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AGENDA CULTURAL

Nova artista representada pela Galatea.

02/abr

A Galatea tem o prazer de anunciar a representação da artista Mucki Botkay (Rio de Janeiro, 1958 – vive e trabalha no Rio).

A inventiva de Mucki Botkay com cores começa no fim da década de 1970, quando, após cursar artes decorativas na École Supérieure des Ensembliers, em Genebra, retorna ao Brasil. Aqui, dá continuidade à pintura, mas decide que ela deveria ser tridimensional. Bordando a tela, entremeando fios e criando linhas difusas, a artista produz uma pintura feita sem tinta, mas com uma matéria – a miçanga – que toca, em cor e vibração de energia, a alma brasileira.

O jornalista e curador Leonel Kaz indaga: “A função do artista não é a de criar algo fora do banal para acrescentar ao mundo o que ainda não foi visto? É o que Mucki consegue fazer com as telas bordadas, em que os fios invisíveis sustentam miçangas que fazem brotar uma paleta de cores de aguda contemporaneidade – cores desenvolvidas pela artista, exclusivamente, para os seus trabalhos. O resultado são pinturas que impactam o olhar com diferentes percepções dos ecossistemas da Mata Atlântica (manguezais, laguna, restingas), não só reencenando a natureza, como também esticando a figuração de modo a flertar com a abstração.”

A partir dessa decomposição da natureza, Mucki Botkay constrói cenas que operam como convites à contemplação e à imaginação de um universo vivo. Essas imagens se apresentam como “janelas imaginárias” – título, inclusive, de sua primeira exposição individual pela Galatea, realizada em Salvador em 2024. Em junho deste ano, Mucki Botkay também apresentará sua primeira individual internacional na galeria Anat Ebgi, em Los Angeles, e em novembro exibe novamente na Galatea, dessa vez em São Paulo.

Mostra a dois na Gomide&Co.

01/abr

A Gomide&Co, Bela Vista, São Paulo, SP, apresenta “Alexandre da Cunha – Dudi Maia Rosa”, exposição que propõe estabelecer um diálogo entre duas práticas que, a partir de procedimentos distintos, compartilham um interesse profundo pela materialidade e pelo potencial transformador de materiais industriais. A exposição segue em cartaz até 23 de maio. O texto crítico é da crítica de arte e curadora independente Fernanda Morse.

Desde os anos 1980, Dudi Maia Rosa (São Paulo, 1946) desenvolve um trabalho singular que tensiona os limites tradicionais da pintura. Utilizando resina poliéster e fibra de vidro, o artista constrói superfícies ora translúcidas e ora opacas, nas quais cor, estrutura e suporte surgem simultaneamente. Diferentemente da pintura convencional, em que a imagem é aplicada sobre uma base preexistente, em suas obras a própria matéria pictórica constitui o corpo do trabalho.

Ao comentar o encontro entre os dois artistas na exposição, Alexandre da Cunha reconhece a importância que artistas da geração de Dudi Maia Rosa tiveram na formação de seu próprio repertório. Segundo ele, tratou-se de um grupo que operou com grande liberdade diante dos limites disciplinares da pintura e da escultura: “…o Dudi faz parte de uma geração que teve bastante influência na minha prática em algum momento. Esses artistas fizeram algo muito corajoso. No caso do Dudi, ainda mais, porque há uma liberdade enorme no trabalho dele”. Alexandre da Cunha destaca especialmente a fluidez com que o artista transita entre diferentes escalas e configurações formais. Por sua vez, Dudi Maia Rosa observa no trabalho de artistas como Alexandre da Cunha um deslocamento significativo na relação com a matéria e com os objetos do cotidiano, no qual elementos provenientes da cultura material contemporânea passam a ser reorganizados em composições que preservam algo de sua origem ao mesmo tempo em que adquirem novas qualidades formais.

Apesar das diferenças de linguagem, o encontro entre os dois artistas revela afinidades importantes. Tanto nas “pinturas-objeto” de Dudi Maia Rosa quanto nas “esculturas pictóricas” de Alexandre da Cunha, materiais associados ao universo industrial – como plásticos, resinas e fibras sintéticas – tornam-se centrais na construção da obra. Em ambos os casos, esses elementos são deslocados de seus contextos habituais e reinscritos em novas relações entre forma, espaço e percepção, evidenciando como a experimentação com a matéria pode expandir os limites tradicionais da pintura e da escultura.

