Uma conversa entre artistas e crítico.

05/fev

A Galatea, São Paulo, SP,  convida para uma conversa especial em torno da mostra “Guilherme Gallé: entre a pintura e a pintura”, reunindo o artista Guilherme Gallé, o pintor Paulo Pasta e o crítico de arte Tadeu Chiarelli, autor do texto crítico da exposição. O encontro acontecerá neste sábado, dia 07 de fevereiro, às 11h, na unidade da Galatea na Padre João Manuel.

Situadas no limiar entre abstração e sugestão figurativa, as obras de Guilherme Gallé apresentam uma geometria recorrente que não se impõe como ordem fixa, mas como um sistema instável que articula cheios e vazios, proximidades e distâncias. “No caso, são pequenas saliências ou reentrâncias espalhadas pelo plano que levam o espectador a voltar-se para uma visualização háptica, que supere aquelas espécies de pequenas barreiras interpostas pelo artista”, escreve Tadeu Chiarelli.

O Abre Alas.

04/fev

A Gentil Carioca convida para a abertura da 21ª edição do Abre Alas, evento que abre o calendário anual, apresentando novos nomes da arte contemporânea.

Nas galerias, estarão em exibição obras de 14 artistas selecionados pelos curadores Felipe Molitor, Lena Solano Guedes e Ramon Martins: Ana Luiza Domicent, Ana V. Lopes, David Caicedo Alzate, Felipe Braga, Jean Deffense, Leticia Morgan, Lucas Emanuel, Lucas Speranza, Oriana Pérez, Sheila Kracochansky, Telma Gadelha, Thatiane Mendes, Vicente Baltar e Yara Ligiéro.

Rio de Janeiro – Sábado, 07 de fevereiro 18h – 1h30

No sábado, 07 de fevereiro, a unidade do Rio de Janeiro recebe as obras selecionadas para a exposição. Nas ruas, performances artísticas e muita música, celebram o dia com show do bloco da Orquestra Voadora, e sets dos DJs Glau e Matteo, além do clássico concurso de fantasias que marca também o início do Carnaval carioca.

Programação

18h – Abertura | 19h30h – Performance David Caicedo Alzate | 20h30 – Bloco da Orquestra Voadora | 21h30 – Concurso Melhor Fantasia | 23h – Encerramento exposição | 22h30 – 00h30 – DJ Matteo | 00h30 – 1h30 – DJ Glau

 

São Paulo – Quarta-Feira, 11 de fevereiro 17h – 21h

Na quarta-feira, 11 de fevereiro, A Gentil Carioca abre as portas do espaço em Higienópolis levando a magia carioca para a Travessa Dona Paula. A noite contará com performance do artista David Caicedo Alzate e set com a DJ Thais Queirós.

Programação

17h – abertura | 18h30 – Performance David Caicedo Alzate | 19h – DJ Thaís Queiroz | 20h30 – Performance David Caicedo Alzate | 21h – Encerramento.

Múltiplas atividades no retorno.

O artista Alex Flemming realiza encontro no Museu de Arte Contemporânea de Campinas, São Paulo, SP, no qual explanará sobre sua trajetória. A fotografia, como meio em si ou como propiciadora de acesso a outras mídias, é usada por Alex Flemming desde o início de sua carreira. O uso de caracteres gráficos sobre fotografias de pessoas também está presente em um dos seus mais destacados trabalhos: os painéis da Estação Sumaré do Metrô de São Paulo. Compostos por fotos de pessoas comuns, a cada uma delas foi atribuído um poema, escrito em letras meio borradas, com alguns trechos invertidos ou ausentes, o que não impossibilita totalmente a compreensão do texto. São particularmente interessantes as gravuras executadas nos anos 1970, de forte conteúdo político, reproduzidas em livro editado pela Editora da Universidade de São Paulo. Alex Flemming estabelecu residência em Berlin durante um período que completou três décadas e agora de volta ao Brasil segue o curso de sua carreira multimídia. Um artista viajante já realizou centenas exposições individuais no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

Uma seleta em pequenos formatos.

