Arte contemporânea e artistas indígenas.

29/jan

Trama: Lygia Pape & Porangatu.

A Gomide&Co, São Paulo, SP, em parceria com a coleção Porangatu, apresentar “Trama”, uma exposição que propõe um diálogo inédito entre bancos de madeira produzidos por etnias indígenas em sua maioria do Alto Xingu e obras da série Tecelares (1953-1960), de Lygia Pape. A apresentação tem texto crítico de Camila Bechelany e expografia do escritório de arquitetura Acayaba + Rosenberg Arquitetos. A abertura acontece no dia 10 de fevereiro e a exposição segue em cartaz até 13 de março.

“Trama” reúne mais de dez bancos de madeira produzidos por etnias diversas da Amazônia brasileira, como Assurini, Karajá, Mehinako, entre outras localizadas no Alto Xingu e arredores. Os exemplares são provenientes da coleção Porangatu, criada por Maria Feitosa Martins. “Minha família coleciona arte indígena há mais de 20 anos, motivada pelo interesse em explorar paralelos e conexões entre a arte moderna e contemporânea e a rica produção de artistas indígenas”, comenta Maria Feitosa Martins, que desenvolveu a Porangatu entre 2022 e 23 na intenção de aprofundar esse eixo da coleção da família.

Os bancos de madeira apresentados na exposição evidenciam a sofisticação técnica e simbólica dessa produção ancestral, resultado de práticas transmitidas entre diferentes povos originários da Amazônia e de seu entorno. Geralmente esculpidos a partir de um único tronco e muitas vezes concebidos na forma de animais, entidades espirituais ou estruturas geométricas, eles incorporam grafismos realizados por entalhe, pirografia ou pigmentos naturais – registros que expressam histórias, cosmologias e conhecimentos transmitidos ao longo de gerações.

No cotidiano dessas comunidades, os bancos atuam simultaneamente como objetos de uso e como marcadores sociais e rituais, indicando posições de liderança ou servindo de suporte para práticas xamânicas. Inseridos hoje no campo ampliado da arte e do design, esses assentos tornam visível o protagonismo indígena e reafirmam a relevância de seus repertórios estéticos na formação da cultura brasileira, convocando o público a reimaginar – e reflorestar – o próprio imaginário.

No contexto de aproximações proposto pela exposição, a série “Tecelares”, de Lygia Pape, surge como um eixo fundamental de diálogo. Realizadas em xilogravura, as obras da série partem da exploração da chamada “linha-corte”, em que a incisão na madeira – gesto físico, direto e irreversível – estrutura composições geométricas que tensionam rigor e sensibilidade, cálculo e matéria viva. Nos Tecelares, a geometria neoconcreta não se afirma como abstração pura, mas como resultado de um fazer que responde a veias, resistências e acidentes do suporte, instaurando uma noção de espaço construída pelo corpo e pela ação. É nesse ponto que se delineiam paralelos possíveis com os bancos indígenas: tanto nas gravuras de Lygia Pape quanto nesses objetos ancestrais, a madeira não é mero suporte, mas agente ativo de sentido; e o grafismo, longe de ser decorativo, constitui um sistema de conhecimento incorporado no gesto, na repetição e na transmissão. Assim, a exposição evidencia modos distintos, porém igualmente complexos, de compreender o mundo como trama, onde se entrelaçam forma, matéria e experiência.

“Trama” destaca-se ainda por estabelecer conexões entre três eixos recorrentes no programa curatorial da Gomide&Co: a investigação de objetos de mobiliário a partir de uma perspectiva conceitual e estética; a valorização de repertórios culturais e visuais de povos originários; e a proposição de novas leituras sobre a obra de nomes centrais da arte moderna e contemporânea brasileira, em especial vinculados aos movimentos Concreto e Neoconcreto. Como observa Bechelany, “…o exercício de aproximação dos Tecelares (1953-1960) com os bancos indígenas da coleção Porangatu não busca síntese ou harmonização entre objetos de universos culturais tão distintos, mas sim uma fricção produtiva entre geometria e gesto, entre modernidade e ancestralidade, entre obra e corpo”, reafirmando o caráter crítico e relacional que estrutura a exposição.

