Itinerância

09/out

A convite da Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS, o crítico e curador italiano Jacopo Crivelli Visconti anunciará no dia 10 de outubro (quinta-feira) programação da 34ª Bienal Internacional de São Paulo. O encontro será às 17h, no auditório da Fundação com entrada franca.
Escolhido pelo presidente da Fundação Bienal, José Olympio da Veiga Pereira, por meio de uma seleção entre cinco curadores nacionais e internacionais, Visconti já montou uma equipe para começar os trabalhos: curador-adjunto Paulo Miyada (curador, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo) e curadores convidados Carla Zaccagnini (artista, São Paulo-Malmo); Francesco Stocchi (curador de Arte Moderna e Contemporânea, Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam); Ruth Estévez (curadora geral, Rose Art Museum, Boston; diretora, LIGA DF, Cidade do México).
Radicado em São Paulo, o napolitano tem uma longa relação com a Bienal. Integrante da Fundação Bienal de 2001 a 2009, foi curador da participação oficial brasileira na 52ª Bienal de Veneza (2007). Entre seus trabalhos recentes estão: Untimely, Again, Pavilhão da República de Chipre na 58ª Biennale di Venezia, Itália (2019); Brasile – Il coltello nella carne, PAC – Padiglione d’arte contemporanea, Milão, Itália (2018); Matriz do tempo real, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Brasil (2018); Memories of Underdevelopment, Museum of Contemporary Art of San Diego, EUA (2017); Héctor Zamora – Dinâmica não linear, Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo (2016); Sean Scully, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil (2015); Ir para volver, 12a Bienal de Cuenca, Equador (2014). É colaborador regular de publicações de arte contemporânea, arquitetura e design, além de escrever para catálogos de exposições e monografias de artistas.
A vinda de Jacopo Crivelli Visconti antecede a abertura da 33ª Bienal de São Paulo – Itinerância Porto Alegre, no dia 12 de outubro (sábado), às 14h, na Fundação Iberê Camargo. Serão apresentadas cerca de 40 obras de artistas, como Vânia Mignone, Antonio Ballester Moreno, Alejandro Corujeira e Sofia Borges. As exposições em circulação não replicam literalmente o que se viu na capital paulista, mas apresentam diferentes associações e relações a partir de recortes de obras e artistas.

 
“Faz escuro mas eu canto”

 

Marcada pelo encontro e potencialização mútua entre projeto curatorial e atuação institucional, a 34ª Bienal de São Paulo enfatiza poéticas da “relação” e adota uma estrutura de funcionamento inovadora, que envolve a realização de mostras e ações apresentadas no Pavilhão da Bienal a partir de fevereiro de 2020 e a articulação com uma rede de mais de 20 instituições paulistas. Quando o Pavilhão for inteiramente tomado pela mostra, a partir de setembro de 2020, essas instituições promoverão, em seus próprios espaços, exposições integrantes da 34ª Bienal.
Intitulada “Faz escuro mas eu canto”, verso do poeta amazonense Thiago de Mello (Barreirinha, 1926), a mostra abre oficialmente em setembro de 2020. Mas a partir de fevereiro, serão realizadas ações no Pavilhão. A Bienal também contará com articulação em rede com mais de 20 instituições paulistas, que promoverão exposições integrantes em seus espaços.
A decisão pela criação dessa rede acompanha uma espécie de linha curatorial, que tem como objetivo destacar as poéticas da ideia de “relação”. Segundo Visconti, a 34ª Bienal reconhece o estado de angústia do mundo contemporâneo enquanto realça a possibilidade de existência da arte como um gesto de resiliência, esperança e comunicação. “O desafio para lidar com todos esses públicos é não ser nem hermético, nem excessivamente simples e, ao mesmo tempo, falar de uma maneira direta e honesta com todos eles”, afirma.

 

 

Catálogo grátis

03/out

Será neste sábado, 05 de outubro, a partir das 14h, o lançamento do catálogo da exposição “Nas Asas da Panair”, no Museu Histórico Nacional,Rio de Janeiro, RJ. Nesse dia, a publicação será distribuída gratuitamente aos visitantes. Depois, o exemplar custará R$ 50 na lojinha do museu.

 

Neste dia, celebra-se também 53 anos de Família Panair, grupo de ex-funcionários e familiares formado em 1966, um ano após o fechamento da companhia aérea, ao tempo da Ditadura no Brasil, por ordem do Marechal Castello Branco.

 

“Nas asas da Panair” exibe, até 13 de outubro, parte do conjunto de 700 ítens que formam a coleção de memorabilia doada pela Família Panair ao Museu Histórico Nacional.

