No Instituto Tomie Ohtake

21/jun

A mostra inédita, organizada e realizada pelo Instituto Tomie Ohtake, Pinheiros, São Paulo, SP, sob a curadoria de Paulo Herkenhoff, coloca em destaque a produção e a trajetória de diversas mulheres que desafiaram convenções e limites de suas épocas, nos séculos XIX e XX no Brasil, seja no campo estético ou social. “Invenções da Mulher Moderna, Para Além de Anita e Tarsila” é o resultado de uma extensa pesquisa que o curador Paulo Herkenhoff desenvolve há décadas, alimentada pela contínua reflexão sobre a obra de diversas mulheres artistas brasileiras. Esta mostra, portanto, desdobra o já conhecido comprometimento de Herkenhoff com o registro histórico da produção feminina e com a reflexão teórica sobre suas invenções.

 

Para a exposição, com cerca de 300 obras, além de fotos e documentos, o curador toma como referência dois pilares do modernismo no Brasil, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, e apresenta novos apontamentos sobre suas obras e histórias. Em torno dessas referências, a maior parte das obras e das narrativas presentes na exposição vai mais longe, e apresenta mulheres que são em sua maioria desconhecidas do grande público.

 

Entre mostra e catálogo, o curador não pretende organizar um dicionário/glossário de nomes e imagens, muito menos construir uma grande narrativa completa e acabada, mas situar de maneira historiográfica e crítica diversas personagens que complementam e transformam a história da cultura e da arte no país.

 

Assim, ao invés de uma narrativa linear, a mostra elege diversos núcleos, que se distribuem como uma rede ou uma constelação. Núcleos heterogêneos são estabelecidos e dão visibilidade a questões e temas relevantes, que abrangem tanto dados históricos e factuais quanto tentam evidenciar a subjetividade das artistas escolhidas. As invenções, como sugere o título, dizem respeito às criações dessas mulheres e também à construção da imagem da mulher que foi sendo aberta e lapidada ao longo dos séculos XIX e XX. Além de seu pioneirismo, essas personagens têm em comum o enfrentamento de tensões e conflitos de diversas ordens.

 

Em “Mulheres de Vassouras” – trocadilho entre as mulheres e a cidade carioca que foi polo do café do século XIX e de revoltas de escravos – estão: retratada em pintura anônima, Eufrásia Teixeira Leite (1850 – 1930), intelectual que se relacionava com Joaquim Nabuco e se notabilizou por libertar seus escravos e por seus atos de filantropia; registros da prisão, oriundos do Arquivo Nacional, de Mariana Crioula, negra, casada com o quilombola Manoel Congo e que, ao seu lado, participou da maior fuga de escravos ocorrida em 1838; e obra de Abigail de Andrade (1864 – 1890, França) que, segundo o curador, foi uma das primeiras a executar no Brasil as chamadas pinturas de gênero, pautadas nas cenas cotidiana de interiores doméstico.

 

Para pensar as “Mulheres do Século XIX”, Paulo Herkenhoff se vale da ideia do “muxarabi”. O elemento da arquitetura que lembra uma grade de madeira, de origem árabe, permite entrada da luz, se pode ver de dentro para fora, mas não de fora para dentro. Essa posição representa o lugar protegido e reservado que era designado à mulher e foi, gradualmente, superado conforme mulheres decidiam abandonar tal “mediação” ao pintar e registrar a cidade, encarando e sendo encaradas de volta. No século XIX houve cerca de 50 mulheres conhecidas como pintoras e a exposição reunirá cerca de 15 delas.

 

Já o núcleo “Modernas antes do Modernismo” elenca nomes de artistas que marcaram a época e o local em que viveram, por estarem desvinculadas dos princípios da arte acadêmica, porém não integrando o modernismo organizado como vanguarda no país no começo do século XX. É o caso da espanhola, que chegou ao Brasil nos anos de 1890, Maria Pardos em Juiz de Fora, Minas Gerais, uma pintora da intimidade e do mundo privado e que ganhou diversos prêmios em salões. Outra artista pertencente a este grupo é Nair de Teffé (1886 – 1981, RJ) que, segundo o curador, foi a primeira caricaturista mulher de quem se tem notícia em escala mundial.

