Emma Thomas: Hugo Frasa e Adam Nankervis

23/fev

A galeria Emma Thomas, Jardins, São Paulo, inaugurou simultaneamente as exposições “N.A.A.T.”, do paulistano Hugo Frasa, e “Upon a painted ocean…”, do australiano Adam Nankervis. “N.A.A.T.” é a primeira exposição individual de Hugo Frasa. Ocupando a sala principal da galeria, o artista traça um panorama de sua produção, tendo como ponto de partida a série de pinturas inéditas, produzidas entre 2013 e 2014 com spray de tinta, numa forma de observação irônica à difusão contemporânea do concretismo brasileiro.

 

Ao redor dessa série, expondo seu processo de criação, apresenta-se uma constelação de obras composta por pinturas, fotos, objetos, música, vídeo e uma instalação. Através desses trabalhos, percebe-se o olhar crítico e sarcástico do artista sobre a produção contemporânea, evidenciando seu deslocamento geracional e seu diálogo entre racionalismo formal e estética pop, música, moda e comportamento de rua. Para o projeto expográfico e curadoria da mostra foi convidado o arquiteto Fernando Falcon.

 

Em “Upon a painted Ocean…”, Adam Nankervis se inspirou no poema “The Rhyme of the Ancient Mariner”, de Colleridge. O artista, em sua contínua investigação geopolítica, ambiental e sociocultural, sugere uma aterrorizante previsão no atual dilema de conflito global e negligência ambiental.

 

Em sua série fotográfica, Adam Nankervis trabalhou com David Medalla e Daniel Kupferberg, com retratos performáticos, cuja série intitula-se “The Albatross’ Nest”, aludindo às serpentes que enredam as ficções de marinheiros a bordo de um navio sem rumo. A série, que evoca o albatroz em sua jornada por alimento regurgitado em alto-mar, se confunde com a jornada do próprio artista, suas memórias, experiências e observações.

 

 

Sobre Hugo Frasa

 

Iniciou a graduação em artes plásticas na Faap em 2005. Ganha os prêmios 39ª Anual de Artes Plásticas Faap, São Paulo, 2007, e 40ª Anual de Artes Plásticas Faap, São Paulo, 2008. Descontente com o curso, abandona a faculdade em 2010. Desde então, participa de exposições coletivas (“Viés” | Galeria Vermelho, São Paulo, 2005; “Vorazes, grotescos e malvados” | Paço da Artes, São Paulo, 2006; “Bipolar” | Galeria Emma Thomas, São Paulo, 2007; “Coletiva inicial” | Mendes Wood, São Paulo, 2009; “Nichi Nichi Kore Ko Nichi” | Galeria Phosphorus, São Paulo, 2012; “Princípios Flexor” | Galeria Gramatura, São Paulo, 2012; “OIDARADIO sessions” | 30ª Bienal de São Paulo – A iminência das poéticas, São Paulo, 2012), compõe trilhas, produz vídeos, faz apresentações musicais e desenvolve séries de desenhos, pinturas, colagens, fotos e vídeos.

 

 

Sobre Adam Nankervis

 

Artista e curador, tem como marca registrada de seu trabalho a imersão na experimentação de formas sócio-esculturais e colisões estéticas. Entre seus projetos está “Another Vacant Space”, focado em trazer à tona aquilo que está oculto sob a temática, conteúdo e teoria, o efêmero, a exploração artística da destruição criativa e a reconstrução – um convite à contemporaneidade a ser história. Sua prática curatorial se funde com seus demais projetos. Adam Nankervis já expôs na Inglaterra, Ucrânia e Estados Unidos. O artista foi Coordenador Internacional da London Biennale entre 2000 e 2012, que surgiu como uma iniciativa de arte livre.

 

 

Sobre a galeria Emma Thomas

 

 
A galeria Emma Thomas, das sócias Flaviana Bernardo e Juliana Freire, foi inaugurada em 2006 com o intuito de democratizar a arte contemporânea, modificando e adaptando as práticas do mercado a fim de aproximar a produção artística do público em geral. A galeria representa cerca de 14 artistas da nova geração. Em maio de 2012 ganhou o Prêmio de Melhor Galeria Jovem em Buenos Aires e em setembro de 2013 foi escolhida como segunda melhor galeria de São Paulo segundo a revista Época São Paulo. A galeria, em 2012, constrói sua nova sede nos Jardins e agrega uma nova sócia, Monica Martins. Além das mostras, projetos e feiras nacionais e internacionais, o novo programa da Emma Thomas promove o livre intercâmbio do conhecimento e do questionamento cultural.

 

 

Até 25 de março.

 

Janaina Tschäpe na Fortes Vilaça

17/fev

A Galeria Fortes Vilaça, Vila Madalena, apresenta a exposição “The Ghost in Between”, na qual Janaina Tschäpe, artista residente em NY, mostra seu mais recente filme. Produzida na Amazônia e apresentada em forma de dupla projeção, a obra enfoca o olhar romântico sobre um mundo a desbravar das viagens científico-exploratórias do século XVIII e XIX. A prática do vídeo e da fotografia é paralela à pintura e ao desenho no desenvolvimento da poética de Tschäpe. As diferentes mídias se influenciam permanentemente. Dentro destes quatro campos, ao longo dos anos, a artista recorreu diversas vezes à mitologia e à literatura em contraponto às descobertas da ciência para criar seres fantásticos, células e plantas fictícias, em um universo onde o real e o imaginário coabitam. O título do filme alude a um costume brincalhão dos habitantes do alto Amazonas de procurarem fantasmas em fotografias. Segundo eles o fantasma fica no limite entre o começo da vegetação ribeirinha e o seu próprio reflexo no rio. Para os povos indígenas que formam a base da população local, o mundo invisível é tão real quanto o visível e isto informa a rica e híbrida mitologia amazônica.

