Hiper-realismo no CCBB/SP

21/nov

Trabalhos ligados ao hiper-realismo são o ponto de partida da nova exposição no CCBB, São Paulo, SP, “50 Anos de Realismo – Do Fotorrealismo à Realidade Virtual”. O público encontrará em exibição cerca de 90 obras, entre pinturas, esculturas, vídeos e instalações interativas, feitas por 30 artistas de vários lugares do mundo. Um dos destaques é o trabalho hiper-realista de Giovani Caramello. Tereza de Arruda responde pela curadoria. Há obras de que participaram da Documenta de Kassel em 1972, pioneira em dar visibilidade a essa tendência no campo internacional.

 

Um dos destaques é o inglês John Salt, que mudando-se para os Estados Unidos na década de 1960, passou a registrar em suas pinturas as paisagens suburbanas ou parcialmente rurais do país, como carros abandonados e trailers dilapidados. Neste setor também estão as obras a óleo e aquarelas do norte-americano Ralph Goings (1928 – 2016), que retratam caminhonetes, restaurantes populares e naturezas-mortas de produtos triviais, como embalagens de ketchup e mostarda.

 

No 2º e no 3º andares, os trabalhos foram divididos em quatro temas: paisagem e paisagem urbana, retrato e natureza-morta, onde encontram-se pinturas em grandes dimensões baseadas em espaços arquitetônicos e urbanos do britânico Ben Johnson, as paisagens naturais da inglesa Raphaella Spence e as representações geométricas inspiradas em fachadas de prédios modernistas do brasileiro Hildebrando de Castro.

 

Neste espaço há também obras tridimensionais de escultores do hiper-realismo que mostram representações do corpo humano. Além do trabalho de Caramello, – único brasileiro na exposição dedicado a este estilo -, há esculturas do dinamarquês Peter Land.

 

No 1º andar e no subsolo estão as artes que exploram a realidade virtual. Neste setor, destacam-se o japonês Akihiko Taniguchi, que desenvolve modelos detalhados em 3-D de espaços do cotidiano e os insere na realidade virtual de sua obra; e a brasileira Regina Silveira, que explora mídias distintas em uma mesma obra, sendo precursora em trabalhos com vídeo, fotografia, colagem, xerox e postais. Na exposição, apresenta uma animação digital.

 

Desde a abertura, o CCBB São Paulo já realizou um bate-papo gratuito sobre realismo na contemporaneidade aberto ao público. Participaram Tereza de Arruda (curadora), Bianca Kennedy, Fiona Valentine Thomann, Hildebrando de Castro, Rafael Carneiro, Regina Silveira, Ricardo Cinalli, The Swan Collective (artistas) e Maggie Bollaert (consultora).

 

Até 14 de janeiro de 2019.

Rubem Valentim no MASP

A exposição “Rubem Valentim : Construções afro-atlânticas” reúne no MASP 90 obras do pintor, escultor e gravador Rubem Valentim (Salvador, 1922 – São Paulo, 1991), figura fundamental da arte brasileira e das histórias afro-atlânticas no século 20.
A partir dos anos 1950, Valentim se apropria da linguagem da abstração geométrica para construir complexas composições que redesenham e reconfiguram símbolos, emblemas e referências afro-atlânticos. Nesse processo, ele transforma linguagens artísticas de origem europeia que dominaram boa parte da produção de arte no Brasil e no mundo, nos anos 1950 e 1960 (a abstração geométrica, o construtivismo, o concretismo), submetendo-as a referências africanas, sobretudo através dos desenhos e diagramas que representam os orixás das religiões afro-brasileiras – como o machado duplo de Xangô, a flecha de Oxóssi e as hastes de Ossaim.

 

Apesar de sua importância, Valentim ainda não obteve o devido reconhecimento, e essa exposição e o catálogo que a acompanha buscam reposicionar o artista na história da arte brasileira e internacional. O enfoque busca uma abordagem mais ampla de sua obra, sublinhando seus aspectos políticos, religiosos e sobretudo afro-brasileiros, para além das abstrações, construtivismos e geometrias.

 

O período coberto pela mostra vai desde 1955, quando, ainda em Salvador, Valentim assumiu decididamente suas referências do candomblé e da cultura afro-brasileira, até 1978, quando se encerra seu período mais fértil. A exposição atravessa cronologicamente as diferentes fases e locais onde o artista trabalhou: Bahia (1949-1956), Rio de Janeiro (1957-1963), Roma (1964-1966) e Brasília (1967-1978). O conjunto inclui agrupamentos  fundamentais, como a série Emblemas logotipos poéticos da cultura afro-brasileira, exposta na Bienal Nacional de São Paulo de 1976, e os Relevos emblemas de 1977-1978.

 

Em seu Manifesto Antropofágico, de 1928, um texto primordial do modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954) propunha de forma poética um verdadeiro programa para o intelectual e o artista nativo: o de deglutir o legado cultural europeu para digeri-lo e construir, de maneira antropofágica, uma obra própria, híbrida, brasileira, mesclando referências indígenas, africanas e europeias. Valentim é um dos artistas que, de maneira mais completa e ambiciosa, levou a cabo o projeto antropofágico. Nesse processo, ele realizou uma das mais radicais operações na história da arte brasileira, submetendo um idioma europeu a uma linguagem afro-brasileira, numa contribuição efetivamente singular e potente, descolonizadora e antropofágica.

