Biquínis no CCBB-Rio

17/mai

A exposição “Yes! Nós temos biquíni”, no CCBB Rio, Centro, Rio de Janeiro, RJ, apresenta os aspectos sociais, históricos e culturais de uma criação revolucionária no mundo da moda e a sua devida apropriação pelos brasileiros, transformando-a em objeto de desejo do mundo todo. O traje nasceu na França, em 1946, mas originou-se há séculos, como mostram as preciosas tangas marajoara do período pré-colombiano. Do pesado traje de banho do século 19 às novas modelagens do século 21, a exposição ressalta as mudanças de comportamento e conquistas da mulher nesse período, os padrões de beleza e sua relação com a arte. A curadoria é de Lilian Pacce.

 

A mostra reúne cerca de 120 obras, entre looks icônicos e históricos de moda praia, fotografias, pinturas, esculturas, vídeos, ilustrações, instalações, artefatos históricos e amplo material iconográfico. Performances, debates e um ciclo de cinema também fazem parte da programação da exposição, que ocupará o 2º andar do Centro Cultural.  A exposição é patrocinada pelo Banco do Brasil.          

 

“A moda, para além de seu propósito inicial que é vestir o corpo, sempre esteve relacionada a questões sociais, culturais, políticas e econômicas. Esta exposição traz uma diversidade, que sempre buscamos para a programação do CCBB e apresenta um diálogo entre o elemento de maior representação brasileira na moda mundial com obras de arte contemporâneas que desafiam o visitante a interpretar essas associações”, comenta o gerente-geral do CCBB Rio, Fabio Cunha.

 

O percurso começa com uma explicação sobre a criação do engenheiro francês Louis Réard, que ousou diminuir a calcinha de cintura alta e revelar o umbigo da mulher – símbolo do vínculo e da ruptura entre duas vidas, zona erógena, centro do corpo humano e do mundo, como se percebe na obra Um.Bigo, de Lia Chaia. Réard queria que sua ideia fosse tão explosiva quanto os primeiros testes nucleares no atol de Bikini – daí surge o nome da peça. Ilustrando modas, modismo e rupturas, uma linha do tempo mostra a evolução do traje de banho, com peças originais desde o século 19 até hoje, looks que sintetizam a imagem de cada década assim como as mulheres que fizeram a fama do biquíni ao longo da história.

 

Na sala seguinte, o visitante descobre que historicamente, apesar de ser uma criação francesa, o crédito pela invenção do biquíni poderia caber aos índios brasileiros e sua forma de cobrir o corpo. Tangas marajoaras datadas do período pré-colombiano, cedidas pelo Museu de Arqueologia e Etnologia – USP, mostram que os trajes já eram usados por aqui muito antes do descobrimento, mas não eram percebidos como “roupa” sob o prisma da moral dos colonizadores portugueses. A sala se completa com obras de artistas nascidos em outros países, mas que escolheram o Brasil para viver, como Claudia Andujar, John Graz e Maureen Bisilliat, que representam o encantamento dos estrangeiros com nossa cultura, e também biquínis inspirados na cultura indígena.

 

Temas fundamentais nos dias atuais, o empoderamento feminino e questões ligadas aos padrões de beleza impostos pela sociedade fazem parte do debate proposto pela exposição. A reflexão sobre o corpo e a praia acontece na próxima sala por meio do diálogo das obras de Marcela Tiboni, Claudio Edinger e Elen Braga com criações dos estilistas Amir Slama, Isabela Frugiuele (Triya) e Adriana Degreas, além da escultura de Tiago Carneiro da Cunha. Já a relação entre moda e arte é tratada pela inspiração mútua e parcerias inusitadas – Beatriz Milhazes, Glauco Rodrigues e Jorge Fonseca para Blue Man, J. Carlos para Salinas, Gonçalo Ivo e J. Borges para Amir Slama, Maria Martins para Adriana Degreas. No centro da sala, em destaque, Stripencores, obra de Nelson Leirner de 1967 que ganha um quinto elemento criado especialmente para a mostra.

 

A praia como território geográfico, social e até virtual surge em cenas do dia a dia nas imagens captadas pelas lentes de Alair Gomes, Cartiê Bressão, Fernando Schlaepfer, Frâncio de Holanda, German Lorca, Julio Bittencourt, Otto Stupakoff, Pierre Verger, Rochelle Costi,  Thomaz Farkas e Willy Biondani, além de vídeo de Janaína Tschape e de escultura de Eder Santos. Como contraponto, o trabalho elaborado por nomes que ajudaram a criar a identidade da moda praia brasileira (e projetá-la mundialmente) surge em imagens icônicas: Dalma Callado em foto que alavancou sua carreira internacional nos anos 1970, feita por Luiz Tripolli, e Gisele Bündchen clicada por Jacques Dequeker no início dos anos 2000, já famosa – e ainda Antonio Guerreiro, Bob Wolfenson, Claudia Guimarães, Daniel Klajmic, Klaus Mitteldorf, Marcelo Krasilic, Miro e Vavá Ribeiro.

 

Mas muito antes dos editoriais de moda, era o ilustrador e figurinista Alceu Penna quem “ditava” tendências na extinta revista “O Cruzeiro” com “As Garotas do Alceu”, verdadeiras it girls da época. A praia é vista também pelo traço das ilustrações de Carla Caffé, Filipe Jardim e Paulo von Poser. A sala traz ainda uma videoinstalação com grandes momentos da moda praia nas semanas de moda no Brasil, e uma série de manequins com biquínis e maiôs de caráter excepcional, seja pela construção, modelagem, material ou pela criatividade em si – prova de que o biquíni é a peça mais brasileira de todas.

