A arte sonora de Floriano Romano

03/dez

A Galeria Laura Alvim, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, exibe sob a curadoria de Glória Ferreira, “Sonar”, exposição individual do artista carioca Floriano Romano. São oito instalações sonoras, das quais seis inéditas, e 14 desenhos. Floriano Romano é um precursor em obras que combinam instalação, performance e som. Seu programa ‘Oinusitado’, na Rádio Madame Satã, entre 2002 e 2004, na Lapa, RJ, foi considerado excepcional em termos de artes visuais, música e poesia. Ele teve propostas sonoras transmitidas pela Rádio WKCR, Columbia, NY, 2004; Rádio Student, Liubliana, Eslovênia, 2006; Rádio Ressonance FM, Londres, 2008 e Rádio MEC/FM, RJ, entre 2005 e 2007.

 

A exposição “Sonar”, segundo Floriano Romano, é “toda baseada em ruído”. Cabe definir ruído para as artes, com um trecho do texto do folder da mostra, assinado pela curadora: “A palavra ruído, no senso comum, significa barulho, som ou poluição sonora não desejada. Adquire, porém, outros significados em diversas áreas. (…). Para Romano, além do aspecto político, por estar à margem e ser, assim, expressão desordenada, ‘o ruído é a expressão do mundo, é indeterminado, então ele toca direto nos sentidos, fala direto com os sentidos (…)’”.

 

Os trabalhos da exposição estão programados para não soarem ao mesmo tempo. O som de cada um cresce na medida que o do outro decresce. São eles: “O Estrangeiro” é um móvel com vinte gavetas, cada uma emitindo ruídos diferentes de cidades visitadas pelo artista;
“Radionovelas” se compõe de quatro a seis rádios antigos. De cada um sai uma curta história ficcional de autoria de Romano; “Acusmata” batiza uma instalação de parede com uma cavidade, da qual partem ruídos gravados no cruzamento de ruas do centro da cidade do Rio. Acusmata é quem não percebe a origem de um som; “Turbina” ficará na sala que dá para a praia de Ipanema. Tubos de PVC, perpendiculares à parede de 9m2, recobrem a superfície, onde se ouve o som do mar. Paisagem externa e som aqui se fundem; “O Passeio” intitula 29 caixas de papelão que repercutem ruídos de atritos do corpo humano gravados por dois bailarinos dirigidos pelo artista; “Kafka” tem três máquinas de escrever mecânicas, cujas teclas se movem sozinhas, acionadas por motores. O título se refere a uma cena do filme “O processo”, de Orson Wells, sobre o livro homônimo de Franz Kafka; “Polipoesia” são criações em texto veiculados em monitores de TV; Na área externa da galeria, está a instalação “Chuveiros Sonoros” com três duchas de piscina que “despejam” músicas cantadas no chuveiro por anônimos. A torneira regula o volume. Os desenhos abstratos são feitos com fita isolante sobre papel. As linhas dialogam entre o bi e o tridimensional. São realizados como performances, sem projeto anterior, e remetem à trajetória do movimento do encontro de pessoas.

 

 

Sobre o artista

 

Floriano Romano se intitula “artista visual e sonoro”. Seu programa de rádio “Oinusitado” foi ponto de encontro da cena de arte sonora carioca de 2002 a 2004. Ele trabalha com intervenções urbanas e sonoras, abertas à participação e produzidas pelo próprio público. A partir do imáginário da multidão, produz objetos ou ações sonoras voltadas para os passantes. Entre os prêmios e bolsas conquistados pelo artista estão: Prêmio Projéteis de Arte Contemporânea e o Prêmio Marcantonio Vilaça, da FUNARTE, 2012;  Prêmio Interações Estéticas da FUNARTE com o trabalho “Sapatos Sonoros”, 2009 e Prêmio Projéteis de Arte Contemporânea com a performance “S.W.O.L, Sample Way of Life”, 2008. Sua performance com a mochila sonora “Falante” foi premiada no Salão de Abril, Fortaleza, em 2007, e participou da coletiva “Futuro do Presente”, no Itaú Cultural, São Paulo, SP. Em 2000/1 ganhou a bolsa de Artista Residente pela Câmara Municipal do Porto, Portugal, e, em 2008, a Bolsa de Estímulo às Artes Visuais da FUNARTE, com o projeto de intervenção urbana “Lugares e Instantes”. Entre várias outras mostras, realizou, em 2011, o projeto “INTRASOM” no MAM-Rio e participou das coletivas Panorama da Arte Brasileira no MAM-SP e “Voces Diferenciales”, em Havana, Cuba. Em 2009 integrou a 7ª Bienal do Mercosul, com “Grito e Escuta”. Esteve na “Mostra Desenho das Ideias” com a ação sonora “Crude”, de Guilherme Vaz, usando a arquitetura do museu como instrumento para executar a composição, e na “Mostra Absurdo”, com seus “Chuveiros Sonoros”. Participou da coletiva “Desenhos&Diálogos” em 2010, na Anita Schwartz, RJ, através de quem participou também da ArtRio de 2011.

 

 

Até 09 de março de 2014.

