O Carnaval no IBEU

17/nov

Carlos Vergara, um dos expoentes da história da arte brasileira, é o convidado para celebrar a retomada das atividades da Galeria de Arte IBEU, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ. O artista inaugurou a exposição individual “Devassos no Paraíso”, com curadoria de Ulisses Carrilho. Na exposição, o público conhecerá uma série de fotografias produzidas durante a década de 1970, além de pinturas e monotipias recentes relacionadas ao tema do Carnaval do Rio de Janeiro.

A mostra permanecerá em cartaz até 09 de fevereiro de 2024.

Exposição-relâmpago no centenário de Franco Terranova

14/mar

 

Será comemorado com uma grande exposição-relâmpago o centenário do lendário marchand e poeta Franco Terranova (1923-2013), que esteve à frente da Petite Galerie, inovador e fundamental espaço de arte carioca que movimentou o circuito brasileiro entre 1954 a 1988, lançando nomes hoje consagrados, incentivando artistas, e criando salões e prêmios. “Uma Visão da Arte – Centenário de Franco Terranova e o legado da Petite Galerie” ficará em cartaz na Danielian Galeria, na Gávea, Rio de Janeiro, entre 04 a 18 de março.  A curadoria é de Paola Terranova – a filha caçula dos quatro filhos de Franco e Rossella Terranova, a bailarina e coreógrafa com quem ele foi casado de 1962 até sua morte – que está à frente do acervo da Petite Galerie, em um espaço na Lapa. Ela conta que para esta exposição comemorativa foram restaurados mais de 80 trabalhos. “Franco Terranova era antes de tudo amigo dos artistas, um apaixonado pela arte, e pretendemos fazer uma exposição que retrate seu olhar ao mesmo tempo afiado e afetuoso”, diz. Além dos artistas, era constante a presença na Petite Galerie de intelectuais como Ferreira Gullar, Mario Pedrosa, Millôr Fernandes e Rubem Braga.  A exposição comemorativa terá mais de 150 obras, entre desenhos, gravuras, pinturas e esculturas, de mais de 70 artistas que participaram da programação da Petite Galerie. Franco Terranova completaria 100 anos, em 09 de março próximo.

 

No dia 16 de março, às 19h, será realizado um leilão em prol da manutenção do legado de Franco Terranova, apregoado por Walter Rezende, com apoio da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, no site Iarremate –  https://www.iarremate.com.

 

Os artistas com obras na exposição comemorativa na Danielian Galeria são: Abelardo Zaluar (1924-1987), Adriano de Aquino (1946), Alexandre Dacosta (1959), Alfredo Volpi (1896-1988), Amélia Toledo (1926-2017), Angelo de Aquino (1945-2007), Angelo Hodick (1945), Anna Maria Maiolino (1942), Antenor Lago (1950), Antonio Henrique Amaral (1935-2015), Antonio Manuel (1947), Arthur Barrio (1945), Avatar Moraes (1933-2011), Carlos Scliar (1920-2001), Carlos Vergara (1941), Cristina Salgado (1957), Darel (1924-2017), Dileny Campos (1942), Dionísio del Santo (1925-1999), Edival Ramosa (1940- 2015), Eduardo Paolozzi (1924 – 2005), Emeric Marcier (1916-1990), Enéas Valle (1951), Enrico Baj (1924-2003), François Morellet (1926-2016), Frank Stella (1936), Frans Frajcberg  (1921-2017), Franz Weissmann (1911-2005), Gastão Manoel Henrique (1933), Glauco Rodrigues (1929- 2004), Iberê Camargo (1914-1994), Ivan Freitas (1932-2006), Hércules Barsotti (1914-2010), Jac Leirner (1961), José Resende (1945), Larry Rivers (1923-2002), Leda Catunda (1961), Lothar Charoux (1912-1987), Lucio Del Pezzo (1933-2020), Luiz Alphonsus (1948), Luiz Áquila (1943), Luiz Paulo Baravelli (1942), Luiz Pizarro (1958), Marcia Barrozo do Amaral,  Maria do Carmo Secco (1933-2013), Maria Leontina (1917-1984), Mestre Vitalino (1909-1963), Milton Dacosta (1915-1988), Mira Schendel (1919-2018), Mô (Moacyr)  Toledo (1953),  Monica Barki (1956), Myra Landau (1926-2018), Roberto Magalhães (1940), Roberto Moriconi (1932-1993), Roy Lichtenstein (1923-1997), Rubens Gerchman (1942-2008), Sepp Baendereck (1920-1988), Sérgio Camargo (1930-1990), Sérgio Romagnolo (1957), Serpa Coutinho, Tarsila do Amaral (1886-1973), Tino Stefanoni (1937-3017), Tuneu (1948), Victor Vasarely (1905-1997), Waldemar Cordeiro (1925-1973), Waltercio Caldas (1946), Wanda Pimentel (1943-2019), Willys de Castro (1926-1988), Yara Tupynambá (1932) e Yvaral (Jean Pierre Vasarely- 1934-2002).

Na Usina de Arte, em Pernambuco

19/abr

 

 

“Paisagem”, de Regina Silveira, e “Um Campo da Fome”, de Matheus Rocha Pitta, espelham a preocupação de gerações e tendências diferentes, com a situação social do País.

 

 

Parafraseando o escritor italiano Ítalo Calvino, volto sobre meus passos à Usina de Arte, em Pernambuco. O retorno imaginário é a experiência do ver depois, do ver outra coisa, do viver ainda.

 

 

As seguidas mutações desse espaço cultural a céu aberto, funcionando em plena Zona da Mata, reforça a ideia de transformar territórios rurais em centros artísticos, múltiplos, vivos e agregadores de comunidades esquecidas. Com a inauguração das obras “Paisagem”, de Regina Silveira e “Um Campo da Fome”, de Matheus Rocha Pitta as discussões sobre violência e fome se materializam em dois projetos políticos que adensam o acervo de arte da Usina. Ambas espelham a preocupação desses dois artistas, de gerações e tendências diferentes, com a situação social do País.

