Reinterpretando elementos culturais pré-coloniais.

20/maio

A Nara Roesler São Paulo convida para o dia 26 de maio para a abertura da exposição “Antes da forma, o encanto”, de Mônica Ventura, a primeira individual da artista na galeria, com mais de trinta obras inéditas, produzidas este ano, entre instalações, esculturas, pinturas e um vídeo, que dão continuidade à sua pesquisa desenvolvida nos últimos dez anos, em que resgata e reinterpreta elementos culturais pré-coloniais como a arquitetura e as técnicas de trabalhos manuais dos povos afro-ameríndios. 

A curadora Catarina Duncan, no texto que acompanha a exposição, destaca que “a palavra fetiche chega ao vocabulário da arte marcada por uma violência histórica”. “Sua raiz remonta ao latim facticius, aquilo que é fabricado, artificial, feito pela mão humana. No português, o termo deriva para a palavra feitiço, utilizada no contexto colonial para nomear objetos venerados pelas populações da Costa do Ouro na África investidos de poder espiritual e tratados pelo olhar europeu como superstição, exotismo e desrazão”. Catarina Duncan aponta que a exposição “propõe um deslocamento do fetiche colonial para a obra ritual – não como relíquia etnográfica, mas como presença ativa”.

“A exposição pensa identidades como rede em movimento contínuo, tornando o espaço expositivo em um laboratório, abrigo e altar. Da alquimia e da espagíria à construção de altares; dos modos de erguer paredes de terra às geometrias devocionais; das oferendas votivas às arquiteturas simbólicas que atravessam o hinduísmo e o Candomblé. Essências, circulação, retornos: tudo gira como roda. Nesse circuito, acessamos princípios dinâmicos como passagens, trocas e recomeços”, afirma a curadora.

Até 1º de agosto. 

Reverência ao legado de Emanoel Araujo.

A exposição “Um Xirê Para Emanoel”, do artista Alberto Pitta, com curadoria de Vera Nunes, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, Parque do Ibirapuera, São Paulo, SP, será inaugurada no dia 22 de maio, às 18h30. A mostra reúne obras de Alberto Pitta em diálogo com trabalhos de Emanoel Araujo e Mãe Detinha de Xangô, propondo um percurso atravessado por ancestralidade, memória e permanência da arte negra brasileira.

Integrando a programação do Festival Akwaba, realizado pela Fundação Palmares, a mostra, com apoio da galeria Nara Roesler,  transforma o espaço expositivo em uma grande roda de encontro e reverência ao legado de Emanoel Araujo. Mais do que uma homenagem, a exposição propõe uma experiência construída a partir da circulação de memórias, da ancestralidade afro-brasileira e da celebração da permanência da arte negra como força de criação, continuidade e transformação.

A ideia da mostra surgiu durante encontros entre o artista, equipes do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, Fundação Palmares e Galeria Nara Roesler, realizados no contexto de preparação do festival. Ao longo das conversas, nasceu o desejo de criar uma primeira exposição dedicada ao conjunto da produção de Alberto Pitta em diálogo com obras de Emanoel Araujo.

Sobre o artista.

Alberto Pitta é artista visual, designer e cenógrafo baiano, reconhecido por sua produção ligada à cultura afro-brasileira e às tradições do Carnaval de Salvador. Sua trajetória é marcada pelo uso de signos africanos, tecidos, estampas e referências aos orixás, articulando arte, ancestralidade e identidade negra em diferentes linguagens visuais. É fundador do tradicional Cortejo Afro, grupo criado em 1998 e conhecido pela valorização da estética e da cultura negra no carnaval baiano. Ao longo da carreira, participou de exposições, projetos culturais e ações voltadas à preservação e difusão das matrizes africanas na arte contemporânea brasileira.

Conexão entre corpo, natureza e espiritualidade.

18/maio

 

A Gomide&Co, Bela Vista, São Paulo, SP, apresenta “Sandra Vásquez de la Horra: todo lo que vibra”, primeira exposição individual da artista no Brasil, reunindo um conjunto de desenhos produzidos nos últimos cinco anos. A abertura acontece no dia 28 de maio (quinta-feira), às 18h, e a exposição segue em cartaz na galeria até 18 de julho. A curadoria é assinada pela crítica de arte e curadora independente Fernanda Morse.