 

O catálogo tem 48 páginas, textos da historiadora Mariza Soares, curadora da mostra, de Rodolfo da Rocha Miranda, diretor-presidente da Panair do Brasil, e do jornalista e escritor Daniel Leb Sasaki, e cerca de 100 ilustrações.

 

 

 

Museu Histórico conta a sua história

26/set

Em comemoração aos 85 anos do MHCRJ, o Pavilhão de Exposições Temporárias, Casarão, Gávea, recebe a exposição “O Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro conta a sua história”. A mostra recupera a trajetória da instituição para além dos fatos que a conformam, explorando aspectos diversos da atividade museológica e tornando conhecidos os rostos por trás dela. Para contar essa história, recorreu-se à memória de alguns destes agentes – do passado e do presente -, à fotografias da coleção do Museu, além de peças do seu rico acervo, como o estudo da Cabeça do Cristo e trabalhos do Mestre Valentim.

 

A exposição integra a 13ª Primavera dos Museus, uma iniciativa do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), que este ano traz como tema “Museus por dentro, por dentro dos museus”.

 

Até setembro de 2020.

 

Vergara no MAM Rio

10/set

O celebrado artista ocupará o Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna, MAM Rio, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, RJ, com quatro conjuntos de obras que percorrem seu trabalho iniciado em 2003, em que busca os sinais do sagrado. Entre trabalhos inéditos e criados especialmente para a exposição estão pinturas de grande formato – as maiores já realizadas pelo artista -a partir de monotipias feitas no Cais do Valongo, na zona portuária carioca, onde chegaram os escravizados vindos da África, e nos trilhos do bonde em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde fica seu ateliê. E ainda as resultantes de sua recente viagem no sul da França, pelo caminho do sagrado feminino, que teria sido trilhado pelas Três Marias – Maria Madalena, Maria Jacobé (ou Jacobina, mãe de Tiago), e Maria Salomé – e Santa Sara, a escrava egípcia que se tornou padroeira dos ciganos. A exposição entrará em cartaz a partir de 14 de setembro – e até 12 de janeiro de 2020 – em seu Espaço Monumental. A exposição “Carlos Vergara – Prospectiva”, percorre a produção do celebrado artista, desde 2003 até obras recentes e inéditas. Outros destaques da exposição são as novas obras da série “Sudário”, com monotipias colhidas em sua viagem ao sul da França em maio último. A curadoria da exposição é de Carlos Vergara.

 

Um dos grandes nomes da arte brasileira, Carlos Vergara nasceu em 1941 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, e é radicado no Rio de Janeiro desde a adolescência. Sua última individual no MAM Rio foi “A Dimensão Gráfica”, há dez anos. Carlos Vergara explica o título da exposição: “Minha ideia é olhar pra frente, viver o presente e propor através do trabalho, e do encontro com o público, novas possibilidades e perspectivas”. São quatro os grandes conjuntos de obras na exposição: “Sudários”, “Natureza Inventada”, “Prospectiva” e “Empilhamento”. A mostra será acompanhada de uma série de ações, tanto encontros e conversas, como expandidas para fora do Museu, com intervenções dos artistas Lynn Court e Xadalu.

 

Os “Sudários” são monotipias realizadas desde 2003, quando o artista iniciou seu trabalho sobre os sinais do sagrado nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul e até o momento. Ao longo deste período, este trabalho levou o artista a diversos locais, como Istambul e Capadócia, na Turquia; Pompeia, Itália; Serra da Bodoquena em Mato Grosso do Sul; Caminho de Santiago de Compostela, Espanha; Cazaquistão, na Eurásia; e Rio Douro, Portugal. Os 200 lenços da série “Sudário” estarão suspensos, dispostos em um percurso labiríntico para o público. Carlos Vergara destaca que seu trabalho “não é um projeto cristão ou antropológico”. “Esses lugares todos têm sinais do inefável, do sagrado. Não estou atrás de religião. São caminhos do sagrado, sinais do sagrado”, afirma o artista.

 

No núcleo “Natureza Inventada”, estarão dez esculturas em aço cortén e duas pinturas com 3m x 6m e 2m x 6m, em torno de uma grande mesa escultórica, também em aço, com 12 cadeiras criadas pelo artista e designer Zanini de Zanine. Esse será um espaço de encontros a ser ativado em conjunto com o público, a partir de ações e conversas abertas.

