Grande exposição no Recife

21/set

 

Com curadoria de Moacir dos Anjos, a mostra “Necrobrasiliana” chegou em Recife, PE, e permanecerá em exibição até 29 de janeiro de 2023 na Galeria Vicente do Rego Monteiro, da Fundação Joaquim Nabuco. A nominata de artistas participantes é composta por Ana Lira, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Gê Viana, Jaime Lauriano, Rosana Paulino, Rosângela Rennó, Sidney Amaral, Thiago Martins de Melo, Tiago Sant’Anna, Yhuri Cruz e Zózimo Bulbul. Para o curador, a exposição é um desdobramento das pesquisas que desenvolve desde 2008, sob a relação entre arte e política, partucularmente o Brasil contemporâneo e essas investigações resultaram em alguns projetos de exposição, que permitiram a ele se “aproximar da produção de vários artistas que lidam com as violências que formaram e ainda constituem” o Brasil. “Comecei a perceber a recorrência de trabalhos de artistas, principalmente afrodescendentes e indígenas, mas não apenas, que estavam fazendo, em suas obras, embates críticos com essas imagens que supostamente retratavam o Brasil entre os séculos 16 e 19. A partir daí, comecei a pesquisar mais ativamente esta produção”.

 

Moacir dos Anjos ainda revela que a mostra foi concebida em 2019, pela Fundaj. No ano seguinte, a Fundação e o Museu Paraense (MUPA) fizeram um acordo de cooperação técnica e cultural, que teve como primeiro fruto a exposição “Educação pela Pedra”, realizada em 2021, no museu paranaense. Por causa das agendas das instituições, ambas decidiram que “Necrobrasiliana” seria primeiro exibida em Curitiba e, depois, no Recife.

 

Com os anos de pandemia e o agravamento da crise política que o Brasil atravessa, a exposição se tornou ainda mais relevante, de acordo com o curador. “As questões que ela apresenta, e o racismo, em particular, tornaram-se mais urgentes. A coincidência com as comemorações dos 200 anos da Independência também deram maior pertinência, pois muitas das obras se referem, de modo crítico, a imagens feitas naquele tempo, que ainda hoje informam a memória que temos do Brasil dos tempos de colônia e império”, avalia.

 

O título da mostra é uma alusão ao conceito de necropolítica – políticas de morte, para o controle das populações -, elaborado pelo filósofo, teórico político, historiador e professor universitário camaronês Achille Mbembe. E se refere, também, à brasiliana, nome dado à produção de viajantes europeus ao País, durante o período colonial, por artistas, escritores, cartógrafos e cientistas, como Albert Eckout, Frans Post, Jean-Baptiste Debret, Johan Moritz Rugendas e Nicolas-Antoine Taunay.

 

“É também o título de um trabalho de Thiago Martins de Melo, que conheci numa exposição do artista em São Paulo, no início de 2019. Duas pinturas dessa exposição estão presentes em Necrobrasiliana, mas não aquela de título idêntico”, diz.

 

Moacir dos Anjos argumenta que os trabalhos expostos revelam duas estratégias artísticas principais, em curso, que se debruçam sobre a reavaliação da representação colonial no Brasil. Por um lado, diz ele, há obras que focam na exposição de danos impostos às populações racializadas, ao longo da história do País, a exemplo das criações de Thiago Martins de Melo, Jaime Lauriano ou Rosana Paulino. Outros, apontam para uma “dimensão de cura e redesenho” do que poderia ser o Brasil no futuro, a saber, os trabalhos de Gê Viana, Ana Lira e Yhuri Cruz e Dalton Paula. “Em alguns, essas duas operações se embaralham um pouco. Como está no título do ensaio publicado no catálogo, são estratégias artísticas que querem ‘defender os mortos e animar os vivos’, pondera. “Ou seja, defender os mortos de suas dores, mas, também, simultaneamente, animar os vivos a fazerem valer, no tempo de agora, os desejos frustrados ou sufocados de tantos no passado. Insistir nessa relação de ‘intimidade’ entre a experiência dos que vivem agora com as vidas dos que há muito morreram me parece, de fato, fundamental.”

 

Roberto Alban apresenta Adrianne Gallinari

21/mar

 

 

A Roberto Alban Galeria, Ondina, Salvador, Bahia, anuncia a exposição “Adrianne Gallinari: desenho+pintura”, primeira exposição individual da artista na galeria, com abertura no dia 24 de março. Natural de Belo Horizonte, MG, Adrianne Gallinari vive e trabalha entre Salvador, São Paulo e a capital mineira. Em “desenho+pintura”, a artista apresenta um conjunto de vinte e oito pinturas, em diferentes formatos, e um desenho em grande escala, realizado em 2018 e exibido recentemente em São Paulo na Casa de Cultura do Parque. 

Formada pela renomada Escola Guignard, na capital mineira, Gallinari é expoente de uma geração cuja aparição no circuito da arte contemporânea aconteceu ainda na década de 1980, incluindo nomes como os de Cao Guimarães, Rivane Neuenschwander, Rosangela Rennó, Alexandre da Cunha e outros. A artista integra importantes coleções institucionais como a do Itaú Cultural (São Paulo), Coleção Madeira Corporate Service (Ilha da Madeira, Portugal), Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte, Minas Gerais) e Banco de Espanha (Madrid, Espanha).

Ao longo de sua trajetória, teve importantes exposições individuais em espaços como o The Drawing Center, em Nova York e participou de prestigiadas mostras como a Bienal de Pontevedra, com curadoria de Maria de Corral, além de exposições coletivas como Ordenação e Vertigem (curadoria de Agnaldo Farias, CCBB-SP), Desenhos A-Z (curadoria de Adriano Pedrosa) e a exposição paralela à Bienal de São Paulo de 2008 (curadoria de Rodrigo Moura).

