A pintura em estado de emergência contínua.

27/fev

A Fortes D’Aloia & Gabriel, Jardins, São Paulo, SP, apresenta até 18 de abril, “Maçã Roxa”, a primeira exposição individual de Willa Wasserman no Brasil. A mostra reúne pinturas intimistas de pequena escala sobre linho e latão, além de obras expansivas sobre tecido, produzidas entre Nova York, onde reside, e São Paulo, onde a artista realiza residência na Casa Onze.

Willa Wasserman aborda questões de intimidade, gênero e metamorfose, entrelaçando referências à pintura clássica e à cultura material com expressões contemporâneas da experiência queer. Trabalhando com tecido e metal, a artista trata o suporte como um participante ativo em cada composição. Óleo, ponta de prata – traços desenhados através da fricção da prata sobre uma superfície preparada – e processos químicos são aplicados de maneiras que permitem que oxidações, manchas e alterações tonais aflorem e permaneçam legíveis. Ela aborda a figuração sem enfatizar a clareza corporal ou contornos nitidamente definidos, privilegiando, em vez disso, espaços amorfos nos quais as formas flutuam e se dissolvem. Técnicas históricas são reinventadas para dar origem a corpos e atmosferas mutáveis, simultaneamente luminosos e sombrios, suspensos em um estado de emergência contínua.

Há vários anos, Wasserman trabalha com a natureza-morta como uma forma de pensar visualmente, tratando os objetos como uma forma de composição silenciosa em vez de exibição simbólica. Ela pinta arranjos de flores e cenas de jardim, como em “Do jardim no novo squat” (2026), onde o pigmento parece se fundir com a superfície metálica, conferindo às imagens uma profundidade tranquila e ambiente. Em “Natureza-morta com maçã roxa, tigela vazia, ancinho de fechadura” (2026), o ancinho de fechadura introduz uma nota de acesso transgressor, fazendo referência a experiências vividas de identidade trans e maneiras de navegar por espaços além das estruturas normativas.

Um artista iraquiano-norteamericano.

26/fev

A Almeida & Dale anuncia a representação de Michael Rakowitz. Com uma prática multidisciplinar, o artista iraquiano-norte americano aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos permeados em espaços urbanos e em objetos cotidianos. Tópicos como colonialismo, o imperialismo, a repatriação de artefatos e outros modos de responsabilização e compensação são atravessados em suas obras, a partir da revelação de eventos históricos e biográficos, no que nomeia de “etimologia material”. 

Pautado no engajamento com comunidades e no convite à participação, seu trabalho dissolve frequentemente a fronteira entre arte e vida. Embalagens de alimentos e os processos da alimentação, do preparo ao ato de comer, são recorrentes em suas obras mais célebres e servem tanto como veículo para abordar fluxos migratórios, diásporas e despossessão, quanto como testemunhos da preservação de tradições e como resistência cultural. 

Michael Rakowitz soma participações em mostras coletivas como Trienal de Aichi; dOCUMENTA 13; 16ª Bienal de Sidney; 10ª Bienal Internacional de Istanbul; 15ª, 14ª e 8ª edições da Bienal Sharjah; e 3ª Bienal de Tirana. Sua obra é parte de importantes acervos internacionais, entre eles: MoMA, Tate Modern, Castello di Rivoli Museo d’Arte Contemporanea, MCA Chicago, Van Abbemuseum, The British Museum, The Metropolitan Museum of Art, Museu Nacional de Cabul e UNESCO. A partir de 14 de março, o artista integra a 25ª Bienal de Sidney – Rememory.

Em seu trabalho, Michael Rakowitz aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos imbuídos em espaços urbanos e em objetos cotidianos. O artista constitui uma certa “etimologia material” ao manter uma metodologia investigativa sobre as contingências específicas de seus projetos, revelando eventos históricos, biográficos e culturais que resultam em imbricamentos complexos de imagens, linguagens e tempos. Mobilizado por sua ascendência iraquiana-judia, sua obra propõe reaparecimentos que aguçam as contradições entre a suposta racionalidade e a violência dos modelos civilizacionais do Ocidente. 

“Na noite de 17 de janeiro de 1991, lembro-me de estar sentado diante da televisão enquanto jantava, assistindo pela primeira vez em nossas vidas a imagens em tempo real do Iraque – de edifícios que meus irmãos e eu jamais chegaríamos a visitar. E então, de repente, percebi que o lugar para onde meus avós haviam fugido estava destruindo o lugar de onde eles fugiram. Foi quando realmente comecei a reconhecer sobre o que seria o trabalho da minha vida.”

