Espaços e formas de convivência.

12/fev

Uma exposição coletiva na Flexa reúne obras de diferentes tempos históricos para refletir sobre o Carnaval. 

A Flexa, Leblon, Rio de Janeiro, RJ, inaugurou sua agenda de 2026 com “Carnavalizar: método e invenção”, exposição coletiva com curadoria de Daniela Avellar, que investiga o carnaval como verbo.

Carnavalizar, no contexto da mostra, é entendido como um estado e uma ação capazes de reorganizar corpos, espaços e formas de convivência. Partindo da compreensão de que carnavalizar, no Brasil, é um gesto provido de método e inteligência própria, a exposição reconhece a festa como uma prática inventiva forjada sobretudo nas comunidades negras urbanas em resposta às diferentes formas de violência. Nesse sentido, o carnaval é entendido como um campo de criação cultural, política e sensível.

Ao reunir artistas de diferentes gerações, a exposição articula temporalidades, referências e repertórios que atravessam a experiência do corpo coletivo, as materialidades da festa, ritmos como o samba, o funk, e as arquiteturas vernaculares. Afastando-se de uma abordagem documental, a coletiva propõe um carnaval quase abstrato, mais um estado do que uma representação, afirmando o ato de carnavalizar como uma forma de conhecimento capaz de redimensionar o coletivo e projetar futuros possíveis.

Obras de Tarsila do Amaral em Brasília.

11/fev

Com obras de 10 instituições nunca reunidas em um único espaço e vindas de São  Paulo, a exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral” desembarcou no Centro Cultural TCU, Brasília, DF, com 63 obras da artista mais icônica do Modernismo brasileiro. Com curadoria de Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, a mostra faz um passeio original pela obra da artista ao abordar temas que  combinam a trajetória estética de Tarsila do Amaral com seu percurso de vida.

A curadoria quis explorar um recorte alternativo à forma cronológica que geralmente conduz as exposições de Tarsila do Amaral. “O que estamos fazendo é mostrar a Tarsila de forma que nunca foi mostrada, então temos um recorte em quatro núcleos nos quais não necessariamente uma obra que faz parte da imagem das fases da Tarsila está relacionada ao tema”, explica Karina Santiago. Além dos núcleos com as obras, haverá também uma sala imersiva, com curadoria de Paola Montenegro e Juliana Miraldi, para explorar detalhes do “Abaporu” (1928), obra emblemática da produção da artista e que hoje pertence ao Museu da Arte Latina de Buenos Aires (Malba). 

Até 10 de maio.

Equilíbrio entre o traço, a cor e o vazio.

29/jan

A Simões de Assis, São Paulo, Curitiba e Balneário Camboriú, anuncia a representação de Marcia de Moraes (São Carlos, Brasil, 1981). A artista desenvolve uma pesquisa centrada na linguagem do desenho, suas composições podem, à primeira vista, parecer abstratas, mas são construídas a partir de um léxico visual acumulado ao longo dos últimos vinte anos de pesquisa. Este vocabulário de formas tem origem figurativa, mas chegam ao papel liquefeitas e flácidas, afastando-se de qualquer reconhecimento imediato. 

A construção do desenho se dá a partir de uma conversa entre artista e trabalho, chegando a um entendimento mútuo das necessidades da composição e atingindo um equilíbrio entre o traço, a cor e o vazio. Estes três elementos são constantemente tensionados ao longo do processo e se organizam em uma hierarquia em constante alternância. É a partir dessa oscilação que cada desenho ganha corpo: o traço e o vazio como espinha dorsal e ossos de sustentação, a cor como a carne que os envolve,  e o limite do papel como a pele – o ponto exato em que corpo e desenho se encerram.

Entre suas principais exposições individuais estão “Ponto de Osso”, Instituto Artium; “Matriz”, Galeria Leme; “A Terceira”, CCBB São Paulo; “Elaine Arruda e Marcia de Moraes: Cheio de Vazio”, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo; “À Deriva no Azul, Carpe Diem Arte e Pesquisa”, Lisboa, e “Saint Clair Cemin / Marcia de Moraes: Correspondance Bresiliènne”, VL Contemporary, Paris.

Foi contemplada com diversos prêmios, entre os quais se destacam o Edital PROAC – Artes Visuais, o Pollock-Krasner Foundation Grant e o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea. Suas obras integram acervos importantes como a Coleção Swiss Re, São Paulo; Ministério das Relações Exteriores, Brasília e Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP).

Beatriz Milhazes no Museu de Arte da Bahia.