03/fev

Um um formato exclusivamente digital, a Almeida & Dale, São Paulo, SP, apresenta uma curadoria de obras de seu acervo. A seleção inaugural destaca pequenos formatos na obra de artistas em evidência no circuito contemporâneo e de figuras emblemáticas da arte do século XX.  

Esculturas em prata e resina, aço corten, caixas de fósforo, cerâmica e bronze de Tunga, Amilcar de Castro, Lygia Clark, Lidia Lisbôa e Efrain Almeida, respectivamente, dialogam com óleos de Lorenzato, Paulo Pasta, Alex Červený, Louise Bourgeois, Miriam Inez da Silva, David Almeida, Rodrigo Andrade, e acrílicas de Rubem Valentim e Jaider Esbell. Somam ainda o conjunto obras de Hélio Melo, Leonilson, Sara Ramo, Eleonore Koch, Adriana Varejão, Tarsila do Amaral e de Henrique Oliveira.

Dinâmicas da economia da arte.

02/fev

Curso no MAM, São Paulo, SP, com Thierry Chemalle. O curso oferece uma abordagem conceitual sobre as dinâmicas econômicas que permeiam o universo artístico, explorando o valor da arte, o comportamento dos colecionadores e o impacto das inovações tecnológicas. Em cinco aulas, os participantes serão introduzidos aos fundamentos da economia da arte, discutindo teorias clássicas de valor, relatos de coleções reais, as implicações de novas tecnologias, e o papel das ciências comportamentais na compreensão do mercado. Voltado para artistas, galeristas, art advisors e profissionais ligados a museus e instituições culturais, bem como profissionais de segmentos correlatos que queiram aprofundar seus conhecimentos sobre a economia da arte, o curso busca ampliar a compreensão sobre o segmento da arte e seus principais agentes, conectando aspectos econômicos e culturais.

Curso online

Ao vivo, via plataforma de videoconferência, aulas gravadas disponibilizadas apenas por tempo determinado. Contempla certificado no final.

19, 26 de fevereiro, 05, 12, 19 de março  – 19h às 21h30

Duração: 5 encontros

Investimento: R$ 500,00 + taxas

Programação

Aula 1: Introdução à Economia da Arte

Introdução, conceitos fundamentais e principais números da Economia da Arte; Similaridades da Economia da Arte com outros segmentos.

Aula 2: O Valor da Arte

Adam Smith: O paradoxo da Água e Diamante; Uma breve história da precificação.

Aula 3: Colecionismo

Coleções reais; Uma abordagem ESG do colecionismo.

Aula 4: Arte e Tecnologia

Breve relato sobre a história da Tecnologia na Arte; Novas tecnologias e a Economia da Arte.

Aula 5: Arte e Ciência Comportamental

Breve história sobre o encontro da economia com as ciências comportamentais.

Ampliando a relação com o público.

O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, inicia projeto de renovação da exposição de longa duração. A renovação marca um novo momento da instituição ao atualizar as formas de apresentar o acervo e ampliar a relação com o público. A renovação da exposição dialoga com a visão de Emanoel Araujo, artista e fundador do Museu.

Em desenvolvimento desde abril de 2024, o projeto vai além da atualização do espaço expositivo. A proposta é renovar o acervo, incorporando obras que ainda não estavam em exposição e oferecendo novos contextos curatoriais a peças já conhecidas. 

Uma das ações centrais é o ARTBook Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, primeira publicação dedicada exclusivamente ao acervo da instituição. O livro reúne cerca de 200 obras do acervo, incluindo produções de Emanoel Araujo e de artistas históricos do Museu. Entre eles estão Madalena Santos Reinbolt, Maria Lídia Magliani, Agnaldo Manuel dos Santos, Aurelino dos Santos e Maria Auxiliadora da Silva, trajetórias fundamentais para a consolidação da identidade do acervo e que hoje integram algumas das mais importantes coleções públicas de arte afro-brasileira no país. A publicação tem versões impressa e digital e possui 380 páginas. O episódio inaugural da audiossérie “Arquivos Vivos” é dedicado a Emanoel Araujo, artista e fundador do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo. 

