A captura do fato cotidiano.

26/mar

A artista Marjô Mizumoto exibe até o dia 18 de abril na Galeria Anita Schwartz, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, a exposição de pinturas “Aonde eu queria estar”. O texto de apresentação traz a assinatura de Vanda Klabin. 

Marjô Mizumoto manipula a linguagem imagética, fortemente figurativa, com alguns dispositivos narrativos aliados a imagens constitutivas de cenas domésticas, nos direcionando para o universo dos ícones da linguagem da arte pop, que solidifica a sua presença através de fragmentos do cotidiano atuantes na sua órbita poética. A pintura é o seu território preciso e ali encontramos os acordes de seu campo de ação. O plano da fotografia e alguns postulados da colagem são utilizados para aninhar a iconografia do fazer cotidiano no seu processo pictórico. Estabelece um micromundo e na soltura do seu imaginário, focado na construção da figura humana, coteja as experiências dos planos psicológicos e suas figuras emblemáticas adquirem uma função compositiva; a artista funda a sua persona em diferenciados cenários. Na sua estética narrativa, Marjô altera a sua capacidade de estar presente nas cenas efêmeras, sua matriz pessoal, e passa a ser a responsável pela captura do fato cotidiano, como alguém que descreve mundos. Traz, muitas vezes, representações de sua própria vida ou elementos constitutivos de situações visuais complexas e de um tempo saturado de significações.

A estrutura narrativa ganha novos contornos ao se colocar como a observadora de suas experiências vivenciais. Ela desenvolve um vigor cênico para acentuar esse discurso e fundar uma obra resultante da sua ausência. A presença de um outro corpo familiar como protagonista cria um regime de ambiguidades, como um dispositivo pulsional constante para as suas experiências artísticas, sem renunciar a uma contundência plástica. A maternidade é um tema recorrente na sua produção artística e envolve uma construção de códigos culturais. Marjô traz um ângulo diferente ao tocar na questão da identidade, na qual a projeção do corpo feminino não está presente na obra. Institui uma sensibilidade e uma formulação plástica que gravitam em uma linguagem visual própria.

É necessário olhar para as zonas cromáticas e para a dinâmica de sua ocupação. A imagem reina absoluta. Os objetos se instalam em primeiro plano, deixam de ser fugazes e se consolidam em um campo de relação de cores. Agora são materiais de observação, pulsam na superfície da tela, adquirem uma sensação tátil, quase palpável que parece despertar uma outra intimidade na cena. Um desejo de intensificação da realidade se faz presente e novas membranas se interpõem no nosso olhar. A realidade aqui foi fisgada, capturada de um local sem horizontes. Amplia os significados de uma intimidade de um mundo repleto de inquietações, apreendendo nesse território privado que transborda de cor os fios entrelaçados de uma memória acumulada de vivências.

A artista prepondera uma estrutura lógica, extraída de imagens reconhecíveis na vida cotidiana, inflamadas pela matéria pulsante de uma iconografia em que um acontecimento banal ou efêmero adquire uma intensidade plástica inesperada, provocante e, por vezes, acaba por tornar estranhas as representações outrora familiares. No fluxo nervoso dos seus gestos e pinceladas, a artista vai adicionar novos significados para reconfigurar outra ordem no seu trabalho de arte. É um desafio que parece encenar a sua vida, ao discutir continuamente seus enigmas: pensar a arte a partir de uma interpretação, agregar novas entidades e significações. Marjô particulariza os relatos pessoais através da ativação de suas constelações de suas vivências ao assimilar, no seu vocabulário visual, a questão dos retratos, onde captura as sensações subjetivas, que geralmente estão submersas no inconsciente. Na elaboração do personagem central, prevalece a questão identitária do outro, sempre um território duplicado. Quase como um exercício de desejos breves – histórias vividas, vestígios de memórias reconstruídos em cenas domésticas ou de natureza cotidiana -, seu processo de trabalho, ao desarrumar o arrumado, atua como um poder transformador, dado que a artista se apropria de imagens ou objetos removidos de sua natureza cotidiana e amplia seus sentidos em uma narrativa parcial, agora vinculada a um momento transitório; o fluir do tempo não está mais presente, como uma memória suspensa, criando uma multiplicidade de possibilidades e vai redirecionar o observador para novos eixos de leitura e significados. São cenas evocativas e curtas, com tonalidades intensas que passam a ordenar o nosso olhar, que é convocado a adentrar em cenas triviais, como interiores íntimos, flagrantes existenciais ou anotações da vida urbana nesse mundo tenso, expansivo e desigual.