 

 

O labirinto transparente de Regina foi montado na 34ª Bienal de São Paulo e adquirido pelo empresário Ricardo Pessoa de Queiróz, segundo a artista, depois de uma intermediação das galeristas paulistanas Luciana Brito e Marga Pasquali. As paredes transparentes, “perfuradas” graficamente por tiros, exibem uma cena enigmática. Os alvos apontam para o ponto cego da indagação sobre quem atira e o que é alvejado. A artista se aproxima de formas geométricas que dão essência a esse trabalho provocador, envolto em uma tensão curiosa. Como diz Walter Benjamim, o convencional frui-se sem crítica e o diferente está sujeito a ela. Paisagem pode simbolizar os enfrentamentos vividos no Estado de Pernambuco, notável por suas lutas históricas contra os portugueses, franceses, holandeses ou durante a escravidão nos campos de cana de açúcar. De qualquer ângulo que se olhe esse labirinto, as paredes translúcidas colocam a topografia circundante como pano de fundo. Assim, a instalação envolve e é envolvida pelo entorno. O visitante pode experimentar uma caminhada pelos cem metros quadrados, cujas paredes de 2,50 m  de altura exibem, a um pouco mais de um metro, imagens impressas de tiros.

 

 

Vista do alto, “Paisagem” torna-se um mapa com traçado total, um microcosmo constituído de fragmentos perfeitos. A experiência espacial coletiva ou individual é primordial para constituir um labirinto. Conceitualmente os trabalhos de Regina são recorrentes. Paisagem reforça a série de labirintos gráficos, realizados na década 1970, em torno do mesmo eixo, com marcas gráficas de disparos. Também a série “Crash” está no alinhavo deste pensamento no qual louças de porcelanas são quebradas.

 

 

A artista realiza a instalação com liberdade formal e situação espacial fluídas. Na sociedade contemporânea tudo acontece rápido e simultaneamente tornando só percebido o que sobressai. Sensação é o que arranca a percepção do seu ritmo costumeiro e Regina aplica isso muito bem, seja em suas obras intimistas, seja nos trabalhos públicos superdimensionados. O labirinto translúcido, formalmente limpo e angular da artista, dialoga em contraponto ao labirinto orgânico e aberto, “Eremitério Tropical” de Márcio Almeida construído com tijolos e lentamente mimetizado pela paisagem. A instalação tangencia a morfologia “radicante”, que se refere às plantas que produzem raízes no processo de deslocamento. A ideia se encaixa no conceito do paisagista Gilles Clément que propõe criar “jardins em movimento”, utilizando exatamente essa característica móvel, ou desterritorializante, do mato e das plantas trepantes.

 

 

Com outras gramáticas, mas igualmente político, Matheus Rocha Pitta inaugura hoje sua obra maior, Campo da fome, uma imensa intervenção na paisagem. A instalação abrange o repertório de manifestações visuais que envolve a ecologia, focalizando a destruição do meio ambiente e a fome. O artista ocupa uma área de 700 metros quadrados com uma horta focada em vegetais típicos do Nordeste como o caju, pinha, abacaxi, milho, mandioca confeccionados com barro. A instalação ainda agrega azulejos e pedaços de concretos que ele chama de materiais ordinários. Como explica o artista, “devido à sua recém-implantação a obra pode dar a impressão de incompletude e instabilidade por causa do terreno que ainda não está sedimentado”. Sua arte transgressora é tingida pela cor ocre da terra e pelo discurso da fome. A instalação está dividida em espaços rigorosamente iguais com repetição serialista e que se apoia no manifesto A estética da fome, de Glauber Rocha, a cartilha do Cinema Novo, na qual o diretor defende uma linguagem emancipadora a partir da falta de comida e avisa. “Enquanto não erguer as armas, o colonizado é um escravo”. Rocha Pitta também traz para a discussão a descrição de um campo da fome localizado ao leste da Acrópole, na Grécia Antiga. Segundo a lenda ninguém poderia adentrar naquele terreno onde a fome estava presa, para que ela não chegasse a outros territórios.  “Minha ideia foi desenvolver um trabalho como contenção da fome, um lugar quase sagrado, para deixar que a falta de comida permanecesse ali congelada”. A horta é composta por 30 canteiros onde estão dispostos legumes, frutas ou raízes da região. “Ao todo, a instalação reúne cerca de nove mil peças produzidas por Domingos, artesão de Tracunhaém, cidade conhecida pelo trabalho em cerâmica”. Cobertos pela cor intensa do barro os alimentos são melhor percebidos a partir de uma aproximação visual.

 

 

As transformações da Usina de Arte acompanham a tomada de consciência sócio artístico ambiental e são pilotadas por seus proprietários e atores principais, a arquiteta Bruna e o empresário Ricardo Pessoa de Queiroz, bisneto do fundador da Usina Santa Terezinha que era sobrinho do presidente Epitácio Pessoa, que governou o Brasil de 1919 a 1922. A usina foi a maior produtora de álcool e açúcar do Brasil nos anos 1950. Ricardo é o responsável pela transformação desse patrimônio desativado. Ele acredita que o projeto só tem sentido se impulsionar a transformação da comunidade vizinha, composta em parte por ex-funcionários da usina. “Esse é um dos objetivos com os quais trabalhamos na difusão da arte”.

 

 

Colecionar também pode ser fruto da necessidade de estar perto das coisas que nos dão prazer. Todo colecionador é um intermediário que se transforma em autor no processo de procurar, armazenar, classificar e zelar pelo objeto artístico. Bruna e Ricardo trabalham neste sentido desde o início da Usina de Arte quando optaram por criar um acervo a céu aberto. Ela enfatiza que eles não têm a intenção de criar pavilhões, como em Inhotim, e Ricardo reforça a ideia de que obras de arte podem estar em diálogo direto com a natureza.

