Sara Ramo representada pela Almeida & Dale.

01/dez

É com alegria que a Almeida & Dale anuncia a representação de Sara Ramo (Madri, 1975). Com 25 anos de trajetória marcados por ampla circulação internacional, a artista desenvolve um trabalho focado na criação de um campo simbólico mediado pelo contexto e pelo saber intuitivo. Polimórficos, seus trabalhos abordam a convivência de elementos em suposta oposição, incorporando o contraditório e a diversidade como parte da experiência vital.

O fora do lugar, o desconexo e o estranho pairam sobre as imagens que cria, por meio do acúmulo e colagem de elementos que permeiam a vida material, muitas vezes a partir de seus detritos e rastros. Ao esmiuçar cantos e porões dos espaços que transita, Sara Ramo expressa em seu trabalho as estruturas invisibilizadas que sustentam o mundo, as agrupações possíveis e as maneiras em que a atividade criadora pode se manifestar.

Sara Ramo apresentou individuais em diversas instituições, entre elas: Centro Internacional das Artes José de Guimarães, Guimarães, Portugal; Palácio das Artes, Belo Horizonte; Centro de Arte Dos de Mayo, Madri, Espanha; Museu de Arte de Zapopan, México; e Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri, Espanha. Participou também da 29ª e 33ª Bienais de São Paulo; 11ª Bienal de Sharjah; e 53ª Bienal de Veneza. Suas obras estão presentes em coleções como: Coleção Patrícia Phelps de Cisneros, EUA; Coleção Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM Rio, Brasil; Fonds régional d’art contemporain – FRAC, França; Instituto Inhotim, Brasil; Pérez Art Museum – PAMM, EUA; e Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.

Espanha Afro 2025.

Atividades em parceria com o Instituto Cervantes RJ, com a Embaixada da Espanha  e com a FLUP celebram o Novembro Negro brasileiro. Desde 2023, o Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, Botafogo, celebra, anualmente, o Dia da Consciência Negra no Brasil através do programa multidisciplinar “Espanha Afro”, já em sua terceira edição. 

Em parceria com a Embaixada da Espanha e com a FLUP, estarão no Brasil a jornalista, escritora e curadora espanhola Lucía Mbomío e o fotógrafo reunionense Laurent Leger-Adame. Eles participaram de duas mesas-redondas no Viaduto de Madureira, quando conversaram sobre fotografia, imigração, memória, direitos, entre outros temas também abordados no último livro de Mbomío, Tierra de la luz.

Já em 02 de dezembro, terça-feira, às 19h, o Instituto Cervantes inaugura “Afromayores”, mostra fotográfica assinada por Leger-Adame, que retratou protagonistas desses legados, sob curadoria de Mbomío. Tanto o reunionense Laurent Leger-Adame como a alcorconeira (Alcorcón-Madri) Lucía Mbomío há anos entrevistam pessoas negras com o objetivo de balancear a narrativa mediática generalista espanhola na qual, ou não aparecem ou somente são vistos de determinada forma. Entre os retratados em destaque estão o pai da curadora, Jose, e também Batata, único carioca, residente em Madri, “afromayor/idoso” da mostra, que entrou especialmente nessa edição no Rio de Janeiro. 

Como incentivo, faltava apenas determinar como e quando – infelizmente precipitado após o diagnóstico de demência com corpos de Lewy do pai de Lucía. Em um processo de perda de lembranças inexorável, era o momento de fazer memória antes de que a dele se apagasse completamente. Foi dessa forma como, durante um bom tempo com o cinegrafista José Oyono, sem nenhum tipo de apoio econômico, começaram a fazer as gravações, os retratos e a encapsular suas vidas com o objetivo de eternizá-los. Perceberam imediatamente como se infiltram nelas o colonialismo, questões administrativas, xenofobia, racismo, amor, renúncias, sonhos desfeitos e realizados, família, pertencimento e muita nostalgia do tipo que não cessa, mesmo que estivessem na Espanha há décadas. Seu lema é “Existimos Porque Existiram”.

Até 10 de janeiro de 2026.

Olhares atentos de diferentes geografias.

26/nov

Frank Walter

Luiz Zerbini

Observations: Luiz Zerbini in Conversation with Frank Walter

25 Nov 2025 – 7 Feb 2026

Observations: Luiz Zerbini in Conversation with Frank Walter, exposição inaugural do novo espaço da Fortes D’Aloia & Gabriel, Jardins, São Paulo, SP, dia 25 de novembro, com curadoria de Barbara Paca, apresenta um diálogo inédito entre pinturas de paisagem em pequeno formato dos artistas Luiz Zerbini e Frank Walter (Antígua, 1926-2009). Mestres da atmosfera em suas próprias linguagens, ambos revelam um profundo envolvimento com a memória, a percepção e as fronteiras porosas entre os mundos humano e não humano. Luz, cor e gesto se unem para articular tempo, lugar e visão, expandindo o vocabulário da paisagem para além de seus limites convencionais.