Michael Rakowitz, em vídeo para o Nasher Prize Dialogues, 2022.

O têxtil como campo de memória.

24/fev

A artista angolana-portuguesa Ana Silva, inaugura Eau, na GAMeC, em Bérgamo, Itália. Essa é a sua primeira exposição individual na instituição italiana.

Eau apresenta um novo conjunto de obras da artista, cujo trabalho se apoia no têxtil como campo de memória, crítica social e reinvenção de materiais. Suas peças têm origem em um bordado tradicional africano, historicamente realizado exclusivamente por homens no continente. Ao intervir manualmente nessas superfícies e assumir também o papel de bordadora, Ana opera uma inversão simbólica do gesto original, introduzindo camadas de memória e autoria Em Eau, Ana trabalha em colaboração com bordadeiras da região de Bergamo, aprofundando sua investigação sobre a crise global da água. O resultado são obras que expõem a desigualdade no acesso à água, contrapondo a sutileza do bordado à urgência do tema.

A mostra integra o momento de transição entre dois eixos curatoriais da instituição e conecta-se ao programa Pedagogy of Hope, voltado ao papel formativo e transformador da arte, desenvolvido em diálogo entre o Departamento de Educação e a curadoria da GAMeC.

Sobre a artista.

Ao bordar nossas humanidades sublimes e obscuras nesses rostos semi-abstratos, Ana Silva nos lembra gentilmente que a reapropriação de nossas memórias para melhor construir nosso futuro é um trabalho de corpo a corpo, de coração a coração.

Charlotte Diez-Bento

Ana Silva vive e trabalha em Lisboa, Portugal, expressa sua criatividade por meio da diversidade de materiais que utiliza. Tela, madeira, metal, tinta acrílica e tecido são elementos que compõem e dão forma à sua arte. Durante suas caminhadas pelos mercados de Luanda, começou a distorcer o uso primário de sacos de ráfia e outros artefatos para um trabalho de memória; de objetos abandonados a objetos revividos: “Não consigo separar meu trabalho da minha experiência em Angola, em uma época em que o acesso a materiais era difícil devido à guerra de independência e à guerra civil. Minha criatividade nasceu da exploração de meu ambiente imediato. Essa experiência teve um grande impacto em minha maneira de trabalhar e em minha vida de modo geral.”

Metáfora para uma formação cultural.

12/fev

A exposição “Como funcionam os vulcões” inaugurou o programa de 2026 da Carpintaria, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ. A mostra reúne obras de Amélia Toledo, Arthur Chaves, Barrão, Cerith Wyn Evans, Ernesto Neto, Ivens Machado, Janaina Wagner, Leda Catunda, Maria Manoella e Mauro Restiffe, Rivane Neuenschwander e Cao Guimarães, Rodrigo Cass, Rodrigo Matheus, Tiago Carneiro da Cunha, Valeska Soares e Yuli Yamagata.

Concebida em diálogo com a chegada do Carnaval no Rio de Janeiro, “Como funcionam os vulcões” toma a imagem do vulcão como metáfora para uma formação cultural complexa. Longe de um fenômeno visível ou imediato, a exposição evoca processos que se desenvolvem ao longo do tempo, acumulando pressões, desejos, conflitos e fantasias até alcançar um ponto de liberação. Nesse sentido, o Carnaval é proposto não apenas como espetáculo, mas como a manifestação de um longo processo de gestação moldado por forças sociais, materiais e simbólicas.

Percorrendo escultura, instalação, desenho, vídeo, pintura e técnicas mistas, a exposição enfatiza como o sentido se produz por meio da duração e da persistência material. As obras reunidas lidam com dinâmicas de acúmulo, transformação e emergência. Reunindo artistas de diferentes gerações e posições, a mostra apresenta práticas atentas a estados de latência e erupção, suspensão e excesso. Materiais são reunidos, sobrepostos, esticados, comprimidos ou colocados em movimento, registrando tensões entre controle e imprevisibilidade, estrutura e instabilidade. O encontro com as obras se dá entre o maravilhamento e a tensão, entre o que é encenado e o que permanece em estado latente.

Artistas de distintos gêneros e gerações.