 

A série que dá nome à exposição, “Prospectiva”, é composta por três pinturas recentes e inéditas de grande formato, as maiores já feitas por Vergara – 5,40m x 5,40m cada – a partir de monotipias feitas no Cais do Valongo, e nos trilhos de Santa Teresa, onde tem seu ateliê. O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, na antiga área portuária do Rio de Janeiro, é reconhecido pela Unesco por sua importância histórica, por ser o local onde cerca de 900 mil africanos escravizados chegaram à América do Sul.

 

Carlos Vergara fala da importância do bonde, dos caminhos, das encruzilhadas: “Trilhos indicam sempre uma dupla ação: trazer ou levar. No Rio Grande do Sul visitei Restinga Seca, onde nasceu Iberê Camargo, cujo pai era motorneiro de trem. Fiz então uma monotipia no trilho que o levou ao mundo. A imagem dos trilhos sempre é eloquente pra mim. Em 1950 visitei a Bienal de São Paulo de bonde. Ia muito de bonde do Jóquei para o Bar 20, no Rio de Janeiro. Hoje com os bondes infelizmente circulando apenas dos arcos da Lapa até os Prazeres, Santa Teresa tem esses desenhos dos trilhos que são incríveis e sempre me vêm à cabeça. Deste que é o bonde elétrico mais antigo do Brasil. Hora de colocar esses sudários no mundo”. No último bloco estará uma releitura de sua icônica obra “Empilhamento”, uma grande coluna formada por bonecos de papel kraft e papel corrugado empilhados, que chegará ao terceiro andar do Museu, como uma torre de babel.

 

Mostra paralela

 

Paralelamente à exposição “Prospectiva”, será exibido no terceiro andar do Museu, dentro da mostra “Alucinações à beira-mar”, um conjunto de obras de Carlos Vergara pertencente às Coleções do MAM, com curadoria de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes.

 

Ações na rua

 

Carlos Vergara expandiu a exposição, desde sua produção, para além do MAM. Convidou dois artistas, a carioca Lynn Court, que está produzindo 200 cartazes sobre a exposição para o mobiliário urbano, a partir de intervenções sobre a exposição “Sagrado Coração”, que Carlos Vergara fez no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 2008. Outro artista convidado é Xadalu, de origem guarani, que chegou a viver nas ruas de Porto Alegre, até que ganhou uma bolsa de estudos gráficos e começou a desenvolver um trabalho com forte representação e manifestação das causas indígenas e já ganha reconhecimento e presença em exposições internacionais. Ele fará uma residência artística no Rio, onde fará intervenções em Santa Teresa.

 

Roteiro sagrado no sul da França

 

Em maio, Carlos Vergara percorreu o sul da França, seguindo um caminho que teria sido trilhado pelos primeiros cristãos em fuga dos romanos: as Três Marias – Maria Madalena, Maria Salomé (mãe dos apóstolos João e Tiago) e Maria Jacobina (ou Jacobé), irmã de Maria de Nazaré, além de Santa Sara, ex-escrava egípcia de São José de Arimatéia que se tornou padroeira dos ciganos. O ponto de partida foi o porto de Saintes-Maries-de-la-Mer, na costa mediterrânea, por onde teriam chegado os cristãos. De lá, Vergara percorreu cerca de 250 quilômetros para leste, até Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, onde após uma subida de mais de três horas a pé chegou à gruta que acredita-se contém as relíquias de Maria Madalena. Em Saintes-Maries-de-la-Mer, no dia 24 de maio, sem ter planejado, o artista participou da grande festa realizada em honra à Santa Sara, uma peregrinação mundial dos povos ciganos. Por todo o trajeto, passando por santuários e pontos de reverência para várias crenças, Vergara fez diversas monotipias, no chão de terra, nas pedras, ou ainda nos monumentos, recolhendo os sinais do sagrado. Dentre os vários locais por onde passou nessa travessia estava o Château La Coste, a quinze quilômetros de Aix-en-Provence, o grande museu a céu aberto composto por pavilhões projetados pelos arquitetos Tadao Ando, Frank O. Gehry, Jean Nouvel e Renzo Piano. Entre as obras dos grandes nomes da arte, Vergara esteve no conjunto de esculturas “Psicopompos”, de Tunga, seu amigo. Em Camargue, Vergara fez monotipia na fachada da capela onde está o símbolo dos navegantes, que se assemelha ao Sagrado Coração trabalhado pelo artista em sua residência na Missão de São Miguel, Rio Grande do Sul, 2003. Em Camargue, ele se encontrou com o músico Canut Reyes, um dos fundadores dos Gipsy Kings, que o levou a conhecer trilhas emblemáticas para os ciganos. Em Arles, esteve no icônico Moulin Ribet, conhecido como Moulin de Daudet (escritor francês Alphonse Daudet, 1840-1897), construído em 1814, e em Marselha visitou o Mucem (Musée des civilisations de l’Europe et de la Méditerranée). Carlos Vergara viajou acompanhado do crítico e curador Marc Pottier, e de João Vergara, filho do artista e coordenador de seu ateliê, com apoio do Consulado da França do Rio de Janeiro.

