Um artista para poetas.

03/mar

A exposição Gonçalo Ivo – Janela para a África (Gonçalo Ivo – Fenêtre sur l’Afrique) se fundamenta no pensamento de Édouard Glissant, poeta e ensaísta martinicano, para quem o museu do futuro não deve simplesmente “recapitular” uma narrativa fechada, mas sim inventar constantemente novos arranjos e relações. Torna-se um espaço de circulação de formas, onde as pinturas e esculturas do artista brasileiro dialogam com uma seleção de obras africanas do acervo da Maison Gacha.

Trata-se de um diálogo institucional inédito para este pintor, carioca de 1958. Gonçalo Ivo desenvolve uma abstração nutrida pela observação da natureza, da música em todas as suas formas e das culturas com as quais teve contato. Suas telas e esculturas, em ressonância com as obras africanas, surgem como “obras insulares”, fragmentos autônomos que adquirem pleno significado dentro de um arquipélago de ressonâncias. A exposição evoca também o poder da antropofagia cultural, tal como formulada por Oswald de Andrade: absorver o outro, consciente ou inconscientemente, torna-se um princípio de criação. Nos estúdios de Gonçalo Ivo, pigmentos, papéis e sons se sobrepõem como inúmeras dobras, revelando uma complexidade interior.

As correspondências exploradas não se baseiam em meras semelhanças formais, mas em afinidades sensíveis: os tecidos Kasai do Congo, os tecidos Baoulé da Costa do Marfim, o tecido Kente do Togo e as cabaças Bamileke dos Camarões dialogam com telas abstratas contemporâneas, esculturas totêmicas e composições geométricas. Apresentar esses objetos africanos sob uma nova perspectiva nos permite repensar as categorias e a maneira como a história da arte moldou nossa percepção desse patrimônio.

Ao direcionar a interpretação da obra de Gonçalo Ivo para uma cultura visual aberta, a exposição revela o artista não apenas como um “artista para artistas”, mas também como um artista para poetas. Em um mundo imprevisível, a poesia é necessária.

Curadores: Danilo Lovisi, Leonardo Ivo.

Até 09 de Julho. 

Finissage e Conversa.

Nesta terça-feira, dia 03 de março, das 19h às 20h30, haverá um bate-papo com Esther Barki, Luiz Aquila, Miguel Sayad e Luiza Interlenghi no Ateliê Luiz Aquila, Praia de Botafogo, 114/102, Rio de Janeiro, RJ.

Esther Barki e Luiz Aquila sempre foram muito conectados em diferentes fases da pintura. Filha de criação de Luiz Aquila, na fase em que o artista passou anos morando em Petrópolis, a artista externaliza aspectos muito femininos em suas pinturas. As formas arredondadas, os vazios, a natureza e o corpo de uma mulher violão que pode se despedaçar se fazem presentes nas novas obras, recentes e inéditas. A abertura se concretizou no sábado como um “ateliê de portas abertas”, no novo espaço de criação de Aquila, na Praia de Botafogo.

Espaço de enfrentamento e permanência.

02/mar

Panmela Castro celebra mulheres negras gaúchas que lutaram pelos direitos femininos com a exposição “A Crônica da Não-Solidão” na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS. Figurando na lista das 150 mulheres que “abalaram o mundo”, feita pela revista americana “Newsweek”, Panmela Castro construiu sua trajetória provocando reflexões sobre questões humanas. 

“Essa mesma solidão – vivida, observada e elaborada pela artista – transforma-se, aqui, em não-solidão, ao se deslocar para a relação e a construção coletiva, afirmando a arte como espaço de enfrentamento e permanência”, destaca Emilio Kalil, diretor-superintendente da Fundação Iberê Camargo.

Sala das Mulheres | Encontro e Legado.

Panmela Castro homenageia quatro personalidades negras que construíram formas de resistir e histórias que nos levam a pensar em quantas outras deveriam ser reconhecidas: Iara Deodoro, Magliani, Nega Diaba e Nega Lu.

“Líderes em seus contextos, elas contribuíram de forma decisiva para a construção social, política e cultural de suas comunidades, rompendo barreiras e ampliando espaços de atuação feminista”, ressalta a artista.

Iara Deodoro – Referência na cultura afro-gaúcha, a bailarina, coreógrafa, produtora, diretora artística, assistente social, professora e ativista Iara Deodoro deixou como legado a valorização da arte como instrumento de transformação social. Também desenvolveu projetos educacionais e artísticos em música, moda e gastronomia com base na cultura e na história africana e afro-brasileira. 