29/jan

A Galeria Nara Roesler São Paulo convida para a abertura, no dia 05 de fevereiro, às 18h, da exposição “Telúricos”, com curadoria de Ana Carolina Ralston, que selecionou trabalhos de dezesseis artistas – entre nomes consagrados internacionalmente – como Richard Long (um dos pioneiros da landart), Not Vital e Isaac Julien -, ou no circuito nacional, como Brígida Baltar (1959-2022) e Amelia Toledo (1926-2017), e artistas convidados, oriundos de várias partes do país. 

Ana Carolina Ralston destaca que “Telúricos” propõe a ativação de outros sentidos, além do olhar, e estão na mostra esculturas olfativas e também sonoras. Os artistas, de distintos gêneros, lugares, gerações e suportes são, além dos já mencionados: Alessandro Fracta, amorí, Ana Sant’anna, C. L. Salvaro, Denise Alves-Rodrigues, Felipe Góes, Felippe Moraes, Flávia Ventura, Karola Braga, Kuenan Mayu e Lia Chaia.

A exposição traz mais de 40 trabalhos, muitos deles inéditos, que, em vários suportes. A curadora menciona o pensador Bruno Latour (1947-2022), para quem “…a matéria terrestre não é um simples suporte, mas um agente de vontade, um núcleo de energia ativa que convoca metamorfoses e insurgências; uma força subterrânea que não é apenas cenário, mas protagonista”.

Na primeira sala, estará a escultura “Moon” (2017), em mármore branco, do suíço Not Vital, perto das três obras de Richard Long, seu amigo e um dos pioneiros da land art, criadas em 2024. Nas paredes, duas pinturas inéditas de Ana Sant’anna – “O instante que paira” e “Nut”, “…paisagens que misturam nosso imaginário e espaços telúricos”, ressalta a curadora. A videoinstalação “Enterrar é plantar”, de Brígida Baltar, com quatro telas, registra sua ação de “enterrar suas memórias”, e acompanha dois desenhos da artista. A instalação “Canto das ametistas”, de Amelia Toledo, com seus blocos de ametistas no chão, foi escolhida por sua ressonância mineral e espiritual, característica do trabalho da artista. Na parede frontal, a fotografia “Under Opaline Blue” de Isaac Julien.

Na passagem entre as salas, atravessando o percurso do público, estará a instalação “Antes de afundar, flutua”, feita por C. L. Salvaro, especialmente para o espaço da exposição, com planta, terra, entulho e tela de arame. Uma parte da obra ficará próxima ao chão, e outra suspensa, de modo a permitir a passagem dos visitantes por baixo dela. Ana Carolina Ralston assinala que a exposição se fundamenta em um conceito do filósofo Gaston Bachelard, em seu livro “A Terra e os Devaneios da Vontade”: “A imaginação telúrica cava sempre em profundidade; ela não se contenta em superfícies, precisa descer, pesar, resistir”.

Até 12 de março.

Foco na arte moderna e contemporânea.

27/jan

A exposição “Vetores” reúne um conjunto expressivo de obras que atravessam diferentes períodos da arte moderna e contemporânea. São nomes de movimentos e grupos marcantes da arte brasileira, como o Concretismo, o Neoconcretismo, o Grupo Ruptura e a geração 1980, além de figuras proeminentes dos modernismos internacionais.

Sob curadoria de Antonio Gonçalves Filho, diretor cultural da Almeida & Dale, a mostra é distribuída em três núcleos – dedicados à escultura, pintura e outro à fotografia e gravura – e ocupa dois espaços da galeria na rua Fradique Coutinho, São Paulo, SP, articulando obras do modernismo como vetores de renovação e experimentação que reverberam na produção contemporânea dos últimos quarenta anos.

No núcleo escultural, obras de Ernesto de Fiori, José Damasceno, José Resende, Lygia Pape, Nelson Felix, Sergio Camargo, Sérvulo Esmeraldo, Tunga, Victor Brecheret, Willys de Castro situam a tridimensionalidade como campo de experimentação contínua: da síntese volumétrica às operações de corte, dobra, suspensão ou repetição, as peças evidenciam modos distintos de pensar o espaço como matéria.