Arte contemporânea e artistas indígenas.

29/jan

Trama: Lygia Pape & Porangatu.

A Gomide&Co, São Paulo, SP, em parceria com a coleção Porangatu, apresentar “Trama”, uma exposição que propõe um diálogo inédito entre bancos de madeira produzidos por etnias indígenas em sua maioria do Alto Xingu e obras da série Tecelares (1953-1960), de Lygia Pape. A apresentação tem texto crítico de Camila Bechelany e expografia do escritório de arquitetura Acayaba + Rosenberg Arquitetos. A abertura acontece no dia 10 de fevereiro e a exposição segue em cartaz até 13 de março.

“Trama” reúne mais de dez bancos de madeira produzidos por etnias diversas da Amazônia brasileira, como Assurini, Karajá, Mehinako, entre outras localizadas no Alto Xingu e arredores. Os exemplares são provenientes da coleção Porangatu, criada por Maria Feitosa Martins. “Minha família coleciona arte indígena há mais de 20 anos, motivada pelo interesse em explorar paralelos e conexões entre a arte moderna e contemporânea e a rica produção de artistas indígenas”, comenta Maria Feitosa Martins, que desenvolveu a Porangatu entre 2022 e 23 na intenção de aprofundar esse eixo da coleção da família.

Os bancos de madeira apresentados na exposição evidenciam a sofisticação técnica e simbólica dessa produção ancestral, resultado de práticas transmitidas entre diferentes povos originários da Amazônia e de seu entorno. Geralmente esculpidos a partir de um único tronco e muitas vezes concebidos na forma de animais, entidades espirituais ou estruturas geométricas, eles incorporam grafismos realizados por entalhe, pirografia ou pigmentos naturais – registros que expressam histórias, cosmologias e conhecimentos transmitidos ao longo de gerações.

No cotidiano dessas comunidades, os bancos atuam simultaneamente como objetos de uso e como marcadores sociais e rituais, indicando posições de liderança ou servindo de suporte para práticas xamânicas. Inseridos hoje no campo ampliado da arte e do design, esses assentos tornam visível o protagonismo indígena e reafirmam a relevância de seus repertórios estéticos na formação da cultura brasileira, convocando o público a reimaginar – e reflorestar – o próprio imaginário.

No contexto de aproximações proposto pela exposição, a série “Tecelares”, de Lygia Pape, surge como um eixo fundamental de diálogo. Realizadas em xilogravura, as obras da série partem da exploração da chamada “linha-corte”, em que a incisão na madeira – gesto físico, direto e irreversível – estrutura composições geométricas que tensionam rigor e sensibilidade, cálculo e matéria viva. Nos Tecelares, a geometria neoconcreta não se afirma como abstração pura, mas como resultado de um fazer que responde a veias, resistências e acidentes do suporte, instaurando uma noção de espaço construída pelo corpo e pela ação. É nesse ponto que se delineiam paralelos possíveis com os bancos indígenas: tanto nas gravuras de Lygia Pape quanto nesses objetos ancestrais, a madeira não é mero suporte, mas agente ativo de sentido; e o grafismo, longe de ser decorativo, constitui um sistema de conhecimento incorporado no gesto, na repetição e na transmissão. Assim, a exposição evidencia modos distintos, porém igualmente complexos, de compreender o mundo como trama, onde se entrelaçam forma, matéria e experiência.