Convite da Gentil Carioca

02/dez

A galeria Gentil Carioca convida para “ALALAÔ!” que acontecerá na praia, no mar e no céu do Arpoador, Rio de Janeiro, RJ, nesse sábado, dia 30 de novembro, a partir de 17hs. Como parte do projeto “SOMOS TODOS AMARILDO”, serão apresentados os seguintes trabalhos: BLOCKINI – Celina Portela; CANGAÇO – Opavivará; MENSAGEM AMBULANTE – Ernesto Neto; VOLTA PRO MAR OFERENDA – Guga Ferraz; ‘STAMOS EM PLENO MAR – Laura Taves; PAISAGENS FLUTUANTES – Paulo Paes; UM MAR DE AMOR – Ronald Duarte; BLOCK LETTER – Alexandre Vogler; ENTREVISTA COM O VÂNDALO – lançamento do libreto com o quarto ato da peça escrita por Luiz Eduardo Soares que está sendo montada por Marcus Faustini; DESAPARECIDOS DA DEMOCRACIA NO RIO DE JANEIRO: Joana Cseko+Isabel Ferreira + Fabio Araujo + Ícaro dos Santos.

 

 

Dia 30 de novembro

 

SEIS MOSTRAS NO PAÇO IMPERIAL

29/nov

O Paço Imperial, Centro, Rio de Janeiro, RJ, espaço dirigido por Lauro Cavalcanti, volta a ter inaugurações múltiplas. As seis mostras individuais apresentam escultura, pintura, desenho, fotografia e material documental de artistas novos e históricos. É para todos os gostos e o Paço tem entrada franca reunindo artistas novos e históricos em seus três andares de espaço expositivo:

 

 

MARIANA MANHÃES | “EVENTO”

 

Em “Evento”, Mariana Manhães, mostra “máquinas orgânicas” e desenhos de sua produção mais recente, todos inéditos no Rio de Janeiro. A artista concebe esculturas de chão e de parede que interagem consigo mesmas, criando um sistema de convivência na área de exposição.
Unidas pelos materiais – plástico, pvc, câmera de vídeo e sensores, cada máquina é comandada unicamente por vídeos de animação de louças da casa-ateliê de Mariana. A projeção se move, atinge os sensores que vão inflar e desinflar os volumes de plástico das obras. O trabalho capta seus próprios estímulos luminosos para colocar as peças em movimento. Os desenhos, expressão pouco conhecida da produção de artista, surgem dos esboços de obras escultóricas. O conjunto desta mostra são ensaios visuais do comportamento dos sacos de plásticos usados nas esculturas. Eles resultam da sobreposição de folhas de papel vegetal, cuja translucidez dá a noção de movimento dos volumes.

 

 

WILMA MARTINS: RETROSPECTIVA. COTIDIANO E SONHO

 

A artista mineira Wilma Martins, radicada no Rio, apresenta uma retrospectiva com 140 ítens – pinturas, gravuras, desenhos, aquarelas, livros e documentos, celebrando 80 anos de idade e 60 de carreira, sob  curadoria do crítico Frederico Morais. A mostra segue para o Museu de Arte da Pampulha, BH, e para o Instituto Tomie Ohtake, SP, em 2014.  “Wilma Martins: Retrospectiva. Cotidiano e Sonho”, o primeiro panorama completo de sua produção, de 1955 a 2008, está montada em núcleos de cada uma das linguagens que a artista trabalhou e como elas se relacionam. Por exemplo, um mesmo tema tratado na pintura e no desenho. As ilustrações que Wilma realizou para jornais e livros infantis serão apresentadas em vitrines. O segmento documental reúne catálogos, fotografias e recortes de jornal.

 

“Cotidiano”, sua série mais famosa, de desenhos, pinturas e litografias, tem cenários domésticos que abrem espaço para animais, de elefantes a formigas. Sobre a presença de bicho na cena caseira, Wilma avalia que ele seria “um prisioneiro, um visitante ou anjo exterminador que irá transformar aquele espaço e a rotina do cotidiano.” Há telas em que cristais atravessam paisagens em narrativas fantásticas; em outras, figuras geométricas são formadas por corpos humanos. “A necessidade de compatibilizar o cotidiano e o sonho é que parece guiar a mão de Wilma Martins quando ela desenha ou pinta”, escreveu Ferreira Gullar sobre a artista.

 

Wilma Martins [BH, 1934] foi aluna de Guignard, Misabel Pedrosa e Anna Letycia ainda na capital mineira. Ela participou das Bienais Internacionais de São Paulo, Liubliana, Biella/Itália, Santiago do Chile, Porto Rico, Veneza, Cali/Colômbia, da Trienal de Carpi/Itália e da Xylon V, Genebra e Berlim, e de diversas mostras de arte brasileira na América Latina, EUA e Europa. Ela ganhou o Prêmio Itamaraty, na Bienal Internacional de São Paulo de 1967, Prêmio de Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Arte Moderna de 1975 e o Prêmio Principal do Panorama de Arte Atual Brasileira em 1976, no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

 

 

VICENTE DE MELLO | BRASÍLIA UTOPIA LÍRICA

 

“Brasília Utopia Lírica” é uma série fotográfica inédita de Vicente de Mello, na qual o artista propõe “uma leitura subjetiva e atemporal da cidade de Brasília”, como define ele. Em 23 imagens em preto e branco, realizadas em 2011, Vicente exemplifica sua concepção de arquitetura e urbanismo de uma cidade continuamente fotografada e seu consequente desgaste de imagem. Este foi o ponto de partida para o fotógrafo evitar caminhos já percorridos e se despir de vícios do olhar. As fotos desta exposição são as “de uma cidade atualizada, em sua fotogenia clássica, onde pontuo uma reorganização da narrativa histórica iconográfica”, revela Vicente.

