Panorama, um exercício radical de imaginação.

29/maio

Intitulado “Depois que tudo foi dito”, o 39º Panorama da Arte Brasileira, sob a curadoria de Diane Lima – de 02 de setembro até 24 de jananeiro de 2027 -, questiona para onde a produção artística tem transbordado na busca por ampliar os limites da representação estética por meio de um exercício radical de imaginação. Inspirado no título e questão filosófica formulada por Denise Ferreira da Silva, uma das principais teóricas feministas negras da contemporaneidade, a exposição convida a imaginar “se seria possível lançar mão de uma sensibilidade que presuma e antecipe o que está além de tudo o que foi dito e feito sobre a violência colonial e racial, e o trabalho que elas realizam para o capital global”. 

A seleção de artistas do 39º Panorama reúne diferentes gerações, regiões e linguagens artísticas. Os trabalhos e pesquisas que serão apresentados propõem novos olhares sobre a arte brasileira contemporânea e desafiam formas já estabelecidas de pensar e perceber a produção artística no país. Realizado desde 1969, o Panorama da Arte Brasileira é uma das exposições mais importantes do país, reconhecida por sua contribuição à pesquisa, à experimentação artística e à formação do acervo do MAM. Em 2026, a mostra marca também um momento especial: o nosso retorno à sede no Parque Ibirapuera, após o período de reforma da Marquise.

Artistas participantes

Allan Weber, Amorí, Ana Claudia Almeida, André Felipe Cardoso, Anti Ribeiro, Arorá, Bárbara Banida, Biarritzzz, Carolina Cordeiro, Caroline Ricca Lee, Chacha Barja, Darks Miranda, Emer Freire, Fykyá Pankararu, Gilson Plano, Helô Sanvoy, Iagor Peres, Josi, Jota Mombaça, Kuenan Mayu, Lia D Castro, Lita Cerqueira, Marcelo Conceição, Moacir Soares de Faria, Nazas, Osvaldo Gaia, Oto Ferreira, Rafael Chavez, Rayana Rayo, Rodrigo Cass, Rose Afefé, Thaís Muniz, Ygor Landarin.

Curadoraria.

Diane Lima é mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e Pre-doctoral Mellon Fellow, afiliada ao Critical Racial Anti Colonial Study Co-Lab  (CRACS Co-Lab) no Department of Spanish & Portuguese Languages and Literatures na New York University. Recentemente, foi anunciada como curadora do Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia. Diane Lima editou a aclamada antologia Negros na Piscina: Arte Contemporânea, Curadoria e Educação (Fósforo, 2024), que documenta os últimos dez anos de debates sobre racialidade e arte no Brasil. Também coeditou o volume Textes à lire à voix haute (Textos para ler em voz alta), que reuniu vozes dissidentes anticoloniais em contextos lusófonos e francófonos (Brook, 2022). Ela também é uma das vencedoras da Ford Foundation Global Fellowship 2021, programa que celebra a nova geração de líderes globais em justiça social.

Giovanna Querido atua nas áreas de curadoria, gestão cultural e desenvolvimento institucional, com interesse nas relações entre arte, política e trabalho no campo das artes. Recentemente concluiu o mestrado em Arts Administration pela Teachers College, Columbia University, com bolsa integral da Fundação Lemann. Também trabalhou no Studio Museum in Harlem, Creative Time e Instituto Moreira Salles. Atualmente, é Program Coordinator da A&L Berg Foundation (Estados Unidos). Anteriormente, foi Coordenadora Executiva da Presidência da Fundação Bienal de São Paulo, integrando a equipe responsável pela 34ª (2021) e 35ª (2023) Bienais de São Paulo, bem como pelos Pavilhões do Brasil nas Bienais de Arte e de Arquitetura de Veneza.

Presença brasileira em múltiplas linguagens.