 

Na última sala, o visitante é convidado a compartilhar experiências de praia, diante das obras de Cássio Vasconcellos, Katia Maciel e Leda Catunda – e da pergunta que fica: qual é a sua praia? “A força de uma peça tão pequena como o biquíni brasileiro, basicamente quatro triângulos de tecido, está diretamente ligada ao emporaderamento feminino ao longo do último século e vai muito além da praia em si. A exposição pretende mostrar essas interfaces, seu impacto nas conquistas da mulher e o lifestyle criado em torno dele”, diz a curadora Lilian Pacce, autora do livro O Biquíni Made in Brazil. A cenografia é assinada por Pier Balestrieri, com comunicação visual de Kiko Farkas, consultoria de arte contemporânea de Sandra Tucci, coordenação geral e produção executiva da Com Tato Agência Sociocriativa.  

 

 

Palestra – A Revolução Feminina na Areia

 

31/05/2017, às 18h30 – Painel sobre as mudanças sociais que acompanharam a evolução dos trajes de moda praia e as conquistas femininas.

 

 

A palavra da curadora

 

Yes! Nós Temos Biquíni explora as conexões entre moda, arte, comportamento e história a partir do final do século 19, quando ir à praia era como tomar remédio: tinha apenas função terapêutica. Desde então, a praia se tornou um espaço democrático de lazer, onde convivem jovens e velhos, ricos e pobres, magros e gordos, atletas e sedentários, branquelos, bronzeados e gente de todas as cores com seus “corpos de praia”.

 

Acima de tudo, a exposição pretende mostrar a força da menor peça do vestuário feminino: o biquíni. E mais do que isso: o biquíni made in Brazil que, numa rara virada de jogo, se tornou objeto de desejo mundo afora. Apesar de ter sido criado na França, o Brasil se apropriou tão bem da peça que se tornou referência em moda praia; o Rio de Janeiro, seu melhor cenário, e a Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sua maior musa, seguida pela modelo Gisele Bündchen.

 

De um exemplar autêntico de 1895 (um vestido de lã com bloomer), passando pela conquista do maiô de perninha até chegar ao mínimo fio-dental, nota-se como os modelos de cada época refletem as respectivas conquistas da mulher – muitas vezes tema de grandes escândalos, seja com a atriz brasileira Leila Diniz expondo sua barriga de grávida num biquíni em 1971, seja com a prisão da nadadora olímpica australiana Annette Kellermann em 1907 por usar o então maiô masculino. A pesquisa deixa claro também que os protagonistas da história, tanto criadores como criaturas, não se deram conta da relevância de seus atos e do impacto que provocariam na sociedade e na arte ao longo do século 20.

 

E através da arte, o biquíni ganha outras perspectivas. A exposição cria diálogos e contrapontos entre arte e moda, de onde surgem texturas, cores e emaranhados ao mesmo tempo que levam para a praia do Rio de Janeiro o despojamento, a diversão, o despudor, o corpo solto. A obra Stripencores de Nelson Leirner de 1967 ganha um quinto elemento, o biquíni, criado especialmente para a mostra.

 

Os vários modos de estar e de ocupar estes territórios de liberdade que a praia, o sol, o mar e o biquíni permitem são retratados em obras de suportes variados como fotografia, pintura, escultura, vídeo, ilustração. De cada um deles surge uma interpretação, uma discussão ou o simples ato da contemplação.

 

As paisagens, a natureza, o comportamento ao ar livre e a apropriação de espaços geográficos, sociais e até virtuais indicam que o biquíni pode se apresentar de muitas formas, mas sempre traz consigo a busca da liberdade feminina e sua relação com o próprio corpo.

Lilian Pacce

   

   

De 17 de maio a 10 de julho.

Entre Objeto e Ser

A Galeria Marcelo Guarnieri, Jardins, São Paulo, SP, a mostra “Flávia Ribeiro. Entre objeto e Ser”, trabalhos, em grande parte desenhos e esculturas, produzidos entre 2014 e 2017. Apesar de se apresentarem visualmente distintos entre si, todos eles são parte integrante de um mesmo conjunto de interesses da artista, que passam pelas questões da matéria, do corpo e da linguagem, e embora sejam pensados como peças individuais, possuem uma forte relação de irmandade tanto no processo de produção, quanto na montagem da exposição. “Entre objeto e ser” é a primeira de mais duas mostras individuais de Flávia Ribeiro que serão apresentadas nas unidades do Rio de Janeiro e de Ribeirão Preto da Galeria Marcelo Guarnieri.

 

 

Galeria Marcelo Guarnieri | São Paulo

 

Suponhamos que inicialmente seja desenho. As formas que surgem desconexas na imaginação de Flávia Ribeiro precisam, em algum momento, de um papel para se materializar, mesmo que seja apenas na visão. Uma espécie de anteparo, talvez, por onde possa deslizar qualquer tipo de material que deixe seu rastro. Ganham a certeza do traçado para alcançar, logo depois, a maturidade de um formato. Desenho como ferramenta do pensamento, como um primeiro encontro presenciado pela artista, entre aquilo que estava dentro e que agora está fora de si.

 

Suponhamos que inicialmente não seja desenho. Desinvestido de sua função de projeto, o desenho existe apenas como um segundo encontro, uma forma de entender, no plano, aquilo que já foi modelado no espaço. Uma espécie de tradução. É assim que surgem, no papel, tipos diversos de algo parecido a estruturas empilhadas, que podiam bem ser esqueletos de cadeiras ou mesas sem tampo. Embora sustentadas por pernas finíssimas e desajeitadas, parecem robustas, e talvez por essa ambiguidade, nos deixem confusos sobre o seu tempo de vida: seriam ainda esqueletos, em processo de fortalecimento para um dia suportar a carne, ou seriam já esqueletos, pura carcaça? Não ocupam sozinhos o espaço do papel, dividem o plano com campos de cor que podem vir em amarelo ou cinza, delimitados pela forma assertiva de um retângulo. Talvez seja da cor que se trata a carne. Na segunda dimensão, é ela quem tenta preencher o vazio dos corpos-esqueletos construídos pela artista.