 

Há imagens de lugares conhecidos e de pontos pouco comentados, entre os quals o artista cita a torre de TV, desenhada por Lucio Costa, a escultura “Rito do Ritmo” de Maria Martins, nos jardins do Alvorada, formas desconhecidas de edifícios de Oscar Niemeyer, os painéis de Athos Bulcão e nova Ponte JK, do arquiteto Alexandre Chan. Mas o título de cada fotografia denuncia um traço identificador. Vicente de Mello vive e trabalha no Rio de Janeiro. Ele tem obras na Coleção Gilberto Chateaubriand | MAM Rio, Coleção da Maison Européenne de la Photographie, Paris, Coleção Lhoist, Bruxelas, Bélgica, Coleção Joaquim Paiva, RJ, Coleção José Roberto de Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, MASP-Coleção Pirelli, entre outras. Já expôs em instituições importantes como CCBB RJ,  Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAM SP, MAM Rio, Fundação DAROS, Suíça, Fondation Cartier pour l´art contemporain, Paris,  MAMAM, Recife; MAC SP e MAM Brasília.

 

 

ROGERIO LUZ | DESENHOS (1991-2013)

 

O artista plástico, ensaísta  e poeta Rogerio Luz mostra 67 desenhos de 1991 a 2013, expressão pela qual foi premiado quatro vezes em salões, entre 1973 e 1980. Seus trabalhos sobre papel são exemplos de um sistema manual do princípio de repetição. Ao não reproduzir de modo técnico um original, a forma das séries resulta em variações deste original e leva o espectador “à leitura de sequências ou passagens – como no cinema ou na música – sem destino resolutivo”, avalia Luz. A seleção do artista segue linhas de continuidade na maneira de conceber e realizar os desenhos, acentuando traços permanentes e, ao mesmo tempo, diferenças de interpretação e realização.

 

Rogerio Luz é formado Filosofia pela UFRJ, mestre em Comunicação pela Universidade Católica de Louvain [UCL], Bélgica. De volta ao Brasil, foi lecionar na UFPb. No início dos anos 1970, frequentou cursos de artes plásticas no MAM Rio. Voltou a morar na Europa, de 1983 a 1987. Em Paris, obteve o título de doutor pela UCL. Foi professor da ECO|UFRJ até 1998 e professor visitante da Comunicação e de Artes Visuais da UERJ até 2008. Luz tem quatro livros de poemas publicados: Diverso entre Contrários (Rio, Editora Contra Capa, 2004), Correio Sentimental (São Paulo, Giz Editoral, 2006) Escritas (Goiânia, Editora da Universidade Federal de Goiás, 2011) e As Palavras (São Paulo, Scortecci Editora, 2013).

 

 

“SERGIO CAMARGO, CONSTRUTOR DE IDEIAS”

 

E

 

“WILLYS DE CASTRO, DEFORMAÇÕES DINÂMICAS”

 

 

Completam a programação deste bloco do Paço Imperial mais duas individuais de artistas históricos já falecidos: “Sergio Camargo, construtor de ideias” e “Willys de Castro, deformações dinâmicas”. As curadoras Piedade Grinberg, da mostra do escultor Sergio Camargo, e Marilucia Bottallo, da do pintor, escultor e artista gráfico Willys de Castro apostam que a revelação de ítens do acervo e do arquivo documental destes artistas pode criar novas percepções à obra deles como um todo.

 

Para “Sergio Camargo, construtor de ideias”, Piedade Grinberg selecionou 100 ítens entre documentos, fotos, desenhos, estudos, rabiscos, frases, obras em pequenos formatos, divididos em seis núcleos: ateliês, esquemas, esquemas vermelhos, madeira, relevo azul e xadrez.

 

Em “Willys de Castro, deformações dinâmicas”, a curadora Marilucia Bottallo reuniu esquemas, esboços, fotografias, notas, partituras musicais, artigos de jornais e revistas, manuscritos, datiloscritos e correções, que ressaltam sua preocupação com a composição de séries, que acentuam o raciocínio moderno impresso em todas as suas experiências e pesquisas como artista: poemas, música, artes plásticas e gráficas.

 

A possibilidade de ter acesso ao arquivo documental e pessoal de um artista, cria circunstâncias inusitadas em relação à percepção de sua produção.  As descobertas dos segredos sutilmente guardados, os escritos, os arcabouços, esboços, pequenos detalhes que decorreriam dos croquis, rascunhos, projetos, são, muitas vezes, a essência do método, os pensamentos iniciais, que exigem uma parcela de indiscrição, de invasão da privacidade, de indiscutível constatação da dimensão da intimidade. Todos os ítens das duas exposições são do acervo em comodato do Instituto de Arte Contemporânea [IAC], de São Paulo.

 

Até 16 de fevereiro de 2014.

Ana Durães na Sergio Gonçalves Galeria

Aproximar o passado do presente é a proposta da artista plástica Ana Durães, que apresenta obras recentes na sua mais nova exposição “Novos Pretos Novos”, cartaz da Sergio Gonçalves Galeria, Centro, Rio de Janeiro, RJ. A artista mergulha na obra de Rugendas, trazendo uma abordagem contemporânea através de pinturas, stencils e grafittis. A ideia para o novo tema surgiu quando, pensando em trabalhar o universo do Rio Antigo, resolveu mergulhar no mundo de Johann Moritz Rugendas, alemão viajante do século XIX, que chegou como espião no Brasil e criou, dentre inúmeras obras, um precioso acervo sobre a vida dos escravos.