 

“The Ghost in Between” propõe uma viagem subjetiva ao flertar com a ideia romântica da busca pelo desconhecido. Vemos uma mulher navegando pela paisagem, refletida num Rio Negro imóvel e espelhado. A imagem vai se tornando abstrata, como as manchas simétricas do teste psicológico de Rorschach, e assim o mundo conhecido abre espaço para a existência de seres místicos. A mulher se metamorfoseia em menina e em criatura e volta a ser mulher. Há cenas povoadas por crianças e seres antropomórficos que ora permanecem imóveis, como em documentos etnográficos, e ora interagem com a natureza em cenas justapostas às sequências de paisagem. Em narrativa ambígua, por vezes beirando a exploração do exótico, a artista subverte e questiona precisamente o lugar de quem observa e é observado. O mundo imaginário e fantasioso, embebido de um velado romantismo ingênuo  nos leva a um lugar onde nada pode ser definido de fato, o lugar onde fantasmas habitam.

 

 

Sobre a artista

 

Janaina Tschäpe nasceu em Munich, Alemanha em 1973. Entre suas exposições individuais destacam-se Quimera no IMMA – Irish Museum of Modern Art, 2008; em 2009 a Trienal do Centro Internacional de Fotografia, Nova York e Museu de Arte Kasama Nichido, Japão. Já participou de exposições coletivas no MAC USP, São Paulo; MAM, Rio de Janeiro; LiShui Museum of Photography, China; New Museum, Nova York; Guggenheim Museum, New York entre outras.  Sua obra está em importantes coleções tais como Itaú Cultural, São Paulo, Brasil; Moderna Museet, Stockholm, Suécia; Inhotim Centro de Arte Contemporânea, Minas Gerais, Brasil; Centre Pompidou, Paris, França Museu Nacional Centro de Arte Reina Sophia, Madrid, Espanha.

 

Até 15 de março.

IWAJLA KLINKE EM SÃO PAULO

14/fev

Coerente em sua proposta de apostar em projetos de artistas residentes, que desafiam pelas temáticas e limites da representação, além de iluminar a questão do gênero, o Transarte, São Paulo, SP, realiza sua segunda exposição com obras de Iwajla Klinke.

 

A artista alemã, que nasceu em 1976 e mora em Berlim, reúne nesta mostra alguns trabalhos de suas expedições pela Europa, Canadá e Brasil realizados em 2013. O núcleo brasileiro – inédito – apresenta séries de retratos e composições de elementos da natureza que a surpreenderam. Usando a fotografia pura, sem luz artificial e sem manipulação digital, ela evidencia a sua lente Cult. “Iwajla negocia, com o delírio e a fantasia, sua maneira realista e despudorada de transgredir”, afirma Maria Helena Peres, idealizadora e diretora do espaço Transarte.

 

Sua obra, tão particular quanto a sua figura, já que Klinke é andrógina, estabelece relações do humano e da natureza com o sagrado. Sua forma de retratar pessoas, como a realizada no Brasil, conforme escreve Jorge Colli, “faz com que as imagens cheguem ate nós como vindas de um sonho embebido em espiritualidade”. Já nas chamadas “naturezas mortas” que produziu também por aqui, ela lança mão de pedaços de frutos, alimentos e plantas ao redor, para ali mesmo retirar toda a exuberância destas formas orgânicas que a provocaram. “Elas se organizam como as de Eckhout, um Eckhout convertido, católico, e tomado pela mística de Zurbarán”, escreve o crítico.

 

Com fundo neutro, preto ou marron, Klinke usa luz natural para criar efeito sépia remetendo a uma pintura de Vermeer, conforme ressaltou o crítico e colaborador da Art News e do Wall Street International, David Galloway, sobre a mostra da artista em cartaz até março, na galeria Voss, em Dusseldorf. “O que também parece irradiar em suas sobras é uma luz interior, espécie de epifania profundamente enraizada nos rituais cujas origens podem ter sido esquecidas, mas cuja energia espiritual persiste”, destaca Galloway.

 

Sobre a artista

 

Fotógrafa e cineasta baseada em Berlin, Iwajla Klinke estudou Ciência Política, Estudos Judaicos e Estudos Islâmicos na Universidade Livre de Berlim e trabalhou como jornalista durante muitos anos antes de dirigir seu primeiro filme, “Moskobiye”, em 2004. Seu segundo filme, “The Raging Grannies Anti Occupation Club” (o clube anti-ocupação das vovós enfurecidas), foi lançado para aclamação da crítica em 2007. Com obras no acervo da Saatchi Gallery, em Londres, Klinke, graças a seu interesse pela internet, tem um grande número de seguidores em suas redes sociais.

 

 

De 20 de fevereiro a 11 de junho.

Larry Bell na White Cube/SP

Importante nome da arte contemporânea norte-americana, o artista Larry Bell terá pela primeira vez uma mostra dedicada exclusivamente ao seu trabalho no Brasil na White Cube, Vila Mariana, São Paulo, SP. A mostra, denominada “The Carnival Series”, apresenta séries de  pinturas e esculturas inéditas, além de outros trabalhos produzidos nas décadas de 80 e 90.

