forma como o vidro se apresenta, ora rígido, ora cambaleante, e em outros momentos frágil, especialmente quando é elevado, reforça uma qualidade de inquietude e velocidade da obra. Nesse terreno oscilante, há ainda o jogo de translucidez e opacidade que o vidro leitoso oferece em contraponto ao vidro que não recebe qualquer tipo de tratamento; o vidro não é mais o elemento pelo qual se pode ver através, mas uma instância de obstáculo. Por sua vez, os tubos de neon, em uma das esculturas, estão desejosos de formar figuras geométricas tridimensionais. É a luz quem delimita o desenho, recortando o espaço, produzindo área e dando uma propriedade de ar ao trabalho. A luz também traz um senso de vibração e vigor à escultura, realçando a cor no espaço. Não podemos esquecer que o neon tem uma espécie de aura hipnótica, remetendo aos anúncios comerciais cintilantes, abundantes nos centros urbanos.

 

Os trabalhos em formato circular com a sua superfície em lona sobreposta por listras indicam mais uma vez o caráter dispersivo e fraturado da obra do artista. No andar superior, as pinturas dispostas de forma aleatória sobre a parede enaltecem um olho que não para de se movimentar, determinando as associações formais, cromáticas e fenomenológicas desse conjunto. A cor é protagonista nesse políptico, ao mesmo tempo que veda parcialmente – portanto, sem deixar de exibir – as “ocorrências visuais”, como Bechara chama. As “ocorrências” são os registros – manchas, cortes, vincos, restos de palavras, sua história e memória – contidos na lona que não só compõem uma paisagem abstrata, que é a tônica do trabalho de Bechara, mas singularmente são registros da gestualidade do artista. Em muitos casos, elas não precisam ser pintadas por meio de um pincel, mas eleitas (pelos olhos do artista). É o que Bechara nos ensina. As obras em formato circular de maiores proporções tornam ainda mais evidentes as “ocorrências visuais” e um certo grau informalista da sua pintura. Oxidação se torna mancha, que se torna nuvem, que se torna paisagem. São pequenos pedaços de mundo.

 

Bechara continua, como um dínamo, a produzir novas e incessantes paisagens movidas a combustão e alta intensidade.

 

13ª Bienal do Mercosul

 

 

O evento de artes visuais, 13ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre, RS, sob a titulação geral de “Trauma, Sonho e Fuga” tem abertura para o público em geral a partir desta sexta-feira, dia 16.

 

Após dois anos de pandemia, a exposição oferece o reencontro com arte e a oportunidade de refletir sobre momento atual da sociedade. Esta edição reconhece nos traumas – individuais ou coletivos – o maior combustível da arte de todos os tempos e entende os sonhos como um estratagema para a fuga.

 

Uma instalação de Túlio Pinto, chamada “Batimento”, que interfere poéticamente, com faixas alaranjadas, na paisagem, oferece a possibilidade de sonhar dentro do inusitado e o impacto do trabalho. Outra obra que se destaca é a cabeça gigante do artista catalão Jaume Plensa disposta na frente da Fundação Iberê Camargo, uma arte potente que convida a uma reflexão sobre a dimensão do homem e em sua relação com o meio ambiente. As duas obras serviram como o prenúncio da promessa do curador geral Marcello Dantas ao dizer que a Bienal irá oferecer o impacto no imaginário comum, por meio da ativação do onírico, dos sonhos e dos delírios, abrindo portas para o escape de uma condição imposta a todos nós. “Trabalhando na fronteira entre a arte e a tecnologia, o curador-geral desta edição, a mostra acontecerá em cinco plataformas distintas, cada uma objetivando atingir uma combinação de públicos diferentes e conteúdos originais, provocando de forma disruptiva, sensorial e reflexiva”, pontua Dantas.

 

Participam da Bienal 100 artistas de 23 países, destacando-se:

 

Tino Sehgal, britânico radicado em Berlim, reconhecido por suas performances de situações construídas – nomeadas por ele como interpretações. Ele apresenta “This Element”, que ocorrerá em diferentes espaços expositivos da Bienal.

 

De Marina Abramovic –  artista sérvia – será exibida “Seven Deaths”, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Margs, que recria em vídeo cenas de mortes da cantora greco-americana Maria Callas. A trilha sonora é composta por áreas de óperas interpretadas pela cantora lírica, como “La Traviata”.