 

Suponhamos, então, que inicialmente seja o espaço. Testar peso, tamanho, equilíbrio e textura. Tocar, moldar e fundir para descobrir do que se trata. Mexer nas coisas e fazer parte delas, doar um pedaço do próprio corpo por meio do gesto. Ribeiro precisa trazê-las para a terceira dimensão, transformá-las, enfim, em coisas: coisas que pesam, imóveis sobre o chão ou pendentes no ar. Pesam também no tempo, quando fundidas em bronze, matéria que carrega o valor da história e o símbolo da eternidade. O bronze, aqui, dá corpo à estruturas tortas, aparentemente frágeis, mas que, evidentemente, jamais quebrarão; petrifica um galho de árvore, eximindo da matéria-orgânica seu desejo maior: a vida.

 

Aliás, não seria a própria experiência da vida uma questão no trabalho de Flávia Ribeiro? Bem distante da abordagem literal ou religiosa, Ribeiro nos permite refletir sobre ela a partir de noções como movimento e transformação. Seus objetos parecem estar sempre em trânsito, pulando da terceira para a segunda dimensão, ou da segunda para a terceira; assumem múltiplas formas de existência, sendo papelão e parafina para logo então ser bronze, ou ser guache para depois ser veludo; podem articular-se em módulos como peças soltas, o que lhes permite infinitas combinações; também podem ser pendentes a partir de pontos de apoio fixados na parede, atestando a força da gravidade que rege e organiza nossa forma de vida neste planeta; constroem-se a partir do desejo constante de cercar espaços cheios de vazios, reivindicando seu direito de existência entre o tudo e o nada; evidenciam, enfim, em suas superfícies, o vigor do gesto de uma mão inquieta, seja no traço do lápis, seja na modelagem da parafina. Assim, somos instigados a acompanhá-los, caminhando pra lá e pra cá de modo a alcançá-los, curvando a coluna ou esticando o pescoço, sentindo no corpo e na alma o efeito de suas variadas texturas, dimensões e atmosferas; aliviados quando diante das superfícies lisíssimas do gesso ou sufocados pelo preto absoluto de uma manta de feltro muito grossa. A relação que estabelecemos com os trabalhos de Flávia Ribeiro, aliás, não precisa ser mediada pelas palavras, afinal, ninguém precisa nos dizer que estamos vivos: podemos sentir.

 

 

De 20 de maio a 01 de julho.

Beatriz Milhazes no Rio

16/mai

Pintora por excelência, Beatriz Milhazes vem recentemente experimentando as potencialidades e desafios da escultura. O resultado desse processo, iniciado em 2010, pode ser visto na exposição “Marola, Mariola e Marilola”, a partir do dia 20 de maio, na Carpintaria, novo espaço da Fortes D’Aloia & Gabriel, no Rio de Janeiro, RJ.

 

São três grandes trabalhos tridimensionais, que apresentam forte sintonia com suas telas, gravuras e colagens, mas propõem novos e instigantes nexos perceptivos. Como se seus motivos característicos – como o círculo, a flor e o arabesco – tomassem conta do espaço e estabelecessem entre si um novo tipo de relação corporal, física, determinada também pelos intervalos entre elementos e pela posição do espectador. Dependendo do ângulo em que você observa a peça, forma-se um outro trabalho. É uma vivência concreta, em que o corpo da obra relaciona-se com o corpo do observador. “Esta possibilidade física é uma área de investigação que a pintura não oferece”, esclarece.

 

As três esculturas que dão título à mostra foram criadas ao longo de cinco anos de pesquisa – com a realização de diversas maquetes em tamanho natural – na Durham Press, estúdio na Pensilvânia, USA, onde Beatriz desenvolve, desde 1996, sua produção gráfica, em paralelo a uma intensa agenda de trabalho e exposições. São peças grandes, com altura que varia entre 2,26 e 2,89 metros e que lidam com o espaço de diferentes maneiras, quer potencializando o corpo da obra (as circunvoluções de Marola criam um corpo mais denso no espaço, com largura e espessura quase equivalentes), quer servindo como divisor de campos, como no caso de “Marilola”, que tem menos de meio metro de espessura e funciona quase como uma cortina. Inéditas no Brasil, as três peças foram exibidas nas galerias que representam a artista em Paris e Nova York (James Cohan Gallery, NY, e Max Hetzler, Berlin/Paris).

 

Os títulos, como costuma acontecer na produção de Milhazes, são interessantes chaves de leitura. Além de promoverem a conexão entre as obras, reafirmam a importância do ritmo, da sonoridade e da brasilidade em seu trabalho. A primeira e maior delas, que segundo ela ainda apresenta uma forte conexão com a ideia do móbile, remete ao ir e vir das ondas, à noção de movimento constante e sedutor.

 

“Mariola”, doce popular, também traz ecos da cultura vernacular que tanto alimenta a artista, enquanto “Marilola” brinca com a sonoridade, num jogo lúdico de palavras, num procedimento que se assemelha ao jogo espacial que ela cria a partir da associação de diferentes materiais e cores. Nas três peças, o conjunto é articulado a partir de um desenho em metal, que serve de suporte para os diferentes elementos. Há nessas composições uma lógica semelhante à da colagem, fortemente presente na pintura de Milhazes.