 

O segmento dedicado à “Fotografia” evoca a atuação da mulher no século XIX, como a chegada, em 1842, de cinco daguerreotipistas no Rio de Janeiro, dentre eles, uma mulher. A mostra traz a figura que modificou os parâmetros da fotografia no século XIX, Fanny Volk, alemã radicada em Curitiba no ano de 1881. Com interesse voltado ao social, uma de suas pesquisas constava de fotografar o trabalho masculino ao ar livre. Já entre as presenças no início do século XX o curador ressalta as fotografias de Hermínia Nogueira Borges (1894, RJ – 1989, RJ), fundadora do Foto Clube Brasileiro, no Rio de Janeiro, e as cerca de 10 mulheres que dirigiram estúdios, a primeira em 1908, no Estado de São Paulo, e em 1910, na capital. As lentes estrangeiras que chegam ao Brasil no século XIX também são investigadas pelo curador que, no caso, envolve mulheres e homens com olhares não modernista, pois se afastavam de questões nacionalistas e preocupavam-se com a subjetividade e os registros sociais.

 

Um dos pilares da mostra, Anita Malfatti (1889 – 1964, SP), além de pinturas, comparece acompanhada de uma análise crítica do texto “Paranoia ou mistificação?” (1917), de Monteiro Lobato. Para dissecar o texto de Lobato, que ficou célebre pelo impacto que teve na percepção da trajetória da artista, Paulo Herkenhoff   baseia-se no código civil da época. Lobato era Procurador do Estado e os termos de seu artigo refletiam o pensamento retrógrado que tratava a mulher como cidadão minoritário, parcialmente incapaz de tomar decisões. Já sobre Tarsila do Amaral (1886 – 1973, SP), além de uma série de pinturas, a exposição apresenta desenho/estudo do Abaporu (obra de 1928).

 

Em “Escultoras” há obras a partir da primeira metade do século XX, concebidas por artistas como: Nicolina Vaz de Assis (1874, SP- 1941, RJ), que na cidade de São Paulo tem uma de suas mais conhecidas esculturas, a Fonte Monumental na Praça Julio de Mesquita (1927), participa com algumas de suas peças em bronze e um retrato seu pintado por Eliseu Visconti; Zelia Salgado (1904, SP – 2009, RJ), que foi professora da Lygia Pape, ganhará destaque a partir de alguns momentos de sua obra, como o que faz referência à “Unidade tripartida”, de Max Bill; e Adriana Janacopoulos (1897, RJ), reconhecida por conceber monumentos, cabeças e bustos, tem um de seus trabalhos representado.

 

Maria Martins (1894, MG – 1973, RJ) é um núcleo em si. A curadoria evidencia a ousadia de sua produção ao abordar diretamente o desejo como centro poético de sua obra e a cópula como tema direto de algumas. A abordagem do trabalho enfatiza o contraste dessa atitude com o pudor vigente no Brasil naquele período.

 

Já para Lygia Clark (1920, MG – 1988, RJ), a mostra constrói um percurso pelas noções poéticas fundamentais de sua obra, com leitura e análise de conceitos como o de “espaço modulado”, enquanto Lygia Pape (1927 – 2004, RJ) é apresentada por meio de alguns de seus vídeos, como “Eat me” (1975) e “Divisor” (1967). Tomie Ohtake (1913, Kioto, Japão – 2015, SP) é aproximada da pintura de Alina Okinaka (1920, Hokkaido Japão – 1991, SP), formando o núcleo “Mulheres Japonesas”, que traz questões sobre o silêncio, a fala e a escrita, análogas à obra de Mira Schendel que acrescenta, ao silêncio e à fonética, o indivisível.

 

Por fim, produções pouco conhecidas pelo grande público, por partirem de personagens que não vêm do eixo Rio-São Paulo compõem “As Amazonas”, com Julieta de França (1872 – 1951, PA) e Antonieta Santos Feio (1897 – 1980, PA), ambas de Belém e com estudos em arte na França e Itália.  Julieta de França aproximou-se do Art Nouveau e expôs junto de Rodin, na França. Foi uma das primeiras mulheres a enfrentar o regime acadêmico e disputar os espaços com os homens artistas, sendo duramente criticada por isso. Antonieta Santos Feio usou seu olhar atento para representar figuras e personagens locais e seus costumes. Em um primeiro momento suas obras dedicam-se à figura da mulher engajada no trabalho e na religião e depois passa a mostrar a extração da borracha, universo majoritariamente masculino.