 

A brasileira Lygia Clark (1920-1988)terá sua obra também no Margs, pela primeira vez, trechos do diário clínico da artista mineira, umas das mais importantes artistas do século 20. Serão exibidos objetos relacionais confeccionados por ela e utilizados nas sessões de arteterapia com seus pacientes.

 

Jaume Plensa, um dos escultores contemporâneos de maior relevância, terá mostra individual na Fundação Iberê Camargo. Além da escultura que recebe o público, poderão ser conferidos 12 trabalhos compostos de diferentes materiais como resina, aço, ferro, vidro e náilon.

 

O mexicano-canadense Rafael Lozano-Hemmer exibirá cinco obras interativas criadas a partir de seus conhecimentos como cientista físico-químico no Farol Santander. Por meio de dispositivos tecnológicos que coletam em tempo real dados biométricos do espectador, como frequência cardíaca e respiração, suas obras são ambientes responsivos.

 

O Instituto Ling recebe “Hypnopedia”, projeto colaborativo do artista mexicano Pedro Reyes. A proposta é apresentar uma enciclopédia de sonhos por meio de filmes feitos a partir de memórias oníricas.

 

A ideia do curador da Bienal

 

Marcello Dantas, curador-geral, frisa que esta edição da Bienal do Mercosul nasceu do desejo profundo de criar uma situação presencial forte entre as pessoas.

 

“A arte como algo que pudesse ser vivido fisicamente, com a participação do público e dos vetores que estão ligados à exposição”.

 

“Como um evento do outro lado do mundo pode afetar meu sonho, minha estratégia de vida, algo que me aconteceu, e eu não sei como falar a respeito”.

 

“As pessoas precisam encontrar um caminho e uma forma de tornar tangível um sentimento a partir de uma sequência de experiências vividas. O impacto disso é algo latente no mundo e como isso aparece nos sonhos, no inconsciente, interessa e é tema desta Bienal”.

 

A Comédia Humana

14/set

 

 

Em exposição o universo encantado de Sônia Menna Barreto, “…um encontro com a arte em seu estado essencial: pesquisa, talento e invenção. Tudo isso temperado com doses generosas de fantasia, de afeto que se espalha por esses objetos repletos de história”, desse modo convida Marcus Lontra, que assina a curadoria de “A Comédia Humana”, para a exposição individual de Sônia Menna Barreto – até 29 de outubro – organizada pela Dila Olveira Galeria, que ocupa duas salas no 3º andar do Centro Cultural Correios, Centro, Rio de Janeiro, RJ.

 

“Sônia cria personagens, paisagens, fragmentos de poesia visual que aquecem o coração: ela caminha por várias geografias, elabora histórias de várias origens, constrói mundos repletos de fábulas, mitologias, verdades e mentiras, amores submersos, desejos silenciosos, vontades recônditas, prazeres, encantos, totens e mandalas, rendas e bordados, dobras do tempo e delicadezas. Em tempos amargos, a arte acaricia. Em tempos apocalípticos, a arte redime. Em tempos apavorantes, a arte ilumina. Em tempos cruéis, a arte subverte. Em qualquer tempo e sempre, a arte salva”, afirma Marcus Lontra.

 

“Tenho uma longa carreira e é um privilégio mostrar minha obras aqui no Rio pela primeira vez. Expor aqui meu trabalho, algumas séries, em mídias diversas”, diz Sônia Menna Barreto.

 

“Para a nossa galeria está sendo uma honra fazer parte deste projeto, apresentando a Sônia Menna Barreto, pela primeira vez, em um espaço institucional. Ela é uma artista plástica fantástica e poder trazer suas obras de arte para os visitantes do Centro Cultural Correios, é de uma enorme relevância”, avalia Dila Oliveira.