Sobre a artista.

Nascida em Viña del Mar, no Chile, em 1967, e radicada em Berlim há mais de 15 anos, Sandra Vásquez de la Horra desenvolve uma prática singular centrada no desenho, meio que, em seu trabalho, ultrapassa a bidimensionalidade para assumir um caráter ao mesmo tempo escultórico e instalativo. Desde o final da década de 1990, a artista finaliza suas obras com um mergulho em cera, procedimento que confere maior plasticidade e materialidade aos trabalhos, intensificando a presença da linha, da cor e criando efeitos de profundidade e translucidez. Com uma trajetória internacional consolidada, Sandra Vásquez de la Horra contou recentemente com importantes exposições institucionais: Soy Energía, sua primeira retrospectiva institucional na Europa, apresentada na Haus der Kunst (Munique), em 2025; e The Awake Volcanoes, exposição panorâmica de carreira realizada no Denver Art Museum, em 2024, com curadoria do brasileiro Raphael Fonseca. A artista foi laureada com o prestigioso Prêmio Käthe Kollwitz, concedido pela Akademie der Künste, em 2023, e participou da 59ª Bienal de Veneza em 2022. Sandra Vásquez de la Horra é representada pela galeria Sprovieri, a quem a Gomide&Co agradece por apoiar a realização da exposição,.

Até 18 de julho. 

A geometria de Beatriz Milhazes na Pinacoteca

12/maio

Grande nome da arte brasileira, Beatriz Milhazes é conhecida por seu trabalho que alia rigor geométrico a uma atmosfera sempre festiva, fruto de sua paleta exuberante. Arte têxtil, chita, bordado, tecelagem tipicamente brasileira e grafismos indígenas são referências das quais ela se alimenta, transformando tudo isso em uma linguagem própria.

“Gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo” reúne pela primeira vez um conjunto de 27 gravuras produzidas entre 1996 e 2019, resultado da colaboração de Beatriz Milhazes com Jean-Paul Rusell, fundador da Durham Press – estúdio de edição de gravuras, livros de artista e obras únicas sediado na Pensilvânia, Estados Unidos. A Pinacoteca é o único museu do mundo que possui esse conjunto de trabalhos.

A exposição “Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo” estará em cartaz desde 16 maio de 2026 até 14 de março de 2027.

Grauben representada pela Galatea.

A Galatea anuncia a representação da artista Grauben do Monte Lima (Iguatu, 1889 – Rio de Janeiro, 1972) e seu legado. Ainda jovem, a pintora cearense mudou-se para o Rio de Janeiro no início do século XX para atuar como servidora pública dos Ministérios da Agricultura e da Fazenda e tornou-se a primeira mulher a trabalhar na redação da revista Fon-fon, como jornalista e tradutora de contos.

A pintura só entrou em sua vida aos 70 anos, depois de ser presenteada por uma sobrinha com tintas guache e cartolina. A partir disso, e principalmente depois de uma experiência formadora com Ivan Serpa, estima-se que a artista tenha produzido cerca de 3.000 obras até falecer aos 83 anos. As pinturas de pássaros, plantas, flores e borboletas, descritas pelo crítico Walmir Ayala como “neo-impressionismo, com paisagens imaginárias compostas em pequenas pinceladas, como pontos de luz”, rapidamente ganharam amplo reconhecimento.

Participou consecutivamente de três edições da Bienal Internacional de São Paulo na década de 1960, e realizou, em 1966, individual que reuniu 80 de suas pinturas no MAM Rio. Dentre exposições recentes da artista estão: Grauben do Monte Lima (Individual, Museu Inimá de Paula, 2025); Existências paralelas – acervo em (des)construção (Coletiva, Pinacoteca do Ceará, 2025); Cais (Coletiva, Galatea, 2024); Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte (Coletiva, CCBB São Paulo, 2002), entre outras. As pinturas de Grauben podem ser encontradas em acervos de museus nacionais e internacionais, tais como Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM Rio, Brasil; Museu Nacional de Belas Artes – MNBA, Rio de Janeiro, Brasil; Collection Cérès Franco, Montolieu, França.