 

 

O acervo de arte conta com mais 40 obras que foram curadas, inicialmente, pelo artista paraibano José Rufino, com a participação de Ricardo e Bruna. Há três meses o crítico francês Marc Pottier assumiu o posto e uma de suas propostas foi a de colocar o neon Chiaroscuro (Claro Escuro) do artista chileno Alfredo Jaar na fachada do deteriorado prédio onde funcionou a usina. O trabalho de 18 metros é composto pela frase O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros, do filósofo Antonio Gramsci escrita na década de 1930, em plena ascensão do fascismo na Itália e que dialoga com o tumultuado momento que o Brasil vive. O curador ainda cita outro projeto a ser implementado, os bancos para descanso criados por Claudia Jaguaribe que serão espalhados por todo o espaço.

 

 

O acervo de arte reúne artistas como Carlos Vergara, Iole de Freitas, Frida Baranek, Artur Lescher, Júlio Villani, Geórgia Kyriakakis, Saint Clair Cemin, José Spaniol, Juliana Notari, Denise Milan, José Rufino, Marcio Almeida, Flávio Cerqueira, Bené Fonteles, Hugo França, Paulo Bruscky, Marcelo Silveira, Liliane Dardot e Vanderley Lopes. Com exceção da obra de Rufino, instalada dentro do antigo hangar, as demais estão espalhadas pelo imenso jardim que circunda os três lagos artificiais, projetado pelo paisagista Eduardo Gomes Gonçalves. Em meio ao reflorestamento com cerca de 10 mil plantas de aproximadamente 600 espécies, o Jardim Botânico plantado em 33 hectares constitui-se em mola propulsora de outras ações para gerar desenvolvimento e renda à comunidade de seis mil pessoas que vivem próximas ao projeto.

 

 

Um dos destaques do complexo cultural é o Festival Arte na Usina, nascido em 2015, que reúne artistas e intelectuais em torno de shows, residências, oficinas literárias e de arte, abertas aos moradores da comunidade. Também tem relevância a escola de música, equipada com diversos instrumentos, oferecendo aulas diárias aos moradores. “Conseguimos uma parceria com o Conservatório Pernambucano de Música, nossos alunos vão até o Recife e os professores vêm à Usina alternadamente”, ressalta Bruna. Ainda chama a atenção a biblioteca climatizada com mais de cinco mil exemplares catalogados, além de uma FabLab com terminais de computadores conectados à internet, impressoras em 3D e cortadora a laser para projetos da comunidade, além de parceria com as unidades escolares. Desde a sua criação a Usina de Arte transcende as experiências artísticas e tenta exercer a alteridade na transformação socio/cultural da comunidade.

 

 

 

Ursula Tautz no Paço Imperial

01/set

 

No dia 09 de setembro, o Paço Imperial, Centro, Rio de Janeiro, RJ, inaugura a exposição “O Som do Tempo ou tudo que se dá a ouvir”, com uma grande instalação inédita da artista carioca Ursula Tautz, com curadoria de Ivair Reinaldim. Resultado de cinco anos de pesquisa, a instalação aborda o tempo e a memória. Composta por nove toneladas de terra negra, em formato de pirâmide, que soterram uma cadeira com braços e alto espaldar, além de areia dourada e badalos de sinos, a instalação de dois metros de altura é envolta por três filmes, que são projetados pelo ambiente. Por meio de uma obra imersiva, integrada ao espaço e ao entorno, cada visitante terá uma experiência única na mostra, que irá se transformar ao longo do tempo, com o germinar da terra que integra a instalação. Um desdobramento do trabalho será apresentado na ArtRio, de 08 a 12 de setembro.

 

 

“A exposição nos trará a oportunidade de presenciar não apenas um trabalho instalativo de arte contemporânea, mas a apreensão de uma experiência singular de montagem de imagens, sons e tempos, num jogo entre memórias pessoais e coletivas, realidade e ficção. Para além do visual ou do sonoro, a mostra é uma experiência para o corpo. Um convite para a vivência não virtualizada do mundo”, afirma o curador Ivair Reinaldim.

 

A exposição tem uma forte carga histórica e foi pensada especialmente para o Paço Imperial, palco de importantes acontecimentos da história do Brasil, como o Dia do Fico, a Abolição da Escravidão e a Proclamação da Independência do Brasil. “A obra tem relação com o nosso País. O trono soterrado pela terra faz alusão à colonização. E, após a pandemia da Covid-19, não foi mais possível desvincular o monte de terra das cenas que vimos todos os dias em consequência das inúmeras mortes causadas pelo vírus. Mas a terra é forte, preta e fértil, enquanto a areia dourada é uma referência às nossas riquezas, revelando a dicotomia do nosso país”, conta a artista Ursula Tautz.

 

Sobre a montanha de terra, estarão diversos badalos de sinos quebrados, “badalos mudos, parados, que trazem memórias de um tempo congelado, uma tentativa de unir passado e presente”, diz a artista. No entanto, é possível ouvir, de dentro do Paço Imperial, o badalar dos sinos das diversas igrejas ao seu redor, que marcam as horas. O som destes sinos estará sincronizado com os filmes, comandando sua projeção. Quando as badaladas que marcam a meia hora tocarem, os filmes serão paralisados. Quando as badaladas das horas inteiras tocarem, os filmes apagarão e retornarão após o término das badaladas, repetindo o processo ao longo de todo o dia.

 

 

“São vários tempos conversando ao mesmo tempo: o tempo do agora, marcado pelas badaladas dos sinos, o tempo passado dos filmes, o tempo histórico do Paço Imperial e das igrejas. São diversas maneiras de ver e sentir e cada um terá uma experiência única, particular”, diz a artista, cuja intenção foi criar um ambiente imersivo para os visitantes. “Estamos tão saturados de imagens, que a arte tem que te capturar, te transportar para outro lugar”, ressalta.

 

 

Os filmes têm a exata duração do tempo que o Paço Imperial fica aberto diariamente, seis horas. Desta forma, cada visitante terá uma experiência distinta. “Ou ele verá um trecho diferente do filme, ou não verá imagem nenhuma, ficará apenas diante do grande soterramento com seus cheiros e texturas”, diz a artista. Além disso, a instalação irá se transformar durante o período da exposição. Da terra negra, que é fértil, com certeza germinarão plantas.