 

Sobre a artista

 

Artista visual, tem sua produção artística a mais próxima da expressão do homo ludens, o homem lúdico, e seu espírito criativo trabalha com territórios e personagens que habitam a imaginação das pessoas de todas as idades. Sua técnica origina-se nos pintores flamengos do século XV, misturando hiper-realismo com minúcias da técnica francesa do Trompe L’oeil. Após contato com os trabalhos de Max Ernst, De Chirico, Magritte e Paul Delvaux, a obra de Sônia tomou a direção do Surrealismo. Inicialmente essa fase foi decisiva para sua carreira, passando a desenvolver seu lado intimista e criativo, solucionando os problemas técnicos e temáticos. Hoje, Sônia se apropria de técnicas tradicionais complexas para tratar de questões contemporâneas, e suas pesquisas resultam em criações únicas suportadas por obras de diversas linguagens, como esculturas, pinturas, desenhos e gravuras.

 

 

Artista multifacetado

12/set

 

“Natureza torta – Renato Matos 70 anos” é o evento de abertura da exposição e visitação de 09 de setembro a 23 de outubro, de terça a domingo, das 10h às 20h, no Espaço Cultural Renato Russo – Praça Central, Sala Marco Antônio Guimarães, Brasília, DF.

Consagrado pelas frequentes aparições no Concerto Cabeças, baiano de Salvador,  Renato se mudou para Brasília e ajudou a desbravar a capital federal. Inventou o reggae tipicamente candango, onde mesclava romantismo e urbanismo, compôs a clássica canção Um telefone é muito pouco. Ainda assim, as obras do artista não se limitaram à musical, tendo visitado o cinema, o teatro e as artes visuais.

Desde 1970, o talento do artista brinda a cidade com obras em diversas linguagens. Diante disso, Renato se vê em uma relação de reciprocidade para com Brasília. “A própria Brasília, para mim, é uma grande influência. É um lugar contemporâneo, e eu já vim trabalhando a minha arte em cima do tropicalismo e da arte moderna. Brasília é um grande resultado disso”, afirma o autor. Ele explica que o propósito da exposição passa por aproximar o público das origens locais e da diversidade artística que realiza. “É uma mistura de tendências. Não tenho um perfil, é uma exposição de quase tudo o que eu faço”, complementa.

“Natureza Torta – Renato Matos 70 anos” expressa a identidade cultural dos brasilienses. Com a curadoria e a expografia do arquiteto, artista plástico, escritor e cineasta mineiro Luis Jungmann Girafa, a seleção das obras explora o que há de mais extraordinário em Renato. “Ele tem uma pintura irônica. É um cara ousado, que não tem medo de errar, então é um cara que faz”, comenta o curador. Para ele, cabe a cada pessoa presente interagir com o conteúdo trazido. “A narrativa é poética. As peças falam por si. Vai valer muito a vivência de cada espectador para absorver, da melhor forma possível, o trabalho que o Renato apresenta.”

A partir de um recorte muito significativo, a idealização da data comemorativa foi projetada para imergir o público nos trabalhos que expõem uma cidade de delírios, por meio de sons, palavras, cores e imagens percorridas por diferentes linguagens. Nesse cenário, a versatilidade da mostra também abrange o audiovisual, com a exibição dos filmes “Acaso” (2021), de Luis Jungmann Girafa, e “Ziriguidum Brasília – A arte e o sonho de Renato Matos” (2014), de André Luiz Oliveira, além do lançamento do catálogo e da videoarte “Ruidismos limítrofes”, com produção musical homônima.

Natureza torta – Renato Matos 70 anos

Os filmes serão exibidos toda quinta-feira, às 19h, entre 15 de setembro e 20 de outubro. O lançamento do catálogo ocorre em 25 de setembro, às 16h.

O espaço contará com monitores habilitados em Libras para guiar os visitantes que precisarem de auxílio. O projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC).

Até 23 de outubro.

 

 

A partida de Emanoel Araújo

 

 

A Galeria Simões de Assis, Curitba e São Paulo, comunica com profundo pesar o falecimento do grande artista, curador, gestor cultural e colecionador Emanoel Araujo. Seja em seus mais de 60 anos de produção, na liderança de importantes instituições e museus, ou no incansável trabalho de descobrir, colecionar e preservar obras e memórias fundamentais para a cultura brasileira, Emanoel Araújo nos deixa um legado imensurável.