A Gomide&Co agradece às galerias Almeida & Dale, representante de Dudi Maia Rosa, e Luisa Strina, representante de Alexandre da Cunha, por apoiarem a realização da exposição.

A permanência e a vitalidade de uma linguagem.

A Galeria Mayer Mizrahi, Jardim Paulista, São Paulo, SP, apresenta a exposição “Op-Art – Ilusão e Inclusão”, que reúne cerca de 26 obras entre pinturas, relevos, objetos e esculturas, centradas na investigação dos fenômenos ópticos, das vibrações cromáticas e das articulações espaciais que definem a Op-Art e a arte cinética. A mostra propõe um percurso em que a percepção do espectador deixa de ser passiva para se tornar elemento ativo na construção da experiência visual.

Sem recorrer a uma leitura histórica linear, o recorte aproxima diferentes gerações e desdobramentos dessa linguagem, evidenciando continuidades e tensões entre práticas que compartilham o interesse pela instabilidade do olhar. Nesse contexto, as estruturas cromáticas de Dario Perez-Flores instauram campos vibratórios que se transformam conforme o deslocamento do observador, em diálogo com as investigações pioneiras de Jesús Rafael Soto e Carlos Cruz-Diez, nas quais cor e movimento se constituem como fenômenos perceptivos.

A dimensão espacial da mostra se expande nas proposições de Yutaka Toyota, cujas superfícies refletivas e construções em aço inox tensionam luz e matéria, e nas esculturas de Rafael Barrios e Julio Le Parc, que deslocam os princípios ópticos para o campo tridimensional. Em outro eixo, as composições de Yuli Geszti articulam ritmo, repetição e variação, enquanto as séries “Portholes”, de J. Margulis, introduzem uma abordagem contemporânea que enfatiza a relação entre profundidade, cor e ilusão.

Ao reunir esses diferentes núcleos, a exposição evidencia a permanência e a vitalidade de uma linguagem que, ao longo de mais de meio século, segue propondo novas formas de relação entre obra e espectador. Mais do que um efeito visual, a Op-Art se afirma aqui como campo de experimentação sensorial, em que percepção, deslocamento e participação se tornam elementos constitutivos da experiência estética.

Op-Art – Ilusão e Inclusão

Artistas: Dario Perez-Flores, Jesús Rafael Soto, J. Margulis, Yuli Geszti, Yutaka Toyota, Carlos Cruz-Diez, Julio Le Parc, Rafael Barrios e Victor Vasarely

Até 09 de maio.

Pinturas a quatro mãos.

31/mar

A Gabriel Wickbold Gallery, Vila Nova Conceição, em São Paulo, SP, apresenta “Código-Mãe”, exposição inédita de Jane e Gabriel Wickbold, mãe e filho, que reúne 22 pinturas desenvolvidas em colaboração direta ao longo de um processo contínuo no ateliê. Realizadas a quatro mãos e em dimensões variadas, as obras partem de um exercício compartilhado de construção pictórica, no qual gesto, repetição e permanência assumem papel central. A abertura acontece no dia 06 de abril.

O projeto se estrutura a partir de um retorno à produção de Jane Wickbold, artista com atuação desde a década de 1990, cuja trajetória foi interrompida no início dos anos 2000 e é agora retomada publicamente. Esse reencontro não se dá sob a lógica de uma revisão retrospectiva, mas como operação prática: ambos passam a trabalhar simultaneamente sobre as mesmas superfícies, estabelecendo um campo comum de ação e linguagem. Com trajetória consolidada desde 2012, Gabriel Wickbold desloca aqui sua prática para a pintura, assumindo o processo como eixo estruturante. Ao lado de Jane, desenvolve uma dinâmica baseada na repetição do gesto, na construção por camadas e na relação direta com o tempo de execução.