 

O catálogo “Rubem Valentim: Construções afro-atlânticas”, com organização editorial de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, com edições separadas em português e inglês, inclui reproduções de 99 trabalhos do artista; textos de autores convidados a produzir novas reflexões sobre a obra de Valentim, caso de Abigail Lapin Dardashti, Adriano Pedrosa, Artur Santoro, Fernando Oliva, Lilia Schwarcz e Helio Menezes, Lisette Lagnado, Marcelo Mendes Chaves, Marta Mestre, Renata Bittencourt e Roberto Conduru; e republicações de textos históricos, de Clarival do Prado Valadares, Frederico Morais, Giulio Carlo Argan, José Guilherme Merquior, Mário Pedrosa, Roberto Pontual e Bené Fonteles. A publicação traz ainda reproduções inéditas dos cadernos de Rubem Valentim da década de 1960, material raro que virá a público pela primeira vez, trazendo croquis, projetos para obras, anotações e pensamentos do artista.
A curadoria é de Fernando Oliva, curador do MASP.

 

 

 

Até 10 de março de 2019.

Anita Schwartz exibe duas artistas 

A Anita Schwartz Galeria, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, apresenta as exposições “Entre Águas”, de Maritza Caneca, e “Revoada”, de Claudia Melli, ocupando o térreo e o segundo andar da galeria. Maritza Caneca dá continuidade à pesquisa com piscinas, tema que permeia sua trajetória artística desde 2012. Já em Revoada”, Claudia Melli apresenta um conjunto de desenhos realizados entre 2017 e 2018, numa alusão ao movimento da vida e a passagem do tempo.

 

Em sua segunda individual no Rio de Janeiro, a fotógrafa Maritza Caneca expõe o resultado de suas andanças por Budapeste em julho de 2018, onde visitou 56 piscinas em cinco dias. Com 9 imagens inéditas, de 100 X 150cm e ampliadas em papel algodão, a seleção traz o registro das termas Rudas, Szechenyi, Gellert, Kiraly, Lukacs, Palatinus e Römai e inclui, ainda, a foto da instalação “Swimming Pool” (2016), de Leandro Erlich, que fica no Museum Voorlinden, em Wassenaar, na Holanda. Além das 9 imagens inéditas fará parte da exposição a obra “Swimming Pool”, 2018, que foi apresentada na ArtRio, e três obras em formato redondo em metacrilato, fineart, em tamanhos variados. A mostra terá um texto de apresentação assinado por Vanda Klabin. “Este ainda é o trabalho das piscinas, mas em evolução. Quando chego em uma piscina é sempre uma surpresa. Por isso escolhi Budapeste, com suas termas de origem árabe, turca, romana. É um universo vasto de diferentes formas”, comenta Maritza.

 

Tendo como referência a obra de David Hockney e James Turell, o olhar da artista, que começou a carreira nos sets de cinema, está refletido na geometria dos elementos com que trabalha. “Busco a simetria nas imagens, mas não tenho compromisso com o local. A ideia ao registrar este ambiente é que ele se torne atemporal, único”, explica. Maritza Caneca completa a mostra com um vídeo em looping e duas esculturas de cubo em azulejo, cada uma com seis placas de 14 x 14cm, fruto da temporada em Lisboa no início de 2018. “Desde o início busco diferentes maneiras de registrar esta experiência. Em 2017 fiz o primeiro trabalho com azulejos, com a instalação de um grande painel com fotos da piscina do Copacabana Palace. Quando estive em Portugal, tive a oportunidade de aprimorar a técnica com azulejo queimado e produzir as placas com diferentes desenhos em cima das fotos de Budapeste”, completa.

 

Paulista radicada no Rio de Janeiro, após três anos sem expor na cidade, Claudia Melli faz sua primeira individual na Anita Schwartz Galeria. “Revoada” é um conjunto de 80 desenhos em nanquim sobre placas de vidro, com dimensões variadas, realizados entre 2017 e 2018. No contêiner, no terraço da galeria, Claudia Melli complementará a exposição com o vídeo “Imagens da Lua” (2007, 14’8”), da Sonda Espacial Kaguya do Japão, com imagens de diferentes momentos da lua ao longo de sua rotação. A mostra aborda um tema recorrente no trabalho da artista, antes representado pelos mares, árvores e vento: a passagem do tempo. Inspirada pela Andorinha do Mar do Ártico (Sterna Paradisaea), espécie que entre as aves realiza extensas migrações, alcançando ao final do ciclo uma distância equivalente a uma volta completa ao redor da Terra, a artista se apropria do voo das aves em uma mesma direção para representar os ciclos naturais da vida. “Assim como a migração de certos animais, a passagem das estações, o movimento das marés, o dia e a noite, a nossa respiração. Sendo a Terra um sistema fechado, o nosso ar, água, vida, alimento e tudo mais, não vem de outro lugar senão do eterno e sistemático movimento que acontece em nosso planeta através dos ciclos da natureza, mantendo o fluxo da vida contínuo fazendo com que estejamos todos conectados. Não se trata de uma visão ecológica, mas da minha perplexidade diante de tamanha perfeição e beleza”, comenta.

