O Pequeno Grande Mundo de Flavio Papi

06/fev

 

“O Pequeno Grande Mundo de Flavio Papi” começou a ser construído muito cedo, ainda na infância, quando já produzia maquetes e mini esculturas. Aos seis anos de idade, começou a desenhar com Augusto Rodrigues, na “Escolinha de Artes do Brasil”, e logo em seguida com Ivan Serpa, no MAM, dos 7 aos 12 anos. Seu know-how em arquitetura, já que além de artista plástico e maquetista é também arquiteto, favoreceu bastante seus projetos em menor escala; hoje, Flavio Papi é considerado o maior maquetista brasileiro, elencando uma extensa e respeitável lista de trabalhos para publicidade, cinema e televisão (TV Globo, a extinta Manchete e Record). No dia 09 de fevereiro, “O Pequeno Grande Mundo de Flavio Papi”, faz uma retrospectiva sobre sua trajetória de mais de 60 anos -, reunindo desenhos, pinturas, esculturas e maquetes, sob curadoria de Dinah Guimarães, no Centro Cultural CorreiosRJ.

 Entre as maquetes mais curiosas, estão a do “Teatro” da novela Mandala (TV Globo), a do “Banheiro”, criada para o clipe do grupo “Paralamas do Sucesso”, dirigido por Andrucha Wadington e vencedor na MTV Awards Brasil, em 1996. São destaques também na exposição a maquete oficial da “Rio 2016” e a recente série “Floresta” (bastante oportuna no momento atual de devastação da Amazônia), criada para uma peça publicitária sobre o Dia do Meio Ambiente.

 

A palavra da curadora

“Será a arte capaz de transportar imaginariamente o espectador para um universo paralelo? A obra de Flávio Papi se insere, inegavelmente, em uma criatividade transcendental, que logra decodificar informações novas ao introduzir elementos estranhos (“ruídos”) em dados cotidianos. É aqui possível perceber uma distinção capital entre “arte formalizada” (arte criada pelos artistas) e “arte em estado bruto” (capacidade humana de fruir esteticamente objetos ou fenômenos naturais como crepúsculos)? A atual retrospectiva revela artefatos ecléticos, que mesclam valores artesanais da arte do passado com uma ruptura estética radical. Peças artísticas criadas a partir de maquetes com técnica mista (madeira, mdf, acrílico, plastique, papel, arame, pvc, plástico, poliuretano, resina, gesso, pintura acrílica ou automotiva) simbolizam obras intuitivas, espontâneas, sem projeto prévio. Fugindo da premissa ingênua de obras cuja facilidade se disfarça sob a ideia do difícil, a exposição revela desenhos, pinturas, esculturas e maquetes produzidos desde a infância do artista até a atualidade, em mais de 60 anos de trabalho ininterrupto. Começou Flávio Papi a desenhar com Augusto Rodrigues na Escolinha de Artes do Brasil e, em seguida, com Ivan Serpa no MAM-Rio. Maquetes, mini esculturas e desenhos originais dos anos 1960 constam da exposição, ao lado de esculturas recentes com temática ecológica, destruição e renascimento do planeta, assim como temas ligados à violência humana. Sua mão artística, em um gesto surrealista, expressa a criação/destruição humana do planeta e a esperança de retomada do bem comum verde, com a presença maciça de uma ecologia que possa nos redimir nesse terrível momento de crise ambiental brasileira na Amazônia. Enfatizam-se maquetes para publicidade, cinema e televisão, como aquelas feitas para novelas: “Teatro”, da novela “Mandala”, ao lado de obras para a TV GLOBO, Record e a extinta Manchete, além de filmes como “Outras estórias”, de Pedro Bial e “Lili Carabina”, de Lui Farias. Juntam-se maquetes usadas em vídeoclipes para bandas de rock e shows musicais para o programa “Fantástico”, com artistas como Djavan, Martinho da Vila, Zizi Possi, Ângela Maria e o programa “Os Trapalhões”. Destaca-se a maquete do “Banheiro” para o grupo “Paralamas do Sucesso”, vencedor do melhor vídeoclipe do ano (1996) na MTV Awards Brasil e dirigido por Andrucha Waddington. Derivando de uma família de artistas plásticos como Luiz Alphonsus e Domingos Guimaraens, foi sua obra influenciada pela poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho, Afonso Henriques Neto e Augusto de Guimaraens Cavalcanti, devendo sua estética de connoisseurship à exímia modista Sônia Papi, sua mãe, ao bom gosto e escritos da tia Hymirene Papi de Guimaraens, às esculturas e poemas do tio Luiz Papi e ao apoio imprescindível do irmão Pedro Papi. Trata-se de ter olho e gosto, pois o bom gosto é um juiz intemporal perante o qual as obras comparecem, à espera de julgamento…”.