 

Bell iniciou sua carreira no começo dos anos 60, quando a cena de artes plásticas americana fazia a transição do Expressionismo Abstrato e o Pop Art para o Minimalismo, e fez parte do movimento “Light and Space” (Luz e Movimento), formado por um grupo seleto de artistas renomados, como Robert Irwing – com quem chegou a ter aulas de pintura em aquarela -, James Turrell, Peter Alexander, Craig Kauffman, John McCracken, Doug Wheeler e Maria Nordman, entre outros. O artista deu os primeiros passos na pintura, mas logo passou a criar colagens usando vidro e espelho, materiais que obtinha em seu trabalho diurno numa loja de molduras. Essas assemblages foram o embrião das chamadas “caixas de sombra”, pequenas instalações que, por sua vez, evoluíram para as “Esculturas em Cubo”, talvez a sua série mais icônica. Durante o processo de produção das faces parcialmente refletivas destes cubos, Bell descobriu uma técnica de revestimento industrial metálica, com a qual conseguia cobrir uniformemente uma superfície de vidro, um tipo de acabamento que subvertia visualmente o volume espacial e a translucidez da escultura. O artista aprimorou ainda mais o método que inventara ao adquirir o seu próprio tanque a vácuo, uma máquina de grandes proporções que possibilitou novas explorações e diferentes maneiras de manipular esse procedimento.

 

Dez obras da famosa série de Bell conhecida como “Mirage Paintings” (Pinturas de Miragem), que consiste em trabalhos compostos por camadas de papéis de origens diversas, películas e tinta acrílica aplicada, integram a mostra em São Paulo. Concebidas a partir do final dos anos 80, as colagens continuam a brincar com temas de ambiguidade espacial e ilusão ótica. As obras ganham suas formas não apenas através da interferência do alumínio na superfície dos materiais, mas também na compressão, absorção e aderência das películas à tela, por meio de um processo de laminação aquecida. A exposição inclui “Spider Web”, a primeira “Mirage Painting” criada por Bell, “Second Chance” e “Leon”, todas de 1988, além de trabalhos mais recentes da série, como “Chequered Demon #193” (1990) e “The Vertical Landscape #192” (1990), nas quais aprofundou a sua experimentação com materiais, a pintura gestual e passou a usar uma palheta de cores mais clara, fatores que elevaram o nível de complexidade das obras.

 

A série de colagens “The Mardi Gras” ou “The Carnival Series”, modo como Bell se refere a elas, são suas mais coloridas e festivas montagens até o momento. Nestes trabalhos, o artista revisita a forma feminina clássica, apresentando a figura sentada de maneira audaciosamente Pop, que ele descreve como carnaval, daí o nome da mostra. Em suas colagens mais recentes, ele apoia-se na linguagem do Cubismo com montagens de bordas sinuosas cortadas que se assemelham à figura feminina ou, talvez, o formato curvado de um violão. Bell repetiu estas formas em três esculturas, suspensas por fios de nylon, feitas com Mylar, uma película de poliéster, revestidas em ambos os lados para criar uma superfície espelhada. Em seguida, ele faz uma espécie de nó com o próprio filme, criando um objeto cinético multidimensional que constantemente reflete e refrata a sempre variável luz natural do espaço que o cerca.

 

 

Sobre o artista

 

Larry Bell nasceu em Chicago, em 1939, e hoje vive e trabalha entre Los Angeles e a cidade de Taos, no Novo México. Suas obras já percorreram diversos museus dos EUA, em mostras individuais, que incluem o Pasadena Art Museum, Califórnia (1972); Oakland Museum of Art, Califórnia, 1973; Fort Worth Art Museum, Dallas, 1975 e 1977; Washington University, Missouri, 1976; Detroit Institute of Arts, Michigan, 1982; Museum of Contemporary Art, Los Angeles, 1986; Denver Art Museum, Colorado, 1995 e o Albuquerque Museum, Novo México, 1997. Mais recentemente, o artista realizou exposições solo no Kunstmuseum Bergen, Noruega, 1998, e no Reykjavik Municipal Art Museum, Islândia, 1998, além de uma retrospectiva no Carré d’Art Musée d’art Contemporain de Nimes, France, (2011. Em 2012, Bell participou da grande mostra coletiva ‘Pacific Standard Time: Art in LA 1945-1980’, sediada no Getty Center, em Los Angeles, que celebrou a arte contemporânea da Costa Oeste americana daquele período. Em outubro de 2014, o Chinati Foundation, em Marfa, Texas, inaugura uma exposição dedicada exclusivamente às grandes instalações de vidro de Larry Bell.

 

 

De 18 de fevereiro a  22 de março.

RAQUEL ARNAUD APRESENTA DANIEL FEINGOLD

30/jan

Em 2014, quando Raquel Arnaud, Vila Fidalga, São Paulo, SP, completa 40 anos de dedicação à arte contemporânea, sua galeria inicia as atividades com uma exposição de telas e fotografias de Daniel Feingold. O conjunto de obras estabelece narrativas entre o espaço e seus desdobramentos, planos cromáticos e suas dobraduras, e revela uma longeva ambição por transcendência – o fundamento da poética do artista. Com curadoria do crítico norte-americano Robert C. Morgan, serão apresentadas oito telas e aproximadamente 30 fotografias.

 

O térreo da galeria foi dividido em dois ambientes, cada um recebendo uma família distinta de pinturas. O primeiro ambiente reúne duas pinturas monocromáticas preto sobre branco, também dípticos, intituladas “Yahweh”, Deus Judaico. De acordo com Robert C. Morgan, a escolha do “Deus Judaico” como título da série sugere mais do que um processo estritamente formal e a maneira com que a tinta escorrida (esmalte sintético), forma uma sorte de escrito religioso não é insignificante. “Ao contrário, é a própria essência que o artista está se esforçando para obter, como se a imprevisibilidade relativa da ação da tinta fosse parte de um plano aleatório, um universo construído sobre o impulso criativo, sugerindo uma espécie de espelho ou reflexão sobre o significado do ato criativo”, completa o curador.