 

 

 

Sobre Maritza Caneca

 

Há cinco anos, Maritza Caneca se dedica a fotografar piscinas pelos quatro cantos do mundo. Já esteve em Israel, Suíça, Cuba e clicou o espelho d´água mais antigo de Lisboa. Seus trabalhos são conhecidos no circuito da arte internacional, em exposições coletivas na Arte Cartagena, Art Copenhagen, Scope Miami Beach, Scope Basel Suíça e Scope Nova York. Recentemente, a artista foi selecionada para uma residência artística no disputado BakehouseArtComplex, em Miami, onde tem um estúdio ao lado de mais de 50 artistas. Seu percurso artístico começa nos anos 1980 como fotógrafa de still em filmagens cinematográficas. Desde então, assinou importantes projetos no cinema e na TV, entre eles “A luz do Tom” (2013), de Nelson Pereira dos Santos; “Carlos Burle Gigantes por Natureza” (2012), de Felipe Jofily; e “Viver com Fé, em Jerusalem”, com Cissa Guimarães, para o GNT. Suas fotos podem ser vistas no Rio de Janeiro, São Paulo, Los Angeles, Barcelona, Genebra e Londres. Entre as individuais estão as exposições “Water Diaries”, na Clima Art Gallery (2018), e “Pool Series”, na Bossa Gallery (2016), ambas em Miami.

 

 

 

Sobre Claudia Melli

 

Expondo desde 2007, Claudia Melli atua na fronteira entre o desenho e fotografia, sempre indagando sobre a natureza dos mecanismos de percepção. Participou de algumas coletivas como o projeto de interferência no Museu da República, no Rio de Janeiro em 2007, “3 atos 3 artistas” na Galeria Eduardo Fernandes, em São Paulo (2009) e “Monumental”, na Marina da Glória (Rio de Janeiro, 2018). Entre as individuais estão a mostra “ONDE”, galeria Durex, Rio de Janeiro em 2008, “Série Azul” na Fundação Walter Wulltrich – Projeto Brasiléia (Basel, Suíça – 2014) e “Lugares onde nunca estive”, no MAM Rio (2015).

 

 

 

De 22 de novembro a 12 de janeiro de 2019.

Ai Weiwei no Brasil

12/nov

Agora, as obras de Ai Weiwei – que passaram por exposições na Argentina e no Chile – encontram-se no Brasil. Com curadoria de Marcelo Dantas, “Ai Weiwei Raiz” está em exibição na Oca, Parque Ibirapuera, em São Paulo. A mostra é a primeira individual do artista no Brasil, e uma das maiores realizadas por ele, com quase 8 mil metros quadrados de extensão e cerca de setenta obras.

 

Em 2011, quando o curador Marcello Dantas teve a ideia de fazer uma grande retrospectiva do artista e ativista Ai Weiwei no Brasil, ele não imaginava que demoraria cerca de oito anos para concluir o projeto. A demora é justificada: nesse meio tempo, Weiwei, conhecido por suas críticas ao regime da China, foi preso e impossibilitado de sair de seu país de origem. Quando ele sinalizou que teria o passaporte de volta, Dantas foi à Pequim e posteriormente à Berlim – onde o artista se estabeleceu – para retomar as negociações do que seria a maior individual já realizada do artista chinês.

 

Além de trabalhos icônicos, a exposição reúne peças recentemente confeccionadas, muitas delas em ateliês brasileiros. “Nos dois casos, é importante destacarmos o processo de inoculação pelo qual essas obras passaram. Chamamos essa ideia de ‘mutuofagia’. Esse conceito, que permeia a mostra como um todo, é representativo de um intercâmbio cultural extremo pelo qual Ai Weiwei e o Brasil passaram, em que o artista incorporou-se ao país, ao mesmo tempo que o país incorporou-se ao artista e à exposição, por meio de elementos culturais e processos produtivos.

 

O artista exibe peças da obra “Sunflower Seeds” (Sementes de girassol),  uma das obras mais conhecidas, trabalho composto por milhões de sementes de girassol feitas em porcelana e pintadas à mão por artesãos chineses; “Straight” (Reto), instalação feita com 164 toneladas de vergalhões de aço recuperados dos escombros de escolas em Sichuan (China), após o forte terremoto que abalou o país em 2008; e “Forever Bicycles” (Bicicletas Forever), obra de caráter arquitetônico que utiliza bicicletas como blocos de construção. O nome da instalação é inspirado na famosa marca chinesa de bicicletas Forever, popular na infância do artista.

 

Já entre as peças produzidas no país, destaca-se “F.O.D.A”, múltiplo formado pelos moldes em porcelana de quatro elementos encontrados no Brasil: Fruta do Conde, Ostra, Dendê e Abacaxi. As peças foram todas produzidas em um galpão em São Caetano do Sul, SP, com a consultoria de designers brasileiros. A mostra apresenta ainda uma série de trabalhos feitos com centenárias raízes de pequi-vinagreiro, espécie da Mata Atlântica em risco de extinção. Esses resíduos foram descobertos no meio da floresta, selecionados e trabalhados pelo artista ao lado de carpinteiros chineses e brasileiros.