 

Sobre o artista

Flavio Papi nasceu no Rio de Janeiro em junho de 1954, Formado em Arquitetura pela FAU-UFRJ. Em seu currículo, há cursos de maquetes ministrados na década de 1980 no MAM. Em 1982, trabalhou por dois anos em Nova York na Maloof Architectural Models. Retornando ao Rio de Janeiro, voltou  a ministrar cursos no  IAB, E.A.V. (Parque Lage) e em seu Ateliê, na Lapa. Desde então, produz e faz maquetes para Arquitetura, Cinema, Televisão, Fotografia, Publicidade, Engenharia, Música, Artes Gráficas. Entre os seus principais projetos, “Os 100 anos de Oscar Niemeyer”, a exposição sobre os 50 anos de Brasília com a obra de Lúcio Costa, Burle Marx, Petrobrás, comerciais para Skol e Motorolla, e projetos para TV Globo e TV Record (maquetes de novelas e seriados).

Até 02 de abril.

 

 

 

Texturas, entrelaçamentos e urdiduras

01/fev

 

A primeira coletiva de 2023 da Simões de Assis em São Paulo reflete sobre as possibilidades têxteis dentro da produção visual latino-americana.

“Tramas e Tecituras” reúne diversos artistas que, em suportes distintos e a partir de processos variados, exploram os caminhos da costura, do bordado, da apropriação, sobreposição e colagem têxtil, e de todas as histórias contadas a partir de fios, lenços, telas, panos, texturas, entrelaçamentos e urdiduras.

A mostra traz obras inéditas e recentes de André Azevedo, Elizabeth Jobim, Ernesto Neto, Mariana Palma, Martin Soto Climent, Mestre Didi, Yuli Yamagata, além de artefatos criados pelos artesãos haitianos Georges Valris e James Recule, que exploram a natureza narrativa das bandeiras e tapeçarias historicamente desvalorizadas pela produção contemporânea.

Proust e as artes

 

Confira os cursos do mam, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Parque Ibirapuera, portões 2 e 3, São Paulo, SP, com inscrições abertas para o dia 25 de fevereiro (sáb), das 15h às 17h; masterclass presencial.

A aula acontece por ocasião dos 100 anos da morte do escritor francês Marcel Proust e o lançamento do livro póstumo “Proust e as artes” (Todavia), do filósofo Roberto Machado. Aberta a todos os públicos, a masterclass será ministrada pelo pesquisador Brunno Almeida Maia.

Os dez primeiros inscritos ganharão um exemplar físico do livro “Proust e as artes”, de Roberto Machado, em celebração à parceria entre o mam e a Editora Todavia para esta realização.

Em fevereiro, a programação de cursos do mam são paulo traz oficinas de lambe-lambe e fotografia bordada, recortes da história da arte e uma masterclass, formato inédito na grade do museu. Aberta a todos os públicos, a aula “Proust e as artes” será ministrada pelo professor e pesquisador em Filosofia e Ciências Humanas Brunno Almeida.

Filme e exposição de Glauco Rodrigues

31/jan

 

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS, Porto Alegre, instituição da Secretaria de Estado da Cultura do RS – Sedac, apresenta o Cine Verão Tropical pelo Programa Público da exposição “Glauco Rodrigues – TROPICAL”, atualmente em exibição no Museu. Será um ciclo com 5 sessões do filme “Glauco do Brasil” (2015), no Auditório do MARGS, nos dias 01, 11, 15 e 25 de fevereiro e 16 de março, sempre às 16h. Esta última contará com a participação do diretor do documentário, o cineasta Zeca Brito. As sessões são abertas ao público e gratuitas, com limite de 60 lugares por ordem de chegada. “Glauco do Brasil” tem duração de 90 minutos e classificação indicativa livre.