 

Tudo começou com um cenário feito por Beatriz para um espetáculo de dança de sua irmã, a coreógrafa Márcia Milhazes, em 2004. Ao criar uma espécie de lustre no centro do palco, ela foge pela primeira vez da ideia de painel que sempre havia regido seu trabalho cenográfico e coloca diante de si um desafio tridimensional que viria a se tornar cada vez mais agudo.

 

O primeiro resultado desse mergulho no espaço foi a série “Gamboa” (que esteve presente na mostra realizada há quatro anos no Paço Imperial), que para a artista ainda não pertenceriam ao campo escultórico. “Não considero que “Gamboa” lide com o volume, com o espaço arquitetônico, físico”, diz. Outra diferença em relação à experiência de Gamboa é o tipo de material utilizado. Enquanto o primeiro debruçava-se sobre elementos próximos à cultura do carnaval e da festa de rua, nas esculturas mais recentes Beatriz buscou propositalmente trabalhar com elementos mais resistentes, com materiais atraentes como os metais polidos, o acrílico e a madeira, transformada em suporte para intervenções pictóricas.

 

“Sou uma pessoa do bidimensional. Minhas ideias, conceitos estão totalmente ligados ao plano”, afirma, explicando como foi difícil e instigante esse desafio. “A maior dificuldade foi começar a raciocinar em três dimensões”, explica. Trata-se de um processo cheio de idas e vindas, no qual procurou “a partir do meu repertório, aprofundar, trabalhar verticalmente, evoluindo na tridimensionalidade”. “Foi quase uma aventura”, conclui Beatriz, que este semestre terá grande parte de sua obra reunida em um volume da série especial que a editora alemã Taschen dedica a grandes pintores contemporâneos. O livro, em grande formato, terá tiragem limitada (assinada de próprio punho pela artista) e será lançado em quatro idiomas: alemão, inglês, francês e português. Beatriz fará assim parte de um seleto grupo de homenageados que já inclui nomes como Jeff Koons, Cristopher Wool, Neo Rauch, Albert Ohelen, Darren Almond, Ai WeiWei e David Hockney.

 

“Marola, Mariola e Marilola”, que reforça a vocação experimental e de promoção de cruzamentos entre diferentes linguagens da Carpintaria.

 

 

 

Até 15 de julho.

 

 

Sobre a artista

 

Beatriz Milhazes é formada em Comunicação Social. Ingressou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage em 1980, onde estudou até 1983. Como professora de pintura, lecionou até 1996. Milhazes é considerada uma das mais importantes artistas brasileiras. Consolidou sua carreira no circuito nacional e internacional de artes visuais com participação nas bienais de Veneza  – 2003 -, São Paulo – 1998 e 2004 -, e Shangai – 2006 -, e exposições individuais em museus e instituições prestigiosas, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo – 2008 -; Fondation Cartier, Paris – 2009 -; Fondation Beyeler, Basel -2011 -; Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa – 2012 ; Museo de Arte Latinoamericano, Malba, Buenos Aires – 2012 -; e, mais recentemente, o Paço Imperial, Rio de Janeiro,  – 2013-, e o Pérez Art Museum, Miami, USA,  – 2014/2015. Suas obras integram as coleções do Museum of Modern Art (MoMA), Solomon R. Guggenheim Museum e The Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova York; do 21st Century Museum of Contemporary Art, no Japão; e do Museo Reina Sofia, em Madrid, entre outros. A artista vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Nelson Felix na Millan

15/mai

A Galeria Millan, Vila Madalena, São Paulo, SP, apresenta até o dia 20 de maio, a exposição inédita de Nelson Felix “Variações para Cítera e Santa Rosa”. A mostra, que ocupa os espaços da Galeria e do Anexo Millan, reúne esculturas e desenhos que refletem as ações do quarto trabalho da série “Método poético para descontrole de localidade”, iniciada em 1984.

 

“O Método poético, como expressa o título, visa traduzir uma ideia de espaço, de construção poética, que amalgama locais por meio do desenho e ações semelhantes”, explica o artista. Como uma ópera e seus atos, as três obras anteriores – “4 Cantos”, “Verso” e “Um Canto Para Aonde Não Há Canto” -, foram realizadas em Portugal (2007/08), em Brasília (2009/11) e São Paulo (2011/13). E agora o quarto trabalho na Galeria Millan e no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, simultaneamente.

 

“Como nos livros de poesia moderna, em que desenhos ou gravuras criavam uma relação entre texto e imagem, o “Método” possui um processo similar. Nesse sentido, esculturas, desenhos, ações, fotografias, vídeos e deslocamentos ilustram um texto, formando uma noção de lugar, que submete-se a um desenho no próprio globo terrestre”, revela Nelson Felix.

 

Em “Variações para Citéra e Santa Rosa”, como no projeto no MAM carioca, Nelson Felix elege o poema de Mallarmé “Um Lance de Dados Jamais abolirá o Acaso” para desestruturar a ideia de um só espaço expositivo. Partindo desse princípio, ele lança um dado, com o número seis em todas as faces, sobre um mapa-múndi, em uma data e hora estabelecidas e em um local incidental do curso de uma estrada. O dado, jogado, define seu acaso, não mais pela aleatoriedade do número, mas sim pela aleatoriedade de sua posição indicada sobre o mapa. Com isso, o artista viaja a Cítera, ilha jônica grega e a Santa Rosa, no pampa argentino.

 

Na Galeria e no Anexo Millan encontra-se em exposição, dezoito desenhos (em lacre, mármore, planta, cabo de aço, bronze e tecido) e sete esculturas (em mármore de Carrara, bronze, planta e tv), que remetem ao poeta francês e aos espaços percorridos pelo artista. “Existe hoje um entrecruzamento de fatores físicos e não-físicos acoplados ao entorno da arte, fatores como: informações, significados, história, hierarquia, tempo etc.; o nosso espaço atual, pelo menos em arte, não é mais tão limpo. Neste quarto trabalho, como nos anteriores, também reúnem-se ambientes externos e internos, mas seu interesse encontra-se nos múltiplos significados criados no próprio sítio da exposição”, conclui o artista.