 

 

Zanine no MAM – Rio

09/set

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM – Rio, Parque do Flamengo, Rio de janeiro, RJ, apresenta a partir de 14 de setembro e até 17 de novembro, a exposição “Zanine 100 anos – Forma e Resistência”, com 18 obras feitas pelo consagrado arquiteto, designer, artista, paisagista e professor José Zanine Caldas (1919 – 2001), dentro de sua profunda pesquisa sobre nossas madeiras. Com curadoria de Tulio Mariante, curador de design do MAM, as obras selecionadas integram a emblemática e profícua produção de Zanine entre o final dos anos 1960 e 1980, conhecida como “móvel-denúncia”. As peças, feitas em madeira maciça, denunciavam de maneira pioneira o desmatamento das florestas brasileiras. Tulio Mariante destaca que Zanine “coletava as madeiras em restos de abates, muitas vezes irregulares, como forma de denúncia, como forma de resistência”.

 

Mais do que apenas móveis, os especialistas consideram esses trabalhos como esculturas funcionais, maneira de o artista expressar sua percepção de nossa cultura. O processo de criação era lento, com a utilização de ferramentas tradicionais como serrote, enchó, formão, plaina, e tendo como mão de obra os canoeiros da Bahia. Várias das peças expostas foram criadas no período em que Zanine Caldas viveu em Nova Viçosa, Bahia, anos 1970 até 1980, onde instalou uma oficina que se tornou ponto de encontro de grandes nomes da cultura brasileira, como Oscar Niemeyer, Carlos Vergara, Chico Buarque, Amelia Toledo, Odete Lara entre outros. Lá, ele construiu a famosa casa na árvore para o artista Frans Krajcberg.

 

Com esta homenagem, é a terceira vez que o MAM realiza uma exposição sobre José Zanine Caldas. Sua primeira mostra individual no Museu foi em 1975, e a segunda em 1983, quando construiu, junto aos jardins, uma casa de madeira. A produção de “Zanine 100 anos – Forma e Resistência” é da família de Zanine Caldas, com o apoio de Etel Design e Escritório de Arte Marcela Bartolomeo.

 

São destaques da exposição as peças “Namoradeira”, o “Redário”, a escultura em madeira pequi, a mesa de jantar e o aparador com tampo de vidro criados em Nova Viçosa nos anos 1970, o sofá feito em ilhéus em 1980, entre outras.

 

Lançamento de livro

 

Por ocasião da exposição “Zanine 100 anos – Forma e Resistência”, será lançado o maior e mais abrangente livro sobre sua trajetória. Publicado pela Editora Olhares e R&Company Gallery, de Nova York, o livro será bilíngue (port/ing), com capa dura e formato 25cm x 30cm, terá 300 páginas, e textos de Amanda Beatriz de Palma Carvalho, Lauro Cavalcanti e Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, com ensaio fotográfico de André Nazareth. O lançamento está previsto para o próximo dia 24 de setembro dentro da exposição no MAM, e depois será feito em diversas cidades.

 

Sobre o artista

 

Autodidata. Nascido em 1919 na cidade baiana de Belmonte, Zanine era autodidata, e começou sua carreira como maquetista dos principais arquitetos modernos brasileiros, como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. “Quando maquetista, Zanine foi autor de modelos de alta qualidade, e criador capaz de propor aos arquitetos soluções para impasses em seus projetos. Seu talento o levou a percorrer os caminhos da arquitetura e do desenho de móveis que acabaram por lhe conferir o título de Mestre da Madeira”, explica o curador. Zanine obteve reconhecimento não apenas no Brasil, mas também no exterior. No design de mobiliário, conduziu a experiência da Móveis Z, fundada em fins dos anos 1940, em São Paulo, apostando na industrialização para apoiar – e aproveitar – a difusão de um novo estilo de vida trazido pelos ventos de modernidade. Nos anos 1950, foi paisagista e teve uma loja de vasos e arranjos de flores na Avenida Paulista, SP. No final da década se mudou para Brasília para produzir in loco maquetes dos prédios da nova capital em construção. Na década de 1970, viveu entre o Rio de Janeiro, onde praticamente inventou o bairro da Joatinga, e Nova Viçosa, no sul da Bahia, de onde trazia as grandes toras de madeira que marcam sua arquitetura e onde produziu uma linha de móveis pesados, que deixavam se expressar com toda força a madeira descartada no processo de devastação da Mata Atlântica que acontecia na região. Eram chamados de “móveis-denúncia”. Além disso, em sua inquietude, Zanine se envolveu em muitos projetos sociais, teve importante presença na vida acadêmica, mesmo não tendo um diploma, e circulou por diversos países – em especial a França, onde teve exposição individual no Museu de Artes Decorativas do Louvre, em 1989, estabelecendo trocas culturais e de conhecimento técnico. Morreu em Vitória, em 2001.