 

No segundo ambiente estão os dípticos “Estrutura” e “Sócrates na Alice”. “São faixas formadas com tinta derramada (esmalte sintético), que não se movem em uma única direção e se cruzam com o uso de cores (principalmente primárias) de maneira altamente controlada, sugerindo uma versão mais comprimida de Mondrian”, afirma o curador.

 

Já as cerca de 30 fotografias apresentadas no primeiro piso são parte da série  “Homenagem ao Retângulo,” em paráfrase ao quadrado homenageado por Joseph Albers. Todas são abstrações geométricas em preto e branco, criadas a da topiária das árvores do “Jardin des Plantes”, em Paris. As imagens de Feingold são caligráficas, conectando-as ao grupo de telas e a maneira do artista de lidar com a fotografia. Para Feingold, a fotografia é simplesmente outra ferramenta por meio da qual se pode descobrir a pintura. “Tanto na pintura quanto na fotografia, o trabalho de Feingold sempre foi caligráfico no sentido dos escritos (religiosos). Sua obra é uma busca persistente pela ordem sistêmica. É um tipo de escrita pictórica, uma condensação de palavras que invocam a sua consciência como pintor”, reflete Morgan.

 

 

Sobre o artista

 

Formou-se em Arquitetura na FAUSS, RJ 1983. Estudou: História da Arte e Filosofia com o crítico Ronaldo Brito, UFRJ 1988-1992; Teoria da Arte & Pintura e Núcleo de Aprofundamento, EAV Parque Lage, RJ 1988-1991; Mestrado no Pratt Institute, NY 1993. Principais exposições individuais: Galeria Mercedes Viegas, RJ 1997; “Espaço Empenado,” Paço Imperial, RJ 2001; “Amigos da Gravura,” Fundação Castro Maia, RJ 2001; Galeria Candido Portinari, UERJ, RJ 2002; “Pintura,” Centro Universitário Maria Antonia, SP 2003; Galeria Marília Razuk, SP 1996, 1999; Galeria Raquel Arnaud, SP 1996, 1999, 2002, 2006, 2014; Atelier Sidnei Tendler, Bruxelas 2011; “Acaso Controlado,” MAM RIO, RJ 2013; “Pintura em Fluxo,” Múltiplo Espaço Arte, RJ 2013.  Principais exposições coletivas: CCSP, SP 1991; “Gravidade e Aparência,” MNBA, RJ 1993; “Coleção Chateaubriand, O Moderno e Contemporâneo na Arte Brasileira,” MASP, SP 1998; “Crossing Lines,” Art in General, NY 1998; “Artists in the Marketplace,” Bronx Museum, NY 1998; “O Beijo,” Paço Imperial, RJ 1998; “Gestural Drawings,” Neuhoff Gallery, NY 2000; 5ª Bienal do Mercosul, RS 2005; “Chroma,” MAM RIO, RJ 2005; “Itaú Contemporâneo Arte no Brasil 1981-2006,” SP 2007; “Minus Space at PS1 Contemporary Art Center,” NY 2008; “Escape From NY,” Minus Space curatorial, Sidney/Aus 2007, Melbourne/Aus 2009, Wellington/NZ 2010; “The Machine Eats,” Frederico Sève Gallery, NY 2010; “Arte Brasileira e Depois na Coleção Itaú,” Paço Imperial, RJ 2011; “Cinéticos e Construtivos,” Galeria Carbono, SP 2013. A Galeria Raquel Arnaud representa Feingold desde 1993.

 

 

 De 30 de janeiro a 08 de março.

LiliRoze na Lume

A Galeria Lume, Itaim Bibi, São Paulo, SP, abre a exposição “Acervo: LiliRoze”, da fotógrafa franco-suíça LiliRoze, com curadoria de Paulo Kassab Jr. Composta por 10 obras da coleção pessoal do curador, são exibidas fotografias das séries “Eden”, “Colors” e “Vanité”, nas quais a artista expressa suas fantasias em ensaios que retratam o sentimento da mulher em harmonia com a vulnerabilidade e delicadeza das flores. A abertura da mostra contará também com uma performance de dança da bailarina Marina Droghetti.

 

Em “Eden”, verifica-se um ambiente de certa forma “frio”, no que se refere à temperatura de cor, onde LiliRoze fotografa o corpo de uma mulher nua, interagindo com plantas verdes, cena que remete ao título da série. Já na série “Colors”, distante da fotografia realista e no limiar da pintura, a fotógrafa revela a memória de uma sensação, dando a impressão de entrar na intimidade de seus modelos. Contornos imprecisos vistos como reminiscências de um sonho. Tudo se concentra em um segundo de abandono onde a graça e a intimidade se misturam em um gesto suspenso no tempo. Por sua vez, “Vanité” é um estudo sobre a natureza morta que exibe a fragilidade e o efêmero da existência.

 

Usando uma câmera de grande formato e filmes de Polaroid, o trabalho de LiliRoze é imbuído de intimidade, tendo como fonte de inspiração o desnudamento, a ideia da fragilidade e do abandono. Com pouca luz, filmes de baixa sensibilidade e longos períodos de exposição, sua obra se aproxima mais do imaginar do que da realidade, trazendo um leve desfoque e nuances que traduzem a imaginação da artista.