20/jan

“Beatriz Milhazes: 100 Sóis” é a primeira exposição individual da artista em Salvador e reúne, no MAB – Museu de Arte da Bahia, uma ampla seleção de obras que percorre 30 anos de sua produção, oferecendo um vislumbre de diferentes fases de sua trajetória e evidenciando elementos recorrentes que estruturam sua poética.

Com curadoria do crítico e historiador de arte Tiago Mesquita, a mostra apresenta pinturas históricas, trabalhos inéditos, colagens recentes e uma instalação nas janelas do museu, revelando como diferentes meios alimentam sua pesquisa, tendo a pintura como eixo central e meio principal de sua prática de ateliê, cuja reverberação atravessa toda a sua obra.Os trabalhos são dispostos em uma espécie de colagem espacial, revelando tanto a amplitude do repertório formal de Beatriz Milhazes quanto a sofisticação de suas estratégias compositivas. Nesse arranjo, torna-se evidente o modo como suas obras dialogam com a arte moderna em diferentes geografias, a tradição construtiva, o design, a moda, o carnaval carioca, a alegoria, o ornamento, a decoração barroca e uma coreografia de formas dançantes, ao mesmo tempo em que incorporam questões estruturais da imagem pop, dimensão que atravessa sua trajetória e reafirma sua posição como uma das vozes centrais da abstração contemporânea.

A artista apresenta um novo vitral concebido para as janelas da instituição, no qual seus padrões característicos são aplicados em filmes translúcidos multicoloridos que filtram a luz solar e projetam feixes caleidoscópicos pelo espaço expositivo. Também em exibição está “A Seda”, obra emblemática de sua produção dos anos 2000, na qual elementos gráficos em cores vibrantes se expandem do centro da tela em movimento centrífugo. No núcleo, um emaranhado de arabescos rendados forma o coração da composição, combinando fluidez e ordem em uma estrutura orgânica em expansão. Já em trabalhos mais recentes, como “Memórias do Futuro II” (2023), a artista sobrepõe grafismos feitos com caneta de tinta acrílica (marcadores Molotow) às formas transferidas por sua técnica de monotransfer, acrescentando uma nova camada de padrões ao intrincado jogo de tramas em rotação e criando estratos que se articulam em uma rede complexa e multidirecional.

Até 26 de abril.

Grande nome do construtivismo latino-americano.

15/jan

Um retrospcto da obra de Joaquín Torres-García ganha exposição com 500 itens no CCBB São Paulo, SP. A mostra celebra a trajetória do artista utuguaio Joaquín Torres García (1874-1949), mundialmente conhecido por sua obra “América Invertida” (1943), que retrata o continente de ponta-cabeça, sendo um símbolo do pensamento do artista, muito relacionado ao conceito de decolonialidade. 

“Joaquín Torres García – 150 anos” apresenta obras e documentos, incluindo pinturas, manuscritos inéditos, maquetes e desenhos. Algumas peças deixam pela primeira vez as reservas técnicas do Museo Torres-García, que colaborou com a curadoria de Saulo di Tarso, revelando ao público aspectos pouco conhecidos da produção do artista.

A mostra aborda sua obra pictórica, gráfica, escrita e pedagógica, que o consagrou como um grande nome do construtivismo latino-americano, e vai além, ao posicioná-lo como pensador global. Destaques incluem noventa volumes manuscritos por Torres-García, além de desenhos autobiográficos e uma carta inédita enviada a ele pela poeta Cecília Meireles. 

O ícone “América Invertida” surge suspenso em forma de móbile no hall de entrada. Artistas influenciados por sua produção, como Anna Bella Geiger, Carlos Zílio, Rubens Gerchman e Montez Magno também estão em cartaz.

Até 09 de março.

Fonte: Veja São Paulo.

Uma reflexão poética e filosófica.

12/jan

Santo Agostinho, Kant, Sartre, Einstein e Hans Belting, serviram como fonte de inspiração para a mostra coletiva “ATEMPORAL – como se fosse a primeira vez”, que ocupa a Sala Antonio Berni do Consulado Geral da Argentina, Botafogo, Rio de Janeiro, até o dia 28 de fevereiro. Sob curadoria de Osvaldo Carvalho, propõe uma reflexão poética e filosófica sobre a natureza do tempo e sua presença nas artes visuais contemporâneas. No dia 15 de janeiro, quinta-feira, haverá uma visita guiada com a participação do curador e dos artistas Ana Herter, Ana Pose, Carmen Givoni, Chris Jorge, Cris Cabus, Dorys Daher, Edson Landim, Eliana Tavares, Heloisa Alvim, Heloisa Madragoa, Jabim Nunes, Jorge Cupim, Laura Bonfá Burnier, Laura Figueiredo-Brandt, Leila Bokel, Leo Stuckert, Lígia Teixeira, Luís Teixeira, Luiz Badia, Luiz Bhering, Marcelo Rezende, Márcia Clayton, Mario Coutinho, Mario Camargo, Osvaldo Carvalho, Osvaldo Gaia, Priscilla Ramos, Raquel Saliba, Regina Hornung, robson mac3Do, Rosi Baetas, Sandra Gonçalves e Sandra Schechtman.