Magliani – Pintora, desenhista, gravadora, figurinista e cenógrafa, Maria Lídia Magliani nasceu em Pelotas, mas mudou-se para Porto Alegre ainda criança. Foi uma das primeiras mulheres negras a se formar no Instituto de Artes da UFRGS. Tornou-se uma das artistas gaúchas de maior alcance com sua estética neo-expressionista e forte engajamento feminista. Residiu em São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

Nega Diaba – Natural de Rio Pardo, foi a primeira mulher negra eleita para a Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Como vereadora, integrou a vice-liderança do partido entre 1997 e 1999 e foi vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor e Direitos Humanos.

Nega Lu – Poucas personalidades inscreveram seu nome na memória afetiva da Capital com tanta irreverência quanto Nega Lu, figura alegre e anticonvencional que se transformou em ícone de sucessivas gerações. Luiz Airton Farias Bastos, como está registrado na certidão de nascimento, ganhou fama na cena cultural e boêmia de Porto Alegre entre os anos 1970 e 1990. 

Sobre a artista.

Graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em Pintura e mestre em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Por sua atuação em arte e direitos humanos, recebeu títulos e prêmios como Young Global Leader, pelo Fórum Econômico Mundial, DVF Awards e foi reconhecida pela revista Newsweek como uma das 150 mulheres que estão mudando o mundo.

Nuno Ramos representado por duas galerias.

Almeida & Dale e a Cerrado Galeria anunciam a co-representação do escritor e artista Nuno Ramos. Sua prolífica obra assume a permeabilidade entre pintura, instalação, escultura, texto, peças teatrais e sambas. Seu corpo de trabalho pode ser entendido como um conjunto de tentativas, isoladas ou combinadas, de entranhar o fazer artístico na matéria, de criar arranjos provisórios entre opostos, de concatenar movimentos e de armar cenas conduzidas por atores humanos e não humanos. 

A palavra, o tempo presente e a realidade político-histórica e cultural do Brasil são tópicos recorrentes em sua prática, em diálogo com figuras fundamentais de diferentes áreas da cultura. Suas obras se dirigem aos limites da matéria, da linguagem e do objeto de arte, ora com aspecto vivaz, ora melancólico, colocando em fragilidade a atuação e o controle da própria ação criativa. 

Nuno Ramos iniciou sua trajetória nos anos 1980 e é um dos nomes determinantes da arte contemporânea brasileira. Ele acumula passagens por quatro edições da Bienal de São Paulo, além de participações nas Bienais de Veneza, do Mercosul e de Havana. Foi premiado pelo conjunto de sua obra com o Grant-Award da Barnett and Annalee Newman Foundation e, como autor, recebeu duas vezes o Prêmio Portugal Telecom. Sua obra integra acervos institucionais como os do Instituto Inhotim, Jewish Museum, MAM São Paulo, Pinacoteca de São Paulo, Städtische Galerie Villa Zanders, Tate Modern, Thyssen-Bornemisza e Walker Art Center, entre outros. 

Em 2026, Nuno Ramos estreia no Theatro Municipal de São Paulo como diretor, ao lado de Eduardo Climachauska, na ópera Intolleranza 1960, de Luigi Nono. O artista lança ainda neste ano livro em prosa inédito e um novo título dedicado à sua obra, organizado pela curadora Pollyana Quintella e pelo professor e pesquisador Victor da Rosa.

A pintura em estado de emergência contínua.

27/fev

A Fortes D’Aloia & Gabriel, Jardins, São Paulo, SP, apresenta até 18 de abril, “Maçã Roxa”, a primeira exposição individual de Willa Wasserman no Brasil. A mostra reúne pinturas intimistas de pequena escala sobre linho e latão, além de obras expansivas sobre tecido, produzidas entre Nova York, onde reside, e São Paulo, onde a artista realiza residência na Casa Onze.

Willa Wasserman aborda questões de intimidade, gênero e metamorfose, entrelaçando referências à pintura clássica e à cultura material com expressões contemporâneas da experiência queer. Trabalhando com tecido e metal, a artista trata o suporte como um participante ativo em cada composição. Óleo, ponta de prata – traços desenhados através da fricção da prata sobre uma superfície preparada – e processos químicos são aplicados de maneiras que permitem que oxidações, manchas e alterações tonais aflorem e permaneçam legíveis. Ela aborda a figuração sem enfatizar a clareza corporal ou contornos nitidamente definidos, privilegiando, em vez disso, espaços amorfos nos quais as formas flutuam e se dissolvem. Técnicas históricas são reinventadas para dar origem a corpos e atmosferas mutáveis, simultaneamente luminosos e sombrios, suspensos em um estado de emergência contínua.