O grupo dedicado à pintura reúne artistas que, cada um a seu modo, expandiram o entendimento do plano pictórico: Aluísio Carvão, Arcangelo Ianelli, Cássio Michalany, Carlos Cruz-Diez. Dudi Maia Rosa, Eduardo Sued, Eleonore Koch, Judith Lauand, Lothar Charoux, Mira Schendel, Paulo Pasta, Rodrigo Andrade e Volpi dialogam com figuras internacionais como Frank Stella e Lucio Fontana. A curadoria traça conexões entre o raciocínio concreto e o gesto incisivo de Lucio Fontana e a busca do neoconcretismo pela conquista do espaço e abandono do plano. Outro caminho apontado conecta a pintura norte-americana às gerações que marcaram a retomada experimental da pintura no Brasil, com nomes como Dudi Maia Rosa, Paulo Pasta e Rodrigo Andrade.

No terceiro núcleo, a fotografia e a gravura aparecem como zonas onde tempo, luz e memória operam como vetores próprios. Trabalhos de Miguel Rio Branco e Hiroshi Sugimoto expandem a noção de imagem ao colocá-la em relação com atmosferas, ritmos e presenças que ultrapassam o registro documental. Outra conexão entre este núcleo e o restante da mostra é feira por um “Metaesquema” de Hélio Oiticica.

Reunidos, esses três conjuntos não visam oferecer uma genealogia definitiva, mas servem como um panorama, ora ancorado em leituras fundamentais da historiografia da arte, ora propondo relações insuspeitas. Vetores apresenta o Modernismo como uma força em movimento – um impulso que continua a gerar desdobramentos, encontros e novas possibilidades artísticas.

Ethan Cook uma memória partilhada.

22/jan

A Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP, apresenta a primeira exposição do artista americano Ethan Cook no Brasil. Em “Mundo Menor”, o espaço é habitado com uma série na qual o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura.

Ethan Cook nasceu em Tyler, EUA, 1983, trabalha a pintura em seu campo expandido, utilizando a tela tecida, o papel artesanal e o aço. As pinturas de Ethan Cook são compostas por painéis de tecido colorido que foram tecidos à mão num tear de quatro arneses, costurados e esticados em barras. O artista opera subvertendo a lógica de que para pintar é preciso aplicar pigmento sobre tela, de modo que, utiliza um tear para tecer grandes faixas de tecido colorido em suas superfícies. A performance da criação artística é ao mesmo tempo meditativa e intensamente rítmica. Suas obras integram importantes coleções como o Art Institute of Chicago, o Museum Voorlinden, o Jordan Schnitzer Museum of Art, a Fondation CAB e Juan Carlos Maldonado Art Collection. 

Texto de Mariane Beline.

A inserção do sujeito no mundo é por meio da percepção. A ela se atribui a capacidade de assimilar e ser no mundo, afinal, somos seres perceptivos. O artista não representa apenas o mundo, mas o projeta, nos faz ver outras possibilidades e torna visível a estrutura sensível do real. É pelo atravessamento plástico que podemos sugerir o exercício da atenção metafísica, que desvela a organização fenomênica para além dos aspectos familiares da experiência. A arte se revela como excedente do sentido, um campo privilegiado que opera na captura das nuances do sensível – a linha, o traço, a arranjo cromático, volumetria, profundidade e ritmo – todos elementos presentes no trabalho de Ethan Cook. 

Merleau-Ponty defende o sujeito como portador das capacidades que apreendem todas as configurações sensíveis mundanas e, por outro, define o ser do mundo como a totalidade dessas configurações. Na mostra “Mundo menor”, primeira individual de Ethan Cook no Brasil, nos deparamos com o encontro da fenomenologia de Merleau-Ponty ao homem vitruviano de Leonardo da Vinci, em que o corpo humano é um microcosmo, um reflexo em miniatura do universo, a vivência de um todo unificado, em suas ramificações profundas e conectadas, antecipando uma contrariedade ao pensamento cartesiano da separação. A poética de Cook é vitruviana, em que seu olhar perceptivo da técnica projeta uma exposição, unificada, da saída da linha do tear até finalmente a montagem no chassis, a cada linha e tecido entrelaçado se guarda o gesto do artista. Cook nos demonstra a espessura de um mundo sensível, o estar diante de uma obra de arte e o fundamento em sua prática. O espaço é habitado com uma série que o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura. Utiliza o tear de quatro arneses, um dispositivo manual que mantém os fios sob tensão, permitindo dessa forma que possam ser entrelaçados, enredados, forjando uma trama que se torna um tecido e se irradiam em blocos de cor. 