 

Engana-se quem acha que o título da exposição vem exclusivamente daí: “É um pouco mais profundo que isso. Nesta retrospectiva, tivemos o trabalho de buscar raízes culturais perdidas por Weiwei. A revolução cultural chinesa taxou de burguesa certas técnicas como a porcelana, e muitas delas foram desaprendidas. Recuperar isso está muito presente no trabalho do artista, por exemplo, em peças como “Sunflower Seeds”. Além disso, o nome tem um trocadilho com a palavra raiz, já que as vogais presentes nela são “ai”, o sobrenome de Weiwei,” revela o curador Marcelo Dantas.

 

Conhecido por tratar de importantes questões sociais e humanas, como liberdade de expressão e crise de refugiados, o artista tem um modo de produzir peculiar. O curador destaca que este esquema de pensamento é um ponto essencial para se entender a reflexão em torno da mostra. “O que está em jogo aqui é o processo mental de Weiwei. Quando ele recupera fragmentos de ferro, como na obra “Straight”, ou raízes de uma árvore para compor uma obra, vemos um jeito de trabalhar muito peculiar. O mesmo acontece com “Sunflowers Seeds” e “F.O.D.A” – nas quais o artista movimenta toda uma comunidade no processo de produção das peças. Como o tema dele é a vida, não temos como fazer uma exposição com um único mote. Por isso, demos prioridade a conectar e refletir sobre o jeito que ele pensa, sua obra enquanto método.”

 

 

Até 20 de janeiro.

Gravuras na Baró Galeria

09/nov

A BARÓ Galeria, São Paulo, SP, apresenta a mostra “O Sentido do Original na Gravura”, composta por gravuras em diálogo com trabalhos originais de artistas e poetas visuais contemporâneos. As gravuras apresentadas são editadas e impressas por Gravuras no Brasil, parceira da BARÓ Galeria para esta ocasião. Destacam-se na sala principal obras gráficas do artista Almandrade e nas salas seguintes obras de Cezar Brandão, Jorge Francisco Soto, Clemente Padin e Falves Silva. O conjunto da mostra oferece um pequeno panorama de uma experiência visual latinoamericana (Brasil e Uruguai) e sua dimensão poética, buscando cativar um olhar crítico e sensível, além do desenvolvimento do gosto pela arte.

 

Até 12 de janeiro de 2019.

Pinturas de Cirton Genaro

Exposição de pinturas de Cirton Genaro na GANSARAL, Campo Belo, São Paulo, SP. A apresentação é do crítico de arte Jacob Klintowitz.

Cirton Genaro.

 

A escritura do mundo e a construção do mito.

Jacob Klintowitz

 

Alguns raros artistas desafiam a lógica do mundo social e se tornam, apesar deles mesmos, paradoxais. Cirton Genaro é um destes. Como é possível elaborar uma pintura com a pincelada, a composição e o cuidado renascentista e ter como assunto os cenários da tragédia humana contemporânea?

 

E, no entanto, estas cenas fronteiriças do abismo se revestem da dignidade da reflexão e do seu caráter paradigmático e simbólico. Em nenhum momento estamos diante do episódico. E, na minuciosa descrição do caos, o artista nos impregna de poesia oriunda do caráter simbólico de suas imagens. E a extrema qualidade pictórica de sua saga visual é, por si só, um símbolo, pois com a conquista humana da linguagem confronta a entropia.

 

Certamente para Cirton Genaro, mestre pintor, não existem assuntos menores e menos nobres. E com esta atitude ele é exemplar das conquistas libertárias da arte: a nobreza não pertence ao assunto ou ao suporte, mas ao tema pictórico. E ao não ceder à tentação do consumo e a sua superficialidade perecível, ele se torna adepto da mais antiga tradição cultural conhecida, a da arte como narração do destino humano.

 

É por esta filiação histórica que Cirton Genaro na sua pintura nos dá a sensação de que estamos diante de alguma coisa muito atual e, ao mesmo tempo, de que nos defrontamos com uma expressão do permanente. Ele está narrando o mundo. A sua arte é uma escritura. E esta escritura é filha de Cronos, pois é uma crônica, o registro do nosso percurso no tempo. Os arqueólogos do futuro poderão encontrar nessas pinturas sinais da nossa civilização. Em Cirton Genaro o cotidiano se torna mito.

 

Com estes atributos a pintura de Cirton Genaro se apresenta como um elemento construtor da nossa visualidade. A qualidade é resultado – além da óbvia dedicação ao estudo – da crença de que a arte é fundamental na história das civilizações e que a função do artista se inicia com a responsabilidade do seu trabalho. Não se trata de carreira, mas de destino.

 

Seria possível identificar em cada uma de suas invenções pictóricas elementos visuais que nos remetam diretamente para os arquétipos da formação do psiquismo, como o arco-íris, semicírculo que têm simbolizado a aliança entre os homens e os Deuses; o barraco em favela tornado Piet Mondrian, arte xamânica ; o canto da cidade contaminada, a margem, transformada pela riqueza cromática em à margem da vida. E, assim, se quisermos, sucessivamente, ao longo dessa iconografia. Entretanto, tenho a convicção de que basta para nós neste momento sabermos que estamos diante do que de melhor um artista pode fazer, transformar o seu testemunho em forma.

Senise na Silvia Cintra + Box4

08/nov

A Galeria Silvia Cintra + Box 4, Gávea, Rio de Janeiro, J, inaugura no dia 08 de novembro a nova exposição individual de Daniel Senise. “Biógrafo” reúne pinturas e fotografias que possuem um elemento de ligação entre si, um retângulo no centro da tela. Esse retângulo reaparece, de alguma forma, em todas as obras da exposição com tratamentos e materiais diferenciados.