 

Pesquisando sobre o tema, Ana descobriu que o Brasil teve o maior mercado de africanos escravizados da história da humanidade. E no Rio de Janeiro, quando desembarcavam, eram levados para depósitos na Rua Direita (atualmente Rua Primeiro de Março) onde eram colocados à venda nas calçadas. Após 1769 o desembarque foi transferido para o Cais do Valongo (hoje Gamboa) e o local se transformou num comércio de escravos à céu aberto. Por não terem nenhuma habilidade para os serviços da lavoura ou domésticos, eles eram chamados de “Pretos Novos”. Daí surgiu o nome da exposição, que faz uma releitura desses escravos através das obras de Rugendas e de amigos da artista que foram retratados em suas telas, como o cantor Chico César.

 

Ana Durães utiliza a arcaica técnica do estêncil sobre superfícies preparadas com camadas de tinta que, em alguns casos, sofreram intervenções como oxidação, ou apropriação de matérias decalcadas. É um processo que demanda tempo entre uma etapa e outra, para que a artista crie a sua própria “arqueologia”. “Novos pretos novos” traz, ainda, grandes retratos e outros menores que são exibidos com pequenas paisagens, aves e até inusitados helicópteros, compondo um cenário com elementos que evocam alegria. Sentimento que Ana busca, de alguma maneira, devolver aos personagens criados. A curadoria é de Marco Antonio Teobaldo.

 

 

De 30 de novembro a 18 de janeiro de 2014.

Dois na galeria Laura Marsiaj

26/nov

Edgar Martins nasceu em Évora e cresceu em Macao, mudando-se para Londres aos 18 anos, onde se especializou em fotografia. Seu trabalho hoje é conhecido na Europa, Estados  Unidos, China e América Latina. Participou de importantes exposições, inclusive da Bienal de Veneza em 2011, bem como foi ganhador de inúmeros prêmios pela sua obra. A exposição que a galeria Laura Marsiaj, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, inaugura traz duas séries fotográficas:  This  is not a House e A Metaphysical Survey of British Dwellings.

 

 

Isto não é uma casa

 

A crise das hipotecas no mercado americano, que tem suas raízes nos anos finais do século XX, tornou-se evidente em 2007, e expôs fraquezas generalizadas na regulação do setor financeiro e do sistema financeiro global. Este trabalho foi fotografado nos Estados Unidos, entre novembro e dezembro de 2008, no contexto de uma comissão do The New York Times Magazine. Produzido em oito estados separados em dezesseis locais diferentes, esses locais cuidadosamente pesquisados expõem toda a extensão, latitude e impacto desta crise. O projeto buscou reunir e catalisar novas experiências de uma nova forma de arquitetura americana convocando uma conjunção inquietante de realismo e ficção. Empregando tanto dispositivos analógicos quanto digitais permitiram aumentar as possibilidades paradoxais da imagem fotográfica e reunir contradições insolúveis. As casas descritas nesta série não se referem apenas ao particular. São imagens de coleções espaciais, de tipos de estágios em que uma série de narrativas completamente diferentes (e talvez incompatíveis) podem ser ordenadas. “Isto não é uma casa” surge justamente nesse momento em que as palavras claras hesitam, onde a linguagem é perturbada. Ele nos lança para as antinomias de percepção e existência, a exploração de limites e limites instáveis.

 

 

Uma pesquisa metafísica de moradias britânicas

 

Fotografado inteiramente em uma cidade cenográfica, construída em 2003, para treinar as
unidades de armas de fogo e de Ordem Pública da Polícia Metropolitana do Reino Unido, esta série trata de urbanismo em toda a sua contradição e ambiguidade. Este centro de formação especializada, ultrarrealista, não é apenas um simulacro de cidades britânicas contemporâneas, é também uma metáfora para a cidade moderna asocial. Nada se move dentro ou fora desses edifícios. O tecido urbano desaparece no crepúsculo, obrigando-nos a preencher as ausências que a noite implacavelmente expõe. Um ambíguo jogo de identidades e de relações está acontecendo, um jogo que engloba um conjunto enigmático da vida cotidiana, transmissão e fluxo, deslocamento, confusão e solidão. Há uma sugestão inquietante de que nem tudo é o que parece.

 

 

Andrea Rocco

 

Andrea Rocco fará sua primeira individual na galeria Laura Marsiaj ocupando o espaço do ANEXO. A exposição “Miscellanea” irá mostrar os diversos aspectos que Andrea vem desenvolvendo em seu trabalho: colagens, aquarelas, bordados e objetos.  Sobre ela afirma Agnaldo Farias: “De um lado a imaginação e o sonho, de outro o desejo de registro objetivo dos fatos da natureza, as pretensões de controle e certeza tão próprios a ciência. Entre um e outro domínio Andrea Rocco vai estabelecendo o seu território; um lugar onde os termos são embaralhados  como um caleidoscópio que se vai virando e que de quando em quando sacudimos com a expectativa de uma nova surpresa.”

 

 

Até 21 de dezembro.