 

 

“Trata-se de uma instalação impossível de ser narrada e/ou fotografada na sua totalidade, uma vez que nem relatos nem registros são capazes de dar conta das sequências e simultaneidades promovidas pela vivência da matéria, sons e visualidades no ambiente expositivo – fragmentos que, em conjunto, extrapolam aquilo que separadamente evocam”, diz o curador.

 

 

Filmes sobre a Memória

 

 

Projetados na parede, ao redor da instalação, estarão três vídeos produzidos pela artista, que falam sobre memória, sobre diferentes memórias. No primeiro, estão imagens da viagem da artista para a Polônia, onde foi à cidade da avó materna, Uldersdorf an der Biele, aldeia alemã localizada na baixa Silésia, que hoje não existe mais, pois o território foi devolvido à Polônia após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Neste filme estão diversos tipos de memória, a que ela ouviu e testemunhou da avó alemã, a memória do local e dos moradores, além de imagens da viagem que a mãe dela fez 20 anos antes para o mesmo lugar.

 

No segundo filme, também na Polônia, está a imagem de um estábulo onde passarinhos fizeram seus ninhos, e que se relaciona arquitetonicamente com o Terreirinho (espaço no Paço Imperial onde a exposição será apresentada). “São imagens de um transe, os pássaros voando, os sinos tocando, pois quando visitei a cidade era feriado de Corpus Christi e os sinos estavam por todos os lados, nos conventos, nas igrejas, nas procissões e nas ruas”, conta Ursula Tautz.

 

 

O terceiro tem como base o filme “No Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos, com imagens da cidade de Manaus no início do século XX. Ele foi o primeiro cinegrafista brasileiro e fez o filme para os seringueiros, com o objetivo de livrá-los de acusações de extermínio étnico. Mesmo filmando uma realidade “maquiada”, é uma documentação fundamental, que aos olhos de hoje causa indignação. Para a exposição, este filme foi mesclado a vídeos enviados por 18 artistas, com imagens oníricas, a fim de se construir uma memória coletiva. “É como se fosse um sonho, com diversas imagens que não necessariamente têm relação umas com as outras, mas que me ajudam a construir uma memória de minha avó manauara, sobre a qual eu nada sei”, afirma a artista. Os artistas que participam do filme são: Analu Cunha, Ariana Schrank, Bel Lobo, Bianca Madruga, Carlos Vergara, Claudia Lundgren, Denise Adams, Jozias Benedicto, Juliane Peixoto, Laura Gorski, Letícia Tandeta, Marcos Bonisson, Patrícia Gouvea, Pedro Gandra, Rafael Adorján, Raphael Couto, Renata Solci Cruz e Vitor Mizael.

 

 

Cinco anos depesquisa

 

 

Para realizar o projeto, a artista fez uma longa pesquisa, que incluiu a viagem para a Polônia, além de estudos sobre os sinos, sua história, visitação às artesanais fábricas e entrevistas, como, por exemplo, com Manoel dos Sinos, o último sineiro do Rio de Janeiro. “Os sinos são símbolos universais, objetos solenes, marcam as horas, os ofícios e o cotidiano, ele são sinais sonoros de nossa humanidade comum. Os sinos nos acompanham há tempos, eles fazem parte da história humana e de nossos rituais desde o Egito Antigo; na Idade Média, a Igreja o fixou em suas torres e em nosso cotidiano, os sinos eram marca de poder, controle territorial e celestial, eram vistos como a manifestação concreta da voz de Deus”, escreveu a historiadora Luciana Muniz Sousa no texto que acompanha a exposição.

 

 

O Paço Imperial está adaptado às regras sanitárias, com medição de temperatura, uso obrigatório de máscara e monitoramento do fluxo de visitantes em todos os ambientes para garantir o distanciamento social recomendado de dois metros.

 

 

ArtRio

 

 

Como desdobramento da exposição, a artista apresentará na ArtRio deste ano, de 08 a 12 de setembro, um projeto solo no stand da galeria FASAM, onde apresentará o vídeo “Tudo que se dá a ouvir” e trabalhos que sintetizam o conceito da exposição no Paço Imperial.

 

 

O vídeo traz o registro de uma performance inédita na qual, vestindo calça e camisa de algodão cru e luvas brancas – em referencia ao filme-propaganda “No Paíz das Amazonas”, de Silvino Santos – a artista lançará doze badalos de sinos antigos e quebrados (que posteriormente serão expostos no Paço Imperial) contra as paredes do espaço, fazendo toda a caixa metálica ressoar, libertando o som do tempo.

 

 

Logo à frente do vídeo estará a memória da performance: a roupa utilizada, um badalo e as luvas. Estarão expostas, ainda, fotografias do filme “No Paíz das Amazonas” e dois trabalhos compostos por redomas e badalos em diferentes dimensões, areia, cordas e arames dourados, que resumem o conceito desenvolvido.

 

 

Sobre a artista

 

Por proposições multimídia, Ursula Tautz desenvolve experiências artísticas que buscam perverter o tempo cronológico através de sua contínua transformação, gerando novas memórias e narrativas. Identidades culturais e históricas são muitas vezes evocadas através do tempo percebido pelo movimento pendular, seja um som, um balanço ou pelos badalos. Pesquisando as relações que envolvem o habitar, o pertencer, a artista utiliza a (re)significação do espaço para o desenvolvimento de suas questões. As ocupações tendem ao uso da instalação. Destes trabalhos de grandes dimensões derivam estudos, desenhos, fotografias, objetos, vídeos. Nos últimos anos o som vem se apresentando como uma nova forma de experimentação. A artista foi finalista do Prêmio Mercosul das Artes Visuais Fundação Nacional de Arte – FUNARTE e participou da Siart Bienal 2018 – Bienal Internacional de Arte da Bolívia em La Paz, e da residência artística Echangeur22, que resultou na exposição “Mobilité, Immobilité”, La Chartreusse, Villeneuve-lez-Avignon, França. Além de ter sido selecionada para a Bienal de Bahia Blanca. Suas obras integram o acervo do Museu de Arte do Rio (MAR).

 

 

Até 21 de Novembro.

