Herança e Futuro, 22 fotógrafos

22/ago

Pelo terceiro ano consecutivo, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Gamboa, Rio de Janeiro, RJ, realiza em sua galeria, uma exposição com a chancela do FotoRio, o mais importante festival de fotografia da cidade. Nesta edição, foi feita uma convocatória pública dirigida aos fotógrafos afro-brasileiros de todo o país, com o objetivo de reunir o que tem de mais recente na produção nacional, ainda que neste grupo estivessem veteranos e novatos. Foram selecionados vinte e dois trabalhos, pela comissão formada pela organização do FotoRio e os três curadores da exposição.

 

 

A palavra do curador Marco Antonio Teobaldo

 

A diversidade de linguagens e temas apresentados nesta mostra reflete claramente quão vasto é o território percorrido por estes artistas, embora algumas das dificuldades sejam comuns a todos, em se tratando do espaço destinado à arte afro-brasileira nos centros culturais e galerias. Neste sentido, muitas alternativas vêm surgindo para suprir esta demanda e quebrar a barreira, sobretudo no âmbito do meio digital, por meio das redes sociais, evidenciando que a produção artística afro-brasiliera reivindica o seu “lugar de fala”. O recorte proposto para esta mostra, “Herança e Futuro”, trouxe de uma forma muito surpreendente obras com forte reverência às raízes africanas e ancestralidade, nos campos do registro documental e também na experimentação de ensaios. As imagens evocam temas emergentes e necessários para serem debatidos, como as diversas formas de racismo que ainda insistem em se manifestar, violência contra o jovem negro, misoginia, homofobia e exclusão social, que clamam por uma sociedade menos desigual, com o futuro mais digno e justo.

 

 

Até 15 de setembro.

 

Novo espaço no Jardim Botânico

20/ago

Uma galeria de arte contemporânea que, através de ideias e formatos inovadores, contribui para uma nova forma de fazer e pensar arte e para estabelecer um novo conceito de coleções. Hoje representante de jovens artistas que integram em seus currículos exposições nacionais e internacionais, residência artística em renomadas instituições e obras em importantes coleções no Brasil e no mundo. Essa é a C. galeria, de múltiplas linguagens, que surgiu com discrição no Rio em meados do ano de 2016 e que no próximo dia 25 de agosto abre as portas de seu novo espaço na cidade. Em uma charmosa casa da década de 50 no bairro do Jardim Botânico, mais precisamente na Rua Visconde de Carandaí, a C.galeria será palco para pinturas, fotografias, esculturas e desenhos, que poderão serão vistos em “Primeiro Ato”, mostra coletiva que reunirá 15 obras inéditas em diferentes suportes dos 8 artistas representados.

 

Logo em seguida, a galeria inaugura sua primeira individual no espaço. Curada por Raphael Fonseca, a mostra será da artista carioca Eloá Carvalho que apresentará pinturas, desenhos e uma obra sonora. Eloá Carvalho recentemente realizou uma individual no MAM Rio e essa será sua primeira mostra depois da apresentada no Museu. Ainda para o ano de 2018, a C. exibe a individual doartista Paulo Setúbal , indicado ao prêmio PIPA e que participa da residência PIVÔ em São Paulo, onde na SPArte de 2018 participou do setor de perfomances a convite de Paula Garcia, curadora do Instituto Marina Abramovic.

 

Dirigida pela carioca Camila Tomé – uma das galeristas fundadoras da extinta Muv Gallery, aberta em 2012, dedicada à arte contemporânea -, a C.galeria, que até então tinha sede em Ipanema desde que foi inaugurada em 2016, com toda experiência e trajetória no mercado da arte, vem contando com um programa de exposições que ocupa atualmente o circuito das Artes Visuais no Rio de Janeiro, fomentando cultura e incrementando novas e tradicionais coleções de arte com mostras de artistas representados e convidados.

 

 

Até 06 de setembro.