Sua gramática visual traz ressonâncias históricas de artistas como Lucien Freud, Marlene Dumas, Jenny Saville, Edward Hopper e Wanda Pimentel, entre outros. Nesse flerte com a linguagem do trivial, o banal torna-se objeto de investigação plástica, como uma linha decisiva para o entendimento da complexidade do mundo. As cenas deixam de ser fugazes, ganham novos contornos e se consolidam em um campo de relações de cores, pulsátil nas suas fragmentações estéticas. Um momento fraturado, um extravio do cotidiano, convertido em um acontecimento plástico e em tema central. As obras são unidades intensas; uma condensação cromática guarda memórias vivas de sua história e frequentes vestígios familiares detêm um conteúdo ao sinalizar um universo anônimo e trazem à tona as assimetrias do mundo, com suas fissuras, tensões ou enigmas. E é nesse universo que se constrói e se reconstrói, como uma malha flutuante para o olhar, que percorremos esse itinerário estético, tendo a pintura como eixo condutor e como um dispositivo plástico para o entendimento da dinâmica do mundo contemporâneo.

Vanda Klabin é cientista social, historiadora e curadora de arte. Nasceu, vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Sobre a artista.

Marjô Mizumoto nasceu em 1988 em São Paulo, SP. Vive e trabalha em São Paulo.  Marjô Mizumoto é uma artista visual conhecida por seus retratos a óleo que capturam personagens do cotidiano em cenários quase teatrais. Suas pinturas, que misturam referências da pintura tradicional e elementos do universo Pop, funcionam como crônicas visuais de memórias afetivas e familiares. Formada em Artes Plásticas pela FAAP em 2010 e com pós-graduação em História da Arte pela mesma instituição, Marjô trabalhou com artistas renomados como Rodolpho Parigi e Ana Elisa Egreja, além de colaborar no painel de Candido Portinari na PUC-Rio. Suas obras integram coleções importantes, como o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e o Museu de Arte Contemporânea de Jataí. Marjô foi contemplada com o 8° Prêmio Artes Tomie Ohtake e participou do 32° Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo. Em 2021, recebeu o 11° Prêmio DASartes, consolidando-se como uma das artistas mais promissoras da cena contemporânea brasileira.

 

Obras inéditas de Denilson Baniwa.

A Gentil Carioca São Paulo, Higienópolis, dá as boas-vindas à exposição solo inédita de Denilson Baniwa Yawara Akanga (cabeça de cachorro, em tradução livre), no dia 07 de abril, a partir das 16h.

A mostra reunirá 15 obras recentes e dá continuidade à pesquisa do artista sobre a presença não indígena na região do Rio Negro e no território amazônico. O texto crítico é assinado por Miguel A. López, curador-chefe do Museo Universitario del Chopo, México.

Esta é a segunda exposição individual do artista na unidade paulista, sucedendo *Moqueca de Maridos* (2023).

Em sua produção, Baniwa revisita o passado por meio da reinterpretação de imagens provenientes de tradições e representações locais, bem como de instituições europeias e norte-americanas – como o Musée du Quai Branly, o Museu Nacional de Etnologia de Lisboa, a Biblioteca da Universidade de Princeton e a Fundação Getty – além de arquivos fotográficos de internatos católicos e missões salesianas em aldeias amazônicas.

Obra singular pautada pelo rigor formal.

24/mar

A Galatea anuncia “Paulo Roberto Leal: maleabilidades construtivas”, exposição dedicada à obra de Paulo Roberto Leal (Rio de Janeiro, 1946 – 1991), com abertura no dia 28 de março, sábado, das 11h às 15h, na unidade da Padre João Manoel, Jardins, São Paulo, SP. A exibição dessa mostra estará em cartaz até 09 de maio e reúne trabalhos de séries emblemáticas como “Armagens”, “Armaduras” e “Entretelas”, além de pinturas realizadas pelo artista ao longo da década de 1980, nos anos finais de seu trabalho antes de sua morte precoce, aos 46 anos.

A mostra conta com texto crítico da curadora Mayara Carvalho, evidencia um período central na produção de Paulo Roberto Leal, no qual a investigação sobre uma “geometria sensível”, vinculada ao neoconcretismo carioca, se consolida como eixo de sua pesquisa, orientando uma prática marcada por procedimentos como costura, sobreposição e modulação.

Iniciando sua trajetória artística no final dos anos 1960, paralelamente ao trabalho como economista no Banco Central, Paulo Roberto Leal desenvolveu uma obra singular pautada pelo rigor formal e pela experimentação com materiais não convencionais. A partir da década de 1970, aprofundou de forma autodidata uma investigação em torno das qualidades plásticas do papel, do tecido e da própria tela, criando objetos e composições que questionam as fronteiras entre pintura, escultura e instalação. Já a série “Vilas” (1986), composta por pinturas realizada sobre papel artesanal, coexiste com uma produção que, no início dos anos 1980, marca a aproximação do artista com a pintura em formatos mais amplos e com blocos de cores vibrantes – fase que se tornaria a sua última, antes de falecer em 1991.