 

Paolo Roversi, Sarah Moon, Joel-Peter Witkins, Duane Michals são algumas das inspirações de LiliRoze para fazer suas imagens impressionistas, como ela mesma define. “Nunca expresso uma representação do real e sim algo próximo do imaginário, em que as cores e as formas contam uma história original”, afirma. Para Lili, a fotografia é uma realidade, porém uma realidade que provém das visões do fotógrafo. E as visões trazem consigo nossas fantasias, intimidades, loucuras, e outras pequenas coisas sem procedência.

 

 

De 30 de janeiro  a 20 de fevereiro.

Inos Corradin no Espaço Citi

15/jan

O Espaço Cultural Citi, Paulista, São Paulo, SP, inaugura exposição do pintor Inos Corradin. A curadoria é do crítico de arte Jacob Klintowitz que também assina a apresentação do artista. O artista exibe seu conhecido universo poético e geometrizado povoado de músicos, malabaristas, jogadores, paisagens que ganhou o sugestivo título “Inos Corradin. No percurso da arte, o artista na estrada”.

 

 

A palavra do curador

 

É espantoso como os fios que o pintor Inos Corradin urde criam personagens tão vivos, atuais e dotados do encantamento lírico que quinhentos anos de história agregaram ao nosso psiquismo. Os seus mágicos, equilibristas, músicos, cantores, mímicos, artistas itinerantes sem pouso e que percorrem estradas apenas pressentidas, são quase os mesmos que no século XV andavam pelo interior da Itália e que criaram a lendária Commedia d’ella Arte. Hoje estes artistas ambulantes e a sua arte impregnada de improviso são o emblema da cultura antiacadêmica e o antípoda do naturalismo. O mundo contemporâneo ama e anseia por esta ação artística filha do eterno presente.

 

O nosso espaço é limitado, mas como não recordarmos da “Família de saltimbancos”, de Pablo Picasso, feita em 1905? Ou do casal de artistas ambulantes, na sua carroça, no “Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, no seu confronto com a morte e a fugacidade da vida, onde o símbolo da continuidade é o jovem casal itinerante e o seu bebê? Neste contexto, talvez seja pecado não citar “La Strada”, de Federico Fellini, de 1954, centrado num artista circense e na mais doce e evanescente musa inventada pela arte, Gelsomina- Giulietta Masina. Ou o mito americano do horizonte libertário, núcleo do épico no cinema do faroeste e raiz da literatura on the road. Esses e centenas de outros artistas buscaram os fios no mesmo tear que alimentou Inos Corradin.

 

A produção de Inos Corradin, aos 85 anos, é esfuziante e certamente ele é um exemplar raro do artista que cria por prazer. O seu domínio do ofício é também raro, pois ele pinta à semelhança dos mestres. É curiosa uma época na qual temos que destacar como virtude o que parece a obrigação mínima de qualquer profissional. A iconografia do artista está centrada na figura humana travestida na sua função poética, o que explica a quantidade de trajes característicos, instrumentos musicais, cenas teatrais. A partir desta proposta essencial, o artista se detém nas vilas e casarios e nas paisagens e nelas, antes de tudo, temos o espaço aéreo, o céu, como personagem. De certa maneira, o conceito de elevação simbolizado pela ação artística, pelos artistas, pelos emblemas populares como as bandeiras, os pequenos núcleos de moradia, a paisagem dominada pelo céu, é o que determina a pintura e a escultura de Inos Corradin. Refinamento pela poética da ação artística e o espaço celeste marcante como ascenção.

 

É possível que Inos Corradin, como parte da melhor arte da nossa época, possa ser entendido como um momento anárquico de rejeição de padrões institucionais marmóreos e estáticos, mas é, antes de qualquer outra coisa, um gesto pessoal de fidelidade à arte como poética e a certeza de que a humanização do ser humano não pode prescindir da vivência estética.

 

 

De 20 de janeiro a 21 de março.

Na Caixa Cultural – SP

08/jan

A artista plástica paulistana Bel Falleiros, apresenta “Sobre ruínas, memórias e monumentos”, sua primeira individual, já em um dos grandes espaços expositivos da cidade, a CAIXA Cultural São Paulo, Praça da Sé, Centro, São Paulo, SP. Com curadoria de Paulo Miyada e texto crítico de Jacopo Crivelli Visconti, a exposição traz cerca de 20 colagens, 04 grandes pinturas, além de instalações, fotografias e objetos coletados durante a fase de concepção do projeto.
Arquiteta de formação, Bel Falleiros tem a relação com a cidade como um dos temas centrais em seu trabalho. E não apenas São Paulo, mas também Berlim e Nova Iorque, metrópoles onde morou recentemente, e a pequena Ituverava, cidade natal de seu pai no interior paulista, que faz parte de suas memórias afetivas. Ao ser selecionada pelo edital, a artista se propôs a realizar quatro percursos em direção às fronteiras da capital paulista, sempre partindo do antigo marco zero da Sé, e tendo os pontos cardeais como referencial de direção. Para Crivelli Visconti, ao realizar tal ação, a artista retoma o processo criativo iniciado pelo movimento dadaísta, em Paris, no início do século passado. Em suas palavras: “Ao colocar como metas utópicas das suas andanças os lugares, correspondentes aos quatro pontos cardeais, onde a cidade de São Paulo teoricamente acaba, ela situou-se, ao mesmo tempo, na periferia da metrópole e no cerne da linhagem das derivas artísticas… Sua viagem aos confins da cidade aconteceu paralelamente no âmbito físico e no imaginário, considerando que os elementos da realidade ao redor dela eram constantemente comparados com lembranças de Ituverava, onde nasceu seu pai e onde por primeira vez ela vivenciou a sensação de chegar até a extremidade de uma cidade. O deslocamento que qualquer deriva pressupõe, consequentemente, era duplicado aqui pelo fato da viagem acontecer simultaneamente na imaginação e na realidade”, conclui o crítico.