 

 

Até 20 de agosto.

Steve Jobs, o visionário

20/jun

Homem que impactou o mundo com sua personalidade e capacidade de inovação, Steve Jobs é o tema da exposição “Steve Jobs, o visionário” no Museu da Imagem e do Som, Jardim Europa, São Paulo, SP. Uma realização da agência ítalo-brasileira Fullbrand, co-realizada pelo MIS. Na exposição, o público terá acesso ao rico universo de Steve Jobs. São 209 itens entre fotos, filmes, reportagens e produtos históricos que mostram a forma como pensava e criava uma das maiores personalidades do século XX.

 

Em “Steve Jobs, o visionário”, há um percurso estruturado por células narrativas – Espiritualidade, Inovação, Competição, Fracasso, Negócios e Sonho – concebido pelo escritório Migliore + Servetto Architects – traz uma experiência rica e profunda do universo de Jobs. O público tem acesso a centenas de pequenas e grandes inovações criadas por Jobs. Entre elas a peça mais rara da exposição: o Apple 1, fabricado em 1976, que foi adquirido em um leilão da Christie’s por U$ 213,6 mil, em novembro de 2010, por Marco Boglione, idealizador da exposição. Hoje, o computador já triplicou de valor. Outro destaque nesse tema é o Lisa, que, lançado em 1983, foi o primeiro computador pessoal a ter um mouse e uma interface gráfica – mas foi considerado como um dos maiores fracassos da Apple.

 

Os visitantes também têm acesso a uma sala dedicada às imagens inéditas de Jobs em sua vida cotidiana feitas por Jean Pigozzi, francês radicado em Nova York, fotógrafo de confiança do inventor.

 

A inspiração para a exposição surgiu a partir de uma mostra sobre o criador da Apple realizada na Itália, porém, o formato implantado no Brasil é totalmente original. Antes de São Paulo, a exposição passou pelo Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz no Píer Mauá. Com apresentação do Ministério da Cultura e Bradesco, “Steve Jobs, o visionário” conta ainda com patrocínio da Cielo e apoio da Superga.

 

 

 

Sobre Steve Jobs

 

Nascido em 1955 em São Francisco, no Estado da Califórnia, EUA, Steve Jobs foi dado para adoção pelos seus pais, que não tinham condição de criá-lo. Desde jovem demonstrou interesse e habilidade para inovar e, em 1976, fundou a Apple, empresa consagrada seguidas vezes como a mais valiosa do mundo. Jobs revolucionou o universo da tecnologia ao lançar produtos como o Macintosh, o iPod, o iPhone e o iPad. Em 1984, demitiu-se da Apple e fundou a NeXT, companhia especializada em desenvolvimento de softwares. Anos mais tarde, em 1996, a Apple comprou a NeXT e Jobs assumiu o cargo de CEO da gigante da tecnologia, onde permaneceu até 2011, quando renunciou ao cargo em função de um câncer. Morreu ainda em 2011, aos 56 anos, em decorrência da doença.

 

 

Até 20 de agosto.

Para ver o Brasil

14/jun

A Oca, Parque do Ibirapuera, Portão 3, São Paulo, SP, exibe a exposição “Modos de ver o Brasil: Itaú Cultural 30 anos”. O evento celebra os 30 anos de atividades do Itaú Cultural e exibe cerca de oitocentas peças de um acervo de 15 mil obras do Banco Itaú. A mostra tem curadoria de Paulo Herkenhoff, em colaboração com Thais Rivitti e Leno Veras, e ocupa os 10 mil metros quadrados do espaço.

 

Entre as obras expostas, estão a tela “Povoado numa planície arborizada”, do pintor holandês Frans Post, e raridades como os mapas do século XVII: “Jodocus Hondius: AmericaSeptentrionalis”, “Henricus Hondius: Accuratissima Brasiliae Tabula”.