Natural de Santo Amaro da Purificação (1940-São Paulo, 2022), Bahia, iniciou-se ainda criança no ateliê de Eufrásio Vargas. Mais tarde, mudou-se para Salvador e frequentou a Escola de Belas Artes da UFBA, onde estudou gravura sob os auspícios de Henrique Oswald. Em 1977, participou do II Festac, um festival internacional realizado em Lagos, na Nigéria, onde se reuniram artistas africanos e da diáspora para celebrar a cultura negra. Ali, Emanoel Araújo pode identificar a raiz de seu pensamento abstrato e de seu interesse pelas manifestações simbólicas na arte. A partir de então, sua produção ganhou contornos tridimensionais, materializada principalmente em relevos geométricos de ângulos agudos e volumes que exploravam cheios e vazios, sombra e cor. No início da década de 1980, atuou como diretor do Museu de Arte da Bahia e, em 1988, foi convidado a lecionar na The City University of New York, onde conheceu importantes artistas e pensadores estadunidenses. No início da década de 1990, assumiu a direção da Pinacoteca do Estado de São Paulo, e foi figura crucial na reestruturação do museu, liderando a iniciativa de reforma do prédio que contou com projeto de Paulo Mendes da Rocha. Também organizou algumas das mais relevantes mostras da instituição, como a de Rodin e a de Niki de Saint Phalle. Deixou a Pinacoteca em 2002 e, em 2004, fundou o Museu Afro Brasil, em São Paulo, que dirigiu até a sua morte.

O Museu Afro, como é carinhosamente conhecido, tem um acervo de mais de 8 mil peças, sendo grande parte advinda da coleção pessoal de Araújo, resultado de décadas de pesquisa incessante. Araújo foi também um figura essencial na difusão de artistas negras e negros no Brasil. Agora, Emanoel Araújo deixa uma obra pessoal incomparável, além de um patrimônio público de valor inestimável.

 

 

Novos sentidos e sonoridades

05/set

 

 

Anita Schwartz Galeria de Arte, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a partir de 06 de setembro a exposição “Klangfarbenmelodie – Melodia de timbres”, com obras de Lenora de Barros, Rosana Palazyan, Waltercio Caldas, Augusto de Campos, Paulo Vivacqua, Yolanda Freyre, Cristiano Lenhardt e Antonio Manuel.

 

Os trabalhos gravitam em torno da ideia de melodia de timbres criada em 1911 pelo gênio Arnold Schoenberg (1874-1951), autor da revolução que introduziu um novo campo na música, a música atonal, que rompe com o sistema verticalizado da harmonia, e cria a música horizontal, serial. A melodia passeia entre os vários timbres dos instrumentos, e cada nota passa a ter igual valor no espaço e no tempo, como pontos que flutuam. A mostra antecipa a celebração de 70 anos de “Poetamenos” (1953), de Augusto de Campos, com poemas desenvolvidos a partir da ideia de Schoenberg, e que é apontada como obra precursora do concretismo brasileiro.

 

A exposição reúne trabalhos de artistas que pesquisam, em variadas formas, as poéticas da ressonância como lugar de encontro, seja na intimidade do próprio ser ou no desejo de encontro com o outro. As obras manifestam um espaço para que as vibrações, em suas múltiplas potências, possam se somar entre si, ecoando novas palavras, sentidos e sonoridades.

 

Mostra a dois na Carpintaria

02/set

 

 

A exposição “FALA COISA” na Carpintaria, Rio de Janeiro, RJ, a partir do dia 03 de setembro, é um diálogo entre trabalhos inéditos de Barrão, representado pela Fortes D’Aloia & Gabriel e Josh Callaghan, representado pela Night Gallery, de Los Angeles.

 

Com curadoria de Raul Mourão, a mostra suscita pontos de contato entre cada um dos artistas, cujas assemblages têm em comum um modo de crescimento vegetal, como se objetos banais ou de uso industrial pudessem brotar e crescer a partir da aglutinação de fragmentos heterogêneos. O título da exposição, “FALA COISA”, sugere um passo além da fisicalidade muda do objeto de arte e situa as obras no plano de uma cena dialógica envolvendo o espectador, o artista e os objetos eles próprios. Nessa interação, as identidades ou usos pré-atribuídos de cada coisa dão lugar a um regime relacional de comunicação semelhante a uma dramaturgia objetual, ressaltando os componentes teatrais e cenográficos da obra dos dois artistas.