 

 

Sempre é de novo a primeira vez

29/jan

 

Foi prorrogada até 26 de fevereiro a exposição “Sempre é de novo a primeira vez”, na Danielian Galeria, Gávea, Rio de Janeiro, RJ. O título da mostra é retirado de um verso da música “Anna Bella” (2006), de Antonio Cícero e Marina Lima. Marcus Lontra Costa, diretor artístico do espaço de arte no bairro da Gávea, e curador da exposição, considera Anna Bella Geiger “a mais importante artista brasileira viva”.

Junto com o curador-adjunto Rafael Peixoto, Lontra selecionou trabalhos de onze artistas, “de diferentes linguagens, campos poéticos, gerações e regiões do país”: Anna Bella Geiger, Carlos Vergara, Nelly Gutmacher e Manfredo de Souzanetto – “que já fazem parte da história da arte brasileira”, salientam – Marçal Athayde, Josafá Neves, Geraldo Marcolini, Christus Nóbrega e Fernando Lindote, representados pela galeria, e de Jorge Guinle e Glauco Rodrigues, de quem a Danelian é responsável por seus legados artísticos. Os curadores destacam que a exposição estabelece “diálogos e conversas curatoriais entre muitas áreas da produção artística atual brasileira”.

A Danielian Galeria segue todo o protocolo de proteção contra o covid.

Na Casa Roberto Marinho

27/nov

 

 
A Casa Roberto Marinho, Cosme Velho, Rio de Janeiro, RJ, reabriu seus espaços com a exposição “Livros e Arte”, alicerçada em grandes paixões de seu patrono: livros e arte.
É incontestável a excepcional qualidade dos livros de artistas, caixas mágicas das quais brotam verdadeiras exposições, editadas pela UQ!Editions, de Leonel Kaz e Lucia Bertazzo. 
 
“Livros e Arte” não se restringe às edições pois Leonel Kaz recolheu, também, de modo a aprofundar o conhecimento, obras correlatas de cada um dos nove criadores visuais. Essas publicações se inserem numa louvável tradição de edições que aproximam arte e imagem. Obras de Antonio Dias, Frans Krajcberg, Paulo Climachauska, Roberto Magalhães, Wanda Pimentel, Carlos Vergara, Luiz Áquila, Leo Battistelli, Luiz Zerbini, Ferreira Gullar e Pedro Cabrita Reis. 
 
Até 31 de janeiro de 2021.

Arte e som nas coleções MAM Rio

13/dez

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, RJ, apresenta de 1º de dezembro de 2019 a 1º de março de 2020 a exposição “Canção Enigmática: relações entre arte e som nas coleções MAM Rio”. Com curadoria de Chico Dub, a exposição se insere no programa Curador Convidado, criado em 2018 pelo Museu, e se relaciona com a 9ª edição do Festival Novas Frequências.

 

A exposição reúne obras de Hélio Oiticica, Carlos Vergara, Waltercio Caldas, Daniela Dalcorso, Claudio Tozzi, Carlos Scliar, José Damasceno, Chelpa Ferro, Cildo Meireles, Cinthia Marcelle, Manata Laudares, MarciusGalan, Paulo Nenflidio, Paulo Vivacqua, entre outros. São pinturas, fotografias, desenhos, vídeo, objetos sonoros, instrumentos musicais, partituras gráficas, esculturas, instalações e discos de artista presentes na coleção do Museu. Estão programadas ações performáticas para janeiro de 2020.

 

O título da exposição é retirado do nome da obra de José Damasceno (Rio de Janeiro, 1968), feita em 1997. Ao lado de cada obra haverá um QR Code, que permitirá ao público acessar pelo seu celular mais informações sobre o artista no site do MAM Rio.

 

“Canção Enigmática” irá ocupar dois espaços no terceiro andar do Museu, destinado a mostras do acervo, e tem uma complementação com mais duas obras no Foyer dos artistas suíços Martina Lussie e Luigi Archetti, pertencentes aos próprios artistas.

 

A exposição procura inserir o MAM Rio na chamada “virada sônica”(“sonicturn”), termo cunhado para designar a mudança gradual de foco do visual para o auditivo, que vem ocorrendo nas práticas artísticas e nos estudos acadêmicos nos últimos anos, graças a implementos tecnológicos. “E também pela busca em estabelecer novos parâmetros artísticos, o som passou a ser reconhecido e exibido como uma forma de arte em si mesmo”, explica o curador Chico Dub. “Ainda que não seja uma mostra exclusiva de arte sonora – prática surgida na obscura zona entre música composta, instalação, performance e arte conceitual, e que tem o áudio como componente principal ou que silenciosamente reflete sobre o som -, abraça todo o acervo dessa disciplina artística no museu, reunindo trabalhos de Chelpa Ferro, Cildo Meireles, Cinthia Marcelle, Manata Laudares, Marcius Galan, Paulo Nenflidio, Paulo Vivacqua e Siri”.

 

Chico Dub diz que “as obras reunidas mostram basicamente cenas musicais tiradas do cotidiano, como nas pinturas modernistas de Di Cavalcanti e Djanira, manifestações folclóricas nas quais a música possui caráter essencial, como nas fotografias de Bárbara Wagner inspiradas no maracatu, rituais religiosos afro-brasileiros tal qual em Pierre Verger e no candomblé, e associações diretas com gêneros musicais, como nos retratos de Daniela Dacorso em bailes funk, na influência do samba nos “Parangolés” de Hélio Oiticica e nas fotografias de Carlos Vergara no desfile do Cacique de Ramos, ou em ícones do porte de Tom Jobim (Cabelo e Márcia X) e Beethoven (Waltercio Caldas). Trabalhos realizados durante a ditadura militar no Brasil, como os de Cláudio Tozzi e Waltercio Caldas, gritam contra a situação opressiva que se instalava naquele momento no país e, infelizmente, soam mais atuais do que nunca”. Ele complementa dizendo que “há ainda um destaque especial para as chamadas partituras gráficas, trabalhos com origem no contexto da música e apreciados por artistas visuais em função de sua característica libertária que vai além da notação musical convencional. Paulo Garcez, Carlos Scliar, Chiara Banfi e, de certa forma, José Damasceno possuem trabalhos nesse contexto”.