 

 

 

Estranhamente comum

03/set

A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Pina Estação – Largo General Osório, 66, 4º andar – Luz, São Paulo, SP, apresenta, até 28 de outubro de 2019, a exposição “Marepe: estranhamente comum”. Com curadoria de Pedro Nery, curador do museu, trata-se da primeira grande exposição individual do artista baiano em São Paulo que propõe oferecer uma visão abrangente de sua trajetória, iniciada na década de 1990. O conjunto de 30 obras evoca poeticamente uma memória pessoal que se entrelaça à sua cidade natal.

 

Marepe (Marcos Reis Peixoto) nasceu na cidade de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, em 1970. Situada a leste da Baia de Todos os Santos, conecta o sertão ao mar, tornando-se importante eixo por onde passam as mais diversas mercadorias, de materiais de construção a alimentos. A partir desse vai-e-vem de objetos e pessoas, além da própria história familiar, o artista extrai e elabora suas obras.

 

No processo, Marepe se vale de procedimentos recorrentes da arte contemporânea como o acúmulo e a retirada de objetos de suas funções cotidianas. No entanto, suas obras sugerem dimensões especulativas, alterando a escala, a forma e significado de materiais encontrados ali, para daí criar peças oníricas. Para organizar sua retrospectiva na Pinacoteca, a curadoria destacou três verbos, ou atos simbólicos, aos quais o artista recorre com constância em sua trajetória: mover, transformar e condensar. “Os verbos não são pensados como algo fechado, e sim como elemento guia, permitindo aprofundar o olhar simbólico que as próprias obras sugerem“, explica Nery.

 

Em “Mover”, estão reunidos trabalhos que demonstram, por exemplo, a ação fundamental da prática de Marepe que é a retirada do objeto de seu circuito usual – comercial, urbano ou produtivo – para inseri-lo no campo artístico. O que o artista move não são simples objetos, mas coisas que se relacionam com seu passado e a vida ao seu redor. Daí a ideia da mobilidade como eixo estrutural das obras que ali se apresentam a exemplo de “Mudança” (2005) e “Embutido Recôncavo” (2003). Feitas com móveis de madeira e apresentadas juntas, elas repensam o movimento das próprias formas e das vidas de pessoas que se deslocam de maneira precária.

 

Já “Periquitos” (2005) é uma peça que remete a esse ambiente doméstico e que traz um movimento de escala e de desproporção ao apresentar uma televisão agigantada, desestabilizando, assim, a convenção deste objeto tão familiar. “É interessante pensar nesse desajuste em que existe uma casa, no caso de “Embutido Recôncavo”, onde a televisão não cabe. O ato de mover é, em Marepe, mudar tudo de lugar, desintegrar as relações que parecem ser ordinárias. É tirar do lugar o que convencionamos acreditar ter ordem, para procurar a própria realidade que subjaz ao nosso redor”, define o curador. Essa é a primeira montagem da peça no Brasil, originalmente pensada para sua apresentação na individual do artista no Centre Pompidou, em Paris.

 

Em “Transformar”, são expostos trabalhos cujos objetos de composição sugerem um novo arranjo narrativo. Neste sentido, “O retrato de Bubu” (2005), pertencente ao acervo da Pinacoteca, traz a imagem do avô do artista que, em sua primeira apresentação para a mesma individual no Pompidou, foi pendurado ao lado do retrato de Georges Pompidou, na entrada daquele museu, em Paris. Ao sustenta-los, sob a mesma linguagem, o artista coloca o ex-presidente e seu avô Bubu em pé de igualdade. Aqui, o ato de transformar se dá na medida que o artista relativiza a ordem social, pessoal e geográfica.