A Gentil Carioca apresenta na Art Basel 2026 uma seleção coletiva concebida em torno do eixo “Natureza e Liberdade”, reunindo obras que atravessam questões de território, ancestralidade, ecologia, memória e transformação.

O stand reúne trabalhos de Agrade Camíz, Ana Silva, Arjan Martins, Carlos Jacanamijoy, Denilson Baniwa, Diego Kohli, João Modé, Kelton Campos Fausto, Laura Lima, Marcela Cantuária, Mariana Rocha, Maria Nepomuceno, Miguel Afa, Novíssimo Edgar, OPAVIVARÁ!, Pascale Marthine Tayou, Renata Lucas, Rodrigo Torres, Rose Afefé, Sallisa Rosa, Siwaju, Vinicius Gerheim e Vivian Caccuri.

Por meio de múltiplas linguagens, a seleção articula um diálogo entre a arte contemporânea e perspectivas ecológicas, afro-diaspóricas e indígenas, aproximando investigações sobre corpo, paisagem, espiritualidade e liberdade.

A Gentil Carioca também está presente no setor Unlimited com a obra “Safira” (2025), de Agrade Camíz, uma pintura de grande escala que surge como um relicário em expansão. Lapidada em camadas de azul profundo e vibrante, a obra convoca a pedra preciosa não como ornamento, mas como presença: uma entidade sensível, guardiã do tempo e território de si mesma.

Tradições gráficas indígenas e abstração concreta.

Em uma escolha curatorial radical e estruturante, a exposição de Andrey Guaianá Zignnatto, “Alicerces”, na Janaina Torres Galeria, Barra Funda, São Paulo, SP, obedece o caráter dialógico da poética do artista – que confronta temas como identidade cultural, ancestralidade, construção de cidades e territorialidade. Para isso, a mostra toma o espaço bruto da galeria, enquanto realidade construída, sem artifícios cenográficos. A aposta no tradicional cubo branco opera como elemento deflagrador para a primeira conversa: entre o simbolismo arquitetônico do local, enquanto galeria de arte, e obras carregadas de significado construtivo – de sentidos e de materialidades – como o carrinho de mão, os tijolos amassados, as ferramentas de trabalho dos pedreiros, os chassis de quadros amalgamados à cimento, entre outros.

“Da poética rigorosa do artista paulista Andrey Guaianá Zignnatto, (Jundiaí – 1981), emerge um pensamento construtivo de mão dupla: de um lado, estão as tradições gráficas indígenas; de outro, a abstração concreta, que o artista justapõe em composições inesperadas, oferecendo soluções líricas de forma, espaço, textura, cor e matéria. Da primeira, Zignnatto retoma tanto os padrões geométricos e rítmicos aplicados a corpos e objetos quanto as cores preta e vermelha e materiais como a argila em seu estado natural ou queimada. (…) Da segunda, retoma certos valores caros ao concretismo brasileiro, interessado na forma geométrica, e ao neoconcretismo, que flexibilizou as formas e contestou sua objetividade ao introduzir novos materiais, problemas e temas.”, diz Alexandre Araujo Bispo, curador.

A arte é o meio possível que encontrei para equalizar forças de universos muito distintos, as memórias afetivas de minha vida urbana e de minha experiência como pedreiro participante da construção de cidades, com minhas memórias ancestrais indígenas.