Adrianne Gallinari também foi contemplada com prêmios como “Aquisição”, no XXII Salão Nacional de Arte, no Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1991); “Programa de Bolsas para Artistas Jovens Guillermo Kuitca” (Buenos Aires, Argentina, 1997); e “Primeiro Prêmio” na I Bienal Bridgestone Centro Cultural Borges (Buenos Aires, Argentina, 2000).         

Tal como o título da presente exposição, a prática da artista mineira debruça-se, majoritariamente, sobre o desenho e a pintura, explorando as potencialidades e interseções destes suportes artísticos. Ainda em seus anos de formação, Adrianne Gallinari encontrou no desenho a porta de entrada para o aprofundamento de sua obra, através de uma rigorosa e intensiva prática em diferentes suportes, como o papel, tecidos e o próprio espaço arquitetônico.

Foi da extensa prática no campo do desenho que, ainda no início de sua produção, Adrianne Gallinari migra para a pintura, transitando até hoje entre os dois meios com uma singular desenvoltura e apuro técnico. Obra de 2018, o grande desenho presente na exposição consiste em um enorme tecido estendido na parede do espaço expositivo, sobre o qual a artista traceja – numa espécie de ordenamento obsessivo e delicado – pequenos traços em crayon. Ainda que pensado em uma grande escala, o painel revela as minuciosas intenções gráficas da artista, em que as leituras sistematicamente formadas parecem desvelar as próprias imperfeições da parede que a obra esconde. A percepção visual criada, assim, é a de um trabalho laborioso e repetitivo, que investiga a organização do espaço da obra tal como se a artista estivesse esboçando um mapa mental.

Não por coincidência, as ranhuras se assemelham a uma escrita “rasurada” – dos pensamentos que não conseguem se traduzir apenas no plano do papel. E é neste intervalo das rasuras onde surgem formas abstratas, geométricas e visivelmente distintas, tal como atos falhos que se apresentam com mais lucidez do que aquilo que teria sido dito – escrito ou desenhado – conscientemente. Nas palavras do curador Agnaldo Farias, no texto curatorial que acompanha a mostra, “Na obra da artista, o desenho é o seu ponto de partida. Sempre. Mesmo estando circundado por pinturas dotadas de cores suaves e iluminadas, paisagens embaciadas por névoas, ou acesas, recém despertas pelo sol da manhã ou, ainda, resistindo à despedida da luz, quando da chegada da noite, mesmo assim, o desenho fala mais alto, até porque, nessas pinturas, ele também é protagonista.”

Já em suas pinturas, realizadas desde pequenas escalas até formatos médios e grandes, a artista explora diferentes noções e nuances da ideia de paisagem. Temática amplamente explorada ao longo da história da arte, a pintura de paisagem aparece na obra de Gallinari dotada de um léxico que remete, ao mesmo tempo, à tradição destes tipo de pintura quanto a uma radical contemporaneidade.

Suas paisagens situam-se em um campo híbrido entre a figuração e a abstração, através do uso da tinta acrílica e de pinceladas que ora nos revelam montanhas, traços de vegetação e outros elementos típicos do gênero. Os espaçamentos em branco de suas telas valorizam suas escolhas cromáticas, que vem a compor as delicadas figuras e paisagens que pinta, criando uma sensação harmônica entre áreas de respiro e áreas de intenso trabalho sobre a tela.

A artista cria assim um certo sentido de uma totalidade visual, em que toda a superfície da tela compõe este conjunto híbrido entre abstração e figuração: uma justaposição entre planos distintos ao mesmo passo de uma ampla perspectiva unitária entre estes diferentes elementos.

Suas paisagens – frutos da vivência e da memória destes espaços, ao longo de sua vida – revelam a aparição de ramos, árvores, campos e montanhas que dividem o espaço visual com delicadas figuras humanas, gerando um pertencimento entre homem e natureza,  através de um jogo entre aparição e desaparecimento, pintura e também subtração do plano pictórico. Tal aproximação também é realizada a partir do uso de desenhos geométricos semelhantes, permitindo uma potente convergência poética entre todos os elementos que habitam suas pinturas – a um só tempo impactantes e delicadamente articuladas.

A mostra continua até o dia 30 de abril.

Panorama da arte contemporânea brasileira

15/abr

 

O Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro apresenta, a partir do dia 14 de abril de 2021, a exposição inédita “1981/2021: Arte Contemporânea Brasileira na coleção Andrea e José Olympio Pereira”, com 119 obras de 68 artistas, pertencentes à magnífica coleção do casal carioca, radicado em São Paulo há mais de 30 anos. Nos últimos anos, Andrea e José Olympio constam na lista publicada anualmente pela prestigiosa revista ARTnews como um dos 200 maiores colecionadores de arte do mundo. O CCBB RJ está adaptado às novas medidas de segurança sanitária: entrada apenas com agendamento on-line (eventim.com.br), controle da quantidade de pessoas no prédio, fluxo único de circulação, medição de temperatura, uso obrigatório de máscara, disponibilização de álcool gel e sinalizadores no piso para o distanciamento.