 

E, por fim, em “Condensar”, estão reunidos trabalhos que beiram a livre associação, revelando o desejo do artista de compor ideias díspares com recursos simples, oferecendo uma materialidade à serviço da imaginação. Exemplo disso são as imagens “Doce céu de Santo Antônio” (2001), em que o artista é visto de baixo para cima retirando um pedaço de algodão-doce contra o azul do céu e trazendo para sua boca, comendo um pedaço de nuvem desse céu doce imaginado, trazendo, literalmente, o sonho para a realidade. Também é o caso da obra “Chorinho” (2009), feita com carretéis de linha de costura azuis suspensas, que caem fio por fio em tonalidades diferentes até o chão. “Chorinho é uma expressão direta da palavra-ideia e de sua formalização plástica, esses fios que escorrem como lágrimas e caem sobre o chão”, explica Nery. “As obras de Marepe parecem respeitar algumas ações bastante reguladas ao longo de toda a trajetória. O que muda é a forma de interpretar o mundo ao seu redor, e então surge uma nova obra que nos obriga a reinterpretar tudo à nossa volta”, finaliza.

 

Catálogo

 

“Marepe: estranhamente comum” é acompanhada de um catálogo que inclui apresentação do diretor geral da Pinacoteca Jochen Volz, texto introdutório ao artista pelo curador Pedro Nery, ensaios de Raphael Fonseca e Yan Braz, além de uma cronologia crítica por Thierry Freitas. O volume tem cerca de 60 imagens que ilustram os trabalhos mais importantes da trajetória do artista. Português e inglês.

 

Wesley Duke Lee na FIC

30/ago

Artista pioneiro da linguagem contemporânea nas artes plásticas no Brasil vai ganhar exposição na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS, em parceria com o Instituto Wesley Duke Lee de São Paulo. A exposição “Wesley Duke Lee – A Zona: A Vida e a Morte”, apresenta três fases que aconteceram simultaneamente para o artista, entre os anos 1962 e 1967. A abertura da mostra será neste sábado, 31 de agosto, às 14h no 4º andar da Fundção. A cuardoria é de Ricardo Sardenberg.

 

Ao todo, são 59 itens entre pinturas, desenhos e colagens, como os trabalhos de “Jean Harlow”. Criada em 1967, a série reúne 30 desenhos que partiu do interesse de Wesley por relatos da sina trágica da atriz americana, conhecida como “vênus platinada” de Hollywood dos anos 1930.

 

Sobre o artista

 

Filho de norte-americanos protestantes e conservadores, Wesley sofreu forte influência da avó. Pintora acadêmica, ela nunca lhe deu um pincel para “brincar”, mas a rigidez com que tratava a profissão foi para o neto uma inspiração.
Em 1951, Wesley Duke Lee iniciou os estudos no curso de Desenho Livre do MASP. No ano seguinte, partiu para Nova York, onde acompanhou o início das manifestações da pop art, protagonizada por artistas como Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jasper Johns e Cy Twombly. Nos EUA, estudou na Parson’s School of Design (curso de Artes Gráficas) e no American Institute of Graphics Arts (curso de Tipografia) D volta ao Brasil, em 1963, realizou o primeiro happening no país.

 

Wesley não se censurava: foi adaptando sua arte até inventar um estilo particular. Para ele, a arte era um eterno processo de autoconhecimento. Não por acaso, se autodenominava um “artesão de ilusões”. Utilizava o experimentalismo para abordar a origem do homem, a sexualidade, o erotismo, a morte, entre outros temas.

 

A exposição permanece aberta ao público até 27 de outubro.

 

 

Foto MIS 2019

Anualmente, o Museu da Imagem e do Som, jardim Europa, São Paulo, SP, dedica um espaço na agenda de programação para exposições exclusivamente de fotografia com obras de artistas nacionais e internacionais. Este ano, o FOTO MIS – antigo “Maio Fotografia” – fica em cartaz de 31 de agosto a 13 de outubro, quando todos os espaços expositivos do Museu serão tomados por obras de artistas singulares e fundamentais na história da fotografia.

 

O FOTO MIS 2019 apresenta as exposições “Todos iguais, todos diferentes?”, do fotógrafo francês Pierre Verger, com uma seleção de retratos realizados entre as décadas de 1930 e 1970 ao redor do mundo; “Estudos fotográficos: 70 anos de memória”, remontagem da primeira exposição individual do fotógrafo Thomaz Farkas e primeira exposição de fotografia realizada em um museu de arte no Brasil; “Caretas de Maragojipe”, de João Farkas, sobre o carnaval como patrimônio imaterial do recôncavo baiano, e “Haenyeo, mulheres do mar”, de Luciano Candisani, que retrata a vida de um grupo de mulheres que vivem na Coreia do Sul e seguem a tradição secular de mergulhar utilizando apenas o ar de seus pulmões para colher produtos marinhos.