Cícero Dias: Décadas de 1920 – 1960

A Galeria Simões de Assis, Curitiba, Paraná, apresenta uma seleta de obras de Cícero Dias abrangendo as décadas de 1920 a 1960.

 

Cícero Dias

 

Uma Trajetória Pautada na Liberdade

 

Cícero Dias, um ícone da arte moderna brasileira, nasceu em Pernambuco em 1907 e viveu o século XX em sua plenitude. Falecido em 2003, seu corpo mortal repousa em Paris, no lendário cemitério de Montparnasse, junto às glórias da França, mas, sua obra imortal paira, eternizada, além do oceano, sobre a grandeza do Brasil.

 

Cícero Dias é protagonista de uma das mais ricas e extensas trajetórias da história da nossa arte, pontuada pelo pioneirismo e idéias vanguardistas.

 

Revelado na antológica exposição de suas aquarelas em 1928, no Rio de Janeiro, Cícero Dias foi de imediato acolhido pelos modernistas e aclamado como o novo valor da arte brasileira. Aproximou-se dos pintores Ismael Nery, Tarsila do Amaral, Lasar Segall e Di Cavalcanti, pilares da Semana de Arte Moderna de 1922, além dos poetas e escritores Graça Aranha, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre.

 

Em 1937 Cícero Dias partiu para viver em Paris incentivado por Di Cavalcanti que lá estava, deixando para trás uma legião de modernistas, mas não tardou a se envolver com a vanguarda francesa, ligando-se a expoentes da pintura e da literatura, entre eles Picasso e Paul Élouard. No pós-guerra integrado à École de Paris, ao Groupe Espace e ao elenco da recém criada Galerie Denise Renée, inscreveu-se na história da arte moderna mundial.

 

Precursor, Cícero Dias é autor dos primeiros murais de arte abstrata da América Latina, realizados no Recife em 1948. Produziu grande parte da sua obra na Europa nas seis décadas em que lá viveu, sem jamais abdicar dos valores mais profundos da nossa cultura.

 

A trajetória de Cícero Dias foi pautada na liberdade, tanto na expressão de sua arte quanto na conduta de sua vida. Alguns episódios de sua história pessoal confundem-se com acontecimentos políticos da maior relevância no século XX, como as suas relações conflituosas com a ditadura Vargas no Brasil e sua participação na resistência ao nazi-fascismo na Europa.

 

A obra de Cícero Dias, uma das mais intrigantes e inexplicáveis da arte brasileira, tem sido cada vez mais objeto de estudos em simpósios e teses em universidades brasileiras e do exterior. Tanto o período de sua fase modernista quanto o período abstrato da época de sua participação na École de Paris já foram objetos de amplos estudos acadêmicos e teóricos, que lhes rendeu incontestável reconhecimento no âmbito nacional e internacional.
Waldir Simões de Assis Filho

 

 

 

Até 29 de outubro.

A Hora e a Vez de Ranchinho

17/ago

Uma exposição há muito aguardada, acontece de 21 de agosto a 21 de setembro na Ricardo Camargo Galeria, Jardim Paulistano, São Paulo, SP, reunindo 28 obras (realizadas entre 1976 e 1994) do artista Ranchinho, falecido em 2003, pouco antes de completar 80 anos.

 