Arte e vida

Em junho, a série “A Academia ocupa o ateliê” apresenta o curso “Arte e vida: do moderno ao contemporâneo”, com Ricardo Fabbrini nos dias 06, 13, 20 e 27 de junho. Uma promoção do Ateliê397, Pompéia, São Paulo, SP, quatro encontros com vagas limitadas.

 

Os encontros analisam as tentativas de embaralhar arte e vida, com ênfase nas intervenções urbanas, a partir dos anos 1990. Fabbrini examina as intervenções que teriam por finalidade, segundo o curador Hans Obrist, construir “espaços e relações visando à reconfiguração material e simbólica de um território comum”. Sua finalidade seria – nos termos do artista Rirkrit Tiravanija – constituir durante certo tempo, novos espaços de interação – “plataforma” ou “estação”-: “um lugar de espera, para descansar e viver bem”, em que “as pessoas conviveriam antes de partirem em direções distintas”. Seriam intervenções que “mediante pequenos serviços” corrigiriam, segundo Nicolas Bourriaud, as falhas nos vínculos sociais ao redefinirem as referências de um mundo comum e suas atitudes comunitárias. Seria um lugar de esperança e mudança, porém não nostálgico, porque dissociado da ideia já devidamente arquivada, que orientou as vanguardas, de utopia. O curso perguntará, assim, se o investimento da arte de vanguarda na transformação do mundo segundo o esquema revolucionário orientado por uma “utopia política” foi substituído por um “realismo operatório” voltado para a “utopia cotidiana, flexível” (ou “heterotopia”, no termo de Michel Foucault). Por fim, examinará a relação entre a arte contemporânea e o ativismo urbano – como grupos feministas, negros, LGBT, ou em coletivos contra a gentrificação, de denúncia da vulnerabilidade social, do Parque Augusta ao Ocupe Estelita – que tensionam estética e política, sem ceder à ameaça de ver suas ações transformadas em “mercadoria vedete do capitalismo espetacular”, na expressão de Guy Debord.

 

 

Programa:

Aula 1 – 06/06

Caminhadas estéticas: do dandy ao dadá.

Aula 2 – 13/06

As Derivas: Surrealismo e Situacionismo

Aula 3 – 20/06

Estética Relacional: Nicolas Bourriaud e Jacques Rancière

Aula 4 – 27/06

Cidade, Utopia e heterotopia

 

 

Sobre Ricardo Fabbrini

 

Ricardo Fabbrini é professor doutor em Filosofia no curso de Graduação e no Programa de Pós-graduação em Filosofia no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; e professor do Programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte da USP. Possui graduação em Direito pela Faculdade de Direito da USP e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da mesma Universidade. É doutor em Filosofia pela USP, onde obteve também o título de mestre. É autor de “O Espaço de Lygia Clark” (Editora Atlas) e “A arte depois das vanguardas” (Editora Unicamp). Tem experiência na área de Estética, atuando principalmente nos seguintes temas: estética, filosofia da arte, arte contemporânea, arte moderna, e arte brasileira.

Individual de Marina Weffort

A galeria Cavalo, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, apresenta “Tecido”, a primeira mostra individual de Marina Weffort na cidade. Nessa exposição a artista reúne 10 obras inéditas, parte de sua pesquisa na elaboração de composições geométricas através do minucioso desfiamento de tramas sintéticas. Como resultado dessa investigação, Marina cria trabalhos que são algo entre finas membranas orgânicas, que se movimentam e reagem ao ambiente no qual são expostas, e desenhos estruturais, que se relacionam com as linhas arquitetônicas do antigo casarão de Botafogo onde a galeria se localiza.

 

Os trabalhos são esticados na parede e sustentados por alfinetes, mas apesar da real tensão que arma cada um, a geometria presente neles é atraentemente maleável – talvez por ter sido construída das lacunas do plano inicial. Através da incisão, Marina decide quais fios obedecerão as direções cartesianas e quais passarão a se comportar independentemente, consoando com os corpos dos espectadores.

 

 

De 18 de maio a 24 de junho.

 

Suzana Queiroga no MNBA

Completando dez anos de criação, o projeto “Ver e Sentir através do toque” do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, voltado para a acessibilidade e a sustentabilidade, inaugura uma nova fase: o foco agora se volta para a arte contemporânea.

 

Nesta nova etapa a convidada é a artista visual Suzana Queiroga, integrante da famosa Geração 80 do Parque Lage, cuja exposição o MNBA abre na Sala Mario Barata, no dia 16 de maio, às 12h, em evento integrante da 15ª Semana dos Museus, promovida pelo IBRAM.

 

Um dos destaques da mostra é a obra “Topos”, um relevo em gesso doado em 2009 ao MNBA, produzida já com a intenção de participar de um projeto educativo, no qual a relação com a obra pudesse ser estimulada a partir da percepção tátil.

 

Além desta, serão exibidas outras três obras, sendo que uma delas será produzida na abertura da exposição, focando no desenvolvimento de uma rica experiência sensorial com cegos e videntes. Suzana Queiroga vai apresentar um mapa interativo da região onde se localiza o Museu Nacional de Belas Artes, além de outras obras que poderão ser tateadas.

 

O trabalho “Topos” será ambientado num novo contexto, onde a percepção visual pode ser minimizada e outros sentidos precisam ser ativados, o relevo, junto a outras obras, ganha novas dimensões e um espaço ampliado. Em um ambiente com pouca iluminação e sem informação textual, pretende-se acionar outros sentidos, que as cores ganhem som, cheiro, textura, sentimentos e sensações.