 

Está programado para os domingos de janeiro de 2020 uma série de ações performáticas que buscam se relacionar com procedimentos da música experimental, da arte sonora e de outras linguagens, como as artes visuais, a dança e performance. Essa programação complementar reafirma a ideia da ocupação do espaço público como ato estético e político, questão presente nos encontros realizados por Frederico Morais no início dos anos 1970, quando a área externa do MAM e o Aterro do Flamengo foram incorporados como extensão natural do Museu.

 

“É notório pensar hoje em dia que 4’33” não é simplesmente uma ‘peça silenciosa’, mas, sim, uma obra cujo objetivo é a escuta do mundo. Em outras palavras, o trabalho mais famoso de John Cage, ao emoldurar sons ambientes e não intencionais, nos revela através de uma escuta profunda que a música está em todos os lugares; que todos os sons são música”, observa Chico Dub.

 

“Partindo de Cage, os sons que ecoam pelo MAM são música. Uma canção enigmática formada por todos os sons ao redor combinados, dentre outros, com batidas do coração, berimbaus high tech, gadgets eletrônicos, sons artificiais, bandas fora de ritmo, orquestras tocando músicas diferentes ao mesmo tempo, o som da chuva e uma ordem em italiano para se fazer um café”.

 

Até 1º de março de 2020.

 

Exibição prorrogada

26/set

Roberto Magalhães e Carlos Vergara, dois expoentes da arte contemporânea brasileira, amigos há décadas – desde os tempos da “Nova Figuração” com os companheiros de ofício Antonio Dias e Rubens Gerchman – apresentam uma exposição em conjunto. A mostra, em cartaz na galeria Mul.ti.plo Espaço Arte, Leblon, Rio de Janeiro, RJ, foi prorrogada e permanecerá até 11 de outubro. Ao todo, são cerca de 20 trabalhos, ligados sob o fio do desenho e da obra gráfica. Os dois artistas criaram em conjunto novos trabalhos. A ideia é fazer com que a obra de dois artistas que seguiram carreiras paralelas com traços autorais muito fortes e absolutamente distintos possa se tocar pela primeira vez, em um horizonte improvável. Para criar essas obras, o espaço da galeria se transformou em ateliê e os artistas tiveram telas à sua disposição. Em cada uma, foram traçadas uma linha divisória: um desenha e pinta a parte de cima e outro a de baixo. Depois, eles invertem a ordem. “Não se trata de uma competição, mas de um desafio criado por eles mesmos como um gesto de respeito e admiração um pelo outro”, diz Maneco Müller, sócio da galeria.

 

Pioneiros da nova figuração brasileira, participantes da icônica exposição “Opinião 65”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1965, Roberto Magalhães e Carlos Vergara se conheceram ainda na adolescência, tiveram protagonismo cedo, desenvolveram longa carreira nas artes visuais e sempre foram muito próximos. Ao mesmo tempo, suas criações são definitivamente distintas. Até no temperamento são diferentes: Vergara é expansivo, enfático, agitado, veemente, esportista; Roberto é silencioso, introvertido, calado, contido e observador de tudo. Ainda assim, há um silêncio misterioso que os une em torno da transcendência ou “na busca do inefável”, como diz Vergara, que, em sua trajetória de “pintor viajante”, sempre traz como pretexto as trilhas misteriosas dessa busca. Magalhães, por rumo muito diverso, sempre esteve mergulhado nas questões místicas e suas obram falam de um mundo etéreo. “Minha arte é a busca e a expressão da subjetividade”, explica ele.

 

Na exposição, Vergara traz obras de duas séries: “Coração”, de técnica mista sobre papel, entre impressão, aquarela e pigmento, e outra chamada “Bodoquena”, com desenhos de uma viagem do artista à serra de mesmo nome, no Mato Grosso do Sul. São trabalhos recentes, de média proporção. Entre os trabalhos de Roberto, a maioria é inédita e outros são praticamente desconhecidos. São obras sobre papel, em técnica mista (bico de pena e aquarela). “Meus trabalhos têm uma conotação mística, esotérica, tema que eu persigo desde a década de 70. Sou um estudioso do assunto”, diz o recluso artista, que na semana que antecede à exposição, retorna de uma região desértica e isolada no noroeste da Argentina para onde foi meditar e desenhar.

 

“O primeiro nome que pensei para essa exposição foi Paralelos, depois tive uma ideia: por que não ‘Roberto Carlos’? Roberto Magalhães e Carlos Vergara!”, diverte-se este, feliz com a oportunidade de trabalhar ao lado do velho amigo. “Eu me dou com o Roberto desde 1959. Frequentava a casa dele, na Rua Farani, que era uma espécie de república de artistas. Fizemos muita coisa juntos, exposições, mas temos caminhos, interesses, ideias e métodos de trabalho muito diferentes. Isso, entretanto nunca nos afastou. Sempre tivemos ótimo convívio”, disse Vergara. “Apesar de certa ansiedade para saber como ficarão os nossos improvisos, vai ser inusitado… E divertido. É um grande prazer dividir essa exposição com o Vergara”, diz Roberto.

 

Mas a ideia de reunir a dupla na exposição vai muito além de uma crônica entre dois personagens das artes plásticas brasileiras. Segundo Maneco, essa é uma mostra a ser contemplada com calma e concentração. “É necessário repousar o olhar em cada trabalho para que a exposição possa ser absorvida com toda a sua intensidade”, finaliza ele.

 

Vergara no MAM Rio

10/set

O celebrado artista ocupará o Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna, MAM Rio, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, RJ, com quatro conjuntos de obras que percorrem seu trabalho iniciado em 2003, em que busca os sinais do sagrado. Entre trabalhos inéditos e criados especialmente para a exposição estão pinturas de grande formato – as maiores já realizadas pelo artista -a partir de monotipias feitas no Cais do Valongo, na zona portuária carioca, onde chegaram os escravizados vindos da África, e nos trilhos do bonde em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde fica seu ateliê. E ainda as resultantes de sua recente viagem no sul da França, pelo caminho do sagrado feminino, que teria sido trilhado pelas Três Marias – Maria Madalena, Maria Jacobé (ou Jacobina, mãe de Tiago), e Maria Salomé – e Santa Sara, a escrava egípcia que se tornou padroeira dos ciganos. A exposição entrará em cartaz a partir de 14 de setembro – e até 12 de janeiro de 2020 – em seu Espaço Monumental. A exposição “Carlos Vergara – Prospectiva”, percorre a produção do celebrado artista, desde 2003 até obras recentes e inéditas. Outros destaques da exposição são as novas obras da série “Sudário”, com monotipias colhidas em sua viagem ao sul da França em maio último. A curadoria da exposição é de Carlos Vergara.