Ocupando duas salas do 2º andar do MARGS (Galeria Iberê Camargo e Sala Oscar Boeira), a exposição “Glauco Rodrigues – TROPICAL” permanecerá em exibição até 16 de abril. A visitação é gratuita e ocorre de terça a domingo, das 10h às 19h (último acesso às 18h30). Visitas mediadas para grupos podem ser agendadas pelo email educativo@margs.rs.gov.br.

 

Sobre o filme

O documentário “Glauco do Brasil”, apresenta, a partir de entrevistas e arquivos, a trajetória de vida de Glauco Rodrigues (1929 – 2004). Acompanha as mudanças nas concepções artísticas do artista, partindo dos anos iniciais em Bagé até sua estadia no Rio de Janeiro. O filme inicia com um depoimento do artista, concedido ao diretor Zeca Brito, quando este possuía apenas 12 anos. Além de depoimentos do artista, constam entrevistas com nomes de destaque no campo artístico nacional, como os críticos Frederico Morais e Ferreira Gullar, Gilberto Chateaubriand – seu pricipal colecionador -, o músico João Bosco, o escritor Luis Fernando Veríssimo, a atriz Camilla Amado, e o curador francês Nicolas Bourriaud.

 

Sobre o diretor

Zeca Brito (1986) é cineasta. Foi diretor do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul. Possui mestrado em Artes Visuais pela UFRGS, com ênfase em História, Teoria e Crítica, e graduação em Realização Audiovisual pela Unisinos e em Poéticas Visuais pela UFRGS. Dirigiu e roteirizou longas-metragens como “O Guri” (Canal Brasil), “Glauco do Brasil” (Canal Brasil), “Em 97 Era Assim” (Canal Brasil), “A vida Extra-Ordinaria de Tarso de Castro” (Canal Brasil), “Grupo de Bagé” (Canal Curta!), “Legalidade” (Telecine Cult) e “Trinta Povos” (Canal Curta!).

 

Sobre a exposição e o artista

Nascido em Bagé, Glauco Rodrigues ficou notabilizado pela sua atuação nas importantes realizações do denominado “Grupo de Bagé” e dos Clubes de Gravura criados nos anos 1950. Assim, seu nome costuma figurar junto aos artistas Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves e Carlos Scliar. Esse Glauco Rodrigues relacionado à representação do homem e das paisagens do campo, do trabalho rural da pecuária e dos tipos e costumes regionais – ligado, portanto, ao gaúcho e à cultura campeira sulina – foi desde então bastante celebrado. Inclusive pelo MARGS, como atesta a história das exposições do Museu. Depois de partir, no final dos anos 1950, para experiências no Brasil e na Europa, fixando-se a seguir no Rio de Janeiro, Glauco Rodrigues dá um direcionamento ao seu trabalho em que passa a fazer da história e da cultura brasileiras o maior interesse e tema privilegiado de sua produção. A exposição enfoca esse “Glauco tropical”, que surge nos anos 1960, explorando os temas de uma identidade brasileira vivenciados a partir da experiência carioca. Com seu inconfundível grafismo e colorido na figuração de acento pop, são obras nas quais Glauco Rodrigues explora fatos, estereótipos, tipos e complexidades da história e da cultura brasileiras, de forma crítica e analítica.

A mostra apresenta uma seleção de 49 obras do Acervo Artístico do MARGS, onde o artista está representado por mais de 300 trabalhos. A maior parte foi adquirida em 2018, através da generosa doação de Norma de Estellita Pessôa, viúva do artista. Desde então, essas obras foram sendo submetidas a processos de restauração, possibilitando agora que estejam em condições de exibição para esta que é uma primeira apreciação pública do conjunto, a partir de um recorte temático e que cobre um período dos anos 1960 a 90.   Com curadoria de Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS, e Cristina Barros, curadora-assistente do MARGS, “Glauco Rodrigues – TROPICAL” integra 2 programas expositivos em operação no Museu que são aqui interligados: “Histórias ausentes”, voltado a resgates e revisões históricas, e “História do MARGS como história das exposições”, que aborda a história institucional do Museu.