Nascido na região de Assis, SP, filho de lavradores muito pobres, e batizado Sebastião Theodoro Paulino da Silva, o artista era oligofrênico e manifestava também problemas de exibicionismo. Criado nas ruas, após o falecimento de sua mãe, era analfabeto e viveu boa parte de sua existência catando materiais descartáveis e morando em ranchos abandonados, daí seu apelido. Mas Ranchinho possuía grande habilidade para o desenho. Nunca teve uma lição de arte, não conhecia artistas, nem museus ou galerias, mas criava cenas com os precários materiais de que dispunha e os presenteava aos conhecidos. No final dos anos 1960 o pesquisador local José Nazareno Mimessi, que tinha contatos na Capital com pintores populares, forneceu a Ranchinho um estojo de guache, papéis adequados e lhe ensinou o manejo. Foi o que bastou para prontamente ser iniciada uma produção grandiosa e constante, depois estendida à pintura, que durou até seu desaparecimento. Apesar dos infortúnios que pontuaram sua comovente biografia, apesar do isolamento e da precariedade dos meios de que dispunha, a obra de Ranchinho evoca uma grande exaltação da vida. Seu inesgotável repertório de imagens e assuntos surpreende pela acuidade e poesia. É um mestre da composição e do colorido. Um caso único na arte brasileira. Frequentemente os que têm contato com sua obra conectam a força de suas múltiplas imagens ao legado de Van Gogh, apesar das diferenças de contexto e a dimensão de ambos. Os trabalhos expostos, inéditos e de grande qualidade, provêm de uma seleção, realizada durante mais de 40 anos, agora disponibilizada. É possível avaliar a conduta de um profissional do mercado por sua capacidade de reconhecer a importância de um artista, mesmo que este não faça parte do que habitualmente é o seu território de ação. Ao firmar com a Ricardo Camargo Galeria parceria para a realização da mostra de Ranchinho o ecletismo lúcido que tem caracterizado sua atuação acabou por ser decisivo. (Roberto Rugiero).

Tobinaga em roupagem pop

16/ago

A vida é bem mais feliz no Instagram e Facebook e todos sabem disso. Partindo dessa cultura de exposição em redes sociais, o artista Claudio Tobinaga apresenta sua primeira individual “Colapsos”, na galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ. Com curadoria de Cezar Bartholomeu, a exposição reúne cerca de 30 pinturas em pequenos e grandes formatos, inspiradas em fotografias coletadas da internet e pautadas no subúrbio carioca. Neste cenário, as fotos se transformam em uma mise-en-scène, explorando uma narrativa quase cinematográfica. A atmosfera do ordinário toma contornos de um existencialismo barato, com uma superfície que seduz e ao mesmo tempo engana. As imagens ganham um novo significado aberto a diversas interpretações, com uma roupagem bastante pop.

 

“Gosto de olhar a relação midiática existente nesse contexto. As pessoas passaram a produzir suas próprias fotos como uma capa de revista, como se fossem celebridades. É uma exposição ‘fake’, uma relação de construção de mito, de imagem”, analisa Tobinaga.

 

O artista utiliza signos que colocam o espectador nas situações retratadas nas telas, cheias de iconografias de lugar e elementos pop. A intenção é “colapsar” estes elementos presentes nas obras com a relação que o espectador tem com a imagem, eliminando estereótipos. “As imagens se deformam porque quero tangenciar esse lugar que é, ao mesmo tempo, muito próximo e muito distante. A pintura tenta olhar para a imagem que vai se desfazendo enquanto forma e cor”, explica.

 

Segundo o curador Cezar Bartholomeu, o título da exposição se refere a uma tentativa de desarticular o que Tobinaga entende como uma sucessão de imagens. Para o artista, as imagens digitais e analógicas configuram um espaço e uma velocidade. Assim, há um colapso no sentido estrutural e, também, temporal.

 

“Quando as imagens se encontram sem que possam se encontrar, até certo ponto, entram em um colapso que permite que a pintura aconteça. É o que sustenta a pintura. Na obra ‘Encruzilhada’ por exemplo, o colapso da estrutura das imagens faz parte de um sacrifício de fé para que a pintura passe a existir”, avalia Bartholomeu.

 

“Há uma parte da arte que acredita que o fato de tematizar mídias digitais é o suficiente para que a obra de arte seja contemporânea. O contemporâneo em arte é mais complexo que isso. Diria que é mais do que simplesmente se apropriar do contemporâneo nas mídias digitais como uma imagem. É preciso lidar, de fato, com essa imagem”, completa o curador, que conheceu o trabalho do artista na Escola de Belas Artes da UFRJ.