As obras não partem de uma imagem prévia, mas da inscrição contínua de marcas sobre a superfície. Cada traço corresponde a um intervalo, a um registro de presença, fazendo com que a pintura opere como campo de acumulação temporal. Mais do que resultado formal, o trabalho se constrói como processo visível, no qual a duração se torna matéria. As pinturas incorporam telas de sombream – materiais utilizados no cultivo de plantas sensíveis à luz direta – que passam a operar como elemento estrutural na construção das obras. Ao mesmo tempo em que sugerem proteção e mediação, essas superfícies introduzem um jogo de presença e apagamento, no qual a imagem se organiza por sobreposição e instabilidade.

“Código-Mãe” não se organiza apenas como colaboração, mas como investigação. Mais do que recuperar uma trajetória interrompida, o projeto coloca em questão a própria noção de ausência, ao sugerir que determinadas presenças continuam a operar na construção de uma linguagem, mesmo quando não ocupam um lugar visível. Ao deslocar a relação para o campo da linguagem, a exposição propõe uma leitura da prática artística como espaço de continuidade, no qual a autoria se constrói menos como afirmação individual e mais como resultado de processos de transmissão, muitas vezes invisíveis.

Até 06 de junho.

Exposição de dois artistas radicados na Suíça.

Em novo capítulo de sua temporada de 2026, o Espaço Cultural do Hotel Praça da Matriz (HPM), Porto Alegre, RS, abre às 18h do dia 08 de abril, a exposição “Convergências”, com obras de dois artistas radicados na Suíça. São desenhos e pinturas do senegalês Momar Seck, além de obras em técnica mista do brasileiro Edmundo Timm – este em sua primeira mostra individual. Edmundo Timm também está confirmado para o tradicional bate-papo “Roda de Cultura”, iniciativa que aproxima o público e protagonistas do setor. O evento será dia 14, às 17h, com entrada gratuita a qualquer interessado.

Trajetórias intercontinentais.

O carioca Edmundo Timm está radicado na Suíça, onde atua desde 1998 como artista plástico autodidata, professor e produtor cultural nas áreas de teatro, dança, música, artes visuais e mindfullness. Já trabalhou também nos Estados Unidos, Alemanha e Honduras, promovendo intercâmbios culturais e conexões em arte contemporânea. Em Porto Alegre, onde viveu durante boa parte da década de 1980, destacam-se iniciativas como a coordenação do projeto “Travessia” (2018), voltado ao intercâmbio entre jovens da Escola Internacional de Genebra (Ecolint) e a Fundação Pão dos Pobres. Participou, ainda, de montagens de mostras em instituições como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). Sua produção como artista plástico tem se voltado ao abstracionismo por meio de técnica mistas, combinada a abordagens clássicas na criação de uma linguagem moldada pela luz, natureza e movimentos orgânicos. 

O senegalês Momar Seck reside na Suíça, onde atua como pintor, desenhista e escultor. Diplomado pela Escola Superior de Formação de Professores de Arte de Dakar e pela Escola de Belas Artes de Genebra, é mestre em Artes Visuais pela Universidade de Estrasburgo, na França. Em três décadas e meia de carreira internacionalmente premiada, expôs em galerias e instituições de diversos países – inclusive no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), em 2018, ao integrar o projeto “Travessias”. Momar Seck selecionou dez obras para a exposição. Produzido por meio da combinação de desenho e pintura, o conjunto transita entre figuração e abstracionismo, em imagens nas quais linha e cor compartilham a mesma força expressiva. O resultado são silhuetas humanas, formas animais e vegetais, elementos simbólicos e fragmentados, na exploração de conceitos como memória, identidade e movimento.

Artistas mulheres de diferentes gerações.

30/mar

Em um formato exclusivamente digital, a Almeida & Dale, São Paulo, SP, apresenta uma curadoria de obras de seu acervo. “Traçado do Mundo” reúne artistas mulheres de diferentes gerações e nacionalidades. Com práticas que atravessam pintura, escultura, desenho e têxteis, essas artistas elaboram um campo no qual a materialidade, o gesto e os processos de construção de imagem se articulam a partir de deslocamentos entre linguagens e suportes.