 

Exibição da coleção de Vera e Miguel Chaia

30/jan

 

A Arte 132 Galeria, Moema, São Paulo, SP, exibe exposição “Tridimensional: Entre o sagrado e o estético”, um recorte da coleção particular de Vera e Miguel Chaia, que reúne um conjunto de 46 obras. Entre telas, objetos e esculturas de 35 diferentes artistas brasileiros. A mostra apresenta desde nomes consagrados a jovens talentos do cenário artístico brasileiro. A curadoria é assinada por Miguel Chaia, Laura Rago e Gustavo Herz.

Dividida em dois pilares, o sagrado e o estético, Tridimensional mescla de forma não-linear os temas centrais. Supõe-se que cada artista ou obra se aproxima ora mais ora menos do sagrado ou do estético; em algumas obras, o sagrado pode ser mais explícito e, em outras, menos. O conceito de sagrado é aqui entendido no seu significado amplo de religioso, venerável, ritualístico, mítico, alquímico e metafísico – centrado nas questões do corpo e da sociabilidade, e aparece representado por cinco elementos – sangue, vinho, água, fogo e alimento. O estético é compreendido como a linguagem que, no desenvolvimento histórico da arte, em um processo autônomo e profano, opera revoluções nas formas de expressão, rompendo claramente vínculos com áreas externas à própria arte. O tridimensional aparece em restrito relacionado à forma das telas, objetos e esculturas – todas as obras apresentam três dimensões e/ou perspectivas de relevo.

 

Sobre o processo curatorial

Três questões nortearam as reflexões abordadas pelo conjunto de obras expostas: Será possível perceber na arte contemporânea vestígios do sagrado? O que pode haver em comum entre a arte e o sagrado? E, ainda, a arte contemporânea, ao ganhar autonomia, fortalecendo seu significado estritamente estético, abandona o mítico, a religiosidade e a religião na busca da revolução da linguagem?

Entre os destaques da exposição, aparecem Artur Lescher, Carmela Gross, José Resende, José Leonilson, Leda Catunda, Marcelo Cidade e Tunga.

A história da coleção de Vera e Miguel Chaia se confunde com a própria história da arte contemporânea brasileira. O casal começou a colecionar há 45 anos e, durante esse período, reuniu um acervo ímpar. Eles se conheceram em 1969, quando cursavam a Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP, e logo descobriram o amor em comum pelas artes, passando a visitar, juntos, exposições. Começaram adquirindo gravuras e nunca mais pararam. Assim surgia uma das mais importantes coleções de arte contemporânea brasileira. “Tridimensional – Entre o sagrado e o estético” será uma oportunidade para que os espectadores conheçam um recorte desse acervo.

Evento de encerramento: Recital de piano, em 11 de março, sábado, às 11h30.

Até 11 de março.

 

Formas botânicas fabuladas

27/jan

 

Thalita Hamaoui apresenta “Gaia: seu corpo, sua carne, seu sopro”, sua primeira exposição individual na Galeria Simões de Assis, Jardins,  São Paulo,  com curadoria de Priscyla Gomes. O conjunto inédito é formado por pinturas de média e grande escala, nas quais a artista desenvolve paisagens inventadas e imaginadas, descoladas de lugares reais ou espécies existentes. Ao contrário, Thalita Hamaoui extrapola os limites do cientificismo e do figurativismo, abdicando da observação ou da fidelidade representacional, em favor de imagens fantásticas, repletas de organicidade. As formas botânicas fabuladas e os espaços tomados por gestos pictóricos reverberam de um trabalho a outro, como se as figuras estivessem em constante metamorfose, contaminando todas as obras ao redor. As pinturas de Thalita Hamaoui são como exercícios constantes de fusão e distanciamento, pulsão e análise, ritmo e respiro, dando vida à magia do inesperado.

Até 25 de fevereiro.

 

Inéditos de Felipe Rezende

Em sua primeira exposição individual na Galeria Leme, Butantã, São Paulo, SP, Felipe Rezende apresenta sua produção mais recente, composta de pinturas à óleo sobre lona de caminhão e desenhos em nanquim e grafite, todos inéditos. Com curadoria de Tiago Sant’Ana, “O último buritizeiro” permanece em cartaz de 02 de fevereiro até 10 de março.