 

 

Sobre o artista

 

Formado na Escola de Música Villa Lobos (UFRJ), frequentou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e foi monitor de modelo vivo (EBA-UFRJ) e desenho de observação (Parque Lage – EAV) junto ao professor Frederico Carvalho. Desde 2012 é assistente no Ateliê da artista Lucia Laguna. Atualmente tem se dedicado a livre docência em pintura e desenho. Participou das exposições coletivas “Visão de emergência” na Luhda Gallery (Rio de janeiro, 2014) e “Territórios” no Centro de Arte Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, 2013) e do Kassel Documentary Film and Video Festival (Kassel, 2011).

 

 

Sobre o curador

 

Vive e trabalha no Rio de Janeiro. É artista plástico e doutor em linguagens visuais pela UFRJ (Rio de Janeiro) / EHESS (Paris) nas áreas de Teoria e História da Fotografia. Trabalha prioritariamente as relações entre fotografia e arte, em particular fotografia contemporânea e conceitualismo. É professor do Departamento de História da Arte da Escola de Belas Artes da UFRJ (Rio de Janeiro), na área de Teoria da Imagem.

 

 

Até 03 de outubro.

Espaço independente

15/ago

Abrirá nesta sexta feira, dia 24 de agosto, a exposição “Experiência n.16 – Mesa de Cabeceira”, n’A MESA. Espaço independente localizado no Morro da Conceição, recebe os artistas Aline Besouro, Alexandre Colchete, Camilla Braga, Elian Almeida, Mariana Paraizo, Rafael Amorim e Rafael Lima numa exposição que se desdobra a partir de publicação homônima. O espaço propõe exposições temporárias, intituladas Experiências, com duração de dois dias, nos quais é ocupado com programação intensivas às sextas e sábados. A “Experiência n.16” conta com trabalhos de múltiplas linguagens que carregam traços de virtualidade, precariedade e relações diretas com o próprio mote da publicação: esboços, projetos e croquis. 

 

Na abertura, além de karaokê aberto até as 22h, haverá distribuição gratuita da publicação do grupo. No sábado 25/08, haverá um encontro de poetas Pós-Flip, com curadoria de Jessica DiChiara.

 

A exposição ficará aberta no dia 24 de agosto, das 18h às 22h, e no sábado 25, de 16h às 22h. Rua Jogo da Bola, n.119 – Centro, Rio de Janeiro.

Nelson Leirner em Curitiba

10/ago

Papel Carbono

A SIM galeria, Curitiba, PR, programou de 18 de agosto até 29 de setembro, a exposição “Papel Carbono”, individual de Nelson Leirner.

Façam suas apostas (rápido comentário sobre a obra de Nelson Leirner)

 

(Sobre o Xadrez)

Jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez.

Millôr Fernandes

 

Nelson Leirner intitulou a peça Xeque-mate Touro Mondrian e Duchamp: um tabuleiro em cujo centro há uma vaca – o touro corre por conta de uma licença poética do artista. Em arte os caminhos reais são os desvios, feitos sem pedir licença – em miniatura, dessas com as quais as crianças de antigamente brincavam, muito antes dos joguinhos eletrônicos que desde a infância vão as aprisionando aos celulares e IPads. É verdade que grande parte da aparência natural foi banida dessa vaca; está em vias de se partir a linha que a conecta com o mundo rural. Nada a estranhar, pois, reforçando a ideia de um poema de Drummond sobre sua Minas, a natureza não existe mais, foi sendo reduzida a objetos lúdicos e decorativos como essa vaca, como os papéis de parede com paisagens estampadas, as flores de plásticos hiper-reais que vêm da China, o aroma enjoativo dos desodorantes de táxi e banheiros, com suas falsas promessas de transportes para bosques e campos verdejantes, para a melancolia das atmosferas bucólicas.