“Trama” destaca-se ainda por estabelecer conexões entre três eixos recorrentes no programa curatorial da Gomide&Co: a investigação de objetos de mobiliário a partir de uma perspectiva conceitual e estética; a valorização de repertórios culturais e visuais de povos originários; e a proposição de novas leituras sobre a obra de nomes centrais da arte moderna e contemporânea brasileira, em especial vinculados aos movimentos Concreto e Neoconcreto. Como observa Bechelany, “…o exercício de aproximação dos Tecelares (1953-1960) com os bancos indígenas da coleção Porangatu não busca síntese ou harmonização entre objetos de universos culturais tão distintos, mas sim uma fricção produtiva entre geometria e gesto, entre modernidade e ancestralidade, entre obra e corpo”, reafirmando o caráter crítico e relacional que estrutura a exposição.

Equilíbrio entre o traço, a cor e o vazio.

A Simões de Assis, São Paulo, Curitiba e Balneário Camboriú, anuncia a representação de Marcia de Moraes (São Carlos, Brasil, 1981). A artista desenvolve uma pesquisa centrada na linguagem do desenho, suas composições podem, à primeira vista, parecer abstratas, mas são construídas a partir de um léxico visual acumulado ao longo dos últimos vinte anos de pesquisa. Este vocabulário de formas tem origem figurativa, mas chegam ao papel liquefeitas e flácidas, afastando-se de qualquer reconhecimento imediato. 

A construção do desenho se dá a partir de uma conversa entre artista e trabalho, chegando a um entendimento mútuo das necessidades da composição e atingindo um equilíbrio entre o traço, a cor e o vazio. Estes três elementos são constantemente tensionados ao longo do processo e se organizam em uma hierarquia em constante alternância. É a partir dessa oscilação que cada desenho ganha corpo: o traço e o vazio como espinha dorsal e ossos de sustentação, a cor como a carne que os envolve,  e o limite do papel como a pele – o ponto exato em que corpo e desenho se encerram.

Entre suas principais exposições individuais estão “Ponto de Osso”, Instituto Artium; “Matriz”, Galeria Leme; “A Terceira”, CCBB São Paulo; “Elaine Arruda e Marcia de Moraes: Cheio de Vazio”, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo; “À Deriva no Azul, Carpe Diem Arte e Pesquisa”, Lisboa, e “Saint Clair Cemin / Marcia de Moraes: Correspondance Bresiliènne”, VL Contemporary, Paris.

Foi contemplada com diversos prêmios, entre os quais se destacam o Edital PROAC – Artes Visuais, o Pollock-Krasner Foundation Grant e o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea. Suas obras integram acervos importantes como a Coleção Swiss Re, São Paulo; Ministério das Relações Exteriores, Brasília e Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP).

Artistas de distintos gêneros e gerações.

A Galeria Nara Roesler São Paulo convida para a abertura, no dia 05 de fevereiro, às 18h, da exposição “Telúricos”, com curadoria de Ana Carolina Ralston, que selecionou trabalhos de dezesseis artistas – entre nomes consagrados internacionalmente – como Richard Long (um dos pioneiros da landart), Not Vital e Isaac Julien -, ou no circuito nacional, como Brígida Baltar (1959-2022) e Amelia Toledo (1926-2017), e artistas convidados, oriundos de várias partes do país. 

Ana Carolina Ralston destaca que “Telúricos” propõe a ativação de outros sentidos, além do olhar, e estão na mostra esculturas olfativas e também sonoras. Os artistas, de distintos gêneros, lugares, gerações e suportes são, além dos já mencionados: Alessandro Fracta, amorí, Ana Sant’anna, C. L. Salvaro, Denise Alves-Rodrigues, Felipe Góes, Felippe Moraes, Flávia Ventura, Karola Braga, Kuenan Mayu e Lia Chaia.

A exposição traz mais de 40 trabalhos, muitos deles inéditos, que, em vários suportes. A curadora menciona o pensador Bruno Latour (1947-2022), para quem “…a matéria terrestre não é um simples suporte, mas um agente de vontade, um núcleo de energia ativa que convoca metamorfoses e insurgências; uma força subterrânea que não é apenas cenário, mas protagonista”.