 

Para cada uma das quatro longas caminhas, a artista realizou uma pintura de grande proporção. As quatro obras são apresentadas em uma única sala. Segundo Paulo Miyada, “O surpreendente é que nelas não há espaço para o acúmulo de papéis, texturas e gestos, como outrora nas produções resultantes de leituras urbanas. Há um imenso vazio quase informe, um terreno indistinto e estranhamente desprovido de profundidade. Aqui e ali, dois ou três elementos povoam as paisagens… Estão presentes o primeiro Marco da Independência no Ipiranga, o Farol do Jaguaré, a Ponte Grande e a Serra da Cantareira. Mas eles ocupam um vazio atemporal e sem muitas referências, descolado do skyline paulistano. Mais ainda, convivem com alguns símbolos importados de outra paisagem mnemônica da artista, a cidade de Ituverava, no interior do Estado”. Crivelli Visconti esclarece que “Para além da força inegável dos painéis, é interessante notar que um projeto que foi concebido como uma deriva urbana, e de cunho efetivamente urbanístico, considerando o objetivo (vagamente utópico) de encontrar os limites de uma metrópole, transformou-se numa excursão no campo, rica de reminiscências pessoais”, enquanto Miyada conclui que “para nós, resta a tarefa de encontrar possíveis conexões entre monumentos e ruínas, enquanto nos perdemos no espaço sem tempo da claridade dos desenhos”.

 
Sobre a artista
Bel Falleiros, nasceu em São Paulo, 1983, vive e trabalha na capital paulista. Bacharel em Arquitetura pela FAU-USP, a artista é uma das fundadoras do Aurora, misto de atelier e espaço expositivo localizado no centro da cidade. Foi assistente dos artistas Héctor Zamora e Andrés Sandoval e desde 2012 participa ativamente do Atelier Fidalga. Já realizou uma série de colaborações como ilustradora para o caderno Ilustríssima, da Folha de São Paulo, além de ilustrar livros para diferentes editoras. Já participou das coletivas: Laço, no subsolo do Paço das Artes, São Paulo, 2012; 3 artistas, na Interaction Gallery, Berlim, 2011; Portfólio | Charivari, no SESC Santos, 2011 e Collective Exhibition, no Bushwick Project for the Arts, Nova Iorque, 2010. “Sobre ruínas, memórias e monumentos” é sua primeira exibição individual.

 

 

Atividades extras:

 

18 de janeiro: Conversa com Paulo Miyada e lançamento de catálogo, às 11h.
25 de janeiro: Oficina com Bel Falleiros, às 11h.

 

 

De 11 de janeiro a 16 de fevereiro.

 

 

Cildo, Restiffe e Warchavchic no Maria Antonia

20/dez

Funcionando regularmente desde 1999, o programa de exposições do Centro Universitário Maria Antonia da USP, Vila Buarque, São Paulo, SP,  orienta-se por um conceito abrangente de formação, tendo como diretriz geral reunir artistas de gerações diversas. Procura dar espaço às mais diferentes técnicas e poéticas, com especial atenção a propostas de reavaliação de artistas e movimentos atuais e do passado recente, além de mostras de design e arquitetura. No momento o Maria Antonia apresenta  três exposições com a assinatura dos curadores João Bandeira com a instalação “4/4” de Cildo Meireles;   José Tavares Correia de Lira com “Warchavchik – metrópole, arquitetura” e  Agnaldo Farias com “Interseção” de Mauro Restiffe.

 

 

A palavra dos curadores

 

Cildo Meireles – 4/4

 

Percebe-se um recinto por dentro. Não apenas a olho, não só porque nos rodeia. Por dentro também do nosso corpo. Sua existência se realiza na medida em que sentimos a nossa nele. Se for uma sala qualquer e que esteja, em princípio, vazia, não haverá muito mais a fazer. Sendo, no entanto, um espaço de exposições em que se espera encontrar arte, tudo pode mudar de figura. E se ali parece não haver de fato coisa alguma, é bem provável que nossa mente, na hora, relute.

 

Mas se ao nos movermos por esse espaço detectamos alterações meio estranhas, em nós mesmos como na sua arquitetura? Ainda que oco, o espaço agora é um lugar – revela qualidades mais específicas. Lugar inventado por Cildo Meireles, onde alguma coisa discretamente acontece, chama e recua. É difícil dar nome certo a isso que desde dentro, sem sair do aqui-agora, cede também no tempo (pouco a ver com o vácuo mítico de Yves Klein; quem sabe uma volta a mais no parafuso daqueles Cantos, do próprio Cildo), como um golpe por subtração, uma esquiva às palavras rodando na consciência.

 

Pouco vaza, em direção ao vértice de algum futuro, pelos quatro cantos dessa instalação, que se rebatem cruzados, costurando de modo inusitado piso e paredes, dentro e fora. E, paralelamente, não muito mais do que um sinal parece ser captado ali, vindo de mais longe, do mais básico que nos toca como instabilidade de todo abrigo. Num caso e no outro, tudo agora se adensa se lembrarmos que 4/4 está precisamente no mesmo local que desde a terceira década do séc. XX, guardada quase a mesma volumetria, foi parte de uma residência, de uma escola privada, de uma universidade pública, dependência de órgãos do Estado, incluindo escritórios de seu sistema prisional, no período da ditadura militar de 64, até ser devolvido à mesma universidade, expulsa dali naquele período. Que finalmente o destinou, passando por mais outros usos, a abrigar as exposições de artes do Centro Universitário Maria Antonia.

