Scheffel no MARGS

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, exibe na Pinacoteca do MARGS, Porto Alegre, RS, a exposição “Scheffel Por Ele Mesmo”, com curadoria de Ângelo Reinheimer. A exposição “Scheffel por Ele Mesmo”, reúne obras da Coleção Família Zelmanowicz, Fundação E. F. Scheffel e acervos privados e propõe revelar ao público um recorte sobre a obra de Scheffel, talvez o mais instigante de sua produção: a década de 1970, que permanece ainda pouco conhecida. A escolha das obras forma um conjunto estabelecido pelo próprio Scheffel – com texto de sua autoria – em uma exposição por ele sonhada e não realizada em vida. Apresenta ainda, uma mostra de retratos, promovendo uma visão panorâmica sobre sua produção artística, a partir da década de 1950 até os anos 2000.

 

Em diálogo com a exposição, o MARGS apresenta uma seleta de obras dos professores do artista, no Instituto de Belas Artes (atual Instituto de Artes da UFRGS), do período entre 1941 e 1946. Entre eles, nomes consagrados da pintura gaúcha, como: João Fahrion, Ângelo Guido, José Lutzenberger, Benito Castañeda, Maristany de Trias e Fernando Corona, possibilitando ao público um olhar sobre os mestres que influenciaram diretamente a obra de Ernesto Frederico Scheffel. O colecionador Rolf Zelmanowicz, também presidente da Sociedade de Amigos da Fundação Scheffel, Novo Hamburgo, RS, é o grande incentivador da exposição.

 

 

 

A palavra do artista

 

O retrato: uma batalha à parte

 

O retrato é considerado uma especialidade no mundo das Artes Plásticas – pintura e escultura – e significa para o artista, em particular, um duplo desafio. Trabalho de arte único, é uma proposta pessoal, elaborada através de recursos próprios. O retrato é a proposta que se antepõe e, eventualmente, se contrapõe ao artista que, paulatinamente, se exercita mental e fisicamente a devorar o seu objeto, de ponta a ponta, ao ponto de romper com o espaço e o tempo, pondo em desordem o pensamento e o sentimento. Isso não significa caos ou confusão, mas um diálogo pelos caminhos ocasionais das imagens e das sensações, interligadas numa atmosfera de contato, resultado de um pacto comum.

 

A relação artista-retratado não é, portanto, uma divisão, uma oposição, um combate de rivais em exercício de mútua eliminação de personalidades antagônicas. O relacionamento artista-retratado, frente à frente, é um ato de antropofagia figurada, leal, pré-determinada pelas partes interessadas em criar, como resultado final, uma obra de arte de alto nível em conteúdo e forma.

 

Com este procedimento – a posse através de uma absorção intensa – o artista não engravida o retratado nem recorre ao Espírito Santo, algo vindo de fora ou de cima, na realização da obra de arte. A obra nasce do entendimento e relacionamento de artista e retratado que decidem remover as máscaras, uma a uma, num ritual de concessão das diferentes formas assumidas pelo indivíduo. Esta faina através das contínuas mutações pretende sintetizar o constante de um modo de ser, de um modo de se apresentar, de um modo de sentir. Aí que se encontra a revelação mais profunda de um caráter – em contínua formação – de uma individualidade única que é “relatada” com seriedade e simplicidade.

 

Montaigne, nos “Ensaios”, expressa alguns conceitos mais permanentes e atuais que podem definir essa seriedade e simplicidade, necessárias ao artista, no ato da concepção do retrato, sintetizando numa só virtude: a fidelidade. “Os outros formam o homem (os moralistas), eu o relato”, escreve no Livro III, capítulo 2.

 

Concluído o retrato, rompe-se o liame entre artista e retratado, em favor de uma obra de arte que pode ter atingido um estado de vida permanente, como se tocada pelo imprevisto sopro dos deuses, caprichosos, através da qualidade na composição, na técnica pictórica e na menção do mundo interior do indivíduo. Está superado o desafio da realização pessoal, como obra de arte.