Equilíbrio entre o traço, a cor e o vazio.

A Simões de Assis, São Paulo, Curitiba e Balneário Camboriú, anuncia a representação de Marcia de Moraes (São Carlos, Brasil, 1981). A artista desenvolve uma pesquisa centrada na linguagem do desenho, suas composições podem, à primeira vista, parecer abstratas, mas são construídas a partir de um léxico visual acumulado ao longo dos últimos vinte anos de pesquisa. Este vocabulário de formas tem origem figurativa, mas chegam ao papel liquefeitas e flácidas, afastando-se de qualquer reconhecimento imediato. 

A construção do desenho se dá a partir de uma conversa entre artista e trabalho, chegando a um entendimento mútuo das necessidades da composição e atingindo um equilíbrio entre o traço, a cor e o vazio. Estes três elementos são constantemente tensionados ao longo do processo e se organizam em uma hierarquia em constante alternância. É a partir dessa oscilação que cada desenho ganha corpo: o traço e o vazio como espinha dorsal e ossos de sustentação, a cor como a carne que os envolve,  e o limite do papel como a pele – o ponto exato em que corpo e desenho se encerram.

Entre suas principais exposições individuais estão “Ponto de Osso”, Instituto Artium; “Matriz”, Galeria Leme; “A Terceira”, CCBB São Paulo; “Elaine Arruda e Marcia de Moraes: Cheio de Vazio”, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo; “À Deriva no Azul, Carpe Diem Arte e Pesquisa”, Lisboa, e “Saint Clair Cemin / Marcia de Moraes: Correspondance Bresiliènne”, VL Contemporary, Paris.

Foi contemplada com diversos prêmios, entre os quais se destacam o Edital PROAC – Artes Visuais, o Pollock-Krasner Foundation Grant e o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea. Suas obras integram acervos importantes como a Coleção Swiss Re, São Paulo; Ministério das Relações Exteriores, Brasília e Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP).

Artistas de distintos gêneros e gerações.

A Galeria Nara Roesler São Paulo convida para a abertura, no dia 05 de fevereiro, às 18h, da exposição “Telúricos”, com curadoria de Ana Carolina Ralston, que selecionou trabalhos de dezesseis artistas – entre nomes consagrados internacionalmente – como Richard Long (um dos pioneiros da landart), Not Vital e Isaac Julien -, ou no circuito nacional, como Brígida Baltar (1959-2022) e Amelia Toledo (1926-2017), e artistas convidados, oriundos de várias partes do país. 

Ana Carolina Ralston destaca que “Telúricos” propõe a ativação de outros sentidos, além do olhar, e estão na mostra esculturas olfativas e também sonoras. Os artistas, de distintos gêneros, lugares, gerações e suportes são, além dos já mencionados: Alessandro Fracta, amorí, Ana Sant’anna, C. L. Salvaro, Denise Alves-Rodrigues, Felipe Góes, Felippe Moraes, Flávia Ventura, Karola Braga, Kuenan Mayu e Lia Chaia.

A exposição traz mais de 40 trabalhos, muitos deles inéditos, que, em vários suportes. A curadora menciona o pensador Bruno Latour (1947-2022), para quem “…a matéria terrestre não é um simples suporte, mas um agente de vontade, um núcleo de energia ativa que convoca metamorfoses e insurgências; uma força subterrânea que não é apenas cenário, mas protagonista”.

Na primeira sala, estará a escultura “Moon” (2017), em mármore branco, do suíço Not Vital, perto das três obras de Richard Long, seu amigo e um dos pioneiros da land art, criadas em 2024. Nas paredes, duas pinturas inéditas de Ana Sant’anna – “O instante que paira” e “Nut”, “…paisagens que misturam nosso imaginário e espaços telúricos”, ressalta a curadora. A videoinstalação “Enterrar é plantar”, de Brígida Baltar, com quatro telas, registra sua ação de “enterrar suas memórias”, e acompanha dois desenhos da artista. A instalação “Canto das ametistas”, de Amelia Toledo, com seus blocos de ametistas no chão, foi escolhida por sua ressonância mineral e espiritual, característica do trabalho da artista. Na parede frontal, a fotografia “Under Opaline Blue” de Isaac Julien.