Neste conjunto de trabalhos, Felipe Rezende combina observações de seu cotidiano com elementos da cultura pop, como personagens de animes e quadrinhos, em prol da constituição de uma narrativa visual. Nas obras presentes na mostra, o artista amplia seus assuntos de interesse e passa a incorporar os debates sobre as questões ambientais e os fluxos migratórios para São Paulo.

Na obra que dá título à exposição,  o artista retrata no centro da composição Dona Ozelina e um buriti ao fundo. Ao redor dessa figura é possível notar uma colheitadeira, um balde e uma bacia cheios de frutos da planta, demonstrando duas formas distintas de colheita e plantio e um aviação agrícola expelindo agrotóxico. No topo esquerdo da composição um Koffing – personagem venenoso do anime Pokémon – veste um chapéu de cowboy.

Ozelina é moradora do quilombo Cacimbinha, no oeste baiano. A região vive um intenso conflito entre dois projetos antagônicos, de um lado os camponeses, geraizeiros e comunidades tradicionais, que vivem dos recursos hídricos abundantes da região, do cultivo do buriti e do conhecimento da biodiversidade do Cerrado e de outro o modelo do agronegócio, que hoje ocupa 150 mil hectares com plantio de soja, milho e algodão, de acordo com relatório da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM).

“Felipe desenvolveu uma maneira de criar a partir daquilo que ele observa e se relaciona no cotidiano, mas ele não para por aí, porque ele funde elementos dessa realidade tangível com outras figuras, que muitas vezes vem do universo do sonho, dos quadrinhos, da cultura pop. Ele utiliza esses elementos para fazer uma espécie de bricolagem, que vai justapondo diferentes elementos nessa atmosfera, que ele cria em prol da constituição de uma narrativa”, comenta o curador Tiago Sant’Ana.

A escolha da lona de caminhão como suporte para suas pinturas extrapola uma decisão exclusivamente matérica, contribuindo como uma metáfora do trânsito de pessoas, de elementos, de imagens de um lugar para o outro.

“Essas lonas viajam, deslizam nas estradas e carregam consigo uma sorte de desgastes do tempo, de marcas que ficam inscritas em suas fibras. Elas são uma estratégia, que o Felipe utiliza para tratar desses fluxos de migração, de finitude, de passagem do tempo”, acrescenta Tiago Sant’Ana.

 

Obras de Ivens Machado na Carpintaria

26/jan

 

“Tucci Russo, Torino, 1983” apresenta pela primeira vez no Brasil, na Carpintaria, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, cinco esculturas de Ivens Machado que foram expostas originalmente na Galleria Tucci Russo, em Turim.

Tucci Russo foi um antológico marchand italiano dedicado a promover expoentes da Arte Povera, e as obras de Ivens Machado compartilham com o movimento a fusão da fatura manual com procedimentos industriais, a reabilitação de materiais da construção civil, e a reintrodução de uma fisiologia corporal e carga libidinal nos espaços de arte. Após a exposição na Tucci Russo, Ivens Machado expõe na Nouvelle Biennale de Paris a convite do crítico e curador italiano Achille Bonito Oliva.

As quatro esculturas de chão são como livros abertos de concreto sobre finas pernas de metal. As “páginas” são abas espessas que se abrem em três ou quatro facetas. Cada faceta exibe uma determinada consistência, estabelecendo um contraste tanto cromático quanto textural entre o concreto cru e aquele pigmentado com óxido em tons terrosos, avermelhados. As variações em dimensões, tratamentos e distribuições de informação sobre a escultura dá a cada uma um caráter específico, como se fossem criaturas de uma mesma matriz que ganham autonomia própria.

A única escultura de parede da presente exposição traz a primeira incorporação de Ivens Machado das telas de arame que se tornaram recorrentes em seu trabalho. A variedade cromática das esculturas de chão passa a uma paleta ascética de preto e cinza. O concreto e o óxido reaparecem como o material principal, mas a tela de arame de onde pendem pedaços de concreto dá à obra uma mobilidade e leveza contraditórias com o seu peso.