 

Voltando à vaca, é fácil ver por que ela é definitivamente atípica: traz no seu corpo, revestindo-o, uma composição derivada de uma pintura do holandês Piet Mondrian; sobre seu dorso, enterrado nele, uma roda de bicicleta, a obra que consagrou Marcel Duchamp. Duas obras de arte produzidas por dois artistas que no princípio do século passado desferiram golpes impiedosos sobre o que era definido como arte. Mondrian, porque apostou todas as fichas na abstração, na ruptura da noção de que a arte deveria representar o visível. Aliás, foi seu colega Theo van Doesburg quem, seguindo-o de perto, esquematizou uma vaca, justamente ela, numa pintura composta por quadriláteros vermelhos, azuis, amarelos, brancos e pretos. Seu propósito era demonstrar a inutilidade, o erro da pintura figurativa. Duchamp, porque introduziu no circunspecto e reverenciado mundo da arte, objetos do cotidiano, coisas vulgares, espúrias que o público refinado tratava como lixo. Contrariou as normas, os critérios que ditavam o que era e o que não era arte.

 

Nesse xeque-mate temos a vaca atropelada pela arte, a natureza atropelada pela cultura. Esse é o jogo, porque tudo é jogo. A miniatura da vaca não é a vaca, ainda que tenha a ver com ela. A pele mondrianesca não é uma pintura de Mondrian, ainda que tenha a ver com ela. O mesmo pode ser dito sobre a roda de bicicleta, que é e não é a obra de Duchamp. Tudo aqui é signo, da ordem das representações, cifras, códigos, estruturas e lógicas convencionadas. Que esse trespassamento de signos dê-se justamente num tabuleiro de xadrez é sintomático: com suas torres, cavalos, bispos, peões, rei e rainha, o xadrez é um jogo em estado puro, o resultado de regras rigidamente estabelecidas acerca do quanto vale cada uma delas, como se movimentam. Somem-se as aberturas e defesas possíveis, o lucro contido num gambito, as estratégias que se multiplicam ao infinito em batalhas demoradas, capazes de esgotar até o mais experimentado Grande Mestre. Para jogá-lo, basta aceitar suas regras, reconhecê-las e utilizá-las.

 

Desde o principio de sua trajetória, em princípios dos anos 1960, Nelson Leirner tem como substrato de seu trabalho a ideia de que o homem é um bicho que joga. Não que os outros não joguem, apenas não jogam pelo jogo, mas para atrair os outros, seja para acasalar-se ou devorá-los. Engendram armadilhas, inventam tocaias. Alguns são ardilosos; outros, ágeis; outros mais, grosseiros e cruéis. Mas o homem leva essa capacidade a extremos impensáveis, a começar porque joga pelo simples gosto de jogar. Como as bolsas de valores, que especulam indiferentes à realidade dos países, às pessoas reduzidas a estatísticas.

 

Quem sobe e quem desce no âmbito da arte? Como se constrói e como se mede a reputação um artista? Como uma obra pode ser inflacionada? Como fazer para que ela simplesmente não seja vista? Questões como essa, logo se vê, não pertencem apenas ao mundo da arte, mas ao mundo como um todo. Desde o princípio, Nelson Leirner desvendou esse princípio, acusou-o com sarcasmo e doses de iconoclastia calculadamente violentas. Afinal, quer equívoco maior, pior ainda, quer má fé maior do que a dos que apregoam que a arte está acima deste mundo? Cumpre denunciar mais essa armação.

 

O denominador comum do conjunto da obra de Nelson Leirner é confrontar o mundo da arte com xeques-mates sucessivos, fazer com que o sistema não tenha saída, que não prossiga em seu jogo de iludir. Nesse sentido, essa exposição é um exemplo magistral do colapso entre jogos, entre regras distintas de jogos distintos que subitamente entram em colisão. Mona Lisa, a obra-prima de Da Vinci, cai do seu púlpito para ser violada, malbaratada pelas regras do entretenimento, para se converter em um elemento decorativo, tão banal quanto os stickersque o artista aplica sobre ela. Isso também se dá com a Última ceia, que, como a Mona Lisa, é também alvo de uma exposição exclusivamente composta por trabalhos que, por intermédio de um humor cáustico, reduziam a pó toda a venerabilidade construída ao longo dos séculos. As meninas, de Velázquez, sofre o ataque impiedoso de ratos, aranhas e morcegos; o antológico piquenique de Manet, seu Banquete na relva, é, muito a propósito, atacado por formigas; a lógica cerrada de Mondrian se converte num jogo de resta um; a linha decorativa de Warhol vira almofada. Nada escapa a Nelson Leirner. Na qualidade de Grande Mestre, de Grande Crupiê, ele, do lado de lá do balcão, ordena ao público que faça suas apostas, pois, para aperfeiçoar a performanceno jogo, basta começar a jogar.