O conceito desta mostra chama a atenção para a importância do colecionismo no Brasil. “Arte é o alimento da alma, ela amplia o mundo, te leva para lugares, te leva a sonhar. O colecionismo é fundamental, além de sustentar a produção artística, é também uma forma de cuidar das obras, uma grande responsabilidade”, diz o casal, que começou a coleção na década de 1980 de forma despretensiosa, estudando e visitando exposições e leilões de arte. Hoje, possuem cerca de 2.500 obras. “Temos na coleção somente trabalhos com os quais estabelecemos alguma relação. Pode ser uma obra que nos toca ou nos perturba, mas que mexe de alguma forma conosco. Poder expor a coleção é um privilégio para nós. É uma oportunidade de dividir a coleção com o grande público, de rever algumas obras e de vê-las em diálogo com outras, ganhando um novo significado”. O curador Raphael Fonseca foi convidado a pensar uma narrativa para a exposição a partir da coleção. A mostra ocupará as oito salas do primeiro andar do CCBB RJ a partir de núcleos temáticos, com obras de importantes artistas, de diferentes gerações, cobrindo um arco de 40 anos de arte contemporânea brasileira. A exposição conta com obras em diferentes linguagens, como pintura, instalação, escultura, vídeo e fotografia. “A ideia é que o público veja cada sala como uma exposição diferente e que tenha uma experiência distinta em cada uma delas. Os contrastes e a diversidade da arte brasileira serão visíveis a partir da experiência do espectador”, afirma Raphael Fonseca.

Sem seguir uma ordem cronológica, a exposição traz desde trabalhos produzidos em 1981, como a escultura “Aquário completamente cheio”, de Waltercio Caldas, e a fotografia “Maloca”, de Claudia Andujar, até a pintura “De onde surgem os sonhos” (2021), de Jaider Esbell, mais recente aquisição da coleção. Obras raras, como pinturas de Mira Schendel (1919 -1988), produzidas em 1985, também integram a mostra, que apresenta, ainda, obras pouco vistas publicamente, dos artistas Jorge Guinle, Laura Lima, Marcos Chaves e da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca.

PERCURSO DA EXPOSIÇÃO

A exposição será dividida em oito salas, intituladas a partir do nome de obras presentes em cada um dos espaços. “Os trabalhos que dão título às salas norteiam o tema e os demais, criam um diálogo ao redor, sendo alguns mais literais e outros nem tanto”, diz o curador Raphael Fonseca.

Na primeira sala, intitulada “A Coleção”, estará uma única obra: a instalação homônima do artista paulistano Pazé. Feita em adesivo vinilico, ela cobrirá todas as paredes do espaço com a imagem de uma coleção de pinturas, onde, nos diversos quadros, há personagens que olham para os visitantes. A instalação, de 2009, é apresentada de forma inédita na exposição, com novos elementos. “É um trabalho que pensa a coleção, assim como a exposição”, afirma o curador.

A segunda sala, “Coluna de Cinzas”, parte da escultura de Nuno Ramos, de 2010, em madeira e cinzas, medindo 1,87m de altura, para falar sobre o tempo, sobre a morte e sobre a brevidade da vida. Desta forma, no cofre estará o vídeo “O peixe” (2016), de Jonathas de Andrade, sobre uma vila de pescadores onde há o ritual de abraçar os peixes após a pesca, como um rito de passagem. Nesta mesma sala estarão as obras “Isto é uma droga” (1971/2004), de Paulo Bruscky, uma assemblage de caixas de remédio; “Stereodeath” (2002), de Marcos Chaves, composta por fotografia e relógio, e o vídeo “Nanofania” (2003), de Cao Guimarães, em Super 8, onde, cadenciados por uma pianola de brinquedo, pequenos fenômenos acontecem, como a explosão de bolhas de sabão e o salto de moscas.

A terceira sala da exposição é a maior de todas, com 42 obras, e chama-se “Costela de Adão”, inspirada na pintura de Marina Rheingantz, de 2013. “É um núcleo basicamente sobre paisagem, tema que tem bastante destaque na coleção”, afirma o curador Raphael Fonseca. Nesta sala, estão obras de Amelia Toledo, Ana Prata, Brigida Baltar, Claudia Andujar, Daniel Acosta, Daniel Steegmann Mangrané, Efrain de Almeida, Fabio Morais, Jaider Esbell, Janaina Tschape, Jorge Guinle, Leonilson, Lucas Arruda, Lucia Laguna, Marina Rheingantz, Mauro Restife, Paulo Nazareth, Paulo Pasta, Paulo Nimer Pjota, Rodrigo Andrade, Rosana Ricalde, Sandra Cinto, Vania Mignone e Waltercio Caldas.

“War” é a quarta sala, cujo nome vem da obra do artista Rodrigo Matheus, que faz uma alusão ao clássico jogo de estratégia. Esse núcleo traz obras com o tema da violência e conflito, como as pinturas em óleo sobre tela “Azulejaria com incisura vertical” (1999), de Adriana Varejão, e “Caveira” (2007), de Antonio Malta Campos, além da fotografia “Sem título (for sale)”, de 2011, de Paulo Nazareth, do neón “Sex,War & Dance” (2006), de Carmela Gross, da obra “Batalha naval” (2004), também de Rodrigo Matheus, e o “Painel de ferramentas grandes” (2013), de Afonso Tostes.

Seguindo, chega-se à quinta sala, intitulada “Saramandaia”, que é uma escultura em bronze policromado da artista Erika Verzutti, de 2006. “Neste núcleo, é pensando o corpo estranho nas artes visuais, ou seja, o monstro, a mistura entre humano e animal, com um caráter mais surrealista, que podemos encontrar nos desenhos do Cabelo e nas obras da Laura Lima e do Véio”, explica o curador. Nesta sala, estarão 34 obras dos artistas Adriano Costa, Alex Cerveny, Anna Israel, Bruno Novelli, Cabelo, Eduardo Berliner, Erika Verzutti, Gilvan Samico, Ivens Machado, José Bezerra, Laura Lima, Odires Mlázsho, Paulo Monteiro, Tunga, Véio (Cícero Alves dos Santos) e Walmor Corrêa.