O uso que Machado fez de materiais da construção civil – a tela de arame, o aço, o concreto, fragmentos de azulejo e cacos de vidro – e o caráter estrutural-arquitetônico que as esculturas apresentam, aproxima a exposição de uma casa suspensa entre a construção e a demolição. À época, a crítica italiana Luciana Rogozinski descreveu os trabalhos como “flores da ruína”, expressão que encerra bem a coexistência sempre contraditória, frequentemente violenta, entre a fluência orgânica das formas de Ivens e o seu material bruto, os escombros de onde parte sua elaboração plástica.

 

Memorial e o 469º aniversário de São Paulo

25/jan

 

O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, Parque do Ibirapuera, São Paulo, SP, instituição da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, promove no próximo dia 28 de janeiro, a inauguração do memorial, em homenagem ao fundador que leva o nome do espaço em comemoração ao 469º aniversário da capital paulista.

Emanoel Araujo, ao longo de suas cinco décadas de vida em São Paulo, nunca deixou de homenageá-la no dia de seu aniversário. A última de uma série de exposições dedicadas por ele à metrópole, “Arqueologia Amorosa de São Paulo”, foi inaugurada no dia em que a cidade comemorava seus 468 anos de existência e teve, como desdobramento, o lançamento de um catálogo homônimo. A publicação registra a mostra e também consolida uma série de outras exposições por ele realizadas em anos anteriores e que contaram a história da cidade sob diferentes ângulos.

Nesse 469º aniversário de São Paulo, nada mais justo que o museu por ele fundado, retribua essa dedicação de Emanoel Araujo à cidade que o adotou, com a inauguração de um memorial em sua homenagem que passará a integrar a exposição de longa duração do acervo da instituição. A homenagem, organizada pela equipe do Museu, sob a coordenação de Claudio Nakai, que colaborou com Emanoel Araujo durante mais de três décadas, incorporará aspectos da produção artística e da biografia do artista, intrinsecamente ligada à história da metrópole. O memorial conta com texto do curador e pesquisador Claudinei Roberto, segundo o qual “o pioneirismo e protagonismo de Emanoel Araujo deixou marcas indeléveis no cenário artístico nacional e na cidade de São Paulo” e ficará aberta ao público durante todo o ano de 2023.

A programação contempla ainda o “Sarau Literário – Meus Poetas Negros”. O evento será coordenado e mediado pelo poeta, ficcionista, crítico e historiador da literatura, Oswaldo de Camargo, um dos maiores nomes da literatura brasileira e parceiro de vários projetos de Emanoel Araujo. O sarau tem participação dos convidados Abílio Ferreira e Mariana Per para a leitura de poemas de autores e autoras negro(a)s e um diálogo sobre a contribuição de Emanoel Araujo – a partir das curadorias e acervos – no campo da literatura afro-brasileira.

 

 

 Novo livro de Diógenes Moura

 

A Editora Noir, promove o lançamento do livro “Minhocão” de autoria de Diógenes Moura em São Paulo dia 25 de janeiro,  das 15h às 18h na Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista, 509.

Em seu novo  livro,  Diógenes  Moura apresenta contos sobre  os inescapáveis destinos dos que vivem às margens do mais famoso viaduto de São Paulo. Em capítulos curtos, secos, vastos, e em situações limites e tragicômicas, “Minhocão” faz da arquitetura do seu elevado de concreto a geografia dos que habitam os dois lados  da “cicatriz” urbana,  com  suas vidas  recônditas e alquebradas, dentro e fora dos seus apartamentos, com  vistas  para o vazio  e o nada da metrópole.

“Este livro  traz uma  coleção de gente que  habita a veia  desalumiada do centro da cidade. Uma anomalia encravada, onde  resta  um grau  de vaidade, o enfeite na fala, no corpo e na casa. O mundo em ruínas e a redenção vaza, tímida, entre  os escombros”.

 

Beto  Brant (Cineasta) Trecho da orelha  do livro.

O escritor Diógenes  Moura  é um  observador e perscrutador da  região em  que mora  em São Paulo, o bairro Campos Elíseos e seus entornos, deste 1989, vindo de Salvador, a cidade que primeiro o recebeu com  sua família pernambucana.