Os 33 artistas exploram diferentes possibilidades de compreensão de um tempo não linear, mas cíclico – em diálogo com temas como identidade, corpo, território, meio ambiente, ancestralidade, silêncio, deslocamento e pertencimento. As obras refletem sobre singularidades culturais e potencialidades poéticas, evocando “o tempo que não corre debalde, nem passa inutilmente sobre nossos sentidos”, no dizer de Santo Agostinho. 

Os trabalhos selecionados abordam temas como identidade, corpo, território, ancestralidade, meio ambiente, silêncio, deslocamento e pertencimento, estabelecendo um diálogo sensível entre memória e atualidade. São obras que ultrapassam seu contexto histórico, preservando força estética e simbólica ao longo do tempo e comunicando-se com diferentes gerações e sensibilidades.

Arte Brasileira no Canadá.

12/dez

A maior exposição de arte brasileira já apresentada no Canadá, “Tropi-X” está em cartaz no Museum London, ON, reúne até 19 de abril de 2026 mais de 70 obras de 44 artistas para explorar expressões ousadas e em transformação de identidade, cultura e diáspora no Canadá. A exposição é curada por Alena Robin & Rodrigo D’Alcântara.

No centro da mostra está uma coleção rara de obras dos anos 1970 doadas pelo casal de visionários John e Elizabeth Moore: pinturas vibrantes, esculturas e trabalhos têxteis enraizados no folclore, na religião sincrética, na cultura popular e na experimentação modernista. Doada em 1985 e em grande parte invisível por mais de três décadas, essa seleção histórica reflete um momento decisivo na história da arte brasileira – moldado pela diversidade regional e pela transformação modernista.

Essas obras dialogam de forma dinâmica com trabalhos contemporâneos de 20 artistas brasileiro-canadenses que vivem em diferentes regiões do país, conectando passado e presente. Os artistas contemporâneos de “Tropi-X” desafiam narrativas herdadas e oferecem novas perspectivas sobre pertencimento e memória cultural. Organizada em três núcleos temáticos – Folclore Remix, Trópicos em Loop e Fantasmas Sincréticos – “Tropi-X” propõe uma reflexão urgente sobre a complexidade da arte brasileira e sua presença em transformação no panorama cultural canadense. 

“Tropi-X” apresenta obras de: Adelita Pandini, Alexandre Filho, Aline Setton, Antonio Maia, Bruno Capinan, Bruno Smoky, Bruno Tausz, César G. Villela, Christiano de Araujo, Elenir de Oliveira Teixeira, Eloisa de Aquino, Enrico Bianco, Farnese de Andrade, Felipe Fittipaldi, Fernando V. da Silva, Francisco da Silva (Chico), Genaro de Carvalho, Gilda Azeredo de Azevedo, Giorgia Volpe, Glauco Rodrigues, Hélio Basto, Hélio Eudoro, Hélio Rôla, Ian Indiano, Ivan Moraes, Jorge Maia, José Sabóia, Ludmila Steckelberg (VahMirè), Lucas Peixe, Luciano Mauricio, Luiza Albertini, Manoel Chatel, Marcio Melo, Mariana Marcassa, Marina FAW, Nakitta Hannah Correa, Napoleon Poty Lazzarotto, Raquel Trindade (Kambinda), Renina Katz, Richelli Fransozo, Sebastião Januário, Tarcisio Cataldi, Vinicius de Aguiar Sanchez (O Vico) e Ziltamir Soares de Maria (Manxa).

Imersão profunda na obra de Carlos Pasquetti.

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), Porto Alegre, RS, apresenta a exposição “Carlos Pasquetti – Espaços para esconderijos”, primeira grande mostra monográfica institucional dedicada a oferecer uma visão histórica e retrospectiva sobre a obra do artista e professor falecido em 2022. A inauguração será no dia 13 de dezembro, em evento aberto ao público e que marca também o encerramento do ciclo de exposições de 2025 do Museu. 