Na primeira sala, estará a escultura “Moon” (2017), em mármore branco, do suíço Not Vital, perto das três obras de Richard Long, seu amigo e um dos pioneiros da land art, criadas em 2024. Nas paredes, duas pinturas inéditas de Ana Sant’anna – “O instante que paira” e “Nut”, “…paisagens que misturam nosso imaginário e espaços telúricos”, ressalta a curadora. A videoinstalação “Enterrar é plantar”, de Brígida Baltar, com quatro telas, registra sua ação de “enterrar suas memórias”, e acompanha dois desenhos da artista. A instalação “Canto das ametistas”, de Amelia Toledo, com seus blocos de ametistas no chão, foi escolhida por sua ressonância mineral e espiritual, característica do trabalho da artista. Na parede frontal, a fotografia “Under Opaline Blue” de Isaac Julien.

Na passagem entre as salas, atravessando o percurso do público, estará a instalação “Antes de afundar, flutua”, feita por C. L. Salvaro, especialmente para o espaço da exposição, com planta, terra, entulho e tela de arame. Uma parte da obra ficará próxima ao chão, e outra suspensa, de modo a permitir a passagem dos visitantes por baixo dela. Ana Carolina Ralston assinala que a exposição se fundamenta em um conceito do filósofo Gaston Bachelard, em seu livro “A Terra e os Devaneios da Vontade”: “A imaginação telúrica cava sempre em profundidade; ela não se contenta em superfícies, precisa descer, pesar, resistir”.

Até 12 de março.

Ethan Cook uma memória partilhada.

22/jan

A Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP, apresenta a primeira exposição do artista americano Ethan Cook no Brasil. Em “Mundo Menor”, o espaço é habitado com uma série na qual o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura.

Ethan Cook nasceu em Tyler, EUA, 1983, trabalha a pintura em seu campo expandido, utilizando a tela tecida, o papel artesanal e o aço. As pinturas de Ethan Cook são compostas por painéis de tecido colorido que foram tecidos à mão num tear de quatro arneses, costurados e esticados em barras. O artista opera subvertendo a lógica de que para pintar é preciso aplicar pigmento sobre tela, de modo que, utiliza um tear para tecer grandes faixas de tecido colorido em suas superfícies. A performance da criação artística é ao mesmo tempo meditativa e intensamente rítmica. Suas obras integram importantes coleções como o Art Institute of Chicago, o Museum Voorlinden, o Jordan Schnitzer Museum of Art, a Fondation CAB e Juan Carlos Maldonado Art Collection. 

Texto de Mariane Beline.

A inserção do sujeito no mundo é por meio da percepção. A ela se atribui a capacidade de assimilar e ser no mundo, afinal, somos seres perceptivos. O artista não representa apenas o mundo, mas o projeta, nos faz ver outras possibilidades e torna visível a estrutura sensível do real. É pelo atravessamento plástico que podemos sugerir o exercício da atenção metafísica, que desvela a organização fenomênica para além dos aspectos familiares da experiência. A arte se revela como excedente do sentido, um campo privilegiado que opera na captura das nuances do sensível – a linha, o traço, a arranjo cromático, volumetria, profundidade e ritmo – todos elementos presentes no trabalho de Ethan Cook. 