Para Frank Walter, a paisagem foi uma companheira constante em suas viagens por Antígua, pelo Caribe e pela Europa. Suas pinturas em pequena escala capturam as variações sutis de diferentes geografias, com um olhar atento tanto ao detalhe quanto à atmosfera. Ao filtrar essas experiências pela memória, suas obras condensam a essência dos lugares vividos, transformando-os em meditações sobre pertencimento e imaginação. Luiz Zerbini, por sua vez, apresenta um conjunto de aquarelas que retratam vistas do litoral brasileiro. Com delicadeza de gesto e paleta luminosa, suas obras capturam o jogo de luz sobre o mar e a vegetação, revelando as mudanças de atmosfera das paisagens costeiras com imediatismo e intimidade. Dispostas lado a lado, essas obras constroem um diálogo transatlântico em que Frank Walter e Luiz Zerbini exploram a relação entre visão e lugar, ordem e espontaneidade. Cada composição se torna ao mesmo tempo transcrição e invenção – um espaço onde sensação e estrutura se entrelaçam. Ao conectar o Caribe e o Brasil, a exposição evidencia uma sensibilidade compartilhada à luz, à cor e ao relevo, revelando como a pintura de paisagem pode refletir contextos culturais distintos e, ao mesmo tempo, abrir-se a uma experiência mais ampla e interconectada do mundo natural.

Luiz Zerbini também está em exibição no espaço da Fortes D’Aloia & Gabriel, na Barra Funda, com a exposição individual Vagarosa Luminescência Voadora.

Até 07 de fevereiro de 2026.

Marco Maggi na Fundação Iberê Camargo.

19/nov

“La economía de la atención” é a primeira exposição de Marco Maggi na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS. A mostra propõe uma reflexão sobre os modos como a atenção se constrói e é direcionada e permanecerá em exibição até 26 de março de 2026.

Com curadoria de Patricia Bentancur, que acaba de ser anunciada como a responsável pelo Pavilhão do Uruguai na Bienal de Veneza em 2026, a mostra apresenta doze trabalhos entre desenhos, instalações, elementos do cotidiano como rolo de tinta, bola de pingue-pongue, mesa de sinuca e colagens com papeis recortados, uma das marcas do artista. Na Fundação, ele criará uma obra inédita, de grandes dimensões, a partir de pequenos recortes em papel. Nascido em 1967 em Montevidéu, Marco Maggi divide seu tempo entre Nova York e a cidade natal criando trabalhos em pequenos fragmentos de papéis das mais diversas cores, materialidades e recortes. Utilizando humor, jogos de palavras e uma variedade de alusões visuais, Maggi incentiva seus espectadores a desacelerar e refletir sobre os detalhes e as complexidades de cada objeto. 

As obras de Maggi configuram um sistema visual de estruturas mínimas, quase imperceptíveis. Compreendê-lo é entrar em um código analógico de um algoritmo que se repetirá e reformulará uma e outra vez. Micro cortes em papel, incisões sobre acrílico ou grafite, que só existem a partir do intangível: a luz e a sombra.

A Fundação Iberê Camargo é uma obra de Álvaro Siza Vieira, um arquiteto que é capaz de direcionar nossa atenção a partir de ênfases espaciais e visuais mínimas. Uma pequena janela em um extenso muro cego nos induz a olhar para o exterior do museu. Enquanto Siza, neste caso, nos convida a olhar para longe, Maggi nos exige olhar de perto. Dois focos, aparentemente contraditórios, que não têm outra função senão economizar distrações, criar uma pausa para possibilitar um ato de observação ativa e concentrada. Marco Maggi compõe um protocolo de observação que é ativado apenas quando o corpo do espectador decide aproximar-se e manter o olhar. Em suas propostas, tanto os títulos de suas exposições quanto os de suas obras normalmente escondem um meta-sentido. A ambiguidade do título desta instalação não é um déficit de clareza, mas uma ferramenta crítica situada em um limiar de sentido deliberado. Por um lado, o da circulação, gestão e intercâmbio de um recurso escasso (economia) e, por outro, o da percepção, sensibilidade e capacidade de deter-se (atenção). A experiência da exposição se desdobra no terreno intermediário entre esses dois polos. Ela não designa univocamente, mas abre um campo de tensões que cada visitante deve negociar em seu percurso. Neste método de proximidade, não há espetáculo de impacto, mas relação; não há mensagem, mas cooperação; não há eficiência; há atenção. Sob esta perspectiva, seu trabalho não combate a aceleração com nostalgia, mas com técnicas concretas de lentidão, onde propõe possíveis práticas que, em nenhum caso, são diretrizes. Diante dos atalhos da velocidade, olhar devagar pode inclusive ser entendido como uma tecnologia cultural.