 

“É um caminho a ser percorrido com o corpo, onde o tempo é ativado e uma narrativa se inicia. Aqui, dar espaço aos outros sentidos é uma oportunidade singular de reaprender o mundo”, explicam os curadoes Daniel Barretto, Simone Bibian e Rossano Antenuzzi, todos técnicos do Museu Nacional de Belas Artes/Ibram/MinC.

 

Paralelamente, haverá uma mesa-redonda com a artista e seus convidados, discutindo o tema da ciência e arte, incluindo a participação de uma neurocientista.
Iniciado em 2007, o projeto previu a possibilidade do toque em reproduções em baixo relevo e algumas maquetes, feitas a partir do acervo artístico do museu, de obras especialmente selecionadas para este trabalho. O objetivo foi possibilitar a experimentação estética e o conhecimento sobre história da arte e processos artísticos, tornando-os acessíveis às pessoas cegas e com baixa visão, de forma a democratizar o acesso à cultura.

Memórias sobre papel

O artista plástico Marcos Duprat inaugura a exposição individual “Memórias Sobre Papel” na sala Clarival do Prado Valladares, no Museu Nacional de Belas Artes, Cinelândia, Rio de Janeiro, RJ.  

 

A mostra é um panorama dos desenhos de Marcos Duprat, em mais de quatro décadas, e reúne 36 obras sobre papel. As imagens ilustram as transformações em sua linguagem e imagística em seu enfoque do “enigma da realidade visível”.

 

Datadas de 1977 a 2017, seus trabalhos abordam a temática do mundo exterior (paisagens e figuras na água) e o mundo interior (naturezas mortas, retratos, figuras e reflexos em espaços íntimos). O artista utiliza diversos meios, como lápis de cor, crayon, pastel seco e oleoso, aquarela e óleo sobre diferentes papéis: Canson, Schoeller, Fabriano, polpa vegetal e papéis artesanais japoneses e brasileiros. A luz é um elemento chave na articulação dessas imagens.

 

Para o artista, essa mostra marca os momentos importantes em seu percurso artístico e pessoal: “Algumas dessas imagens são por mim associadas a minha memória afetiva e outras a lembranças e registros dos diversos países onde vivi, em especial os dez anos em que estive na Ásia. É para mim um momento feliz poder partilhar com o público da minha cidade esses registros”. Desde 2008, Marcos Duprat tem seu ateliê no Rio de Janeiro. Seu acervo pessoal conta com um número expressivo de pinturas, desenhos, fotografias e esculturas.  

 

 

Sobre o artista

 

Nascido no Rio de Janeiro em 1944, Marcos Duprat manteve ao longo de sua vida diplomática a constância e o fluxo de sua obra. As influências de sua formação artística no Rio de Janeiro e nos EUA, bem como posteriormente dos sete anos vividos na Europa e dos nove na Ásia, deixaram traços nítidos em seu trabalho. Não obstante, o seu registro visual é singular e se mantém coerente. Com sua formação artística iniciada no MAM do Rio de Janeiro, prosseguiu com o mestrado em Belas Artes em Washington, D.C, onde fez sua primeira individual, em 1977. Realizou inúmeras mostras individuais no Brasil, dentre as quais: MASP, SP, 1979 e 1988; MAC, SP, 1995; Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2006; e MUBE, Museu Brasileiro da Escultura, São Paulo, SP, 2015.  No Rio de Janeiro apresentou suas obras no Centro Cultural Correios, em 1995 e 2008; Instituto Cultural Villa Maurina, 1996 e no Centro Cultural Banco do Brasil, 1999. No exterior realizou também inúmeras exposições em museus, dentre os quais o Centro Culturale San Fedele, Milão, Itália, 1990; Museu Nacional da Hungria, 1993; Museo de Arte Contemporaneo de Montevidéu, Uruguai, 1999; Teien Metropolitan Art Museum, Tóquio, Japão, 2003 e a Sidhartha Art Foundation em Kathmandu, Nepal, 2013. Em 2016, realizou mostra retrospectiva de pinturas no Espaço Cultural Eliseu Visconti, na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.

 

 

De 16 de maio a 02 de julho.

Véio na Gustavo Rebello

11/mai

O artista sergipano Véio mostra esculturas na galeria Gustavo Rebello Arte, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ. Cícero Alves dos Santos, conhecido no mundo das artes como Véio, exibe esculturas talhadas em troncos, galhos e raízes, nessa que é a sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro. O trabalho deste artista combina aspectos da tradição popular – como a escultura em madeira, o aproveitamento das figuras sugeridas por troncos e galhos e o uso de ferramentas rudimentares – com cores intensas, muito mais próximas das cores industriais que dos matizes da natureza.

 

Essa estridência algo pop é intensificada por uma imaginação formidável, que nos faz ver em suas madeiras figuras híbridas, que compartilham traços dos bichos que conhecemos com os androides e transformers de filmes e desenhos animados. Com um simples canivete, Cícero esculpe formas diminutas em tamanho, mas com uma figuração enigmática, que lhes restitui a força reduzida pela escala.

 

Cícero Alves dos Santos vive nos arredores de Nossa Senhora da Glória, uma importante cidade do sertão de Sergipe, com aproximadamente 50 mil habitantes e uma feira de renome no Estado. A convivência com um ambiente tão ambíguo e dinâmico certamente instigou ainda mais o talento desse sertanejo incomum, que fez da preservação da memória de sua gente a razão de sua existência, mostrando um mundo rural que vai desaparecendo. Trabalho este que já foi exibido em Londres, em individual na Seeds Gallery, e já participou de coletiva na Fundação Cartier, em Paris.