Com essa representação, a galeria reafirma o compromisso de ampliar o alcance da obra de Grauben e preservar o seu legado.

Damián Ortega em museu de São Paulo.

11/maio

 

A mostra no MASP, apresenta mais de três décadas de trabalho do artista Damián Ortega (Cidade do México, 1967), um dos principais expoentes de sua geração. Transitando entre fotografia, vídeo, escultura e instalação, Damián Ortega convida o público a reexaminar materiais e objetos cotidianos para investigar narrativas sociais, econômicas e políticas. Em sua icônica prática escultórica, ele desmonta objetos, como carros, reorganizando suas partes e exibindo-as em novas configurações. O mesmo pensamento de rearranjo aparece em obras em que dispõe ferramentas, pedras ou tijolos em montagens suspensas. A reorganização desses objetos na forma de diagramas espaciais é frequentemente carregada de humor e comentários políticos e sociais. A exposição destaca obras importantes de sua trajetória e um conjunto de trabalhos que investigam aspectos da arquitetura brasileira. A mostra é organizada em parceria com o Museo de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA) e marca a primeira individual de Damián Ortega em um museu de São Paulo.

O artista conta que concebe a escultura como uma relação entre força, resistência, equilíbrio e gravidade, aproximando-se da engenharia de modo lúdico. “Ortega desenvolve uma linguagem escultórica irreverente a partir de objetos cotidianos. Em sua obra, a ideia de energia é ampla, referindo-se tanto a noções de trabalho quanto a processos físicos de transformação da matéria. Ele equaciona abordagens da sociedade e investigações sobre tempo e espaço, movendo-se entre escalas micro e macro, entre o átomo e o cosmos”, afirma Yudi Rafael.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP; Rodrigo Moura, curador independente, MALBA; e Yudi Rafael, curador assistente, MASP, com assistência de Isabela Ferreira Loures, assistente curatorial, MASP.

Até 13 de setembro.

A curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli.

08/maio

A Pinakotheke, prestigiosa instituição de arte fundada no Rio de Janeiro por Max Perlingeiro em 1979, reconhecida pela excelência de suas exposições e publicações, abre para o público sua nova sede em Higienópolis, São Paulo, SP, no dia 18 de maio, com a exposição “Surrealismos: arte para além da razão”, uma vasta visão sobre as diversas facetas desta vertente da arte iniciada na primeira década do século 20.

A mostra inaugural do novo espaço tem curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli, e reunirá aproximadamente 100 obras de 60 artistas – europeus, latino-americanos, norte-americanos e do Caribe. O novo espaço em Higienópolis é acompanhado também de uma reestruturação da Pinakotheke, e no novo organograma, Max Perlingeiro é o diretor-geral, e seus filhos assumem a diretoria-executiva de cada espaço – Max Morales Perlingeiro, em São Paulo; Mariana Perlingeiro Mattos, no Rio de Janeiro; e Victor Perlingeiro, em Fortaleza – e Camila Perlingeiro, que já é a responsável pelas edições dos livros de arte, passa a responder como diretora criativa. Ivan Perlingeiro, irmão de Max, será o diretor de operações. O novo endereço passou por obras de adequação e modernização, a cargo do escritório Luciano Dalla Marta Arquitetura.