 

As peças foram organizadas em vinte núcleos espalhados pelos quatro andares do edifício, projetado por  Oscar Niemeyer. Cada piso tem uma organização temática por período: no térreo estão “São Paulo” e “De memória e matéria”; no subsolo “Da numismática à cibernética”; no primeiro andar, “Expressão e racionalidade”; e no segundo andar, “Uma invenção simbólica do Brasil: África e barroco”.

 

Entre as atrações está uma escultura de mais de cinco metros de altura, de Ascânio MMM, reconstruída para a ocasião. Obras antigas estão lado a lado com peças modernistas e contemporâneos, de artistas como Brecheret, Maria Martins, Hélio Oiticica, Portinari, Adriana Varejão, Gilvan Samico, Beatriz Milhazes, Vik Muniz, Vera Chaves Barcellos, Berna Reale, Siron Franco, Emanoel Araújo, Jaime Lauriano, Paulo Bruscky, Montez Magno, Ayrson Heráclito e Eder Oliveira dentre outros.

 

 

Até 13 de agosto.

Performance na Verve

12/jun

A performance “ Violação”, com Hélio Toste, será apresentada na Galeria Verve, Jardim Paulista, São Paulo, SP, dia 13 de junho, às 19hs. A curadoria é de Ian Duarte Lucas e tem a participação dos profissionais Eduardo Florence (Músico), Gabriel Goulart Ferreira (Câmera), Christian Saldanha e Francisco Machionne (Figurino) e Allis Bezerra (Foto). A coordenação é de Allann Seabra.

 

Qual a condição do Homem em nosso tempo?

Há um tempo que podemos chamar de nosso?

 

Colonizados através de discursos de ódio e poder, anos de história se repetem em uma sociedade que ignora leis naturais do ser humano desde o seu nascimento. Normas comportamentais impostas, que cultivam a valorização da intimidade e do autocontrole.

 

Comportamentos machistas construídos e impulsionados por homens que negam a vivência de sua feminilidade castrada, impossibilitando-os de presentear o mundo com momentos de delicadeza e sensibilidade. Homens com corpos controlados, “educados”, indivíduos autocentrados habituados à rotina e que tornaram raras às vezes o sagrado contato com a vida.

 

A vida coletiva tem sido cada vez mais vetada, a grande cidade nos aliena. Experiências como o nascimento de outro ser humano, um corpo nu desprovido de pudor ou despudor, nos faz entrar em contato, mesmo que através da sensação de constrangimento, com nosso lado humano e animal. Nossas vontades e anseios são por leis exteriores a nós, que vem senão de costumes ou de preconceitos.

 

O ser humano é o ser capaz da nudez. Nada no mundo ofende a natureza. É necessária a reinvenção do homem (com h minúsculo).

MARIA LEONTINA 

09/jun

A galeria Bergamin & Gomide, Jardins, São Paulo, SP, apresenta “Maria Leontina”, exposição individual da artista (São Paulo, 1917 – Rio de Janeiro, 1984) reunindo obras de diversas fases ao longo de sua trajetória de mais de 40 anos de produção.

 

Artista fundamental do período pós-guerra da arte brasileira, Leontina inicia sua produção na década de 1940 com uma estética modernista em trabalhos feitos em tela e papel. Seus desenhos e suas pinturas apresentam uma linguagem figurativa que rapidamente se desenvolve direcionada a uma abordagem expressionista. Ao longo dos anos 1950, a iconografia da sua obra aos poucos perpassa temas tradicionais como naturezas-mortas e retratos e assim surgem paisagens urbanas e construções geométricas. Nesse período a artista flerta com o construtivismo, no momento proeminente nas artes plásticas do país, porém sua obra não adere aos dogmas do movimento e dessa forma sua relação com as formas e cores acontece de forma leve e translúcida, a chamada “geometria sensível”. A partir dos anos 1960 e nas últimas décadas de sua produção, os trabalhos tendem a transitar entre o abstrato e o figurativo, em ambos porém é notável a presença de uma atmosfera taciturna que permeia toda sua obra. Independente do período ou da técnica adotada pela artista, seu trabalho é continuamente refinado, aguçado, indica camadas e nuances variadas a serem absorvidas pelo espectador, tanto pictóricamente quanto no campo transcendental.