Trabalhos que pensam a relação entre documento e ficção, verdade e mentira, estão na sexta sala, “Como se fosse verdade”, cujo nome veio da instalação da dupla Bárbara Wagner e Benjamim de Burca, de 2017, onde retratos de pessoas que passavam por um terminal de ônibus foram transformados em capas de CDs, partindo de um questionário onde esses personagens definiram os cenários, os temas e as expressões que melhor os representariam. Além da instalação, nesta sala também estão obras de Fábio Morais, Iran do Espírito Santo, Laura Lima, Leda Catunda, Leonilson, Maureen Bisilliat, além do trabalho “Carmen Miranda – uma ópera da imagem” (2010), do artista paranaense radicado na Suécia e no Rio de Janeiro, Laércio Redondo, que aborda os problemas da representação do corpo performático de Carmen Miranda, através da obra composta por ripas de madeira, com objetos diversos, e alto-falantes, que transmitem um texto sobre a cantora.

A série de fotos “Blue Tango” (1984/2003), de Miguel Rio Branco, que retrata crianças jogando capoeira, dá nome à sétima sala, cujo tema é o movimento, a dança, “tanto em obras que trazem o corpo quanto na abstração”, ressalta o curador. Neste núcleo também estão obras de Carla Chaim, Emmanuel Nassar, Enrica Bernadelli, Ernesto Neto, Iole de Freitas, Jarbas Lopes, Luciano Figueiredo, Luiz Braga, Dias & Riedweg, Miguel Rio Branco, Mira Schendel e Rodrigo Matheus.

Na oitava e última sala estará a obra “Menos-valia” (2005-2007), da artista Rosângela Rennó, composta por objetos adquiridos na feira Troca-troca, na Praça XV, no Rio de Janeiro. Os objetos foram seccionados de acordo com os respectivos níveis de depreciação no ato da negociação. Desta forma, os objetos mais negociados aparecem multiplicados na obra. “É um trabalho que também pensa o colecionismo, mas de forma oposta da obra de Pazé, que está na primeira sala. Se ali o olhar dele se voltou para o fantasma da tradição da pintura ocidental, o de Rennó se volta para aquilo que é visto como algo a ser reciclado e, talvez, nunca reutilizado. São formas diferentes de se pensar criticamente uma coleção”, diz o curador Raphael Fonseca. A exposição será acompanhada de um catálogo, que será lançado ao longo da mostra.

SOBRE A COLEÇÃO

Com cerca de 2.500 obras, com foco na produção brasileira a partir dos anos 1940 até o momento atual, a coleção Andrea e José Olympio Pereira é uma das mais destacadas do mundo. A visão cultural que o casal tem de sua coleção vai muito além de ceder obras para mostras individuais e coletivas em museus no Brasil e no exterior. Em 2018, com o intuito de não só acondicionar e guardar parte das obras, mas de dar acesso a pessoas, artistas e estudantes de arte, eles alugaram um antigo armazém de café do século XIX e o converteram em um espaço expositivo – o Galpão da Lapa. A proposta é convidar, a cada dois anos, um curador para montar uma exposição a partir das obras da coleção. O casal não costuma adquirir uma só obra de cada artista. “Quando nos interessamos por um artista, gostamos de ter profundidade. Conseguimos entendê-lo melhor desta forma, pois um único trabalho não mostra tudo. É como um livro, no qual não é possível entender a história só com uma página”. José Olympio Pereira contribui para vários museus no Brasil e no exterior, participando dos conselhos dessas instituições. No Brasil, é presidente da Fundação Bienal de São Paulo e participa do conselho do Museu de Arte de Sâo Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Em Nova York, participa do The International Council of The Museum of Modern Art (MoMA); em Londres, do International Council da Tate Modern e, em Paris, do Conselho da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea (Fondation Cartier pour l’Art Contemporain). José Olympio também faz parte do Conselho da ONG SOS Mata Atlântica. Andrea participa do conselho do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e é presidente da ONG Americas Amigas, que luta contra o câncer de mama.

SOBRE O CURADOR

Raphael Fonseca é pesquisador da interseção entre curadoria, história da arte, crítica e educação. Doutor em Crítica e História da Arte pela UERJ. Mestre em História da Arte pela UNICAMP. Graduado e licenciado em História da Arte pela UERJ. Trabalhou como curador do MAC Niterói entre 2017 e 2020. Entre suas exposições, destaque para “Vaivém” (CCBB SP, DF, RJ e MG, 2019-2020); “Lost and found” (ICA Singapore, 2019); “Riposatevi – Lucio Costa” (MAC Niterói, 2018); “A vida renasce, sempre – Sonia Gomes” (MAC Niterói, 2018); “Dorminhocos – Pierre Verger” (Caixa Cultural Rio de Janeiro, 2018); “Regina Vater – Oxalá que dê bom tempo” (MAC Niterói, 2017); “Bestiário” (Centro Cultural São Paulo, 2017); “Dura lex sed lex” (Centro Cultural Parque de España, Rosario, Argentina, 2017); “Mais do que araras” (SESC Palladium, Belo Horizonte, 2017), “Quando o tempo aperta” (Palácio das Artes – Belo Horizonte e Museu Histórico Nacional – Rio de Janeiro, 2016); “Reply all” (Grosvenor Gallery, Manchester, Inglaterra, 2016); “Deslize” (Museu de Arte do Rio, 2014), “Água mole, pedra dura” (1a Bienal do Barro, Caruaru, 2014) e “City as a process” (Ural Federal University, II Ural Industrial Biennial, Ekaterinburgo, Rússia, 2012). Recebeu o Prêmio Marcantonio Vilaça de curadoria (2015) e o prêmio de curadoria do Centro Cultural São Paulo (2017). Curador residente do Institute Contemporary Arts Singapore (2019) e da Manchester School of Art (2016). Integrante do comitê curatorial de seleção da Bienal Videobrasil (2019). Jurado do Prêmio Pipa (Brasil, 2019) e do Prêmio Mariano Aguilera (Quito, Equador, 2017). Participante do comitê de indicação do Prêmio Prima (2018 e 2020). Autor convidado para o catálogo da 32ª Bienal de São Paulo (2016).