Na passagem entre as salas, atravessando o percurso do público, estará a instalação “Antes de afundar, flutua”, feita por C. L. Salvaro, especialmente para o espaço da exposição, com planta, terra, entulho e tela de arame. Uma parte da obra ficará próxima ao chão, e outra suspensa, de modo a permitir a passagem dos visitantes por baixo dela. Ana Carolina Ralston assinala que a exposição se fundamenta em um conceito do filósofo Gaston Bachelard, em seu livro “A Terra e os Devaneios da Vontade”: “A imaginação telúrica cava sempre em profundidade; ela não se contenta em superfícies, precisa descer, pesar, resistir”.

Até 12 de março.

Ethan Cook uma memória partilhada.

22/jan

A Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP, apresenta a primeira exposição do artista americano Ethan Cook no Brasil. Em “Mundo Menor”, o espaço é habitado com uma série na qual o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura.

Ethan Cook nasceu em Tyler, EUA, 1983, trabalha a pintura em seu campo expandido, utilizando a tela tecida, o papel artesanal e o aço. As pinturas de Ethan Cook são compostas por painéis de tecido colorido que foram tecidos à mão num tear de quatro arneses, costurados e esticados em barras. O artista opera subvertendo a lógica de que para pintar é preciso aplicar pigmento sobre tela, de modo que, utiliza um tear para tecer grandes faixas de tecido colorido em suas superfícies. A performance da criação artística é ao mesmo tempo meditativa e intensamente rítmica. Suas obras integram importantes coleções como o Art Institute of Chicago, o Museum Voorlinden, o Jordan Schnitzer Museum of Art, a Fondation CAB e Juan Carlos Maldonado Art Collection. 

Texto de Mariane Beline.

A inserção do sujeito no mundo é por meio da percepção. A ela se atribui a capacidade de assimilar e ser no mundo, afinal, somos seres perceptivos. O artista não representa apenas o mundo, mas o projeta, nos faz ver outras possibilidades e torna visível a estrutura sensível do real. É pelo atravessamento plástico que podemos sugerir o exercício da atenção metafísica, que desvela a organização fenomênica para além dos aspectos familiares da experiência. A arte se revela como excedente do sentido, um campo privilegiado que opera na captura das nuances do sensível – a linha, o traço, a arranjo cromático, volumetria, profundidade e ritmo – todos elementos presentes no trabalho de Ethan Cook. 

Merleau-Ponty defende o sujeito como portador das capacidades que apreendem todas as configurações sensíveis mundanas e, por outro, define o ser do mundo como a totalidade dessas configurações. Na mostra “Mundo menor”, primeira individual de Ethan Cook no Brasil, nos deparamos com o encontro da fenomenologia de Merleau-Ponty ao homem vitruviano de Leonardo da Vinci, em que o corpo humano é um microcosmo, um reflexo em miniatura do universo, a vivência de um todo unificado, em suas ramificações profundas e conectadas, antecipando uma contrariedade ao pensamento cartesiano da separação. A poética de Cook é vitruviana, em que seu olhar perceptivo da técnica projeta uma exposição, unificada, da saída da linha do tear até finalmente a montagem no chassis, a cada linha e tecido entrelaçado se guarda o gesto do artista. Cook nos demonstra a espessura de um mundo sensível, o estar diante de uma obra de arte e o fundamento em sua prática. O espaço é habitado com uma série que o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura. Utiliza o tear de quatro arneses, um dispositivo manual que mantém os fios sob tensão, permitindo dessa forma que possam ser entrelaçados, enredados, forjando uma trama que se torna um tecido e se irradiam em blocos de cor. 