 

Leontina é muitas vezes lembrada na história como esposa de Milton Dacosta. Essa exposição busca fazer uma revisão dessa perspectiva; além de mostrar ao público um apanhado geral da obra dessa artista essencial à arte nacional, a mostra pretende dar luz a uma produção que visualmente e conceitualmente foi pioneira no seu tempo ao mesclar geometria, figuração e abstração de forma coesa e singular, sendo assim possivelmente um dos pontos de intersecção da arte moderna com a arte contemporânea brasileira.

 

 

De 01 de junho a 15 de julho.

Brecheret na DAN galeria

07/jun

Com curadoria de Daisy Peccinini, especialista na obra do artista, a mostra traz uma série de desenhos e esculturas daquele que é considerado um dos escultores mais importantes do país e criador de um dos monumentos mais icônicos e significativos da cidade de São Paulo, o “Monumento às Bandeiras”. A mostra inclui criações do escultor de um período que vai de 1916 a 1955, apresentando ao público um panorama bastante abrangente de sua carreira artística. São 46 obras, entre esculturas e desenhos, que se dividem em núcleos e subnúcleos. Entre elas, há um desenho inédito, produzido no início de sua carreira. “Brecheret: Encantamento e Força”, com curadoria de Daisy Peccinini, é o cartaz atual da Dan Galeria, Jardim América, São Paulo, SP.

 

 

A exposição

por Daisy Peccinini

 

A exposição apresenta obras que definem as linhas de força da produção de Victor Brecheret (1894-1955). No espaço, vibram formas e volumes que testemunham os temas de sua predileção; que persistem, tomados e retomados no correr das quatro décadas de sua importante produção. É evidente que o tema do feminino prepondera apresentando-se como um grupo marcante, com um número maior de obras, em contraponto com as poucas exceções de esculturas que representam o masculino e, mais ainda, a rara abordagem do tema do idílio, entre o masculino e feminino. Um segundo também importante tema é o da arte indígena, considerando-se Brecheret um pioneiro, entre os escultores modernos, na pesquisa dos modelados e entalhes praticados pelos povos originais de nossa terra, que ele translada para as esculturas de modelagem da argila, com uma profunda sensibilidade das formas orgânicas.

 

A arte sacra, desde o início de seu percurso artístico, tem um lugar especial e suas pequenas e douradas virgens são exaltadas nos anos 1920 por críticos de arte da Escola de Paris. O tema sacro é recorrente em vários momentos das décadas seguintes, lembrando na década de 1940 o conjunto significativo da Via Sacra e das monumentais esculturas de Cristo Crucificado e de São Paulo, na Capela do Hospital das Clínicas, e outros temas usuais religiosos foram abordados, como Anunciação, Cristo, Maria, São Jerônimo e São Francisco, este último de sua predileção, representado de variadas formas, com animais e com instrumento musical.

 

Finalmente nesta apresentação de esculturas, destaca-se o tema dos cavalos aos quais Brecheret sempre teve uma grande paixão e deles fez presença importante, desde o primeiro projeto do Monumento às Bandeiras (1920) até o projeto realizado (1933-1954), está presente também no Monumento a Caxias, quer na escultura monumental equestre, quer nos relevos da elevada base em granito. Marcam fortemente as fachadas do Jockey Club de São Paulo, em painéis de mármore travertino nos quais Brecheret realiza uma saga de vida e de vitórias nas corridas.

 

Nessa variabilidade de temas e códigos de formas de diferentes próprios de fases do percurso artístico de Brecheret, duas qualidades se impõem como marcas estilísticas permanentes do grande escultor: o encantamento e a força. De fato, essas obras, que pertencem a diferentes momentos de sua copiosa produção, têm em si mesmas essas duas qualidades. Encantamento, uma especial sedução pela impecável fatura, fazendo os olhares deslizarem pelos volumes flexuosos, interagindo com a sensibilidade e prazer de cada um que os contempla.

 

Se de um lado existem encantamentos, por outro lado há conjuntamente a força, um élan que integra as partes numa pulsão centrífuga de modo que os volumes sedutores possuem força e tensão que os aglutina e geram uma aura monumental. A apresentação das esculturas e desenhos de Brecheret na Dan Galeria seguem os eixos de força da produção do escultor.os, Exposição, São Paulo.