 

A Física moderna permite imaginar que a torções no espaço correspondem outras no tempo, variando vis-à-vis conforme a referência. Empregando livremente essa ideia, seria possível considerar, lado a lado, o projeto arquitetônico de restauro e reforma desenvolvido para essa instituição – que deixa à mostra partes antigas no que foi recém-construído e cria vazios (retirada de muros, extensão da calçada numa laje que, por sua vez, leva a uma praça aberta no miolo da quadra, ligando seus dois edifícios), no esforço de reavaliar na prática uma tradição de lugar público – e a instalação de Cildo Meireles, com sua intervenção radical no histórico do espaço expositivo, que mantém ainda em suspenso o desaparecimento da arte nos fluxos do mundo. (João Bandeira)

 

 

Gregori Warchavchik – Warchavchik – metrópole, arquitetura

 

Gregori Warchavchik transcende em muito a figuração genérica do pioneiro isolado que atravessou o século XX. Manifesta lugares chave da arquitetura entre os processos materiais da sociedade e os esquemas mentais associados às técnicas e programas modernos. Arte social, a mais material das artes, sempre produzida coletivamente e referida aos imperativos práticos, injunções da encomenda e do investimento e à recepção distraída das massas, a arquitetura em Warchavchik imbrica-se à experiência metropolitana.

 

Esta exposição pretende flagrar o arquiteto modernista na São Paulo de 1930 aos anos 1960, quando a cidade passa de um núcleo provinciano à metrópole nacional. Até então achatada e esparramada por colinas e várzeas da região, a cidade observou no período a canalização de rios e córregos, a proliferação de loteamentos, avenidas e arranha-céus, o aparecimento de novas formas de habitação, locomoção, espaços comuns, serviços e múltiplas dificuldades. Sob o influxo avassalador da urbanização, da especulação e da construção civil, os arquitetos transformariam tudo isso em matéria de projetos e planos. Conscientemente ou não, passaram a operar na produção da metrópole: de sua imaginação erudita à sua edificação e ecologia, esquadrinhando e modelando situações, reproduzindo divisões e conflitos reais e fomentando novos arranjos sociais.

 

Os projetos de Warchavchik aqui expostos remetem a posições relevantes quanto aos espaços de vida coletiva na metrópole em seus atributos fundamentais de eficiência e monumentalidade, complexidade e especialização, densidade e fluidez. Com eles, propõe-se repensar o papel representacional do desenho em transmutações de outra ordem que não exatamente sua tradução construtiva. Mas como forma de olhar oblíquo para o real, subterfúgio ativo em relação ao peso das soluções imediatas, investigação do mundo edificado, resposta a convenções espaciais, presença crítica e mesmo visionária na cidade. Todos eles integram um acervo precioso, conservado pela biblioteca da FAU-USP, que ilustra um conjunto variado de especulações em torno das alegorias e materiais arquitetônicos. Exibidos em meio a imagens retiradas ao cinema, à imprensa e à publicidade da época visa justamente potencializar os nexos da arquitetura com as impressões da grande cidade. Submetendo suas formas projetuais e estruturas edificadas ao fluxo de fragmentos e detalhes instantâneos, espera-se fazer ressoar os artefatos arquitetônicos na atmosfera das aparências e na vida dos objetos tangíveis a que, sólidos e duradouros, sorrateiramente, e cotidianamente, se reúnem. (José Tavares Correia de Lira)

 

 

Mauro Restiffe – Interseção

 

Já em sua primeira individual, em 2000, Mauro Restiffe sinalizou que pensaria a relação entre arquitetura e fotografia sob ângulos imprevistos. Não que suas fotos tivessem a arquitetura como tema exclusivo. O assunto preponderante era o lugar da fotografia, a plasticidade com que se aproxima e se afasta do mundo. Isso e mais sua problematização como produto do olhar, do fotógrafo e do visitante que, diante de suas fotos, percebe-se percebendo.

 

Desde o princípio, Restiffe resolveu demonstrar que a arquitetura podia converter-se em fotografia, além de lhe servir como tema privilegiado. Como? Na mostra de 12 anos atrás, ele, em lugar de simplesmente pendurar as fotografias, abriu “três janelas” na longa parede situada à esquerda da entrada da sala expositiva, revelando o muro alto e branco que separava, da casa do vizinho, o lote da casa onde funcionava a galeria, o corredor estreito onde jaziam, até então ocultos, despojos das tralhas típicas de montagens de exposições, e finalmente a vista parcial do tronco de uma árvore emparedada. Fechadas com vidro, as aberturas, por efeito de sua transparência e reflexividade, embaralhavam as imagens de dentro e fora.

 

A obsessão pela arquitetura volta nessa mostra de agora sob a forma de imagens extraídas de dois edifícios, a Casa Serralves, o belo exemplar de Art Déco português construída no Porto, de autoria de Charles Siclis e José Marques da Silva, e o Edifício Cícero Prado, obra do introdutor da arquitetura moderna no nosso país, Gregori Warchavchik.

 

A disposição das imagens na sala confirma a importância que Restiffe confere à relação entre fotografia e arquitetura. Na parede principal, sem portas ou janelas, “Vertigem”, a sucessão de imagens com o mesmo formato, todas reverberando os ritmos escandidos da Casa Serralves. Nas outras três paredes, coerente com as perturbações das aberturas, o jogo com tamanhos e ângulos propiciado pelas linhas de fuga verticais do Cícero Prado.