Opera no campo da pintura expandida, demonstrando plasticamente o elemento pictórico sem o uso do pincel, aplicando a pintura parte a parte, em uma estruturação do grid nada enrijecido, principalmente pelas escolhas na formatação das cores na verticalização dos tecidos colocados que partilham o espaço da tela de um modo ritmado. Não é necessário a utilização da tinta e pigmento sobre a tela para a concepção de uma pintura, a composição cromática nos trabalhos circula os azuláceos, ora mais marinhos e abissais, ora mais lavados e esmaecidos, em toda sua totalidade sobre o fundo de algodão claro. Projeta flutuações e sobreposições e cria massas de cores solidificadas que se tornam campos de cor filamentosos. Dentre os azuis vemos o olhar atrair-se diretamente para massas de cor que se destacam como os de cor avermelhada, esverdeados e rosáceos. O tear é uma tecnologia consolidada muito antes da revolução industrial, parte de conhecimentos tradicionais na tecelagem. No entanto, na perspectiva de Cook o dispositivo é contemporâneo e leva a abstração ao limite, desloca uma técnica milenar e atribui outros sentidos a estes processos, materiais e montagens. Contraria a lógica industrial da reprodutibilidade têxtil. Em sua poética a tecelagem é orientada pelo gestual. 

Há um amalgamento da ação em que o gestual se mescla, o esticamento da linha é também a tensão da mão de Cook, o conjunto de fios aguarda, a mão decide o encaminhamento e se hibridiza quem é artista e o que é matéria, em um cruzamento do micro e do macro. As várias partes dos tecidos coloridos são modeladas e costuradas, indicando formações geométricas e abstratas. Se apropria da ação do acaso, tanto matérico como conceitual, ao incorporar aspectos artesanais da tecelagem em formas emendadas e mosaicas. Há uma memória partilhada a partir da experiência incorporada da interconectividade entre os trabalhos. Se Penélope, na epopéia Odisséia, tecia durante o dia e destruía durante a noite, ela articulava politicamente a suspensão do tempo a partir de sua ação ativa, em um futuro que dependia de sua dedicação ao tear. Em Cook o processo é inverso, é construção e edificação, a interconexão entre as obras é a potência da tecelagem pictórica, o espaço é enlaçado, cada trabalho é singular e formam um corpo de pintura em conjunto. As pinturas são planificadas e as partes contíguas dos tecidos se tornam apenas um, a composição cromática ritmada ocasiona a materialização do indizível, ou como afirmou Anni Albers, é a sensibilidade tátil em ação – sensibilidade essa que emana da poética de Ethan. 

Em Ethan Cook a matéria é abstracional, o pensamento da tecelagem é pictórico, e o dispositivo tear não é somente um dispositivo mecânico, mas uma parte compositiva do gesto do artista, carregando a contemporaneidade em compasso com a historicidade. O artista é iniciador de uma ação que gera uma obra e conta com parcela do acaso na produção. Ele não controla todos os aspectos de seu significado. Há uma beleza em incorporar a matéria como parte constitutiva da poética, em que a linha, o tecido e o aspecto artesanal do tear são compositivos e identificáveis como elementos do artista, enquanto o espaço expositivo é enovelado, expandindo e articulando a estrutura sensível do real. 

Até 07 de março. 

O lugar entre a abstração e a sugestão figurativa.

A Galatea apresenta Guilherme Gallé: entre a pintura e a pintura, primeira individual do artista paulistano Guilherme Gallé, 1994, São Paulo, na unidade da galeria na rua Padre João Manuel. A mostra reúne mais de 20 pinturas inéditas, realizadas em 2025, e conta com texto crítico do curador e crítico de arte Tadeu Chiarelli e com texto de apresentação do crítico de arte Rodrigo Naves.

A exposição apresenta um conjunto no qual Guilherme Gallé revela um processo contínuo de depuração: um quadro aciona o seguinte, num movimento em que cor, forma e espaço se reorganizam respondendo uns aos outros. Situadas no limiar entre abstração e sugestão figurativa, suas composições, sempre sem título, convidam à lenta contemplação, dando espaço para que o olhar oscile entre a atenção ao detalhe e ao conjunto.