 

 

Até 26 de Julho.

FIC: Rosângela Rennó e Nervo Óptico

28/jun

Seminário Ponto de Fuga: Rosângela Rennó na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS, a artista mineira é a convidada do último Seminário Ponto de Fuga. O fim de semana traz, ainda, oficina para crianças e Cine Iberê com lançamento de documentário sobre o grupo Nervo Óptico.

 

 

Inscrições online

 

No sábado, 30, às 16h, acontece o último encontro do Seminário Ponto de Fuga, com a artista visual mineira Rosângela Rennó. A artista vai apresentar destaques de sua trajetória e, em especial, seu último trabalho: “Rio Utópico”. Apresentado em 2018 no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, “Rio Utópico” faz um mapeamento fotográfico espontâneo de comunidades do Rio de Janeiro cujos nomes sugerem uma situação utópica. Para a obra, Rosângela trabalhou com jovens moradores dessas comunidades, que foram orientados a fotografar e pesquisar o local onde vivem. A exposição mostra como as pessoas representam seus próprios lugares, como se mobilizam em torno da produção de imagens e como a paisagem do Rio de Janeiro é muito mais diversa do que estamos acostumados a ver.

 

 

Sobre a artista

 

Rosângela Rennó é artista visual e seu trabalho explora fotografias, instalações e objetos por meio da utilização de imagens fotográficas de arquivos públicos e privados, abordando questões acerca da natureza da imagem, seu valor simbólico e seu processo de despersonalização. Realizou diversas exposições individuais, entre elas, na Fundação Gulbenkian, Lisboa/Portugal, Fotomuseum, em Winterthur, e Photographer’s Gallery, em Londres. Seus trabalhos estão em alguns dos principais museus de arte do mundo, como o Reina Sofia, em Madri, Tate Modern, em Londres, Arts Institute of Chicago, Guggenheim, em Nova York, e  Stedelijk, Amsterdan. É formada em Arquitetura pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (1986) e em artes plásticas pela Escola Guignard, Belo Horizonte (1987). É Doutora em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo (1997).

 

 

30 de junho de 2018, sábado, 16h.

 Alair Gomes na Luciana Caravello

01/mar

Luciana Caravello Arte Contemporânea, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, inaugura, no dia 06 de março, a exposição “Young Male: Fotografias de Alair Gomes”, com 40 obras do fotógrafo, que nasceu em 1921 e faleceu em 1992. Pela primeira vez será realizada uma mostra individual do artista em Ipanema, bairro onde ele morou a maior parte de sua vida e que foi cenário de quase a totalidade de sua obra. Sob a curadoria de Eder Chiodetto, serão apresentadas fotografias pertencentes à coleção de Robson Phoenix, feitas ao longo de 20 anos, entre 1960 e 1980, que mostram corpos masculinos, jovens e belos, os “young males” como se referia Alair Gomes em seus diários. A exposição foi apresentada com grande sucesso no ano passado na Casa Triângulo, em São Paulo. Classificação: 18 anos

 

“O olhar do artista, de viés homoerótico, tornou-se complexo e original ao longo de sua produção realizada entre os anos 1960 e 1980. Essa obra de caráter radical, que concilia compulsão pessoal com refinamento de estratégias da linguagem, começou nos últimos anos a ser melhor estudada e legitimada por instituições como a Fondation Cartier pour l’art contemporain, a Loewe Foundation e o MoMA, que recentemente adquiriu obras do artista”, diz o curador Eder Chiodetto.

 

O acervo de Alair Gomes foi doado para a Biblioteca Nacional por seus herdeiros, sendo raras as obras que surgem no circuito de arte pertencentes a colecionadores particulares, como Robson Phoenix, que tem a coleção desde a década de 1990. “É tempo de celebrá-lo como um dos maiores fotógrafos do nosso tempo: corajoso, furioso, prolífico, controverso, instigante. Estou bastante orgulhoso em trazer à luz minha coleção preciosa, surpreendente, com fotos raras”, diz Robson Phoenix.

 

A mostra traz fotografias de três destacadas séries do artista: “Symphony of Erotic Icons” (1966 – 1978), “A Window in Rio” (1977 – 1980) e “Viagens (Europa, Arte)” (1969).

 

“Symphony of Erotic Icons” foi a primeira composição sequencial realizada por Alair Gomes, entre 1966 e 1978. “Considerada sua obra-prima, é dedicada totalmente ao nu masculino e compreende um conjunto de 1.767 fotografias. A série é estruturada em cinco movimentos: Allegro, Andatino, Andante, Adagio e Finale. Para o artista, a construção desse universo fotográfico almejava ‘”ranscender a sua personalidade”, criando um estado “proto-religioso”, conta o curador Eder Chiodetto.