Opera no campo da pintura expandida, demonstrando plasticamente o elemento pictórico sem o uso do pincel, aplicando a pintura parte a parte, em uma estruturação do grid nada enrijecido, principalmente pelas escolhas na formatação das cores na verticalização dos tecidos colocados que partilham o espaço da tela de um modo ritmado. Não é necessário a utilização da tinta e pigmento sobre a tela para a concepção de uma pintura, a composição cromática nos trabalhos circula os azuláceos, ora mais marinhos e abissais, ora mais lavados e esmaecidos, em toda sua totalidade sobre o fundo de algodão claro. Projeta flutuações e sobreposições e cria massas de cores solidificadas que se tornam campos de cor filamentosos. Dentre os azuis vemos o olhar atrair-se diretamente para massas de cor que se destacam como os de cor avermelhada, esverdeados e rosáceos. O tear é uma tecnologia consolidada muito antes da revolução industrial, parte de conhecimentos tradicionais na tecelagem. No entanto, na perspectiva de Cook o dispositivo é contemporâneo e leva a abstração ao limite, desloca uma técnica milenar e atribui outros sentidos a estes processos, materiais e montagens. Contraria a lógica industrial da reprodutibilidade têxtil. Em sua poética a tecelagem é orientada pelo gestual. 

Há um amalgamento da ação em que o gestual se mescla, o esticamento da linha é também a tensão da mão de Cook, o conjunto de fios aguarda, a mão decide o encaminhamento e se hibridiza quem é artista e o que é matéria, em um cruzamento do micro e do macro. As várias partes dos tecidos coloridos são modeladas e costuradas, indicando formações geométricas e abstratas. Se apropria da ação do acaso, tanto matérico como conceitual, ao incorporar aspectos artesanais da tecelagem em formas emendadas e mosaicas. Há uma memória partilhada a partir da experiência incorporada da interconectividade entre os trabalhos. Se Penélope, na epopéia Odisséia, tecia durante o dia e destruía durante a noite, ela articulava politicamente a suspensão do tempo a partir de sua ação ativa, em um futuro que dependia de sua dedicação ao tear. Em Cook o processo é inverso, é construção e edificação, a interconexão entre as obras é a potência da tecelagem pictórica, o espaço é enlaçado, cada trabalho é singular e formam um corpo de pintura em conjunto. As pinturas são planificadas e as partes contíguas dos tecidos se tornam apenas um, a composição cromática ritmada ocasiona a materialização do indizível, ou como afirmou Anni Albers, é a sensibilidade tátil em ação – sensibilidade essa que emana da poética de Ethan. 

Em Ethan Cook a matéria é abstracional, o pensamento da tecelagem é pictórico, e o dispositivo tear não é somente um dispositivo mecânico, mas uma parte compositiva do gesto do artista, carregando a contemporaneidade em compasso com a historicidade. O artista é iniciador de uma ação que gera uma obra e conta com parcela do acaso na produção. Ele não controla todos os aspectos de seu significado. Há uma beleza em incorporar a matéria como parte constitutiva da poética, em que a linha, o tecido e o aspecto artesanal do tear são compositivos e identificáveis como elementos do artista, enquanto o espaço expositivo é enovelado, expandindo e articulando a estrutura sensível do real. 

Até 07 de março. 

Entre a fotografia e o cinema.

15/jan

O Instituto Moreira Salles (IMS), São Paulo, SP, exibe mostra com fotos inéditas de Agnès Varda e investiga a profunda relação entre sua fotografia e o cinema. “No meu trabalho, na minha vida de artista, sou tão fascinada pela imobilidade da fotografia quanto pelo movimento do cinema”, dizia Agnès Varda. O deslizamento entre o instante fotográfico e o fluxo fílmico, fundamental em sua obra, é um dos focos centrais da exposição no Instituto Moreira Salles (IMS). Reunindo 200 fotografias – muitas delas inéditas -, a iniciativa não só resgata a Varda fotógrafa, um lado menos conhecido da consagrada cineasta, mas também mostra como sua produção está conectada com as questões contemporâneas, como feminismo, combate ao racismo e defesa dos direitos civis. “Ela se interessa pelas possibilidades artísticas da fotografia”, afirma João Fernandes, diretor artístico do IMS e curador da exposição ao lado de Rosalie Varda, filha e parceira de Agnès.