Na entrada, o público será recebido por vídeos das artistas contemporâneas Letícia Parente, Lenora de Barros, Kátia Maciel e Lia Chaia. No primeiro andar estarão trechos dos filmes clássicos “Le Sang d’un poète” de Jean Cocteau e “Un chien andalou”, de Luis Buñuel e Salvador Dalí. No segundo andar, ficarão os núcleos do Surrealismo europeu, do norte-americano e caribenho. Na área central, a sala especial de Louise Bourgeois; e em destaque as obras de Magritte – “La magie noire”, e “La fin du monde”; a escultura “Mujer de pie”, de Picasso; a escultura “Femme debout”, de Giacometti; a pintura “O enigma de um dia”, de Giorgio de Chirico, pertencente ao MAC USP; “Configuration”, de Hans (Jean) Arp; e “St. Tropez”, de Picabia; a grande xilogravura “Metamorphose”, de M.C. Escher, com quatro metros de comprimento. Na última sala, outro trabalho de Escher – “Bond of Union”; dois óleos sobre tela de Ferdinand Desnos: “Le lapin blanc” e “Sem título”; obras de Salvador Dalí: a escultura em bronze “Vénus spatiale”, três trabalhos da série “La suite catalane”: “L’etoile de mer”, “Les fleches” e “Les pigeons”- e “The Persistence of Memory II”, em lã e colagem; e “Sem título”, de Victor Brauner.

Publicação ilustrada.

Ao longo da exposição, será lançado pela Pinakotheke Editora um livro bilíngue sobre o tema “Surrealismos: arte para além da razão”. Fartamente ilustrada, a publicação terá textos de Max Perlingeiro, Tadeu Chiarelli, Dawn Adès, João Frayze-Pereira e Thiago Gil Virava.

De 18 de maio até 15 de agosto. 

Jardim do Éden de Joana Vasconcelos.

07/maio

Pela primeira vez o Brasil recebe no Farol Santander, Centro, São Paulo, SP, uma das obras mais emblemáticas de Joana Vasconcelos: “Jardim do Éden”. Uma instalação imersiva que convida o público a caminhar por um labirinto que expõe a artificialidade da natureza através de uma inusitada experiência ótica.

Esse percurso transporta o espectador para um paraíso de sonhos e imaginação através dessa obra única que já passou por diversos continentes. “Jardim do Éden” é uma instalação que convida o espectador a caminhar. Através do fluxo luminoso e dos motores síncronos, as flores artificiais dispostas em forma de labirinto produzem um efeito cinético semelhante ao produzido pela fibra ótica. Ao mesmo tempo uma suave trilha sonora – que alude ao canto de dezenas de pequenos insetos – produzida pelo som mecânico das respetivas máquinas em funcionamento. 

O percurso neste paraíso onírico expõe a artificialidade da natureza através de uma inusitada experiência ótica, unicamente possível devido à exigência da sua apresentação num espaço interior privado de luz natural. Joana Vasconcelos concebe um surpreendente simulacro que reporta invariavelmente para o questionamento, a sabotagem e a apropriação de uma narrativa ancestral.

Até 21 de junho.

Burle Marx: plantas em movimento.

30/abr

O Museu Judaico de São Paulo, Bela Vista, apresenta até 02 de agosto a exposição “Burle Marx: plantas em movimento”.

A exibição apresenta um recorte introdutório da obra paisagística de Roberto Burle Marx e seus colaboradores, com foco no uso de algumas espécies vegetais. Burle Marx se notabilizou por criar um paisagismo tropical a partir das observações que fazia in loco, em expedições pelo Brasil e em viagens internacionais para o reconhecimento da vegetação de cada lugar, sempre acompanhado por um grupo de amigos botânicos, arquitetos, artistas e jardineiros, além da equipe de paisagistas de seu escritório. Assim, utilizou plantas nativas numa época em que a tradição era importar espécies vegetais de fora do país para desenhar áreas verdes segundo modelos tradicionais franceses e ingleses.

No entanto, Burle Marx nunca aplicou esses princípios de forma sectária, incorporando, em muitos de seus jardins, espécies exóticas tropicais que se adaptavam bem a determinados contextos locais. Nesse sentido, o artista-paisagista combinou a reversão dos estigmas de um país colonizado com a incorporação de elementos exógenos, numa atitude claramente cosmopolita, que pode ser associada à recusa de concepções fixas de identidade nacional. Assim, ao estabelecer uma associação entre plantas e seres humanos, ou entre natureza e sociedade, propomos, nesta exposição, a aproximação entre o legado estético e cultural de Burle Marx e certos princípios progressistas da judeidade, ligados à diáspora e à criação de identidades definidas pelo movimento constante.