 

Um dos grandes nomes da arte brasileira, Carlos Vergara nasceu em 1941 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, e é radicado no Rio de Janeiro desde a adolescência. Sua última individual no MAM Rio foi “A Dimensão Gráfica”, há dez anos. Carlos Vergara explica o título da exposição: “Minha ideia é olhar pra frente, viver o presente e propor através do trabalho, e do encontro com o público, novas possibilidades e perspectivas”. São quatro os grandes conjuntos de obras na exposição: “Sudários”, “Natureza Inventada”, “Prospectiva” e “Empilhamento”. A mostra será acompanhada de uma série de ações, tanto encontros e conversas, como expandidas para fora do Museu, com intervenções dos artistas Lynn Court e Xadalu.

 

Os “Sudários” são monotipias realizadas desde 2003, quando o artista iniciou seu trabalho sobre os sinais do sagrado nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul e até o momento. Ao longo deste período, este trabalho levou o artista a diversos locais, como Istambul e Capadócia, na Turquia; Pompeia, Itália; Serra da Bodoquena em Mato Grosso do Sul; Caminho de Santiago de Compostela, Espanha; Cazaquistão, na Eurásia; e Rio Douro, Portugal. Os 200 lenços da série “Sudário” estarão suspensos, dispostos em um percurso labiríntico para o público. Carlos Vergara destaca que seu trabalho “não é um projeto cristão ou antropológico”. “Esses lugares todos têm sinais do inefável, do sagrado. Não estou atrás de religião. São caminhos do sagrado, sinais do sagrado”, afirma o artista.

 

No núcleo “Natureza Inventada”, estarão dez esculturas em aço cortén e duas pinturas com 3m x 6m e 2m x 6m, em torno de uma grande mesa escultórica, também em aço, com 12 cadeiras criadas pelo artista e designer Zanini de Zanine. Esse será um espaço de encontros a ser ativado em conjunto com o público, a partir de ações e conversas abertas.

 

A série que dá nome à exposição, “Prospectiva”, é composta por três pinturas recentes e inéditas de grande formato, as maiores já feitas por Vergara – 5,40m x 5,40m cada – a partir de monotipias feitas no Cais do Valongo, e nos trilhos de Santa Teresa, onde tem seu ateliê. O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, na antiga área portuária do Rio de Janeiro, é reconhecido pela Unesco por sua importância histórica, por ser o local onde cerca de 900 mil africanos escravizados chegaram à América do Sul.

 

Carlos Vergara fala da importância do bonde, dos caminhos, das encruzilhadas: “Trilhos indicam sempre uma dupla ação: trazer ou levar. No Rio Grande do Sul visitei Restinga Seca, onde nasceu Iberê Camargo, cujo pai era motorneiro de trem. Fiz então uma monotipia no trilho que o levou ao mundo. A imagem dos trilhos sempre é eloquente pra mim. Em 1950 visitei a Bienal de São Paulo de bonde. Ia muito de bonde do Jóquei para o Bar 20, no Rio de Janeiro. Hoje com os bondes infelizmente circulando apenas dos arcos da Lapa até os Prazeres, Santa Teresa tem esses desenhos dos trilhos que são incríveis e sempre me vêm à cabeça. Deste que é o bonde elétrico mais antigo do Brasil. Hora de colocar esses sudários no mundo”. No último bloco estará uma releitura de sua icônica obra “Empilhamento”, uma grande coluna formada por bonecos de papel kraft e papel corrugado empilhados, que chegará ao terceiro andar do Museu, como uma torre de babel.

 

Mostra paralela

 

Paralelamente à exposição “Prospectiva”, será exibido no terceiro andar do Museu, dentro da mostra “Alucinações à beira-mar”, um conjunto de obras de Carlos Vergara pertencente às Coleções do MAM, com curadoria de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes.

 

Ações na rua

 

Carlos Vergara expandiu a exposição, desde sua produção, para além do MAM. Convidou dois artistas, a carioca Lynn Court, que está produzindo 200 cartazes sobre a exposição para o mobiliário urbano, a partir de intervenções sobre a exposição “Sagrado Coração”, que Carlos Vergara fez no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 2008. Outro artista convidado é Xadalu, de origem guarani, que chegou a viver nas ruas de Porto Alegre, até que ganhou uma bolsa de estudos gráficos e começou a desenvolver um trabalho com forte representação e manifestação das causas indígenas e já ganha reconhecimento e presença em exposições internacionais. Ele fará uma residência artística no Rio, onde fará intervenções em Santa Teresa.

 

Roteiro sagrado no sul da França

 