 

Um retângulo dentro do retângulo da própria tela, é a ideia central da série “Biógrafo”, que também dá título à exposição. Essa série começou a ser feita em 2013 e será composta por 85 obras. Na exposição serão apresentados três “biógrafos” inéditos. As outras pinturas da mostra retratam interiores de grandes museus e os quadriláteros representam as pinturas expostas nesses espaços. Serão três telas que reproduzem o Museu de Nantes e a Capela Rothko, em Houston, EUA.

 

A técnica das pinturas é a mesma que o artista tem utilizado desde o início dos anos 2000. Com um tecido bem fino, Senise “imprime” o chão de espaços abandonados e recolhe resíduos e vestígios que mostram o acúmulo de memória, e o que sobrou daquele espaço e do tempo. Com poeira, cola e outros restos, o artista vai criando diferentes tonalidades de tecido e depois com uma espécie de marchetaria vai recriando esses espaços na tela.

 

Além das pinturas, a exposição terá uma série de fotografias. São imagens feitas em 2014, nas obras em andamento no antigo Hospital Matarazzo em São Paulo, sobre as quais Senise sobrepõe placas de madeira recolhidas no próprio espaço e que estão representadas nas imagens.

 

 

Até 15 de dezembro.

Exposição de Paulo Roberto Leal

Galeria Bergamin & Gomide, Jardins, São Paulo, SP, apresenta a exposição “Paulo Roberto Leal”.

 

Artista carioca, com influência dos movimentos Concreto e Neoconcreto, é reconhecido por ter explorado as possibilidades plásticas do papel A produção artística de Paulo Roberto Leal (1946 -1991) é tema da exposição apresentada pela galeria Bergamin & Gomide entre os dias 08 de novembro de 2018 e 02 de fevereiro de 2019. As possibilidades e manipulações plásticas do papel kraft e outros papéis mais nobres foram amplamente exploradas pelo artista carioca, que iniciou sua carreira em 1969 como programador visual de catálogos. Os anos 1970 e 1980 marcaram a carreira de Leal, influenciada pelos movimentos Concreto e Neoconcreto, típicos de sua geração, além do movimento Minimalista, a Arte Povera e Arte Conceitual. Apoiado nessas abordagens, o artista apresentou uma produção reflexiva, mesmo sem ter formação acadêmica. Sua técnica foi adquirida por meio do convívio com artistas e críticos, da leitura de obras contemporâneas e da visitação a museus e galerias. A arte de Leal tem caráter experimental, com o objetivo de desenvolver uma lógica de ideias através de uma expressão plástico-visual. A mostra apresentada pela Bergamin & Gomide reúne cerca de 16 trabalhos, entre eles Armagens, que tem moldura acrílica com fragmentos de papel kraft dobrados no limite, antes de formarem vincos. A obra explora a tensão elástica do próprio papel. Ondulando o plano da folha até o seu limite, Paulo Roberto Leal constrói curvaturas e ordena os fragmentos que por acumulação formam linhas nos encontros das diversas folhas. Armagens é um território delimitado pela moldura e um volume contido pela superfície de acrílico transparente e leitoso, que remetem à técnica renascentista do chiaroescuro (contraste entre luz e sombra). Já na série Entretelas e Sobretelas, Leal transmite uma renovada delicadeza em tela crua e a linha de costura, sem papel kraft, articulando formas geométricas com uma tênue sugestão de cor por meio dessas linhas. Em 1978, o artista apresentou uma mudança fundamental em suas criações com Armaduras, ao destacar a simplicidade e a autonomia dos materiais. Embora possa ser vista, a linha é desmaterializada, formada a partir de recortes e colagens. A linha é uma espécie de desejo. Após as mudanças sociais, políticas e culturais ocorridas na primeira metade da década de 1980, a repressão e a ditadura começam a ceder, a expressão artística ganha mais cor e a pintura mais espaço. A arte de Leal também passa por transformações e transita para o campo pictórico, sem deixar de lado todo o legado e a tradição construtivista concreta. Nesse contexto, o artista mostra-se mais aberto à cidade, ao pluralismo, às expressões bem humoradas e à introdução da figuração. Em 1984, Paulo Roberto Leal em parceria com Marcus Lontra e Sandra Magger, organizou a exposição “Como vai você Geração 80?”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Na ocasião, foram reunidos 123 artistas do eixo Rio – São Paulo. Leal e Lontra resumiram o espírito da exposição da seguinte forma: “está tudo aí, todas as cores, todas as formas, quadrados, transparências, matéria, massa pintada, massa humana, suor, aviãozinho, geração serrote, radicais e liberais, transvanguarda, punks, panquecas, pós-modernos, neoexpressionistas (…)”

 

A exposição de Paulo Roberto Leal, em cartaz na Bergamin & Gomide, é realizada com a colaboração da Ronie Mesquita | Galeria, do Rio de Janeiro.