 

Integram, ainda, o FOTO MIS a mostra “Moventes”, com obras do Acervo MIS, que conta com curadoria de Valquíria Prates, e “Onde tudo está”, individual de Beatriz Monteiro, projeto selecionado pelo programa anual do MIS, Nova Fotografia 2019.

 

Além das exposições, o FOTO MIS 2019 conta com uma extensa programação paralela. No dia 31 de agosto, abertura da mostra, o MIS realiza ciclo de conversas com os fotógrafos e curadores, visitas guiadas e lançamentos de livros relacionados às exposições, cursos de fotografia, atividades educativas, uma edição da Foto Feira Cavalete e a Maratona Infantil | Especial Fotografia integram a programação paralela.

 

 

No Centro de Arte Hélio Oiticica

29/ago

Chama-se “Gabinete de Soluções”, a exposição individual de Guga Ferraz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Centro, Rio de Janeiro, RJ, um desdobramento da investigação do artista sobre a cidade. A mostra busca ressignificar a ideia de “gabinete de crise”, que costuma ser organizado pelas autoridades para atender a demandas urgentes.

A crise é o status quo na cidade e no país como um todo. Enraizada no cotidiano, essa palavra tão repetida nas mídias de massa parece não provocar surpresa nos brasileiros. Uma vez que evidenciar um estado de crise seria redundante, Guga Ferraz apresenta soluções e convida o público a fazer o mesmo. A mostra é composta por projetos de soluções do artista para problemas urbanos, alguns deles utópicos – apresentados por meio de desenhos -, como um projeto de reconstrução do Morro do Castelo, e outros já realizados – apresentados por meio de registros -, como um tobogã que permite ao público deslizar na paisagem para acessar a praia.

Desde o início de sua trajetória, ao participar da ação coletiva “Atrocidades Maravilhosas”, no ano 2000, o principal objeto de investigação de Guga Ferraz é a cidade. Há quase vinte anos trabalhando, sobretudo, com intervenções em espaços públicos, o artista levanta questões como a violência urbana, problemas habitacionais, processos de exclusão na cidade, relações entre o indivíduo e o meio urbano e a própria cidade como lugar. Um bloco da exposição apresenta vestígios de suas interferências na paisagem urbana realizadas desde o início da década de 2000, como o emblemático “Ônibus Incendiado” (2003), produzido a partir da colagem de adesivos em formato de chamas em placas de sinalização de pontos de ônibus, como forma de sinalizar os recorrentes casos de incêndios a veículos que ocorriam no Rio de Janeiro. Guga também apresenta interferências que realizou nos transportes públicos, como “Proibido ser cadeirante” (2011), que denuncia a falta de acessibilidade nos ônibus, e “Em caso de assalto, ao avistar uma arma de fogo, não reaja” (2006), que oferece instruções aos passageiros sobre como (não) reagir diante de um assalto. A apresentação desses trabalhos produz uma pequena retrospectiva que visa apontar para a atualidade dos temas abordados pelo artista ao longo de sua trajetória.

Além de projetos e vestígios de intervenções na cidade, Guga Ferraz apresenta desenhos, pinturas e esculturas – em grande parte inéditas e produzidas especialmente para a exposição – onde observamos desdobramentos de seu pensamento sobre a cidade. Pela primeira vez, o artista apresenta trabalhos em vídeo, mídia que começou a experimentar durante a preparação da mostra. A exposição pretende tornar-se um lugar de convívio e trocas. Ao longo do período expositivo, convidados de diversos campos ocuparão a galeria, junto ao público, para promover debates sobre a cidade, expor ideias e soluções. No dia 28 de setembro, será realizado no auditório do Centro Municipal de Arte Hélio Oititica o encontro “Cidade Ocupada”, com convidados cujas trajetórias esbarram na de Guga Ferraz e marcam o cenário artístico carioca dos anos 2000. A curadoria da exposição é assinada por Thiago Fernandes, historiador de arte que há alguns anos vem desenvolvendo pesquisas sobre o trabalho de Guga Ferraz e sobre a geração de artistas cariocas que utilizou as ruas como campos de ação na virada do século XXI.