 

Paulo Vieira na Galeria Movimento

05/nov

O pintor Paulo Vieira apresenta na Galeria Movimento, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de janeiro, RJ, a exposição “Depois de Hoje“. Esta é a segunda mostra individual do artista no Rio de Janeiro – a última foi realizada em 2011 – com mais de 30 anos de carreira. Rigoroso, obsessivo e profundo estudioso da pintura, Paulo Vieira apresenta 41 trabalhos, entre eles, 31 óleos sobre tela e 10 em papel com acrílica, grafite e lápis de cor. O trabalho do artista foge da figuração tradicional e apresenta imagens evocativas e aleatórias como o verso de Paulo Leminski que batiza a exposição. “Quando a gente olha o conjunto pronto, pensa que ele nasceu assim. Mas esses trabalhos não foram feitos imaginando uma exposição. Eu queria voltar a pintar com óleo, o que não fazia há muito tempo”, revela. Como preferiu trabalhar com telas de pequeno formato, o conjunto de imagens adquiriu um caráter fragmentário e, paradoxalmente, uma forte coesão.

 

Toda a exposição gira em torno do conceito de autorretrato. “Toda minha pintura é autorretrato”, reitera, a começar com um impressionante trabalho em grafite e lápis de cor de grandes dimensões que ancora a exposição. Imagens que sugerem lembranças e sonhos povoam as telas cuidadosamente articuladas em torno das ideias de isolamento, incomunicabilidade e vida interior. “Elas falam pra dentro. Cada uma conta uma história, mas é cada espectador que a completa com suas experiências individuais”, acrescenta Paulo.

 

Segundo o curador Mauro Trindade, o retrato é um tema caro à pintura, gênero que Baudelaire notou ser de aparência tão modesta e que necessita de uma imensa inteligência. “Sem a grandiloquência da pintura histórica ou os efeitos da paisagem, o retrato permitiu a construção de uma certa identidade hoje solapada pela personalidade errante do sujeito na atualidade. Nesse contexto a exposição Depois de Hoje pode ser entendida como um grande autorretrato”, finaliza.

 

 

De 12 a 30 de novembro.

Dois na Galeria Laura Marsiaj

04/nov

A Galeria Laura Marsiaj, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, apresenta através de mostra individual em sua sala principal as inusitadas esculturas de Barrão. O texto de apresentação traz a assinatura de Jorge Emanuel Espinho e a mostra denomina-se “Barrão: Arrumação“.

 

O Verdadeiro Lugar das Coisas: Sua Natureza Interior, Exteriorizada

 

Seria interessante conseguirmos descobrir a inventar a verdadeira natureza animada dos objetos: a essência viva mais funda que os habita, bem escondida e disfarçada por trás da firme máscara do imobilismo e da aparente não ação, não vida. (Pre)Sentir a história que  povoam e que os seguirá, congelados que estão e ficam, num momento rígido de emoção e aventura. Mas estamos bem distantes da invenção/consciência libertadora e fantasiosa das infâncias, e sentimos amarrados na relação estreita e objetivada com o que criamos e nos rodeia. Assim – condicionados na rigidez egocêntrica do ser adulto – parece ginástica impossível o alargar, através desse animismo mágico, uma interação criadora com o que nos envolve. (Alargando-nos logo então também, nesse criar imaginado: aprofundando-nos, projetando-nos; tudo reinventando e fazendo viver, vivenciando.)
Será este o luminoso privilégio que nos é partilhado e encorajado, na obra literalmente e profundamente fantástica de Barrão. Aqui, testemunhamos deslumbrados esse mundo mágico que se esconde subtil dentro das coisas; e que assim se espraia e se manifesta, se exprime e se relaciona, numa animada reunião ruidosa de gestos e movimentos: em momentos fugazes mas cruciais, parados num tempo; numa soltura comunicativa e aberta; em forte união e relação. Aqui, os protagonistas – quer representem objetos funcionais ou animais – revelam finalmente a sua essência e força, em libertada e estimulada interação e fantasia.  À origem/natureza kitsch e de produção massificada dos objetos – distintos e orgulhosos símbolos representativos da cultura de massa – o artista aplica uma abordagem mais intuitiva que decidida, mais de procura que de encontro, mais de improvisada libertação que de estudada reconfiguração. Na busca disponível pela vida em que lhe vão surgindo, ele os identifica e acolhe; no atelier lhes retira formatação e algum limite primeiro, depois lhes reconhece e encoraja expressão e expansão, reunião com semelhantes e avanço. E assim vai, a partir desse ambicioso relacionamento, construindo uma irônica obra, em que – saído da reprodução fabril, seriada e estéril – o objeto vem assumir agora um caráter/manifestação único e próprio. E que jamais poderia ambicionar ou conseguir sozinho.

Mas aqui a fronteira entre a leve ironia e a carga crítica da obra está bem clara. Pois esta também incorpora, e fortemente, uma séria reação à ordem fabricada das coisas: à formatação da beleza e ausência de critérios próprios; à predefinição, por outrem, das curvas da nossa própria emoção, vida e ousadia. Estas peças, de origem decorativa e funcional linear, transformam-se, às mãos do artista, no resultado/objeto da sua própria mutação e transcendência. (Isto é feito, sobretudo, através da exploração livre e intuitiva de outras direções e vontades possíveis, que habitam o seu interior cerâmico: subterrâneas, escondidas,vibrantes, infinitas.) Assim, saídas altivas de um envelhecido mundo decorativo – e já enriquecidas com um pendor animista e psicológico; sincrético e resolvido, mas agora realmente em vida e vividas; renascidas no capricho significativo de um acaso criativo e reconstruídas numa coabitação onírica e maravilhosa, vivenciando e incorporando a sua verdadeira natureza – estas coisas manifestadas gritam ruidosas da redução tonta que fazemos de todos os objetos, mesmo de nós, e também, claro, de todo um mundo diverso e pleno. Em complot retalhado e místico com outras de enriquecedora natureza, nestas obras acontece uma transcendente decisão e causa: a manifestação corporificada do espírito, em barro envernizado, que habita os animais todos e tudo, e todas as coisas. O que o artista aqui faz é escolher – dar forma, reproduzir, partilhar – a fabulosa energia viva que reside, em expectativa morna e mirabolante, adormecida, no todo e em todos. E claro, este manifestar uno ri-se, grave, alto e ruidoso, da separação ácida e constante que impomos às coisas, à nós, a um inteiro e descomunal planeta.