Partindo sempre de um “lugar” ou pretexto de realidade, como paisagens ou naturezas-mortas, mas sem recorrer ao ponto de fuga renascentista, Guilherme Gallé mantém a superfície pictórica deliberadamente plana. As cores tonais, construídas em camadas, estruturam o plano com uma matéria espessa, marcado por incisões, apagamentos e pentimentos, que dão indícios do processo da pintura ao mesmo tempo que o impulsionam.

Sobre o artista.

Guilherme Gallé, nasceu em 1994, São Paulo, Entre as exposições das quais participou ao longo de sua trajetória, destacam-se: Joaquín Torres García – 150 anos, Coletiva, Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB, São Paulo / Brasília / Belo Horizonte, 2025-2026; Ponto de mutação, Coletiva, Almeida & Dale, São Paulo, 2025; O silêncio da tradição: pinturas contemporâneas, Coletiva, Centro Cultural Maria Antonia, São Paulo, 2025; Para falar de amor, Coletiva, Noviciado Nossa Senhora das Graças Irmãs Salesianas, São Paulo, 2024; 18º Território da Arte de Araraquara 2021; Arte invisível, Coletiva, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo, 2019; e Luiz Sacilotto, o gesto da razão, Coletiva, Centro Cultural do Alumínio, São Paulo, 2018.

 

Alessandra Rehder no Museu Lasar Segall.

21/jan

Exposição individual “Xaiure maaraesé xasaysu ndé (Eu vim porque te amo): das cinzas à criação”, de Alessandra Rehder no Museu Lasar Segall, Vila Mariana, São Paulo, SP. Alessandra Rehder (São Paulo, 1989), é artista representada pela Galeria Andrea Rehder Arte Contemporânea, com curadoria do Luiz Armando Bagolin. A mostra reúne trabalhos inéditos, instalações e imagens que atravessam diferentes camadas técnicas e poéticas da artista. 

A exposição propõe mais que um conjunto de obras: cria uma atmosfera. Entre painéis, recortes, dispositivos tridimensionais e obras que transitam entre fotografia, matéria e instalação, Alessandra Rehder convoca o público a uma imersão sensível na complexidade da natureza e de seus tempos. Como escreve o curador, não se trata de reforçar slogans ambientais, mas de instaurar uma “pedagogia da atenção”, capaz de reconfigurar o olhar sobre a floresta, seus ritmos profundos e suas camadas quase invisíveis. 

Em “Imersão Amazônica”, milhares de folhas recortadas são sobrepostas sobre uma fotografia real da floresta primária paraense, criando um corpo vegetal que respira e se transforma – uma imagem que pede demora. Em “Círculo do Tempo”, cortes de troncos revelam anéis e temporalidades não humanas, adensados por um vídeo em time-lapse que inverte o crescimento da árvore como uma arqueologia poética da vida vegetal. Já em “Rolo da Floresta”, rolos e testes fotográficos se tornam dispositivos de memória, tensionando a própria noção de imagem e seus modos de existência. 

A mostra reafirma o interesse de Alessandra Rehder por processos experimentais, por uma fotografia que se desloca do campo da captura para o da escuta. Seus trabalhos, resultado de pesquisas visuais ao longo de mais de quinze anos em diferentes países, incorporam vivências com comunidades de baixo IDH, questões ambientais contemporâneas e relações entre território, sobrevivência e transformação. Entre 2021 e 2023, a artista desenvolveu em Murrebue, Moçambique, o projeto social EEC (Espaço Ecológico Cultural), voltado para práticas de compostagem, permacultura e agrofloresta – experiência que reverbera em sua compreensão ampliada da imagem como gesto ético e social. Com obras presentes em galerias, feiras e instituições no Brasil e no exterior, e vivendo atualmente entre Frankfurt e São Paulo, Alessandra Rehder apresenta seu projeto mais denso e abrangente, convocando o público a reaprender a ver e a sentir. 