 

Agnaldo Farias

Individual de Paula Klien

07/ago

Chegou a vez do Rio de Janeiro ver de perto as obras de Paula Klien, que já passaram por importantes palcos no cenário da arte contemporânea. Em 2017, a artista carioca mostrou o trabalho seis vezes no exterior. Em Berlim, representada localmente, foram três vezes. Também em Nova Iorque, Buenos Aires e Londres, numa concorrida apresentação solo na Saatchi Gallery. Esse ano, expôs pela quarta vez em Berlim e no Brasil teve alguns de seus trabalhos exibidos em São Paulo, onde é representada pela galeria Emmathomas. A exposição individual “Extremos líquidos”, terá curadoria de Marcus de Lontra Costa e reúne mais de 20 trabalhos da artista na Casa de Cultura Laura Alvim, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ.

 

De acordo com Marcus de Lontra Costa, Paula Klien trabalha dentro de uma imagem que não tem limites determinados e que não tem verdades absolutas. É uma pintura que, em certo momento, parece quase querer flutuar, quase querer sumir. Ao mesmo tempo em que é um desenho, é uma coisa que não se consegue precisar. É no conceito da modernidade líquida de Bauman que a artista parece oscilar.

 

“Eu lavo água preta”, diz Paula Klien. Em seu processo criativo, lava, inúmeras vezes, as marcas criadas por ela com o nanquim, procurando pela riqueza das cicatrizes que não conseguem ser apagadas. “O resultado tem uma relação com a beleza que o tempo traz”, revela a artista.

 

Ainda segundo Lontra, as pinturas, quase sempre em grandes formatos e monocromáticas, são variações de cinzas. São cenários, são imagens, são paisagens poéticas que surpreendem pela ousadia, pela criatividade e pela capacidade da artista de dominar com precisão os seus meios técnicos, os seus meios expressivos, a sua própria linguagem.

 

“Em Extremos Líquidos teremos uma artista surpeendentemente madura e ao mesmo tempo tensa e provocativa. A obra de Paula Klien está num momento muito particular, onde ela se impõe subjetivamente pela sua verdade e pela sua beleza, mas ela também anuncia novos caminhos que a artista há de trilhar. É portanto, um compromisso de todos aqueles que se interessam por arte contemporânea, de conhecer essa produção estranha, sofisticada e bela”. Sugere o curador.

 

 

Até 02 de setembro.

Exposição de Fernando Campana

06/ago

Fernando Campana abre, pela primeira vez no Rio de Janeiro, seu laboratório individual na mostra “Macacos Robôs Furacões”. Uma imersão do designer no campo das artes, através de pinturas em aquarela, desenhos em grafite, colagens com peças automotivas, entre outras obras. A mostra conta com as séries “Macacos” e “Robôs” e a série “Furacões” que serão apresentadas na galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, a partir do dia 07 de agosto.

 

O designer traz um método dinâmico para se expressar na arte e uma capacidade quase sistemática de coletar informações e conectar-se às histórias. Muitas vezes, ele estabelece uma conexão momentânea a episódios de sua infância para inspirar suas criações. A abordagem para sua série ‘Robôs’ está em sua mente desde pequeno. Fernando queria se tornar astronauta e este alter ego é sua máquina que está em constante produção. A expressão de sua criatividade começa a partir daqui e o caráter dualista do robô é colecionar informações, sensações e memórias. Ele se lembra e esquece, porque a memória volta e se torna uma história histórica, bem como uma sensação futurista. A série se origina a partir de desenhos em grafite, enquadrados em molduras feitas de sobreposições de EVA, e se expande a inéditas colagens com peças automotivas, nunca antes trabalhadas em seus projetos.