Encontro Cidade Ocupada

A exposição individual de Guga Ferraz, Gabinete de Soluções, apresenta em sua programação o encontro Cidade Ocupada. O artista em exposição no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica faz parte de uma geração que, no início dos anos 2000, em meio a um circuito artístico incipiente no Rio de Janeiro, decidiu criar seus próprios circuitos atuando em coletivos e tomando as ruas como campos de ação. O encontro Cidade Ocupada toma emprestado o nome do livro de Ericson Pires, poeta, artista e grande pensador falecido em 2012, que acompanhou essa geração e transitou entre coletivos que menciona em seu livro.

O evento, que será realizado no auditório do CMAHO, consiste em um encontro de amigos que fizeram parte das histórias contadas por Ericson em seu livro e possuem papel importante na trajetória artística de Guga. Entre as presenças confirmadas estão Alexandre Vogler, André Amaral, Clara Zúñiga, Ducha e Ronald Duarte, além de Guga Ferraz e do curador Thiago Fernandes, que fará a mediação do evento. O encontro pretende contextualizar o trabalho de Guga e contribuir com pesquisas sobre a arte carioca dos anos 2000, além de prestar homenagem a Ericson Pires, figura de extrema importância para essa geração de artistas. Localizado na Praça Tiradentes, coração do centro da cidade, em setembro o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica completa 23 anos em atividades desde a abertura. Para celebrar o marco, o espaço oferece uma programação completa para os quatro sábados do mês.

Organização

Guga Ferraz e Thiago Fernandes

Data: 28/09/2019

Horário: 14h às 17h

Ai Wei Wei no CCBB/Rio

Encontra-se em cartaz até 04 de novembro no CCBB Rio, a maior exposição do artista plástico chinês Ai Weiwei já realizada no país, premiada pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como a Melhor Exposição Internacional de 2018. Convidado pelo curador, o artista desvenda a cultura brasileira e cria obras que representam a biodiversidade, a paisagem humana e a criatividade local. “Ai Weiwei Raiz” apresenta também alguns dos trabalhos mais icônicos do artista, hoje considerado um dos principais nomes da cena contemporânea internacional. A curadoria é de Marcello Dantas

 

No dia 25 de setembro, às 18h30, o curador, Marcello Dantas, conversará com o público sobre a obra do artista. Entrada franca e a distribuição de senhas será 1 hora antes.

 

Sobre o artista

 

Para entender Ai Weiwei, é preciso conhecer seu passado e suas origens. Seu pai – o poeta Ai Qing, um libertário e membro da Revolução Chinesa – caiu em desgraça na nova sociedade que se configurou e foi enviado, junto com sua família, para campos de trabalho na área rural da China, logo depois do nascimento de Ai Weiwei. A influência do pai em sua vida é imensa.

 

Uma das imagens mais fortes para o artista é a de quando Ai Qing decidiu queimar seus livros diante do filho, para evitar mais punições caso o regime viesse à sua casa – eram principalmente livros de arte e poesia. Pai e filho fizeram uma fogueira e, página por página, foram queimando os livros, como se se despedissem daquelas imagens e palavras. Um ato de profunda violência para um poeta e intelectual e, acredito, um ato fundador para seu filho, tanto como artista quanto ativista.

 

Uma maneira de ler as obras do artista chinês é compreendê-lo em seus múltiplos pontos de vista, como um intérprete das culturas chinesa e ocidental. Ele encontra maneiras de manter ambiguidades, expressando-se de forma explícita para um dos lados (seja o Ocidente ou o Oriente), e de forma velada para o outro.

 

As imagens inaugurais de Ai Weiwei soltando o vaso da Dinastia Han são, para qualquer ocidental, imagens perturbadoras de desrespeito e uma atrocidade em relação à memória e à história. Para um chinês acostumado aos absurdos da Revolução Cultural, todavia, tal gesto não é tão chocante. O convite para Ai Weiwei vir ao Brasil era também um convite para uma interpretação e para a realização de novos trabalhos. Nesse modelo, ele seria capaz de experimentar a cultura local e digeri-la a seu modo, e o Brasil teria a chance de entender e experimentar as modalidades e o processo criativo do artista. Por outro lado, nós nos tornamos mestres na arte de absorver e digerir à nossa maneira influências exteriores. O convite não foi para uma refeição cotidiana: foi para um banquete mutuofágico, em que se come e se é comido pelo outro, em que cada lado devora o outro – seu corpo, sua alma e sua energia. Weiwei fez um firme gesto inicial ao tentar fundir a cultura, ele decidiu fundir em ferro a maior, mais antiga e ameaçada árvore ainda em pé no sul da Bahia. Apropriar esta árvore dentro de sua oeuvre é como capturar a espinha dorsal da consciência de nossa civilização -uma árvore que tem estado de pé por mais de 1200 anos viu a própria formação da nação.