Patricia Bentancur

Curadora

Exposição na Art Basel Miami Beach.

14/nov

O estande da Simões de Assis na Art Basel Miami Beach, no Miami Beach Convention Center, 1901 Convention Center Drive, Miami Beach, FL – USA 2025, reúne – de 05 a 07 de dezembro – um conjunto singular de artistas cujas poéticas se atravessam por diferentes relações com a abstração e pela investigação da paisagem. Ainda que as tendências predominantes na arte brasileira e latino-americana frequentemente se orientem pelo concretismo, apresentamos aqui a abstração sob um viés intuitivo, associado ao metafísico e ao etéreo, em práticas que tangenciam a geometria.

Há uma pesquisa cromática e formal que delineia o estande. Os artistas desenvolvem, em suportes variados, experimentações plásticas que vão de relevos em cerâmica a pinturas sem tinta com asas de borboleta, esculturas que rompem a limitação entre o bidimensional e o tridimensional, uso de pigmentação natural, esculturas em aço, as composições refletem as trajetórias poéticas dos artistas que dialogam no espaço expográfico do estande. Mesmo nos tensionamentos entre a abstração informal, a geometria e a figuração, este conjunto enfatiza como diferentes materiais e meios contribuem para expandir as possibilidades formais entre artistas de distintas origens, gerações e suportes.

Artistas participantes:

Abraham Palatnik, Amadeo Lorenzato, Ascânio MMM, Ayrson Heráclito, Carmelo Arden Quin, Carlos Cruz-Diez, Diambe, Emanoel Araujo, Felipe Suzuki, Gabriel de la Mora, Gonçalo Ivo, Hélio Oiticica, Ione Saldanha, João Trevisan, Juan Parada, Julia Kater, Macaparana, Manfredo de Souzanetto, Mano Penalva, Mário Rubinski, Miguel Bakun, Mira Schendel, Rubem Valentim, Sergio Camargo, Sergio Lucena, Thalita Hamaoui, Zéh Palito.

 

Uma exposição para refletir.

10/nov

O Museu Histórico Nacional, Centro, Rio de Janeiro, RJ, convida você a explorar uma jornada sobre a resistência, as identidades e a liberdade negra ao redor do mundo. A turnê mundial foi inaugurada, no ano passado, no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, nos Estados Unidos. O Rio de Janeiro está entre as cinco cidades do mundo a receber a exposição.

Com curadoria colaborativa e internacional, “Para além da escravidão” trará o acervo de vários países, reunindo cerca de 100 objetos, 250 imagens e 10 filmes. A proposta dessa multiplicidade de obras é dialogar sobre as heranças que marcaram a rota transatlântica da escravidão e a resistência negra por todo o período de escravidão, buscando celebrar a liberdade.

As visitações ocorrerão nas galerias de exposição temporária do MHN até o dia 1º de março de 2026, em espaços especialmente preparados para receber esse importante acervo mundial, enquanto seguem as obras de modernização do sistema elétrico nas demais áreas do museu. Foram semanas de intenso trabalho e colaboração entre as equipes do MHN e a equipe americana de montagem. 

Criado em 1922, é um dos mais importantes museus do Brasil e tem um acervo de mais de 348.515 itens, entre os quais a maior coleção de numismática (moedas e medalhas) da América Latina. A exposição servirá para refletir sobre as cicatrizes dos mais de três séculos de escravidão e a resistência negra por todo esse período. São cerca de 100 objetos, 250 imagens e 10 filmes, divididos em seis seções. Do Rio, o acervo seguirá para a Cidade do Cabo (África do Sul), Dakar (Senegal) e Liverpool (Inglaterra).

 

Em defesa do meio ambiente.

05/nov

 Nara Roesler São Paulo convida para a abertura da exposição “Xavier Veilhan – Do Vento”, no dia 08 de novembro, 11h, com obras produzidas pelo artista Xavier Veilhan, um dos expoentes da arte contemporânea na França. Comprometido com a defesa do meio ambiente, o artista nascido em 1963 tem empregado em sua produção materiais e processos que minimizam impactos ambientais. Agora, no projeto Transatlantic Studio, ele expande esta ideia também na busca de reduzir o impacto ambiental no transporte internacional de suas obras, levando seu ateliê para um veleiro, movido pela energia dos ventos.