Nesta mostra, transcendemos a apresentação meramente sequencial das composições paisagísticas de Burle Marx e sua equipe, e procuramos iluminar a relação entre certos projetos — públicos e privados — e a presença recorrente de determinadas espécies vegetais, reconstruindo um léxico básico com o qual o paisagista trabalhou, sempre de forma coletiva.
“A realização desta exposição neste espaço tem o propósito de ampliar a compreensão sobre o legado de Burle Marx, ao propor uma chave de leitura pouco revisitada em seu trabalho: sua herança judaica. A convite do MUJ, o pesquisador e artista Daniel Jablonski investiga como essa relação, transmitida pela via paterna, se inscreve em uma dimensão pouco visível — mas que atravessa sua maneira de estar no mundo. Uma perspectiva que dialoga com o entendimento do museu, que compreende a experiência judaica como parte de uma história mais ampla de migrações, travessias e múltiplas formas de continuidade.”

Marilia Neustein – Diretora-Executiva do Museu Judaico de São Paulo.

“Ao longo de sete décadas, Roberto Burle Marx e seus colaboradores constituíram um acervo paisagístico com mais de 150 mil itens, reunindo projetos urbanísticos, estudos, croquis, desenhos, fotografias, documentos, publicações, peças de arte e outros materiais. Fundado 2019 como uma organização da sociedade civil, o BMI é é fruto do compromisso inicial dos atuais sócios do Escritório Burle Marx em preservar, difundir e ressignificar o legado de conceitos e realizações que esse arquivo histórico congrega.”
Isabela Ono – Diretora-Executiva do Instituto Burle Marx.

Alice Yura na Pinacoteca de São Paulo.

28/abr

A Pinacoteca de São Paulo apresenta a exposição “Alice Yura: um ato fotográfico”, na Galeria Praça do edifício Pina Contemporânea, São Paulo, SP. Com curadoria de Thierry Freitas, a mostra reúne ensaios visuais recentes em diálogo com um robusto conjunto documental e material herdado da família da artista.

Vencedora do Prêmio FOCO ArtRio de 2022, Alice Yura (1990) nasceu em uma família de imigrantes japoneses que se estabeleceu no Brasil na década de 1950, e foi criada em um ambiente marcado pela produção de imagens. Seu avô, seu pai e seus tios atuaram como fotógrafos em sua cidade natal, no interior do Mato Grosso do Sul, experiência que atravessa e fundamenta sua prática artística. A artista aproxima a imagem dos campos da performance e da teatralidade, desdobrando sua pesquisa em torno da memória e da autobiografia.

Estruturada em três núcleos, a exposição articula diferentes tempos e regimes da imagem. No primeiro, são apresentados materiais provenientes do Foto Yura, estúdio fotográfico da família que, ao longo da segunda metade do século XX, constituiu-se como espaço central de sociabilidade em Aparecida do Taboado, no Rio Grande do Sul. Fotografias, objetos e documentos evidenciam tanto a trajetória da família quanto as transformações da fotografia, do analógico ao digital.

O segundo núcleo reúne o ensaio Foto Yura (2022), no qual a artista investiga suas heranças familiares ao mesmo tempo em que tensiona papéis sociais. Ao se colocar como modelo de seu pai, com o retrato do avô ao fundo, Alice Yura reencena uma linhagem marcada por um ofício historicamente masculino, deslocando as posições de autoria e representação. A exposição recria o cenário dessas imagens, convidando o público a ocupar esse espaço.

No terceiro núcleo, a artista se apropria de arquétipos da história da arte e de figuras da Antiguidade para reencená-los a partir de seu próprio corpo. Ao mobilizar essas imagens, Alice Yura propõe novas possibilidades de identificação e permanência, afirmando a produção de imagens por corpos transexuais como forma de construir lastro simbólico para além das convenções de gênero. A série Restos de Carnaval integra esse conjunto, assim como uma obra inédita na qual a artista se apresenta como Cupido, tensionando iconografias clássicas a partir de uma corporalidade dissidente. Ao tomar a biografia como eixo, a exposição propõe um deslocamento entre documento, memória e ficção, reafirmando a imagem como espaço de presença, encenação e fabulação.