Até 23 de fevereiro.

Entre a fotografia e o cinema.

15/jan

O Instituto Moreira Salles (IMS), São Paulo, SP, exibe mostra com fotos inéditas de Agnès Varda e investiga a profunda relação entre sua fotografia e o cinema. “No meu trabalho, na minha vida de artista, sou tão fascinada pela imobilidade da fotografia quanto pelo movimento do cinema”, dizia Agnès Varda. O deslizamento entre o instante fotográfico e o fluxo fílmico, fundamental em sua obra, é um dos focos centrais da exposição no Instituto Moreira Salles (IMS). Reunindo 200 fotografias – muitas delas inéditas -, a iniciativa não só resgata a Varda fotógrafa, um lado menos conhecido da consagrada cineasta, mas também mostra como sua produção está conectada com as questões contemporâneas, como feminismo, combate ao racismo e defesa dos direitos civis. “Ela se interessa pelas possibilidades artísticas da fotografia”, afirma João Fernandes, diretor artístico do IMS e curador da exposição ao lado de Rosalie Varda, filha e parceira de Agnès.

Fez um curso profissionalizante, observou a produção de outros criadores e seguiu conselhos de mestres como Brassaï. O teatro também foi fundamental nesse processo de formação do olhar. Jean Vilar acabava de criar projetos que se tornariam referências incontornáveis, o Festival de Avignon e o Théâtre National Populaire (TNP), e a convidou para documentar essas produções. Agnès também colaborou com a revista Realités, envolveu-se em outros projetos teatrais como a montagem de Papa Bom Dieu – peça encenada pelo primeiro grupo de teatro negro francês com conexões com o Teatro do Negro que Abdias Nascimento fundou no Brasil. Em 1954, quebrando a lógica do mercado de arte, realizou sua primeira exposição, que não acontece numa galeria, mas em sua própria casa-ateliê, na Rua Daguerre, onde viveu até sua morte, em 2019.

Fonte: Maria Hirszman.

Grande nome do construtivismo latino-americano.

Um retrospcto da obra de Joaquín Torres-García ganha exposição com 500 itens no CCBB São Paulo, SP. A mostra celebra a trajetória do artista utuguaio Joaquín Torres García (1874-1949), mundialmente conhecido por sua obra “América Invertida” (1943), que retrata o continente de ponta-cabeça, sendo um símbolo do pensamento do artista, muito relacionado ao conceito de decolonialidade. 

“Joaquín Torres García – 150 anos” apresenta obras e documentos, incluindo pinturas, manuscritos inéditos, maquetes e desenhos. Algumas peças deixam pela primeira vez as reservas técnicas do Museo Torres-García, que colaborou com a curadoria de Saulo di Tarso, revelando ao público aspectos pouco conhecidos da produção do artista.

A mostra aborda sua obra pictórica, gráfica, escrita e pedagógica, que o consagrou como um grande nome do construtivismo latino-americano, e vai além, ao posicioná-lo como pensador global. Destaques incluem noventa volumes manuscritos por Torres-García, além de desenhos autobiográficos e uma carta inédita enviada a ele pela poeta Cecília Meireles. 

O ícone “América Invertida” surge suspenso em forma de móbile no hall de entrada. Artistas influenciados por sua produção, como Anna Bella Geiger, Carlos Zílio, Rubens Gerchman e Montez Magno também estão em cartaz.

Até 09 de março.

Fonte: Veja São Paulo.

Obras inéditas de Julia Kater.

14/jan

A galeria Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP, dá início à sua programação de 2026 com a exposição “Duplo”, exibição individual de Julia Kater. A mostra reúne 14 obras inéditas, entre colagens e fotografias impressas sobre seda, sendo seis delas desenvolvidas em 2025 durante sua residência artística na Cité Internationale des Arts, em Paris.

Artista franco-brasileira Julia Kater trabalha a partir da fotografia, incorporando procedimentos manuais como cortes, colagens, sobreposições e tingimentos manuais, que interferem diretamente na construção da imagem. Em “Duplo”, dois modos de construção da imagem se articulam. Nas colagens, a paisagem é reorganizada por recortes e justaposições fotográficas, com adição de cor; nos trabalhos em tecido, o tingimento manual incide sobre a fotografia.