A intenção de Xavier Veilhan foi a de trabalhar como faz em seu estúdio na França, e, para isso, levou a bordo mais de 450 quilos de compensado de madeira, e esteve acompanhado de seus assistentes Antoine Veilhan, especializado em marcenaria, e Carmen Panfi.

 

La sombra eléctrica de las cosas.

03/nov

“Machintla, La Sombra Eléctrica de las Cosas”, é o título da primeira exposição individual de Abraham González Pacheco – nascido em San Simón el Alto, México, 1989 – no  Brasil. Em exibição na Carpintaria, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, reúne escultura, desenho e pintura em uma investigação sobre história material, arqueologia e transformação cultural. Ao reelaborar os códigos visuais e os signos sociais da história mexicana, a prática de González Pacheco desestabiliza a tradição – do muralismo e suas implicações políticas à iconografia pré-hispânica e suas associações rituais – abrindo caminhos para imaginários especulativos.

A mostra apresenta obras realizadas com materiais de construção, como concreto, sob imagens de seres híbridos, paisagens e ícones. O artista inicia o processo aplicando pigmentos sobre uma superfície plana para definir formas e contornos iniciais. Tampas de garrafa são então posicionadas ao redor da composição para sustentar uma grade metálica levemente elevada, criando um pequeno vão entre as duas camadas. O concreto é derramado nesse espaço e, ao endurecer, absorve os pigmentos e as formas subjacentes. O resultado não é uma pintura no sentido tradicional: as imagens emergem da interação material entre pigmento e concreto. Evocando pinturas murais antigas e, ao mesmo tempo, inserindo-se nas texturas urbanas contemporâneas, esses objetos enigmáticos – construídos com sucata metálica e ferragens industriais – ampliam o diálogo do artista com a matéria e a construção, revelando os entrelaçamentos entre ruína e possibilidade. Ao colocar monumento e precariedade em tensão constante, González Pacheco desenvolve uma linguagem formal que desafia narrativas canônicas e insiste em futuros alternativos. Sua obra reformula os resíduos da história não como relíquias estáticas, mas como agentes ativos na construção de sentido no presente. Dessa forma, a exposição articula uma visão artística profundamente enraizada no patrimônio cultural do México, ao mesmo tempo em que se engaja em conversas globais sobre memória, visualidade e identidade coletiva.

Entre as exposições recentes de González Pacheco estão Monopolítico Suspendido (Nuestras nuevas ruinas), Museo Experimental El Eco, Cidade do México, México (2024); La lumbre de las serpientes, Espacio Doble A, Toluca, México (2022); e Texcal, Machete Galería, Cidade do México, México (2022). O artista também participou das mostras coletivas Plaza pública, Centro de Creación Contemporánea de Andalucía (C3A), Córdoba, Espanha (2025); Otrs Munds, Museo Tamayo, Cidade do México, México (2025); Histórias Indígenas, Kode Bergen Art Museum, Bergen, Noruega (2024); e MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo, Brasil (2023).

Até 24 de janeiro de 2026.

 

Expansão junto à arquitetura e ao corpo.

29/out

Será realizada uma visita guiada com o curador Luiz Camillo Osorio na exposição do artista José Pedro Croft. A exposição pode ser vista até o dia 17 de novembro, apresentando cerca de 170 obras do renomado artista português. No dia 30 de outubro, às 16h, será realizada uma visita guiada com o curador Luiz Camillo Osorio na exposição “José Pedro Croft: reflexos, enclaves, desvios”, no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro. Durante a visita, que será gratuita e aberta ao público, o curador percorrerá toda a exposição.

A mostra ocupa todo o primeiro andar e a rotunda do CCBB RJ, com gravuras, desenhos, esculturas e instalações, que ampliarão o entendimento sobre o conjunto da obra do artista e sobre os temas que vem trabalhando ao longo de sua trajetória, como o corpo, a escala e a arquitetura. Esta é uma oportunidade de o público ter contato com a obra do artista, que já realizou exposições individuais em importantes instituições, como no Pavilhão Português na 57a Bienal de Veneza, na Itália (2017), na Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, em Portugal (2020), na Capela do Morumbi, em São Paulo (2015), no Paço Imperial (2015), MAM Rio (2006), entre muitas outras.