 

Imagina-se aqui uma verdadeiramente fenomenal aventura: reunir num só enorme espaço/tempo todas as esculturas vivas do artista, e logo mergulhar a descobrir essa imensa galáxia colorida de mil seres que se lançam e conversam, se fundem e se separam, se reproduzem e se acalmam, numa liberdade anárquica e fantástica, que jamais e sempre se (re)inventa e se recria. Partindo de novo sempre em tudo, e em tudo sempre de novo se reunindo. (Muito fica sempre por dizer num texto assim tão curto, mas sublinhamos): Estas nossas obras nascem cozidas no calor de um fogo sem formatação ou mentira; e bem nos ensinam: que por detrás da cortina de fumo que é a forma rígida predefinida, habita expectante e adormecida toda a possibilidade infinita! Uma brincadeira a ser levada a sério, como bem mostra o efeito final desta alquimia em vida que nos é aqui exemplificada, sublinhada, demonstrada. Assim, aprendamos.

 

Jorge Emanuel Espinho

 

 

Até 21 de novembro.

 

 

 

Já a artista plástica Gabriela Machado apresenta série inédita de pinturas no Anexo as quais denominou “Histórias que eu quero contar“.  A apresentação é de Marcelo Campos.

 

Gabriela Machado

 

“Histórias que eu quero contar”, assim Gabriela Machado denomina esta vontade conceitual de buscar a pintura, sua companheira diletante, em pequenos relatos, crônicas, por assim dizer. Com isso, vemos três instâncias de observação sobre este engenho: a história, o querer desejante e a vontade narrativa. Ao observarmos as pinturas, nos confrontamos com assuntos marginais, quase não-narráveis. Fomenta-se, aqui, um volta da história narrativa exercitada como uma compreensão instantânea dos acontecimentos. Pintura de instantes, alguns instantâneos de pintura. Esta possibilidade é capitaneada pelo uso de máquinas produtoras de imagens instantâneas, as polaróides. Gabriela Machado acentua o desejo curioso, tátil, infantil, até, de produzir cliques que acompanham-na em viagens pelo mundo. Assim, vemos uma paisagem estrangeira, o detalhe do mobiliário de hotéis, uma cortina, um gato, um por do sol. A artista se concentra no minúsculo, criando um destaque desproporcional, pois não estamos diante de uma história factual, mas, antes, de uma história biográfica não-factual.

 

Também poderíamos observar um elogio ao uso da narrativa popularizada, os instantâneos de uma vida que só pode ser grandiosa pela soma dos acontecimentos ordinários. Neste “instante” compartilhado resplandece o desejo. Aquele que nos faz seguidores do que não sabemos. Exercita-se um certo delay, um certo intervalo entre a imagem observada, a câmara escura e sua revelação em slow motion, etapas próprias da máquina de polaróide.  O historiador Eric Hobsbawm destaca que numa “história narrativa popular”, “o evento, o indivíduo, não são fins em si mesmos, mas meios de esclarecer alguma questão mais ampla, que ultrapassa em muito o relato particular e seus personagens”. Perde-se o interesse pelo que o historiador chama de “grandes porquês”. Ao mesmo tempo, o fait diver, os acontecimentos noticiosos, próprios do advento da cultura de massa, passam a ganhar protagonismo. Como estamos diante do ordinário, percebemos uma certa negação do compromisso ideológico. Ativa-se a via de todas as imagens, de todas as pessoas, de quaisquer luzes. Tudo é pictórico, tudo é pitoresco. E a imagem é forçosamente pintada, gravada, num quarto momento, numa quarta geração. Depois da visão, do registro fotográfico, da revelação, temos a pintura.

 

A artista exercita, em contrapartida, uma “leitura íntima”, na associação de formas, blocos, empilhamentos, fato já presente na produção de Gabriela. “Não há nada de novo em preferir olhar o mundo por meio de um microscópio em lugar de um telescópio”, afirmará Hobsbawm. Ao que podemos responder com a constatação de Arthur Danto que afirmara: “perguntar pela significação de um acontecimento no sentido histórico do termo, é perguntar algo que só pode ser respondido no contexto de um relato (story)”. Vemos, então, Gabriela Machado testar, brincar, corromper esta ambivalência, grandes relatos, pequenas escalas, fotos domésticas, acontecimentos relevantes. Aqui subverte-se a noção de que a “autêntica história considera a crônica como um exercício preparatório”. O exercício preparatório é uma finalidade ambiciosa, ainda que sem fins grandiosos. Ativa-se, de outro modo, o sentido de colecionar, acumular, fazer museus de tudo, atlas imagéticos. Quais são os acontecimentos significativos, nos perguntamos? A narração como ensaio, como crônica, liberta os recursos narrativos para se concentrar numa suposta liberdade de gerar relações significativas por dentro das micro-histórias. E as histórias são aquelas que nos acompanham na vida, como contos prosaicos. Gabriela, em outra medida, assume: “quero contar”, trazendo a imagem para uma relação direta com a pessoalidade. Qualquer coisa, qualquer fato, qualquer vazio torna-se pictórico. E, assim, “a mera crônica” é a “autêntica história”.