 

“A Window in Rio” é uma das séries fotografada da janela do sexto andar de seu apartamento, em Ipanema, flagrando o movimento dos garotos na calçada e nas janelas de prédios próximos. “Sem ser notado, o fotógrafo exerce sua porção voyeur fazendo de sua teleobjetiva uma espécie de arma com a qual o caçador “abate” e guarda para si o corpo de suas caças”, ressalta o curador.

 

Já a série “Viagens (Europa, Arte)]” apresenta fotografias de estatuárias greco-romanas realizadas na sua primeira viagem à Europa, “…que o levaram a trocar a escrita literária dos seus “Diários Eróticos” pela representação via fotografia. Mais tarde, a estética clássica que sublinha a força e a virilidade do corpo masculino serviria de referência para os retratos dos garotos nus”.

      

 

Sobre o curador

 

Eder Chiodetto é mestre em Comunicação pela ECA/ USP, jornalista, editor, professor e curador independente, tendo realizado em torno de 100 exposições no Brasil e no exterior. Atuou por 13 anos na Folha de S.Paulo como repórter fotográfico, editor e crítico de fotografia do caderno Ilustrada. É autor dos livros “Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira”(Edições Sesc), “Curadoria em Fotografia: da pesquisa à exposição” (Ateliê Fotô / Funarte) e “O Lugar do Escritor” (Cosac Naify), entre outros. Nos últimos anos editou livros de diversos fotógrafos como Luiz Braga, Cristiano Mascaro, Araquém Alcântara, Rosângela Rennó, Eustáquio Neves, entre outros, em parceria com as editoras Cosac Naify, Edições Sesc, Terra Brasil e Cobogó. Atualmente coordena o Ateliê Fotô centro de estudos avançados em fotografia, em São Paulo, é o publisher da Fotô Editorial e curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP.

 

 

Sobre a galeria

 

O principal objetivo da Luciana Caravello Arte Contemporânea, fundada em 2011, é reunir artistas com trajetórias, conceitos e poéticas variadas, refletindo assim o poder da diversidade na Arte Contemporânea. Evidenciando tanto artistas emergentes quanto estabelecidos desde seu período como marchand, Luciana Caravello procura agregar experimentações e técnicas em suportes diversos, sempre em busca do talento, sem discriminações de idade, nacionalidade ou gênero.

 

 

Até 07 de abril.

Coleções do MAM-Rio

02/maio

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresenta, a partir do próximo dia 6 de maio, com entrada aberta ao público, a exposição “A volta das coleções do MAM”, com curadoria de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, que reúne quase 100 obras em séries, conjuntos, múltiplos, sequências e associações de 24 artistas de diferentes nacionalidades e gerações. Para os curadores, a exposição permite ao visitante uma compreensão dos processos poéticos desses artistas.

 

Os artistas presentes na exposição são: os brasileiros Alair Gomes, Antonio Dias, Antonio Manuel, Athos Bulcão, Cabelo, Carlos Zilio, Geraldo de Barros, Gilvan Samico, Ivan Grilo, Jac Leirner, Mário Fontenelle, Milton Machado, Raymundo Collares, Rosangela Rennó, Vicente de Mello e  Waltercio Caldas; os alemães Bernd & Hilla Becher, Grete Stern, Josef Albers, Wolf Vostell; a norte-americana Diane Arbus; o taiuanês Hsieh Tehching  e o espanhol Juan Pratginestós.

 

Todos os trabalhos pertencem às três grandes coleções do Museu – a própria, a de Gilberto Chateaubriand e a de Joaquim Paiva, que somam mais de 16 mil obras. Com a abertura desta exposição, o terceiro andar do MAM passa a ser destinado,  exclusivamente, à exibição de seu acervo.

Patrocínio: Lei de Incentivo à Cultura e mantenedores do MAM: Petrobras, Bradesco Seguros, Rede D´Or São Luiz e Organização Techint. Realização: Ministério da Cultura, Governo Federal – Ordem e Progresso.

 

 

De 06 de maio a 06 de agosto.

 

Ibeu 80 anos

25/abr

Bairro com vocação artística que abriga ateliês e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, o Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, ganhará um reforço de peso no início do mês de maio, quando a tradicional Galeria de Arte Ibeu, abre suas portas em uma casa da Rua Maria Angélica. Motivos para comemorar, há de sobra: trata-se da exposição que marca os 80 anos do Ibeu, “A Insistência Abstrata, nas coisas”, mostra coletiva com acervo do Ibeu e curadoria de Cesar Kiraly.
Foram selecionadas onze obras emblemáticas dos artistas Anna Maria Maiolino, Bruno Belo, Claudia Hersz, Eloá Carvalho, Gisele Camargo, Lena Bergstein, Manoel Novello, Paula Huven, Raul Leal, Rosângela Rennó e UbiBava. “O acervo da Galeria foi obtido através de doações dos artistas que nela expuseram ao longo dos anos. Isso fornece à coleção um caráter intensamente afetivo”, avalia Kiraly. Para ele, o maior desafio é o de estabelecer um sentido combinado, que não existiria sem a sua imaginação. Como o nome indica, nesta “A Insistência Abstrata, nas coisas” são privilegiadas obras abstratas, algumas delas inéditas, de artistas que fazem parte do cânone da arte brasileira, como Ubi Bava, Anna Maria Maiolino e Lena Bergstein, combinadas com as de artistas abstratos contemporâneos, que recentemente tiveram individuais no Ibeu, como Manoel Novello e Gisele Camargo.