Andrey Guaianá Zignnatto

De origem indígena, descendente de povos Dofurêm Guaianá e Guarani e neto de um pedreiro, do qual foi ajudante dos 10 aos 14 anos de idade, além de ativista social, Zignnatto incorpora sua biografia ao fazer artístico, unindo arte e vida e integrando história, memória e território à matéria e à forma dos trabalhos. Em obras que emergem do universo do labor, como olarias ou construção civil, sacos de cimento, tijolos, juntas de argamassa e fragmentos e sobras de intervenções urbanas tornam-se, em suas mãos, matéria prima para uma ação artística que se propõe a ir além do processo de imitação, recriando mundos, estruturas e sistemas, em uma proposta artística de invenção radical. O que inclui o sistema de arte. Do construtivismo e minimalismo à arte conceitual, Andrey a aventura da experiência de estar no mundo, abrindo fendas e brechas, concretas e imaginárias, para estabelecer novos desdobramentos estéticos que sinalizam também caminhos de reconfiguração identitária e social. Se, em sociedades periféricas, “tudo é sempre construção e também ruínas”, como diz em uma de suas obras, Zignnatto, com extensa atuação internacional, não hesita em intervir, para propor, equalizando em sua arte forças de universos distintos e complexos, como o urbano e o indígena.

A Pintura Italiana Hoje.

28/maio

A Triennale Milano, o Consulado-Geral da Itália e o Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro apresentam, de 04 de junho a 26 de setembro, no Polo Cultural ItaliaNoRio do Rio de Janeiro, a exposição “Pintura italiana hoje. Uma nova cena”, iniciativa promovida pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional.

Projeto concebido pela Triennale Milano, com curadoria de Damiano Gullì – curador de Arte Contemporânea e Public Program da instituição milanesa -, a mostra é viabilizada pelo estreito trabalho conjunto das instituições que coordenaram sua realização na cidade brasileira.

Terceira etapa da turnê internacional, a mostra representa um momento-chave de valorização da pintura italiana contemporânea e de diálogo com o público brasileiro, em linha com a missão do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro. A presença da artista ítalo-brasileira Giulia Mangoni, que já realizou obras site-specific, favorece ainda o intercâmbio direto entre as cenas artísticas e contribui para fortalecer os já excelentes laços culturais entre os dois países.

Na mostra, estão expostas obras de 27 artistas: Beatrice Alici, Bea Bonafini, Roberto de Pinto, Alice Faloretti, Alessandro Fogo, Andrea Fontanari, Giorgia Garzilli, Genuardi/Ruta (dupla composta por Antonella Genuardi e Leonardo Ruta), Emilio Gola, Cecilia Granara, Diego Gualandris, Viola Leddi, Giulia Mangoni, Andrea Martinucci, Pietro Moretti, Ismaele Nones, Jem Perucchini, Edoardo Piermattei, Aronne Pleuteri, Giuliana Rosso, Davide Serpetti, Mario Silva, Sofia Silva, Marta Spagnoli, Maddalena Tesser e Eva Chiara Trevisan.

Ciclo comemorativo da trajetória de Nara Roesler.

27/maio

A Nara Roesler, Jardim Europa, São Paulo, SP, convida para a abertura da exposição “O fascínio e o afeto”, com curadoria de Agnaldo Farias e Catarina Duncan e obras de Abraham Palatnik, Amelia Toledo, Artur Lescher, Brígida Baltar, Julio Le Parc, Tomie Ohtake, Rodolpho Parigi, Vik Muniz e José Cláudio da Silva. 

“O fascínio e o afeto” é a segunda exposição do ciclo comemorativo dos 50 anos da trajetória de Nara Roesler, e Agnaldo Farias escolheu 30 obras de artistas que mostram um aspecto talvez não percebido pelo público: a profunda afetividade que envolve a relação profissional de Nara. “Nara sempre agiu como legítima e necessária interlocutora. Além disso, cuidou bravamente em levar suas descobertas ao maior número de pessoas, no seu dever de compartilhá-las com elas”, escreve o curador, ele próprio amigo de muitos anos de Nara Roesler.

Agnaldo Farias, atuante no universo da arte, tanto na vida institucional como acadêmica, curador de diversas bienais e exposições, autor de numerosas publicações, destaca: “Das experiências cinéticas e lumínicas de Julio Le Parc e Abraham Palatnik ao quebra-cabeça imagético de Vik Muniz, passando pelas estruturas orgânicas de Tomie Ohtake e pelas poéticas íntimas de Brígida Baltar, o que se vê nesta exposição é não apenas um conjunto de grandes artistas, mas também a trama de relações construídas por Nara Roesler ao longo de décadas de convivência, interlocução e acompanhamento contínuo de suas trajetórias”.