 

“Quando a Vilma Eid, da Galeria Estação, sondou-me a respeito de uma mostra do trabalho do Véio, minha resposta afirmativa foi imediata. A obra do artista sempre me fascinou, pois dialoga com as questões da arte brasileira atual, não fica restrito ao rótulo de arte ingênua e popular, transcende”, analisa Gustavo Rebello.

 

“O que chama logo a atenção é o modo livre e franco como essa fauna imaginária chega ao real. Quase sempre em movimento, mais ou menos como um bicho sai do mato e, de repente, surge à nossa frente. Não sei, sinceramente, se Véio conhece Picasso e Miró. Em todo caso, eles o conhecem, rondam o seu imaginário, participam de seu processo de produção. A divertida economia de meios, a espontaneidade com que vêm a ser, certo tônus vital descontraído, talvez as deixem mais à vontade sob a rubrica do Pitoresco”, diz o curador da exposição, Ronaldo Brito.       

 

Véio é como um repentista ágil, a improvisar com as madeiras nativas de seu habitat agreste, acompanhando ou contrariando as rimas de sua morfologia, e delas tirar efeitos inesperados. Alguma peças se me afiguram quase ready-mades do sertão – duas ou três manobras inspiradas bastam ao artista para transformar os galhos secos de uma árvore morta num bicho ligeiro de escultura.

 

“A nenhum texto crítico, ainda que curto e despretensioso, seria perdoável calar-se diante do pequeno escândalo que representa a cor na escultura de Véio. E não apenas porque se mostram cores abertas, sem nuances ou matizes, extrovertidas e vibrantes, aptas a competir com a luz brutal do sertão. Mesmo o seu negro parece suscetível de brilhar no escuro. O importante é que atuam de maneira substantiva na definição do corpo da escultura, caracterizam a sua personalidade. Intuitivamente, Véio faria um uso topológico da cor. Elas promovem a interação entre as partes das peças de modo a torná-las um Todo descontínuo moderno. As esculturas não se resumem a simples figuras projetadas contra um fundo neutro. Elas reagem a seu entorno, acontecem no mundo”, finaliza o curador da exposição, Ronaldo Brito.

 

 

Apresentação

 

Esta é mais uma conquista do Cícero Alves dos Santos, Véio. De Nossa Senhora da Glória a Paris, Veneza, Londres, e agora o Rio de Janeiro. Homem sensível, ele percebeu cedo seu dom. Tinha consciência de que era artista e, quando o conheci, sabia muito bem que o que desejava era o reconhecimento. Conseguiu, e isso não é algo fácil. Escultor desde sempre, seu trabalho ganhou espaço no mercado de arte entre colecionadores e instituições, como a Pinacoteca de São Paulo e a Fundação Cartier em Paris. No Rio de Janeiro ele está nas coleções do MAM e do MAR. Seu nome e sua obra são conhecidos e reconhecidos. A associação feliz da Galeria Estação com a Gustavo Rebello Galeria de Arte nos trouxe aqui. Gustavo, querido amigo e admirador do Véio, tornou-se importante parceiro para que a Cidade Maravilhosa também seja palco e sede desta individual. E o fato de o Ronaldo Brito ter aceitado, com alegria, o convite para a curadoria coroa este projeto. Seu texto, generoso e preciso, é mais um passo para a compreensão da obra contemporânea do Véio. Precisa ser lido e assimilado porque, entre muitos atributos, tem o mérito de contribuir para acabar com as falsas fronteiras na arte.

Divirtam-se.

Vilma Eid

 

 

A palavra do Curador

 

De Surpresa no Mundo

 

O que chama logo a atenção é o modo livre e franco como esta fauna imaginária chega ao real. Quase sempre em movimento, mais ou menos como um bicho sai do mato e, de repente, surge à nossa frente. E não se trata de um movimento representado – sua própria formalização é que é movimentada, rápida e sucinta a escultura se apresenta e nos interroga.  Traduz assim o ideal moderno da autossuficiência da forma: ela sustenta a sua surpresa estética como se quisesse aparecer, de novo e sempre, pela primeira vez. Não sei, sinceramente, se Véio conhece Picasso e Miró. Em todo caso, eles o conhecem, rondam o seu imaginário, participam de seu processo de produção.

 

Dado o seu aspecto disforme, muitas dessas figuras mereceriam se incluir na categoria do Grotesco. Poderiam até responder ao célebre apelo surrealista de André Breton: “A beleza será convulsiva ou não será”. No entanto, a divertida economia de meios, a espontaneidade com que vêm a ser, certo tônus vital descontraído talvez as deixem mais à vontade sob a rubrica do Pitoresco. A meu olhar, pelo menos, não parecem nada assustadoras. Estranhamente familiares, teriam com certeza algo de onírico, jamais evocam contudo o terror do pesadelo. Mas o principal, o que de fato interessa é o seu modus operandi poético. Reparem a desenvoltura com que fazem coincidir meios e modos – seja qual for o seu enigma de origem, sua aparência intrigante, as contorções da madeira nunca perdem de vista a exigência escultórica básica: a peça há de ficar de pé por si mesma. Esses bichos inverossímeis começam por enfrentar o teste de realidade elementar: existir por conta própria, exercer sua liberdade de ação.

 

À contracorrente do cânone da chamada Arte Popular Brasileira (de resto, no modesto entendimento do crítico outsider nesse domínio, uma classificação essencialista caduca) as esculturas de Véio são tudo menos hieráticas. Não surgem, estáticas e extáticas, do fundo do tempo, a conservar tradições e vivências varridas pela ação predatória da modernidade. Tampouco obedecem à religiosidade inerradicável de certa estatuária humilde que costuma ser agraciada – e, com isso, esteticamente sublimada – com a aura da humanidade pura. Em comparação, já por sua mobilidade casual, a escultura de Véio resulta decididamente profana. Ninguém ousará contestar sua extração mítica; dito isso, ela vale sobretudo por seus achados formais, indissociáveis, é evidente, de seu conteúdo de verdade histórico e existencial. Ela nos atrai justo por sua contemporaneidade, porque nela pulsa uma vida imaginativa atual.