Fez um curso profissionalizante, observou a produção de outros criadores e seguiu conselhos de mestres como Brassaï. O teatro também foi fundamental nesse processo de formação do olhar. Jean Vilar acabava de criar projetos que se tornariam referências incontornáveis, o Festival de Avignon e o Théâtre National Populaire (TNP), e a convidou para documentar essas produções. Agnès também colaborou com a revista Realités, envolveu-se em outros projetos teatrais como a montagem de Papa Bom Dieu – peça encenada pelo primeiro grupo de teatro negro francês com conexões com o Teatro do Negro que Abdias Nascimento fundou no Brasil. Em 1954, quebrando a lógica do mercado de arte, realizou sua primeira exposição, que não acontece numa galeria, mas em sua própria casa-ateliê, na Rua Daguerre, onde viveu até sua morte, em 2019.

Fonte: Maria Hirszman.

Grande nome do construtivismo latino-americano.

Um retrospcto da obra de Joaquín Torres-García ganha exposição com 500 itens no CCBB São Paulo, SP. A mostra celebra a trajetória do artista utuguaio Joaquín Torres García (1874-1949), mundialmente conhecido por sua obra “América Invertida” (1943), que retrata o continente de ponta-cabeça, sendo um símbolo do pensamento do artista, muito relacionado ao conceito de decolonialidade. 

“Joaquín Torres García – 150 anos” apresenta obras e documentos, incluindo pinturas, manuscritos inéditos, maquetes e desenhos. Algumas peças deixam pela primeira vez as reservas técnicas do Museo Torres-García, que colaborou com a curadoria de Saulo di Tarso, revelando ao público aspectos pouco conhecidos da produção do artista.

A mostra aborda sua obra pictórica, gráfica, escrita e pedagógica, que o consagrou como um grande nome do construtivismo latino-americano, e vai além, ao posicioná-lo como pensador global. Destaques incluem noventa volumes manuscritos por Torres-García, além de desenhos autobiográficos e uma carta inédita enviada a ele pela poeta Cecília Meireles. 

O ícone “América Invertida” surge suspenso em forma de móbile no hall de entrada. Artistas influenciados por sua produção, como Anna Bella Geiger, Carlos Zílio, Rubens Gerchman e Montez Magno também estão em cartaz.

Até 09 de março.

Fonte: Veja São Paulo.

Diferentes gerações da arte latino-americana.

04/dez

A Galatea e a Isla Flotante têm a alegria de participar em parceria da Art Basel Miami Beach 2025. Ocupando o estande F26 no setor Galleries, o projeto é concebido como um território de diálogo entre diferentes gerações da arte latino-americana.

A apresentação articula uma série de afinidades transversais entre práticas modernas e contemporâneas que compõem os programas das duas galerias. Os legados construtivos de Lygia Clark e Abraham Palatnik reverberam nas operações materiais de Mariela Scafati, Pablo Accinelli, Valentín Demarco e Allan Weber; a sensibilidade textual e minuciosa de Mira Schendel ressoa nas investigações pictóricas e espirituais de Rosario Zorraquín; e as figurações visionárias de Chico da Silva, Heitor dos Prazeres e Jaider Esbell reinventam as noções de narrativa, comunidade e cosmologia. Reunidas, essas obras propõem uma constelação do Sul ao Sul que imagina novas formas de pensar a modernidade, o corpo, a memória e a coletividade. O estande representa o encontro de duas jovens galerias latino-americanos com programas comprometidos com a experimentação e o diálogo. Galatea e Isla Flotante propõem uma visão da arte como uma rede de múltiplas afinidades, para além de fronteiras nacionais ou geracionais.

Com Abraham Palatnik, Adriana Varejão, Allan Weber, Ana Prata, Antonio Dias, Arthur Palhano, Carolina Cordeiro, Chico da Silva, Dani Cavalier, Dalton Paula, Frans Krajcberg, Gabriel Branco, Gabriella Marinho, Heitor dos Prazeres, Ione Saldanha, Isay Weinfeld, Ivan Serpa, Jaider Esbell, Joaquim Tenreiro, José Adário dos Santos, Lygia Clark, Lygia Pape, Mariela Scafati, Mira Schendel, Mucki Botkay, Pablo Accinelli, Rosario Zorraquín, Rubem Valentim, Tifo Terapia, Tobias Dirty, Tunga e Valentín Demarco.