Um debate na Galatea Salvador.

Esta é a última semana para conferir a coletiva “Barracas e Fachadas do Nordeste”, em cartaz na unidade da Galatea em Salvador até o próximo sábado, dia 30. Realizada em colaboração com a Nara Roesler, a mostra abriu a temporada de exposições de 2026 da Galatea Salvador e se encerra com uma conversa entre o artista Zé di Cabeça, cujas obras integram a mostra, e Alana Silveira, diretora da Galatea Salvador e co-curadora da exposição. O evento acontece no espaço da galeria, dia 30 de maio, às 15h30.

Durante o encontro, os dois abordarão as articulações, pesquisas e interesses estéticos e políticos presentes na produção do artista, dialogando sobre sua trajetória nas artes, bem como sobre as memórias e materialidades que coleta, pinta e resgata em seu cotidiano a partir da vida e da estética do Subúrbio Ferroviário de Salvador.

A partir de materiais coletados em suas derivas pelo território, Zé di Cabeça reinventa itens como madeiras e os transforma em pinturas figurativas com repertório visual de casa de platibandas e fachadas que outrora pertenciam previamente a um imaginário coletivo de uma das regiões periféricas de Salvador.

A presença de Alana Silveira e a atuação da Galatea Salvador intuem a construção de diálogos que inserem artistas nordestinos no debate contemporâneo, mas que instrumentalizam institucionalmente um modo de colaboração e relação entre o campo das artes visuais e o Nordeste brasileiro.

O momento certo para emergir.

26/maio

Cris Ioschpe abriu as portas de seu atelier, Pinheiros, São Paulo, SP, para a primeira exposição individual de Renata Ramalhosa. A mostra “Sedimentos” reúne 17 pinturas recentes em acrílico sobre tela e papel e se integra no espaço em que a artista encontrou um lugar de encantamento. A exposição “Sedimentos” fica em cartaz até 19 de junho, de segunda a sexta, das 10h às 18h, as visitas devem ser agendadas previamente. 

Sedimentos. 

(…) Há talentos que dormem em silêncio, acumulados em camadas, como a própria terra que atravessa as telas de Renata Ramalhosa. Não por escolha deliberada, mas por necessidade. Algo que já estava lá, esperando o momento certo para emergir. Renata é uma mulher multifacetada. Quem a conhece sabe da sua inteligência, da sua presença, da forma como transita com naturalidade por mundos diferentes. Mas havia ainda uma dimensão que ela guardava, talvez de si mesma. Uma sensibilidade que não cabia nas palavras, nas funções, nos papéis que já exercia com tanta competência. Essa dimensão encontrou, finalmente, a tela. Começou a pintar há pouco tempo. E ainda assim, as obras surpreendem.

Stella Villares

Sobre a artista. 

Renata Ramalhosa nasceu em 1973 em São Tomé e Príncipe e é portuguesa. Construiu uma carreira internacional de mais de 25 anos nas áreas de diplomacia econômica, estratégia, inovação e governança, com atuação no Reino Unido, Portugal, França, Brasil e América Latina. Autodidata nas artes plásticas, sempre cultivou a pintura como expressão pessoal.

Sobre Cris Ioschpe.