 

Texto de Frederico Morais

Paulo Roberto Leal

Uma Releitura

 

 

Afirmei mais de uma vez, em textos críticos veiculados em jornais e em catálogos de suas exposições, que Paulo Roberto Leal é um artista de tipo novo, pós-moderno. Sigo pensando assim. Na juventude, nunca imaginou ser artista, tanto que se formou em economia e durante muitos anos foi funcionário do Banco Central do Brasil. Jamais cursou qualquer escola de arte, tampouco teve professores particulares. Aprendeu o novo ofício no convívio com artistas e críticos de arte, como frequentador assíduo de exposições e ateliês. Pouco a pouco, formou uma pequena coleção, reunindo obras de Ivan Serpa, Franz Weissmann, Amilcar de Castro, Lygia Clark, Willys de Castro, Volpi, Ione Saldanha e Raymundo Colares, artistas vinculados com maior ou menor grau de intensidade à vertente construtiva da arte brasileira. Um indicativo claro de qual seria sua opção.

 

Data de 1969 o início de sua atuação como artista. Mas, para Leal, desde os primeiros trabalhos autorais, o importante nunca foi exorcizar demônios interiores, nem, tampouco, apesar da gravidade do momento vivido, insistir em uma retórica política. Em sua carreira artística, relativamente curta devido à morte prematura, seu propósito maior foi exercer o pleno controle dos significados de sua obra, tendo como base um pensamento plástico.

 

Artista construtivo, o seu alvo foi sempre a materialidade da obra, a afirmação de seus componentes físicos e não alguma coisa situada fora dela, mas referida ou recriada enquanto imagem atada à superfície da tela. Mesmo em sua fase inicial, que tinha como matéria-prima o papel deslizando intocado sobre o painel, ou dobrado e acumulado em caixas de papelão abertas (“Arme”), convidando à participação criativa do espectador. E também aprisionado em recipientes de acrílico transparente ou fosco (“Armagem”). Mas, diante dos seus trabalhos, espectadores ou colecionadores ainda irão se perguntar se estão efetivamente diante de quadros? A resposta, claro, será afirmativa. Na série de trabalhos denominada “Entretelas”, poderíamos dizer que a agulha da máquina de costura funciona como um pincel, e o fio de linha, como tinta. Assim, sem usar tintas e pincéis, ou recortando e colando fragmentos do tecido, Leal seguiu construindo quadros, tanto que foram destinados à parede, situando-se, pois, no âmbito de uma tradição que se inicia no Renascimento. A portabilidade da pintura.

 

Para Leal, portanto, o quadro nunca foi uma questão encerrada, mesmo depois de tantas vanguardas e de muitas “mortes” anunciadas da pintura. E se nas diferentes etapas de seu projeto elimina a imagem, trazendo ao primeiro plano o próprio suporte da obra, foi para voltar ao grau zero da pintura e começar tudo de novo. Uma vez mais viver a aventura do quadro. A começar pelo próprio tecido da tela, por vezes pintado no avesso e no direito, recortado e costurado – com ocasionais fios soltos a romper a rigidez da composição. Ou colado, mantidas suas cores e manchas anteriores à própria tinta, bem como as texturas e outros valores táteis.

 

O ciclo do papel durou cinco anos. Primeiro, deixado livre, solto, sofrendo a interferência do clima e do tempo. Ou propiciando a participação lúdica e tátil do público – papéis para armar –, “Armagens”. Em seguida, encerrado em estruturas de acrílico transparente em cujo interior o tempo vai lentamente ondulando o papel.

 

Ao trocar o papel pelo tecido como matéria-prima, Leal fez a seguinte indagação: “Meu trabalho seria o mesmo se, àquela época, vivêssemos outra situação, se houvesse qualquer outro tipo de impedimento à criação? Ou nenhum?” E responde ele mesmo: “A cultura funciona dentro de um encadeamento de situações. Se uma das partes está enclausurada, todas as demais sofrem. É certo que aprisionar papéis dentro de caixas de acrílico pode e deve ser considerado um problema meu nos planos ético e estético. Mas é também um problema de ordem mais geral. Hoje troquei o papel pelo tecido, o que para mim significa uma abertura em termos de vida: assumir com franqueza um determinado comportamento, uma visão mais racional das coisas, enquanto antes, no papel, de certa maneira, eu me escondia.”

 

O momento mais radicalmente construtivo da obra de Paulo Roberto Leal é a série “Entretela” (1974-1976). Ela reúne telas costuradas, pintadas a óleo, cujas linhas (costuradas e não riscadas) definem espaços modulares e simétricos, impecavelmente silenciosos e limpos. E que assim se mantêm mesmo quando os módulos internos disputam a primazia do primeiro plano ou quando a tela, sustentada em um de seus vértices, se deixa cortar por linhas transversais, sem que o equilíbrio seja afetado. Uma segunda série, “Armadura” (1978-1980), reunindo pinturas a óleo recortadas e coladas sobre tela, tem a mesma raiz construtiva. Mas os fragmentos da tela recortada são em seguida colados sobre outra tela, criando na sua junção linhas fictícias, fortes e bem visíveis, enquanto parecem se descolar, antevendo o colapso da superfície. O que, entretanto, não acontecerá.