Na metrópole onde  os homens quase  não mais conseguem desafiar os deuses, o autor construiu e alargou sua literatura, demarcada por  personagens que  lidam com  seus abismos,  abandonos e loucuras, tendo no retrovisor suas vidas  atordoadas e/ou desfeitas em seus lugares  de origem, restando à cidade de São Paulo a missão de perpetuar ou encurtar suas existências.

Em seu novo  livro  de contos Minhocão (Editora Noir),  Diógenes  Moura aproveita a experiência de ter frequentado por  sete anos o Elevado Presidente João  Goulart, com  uma  caderneta, um  lápis  e um  olhar  muito atentos não  somente para  o que acontecia em seus caminhos de concreto, mas, principalmente, para os habitantes dos apartamentos que margeiam os dois lados do viaduto.

“Ao longo desse  período e de  uma  pandemia no  meio,  ele (Diógenes Moura) se sentou no meio-fio do Minhocão e passou  a buscar  vidas  dos dois  lados  daquelas pistas elevadas que escondem a miséria  sob seus pés e que passam a impressão de levar  todos a qualquer lugar.  Mas a sensação  é de um enorme presídio de desejos, sonhos  e fantasias, de onde  não se sairá jamais”,  escreve  o jornalista, escritor e editor Gonçalo Junior,  na quarta capa do livro.

Com sua dicção peculiar, sua geografia humana  muito particular e uma escrita concisa  e abundante em  acontecimentos, Minhocão faz um  retrato devastador  sobre  nós  mesmos,  o  que  não  enxergamos e o  que  tentamos  esconder, com  personagens ordinários, vivendo  no  limite de  suas condições materiais, desejos  e frustrações, tendo como refúgio, seus apartamentos-cubículos, com seus  objetos envelhecidos e resquícios de  vidas  natimortas. Um  retrato sem arrodeio de uma sociedade high  tech que teima em se autopropagar moderna, civilizada e bondosa.

 

Trechos do livro:

“Em um dia de domingo qualquer, tantos uns, tantos outros, Cesário  Triste saiu de casa com  uma  caderneta e um lápis  e entrou na padaria da esquina.  Tomou café com  leite, engoliu três bolinhas embranquecidas para não endoidar, subiu  a rampa em direção ao viaduto, sentou-se na listra branca que divide as duas pistas  e morreu. Em outro domingo qualquer, arregalou os olhos  e começou a girar  a cabeça de um lado  para  o outro como se estivesse sendo  exorcizado. Com  as pupilas dilatadas  pelo  susto, dedicou-se a invadir os apartamentos dos outros, aqueles  que moram nas duas margens da imensa serpente de concreto que corta uma parte da cidade, onde  os homens desafiam o que resta dos deuses”.

“Cada replicante que Ambrósio Terminante das Tripas enfim  descongela para colocar em cima dos ombros e pedir dinheiro entre  os carros  no semáforo, embaixo do viaduto, leva pelo menos seis horas para a carne ficar no ponto e voltar a ter a respiração natural, o piscar dos olhos, remover a memória embutida, as lembranças dos que ficaram para trás, imaginar um rosto vivo  de alguém que não sabe se um dia terá amanhãs”

 

Sobre o autor

Diógenes  Moura é escritor, curador de fotografia, roteirista e editor independente. Nasceu  na Rua do Lima, em Recife,  Pernambuco. Morou durante quase  17 anos em Salvador, Bahia.  Desde  1989, vive  em  São Paulo,  no  bairro de Campos Elíseos. Com o livro  Vazão 10.8 – A Última Gota de Morfina (Vento Leste Editora, 104 págs.), lançado em  2021, entrou na lista  dos  Semifinalistas do  Prêmio Oceanos  em  2022. Com  11  livros  publicados entre  romance, contos, crônicas e poesia,  já recebeu um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), em 2010, de melhor livro de contos/crônicas por  Ficção Interrompida (Uma  Caixa de Curtas), também finalista do Prêmio Jabuti de 2011. O seu primeiro romance autoficcional Vazão 10.8 – A Última Gota de Morfina está sendo adaptado para o cinema  pelo diretor Beto  Brant.