Cris Ioschpe nasceu em Porto Alegre em 1967, vive em São Paulo desde 2000. Formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1992. Nos anos 80 estudou pintura e gravura em Porto Alegre com Maria Tomaselli e Anico Herskovits, e em São Paulo, com Paulo Pasta e Claudio Mubarac, respectivamente. Nos anos 1990, vivendo em Buenos Aires e novamente Porto Alegre, trabalhou no Museo del Grabado e no atelier da Fundação Iberê Camargo, com Eduardo Haesbaert e pintura com Regina Ohlweiler. Em seu atelier em São Paulo recebeu orientação de Evandro Carlos Jardim e Ernesto Bonato, participando de vários projetos na área da gravura, como o “Projeto Lambe-lambe”. Frequentou o curso de Paulo Pasta, “pintura: prática e reflexão” no Instituto Tomie Ohtake em 2013 à 2019.

Poetic Living por Jean-Michel Othoniel.

25/maio

Jean-Michel Othoniel apresenta sua primeira exposição institucional, “Poetic Living”, na Casa de Vidro, Morumbi, em São Paulo, SP. Com texto de Bruno Simões, curador do InstituBardi/Casa de Vidro, reúne novas obras do artista francês, criadas especialmente para ocupar a casa em diálogo com a arquitetura e a produção de Lina Bo Bardi, além de aquarelas inspiradas nas flores do jardim da casa.

Por ocasião da abertura, foi lançada a coleção cápsula Zodiac Signs, criada em prata, ouro e pedras preciosas em colaboração com a THEYA. A exposição tem apoio da Simões de Assis e permanecerá em cartaz até 11 de julho.

Sobre o artista.

Jean-Michel Othoniel (Saint-Étienne, França, 1964) é um dos grandes nomes da arte contemporânea internacional, graduado pela École Nationale Supérieure d’Arts, na França, e com formação na Villa Medici, na Itália. Suas esculturas, em diálogo com dimensões arquitetônicas, operam uma geometria monumental. Esculpe peças que se assemelham a joias, tanto pelo aspecto formal, quanto pelo preciosismo dos materiais, que vão de contas a tijolos de vidro de Murano soprado. Suas formas contemplativas navegam pelos reinos paradoxais da monumentalidade e delicadeza, do ornamento e do minimalismo. Com mais de 100 exposições individuais ao redor do mundo, além de centenas de exposições coletivas, Jean-Michel Othoniel foi amplamente premiado, com destaque para a distinção de Cavaleiro da Ordem de Artes e Letras da França. Suas obras integram importantes coleções internacionais como, o Centre Pompidou, a Fondation Cartier pour L’art Contemporain, em Paris; o Musée National d’Art Moderne de Paris; o Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, o Brooklyn Museum, em Nova York; o Museum of Glass, em Tacoma; a Peggy Guggenheim Collection, em Veneza; o Museum of Contemporary Art (MoCA), Miami; e o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York.

Sobre a Casa de Vidro.

Considerada um ícone da arquitetura moderna brasileira, a Casa de Vidro foi o primeiro projeto construído da arquiteta Lina Bo Bardi. Residência do casal Bardi por mais de 40 anos, foi, desde sua inauguração em 1951, ponto de encontro de artistas, arquitetos e intelectuais. Hoje, enquanto sede do Instituto Bardi/Casa de Vidro, continua sendo um espaço ativo e de troca de conhecimento aberto ao público, cumprindo seu papel de perpetuar o pensamento e a obra de Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi.

A trajetória independente de Cícero Dias.

No dia 02 de junho, a Simões de Assis inaugura, em São Paulo, a exposição “Cícero Dias – Pioneiro da Arte Abstrata no Brasil”, com texto crítico do curador e historiador Gerardo Mosquera. Em cartaz até 18 de julho, a mostra apresenta um conjunto de obras que evidencia o papel singular do artista como precursor de uma linguagem abstrata desenvolvida antes da consolidação do concretismo no país.

A exposição reúne trabalhos produzidos entre as décadas de 1940 e início dos anos 1960, período em que Cícero Dias transita da figuração para a abstração. Nas telas dos anos 1940, formas orgânicas começam a dissolver a imagem figurativa; na década seguinte, surgem composições geométricas mais estruturadas. Ao longo desse percurso, sua produção revela-se em constante transformação, articulando elementos líricos e construtivos entre o rigor formal e a memória sensorial de Pernambuco.