Onde a Arte Acontece.

A MBlois Galeria, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a fluidez cromática de Dani Lima de Freitas. A MBlois Galeria inaugurou a exposição coletiva “Onde a Arte Acontece”, com curadoria de Marlene Blois. A mostra permanecerá até 16 de abril e destaca o trabalho de Dani Lima de Freitas, artista visual e designer, cujas aquarelas capturam o “deslumbramento marcante” das formas e o encontro das cores.

Graduada em Desenho Industrial e Comunicação Visual pela PUC-Rio, Dani Lima de Freitas apresenta uma produção que sintetiza a sensibilidade estética. Sua obra é marcada por uma multiplicidade de linguagens e pela profunda influência de narrativas familiares, resultando em composições plenas de movimento, matizes e sentimentos.

Para a artista, a formação acadêmica foi o desdobramento natural de uma aptidão manifestada na infância. Criada em um ambiente onde a arte era o idioma comum entre gerações, ela transformou o fascínio por texturas em uma carreira pautada pelo detalhismo. Sobre sua identidade artística, Dani pontua: “Distante de qualquer pretensão comparativa, trilhei o caminho dos operários do desenho. Assim como Toulouse-Lautrec, encontro meu lugar na intersecção entre a pintura em tela e a força visual dos cartazes.”

Além de sua produção autoral, Dani Lima de Freitas é especialista em Educação Infantil pela PUC-Rio. Sua trajetória acadêmica, fundamentada por teóricos como Vygotsky e Ana Mae Barbosa, reflete-se em uma visão da arte como linguagem essencial para o autoconhecimento. Tendo a natureza como sua principal fonte de inspiração, a artista utiliza suas obras para promover uma conexão sensível e autêntica com o mundo.

Da construção civil à espiritualidade.

“Pedra de Rumo”, exposição individual de Nelson Felix, foi inaugurada na Almeida & Dale da Rua Fradique Coutinho 1360, São Paulo, SP, e permanerá em cartaz até 02 de maio. Com texto assinado por Keyna Eleison, a exposição emerge de uma cartografia expandida em desenvolvimento pelo artista há cerca de três anos.  

Linhas traçadas entre o espaço expositivo da galeria e o Museu de Arte Contemporânea da USP formam uma cruz quase perfeita; o ponto em que elas se cruzam, em uma praça na zona oeste de São Paulo, abriga Nó a Nó, início do projeto que constitui a nova exposição de Nelson Felix. Sentidos que vão da construção civil à espiritualidade, cabem em pedra de rumo – expressão que nomeia a mostra e a nova série de trabalhos apresentados pelo artista. Esculturas que tecem relação entre mármore, bronze e elementos vegetais, somados às séries “1/2 eu” e “Caymmi”, constituem em conjunto “uma sinfonia à São Paulo”, como pontua o artista.  

“Pedra de Rumo” é também a segunda etapa material do processo em continuidade que iniciou em “Nó a Nó” e que culmina em “Beijo de Língua”, exposição individual de Nelson Felix a ser inaugurada em maio no MAC-USP.

Allan Weber no Instituto Tomie Ohtake.

23/mar

A Galatea compartilha a nova individual de Allan Weber (1992, Rio de Janeiro), “Allan Weber – Existe uma vida inteira que tu não conhece”, com o Instituto Tomie Ohtake, sob a curadoria de Ana Roman e Catalina Berguesno. A exposição reúne cerca de 40 obras produzidas em torno da pesquisa do artista sobre o trabalho com entregas por aplicativo e das conexões estabelecidas dentro das dinâmicas da vida urbana.

Dentre as fotografias, vídeos, objetos e instalações que compõem a mostra, estão algumas nunca antes expostas em São Paulo, como as esculturas da série “Nós que sustenta na raça”. Colunas formadas por caixas-d’água empilhadas trazem para o espaço expositivo a inventividade prática inscrita na vida da cidade, associadas ao manejo de recursos e modos de erguer e adaptar espaços.

Na mesma direção, assentos de moto, mochilas de entrega e capacetes são deslocados para o campo da arte em instalações que ganham uma dimensão poética, em grande parte desenvolvidas durante sua residência artística na Nottingham Contemporary, no Reino Unido, em 2024. Ao se debruçar sobre o universo dos motoboys, o artista transforma esses elementos familiares das ruas em imagens que refletem sobre condições contemporâneas de trabalho.

Pinturas escavadas.