 

De imediato, sem preâmbulos, nos descobrimos às voltas com uma verve combinatória capaz de articular, desarticular e rearticular seus elementos plásticos de maneira coerente e inventiva. Nesse sentido, Véio demonstraria, acima de tudo, expediente. É o repentista ágil, a improvisar com as madeiras nativas de seu habitat agreste, acompanhando ou contrariando as rimas de sua morfologia, e delas tirar efeitos inesperados. Algumas peças se me afiguram quase ready-mades do sertão – duas ou três manobras inspiradas bastam ao artista para transformar os galhos secos de uma árvore morta num bicho ligeiro de escultura.

 

A nenhum texto crítico, ainda que curto e despretensioso, seria perdoável calar-se diante do pequeno escândalo que representa a cor na escultura de Véio. E não apenas porque se mostram cores abertas, sem nuances ou matizes, extrovertidas e vibrantes, aptas a competir com a luz brutal do sertão. Mesmo o seu negro parece suscetível de brilhar no escuro. O importante é que atuam de maneira substantiva na definição do corpo da escultura, caracterizam a sua personalidade. Intuitivamente, Véio faria um uso topológico da cor. Elas promovem a interação entre as partes das peças de modo a torná-las um Todo descontínuo moderno. As esculturas não se resumem a simples figuras projetadas contra um fundo neutro. Elas reagem a seu entorno, acontecem no mundo.

Ronaldo Brito

 

 

Até 25 de maio.

JAPAN HOUSE em São Paulo

Dois eventos marcaram o lançamento da JAPAN HOUSE São Paulo, Avenida Paulista, São Paulo, SP. A primeira exposição traz uma coleção de obras que formam uma cronologia visual de mais de 150 anos de arte em bambu, um protagonista silencioso da cultura japonesa. Rico pelas suas múltiplas aplicações como recurso natural, esse elemento simples se revela um ingrediente secreto que permeia os meandros da vida cotidiana do Japão. O segundo evento foi um concerto musical. Porém, a primeira etapa cumpriu-se com a performance “Flower Messenger” do artista Makoto Azuma pelas ruas de SP de 08 de abril a 07 de maio, quando um grupo de ciclistas percorreu trechos da cidade de um jeito único no Parque do Ibirapuera.

 

Já na exposição “Bambu – Histórias de um Japão”, os destaques são: – Esculturas dos artistas Chikuunsai IV Tanabe, Hajime Nakatomi, Shigeo Kawashima e Akio Hizume, principais nomes da arte do bambu no Japão hoje; – Obras históricas da NAEJ Collection, nas quais o bambu se mostra a fibra que dá corpo e transforma aspectos da cultura japonesa; – Seleção de peças de Kazuo Hiroshima, artesão rural que orientou sua vida por um forte sentido de dever social ligado a seu trabalho artesanal; – Curiosidades sobre o uso do bambu em importantes descobertas do século 19, como a lâmpada de Thomas Edison, cujo filamento era de bambu. E o 14 Bis e o Demoiselle, de Santos Dumont, feitos de bambu; – O bambu na cerimônia do chá e no design de diversos objetos, nas artes marciais e na gastronomia; – O bambu na animação em torno da princesa Kaguya do Conto do Cortador de Bambu, de Isao Takahata (2013), produzido pelo Studio Ghibli.

 

A exposição “Bambu – Histórias de um Japão” tem o apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura do Brasil, do patrocinador Master Bradesco Seguros e dos co-patrocinadores MUFG e Mitsubishi Electric.

 

 

Duração da exposição: até 09 de julho.

 

Sobre a Japan House

 

JAPAN HOUSE São Paulo abriu suas portas na Avenida Paulista, 52, e preparou um grande evento para celebrar a data. Trouxe dois expoentes da música contemporânea japonesa, Ryuichi Sakamoto e Jun Miyake, para um concerto inédito e gratuito.

 

Sakamoto apresentou-se com os músicos brasileiros Jaques Morelenbaum e Paula Morelenbaum, com um repertório que incluiu Bossa Nova e Tom Jobim; enquanto Miyake, em sua primeira apresentação no Brasil, ganhou um grupo variado de talentos, como o Cosmic Voices da Bulgária, o jovem brasileiro Bruno Capinam e outras parcerias. O concerto aconteceu no dia 07 de maio, na plateia externa do Auditório do Ibirapuera. No primeiro dia, a Japan House recebeu 4.290 visitantes! Nem a fila ou a chuva intimidaram os espectadores.

 

JAPAN HOUSE é uma iniciativa do governo japonês, um local que reúne arte, tecnologia e negócios para mostrar o Japão contemporâneo – sem esquecer raízes e tradições. São Paulo, Londres e Los Angeles são as três metrópoles selecionadas pelo governo japonês para receber as primeiras Japan House no mundo.

 

A casa conta com atividades variadas: exposições, palestras, seminários, eventos culturais e performances artísticas. Trará ao Brasil personalidades japonesas de perfis variados – de artistas a cientistas, de esportistas a homens de negócios, de chefs de cozinha a líderes da sociedade civil -, para encontros e workshops. O espaço abriga, ainda, um restaurante, cafeteria, biblioteca e lojas. Igualmente disponível para o lançamento de produtos, encontros de negócios, seminários executivos e outros eventos empresariais.