 

Respondendo à pergunta contida no título de meu comentário sobre uma exposição de Leal realizada no Rio de Janeiro, em outubro de 1980, eu afirmo no texto: “Não é preciso muito esforço mental para perceber que mesmo quadros como os que Leal expõe na Galeria Saramenha podem ter implicações políticas. O próprio caráter construtivo de sua obra se opõe ao caos permanente de nossa sociedade, a uma realidade tropicalista, mas, também, por ser uma geometria brasileira e tropical, ela tem qualidades sensíveis que diferem de outras geometrias mais rígidas. Ou seja, ela não se opõe apenas ao caos reinante fora dos limites do quadro. Ela procura entender esse caos, recolher a espontaneidade e a alegria de sociedade cultural mais aberta. Porque o excesso de rigor pode levar igualmente ao autoritarismo da forma, tão prejudicial quanto a ausência de qualquer ordem.”

Frederico Morais

Ana Sario exibe “Polaroid” 

06/nov

A Galeria Marcelo Guarnieri, Jardins, São Paulo, SP, apresenta, a partir do dia 09 de novembro, “Polaroid”, exposição individual da artista Ana Sario. A mostra reúne um grande conjunto de pinturas inéditas realizadas em 2018 que se apropriam do formato da fotografia Polaroid.

 

Ana Sario busca traduzir, por meio de suas pinturas, os estados de espírito ou sensações que imagens ou situações de contemplação causam em nós: os muitos tons de azul que se encontram e se modificam lentamente no céu do fim do dia, a vista do jardim interrompida por uma cortina persiana cor-de-rosa, um campo vasto florido que alcança até o infinito o nosso campo de visão, ou até mesmo a luz intensa da manhã que atravessa, pelas frestas, um arbusto de hibiscos. O assunto da janela, aparece no trabalho de Sario sob abordagens diversas, trazendo à reflexão os aspectos do olhar: quando em paisagens longínquas que nunca acessaremos em sua totalidade, ou em naturezas-mortas compostas por vasos de plantas ou bibelôs tão ao alcance das mãos; quando em telas que, compostas por fitas isolantes, tijolinhos de barro ou pela ação que simula o próprio tecido que serve de suporte, parecem vedar algo que está por detrás, mas que na realidade já é ali a pintura em si.

 

Em “Polaroid”, Ana Sario explora esse assunto aproximando-se mais explicitamente das discussões em torno da imagem fotográfica. Ao fazer clara referência em suas pinturas ao formato da fotografia instantânea que dá título à exposição e ao se utilizar de imagens coletadas na internet ou produzidas pela câmera do celular, a artista propõe uma reflexão sobre a nova dinâmica da contemplação à qual estamos submetidos na era digital. Há uma justaposição de temporalidades nesse conjunto de pinturas: o tempo acelerado dos olhos que ansiosos percorrem as telas dos dispositivos eletrônicos ou das mãos inquietas e da “chuva de likes” agora fazem parecer vagaroso o tempo da imagem que se revela na superfície do papel fotossensível ou até mesmo o tempo dos pincéis e das tintas na execução de uma tela de 10,5 x 10,5 cm.

 

A discussão sobre o tempo parece também atrelada à discussão sobre o espaço, como observou José Bento Ferreira, autor do texto da exposição: “Ao proporcionar uma encarnação para a imagem sem corpo, a pintura salva-a da irreferência à qual está eternamente condenada no não-lugar das infovias, submetida à avaliação visual instantânea dos cliques, incompatível com uma fruição verdadeira. Por outro lado, a série de pinturas produzidas a partir de imagens encontradas nas derivas virtuais reconfigura o espaço ao redor, torna-o “heterotópico” conforme a formulação do filósofo Michel Foucault, isto é, um lugar que está fora de todos os lugares, um “contraespaço”.”

 

 

Sobre a artista

 

Ana Sario, 1984 – São Paulo, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo. Participou das exposições coletivas: “Os Primeiros 10 Anos” e “Energias da Arte”, ambas realizadas no Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil; “Além da Forma” no Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, Brasil; “Em espera” no Museu Murillo La Greca, Recife, Brasil e MACC – Museu de Arte Contemporânea de Campinas, Campinas, Brasil; MARP – Museu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil. De agosto a dezembro apresenta outros trabalhos da série “Polaroid” em exposição individual no Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto. Ana Sario integra a publicação “Pintura Brasileira Século XXI”, da Editora Cobogó.

 

 

Visitação de 09 de novembro de 2018 a 12 de janeiro de 2019.

Bonsai – Microcosms Macrocosms

A Galeria Marcelo Guarnieri, unidade de São Paulo, Jardins, apresenta, a partir do dia 09 de novembro, a exposição individual do artista japonês Yamamoto Masao. A mostra reúne livros e fotografias realizados entre 1989 e 2018, incluindo sua mais recente série “Bonsai – Microcosms Macrocosms”, iniciada em 2018.

 

“Bonsai – Microcosms Macrocosms” consiste em um conjunto de registros feitos por Yamamoto Masao dos Bonsais cultivados por Minoru Akiyama, o mais jovem artista de Bonsai a receber o prestigioso prêmio Primeiro-Ministro do Japão. Por meio dessas fotografias, Yamamoto procura entender como o Bonsai, “uma criação nascida de uma colaboração lúdica entre a natureza e as pessoas”, é capaz de dominar a atmosfera do ambiente onde é instalado, promovendo uma sensação de paz e tranquilidade. “Bonsais famosos podem ter centenas ou milhares de anos. Talvez esse tempo de resistência dê à árvore uma espécie de aura. Sua vida, sustentada dentro de um pequeno vaso, com a menor quantidade de terra, abraça a tranquilidade da vida e a agitação da morte. Sua grandeza não é algo que possa ser explicado em palavras.”, afirma Yamamoto.