 

Quando? Abertura: 8 de junho, das 19h às 22h; Período expositivo: de 8 de junho a 10 de julho de 2017

 

Roitman na Galeria André

02/jun

O pintor Herton Roitman inaugurou “De tudo fica um pouco…”, exposição individual na Galeria de Arte André, Jardim América, São Paulo, SP, na qual encontra-se em exibição doze desenhos, quinze telas e quatro assemblages. A curadoria é de Sonia Skroski que assina a apresentação e revela a biografia do artista. Natural de Porto Alegre, após residir um por três anos em Belo Horizonte, Roitman vive e trabalha em São Paulo. Intitula-se um catador de resíduos da memória afetiva. Em casa guarda cartas, selos, moedas antigas, a colagem move seu estado artístico, através de mutações quando da colocação de tintas e outros elementos sobre os recortes ou misturado com o desenho.

 

É no silêncio que surge uma relação íntima com o processo de criação sobre papel ou tela. Para Roitman o papel é o “sagrado”, em qualquer estilo, gramatura ou textura. O artista guarda especial preferência pelo desenho em bico de pena que interpreta como uma escrita poética. A cor e a textura são os elementos mais gratificantes em sua criação, seja em papel, tela ou em objetos. Após escolher uma ou mais cores em seu trabalho, passa um tempo descobrindo novas texturas, novas cores. A cor é a base da sustentação de seus trabalhos, preferindo a geometria ao figurativo e revela sua admiração por Mondrian e Paul Klee. Roitman foi ator, cenógrafo, figurinista premiado e diretor teatral. Sua formação inicial foi nas artes cênicas e desde 1986, dedica-se exclusivamente às artes visuais, mas o teatro encontra-se com o artista no espírito e em suas criações. Ouvindo música erudita e convivendo com as criações de sua mãe, – a conceituada modista Rafaela Roitman -, fez seu primeiro figurino em 1964, para a peça de Moliére, “Tartufo”, e ganhou o prêmio de Melhor Figurinista, mas sempre pintando,  desenhando e fazendo colagens.

 

 

 

Até 24 de junho.

Oito artistas naïfs

A Galeria Jacques Ardies, Vila Mariana, São Paulo, SP, inaugurou a mostra coletiva “Naïfs da Contemporaneidade”, com obras de 8 artistas brasileiros, cada um com sua visão própria e criativa sobre o universo em que vivemos.

 

Interpretar através da “arte naïf” pode não ser tão simples, visto que se trata de uma expressão regional que percorre o mundo assumindo aspectos de acordo com o que é vivenciado pelos artistas. Estes, exibem suas próprias experiências por meio de linhas e formas peculiares, sem ter recebido formação acadêmica de uma escola de Belas Artes. Algumas das principais características deste gênero são o uso de cores vibrantes, a retratação de temas banais, geralmente figurativos, bem como a idealização da Natureza sem o rigor técnico da perspectiva. Neste sentido, a arte “naïf” encontra no Brasil o ambiente ideal, graças à exuberância das florestas, à intensa luminosidade e ao calor humano brasileiro.

 

Assim, a mostra “Naïfs da Contemporaneidade” apresenta os artistas Thais Gomes, Enzo Ferrara e Ana Denise expndo suas obras pela primeira vez na galeria. O baiano Bida, o paranaense Marcelo Schimaneski e a paulistana Maite entraram no elenco da galeria recentemente e mostram suas últimas criações. Obras inéditas de Olimpio Bezerra (de Cuiabá), e de Ernani Pavaneli (do Rio de Janeiro) completam a mostra, que tem por objetivo evidenciar o dinamismo dos naïfs brasileiros atuais.

 

 

Até 1º de julho.

No Centro Cultural São Paulo 

28/mai

O Centro Cultural São Paulo, Paraíso, São Paulo, SP, inaugurou a exposição “Objetos sobre arquitetura gasta”, a primeira exposição individual do artista plástico André Griffo na cidade. Na exposição, que integra I Mostra do Programa de Exposições 2017 do centro cultural, o artista apresenta obras produzidas recentemente, sendo quatro pinturas, uma delas inédita, e uma instalação. “Os trabalhos fazem parte da minha atual pesquisa e este projeto almeja estabelecer um relacionamento com o público que permita o seu engajamento na proposta artística”, diz o artista.