Reunindo acervos institucionais e coleções particulares, a mostra apresenta obras de reconhecida importância, junto de trabalhos históricos resgatados e recuperados, além de proposições inéditas realizadas especialmente para a mostra, a partir de projetos deixados pelo artista. Realizada pelo MARGS em colaboração com o Acervo Pasquetti (projeto mantido pela família para gestão do acervo do artista e a catalogação de sua obra), a exposição é a maior pesquisa até aqui a proporcionar uma imersão profunda e compreensiva sobre a importante produção do artista.

O título “Espaços para esconderijos” vem de emblemáticos trabalhos de Carlos Pasquetti dos anos 1970, em fotografia e desenho, que têm como mesmo motivo a imagem e as formas das chamadas “medas” (os amontoados de feixes de feno). Essa referência é evocada por ser um exemplar icônico entre os signos visuais cultivados pelo artista em seu universo conceitual e criativo.

Dando sequência a um conjunto de exposições monográficas inéditas de artistas que integram o acervo do MARGS, “Carlos Pasquetti – Espaços para esconderijos” tem curadoria de Francisco Dalcol, diretor da instituição, e dos curadores convidados Alexandre Copês e Nelson Azevedo, artistas que conviveram com Carlos Pasquetti no cotidiano de seu ateliê, proporcionando ao projeto uma profunda intimidade com os seus trabalhos e o seu universo criativo.

Sobre o artista.

Em sua produção artística, desenvolvida ao longo de mais de 50 anos, Carlos Pasquetti explorou filme, fotografia, impressos, fotoperformance, desenho, pintura, objeto, elementos gráficos e instalação, sempre combinando e alternando suportes e linguagens. Sua atuação se inicia no contexto do experimental e dos conceitualismos das vanguardas artísticas das décadas de 1960 e 70, incluindo o envolvimento com o grupo Nervo Óptico (1976-1978), passando depois a acompanhar a pluralidade artística que se segue aos anos 1980. No conjunto, sua diversificada obra constitui um dos legados mais significativos, desde o Sul do Brasil, para o alargamento das convenções artísticas modernas e a abertura das práticas e linguagens artísticas contemporâneas. Nascido em Bento Gonçalves (RS), Carlos Pasquetti se iniciou artisticamente no ambiente familiar com o pai fotógrafo, também organizador de grupos de teatro. Estudando em Porto Alegre nos agitados anos 1960, graduou-se em Pintura pelo Instituto de Artes da UFRGS em 1971. Dois anos depois, tornou-se professor na universidade. Nos mais de 40 anos em que deu aulas para estudantes de artes cênicas e artes visuais, influenciou gerações de artistas, que encontravam nele um sólido referencial de abertura e estímulo para novas ideias e possibilidades artísticas.

Até 29 de março de 2026.

Malu Saddi na Artur Fidalgo.

24/nov

“Desenvolve obras a partir do repertório visual encontrado na natureza e nos apresenta um mundo fantástico que relaciona organismos extraídos e reinventados dos reinos animal, vegetal e mineral.”

Os trabalhos da artista são delicados e sutis. São majoritariamente desenhos feitos com lápis de cor e grafite, seu traço fino cria estruturas minuciosas. Malu gosta de trabalhar com transparências que permitem a ela sobrepor desenhos de diferentes datas e gestos criando assim camadas de tempo; trazendo o inusitado e a transformação como parte do processo de construção do desenho.

Ela desenvolve obras a partir do repertório visual encontrado na natureza e nos apresenta um mundo fantástico que relaciona organismos extraídos e reinventados dos reinos animal, vegetal e mineral. 

Entre suas principais exposições individuais, destacam-se: “Cantantes Condutores”, Artur Fidalgo galeria (Rio de Janeiro, 2014); “Ao que ergue entre linhas”, Espaço W de Arte (Ribeirão Preto, 2011) e “No devaneio nenhuma linha é inerte”, Galeria Eduardo H Fernandes, (São Paulo, 2009). Participou de coletivas como: “17ª Bienal de Cerveira”, (Vila Nova Cerveira, Portugal, 2013), “Conhecendo Artistas – Ateliê Fidalga”, Torre Santander (São Paulo, 2011); “É Crédito ou Débito?” (Sesc-SP, São Paulo, 2010); “Entre Tempos” (Carpe Diem, Lisboa, 2009), entre outras.

Exibição de Maria Klabin em São Paulo.