 

Marcelo Campos

 

 

Até 21 de novembro.

Flying Houses de Chéhère na Inox

A Galeria Inox, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, apresenta “Flying Houses”, a primeira exposição individual do artista plástico francês Laurent Chéhère. Ao todo, são 6 composições fotográficas da série homônima, nas quais o artista apresenta uma Paris onírica e melancólica, através de imagens de construções da capital francesa em suspensão no céu.  A ideia que norteia a série “Flying Houses” surgiu em 2008, durante andanças do artista por Belleville e Ménilmontant, bairros localizados na região nordeste de Paris. “Meu interesse é mostrar a vida dessas pessoas e suas moradias. Essa parte da cidade é muito pobre e em cada metro quadrado é possível explorar uma rica diversidade cultural”, conta o artista.

 
As edificações que ilustram essas obras são diversas: uma casinha com floreiras à janela, um hotel velho e decadente, um trailer com um varal repleto de roupas, um cortiço, uma casa com placa anunciando venda, uma fábrica, um edifício comercial pichado e até um circo. Em todas essas imagens há presença de fios, como se fossem a linha de uma pipa ou o cordão de um balão. E isso não é à toa, já que a série é inspirada no filme “Le Ballon Rouge”, de Albert Lamorisse, de 1956.

 

O conceito imagético produzido por Chérère usa paleta cromática similar ao filme, com predominância de tonalidades frias, principalmente cinza e azul, e também marrom. As personagens principais desses trabalhos – as construções – são digitalmente criadas a partir de detalhes arquitetônicos fotografados nos subúrbios e periferias da cidade, justamente onde foi filmado “Le Ballon Rouge”. O resultado é um misto de realidade e ficção, temperado com um tanto de surrealismo.

 

Em “Flying Houses”, Laurent Chéhère exibe um lado esquecido da Cidade Luz, elevando essas moradias e demais espaços dessas regiões abandonadas da cidade numa tentativa de atingir a atenção para a situação em que esses locais se encontram. Enquanto o filme de Albert Lamorisse tem final feliz, a conclusão da narrativa proposta pelo artista permanece suspensa, como as construções de suas obras. A curadoria é de Gustavo Carneiro e Guilherme Carneiro.

 

 

O artista

 

Laurent Chéhère, nasceu em Paris, em 1972. Trabalhou no ramo publicitário, onde ganhou prêmios por campanhas para marcas como Nike e Audi. Após algumas viagens pelo mundo, acabou decidindo investir na carreira artística, com a qual combinaria suas duas paixões: a fotografia e as viagens. Chéhère explora localidades tão diversas – cidade, subúrbio, interior – quanto campos da fotografia, da reportagem à imagem conceitual. Seu grande interesse por arquitetura resultou na série “Flying Houses”, que ganhou o prêmio Prix Special du Docks en Seine: City of Fashion & Design.

 

 

 

De 13 de novembro a 07 de dezembro.

Viagem Astral na Marcia Barrozo do Amaral

31/out

Roberto Magalhães é a próxima exposição da Galeria Marcia Barrozo do Amaral, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ. A mostra denomina-se “Viagem Astral”. Roberto Magalhães fala das imagens, da quantidade de imagens diferentes que costumam brotar initerruptamente em seu pensamento. De uma maneira inesgotável, segundo ele “…como uma torneira aberta no mundo, sem forma e sem tempo”. A série de desenhos inéditos que será apresentada, que reúne 30 trabalhos, foi iniciada no noroeste da Argentina e talvez, pelas circunstâncias vividas nessa região desértica e inóspita, muitos deles têm conotações místicas que parecem ressurgir de maneira simbólica de um passado experimentado há 40 anos, durante um período de introspecção e a descoberta do mundo interior do artista. Entre os desenhos místicos e espirituais, está a nave que manobra sobre a superfície de planetas e luas onde o artista pode então vislumbrar objetos pertencentes aos povos que ali habitam. São máquinas e aparelhagens de funcionamento desconhecido, medidores, monumentos, estruturas, cuja finalidade não é conhecida e que talvez sirvam apenas como sugestões da enorme quantidade de ideias que pretende futuramente concretizar no espaço tridimensional em que vivemos. Aparecem mapas, caminhos e roteiros dos mundos imaginários que visita. Em alguns desenhos são acrescentados textos, que, para o artista, é uma tentativa de mostrar com palavras que vai colhendo desordenadamente, frases explicativas  de que imagina e vislumbra.

 

 

O artista descreve seus trabalhos

 

“Nossa mente é mesmo surpreendente! E me deleito sempre quando viajo à bordo dela, com nossa capacidade de imaginar o que queremos, quando quisermos e do jeito que escolhemos”.

“São como ferramentas que me permitem construir o necessário para viajar com a mente, ou seja, módulos que reunidos me possibilitam compreender o que não vejo e proporcionar alguma coerência às referências que vou encontrando nesse vôo”.

“São como sínteses, clamores ou até mesmo êxtases proporcionados por essa imensidão impensável do invisível, que nos rodeia e interpenetra e do qual nunca teremos uma compreensão lógica e satisfatória”.