 

André Griffo, que é representado pela galeria Athena Contemporânea desde 2013, já realizou exposições em importantes museus e centros culturais, como no Museu de Arte do Rio (MAR), no Museu da República e na Caixa Cultural, ambos no Rio de Janeiro. Também participou de uma mostra coletiva no Paço das Artes, em São Paulo.

 

Em “Objetos sobre arquitetura gasta”, o artista exibe quatro pinturas que representam espaços desocupados, vestígios ali deixados. “O processo é iniciado com a procura de edificações desabitadas para o registro fotográfico (e posterior reprodução em pintura) dos locais onde sejam percebidos sinais das ocupações passadas, evidentes na arquitetura e ou nos objetos remanescentes”, explica o artista, que busca o silêncio em suas obras.

 

A instalação “Predileção pela alegoria – Andaimes”, de 2016, feita em ferro, encontra-se nos jardins do centro cultural. A obra, que já foi apresentada nos jardins do Museu da República, no Rio de Janeiro, é composta por andaimes utilizados para construção e reparo de edificações, que são modificados com a inclusão de elementos provenientes da arquitetura gótica. Existe um contraponto entre o que é funcional e o que é estético. “Os ornamentos, elementos combatidos pela arquitetura funcionalista, modificam a estrutura dos andaimes, uma vez que suas aparições tornam-se corpos estranhos à armação, ao mesmo tempo que a estrutura modular modifica a natureza decorativa dos arcos, inserindo os elementos estéticos num contexto que não lhes são nem um pouco usual”, conta o artista. Para André Griffo, existe um diálogo entre as obras da exposição, mesmo se tratando de suportes diferentes. Além de todas tratarem do tema da Arquitetura, em uma das pinturas, por exemplo, há elementos góticos, que também estão presentes na instalação.

 

 

 

Sobre o artista

 

André Griffo foi bolsista no Programa de Aprofundamento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, 2013, com Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiarale e Marcelo Campos, mesmo ano em que realizou suas primeiras exposições individuais “Commando”, pelo edital de ocupação da Galeria de Arte Fernanda Perracini Milani, Prefeitura de Jundiaí, SP e “Reúso e Retardo”, na Galeria Athena Contemporânea no Rio de Janeiro. Em 2015,realizou as exposições individuais “Intervenções pendentes em estruturas mistas”, Palácio das Artes, BH, “Predileção pela Alegoria”, na Galeria Athena Contemporânea e “Engenho Maratona”, na Universidade de Barra Mansa, RJ. No ano passado, participou das exposições coletivas “Ao Amor do Público I – Doações da ArtRio (2012-2015) e MinC/Funarte”, no Museu de Arte do Rio (MAR), instituição que possui obra do artista em seu acervo, e “Intervenções”, no Museu da República, Rio de Janeiro. Outra mostra coletiva que integrou, foi “Instabilidade Estável”, em 2014, proposta pela curadora Juliana Gontijo para a Temporada de Projetos do Paço das Artes, em São Paulo. Em 2015, participou da exposição coletiva “Aparição no Espaço”, na Caixa Cultural, Rio de Janeiro, de curadoria de Fernanda Lopes e recebeu o Prêmio Especial do Júri no 47º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, SP . Entre os prêmios, em 2012, recebeu o da Leitura Pública e Análise de Portfólios no 44º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, SP e foi indicado ao Prêmio Investidor Profissional de Arte, PIPA, em 2014.

 

 

 

Até 27 de agosto.

Entre Objeto e Ser

17/mai

A Galeria Marcelo Guarnieri, Jardins, São Paulo, SP, a mostra “Flávia Ribeiro. Entre objeto e Ser”, trabalhos, em grande parte desenhos e esculturas, produzidos entre 2014 e 2017. Apesar de se apresentarem visualmente distintos entre si, todos eles são parte integrante de um mesmo conjunto de interesses da artista, que passam pelas questões da matéria, do corpo e da linguagem, e embora sejam pensados como peças individuais, possuem uma forte relação de irmandade tanto no processo de produção, quanto na montagem da exposição. “Entre objeto e ser” é a primeira de mais duas mostras individuais de Flávia Ribeiro que serão apresentadas nas unidades do Rio de Janeiro e de Ribeirão Preto da Galeria Marcelo Guarnieri.