 

“A intenção é mostrar como os objetos abstratos estão presentes no cotidiano, e como fazem parte da materialidade das coisas, peças de construção da vida comum. A relação entre as figuras tem a ver com a resistência do abstrato, mas também com o empréstimo lírico de um registro para o outro. O abstrato ora segura o fôlego, como na pequena tartaruga do Bruno Belo, ora aporta no âmbito conceitual, na maleta ‘duchampiana’ da Claudia Hersz”, complementa o curador.
A história da galeria
A Galeria em Copacabana foi inaugurada em março de 1960. Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, IberêCamargo, Josef Albers, Alexander Calder, Antonio Manuel, Lygia Pape, Artur Barrio, entre muitos outros ícones, já tiveram seus trabalhos expostos por lá. Nas décadas anteriores, antes da inauguração do espaço em Copacabana, o Ibeu promovia arte através de parcerias com espaços como o Instituto dos Arquitetos do Brasil, Ministério da Educação e Associação Brasileira de Imprensa.

 

 

Acessibilidade e mesma área expositiva mantida em projeto de arquiteto
No novo espaço de 52m², projetado pelo arquiteto Maurício Castello Branco e iluminado por Rogério Emerson, não houve perda de área expositiva linear em relação à estrutura anterior, em Copacabana. Além disso, o acesso ficou bem mais fácil e a sinalização externa foi beneficiada pelo fato de estar instalada em uma casa.
Programação do ano já está definida
Segundo Renata Pinheiro Machado, Gerente Cultural do Ibeu, a Nova Galeria de Arte Ibeu contará com projetos de exposições individuais e coletivas, mantendo sua história nas artes visuais, que começou em 1940. “Nomes como o de Julia Kater e Pedro Tebyriçá figuram entre os aprovados no edital de ocupação de 2016/2017, como também o de Maria Fernanda Lucena, premiada na última coletiva “Novíssimos”. Aliás, o próprio Salão de Artes Visuais Novíssimos 2017 tem data de abertura marcada entre julho e agosto”.

 

 

 

De 02 de maio a 09 de junho.

Livro de Rosângela Rennó

06/abr

Na próxima terça, dia 11, será o lançamento do livro da exposição “O Espírito de Tudo”, de Rosângela Rennó, no Oi Futuro Flamengo, Rio de Janeiro, RJ. A edição bilíngue conta com textos da curadora Evangelina Seiler, da própria artista e com citações de autores consagrados como Walter Benjamin, Marcel Proust e Ítalo Calvino.

 
Rosângela manteve no livro o caminho percorrido na exposição, obedecendo a uma lógica sensorial. “É importante ressaltar que eu não lanço um catálogo, mas um livro em que as obras ganham um tratamento especial por estarem em outro meio. O que na exposição era vídeo, por exemplo, agora apresenta imagens gráficas. É um prolongamento do trabalho”, explica a artista.

 

 

 
Lançamento:

11 de abril- Rio de Janeiro –
Horário: 18h30 no Oi Futuro Flamengo, Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo.
Rio de Janeiro
168 páginas, edição de 2017.

Preço de capa: R$ 90,00.

 

Exposição de Rosângela Rennó

17/nov

Fumaças, incensos, cores, cheiros, lembranças, mistérios, segredos…Em vídeos, fotos, frascos, sensações e reminiscências de viagem, artista reconstrói conceitos como memória e temporalidade.

 

Não há espera ou espaço para ansiedade na exposição “O ESPÍRITO DE TUDO”, de Rosângela Rennó, que o Oi Futuro Flamengo, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a partir de 21 de novembro, com curadoria de Evangelina Seiler. Há, sim, uma atmosfera mágica que guarda muitas surpresas e convida o espectador a examinar objetos e ideias sob ângulos particulares, próprios. Olhares que a artista apenas sugere ou desperta, por meio de obras plasmadas em questões cotidianas da existência, no espaço vasto da memória ou na reverência pelo universo do outro, que cada indivíduo recebe, percebe ou processa de maneira única.

 

Seis obras se apropriam do Oi Futuro: desde as lanternas mágicas que abriram caminho à fotografia e flertavam com o ilusionismo de luz e sombra até a transformação radical de imagens em vídeo, pela manipulação de cor e não-cor – passando pela memória olfativa que evoca, em cada um, registros internos de variadas naturezas – a artista envolve o público em uma jornada poética, por novas formas de olhar, interpretar e reagir a variadas experiências.

 

“Rosângela Rennó ocupa o Oi Futuro com imagens, sons e aromas que dialogam com a arquitetura do centro cultural e prometem despertar novas sensações no público. Com essa exposição, o Oi Futuro reafirma sua vocação de catalisador criativo, valorizando a produção de vanguarda e inspirando a convergência entre arte contemporânea e tecnologia”, diz Roberto Guimarães, gestor de Cultura do Oi Futuro. A mostra tem o patrocínio do Governo do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro.

 

 

Sensações

 

“Per fumum” mergulha nas essências, incensos e odores com os quais o homem se relaciona desde a Antiguidade até hoje – cada um com seu uso indicado e suas sensações embutidas. O que este ou aquele aroma, esta ou aquela resina provoca, ao primeiro contato?

 

Enquanto o olfato desperta e decifra esses significados, “Lanterna Mágica” remete ao tempo da pré-imagem, entre fotografias trabalhadas à base de sais de prata e gelatina e projeções feitas com as tradicionais lanternas mágicas – projetores antigos, do final do século 19 e início do século 20. “Per fumum” e “Lanterna Mágica” refinam os sentidos rumo a outras possibilidades.