A Nara Roesler, Ipanema, Rio de Janeiro, convida para abertura da exposição “Um rio em mim”, no dia 26 de março, às 18h, com trabalhos inéditos criados pela artista Manoela Medeiros, conhecida por seu processo de escavação na pintura. Esta é a primeira mostra individual da artista na Nara Roesler Rio de Janeiro. No ano passado, fez uma individual na Palo Gallery, em Nova York, que ganhou elogiosa crítica na prestigiosa revista Artforum.

Vivendo desde 2012 durante longos períodos na França onde tem consolidado sua carreira junto a outros jovens artistas, Manoela Medeiros mora no Rio de Janeiro, onde também tem seu ateliê. Sua relação com a França teve início em Paris, para onde foi cursar a École de Beaux Arts, tendo retornado repetidas vezes à capital francesa para participar de residências artísticas, como a da Cité des Arts, em 2019. Desde 2021 fica também baseada em Marselha, quando foi selecionada para uma bolsa oferecida pela Prefeitura da cidade.

Suas mais recentes coletivas no Rio de Janeiro foram “Rasura”, com curadoria de Victor Gorgulho, também na Nara Roesler Rio de Janeiro, em 2026; “Hábito-habitante”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em 2021, e “Superfícies sensíveis”, na Caixa Cultural, em 2018.

Manoela Medeiros ressalta que nesta mostra na Nara Roesler Rio de Janeiro “foi a primeira vez em que o processo de criação aconteceu de forma bastante orgânica e livre”. “Dessa vez, foi o processo no ateliê que ditou mais as obras da exposição. Fui fazendo livremente, principalmente pinturas escavadas, e a partir delas formando um conjunto e sua conversa”.

Manoela Medeiros diz que seu trabalho “está em um limiar entre natureza e cultura”.  “O que me interessa não é exatamente a arquitetura em si, mas o entorno, onde as coisas estão inseridas. Então, seja a arquitetura do espaço expositivo onde realizo trabalhos site specifics (feitos para o local), ou uma ruína abandonada, local onde coleto fragmentos de paredes – matéria-prima essa que é utilizada em trabalhos -, o ambiente onde sujeito e coisas se encontram e as relações que são tecidas entre eles são o que me interessam”.

Até 09 de maio.

Miguel Afa em Roma.

 

O artista Miguel Afa abre, no dia 24 de março, a exposição solo “O tempo que vive em mim”, uma colaboração entre A Gentil Carioca (Rio de Janeiro e São Paulo) e a galeria italiana rhinoceros, em Roma, Itália. As pinturas foram concebidas e produzidas durante residência artística no espaço, especificamente para esta exposição, e serão apresentadas pela primeira vez.

A série reflete experiências cotidianas de Afa no Rio de Janeiro e em Roma e abrange as relações entre vida, memória e lugar. Como afirma o artista: “Memória é um corpo: saudade é um quintal”, evocando um território afetivo onde memórias, experiências e desejos se encontram.

Até 03 de junho. 

A amplitude da pesquisa material.

17/mar

O Instituto Ling, Bairro Três Figueiras, Porto Alegre, RS, apresenta “Dias normais”, mostra individual de Shirley Paes Leme, com curadoria de Tálisson Melo. A exposição reúne um conjunto plural de obras que evidencia a amplitude da pesquisa material e poética da artista, articulando tecnologia, matéria orgânica transformada e processos escultóricos tradicionais.

O público encontrará trabalhos que atravessam diferentes linguagens, como luz, vídeo, metal, resíduos urbanos e formas escultóricas em bronze, produzidos a partir de 2014, período em que Shirley Paes Leme aprofunda sua investigação sobre a percepção em meio às crises contemporâneas: da poluição à guerra, das tecnologias onipresentes aos lampejos de esperança.

A abertura acontece em 17 de março, às 19h, com uma conversa aberta ao público entre a artista e o curador Tálisson Melo. Para participar, basta realizar uma inscrição prévia no site.

Ampliando a circulação.

16/mar

O artista plástico André Pivetti integra a exposição “Cromatismo: Alegoria das Cores”, em cartaz no Espaço Cultural Vogue Gallery BR, no Shopping Vogue Square, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.

As obras do artista permanecem em exposição para visitação até o dia 20 de março. A mostra reúne cerca de 24 artistas e evidencia a diversidade de linguagens presentes na arte contemporânea.

As obras de Pivetti seguirão para São Paulo, onde o artista apresentará no Solar Fábio Prado, nos dias 28 e 29, ampliando a circulação de sua produção no circuito artístico nacional.
Os trabalhos do artista vêm despertando grande interesse do público. As criações de Pivetti apresenta uma linguagem artística marcada pela intensidade emocional.