 

 

Galeria Marcelo Guarnieri | São Paulo

 

Suponhamos que inicialmente seja desenho. As formas que surgem desconexas na imaginação de Flávia Ribeiro precisam, em algum momento, de um papel para se materializar, mesmo que seja apenas na visão. Uma espécie de anteparo, talvez, por onde possa deslizar qualquer tipo de material que deixe seu rastro. Ganham a certeza do traçado para alcançar, logo depois, a maturidade de um formato. Desenho como ferramenta do pensamento, como um primeiro encontro presenciado pela artista, entre aquilo que estava dentro e que agora está fora de si.

 

Suponhamos que inicialmente não seja desenho. Desinvestido de sua função de projeto, o desenho existe apenas como um segundo encontro, uma forma de entender, no plano, aquilo que já foi modelado no espaço. Uma espécie de tradução. É assim que surgem, no papel, tipos diversos de algo parecido a estruturas empilhadas, que podiam bem ser esqueletos de cadeiras ou mesas sem tampo. Embora sustentadas por pernas finíssimas e desajeitadas, parecem robustas, e talvez por essa ambiguidade, nos deixem confusos sobre o seu tempo de vida: seriam ainda esqueletos, em processo de fortalecimento para um dia suportar a carne, ou seriam já esqueletos, pura carcaça? Não ocupam sozinhos o espaço do papel, dividem o plano com campos de cor que podem vir em amarelo ou cinza, delimitados pela forma assertiva de um retângulo. Talvez seja da cor que se trata a carne. Na segunda dimensão, é ela quem tenta preencher o vazio dos corpos-esqueletos construídos pela artista.

 

Suponhamos, então, que inicialmente seja o espaço. Testar peso, tamanho, equilíbrio e textura. Tocar, moldar e fundir para descobrir do que se trata. Mexer nas coisas e fazer parte delas, doar um pedaço do próprio corpo por meio do gesto. Ribeiro precisa trazê-las para a terceira dimensão, transformá-las, enfim, em coisas: coisas que pesam, imóveis sobre o chão ou pendentes no ar. Pesam também no tempo, quando fundidas em bronze, matéria que carrega o valor da história e o símbolo da eternidade. O bronze, aqui, dá corpo à estruturas tortas, aparentemente frágeis, mas que, evidentemente, jamais quebrarão; petrifica um galho de árvore, eximindo da matéria-orgânica seu desejo maior: a vida.

 

Aliás, não seria a própria experiência da vida uma questão no trabalho de Flávia Ribeiro? Bem distante da abordagem literal ou religiosa, Ribeiro nos permite refletir sobre ela a partir de noções como movimento e transformação. Seus objetos parecem estar sempre em trânsito, pulando da terceira para a segunda dimensão, ou da segunda para a terceira; assumem múltiplas formas de existência, sendo papelão e parafina para logo então ser bronze, ou ser guache para depois ser veludo; podem articular-se em módulos como peças soltas, o que lhes permite infinitas combinações; também podem ser pendentes a partir de pontos de apoio fixados na parede, atestando a força da gravidade que rege e organiza nossa forma de vida neste planeta; constroem-se a partir do desejo constante de cercar espaços cheios de vazios, reivindicando seu direito de existência entre o tudo e o nada; evidenciam, enfim, em suas superfícies, o vigor do gesto de uma mão inquieta, seja no traço do lápis, seja na modelagem da parafina. Assim, somos instigados a acompanhá-los, caminhando pra lá e pra cá de modo a alcançá-los, curvando a coluna ou esticando o pescoço, sentindo no corpo e na alma o efeito de suas variadas texturas, dimensões e atmosferas; aliviados quando diante das superfícies lisíssimas do gesso ou sufocados pelo preto absoluto de uma manta de feltro muito grossa. A relação que estabelecemos com os trabalhos de Flávia Ribeiro, aliás, não precisa ser mediada pelas palavras, afinal, ninguém precisa nos dizer que estamos vivos: podemos sentir.

 

 

De 20 de maio a 01 de julho.