 

A série “Macacos” começou a ser criada um pouco antes da verdadeira tragédia da matança, a partir de sua relação ingênua com os macacos na infância. Naquela época, ele trazia consigo a esperança de domesticá-los ou de estabelecer um relacionamento humano, o que acarretou em um aprendizado de tolerar e respeitar o comportamento irracional. Os macacos acusados de transmitir febre amarela já estavam lá no papel em seu ateliê pessoal, exatos e precisos; e os belos retratos da humanidade desses primatas foram desenvolvidos com a intenção de comunicar o conceito sem sentido da diversidade. Esta tragédia foi usada como uma metáfora para ver nos macacos uma crítica social que colocou o dedo na pequena vontade burguesa de punir a diversidade. Os desenhos são feitos em aquarela, enquadrados em um patchwork de pedaços de molduras, desconstruindo o padrão clássico de molduras e propondo um novo DNA a um objeto conhecido.

 

A inédita série “Furacões” surge a partir de um outro processo criativo, mais intuitivo, que é maturado pelo tempo, pelas relações e por seu entorno. Os sentidos tornam-se mais apurados e buscam expressar, inconscientemente, o que está por vir, como seus primeiros desenhos que originaram essa série e que antecederam os recentes furacões que aconteceram nos Estados Unidos. “Arte não se define, mas se decifra de acordo com a evolução mental ou espiritual ou amplitude de visão do observador”, destaca Fernando.

 

 

Sobre o artista

 

Em 1983, Fernando Campana (1961) em parceria com seu irmão Humberto Campana (1953) fundaram o Estúdio Campana em São Paulo. O estúdio se tornou famoso pelo design de mobiliário, por criações de peças intrigantes – como as poltronas Vermelha e Favela – e, também, por ter crescido nas áreas de Design de Interiores, Arquitetura, Paisagismo, Cenografia, Moda, entre outras. O trabalho dos Campana incorpora a ideia de transformação, reinvenção e integração do artesanato na produção em massa; tornando preciosos os materiais do dia-a-dia, pobres ou comuns, que carregam não só a criatividade em seu design, mas também características bem brasileiras – as cores, as misturas, o caos criativo e o triunfo de soluções simples. Os irmãos foram homenageados com o prêmio “Designer do Ano” pela Design Miami, em 2008 e os “Designers do Ano” pela Maison & Objet, em 2012. Neste mesmo ano, eles foram selecionados para o Prêmio Comité Colbert, em Paris; homenageados pela Design Week, em Pequim; receberam a “Ordem do Mérito Cultural”, em Brasília, e foram condecorados com a “Ordem de Artes e Letras” pelo Ministério da Cultura da França. Em 2013, eles foram listados pela revista Forbes entre as 100 personalidades brasileiras mais influentes. Em 2014 e 2015 a Wallpaper os classificou, respectivamente, entre os 100 mais importantes e 200 maiores profissionais do design.

 

 

De 07 de agosto a 06 de setembro.

Alan Fontes – Exposição Nacional

Luciana Caravello Arte Contemporânea, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, inaugura, no dia 07 de agosto, a mostra “Exposição Nacional”, do artista Alan Fontes, com obras que abordam as transformações no espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro. Para realizar os trabalhos, o artista mergulhou nos relatos documentais da “Exposição Nacional do Rio de Janeiro”, realizada em 1908, em comemoração ao 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, que tinha a intenção de mostrar a então nova capital federal – urbanizada pelo prefeito Francisco Pereira Passos e saneada por Oswaldo Cruz – para as autoridades nacionais e estrangeiras.