Além da mostra

Um dos aspectos centrais da mostra é a coexistência, em uma mesma obra, entre abstração lírica e geometria. Nas pinturas da década de 1940, referências à abstração europeia dialogam com elementos cromáticos e formas que evocam a paisagem pernambucana. Já nas obras dos anos 1950 – núcleo da exposição – as composições exploram movimentos em espiral e diagonal, tensionando a geometria no espaço pictórico. Essa produção desafia leituras estritamente formais. As obras de Cícero Dias são atravessadas por cor, luz e movimento, refletindo uma relação profunda com suas origens culturais. Como pontua Gerardo Mosquera, trata-se de uma obra que convoca “mais um olho-corpo do que um olho-máquina racionalista”. A exposição também destaca a trajetória independente do artista no contexto latino-americano. Ainda no início dos anos 1940, o artista já desenvolvia experiências abstratas – um movimento que, no Brasil, só se consolidou na década seguinte com o Concretismo e o Neoconcretismo – antecipando tendências que marcaram gerações posteriores.

Radicado na Europa a partir do final dos anos 1930, o artista integrou o Groupe Espace e a Galerie Denise René, epicentro da arte construtiva na França, mantendo diálogo com relevantes núcleos artísticos internacionais. Ao longo de sua trajetória, manteve um contato contínuo com o Brasil, para onde viajou com frequência e onde realizou obras de grande escala.

A linguagem rigorosa e investigativa de Mavignier.

A Galeria Dan Contemporânea, Itaim Bibi, São Paulo, Sp, exibe até 15 de agosto panorama da obra de Almir Mavignier. 

A exposição “Almir Mavignier – A Espiral e o Ateliê”, a partir da leitura crítica de Luiz Armando Bagolin, apresenta um percurso em que arte, percepção e existência se encontram. A mostra parte da experiência decisiva do ateliê de pintura criado em 1946 no Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, a partir do encontro entre Almir Mavignier e Nise da Silveira. Ali, a pintura surgia como espaço de acolhimento, expressão e reorganização interior para artistas como Emygdio de Barros, Raphael Domingues, Carlos Pertuis, Fernando Diniz e Isaac Liberato.

Esse núcleo inicial revela uma dimensão essencial da exposição: a arte como necessidade vital. No ateliê, Mavignier atuava sem interferir na forma dos trabalhos, respeitando a força própria de cada imagem. As obras produzidas naquele contexto não nasciam de um programa estético prévio, mas de uma urgência interna, de uma ordem construída pelo próprio gesto de ver, sentir e pintar. Ao lado dessas obras, a exposição acompanha a trajetória de Mavignier rumo à construção de uma linguagem rigorosa e investigativa. Sua passagem pela Europa, especialmente pela Escola de Ulm, aprofundou sua pesquisa sobre cor, retícula, repetição, sistema e percepção. Nas pinturas de pontos, nas permutações, nos cartazes e nas séries posteriores, o artista transforma a imagem em um campo de experimentação visual, onde pequenas variações produzem movimento, vibração e surpresa.

A mostra aproxima, assim, dois caminhos distintos: de um lado, a imagem que nasce de uma experiência subjetiva intensa; de outro, a imagem construída por meio de sistemas racionais, cálculo, método e variação. O que une esses dois universos não é uma semelhança formal simples, mas uma pergunta comum: como uma imagem ganha força própria, para além da vontade direta de seu autor? Entre o ateliê e a espiral, entre a intuição e o sistema, entre o gesto e a regra, a exposição revela a arte como forma de conhecimento e como modo de existência. Como afirmou Mavignier, “a arte é uma solução para existir” – e é justamente essa dimensão vital que atravessa toda a mostra.

Texto elaborado a partir do ensaio crítico de Luiz Armando Bagolin

Até 15 de agosto.