 

Se a arquitetura, como a música, destrava-se no tempo dispendido caminhando-se em seu interior, Restiffe adverte-nos que ela também acontece quando se olha para cima e para baixo; quando se mira torto; quando se mergulha no infinito inventado pelos ocos das escadas; quando se alça ao sublime do teto intangível. Suas fotos convertem arquiteturas em imagens e, impregnadas por elas e pelo espaço em que estão expostas, flexibilizam-se, ficam de frente, de lado, de cabeça para baixo; seus tamanhos expandem-se e contraem-se, com as maiores imantando à distância, com as menores trazendo para perto, convidando a escrutinizar seus detalhes. (Agnaldo Farias)

 

 

Até 23 de fevereiro de 2014.

Luzia Simons na Pinacoteca

18/dez

A Pinacoteca do Estado de São Paulo, Estação Luz, São Paulo, SP, apresenta a exposição “Segmentos”,  individual de Luzia Simons. Realizada especialmente para o” Projeto Octógono Arte Contemporânea”, a instalação é composta de quatro obras, quatro ampliações fotográficas moduladas, recortadas em 12 partes que são posicionadas no espaço com suas costas voltadas para cada uma das entradas. Incomuns em seu efeito claro-escuro, de concepção barroca, os scannogramas de Luzia Simons têm uma sonoridade trazida do silêncio para o rumor barulhento da metrópole, voltando depois ao silêncio.

 

Segundo Luzia Simons, a instalação faz uma alusão aos jardins fechados, tradicionalmente encerrados com tramas metálicas ou cercas de madeira. Alude, ainda, ao próprio Jardim do Éden. Este ambiente, no entanto, não se propõe acolhedor, mas sacramental como os ostensivos jardins ou mesmo os museus. A tulipa é o motivo central da série “Stockage”. Suas inúmeras espécies e criações deixam claro para Luzia Simons o que ela chama de “tingimento” e “transferência de cor” ou seja, o processo de adaptação e transformação. As flores brilham em meio a um escuro difuso, o que pode ser entendido como uma releitura das naturezas-mortas holandesas, mas que também trata do aspecto da fugacidade. Afinal, a tulipa tornou-se um dos motivos centrais da vanitas após o colapso do mercado holandês em fevereiro de 1637. Com isso, a artista construiu uma ponte – do século XVII até os tempos atuais, com os aspectos típicos da nossa época, como globalização, nomadismo cultural e marcas multiculturais. A quantidade de referências metafóricas que explicitamente se debruçam sobre temas atuais de nossa sociedade transformou o conteúdo aparentemente „adorável” da peça floral em uma mídia discursiva surpreendente.  Com fotografias, filmes, performances e instalações a artista, residente em Berlim, vem desenvolvendo um corpo de trabalho, desde os anos 1990, em torno de questões como identidade, memória e globalização. Ela desenvolveu sua linguagem no captar e registrar imagens, que denominou “scannograma”. Feito para a digitalização de documentos, o scanner não possui lente nem foco. ao contrário das imagens produzidas, correntemente, com lentes fotográficas. Nesta técnica os objetos são colocados diretamente sobre um scanner, que capta, minuciosamente por um sistema de linhas e pontos, todos seus detalhes formais e variações cromáticas. Os scannogramas reproduzem uma luminosidade dramática e quando ampliados em grande escala ganham teatralidade.

 

 

 

Sobre a artista

 

Luzia Simons nasceu em 1953, em Quixadá, CE. Vive e trabalha em Berlim e já participou de importantes exposições internacionais como:  Flowers and Mushrooms, Museum der Moderne, Salzburg, Áustria, 2013;  Personificação de Identidades, Bienal de Curitiba, Casa Andrade Muricy, 2013; Wenn Wünsche wahr werden, Kunsthalle Emden, Emden, Alemanha, 2013;  Lost Paradise, Mönchehaus Museum Goslar, Goslar, Alemanha, 2012;  Flowers in photography , Tokyo Art Museum, Tóquio, Japão, 2012; Time, death and beauty, FotoKunst Stadtforum, Innsbruck, Áustria, 2011; Wild Things, Kunsthallen Brandts, Odense, Dinamarca,  2010; Nature forte, Kunstverein Wilhelmshöhe, Ettlingen, Alemanha, 2009; e Garden Eden – A representação do jardim na arte desde 1890, Kunsthalle Emden, Emden, Alemanha, 2007. Suas exposições individuais incluem: Jardins Alheios, Kunstverein Bamberg, Bamberg, Alemanha, 2012; Stockage, Centre d’Art de Nature, Château Chaumont-Sur-Loire, França, 2009; Stockage, Künstlerhaus Bethanien, Berlim, Alemanha 2006; Stockage, Städtische Galerie Ostfildern, Alemanha 2005; Face migration: sichtvermerke, Württembergischer Kunstverein Stuttgart, Alemanha 2002 e Transit, SESC Paulista São Paulo, Brasil 2001. Possui trabalhos em coleções públicas como as de Graphisch Sammlung der Staatsgalerie, Stuttgart, Alemanha; Fonds National d’Art Contemporain, Paris, França; Casa de las Américas, Havana, Cuba; University of Colchester, Collection of Latin American Art, Essex, Inglaterra; Museu de Arte de São Paulo Coleção Pirelli, São Paulo, Brasil: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, entre outros.

 

 

Até 02 de março de 2014.