Ernesto Frederico Scheffel

 

 

 

Sobre o artista

 

Ernesto Frederico Scheffel nasceu em 8 de outubro de 1927, em Campo Bom, RS. É descendente de imigrantes alemães de Berghausen – Westfalen, chegados em 1825 e estabelecidos na antiga colônia de São Leopoldo. Aos 12 anos de idade, Scheffel fez parte do Grupo de “coloninhos” que foram levados a Porto Alegre, numa ação do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, dentro das políticas de nacionalização do Estado Novo. Foi convidado a estudar no Instituto de Belas Artes e, simultaneamente, na Escola Técnica Parobé. Em 1950, segue para o Rio de Janeiro, com bolsa de estudos do Estado do Rio Grande do Sul. É acolhido pelo pintor Osvaldo Teixeira, diretor do Museu Nacional de Belas Artes, com quem trabalha como assistente. Scheffel participou dos Salões Nacionais de Belas Artes. Após receber as medalhas de bronze e prata, em 1958 conquista o Prêmio Viagem ao Estrangeiro com a obra “Jerônimo”. O quadro premiado está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Partiu para a Europa, em 1959. Depois de viajar e conhecer diversos países estabeleceu-se em Florença, onde desenvolveu sólida carreira. Trabalhou com o professor Augusto Vemehren, diretor do Laboratório de Restauro da Galeria dos Ofícios, restaurando obras de Rubens, Velázquez, Ticiano, entre outros. Ao longo dos anos 1960, Scheffel realizou oito obras públicas, a maioria de cunho religioso, em Florença. Inicia a década de 1970 influenciado pelas manifestações e protestos contra as instituições e os valores vigentes, que eclodem na Europa, na segunda metade da década de 1960, inaugurando uma nova fase, mais ousada e autêntica. Como o próprio Scheffel define: “… finalmente posicionei-me no campo da arte pela valorização da individualidade, no esplendor de suas características próprias, cujas qualidades devem ser exaltadas como um direito estético que une a humanidade…”. Em 1974, retorna ao Brasil como convidado oficial do Município de Novo Hamburgo para uma exposição retrospectiva, dentro das comemorações do Sesquicentenário da Imigração e Colonização Alemã no Brasil, que resultou na criação do Museu de Arte e também sua mantenedora Fundação Ernesto Frederico Scheffel, tornando possível a exposição permanente de grande parte da sua obra. Scheffel também inicia uma verdadeira cruzada pela preservação do patrimônio histórico relativo à colonização alemã no Rio Grande do Sul. A escolha de um prédio de características neoclássicas, construído em 1890, para a instalação do Museu de Arte, sinaliza o trabalho a ser desenvolvido nas décadas seguintes, culminando com o tombamento do Centro Histórico de Hamburgo Velho e o acervo pictórico da Fundação Ernesto Frederico Scheffel, pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em maio de 2015. Scheffel viveu os últimos anos da sua vida entre Itália e Brasil, e manteve sua rotina através da pintura e composição musical. Faleceu em Porto Alegre, em 16 de julho de 2015.

 

 

Citações de Scheffel sobre seus mestres

 

“… O Instituto de Belas Artes, que passei a frequentar, mantinha os cursos de Artes Plásticas e o Conservatório de Música com suas subdivisões. Meus professores eram João Fahrion (pintura figurativa), Benito Castañeda (pintura de paisagem), Fernando Corona (modelagem), José Lutzenberger (geometria), Ângelo Guido (história da arte), Luiz Maristany de Trias (anatomia) e Ernani Corrêa (arte decorativa)…”.

 

“… Benito Castañeda – pintura de paisagem, revelava-se, para mim, um homem de comportamento simples e estimulante… No Instituto de Belas Artes era um professor de fino trato, talvez o mais amado dentre todos…”.

 

“… Fernando Corona mostrava-se um tanto agitado, como quem sempre estava empenhado em resolver inúmeras questões. Alguns alunos notavam no professor Corona – assim como eu – sua devoção quase juvenil ao trabalho dos artistas clássicos pelo tempo de um mês e, no próximo, exaltava as virtudes dos artistas mais destemidos e inovadores da história da arte. Entendíamos, contudo, que essa duplicidade de posição do professor Corona não era criticável, por sua sinceridade e larga visão estética…”.

 

“… João Fahrion e Edgard Degas estão unidos, também, pelas soluções técnicas, pelo gosto dos cortes e essencialidade do toque, ao mesmo tempo elegantes e displicentes. As obras de ambos possuem as qualidades da fantasia e do realismo…”.

 

“… José Lutzenberger, artista acima de qualquer juízo crítico, cabe lembrar do seu perfeccionismo, pois todos os detalhes de um projeto eram estudados separadamente e, só depois, no conjunto. Os profissionais da arquitetura, quando não conseguem enquadrar um artista, definem-no “eclético”, devido à sua liberdade criativa. Muito cômodo! Já o arquiteto e escultor Fernando Corona resolve essa questão afirmando que “Lutzenberger é o arquiteto do estilo próprio”. De acordo estou eu, que fui aluno dos dois professores no Instituto de Belas Artes…”.

 

 

Até 10 de dezembro.