 

Além das séries “A Box of Ku”, “Nakazora”, “Kawa=Flow” e “Shizuka=Cleanse” (exibida pela primeira vez no Brasil), serão apresentadas também as “caixas-poemas” “Ryokan” e os “livros-sanfona”. As “caixas-poemas” contêm em seu interior, cada, cerca de seis fotografias pequenas e um haiku de autoria de Ryokan (1758 – 1831), importante poeta e monge zen-budista japonês. Na mostra, são dispostas em vitrines, onde é possível ver o conjunto de imagens e versos em diálogo. Já os livros são apresentados abertos, de maneira que o espectador consiga visualizar todas as imagens. O artista entende ambos os formatos também como espaços expositivos, que possuem uma dinâmica própria, onde fica evidente a dimensão material da fotografia – nas imperfeições das bordas do papel  e de seu caráter intimista.

 

“O mundo do Bonsai é semelhante ao mundo do haiku e do waka, já que são construídos apenas por elementos mínimos. Além disso, sempre senti que a fotografia e o haiku são métodos de expressão muito semelhantes. Através do meu trabalho “Bonsai – Microcosms Macrocosms”, quero que todos vejam e experimentem esse efeito mínimo ainda que máximo, ou em outras palavras, infinito. Você pode pensar “…eu poderia ir ver um verdadeiro Bonsai”, mas eu queria que as pessoas ouvissem as “conversas” que eu tive diretamente com o Bonsai. Continuo o meu trabalho em busca de um terreno comum entre a quintessência do Bonsai e a quintessência do que eu percebo como o universo, que é: todas as coisas.”

 

As pequenas dimensões de algumas fotografias de Masao Yamamoto, assim como os livros ou as caixas, refletem seu interesse pelas miudezas e detalhes, por aquilo que cabe na palma da mão, que precisa ser olhado com calma e atenção. Atenção e paciência também são convocadas na hora de perceber e capturar situações fugazes, pequenas, porém nunca menores em grau de importância, carregadas de poesia e beleza. Pode ser o bater de asas de um pássaro, o olhar vidrado de um bicho, a sombra de um papel que voa ou até mesmo um vaso de flores equilibrando-se na beirada de uma mesa. Podem ser também árvores em miniatura ou coisas que encontra pelos bosques ao redor de sua casa, que em Bonsai e Shizuka adquirem grandes dimensões. As fotografias de Yamamoto, ampliadas quase sempre em preto e branco, se revelam por meio de um manejo cuidadoso da luz, e evidenciam a importância que tanto a claridade, como a escuridão, podem ter na construção de significados.   

 

O haiku é uma forma tradicional poética da literatura japonesa, consiste em um poema curto de 17 sílabas, dividido em três versos, que procura registrar a percepção de um “momento privilegiado”, normalmente relacionado ao meio-ambiente e às estações do ano. Em português, pode ser chamado de haikai ou haicai. O haiku deriva de uma forma poética mais antiga, mas ainda popular, a waka, que havia sido usada durante mil anos antes do haiku. A palavra waka significa “poema japonês”. Bonsai é uma forma de arte japonesa que se utiliza de grama e árvores: um punhado de terra e um vaso são usados para recriar paisagens selvagens em miniatura. O esforço necessário para nutrir e cultivar essas plantas por décadas é imenso, exigindo habilidade especializada. Em outras palavras, o bonsai é uma forma viva de arte.

 

 

Sobre o artista

 

Yamamoto Masao, 1957 – Gamagori, Japão. Vive e trabalha na província de Yamanashi, Japão. As fotografias de Yamamoto Masao capturam instantes e detalhes que, a um rápido olhar, poderiam passar despercebidos. As cenas que constrói, envoltas em uma atmosfera poética, nos remetem a um tempo passado, enigmático e silencioso. Suas fotos em preto e branco por vezes ganham tons amarelados e pequenos rasgos, o que as permite incorporar a carga de uma idade avançada. Assumindo, às vezes, pequenas dimensões, podem ser seguradas na palma da mão ou levadas no bolso da calça, como pequenos amuletos; podem ainda ser guardadas em caixas e formar coleções preciosas, como são as caixas de fotografias de nossos pais e avós. Em algumas situações, Yamamoto escolhe dispô-las na parede em arranjos que assemelham-se a nuvens; os conjuntos acabam por formar poemas visuais que exigem do observador um olhar mais cuidadoso e desacelerado. Suas primeiras exposições foram realizadas em 1994 e 1996 em São Francisco e Nova York e foram seguidas por inúmeras outras nos Estados Unidos, Europa, Japão, Rússia e Brasil, incluindo, mais recentemente, no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, em agosto de 2017. Seus trabalhos integram coleções de museus internacionais de prestígio, como o Museum of Fine Arts, Houston; the International Center of Photography, New York; the Victoria & Albert Museum, Londres; Maison Européenne de la Photographie, Paris. Ele publicou inúmeros livros nos EUA, Espanha, Japão e Alemanha, que foram resenhados no New York Times, no Los Angeles Times e em outras importantes revistas.

 

 

Visitação: de 09 de novembro de 2018 a 12 de janeiro de 2019.