“José Pedro Croft é um dos principais artistas portugueses da geração que se formou logo após a Revolução dos Cravos (1974). Ou seja, teve sua trajetória artística toda vinculada aos ideais de liberdade, cosmopolitismo e experimentação. Trata-se de uma poética visual que se afirma no enfrentamento da própria materialidade das linguagens plásticas: a linha, o plano, a cor, o espaço. Sempre levando em conta sua expansão junto à arquitetura e ao corpo (inerente aos gestos do artista e à percepção do espectador)”, conta o curador Luiz Camillo Osorio.

Sentidos compartilhados.

24/out

A Flexa, Leblon, Rio de Janeiro, RJ, exibe até 22 de novembro, “Tudo entoa: sentidos compartilhados entre humanos e não-humanos”, exposição que reúne os trabalhos de quatro dos nomes mais significativos da arte indígena amazônica contemporânea e que estiveram, recentemente, presentes nas últimas Bienais de Veneza: Jaider Esbell (Macuxi; Roraima, 1979 – São Paulo, 2021), Santiago Yahuarcani (Uitoto; Pucaurquillo, Peru, 1960), Rember Yahuacani (Uitoto; Pebas, Peru, 1985) e Sheroanawe Hakihiiwe (Yanomami; Alto Orinoco, Venezuela, 1971). A mostra é acompanhada de texto crítico assinado pelo curador peruano Miguel A. López. 

Com conhecimentos adquiridos de forma empírica, Jaider, Santiago, Rember e Sheronawe não possuem formação artística ou acadêmica tradicional. Suas habilidades foram adquiridas por meio da observação e de um relacionamento profundo com a natureza, suas famílias e comunidades. É importante dizer que esses artistas fazem parte de uma “constelação criativa”, como nas palavras de Miguel A. López, que tem transformado, nas últimas três décadas, o que se entende por arte contemporânea. A arte, para os povos indígenas, é também uma ferramenta de preservação, de suas histórias e seus saberes. As obras presentes nessa exposição reafirmam as continuidades entre os humanos, animais, plantas, territórios e mundos espirituais, fazendo eco aos apelos pelo respeito a todas as formas de existência e buscando o freio para a exploração voraz dos recursos naturais. 

O trabalho de Sheroanawe Hakihiiwe consiste em um repertório visual delicado, que se vale da repetição rítmica de motivos em papel artesanal ou tela, fazendo menção às formas de sementes, frutas, insetos, folhas e galhos. Santiago Yahuarcani recorre a narrativas míticas indígenas em suas pinturas, trazendo personagens típicos dessas histórias, como guardiões e criaturas animais híbridas. Já Rember Yahuarcani, seu filho, cria paisagens de grande escala que exploram sonhos abstratos, imaginando um futuro indígena através de formas e cores vibrantes. As pinturas de Jaider Esbell, de iconografia complexa e meticulosa, são homenagens a cada pequeno elemento (animais, plantas, seres humanos e espirituais) capaz de nos conectar com a espiritualidade. 

Segundo Miguel A. López, o repertório dos quatro artistas traz luz a mundos visíveis e invisíveis, que persistem para além das tentativas de apagamento. Para o curador peruano, essas obras são frequentemente associadas ao colapso ecológico contemporâneo, mas a interpretação pode ir além e nos fazer um convite a olhar para o passado: a lógica de apagamento existe desde que os recursos experimentados pelas comunidades indígenas foram desapropriados. Reunir trabalhos de Jaider Esbell, Santiago Yahuarcani, Rember Yahuacani e Sheroanawe Hakihiiwe é, por fim, segundo Miguel A. López, uma possibilidade de “sentir representações mais complexas e ampliadas da vida, que ultrapassam o excepcionalismo humano. Não são imagens simples, nem imediatamente legíveis: exigem muita atenção, imaginação e, acima de tudo, disposição para ouvir o território a partir de outros canais sensíveis.”

Sobre o curador.

Miguel A. López é escritor e curador-chefe do Museo Universitario del Chopo, na Cidade do México. Anteriormente, foi curador-chefe e codiretor do TEOR/éTica, na Costa Rica. Suas exposições recentes incluem duas grandes retrospectivas de Cecilia Vicuña: Seehearing the Enlightened Failure no Kunstinstituut Melly em Roterdã, que viajou para a Cidade do México, Madri e Bogotá; e Dreaming Water: A Retrospective of the Future (1964-…), apresentada no MNBA, Santiago; Malba, Buenos Aires; e Pinacoteca, São Paulo (2023-24). Ele é editor e autor de mais de vinte publicações sobre arte, sexualidade, justiça social, infraestrutura cultural e memória política. Em 2016, recebeu o Prêmio Curatorial Visão Independente do ICI.