 

Uma delas se insinua na próxima obra, As horas viajantes. Uma imponente vitrine de vidro existente no espaço, revestida de película leitosa, exibe surpresas em recortes certeiros: distintos frascos de perfume surgem aqui e ali, vazios ou com restos de seu conteúdo, enquanto seus nomes desfilam em letreiros luminosos. O sentir despertado pelas “imagens das essências” conduz à memória dos perfumes e de tudo que vem com ela. E mais uma vez o espectador é tocado pela viagem, magnetizado pelo ato de lembrar-se.

 

 

Percursos

 

Mas o ato de viajar logo se torna mais denso, ainda que menos material, na obra “Turista Transcendental”. São textos e vídeos da artista que documentam, de forma bastante peculiar, suas viagens a pontos tão distintos quanto as ilhas Reunião (no Oceano Índico, a leste de Madagascar) e Gomera (no arquipélago das Canárias), Teotihuacán (México), a cabeça da Estátua da Liberdade (Nova Iorque), o Salar do Uyuni (a maior planície de sal do mundo, na Bolívia), o estreito de Bósforo (em Istambul), a cidade mística de Allahabad (Índia), Lagos (Nigéria), Montevidéu (Uruguai) e a Chapada dos Veadeiros, no planalto central brasileiro. As imagens, manipuladas durante a edição, fazem com que essas viagens se distanciem das paisagens e se concentrem no olhar, na sensação e no ato de relacionar-se com cada cultura e cada lugar em especial.

 

O ciclo se fecha com duas obras que mantêm forte diálogo. Uma delas é Realismo Fantástico, com seus espectros de luz em constante movimento; em “Círculo Mágico”, objetos da coleção da Fundação Eva Klabin ganham voz (e luz) própria para contar suas histórias ao público, entre toques de humor, nostalgia, amargura ou mesmo resignação diante do que há de trágico no tempo suspenso da história. O vídeo “Círculo Mágico” foi resultado de um projeto de intervenção realizado em 2014 na FEK, dentro do programa “Ciclo Respiração”, do curador Márcio Doctors.

 

 

Visões

 

A artista aplica muitas camadas de sutileza à poética que constrói e, pouco a pouco, envolve o expectador num processo em que se diluem, lenta e intensamente, muitas fronteiras. Segundo a curadora Evangelina Seiler,“…ao aguçar seus sentidos através das obras expostas, o visitante se aprofundará no trabalho desta grande artista, a partir do que vê e sente e também a partir, de textos, escritos por vários autores e por ela mesma, que apontam para suas referências filosóficas e técnicas.” Rosângela Rennó diz que as obras que compõem o “Espírito de Tudo” mostram que há muitos outros mistérios entre o céu e a terra, além daqueles que os filósofos, poetas e artistas já detectaram.

Regina Silveira no “Respiração”

06/out

O Respiração tem por objetivo criar intervenções de arte contemporânea no acervo de arte clássica da casa-museu Eva Klabin, Lagoa, Rio de Janeiro, RJ, criando uma ponte entre a arte do passado e as manifestações da atualidade; entre a preciosa coleção de obras dos grandes mestres da história da arte, como Tintoretto, Boticelli, Reynolds, Pisarro, Govaert Flinck, entre outros, e os mais importantes artistas contemporâneos brasileiros. A curadoria é de Marcio Doctors.

 

Regina Silveira, artista da Luciana Brito Galeria, é a convidada da 21ª edição com a intervenção “INSOLITUS”, que criará uma situação insólita/inusitada, como o próprio nome diz. A fachada da Fundação será ocupada pela obra “Mundus admirabilis”, que é uma infestação de insetos gigantes; na Sala Renascença a obra “Darks

wamp” (nest) dominará o espaço, nos surpreendendo com um ovo negro de 1.80m de altura, confrontando-se com as obras Renascentistas da coleção; na Sala de jantar, a mesa e as cadeiras se transformarão em mesa e cadeiras peludas, desencadeando uma estranheza no ambiente requintado e ordenado da casa-museu.

 

Com a ocupação “Insolitus”, Regina Silveira radicaliza a ideia de intervenção da proposta do “Respiração”, desestabilizando os códigos de uma residência, onde a tranquilidade é perturbada pelo imaginário da artista, criando, dessa maneira, uma metáfora contundente dos tempos atuais.

 

O “Respiração” é um programa de longa duração, iniciado em 2004, e tornou-se referência cultural pelo inusitado e singularidade da sua proposta, que é a de trazer uma nova respiração para o museu, com o intuito de atrair novos públicos, criando um olhar diferenciado sobre o museu e sua coleção.

 

O “Respiração” foi se firmando pela qualidade dos 27 artistas que participaram ao longo de 12 anos e 20 edições. Podem ser citados alguns nomes como Anna Maria Maiolino, Anna Bella Geiger, Nuno Ramos, Carlito Carvalhosa, Ernesto Neto, Claudia Bakker, Eduardo Berliner, Rosangela Rennó, Marcos Chaves, Nelson Leirner e Daniela Thomas, entre outros.

 

 

A palavra do curador

 

Insolitus nos traz a crueza de uma realidade substantiva, que Regina Silveira explicita por meio das obras apresentadas no Respiração, que são como materializações na superfície do mundo das angústias de nossa sociedade atual. Com sua poética singular, a artista faz um raio X das incertezas e dúvidas que estamos atravessando e chama a nossa atenção para aquilo que nos incomoda hoje no mundo. São como pragas contemporâneas.

 

O projeto “Respiração”conta com o apoio de Klabin S/A, Itaú Cultural, Luciana Brito Galeria, DHBC advogados, Parceria ArtRio.

 

 

Até 29 de janeiro de 2017.