 

Serão apresentadas nove pinturas, em óleo e encáustica sobre tela, e quatro livros-objetos, em óleo e afresco sobre concreto, em que o artista dá continuidade ao projeto iniciado há três anos, em que pesquisa o espaço urbano do Rio de Janeiro, trabalhando nas lacunas de uma memória em constante mutação. “Uma pesquisa, entretanto, que não tem caráter documental e é aberta ao devaneio poético e o qual a pintura, com toda a imprecisão da mancha encarna com eficácia”, afirma o artista, que apresentou a primeira parte dessa pesquisa no CCBB Rio de Janeiro, em 2016, com o apoio do Prêmio CCBB Contemporâneo.

 

Na Luciana Caravello Arte Contemporânea, Alan Fontes apresentará obras inéditas, que serão divididas em três módulos. No primeiro, estarão pinturas que representam alguns dos palácios e pavilhões que fizeram parte da “Exposição Nacional”, de 1908, e dos quais só existem limitados registros fotográficos. As pinturas expressionistas reconstituem os prédios imersos em ruídos análogos aos que estão envoltos as lembranças e os documentos já desgastados pelo tempo.

 

O segundo módulo reúne pinturas da série “Black Lands”, que “situam os prédios da época em espécies de oceanos negros que simbolizariam um espaço poético da memória. Algo na fronteira da lembrança e do esquecimento”, conta Alan Fontes.  Algumas destas pinturas foram expostas este ano na semana de arte de Nova York, em projeto solo do artista na feira VOLTA.

 

O terceiro módulo é composto por livros-objeto de concreto, que servem como suporte para pequenas pinturas afresco compostas a partir de imagens do evento de 1908. “Tais objetos escultóricos relacionam simbolicamente as pinturas ao peso matérico que compõem as edificações que não existem mais”, ressalta o artista.

 

 

Sobre a Exposição Nacional de 1908

 

A Exposição Nacional foi realizada entre 28 de janeiro e 15 de novembro de 1908, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, foi organizada oficialmente para comemorar os 100 anos do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, e para se fazer um inventário econômico do Brasil na época. Mas, na realidade, a intenção da exposição era mostrar a então nova capital federal – urbanizada pelo prefeito Francisco Pereira Passos e saneada por Oswaldo Cruz – para as autoridades nacionais e estrangeiras que visitavam a cidade.

 

Governos de estados, do Distrito Federal e de associações comerciais, agrícolas e industriais participaram do evento, que teve pavilhões para os estados mostrarem os seus principais produtos nas áreas agricultura, pastoril, indústrias e artes liberais. Além dos estados brasileiros, Portugal participou do evento, sendo a única participação estrangeira.

 

 

Sobre o artista

 

Alan Fontes nasceu em Ponte Nova, MG, 1980. Vive e trabalha em Belo Horizonte, MG. É Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais. Suas últimas exposições individuais foram “The Book of the Wind”, na Galeria Emma Thomas, Nova York (2016); “Poéticas de uma Paisagem – Memória em Mutação”, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (2016); “Sobre Incertas Casas”, na Galeria Emma Thomas, São Paulo (2015); “Desconstruções”, na Baró Galeria, São Paulo (2014); “Sweet Lands” e “La Foule”, ambas na Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro (2012); “A Casa”, no Paço das Artes, São Paulo (2008), entre outras. Participou das mostras “Ao Amor do Público I”, no Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro (2016); Mostra Bolsa Pampulha do MAP, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte (2014); Prêmio FOCO Bradesco/Art Rio, Rio de Janeiro (2013), entre outras. Realizou as residências Pintura Além da Pintura, do CEIA, Belo Horizonte (2006); 5ª Edição do Programa Bolsa Pampulha, Belo Horizonte (2013); e Residência Baró, São Paulo (2014). Dentre as últimas premiações recebidas estão Bolsa Pampulha 5ª edição (2014); 1º Prêmio Foco Bradesco/ArtRio (2013) e o I Prêmio CCBB Contemporâneo.

 

 

De 07 de agosto a 06 de setembro.