Merleau-Ponty defende o sujeito como portador das capacidades que apreendem todas as configurações sensíveis mundanas e, por outro, define o ser do mundo como a totalidade dessas configurações. Na mostra “Mundo menor”, primeira individual de Ethan Cook no Brasil, nos deparamos com o encontro da fenomenologia de Merleau-Ponty ao homem vitruviano de Leonardo da Vinci, em que o corpo humano é um microcosmo, um reflexo em miniatura do universo, a vivência de um todo unificado, em suas ramificações profundas e conectadas, antecipando uma contrariedade ao pensamento cartesiano da separação. A poética de Cook é vitruviana, em que seu olhar perceptivo da técnica projeta uma exposição, unificada, da saída da linha do tear até finalmente a montagem no chassis, a cada linha e tecido entrelaçado se guarda o gesto do artista. Cook nos demonstra a espessura de um mundo sensível, o estar diante de uma obra de arte e o fundamento em sua prática. O espaço é habitado com uma série que o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura. Utiliza o tear de quatro arneses, um dispositivo manual que mantém os fios sob tensão, permitindo dessa forma que possam ser entrelaçados, enredados, forjando uma trama que se torna um tecido e se irradiam em blocos de cor. 

Opera no campo da pintura expandida, demonstrando plasticamente o elemento pictórico sem o uso do pincel, aplicando a pintura parte a parte, em uma estruturação do grid nada enrijecido, principalmente pelas escolhas na formatação das cores na verticalização dos tecidos colocados que partilham o espaço da tela de um modo ritmado. Não é necessário a utilização da tinta e pigmento sobre a tela para a concepção de uma pintura, a composição cromática nos trabalhos circula os azuláceos, ora mais marinhos e abissais, ora mais lavados e esmaecidos, em toda sua totalidade sobre o fundo de algodão claro. Projeta flutuações e sobreposições e cria massas de cores solidificadas que se tornam campos de cor filamentosos. Dentre os azuis vemos o olhar atrair-se diretamente para massas de cor que se destacam como os de cor avermelhada, esverdeados e rosáceos. O tear é uma tecnologia consolidada muito antes da revolução industrial, parte de conhecimentos tradicionais na tecelagem. No entanto, na perspectiva de Cook o dispositivo é contemporâneo e leva a abstração ao limite, desloca uma técnica milenar e atribui outros sentidos a estes processos, materiais e montagens. Contraria a lógica industrial da reprodutibilidade têxtil. Em sua poética a tecelagem é orientada pelo gestual. 

Há um amalgamento da ação em que o gestual se mescla, o esticamento da linha é também a tensão da mão de Cook, o conjunto de fios aguarda, a mão decide o encaminhamento e se hibridiza quem é artista e o que é matéria, em um cruzamento do micro e do macro. As várias partes dos tecidos coloridos são modeladas e costuradas, indicando formações geométricas e abstratas. Se apropria da ação do acaso, tanto matérico como conceitual, ao incorporar aspectos artesanais da tecelagem em formas emendadas e mosaicas. Há uma memória partilhada a partir da experiência incorporada da interconectividade entre os trabalhos. Se Penélope, na epopéia Odisséia, tecia durante o dia e destruía durante a noite, ela articulava politicamente a suspensão do tempo a partir de sua ação ativa, em um futuro que dependia de sua dedicação ao tear. Em Cook o processo é inverso, é construção e edificação, a interconexão entre as obras é a potência da tecelagem pictórica, o espaço é enlaçado, cada trabalho é singular e formam um corpo de pintura em conjunto. As pinturas são planificadas e as partes contíguas dos tecidos se tornam apenas um, a composição cromática ritmada ocasiona a materialização do indizível, ou como afirmou Anni Albers, é a sensibilidade tátil em ação – sensibilidade essa que emana da poética de Ethan. 

Em Ethan Cook a matéria é abstracional, o pensamento da tecelagem é pictórico, e o dispositivo tear não é somente um dispositivo mecânico, mas uma parte compositiva do gesto do artista, carregando a contemporaneidade em compasso com a historicidade. O artista é iniciador de uma ação que gera uma obra e conta com parcela do acaso na produção. Ele não controla todos os aspectos de seu significado. Há uma beleza em incorporar a matéria como parte constitutiva da poética, em que a linha, o tecido e o aspecto artesanal do tear são compositivos e identificáveis como elementos do artista, enquanto o espaço expositivo é enovelado, expandindo e articulando a estrutura sensível do real. 

Até 07 de março.