Sobre a artista.

Julia Kater nasceu em 1980, Paris, França. Formada em Fotografia pela ESPM (2004) e em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2003). Sua prática atravessa a fotografia, a colagem e o vídeo, com foco na elaboração da imagem a partir do recorte e da justaposição. Na fotografia, a artista parte do entendimento de que toda imagem é, por definição, um fragmento – um enquadramento que recorta e isola uma parte da cena. Em sua obra, a imagem não é apenas um registro de um instante, mas resultado de um deslocamento – algo que se desfaz e se recompõe no mesmo gesto. As imagens, muitas vezes próximas, não buscam documentar, mas construir um novo campo de sentido. Em 2025 participou em Paris, da residência Cité Internationale des Arts. Sua obra integra coleções públicas como o Museu de Arte do Rio – MAR, Museu Oscar Niemeyer – MON, Fundação Luis Seoane (Espanha), Fundação PLMJ (Portugal) e o Museu de Arte de Ribeirão Preto – MARP.

Guilherme Gallé artista representado pela Galatea.

16/dez

A Galatea tem o prazer de anunciar a representação do artista Guilherme Gallé (São Paulo, 1994 – vive e trabalha em São Paulo). Guilherme Gallé é formado em Design Gráfico pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2016) e desenvolveu sua prática pictórica em ateliês e grupos de estudo. Entre 2019 e 2023, foi assistente do pintor José Roberto Aguilar. Atualmente integra o curso “Pintura: Prática e Reflexão”, conduzido por Paulo Pasta, e participa do grupo de estudos de história da arte coordenado por Rodrigo Naves.

A pintura de Guilherme Gallé nasce de um processo contínuo de depuração: um quadro aciona o seguinte, num movimento em que cor, forma e espaço se reorganizam respondendo uns aos outros. As cores tonais, construídas em camadas, estruturam o plano pictórico ao mesmo tempo em que instauram atmosferas. Já a geometria recorrente não se impõe como ordem fixa, mas como um sistema instável que articula cheios e vazios, proximidades e distâncias. O vazio, por sua vez, não é experimentado como ausência, mas como elemento ativo da composição: é ele que tensiona as formas e sustenta a dinâmica espacial da pintura.

A sua superfície pictórica se constitui de uma matéria espessa, marcada por incisões, apagamentos e pentimentos, que dão indícios do processo da pintura ao mesmo tempo que o impulsionam. Nesse sentido, Guilherme Gallé empreende uma investigação metalinguística, na qual a obra se autoengendra: a pintura nasce da própria pintura, tensionando polaridades entre micro e macro, conteúdo e continente, gesto e estrutura. Situadas no limiar entre abstração e sugestão figurativa, suas composições convidam à lenta contemplação, dando espaço para que o olhar oscile entre repouso e movimento, entre a atenção ao detalhe e ao conjunto. Aos poucos, Gallé constrói uma partitura silenciosa, uma minuciosa dança à qual os olhos aderem.

Entre as exposições das quais participou, destacam-se: Joaquín Torres García – 150 anos, (Coletiva, Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB, São Paulo / Brasília / Belo Horizonte, 2025–2026); Ponto de mutação (Coletiva, Almeida & Dale, São Paulo, 2025); O silêncio da tradição: pinturas contemporâneas (Coletiva, Centro Cultural Maria Antonia, São Paulo, 2025); Para falar de amor (Coletiva, Noviciado Nossa Senhora das Graças Irmãs Salesianas, São Paulo, 2024); 18º Território da Arte de Araraquara (2021); Arte invisível (Coletiva, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo, 2019); e Luiz Sacilotto, o gesto da razão (Coletiva, Centro Cultural do Alumínio, 2018). Sua primeira individual será apresentada na Galatea, em São Paulo, com abertura em 22 de janeiro de 2026.