Nara Roesler São Paulo, Jardim Europa, convida para a abertura, no dia 26 de novembro, às 18h, da exposição “Língua d’Água”, com mais de 80 obras inéditas e recentes de Maria Klabin (1978, Rio de Janeiro), em sua primeira exibição individual na cidade. A exposição estará em cartaz até fevereiro de 2026.

Com curadoria de Galciani Neves, a mostra apresenta trabalhos criados principalmente ao longo do ano, pinturas e desenhos, em tamanhos variados, que vão dos grandes formatos, com três metros de comprimento, até os pequenos, em torno de vinte centímetros de altura. O público verá também os desenhos retirados dos cadernos da artista, esboços, anotações, para acompanhar seu processo criativo.

O título “Língua d’Água” foi retirado de uma frase dita por Maria Klabin à curadora: “O pincel é como uma língua que lambe a tela trazendo os ecos de algum lugar”.

“As pinturas de Maria nos colocam de maneira simples que não é necessário fincar os pés nos diversos problemas filosóficos submetidos ao exame da razão, mas apontam para algo que nos renderia um enorme efeito, se nos dedicássemos: o que aprenderíamos se repousássemos sobre os redemoinhos da percepção? Devaneando, devaneando…E se ao invés de controlarmos as coisas, habitássemos seus mistérios, olhando-as bem de perto e de distintas lonjuras?”, salienta Galciani Neves no texto que acompanha a exposição. “Em “Língua d’água”, o exercício poético da artista segue por esses caminhos: “A pintura inverte a ordem das coisas, muda o que vemos e como vemos”, destaca a curadora.

Nos trabalhos de Maria Klabin há paisagens, além de retratos. A artista comenta que usa “a paisagem pela qual eu estou cercada”, que tanto pode ser composta por objetos ou plantas, que para ela “são indivíduos”. “São as paisagens com que eu estou convivendo”. “Noto um conjunto de movimentos, de elementos, que eu posso usar na pintura, e acabam sendo um ponto de partida para falar sobre algo mais internalizado e intuitivo do que exteriorizado, como estaria implícito numa paisagem”, observa. Fotografias também são utilizadas, mas servem como pistas para ela “falar de coisas mais da pintura e de um estado de espírito”. “Às vezes eu incluo figuras, às vezes animais, e uma parte grande é de memória, ou (de bichos)”inventados”. É um exercício compositivo também, de movimento, de pintura. 

“Língua d’Água” terá mais de quarenta desenhos, em um trabalho de seleção de Galciani Neves entre os mais de trezentos da artista. Ela detalha que junto com a curadora decidiu incluir na exposição uma parede com desenhos, “em que há de todo tipo: arrancados do caderno, anotações, mais ou menos acabados”. A ideia é mostrar ao público esse processo, “porque eles (os desenhos) nasceram durante a construção dessas pinturas, e alguns são anteriores, mas também guardam uma relação com as obras mostradas”.

Estará na exposição a pintura “Gal” (2023), tinta óleo sobre linho, exibida antes apenas na individual da artista que a galeria Nara Roesler realizou na feira Frieze Los Angeles 2024. Maria Klabin conta que a pintura integra “Linha d’água” por ser a primeira em escala maior que fez “com elementos mais alegóricos, mais oníricos”. “As paisagens grandes já tinham esses elementos, mas isso ficou mais evidente na “Gal”, e esta é uma coisa que eu explorei com mais foco nessa exposição”, diz. “Durante a pandemia”, ela explica, “comecei a trabalhar muito de observação, sem sair da realidade dentro do possível, na pintura. E a “Gal” foi feita neste outro momento. Pintar dessa maneira foi o que fez sentido para mim. Parti da imagem dessa mulher grávida, que é minha cunhada, que estava grávida da minha sobrinha Gal”.

Estarão ainda três retratos pequenos que Maria Klabin fez de Giacometti (1901-1966). A artista viu um vídeo na internet com Giacometti esculpindo. Em um determinado momento, em que há um close do rosto do escultor, ela percebeu que era “justamente o instante em que o artista está nesse lugar mais exposto”.

Livro “Maria K.” (2025, Nara Roesler Books)

Em fevereiro de 2026, durante a exposição “Língua d’Água”, será lançado o primeiro livro dedicado à trajetória de Maria Klabin. O livro “Maria K.” terá 114 páginas, bilíngue (português e inglês), capa dura, com formato de 17,5 x 24,5 cm, e textos inéditos de Priscyla Gomes, Pollyana Quintella e apresentação de Luis Pérez-Oramas.