Há vários anos, Wasserman trabalha com a natureza-morta como uma forma de pensar visualmente, tratando os objetos como uma forma de composição silenciosa em vez de exibição simbólica. Ela pinta arranjos de flores e cenas de jardim, como em “Do jardim no novo squat” (2026), onde o pigmento parece se fundir com a superfície metálica, conferindo às imagens uma profundidade tranquila e ambiente. Em “Natureza-morta com maçã roxa, tigela vazia, ancinho de fechadura” (2026), o ancinho de fechadura introduz uma nota de acesso transgressor, fazendo referência a experiências vividas de identidade trans e maneiras de navegar por espaços além das estruturas normativas.

Mostra do acervo de um colecionador.

Parte de um acervo que, por décadas, esteve restrito ao ambiente privado agora ganha as salas do Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo (MAES), no Centro de Vitória. A exposição “Arte em Todos os Sentidos” iniciou no dia 24 e reúne 41 obras de 36 artistas capixabas e nacionais.

A mostra apresenta pinturas, gravuras, desenhos, fotografias e esculturas selecionadas do acervo do colecionador Ronaldo Domingues de Almeida. A proposta é oferecer ao público um recorte plural da produção moderna e contemporânea. O título da exposição faz referência a uma obra do artista pernambucano Paulo Bruscky. A escolha dialoga com a ideia de ampliar a experiência estética e sensorial do visitante. Segundo o colecionador, o acervo não foi planejado como coleção formal. As aquisições começaram por afinidade e convivência com a arte, ainda nos anos 1980, quando ele frequentava a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Com o tempo, o conjunto cresceu de forma espontânea, reunindo hoje centenas de obras de aproximadamente 100 artistas, em sua maioria capixabas. Curadoria de Nicolas Soares.

Artistas participantes.

Álvaro Conde, Andréia Falqueto,  Ângelo de Aquino, Antônio Poteiro, Augusto Herkenhoff, Carlos Scliar, Cildo Meirelles, Claudia Colares, Dan Mendonça, Dididco, Franz Weismann, Gilbert Chaudanne, Hilal Sami Hilal, Homero Massena, Iole de Freitas, Jocimar Nalesso, José Roberto Aguilar, Maria Bonomi, Lando, Levino Fânzeres, Lincoln Guimarães Dias, Luciano Boi, Paulo Brusscky, Pitágoras Lopes, Prozak, Regina Chulam, Regina Silveira, Rick Rodrigues, Rosana Paste, Sandro Novaes, Sante Scaldaferri, Tom Boechat, Tomie Ohtake, Viva Vilar, Waltércio Caldas, Wesley Duke Lee.

A entrada é gratuita.

Até 26 de abril.

Kelton Campos Fausto na ARCOmadri 2026.

26/fev

A Gentil Carioca retorna à ARCO Madrid 2026 com FUNFUN, apresentação solo com obras inéditas de Kelton Campos Fausto. Entre 04 e 08 de março.

Nas palavras da artista, FUNFUN mergulha na simbologia de Òbàtálá – o grande Òrìṣà Funfun – explorando a pureza, a criação, o caráter e os caminhos espirituais que moldam o Orí, o destino e a conduta humana.

Em iorubá, FUNFUN significa “branco”, simbolizando clareza, integridade ética e equilíbrio espiritual. Inspirada no universo simbólico de Obàtálá, a mostra entende a prática artística como um gesto ético e reflexivo. Por meio de repetição, estrutura e movimento, Kelton Campos Fausto investiga autoria, responsabilidade e o equilíbrio entre corpo, mente e ambiente.

A Gentil Carioca participa da seção Perfis | Arte Latino-americana, curada por José Esparza Chong Cuy, pavilhão 09 stand 9P03.

Um artista iraquiano-norteamericano.

A Almeida & Dale anuncia a representação de Michael Rakowitz. Com uma prática multidisciplinar, o artista iraquiano-norte americano aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos permeados em espaços urbanos e em objetos cotidianos. Tópicos como colonialismo, o imperialismo, a repatriação de artefatos e outros modos de responsabilização e compensação são atravessados em suas obras, a partir da revelação de eventos históricos e biográficos, no que nomeia de “etimologia material”. 

Pautado no engajamento com comunidades e no convite à participação, seu trabalho dissolve frequentemente a fronteira entre arte e vida. Embalagens de alimentos e os processos da alimentação, do preparo ao ato de comer, são recorrentes em suas obras mais célebres e servem tanto como veículo para abordar fluxos migratórios, diásporas e despossessão, quanto como testemunhos da preservação de tradições e como resistência cultural. 