Em maio, Carlos Vergara percorreu o sul da França, seguindo um caminho que teria sido trilhado pelos primeiros cristãos em fuga dos romanos: as Três Marias – Maria Madalena, Maria Salomé (mãe dos apóstolos João e Tiago) e Maria Jacobina (ou Jacobé), irmã de Maria de Nazaré, além de Santa Sara, ex-escrava egípcia de São José de Arimatéia que se tornou padroeira dos ciganos. O ponto de partida foi o porto de Saintes-Maries-de-la-Mer, na costa mediterrânea, por onde teriam chegado os cristãos. De lá, Vergara percorreu cerca de 250 quilômetros para leste, até Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, onde após uma subida de mais de três horas a pé chegou à gruta que acredita-se contém as relíquias de Maria Madalena. Em Saintes-Maries-de-la-Mer, no dia 24 de maio, sem ter planejado, o artista participou da grande festa realizada em honra à Santa Sara, uma peregrinação mundial dos povos ciganos. Por todo o trajeto, passando por santuários e pontos de reverência para várias crenças, Vergara fez diversas monotipias, no chão de terra, nas pedras, ou ainda nos monumentos, recolhendo os sinais do sagrado. Dentre os vários locais por onde passou nessa travessia estava o Château La Coste, a quinze quilômetros de Aix-en-Provence, o grande museu a céu aberto composto por pavilhões projetados pelos arquitetos Tadao Ando, Frank O. Gehry, Jean Nouvel e Renzo Piano. Entre as obras dos grandes nomes da arte, Vergara esteve no conjunto de esculturas “Psicopompos”, de Tunga, seu amigo. Em Camargue, Vergara fez monotipia na fachada da capela onde está o símbolo dos navegantes, que se assemelha ao Sagrado Coração trabalhado pelo artista em sua residência na Missão de São Miguel, Rio Grande do Sul, 2003. Em Camargue, ele se encontrou com o músico Canut Reyes, um dos fundadores dos Gipsy Kings, que o levou a conhecer trilhas emblemáticas para os ciganos. Em Arles, esteve no icônico Moulin Ribet, conhecido como Moulin de Daudet (escritor francês Alphonse Daudet, 1840-1897), construído em 1814, e em Marselha visitou o Mucem (Musée des civilisations de l’Europe et de la Méditerranée). Carlos Vergara viajou acompanhado do crítico e curador Marc Pottier, e de João Vergara, filho do artista e coordenador de seu ateliê, com apoio do Consulado da França do Rio de Janeiro.

 

 

Circuito Integrado das Galerias

A ArtRio, Marina da Glória, parque do Flamengo, Rio de Janeiro, RJ, chega a sua nona edição e reforça, entre suas principais metas, a valorização da arte brasileira. Com o objetivo de aproximar cada vez mais o público carioca e os visitantes do segmento de arte, o evento promove, pelo sétimo ano consecutivo, o CIGA – Circuito Integrado de Galerias de Arte. Nos dias 16 e 17 de setembro, segunda e terça-feira, respectivamente, de 17h às 21h, galerias dos bairros de Copacabana, Ipanema, Leblon, Gávea e São Conrado, abrem suas portas com uma programação especial para o evento, como vernissages, conversas com artistas e curadores, além de visitas guiadas. O CIGA tem entre seus objetivos estimular a visitação às galerias de arte, além dos museus e centros culturais.

 

“O CIGA é a primeira agenda da semana ArtRio. As galerias programaram ações especiais para receber o público e estimular a apreciação e o debate sobre a arte. A ideia é que, estimulando a visita às galerias dentro da programação da ArtRio, estamos estimulando a inclusão desse hábito na agenda das pessoas durante todo o ano”, indica Brenda Valansi, presidente da ArtRio.

 

Defina seu roteiro para cada dia do evento e visite as principais galerias da cidade!

 

 

Segunda-feira, 16/09 – Ipanema e Copacabana

IPANEMA

Cássia Bomeny Arte Contemporânea

Rua Garcia D’Avila 196, Ipanema

Conversa com o artista Carlos Zilio, na sua individual “Pinturas e Desenhos”.

 

Galeria Nara Roesler

Rua Redentor, 241 – Ipanema

Coquetel de abertura da exposição “Reflexões sobre o Tempo e o Espaço”, que reúne obras de Alicja Kwade, Anish Kapoor, Camille Henrot, François Morellet, Mohamed Bouroissa, Laura Vinci, Lucia Koch, entre outros. A curadoria é de Agnaldo Farias.

 

Simone Cadinelli Arte Contemporânea

R. Aníbal de Mendonça 171, Ipanema

Abertura das exposições “Longe dos olhos”, de Jimson Vilela, e “Maraca”, de Gabriela Noujaim.

 

COPACABANA

Galeria Inox

Av. Atlântica 4240, subsolo 101 e 132, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana

Visita guiada com Renato Bezerra de Mello à sua individual “O que a gente não tem coragem de jogar fora”. A mostra tem curadoria de Bianca Bernardo.

 

TERÇA-FEIRA, 17/09 – LEBLON, GÁVEA E SÃO CONRADO

LEBLON

Lurixs

Rua Dias Ferreira 214, Leblon

Abertura da exposição individual de Elizabeth Jobim.

 

Mul.ti.plo

Rua Dias Ferreira, 417 – Sala 206, Leblon

Exposição “Paralelos”, de Carlos Vergara e Roberto Magalhães.

 

GÁVEA

Carpintaria

Rua Jardim Botânico 971, Gávea

Happy hour celebrando a exposição de Sarah Morris.

 

Anita Schwartz Galeria

Rua José Roberto Macedo Soares, 30, Gávea

Encontro com o artista Cadu e visita à sua exposição individual “Fábrica de Ratoeiras Concorde”.

 

Danielian Galeria

Rua Major Rubens Vaz, 414 – Gávea

Abertura da exposição “Crônicas anacrônicas, e sempre atuais, do Brasil”, de Glauco Rodrigues. A curadoria é de Denise Mattar.

 

Galeria da Gávea

Rua Marquês de São Vicente, 432 – Gávea

Exposição “Pi-Nic no Front”, de Pedro de Morais e roda de samba na galeria.

 

Galeria Mercedes Viegas

Rua João Borges, 86, Gávea

Abertura da exposição “Deixa Ventar”, de Cela Luz. A curadoria é de Pollyana Quintella.

 

Silvia Cintra + Box 4

Rua das Acácias 104, Gávea

Abertura da exposição “O Real Intocável”, de Ana Maria Tavares.

 

SÃO CONRADO

Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea

Estrada da Gávea, 712 sala 407, São Conrado

De 19h às 21h – Exposição “Através”, de Rosângela Dorazio.

 

Sobre a ArtRio

 

Em 2019, a ArtRio acontece na Marina da Glória, de 18 a 22 de setembro. Mais do que uma feira de reconhecimento internacional, a ArtRio é uma grande plataforma de arte, com atividades e projetos que acontecem ao longo de todo o ano para a difusão do conceito de arte no país, solidificar o mercado e estimular o crescimento de um novo público.