 

 

Sobre o artista:

 

Roberto Magalhães surgiu na cena artística brasileira no início da década de 1960. É um dos principais integrantes do grupo de jovens pintores que realizaram, no MAM-RIO, a exposição “Opinião 65”, iniciativa revolucionária por trazer uma nova linguagem visual para as artes plásticas no Brasil. Ganhou, em 1966, o cobiçado prêmio de viagem ao exterior no XV Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Fixou residência em Paris entre 1967 e 1969, desfrutando do prêmio recebido na IV Bienal de Paris e participou de exposições no exterior. Depois de oito anos sem expor – suas inquietações e questionamentos o tinham levado ao misticismo -, em 1975, Magalhães recomeçou sua vida artística, expondo e lecionando no Museu de Arte Moderna. Em variadas técnicas, Roberto Magalhães constrói uma longa trajetória, destacando-se como uma das referências nas artes plásticas no Brasil e consolidando-se no circuito internacional, incluindo entre os anos 1960 do século passado e 2013, passagens pela IV Bienal Internacional de Gravura; “Brazilian Art Today”/Royal Academy, Londres; VII Bienal Internacional de São Paulo; “Xilografia/Xilogravura”/Museu de Las Artes, Guadalajara, Mexico; “Retrospectiva”/MAM-RIO; “Roberto Magalhães – Pinturas, Dibujos y Grabados”/Museo de Arte Contemporáneo de Caracas Sofía Imber, Caracas, Venezuela;“Desenhos”/Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro, 2001; “Otrebor – A Outra Margem”/Caixa Cultural, Rio de Janeiro e Brasília; “Preto/Branco 1963-1966 – Xilogravuras e Desenhos”/Parque Lage, Rio de Janeiro e “Roberto Magalhães- Pinturas e Desenhos”/Art Museum of Beijing Fine Art, China, 2011.

 

De 12 de novembro a 02 de dezembro.

No Oi Futuro, Ipanema

30/out

A solidão, mesmo (ou principalmente) nos formigueiros humanos; o isolamento voluntário, a segregação social em guetos, a dissolução na grande paisagem são os temas que norteiam a exposição “Nenhuma Ilha”, de Elisa de Magalhães no Oi Futuro, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ.  A mostra – que tem curadoria de Marcelo Campos –  foi criada,  a partir de imagens captadas da janela da casa de Elisa de Magalhães, que, como uma ilha, observa o que se passa à sua volta. A exposição, começa no saguão do elevador que conduz à galeria. Ali, ouve-se a narração de um estranho diálogo travado por dois religiosos, inspirado em personagens criados a partir de ficções de Lewis Carroll (Alice através do espelho) e de Umberto Eco (A Ilha do dia anterior). A narração é supostamente feita por um personagem da dupla Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Esse diálogo, que atravessa tempos (são livros escritos com muitos anos de diferença), já anuncia a suspensão temporal que a exposição vai provocar no visitante.  É a obra sonora – Catedral -, recentemente apresentada no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal, na exposição coletiva “ObraNome III”, com curadoria de Wagner Barja.

 

 


SEIS TRABALHOS

 

O primeiro trabalho, dos seis que compõem a exposição é o vídeo que batiza o conjunto, exibido no saguão do Oi Futuro Ipanema. Projetado em uma tela de 4 metros, foi produzido em 2010 a partir da janela de sua casa/atelier, em Santa Teresa. Usando uma potente lente zoom, Elisa filmou o tráfego carioca no início da noite – carros nos viadutos que margeiam a Baía de Guanabara, a alguns quilômetros de distância, que parecem andar em círculos, como brinquedos, em viadutos que não levam a lugar nenhum. A janela como posto de observação é personagem importante – desse seu posto, Elisa produziu ainda outros olhares. A instalação “Mar Aberto” apresenta duas fotos – semelhantes, mas feitas  em dias diferentes – da paisagem da cidade vista do alto. Parece um mar, com rasgos de luz. O livro O Mar, de John Banville, completa a obra. Já “Iluminações” é a foto feita de uma escadaria vazia, na comunidade dos Prazeres, em Santa Teresa, iluminada por um poste de luz. A distância e a pouca luz corrompem a imagem e transformam a paisagem em volta numa mancha azulada. O vídeo “Escrita” foi produzido a partir da leitura do conto de Jorge LuÍs Borges “A Escrita do Deus”. O monitor é instalado no chão da galeria, simulando um buraco onde está a própria Elisa, que olha para cima a cada vez que um personagem oculto abre a tampa desse lugar. No quinto trabalho, “A Vida dos Outros: Passagens”, a janela da artista volta a ser protagonista – produzido especialmente para o videowall com uma câmera equipada com um potente zoom, mostra o registro de escadas e passagens das comunidades em seu entorno, de dia  e de noite, com gente ou sem gente. Elisa transforma o vIdeowall numa espécie de tabuleiro, onde dia e noite se opõem nas telas, num sobe e desce de escadas que não termina nunca. O último trabalho, a foto “O Olho da Ilha”, funciona como uma espécie de marca visual da exposição – a foto de uma gota d’água caindo na superfície de uma piscina natural, que fica na vizinhança do estúdio. “E chamei de Olho da Ilha, por se tratar de uma ilha de água cercada de floresta por todos os lados”, explica.  “Elisa de Magalhães observa, de um ponto de vista insular, a janela de seu apartamento, o que acontece em seu entorno. Assim, faz do acontecimento comum, um advento do memorável. Aqui nos colocamos a questionar, quaisquer ações, quaisquer gestos são passíveis de narração?”- Marcelo Campos, curador.

 
 
Até 22 de dezembro.