Michael Rakowitz soma participações em mostras coletivas como Trienal de Aichi; dOCUMENTA 13; 16ª Bienal de Sidney; 10ª Bienal Internacional de Istanbul; 15ª, 14ª e 8ª edições da Bienal Sharjah; e 3ª Bienal de Tirana. Sua obra é parte de importantes acervos internacionais, entre eles: MoMA, Tate Modern, Castello di Rivoli Museo d’Arte Contemporanea, MCA Chicago, Van Abbemuseum, The British Museum, The Metropolitan Museum of Art, Museu Nacional de Cabul e UNESCO. A partir de 14 de março, o artista integra a 25ª Bienal de Sidney – Rememory.

Em seu trabalho, Michael Rakowitz aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos imbuídos em espaços urbanos e em objetos cotidianos. O artista constitui uma certa “etimologia material” ao manter uma metodologia investigativa sobre as contingências específicas de seus projetos, revelando eventos históricos, biográficos e culturais que resultam em imbricamentos complexos de imagens, linguagens e tempos. Mobilizado por sua ascendência iraquiana-judia, sua obra propõe reaparecimentos que aguçam as contradições entre a suposta racionalidade e a violência dos modelos civilizacionais do Ocidente. 

“Na noite de 17 de janeiro de 1991, lembro-me de estar sentado diante da televisão enquanto jantava, assistindo pela primeira vez em nossas vidas a imagens em tempo real do Iraque – de edifícios que meus irmãos e eu jamais chegaríamos a visitar. E então, de repente, percebi que o lugar para onde meus avós haviam fugido estava destruindo o lugar de onde eles fugiram. Foi quando realmente comecei a reconhecer sobre o que seria o trabalho da minha vida.”

Michael Rakowitz, em vídeo para o Nasher Prize Dialogues, 2022.

A imagem em metáfora do ato fotográfico.

Julia Kater exibe “Duplo/Dual” até 14 de março na Galeria Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP. 

Uma pequena fotografia nos guia: na superfície do tecido, duas mãos se aproximam sem se tocar, erguidas em espelho. O sol escorre entre os dedos, desliza pelos pulsos, se deposita sobre a mesa e retorna em sombra, criando uma espessura comum. O que conecta os corpos é essa película dourada, responsável por estabelecer um pacto silencioso, um tipo de encontro que acontece por incidência luminosa, e que transforma a própria imagem em metáfora do ato fotográfico. 

Novos desdobramentos na produção de Julia Kater, especialmente fruto da residência realizada em 2025, na Cité Internationale des Arts, em Paris. Se antes a artista operava sobretudo por adição e sobreposição, através de recortes e colagens de dicção abstrata, dedicados a embaralhar as coordenadas do céu e da paisagem, as novas impressões sobre seda tingida tratam de uma imagem que retorna ao centro da produção, e que parece emergir da trama do tecido. Enquanto o papel fotográfico tende a funcionar como suporte neutro, cuja função histórica é estabilizar a imagem, o tecido vem introduzir porosidade, uma vez que não apenas recebe a imagem, mas a absorve. Sobre essa primeira pele cromática, carregada de tempo e matéria orgânica, a impressão fotográfica vem pousar como aparição.

Na exposição, esses novos trabalhos podem ser vistos em diálogo com uma produção já conhecida do público, marcada pelo uso de recortes fotográficos, sobreposições e montagens que operavam por descontinuidade.

Caminhos e descaminhos da Arte brasileira.

A Galatea anuncia o primeiro curso de Formação e Repertório em Arte: Passagens e histórias, tempos e aproximações na arte do Brasil. Coordenado pelo curador e pesquisador Diego Matos, o curso apresenta um programa de natureza diversa e panorâmica, apontando para os mais variados caminhos e descaminhos da arte brasileira produzida ao longo do século XX e neste novo quarto de século.

O curso acontecerá ao longo de dezesseis aulas semanais com encontros online e presenciais, às quartas-feiras, das 19h30 às 21h30, com início em 18 de março e término em 1º de julho. A ideia central é fomentar um amplo repertório: para um público geral curioso em arte, para profissionais que integram o circuito artístico e, em especial, para uma plateia próxima à programação da Galatea.

Para isso, propõe-se um plano de aulas que dialogue e tangencie as intenções da direção artística da galeria, colocando em debate suas mais variadas exposições e artistas, sendo também uma plataforma de difusão.

Todas as inscrições devem ser feitas através do e-mail cursos@galatea.art