 O conjunto evidencia procedimentos diversos que transitam entre abstração e figuração, fazendo emergir superfícies vibrantes, nas quais memória, tempo e experiência se entrelaçam. A recorrência de paisagens, mapas, corpos e matérias orgânicas aponta para uma compreensão do mundo como um campo instável, no qual territorialidade, natureza e cosmologia são continuamente reconfiguradas. Ao articular dimensões subjetivas e políticas, íntimas e coletivas, o conjunto propõe novos modos de ver, narrar e habitar o mundo.

Com obras de Alice Shintani, Daiara Tukano, Elena Damiani, Eleonore Koch, Guga Szabzon, Lais Myrrha, Lidia Lisbôa, Mariana Palma, Marina Woisky, Marlene Almeida, Maya Weishof, Miriam Inez da Silva, Nino Kapanadze, Rebeca Carapiá e Sara Ramo.

Conscientização ambiental através da beleza.

A artista visual Patrícia Secco apresenta Tramas – uma exposição que promove a conscientização ambiental através da beleza e do fazer manual, democratizando o acesso à arte contemporânea e oferecendo ao público do Centro Cultural Correios RJ, Centro, Rio de Janeiro, RJ, um refúgio de paz e inspiração, essencial para a construção de uma nova consciência coletiva.

Com curadoria de Carlos Bertão e design expográfico de Alê Teixeira,  a mostra é um percurso onde o Brasil, o mito e o sonho se encontram, que costura telas bordadas, máscaras pintadas com temas genuinamente brasileiros, uma instalação têxtil vibrante e esculturas em cerâmica que brotam de um universo onírico próprio: flores imaginárias brancas inspiradas na lenda de Atlântida.

As telas bordadas funcionam como cartografias sensíveis – linhas que se desdobram em rios, raízes, ventres e caminhos internos. Cada ponto é memória pulsante, gesto que sutura o invisível.

As máscaras, todas pintadas com temas do Brasil, revelam a multiplicidade de um imaginário que atravessa territórios e espiritualidades: fauna e flora tropicais, festas populares, narrativas afro-indígenas, rituais, proteção e encantamento. São rostos que emergem como guardiões simbólicos.

Até 09 de maio.

Casa d’Italia celebra 90 anos.

O Polo Cultural ItaliaNoRio inaugura, em 1º de abril, a exposição “Casa d’Italia do Rio de Janeiro: 90 anos”, com curadoria de Aristides Corrêa Dutra. A mostra celebra as nove décadas da aquisição do terreno onde seria erguida a Casa d’Italia – localizado na esquina das avenidas Beira-Mar e Santos Dumont (atual Avenida Antônio Carlos) – e revisita a trajetória histórica, política e cultural de um dos marcos da presença italiana na cidade. Ao longo de sua história, o edifício atravessou diferentes períodos e transformações, incluindo momentos de interrupção e reconfiguração de sua função, até chegar à recente revitalização da Praça Itália, reafirmando sua importância no cenário cultural do Rio de Janeiro.

“A exposição propõe não apenas um resgate histórico, mas também uma reflexão sobre memória, pertencimento e os vínculos culturais entre Brasil e Itália, evidenciando o papel da Casa d’Italia como espaço de encontro e intercâmbio ao longo das décadas”, afirma o Cônsul-Geral Massimiliano Iacchini.

O percurso expositivo está dividido em três núcleos. Na primeira sala, o público terá acesso aos projetos e planejamentos iniciais para a construção da Casa d’Italia, revelando o contexto de sua idealização. A segunda parte aborda um dos períodos mais emblemáticos de sua história: a apropriação do prédio pelo governo brasileiro e sua posterior devolução à comunidade italiana, já nos anos 1970, quando retoma sua função original.

Encerrando o trajeto, a terceira sala apresenta a ocupação institucional do edifício, destacando a chegada do Istituto Italiano di Cultura (IIC), em 1974, e a instalação do Consulado Italiano no Rio de Janeiro, no ano seguinte, consolidando o espaço como um importante polo de difusão cultural e diplomática. 

Vera Reichert em exibição no Recife.

27/mar

Com curadoria de André Venzon sendo um convite à contemplação e à reflexão sobre a relação entre a água e seus diferentes biomas, Vera Reichert apresenta a exposição “Sobre Águas” no Museu do Estado de Pernambuco (MEPE). Após itinerar por São Paulo, Brasília e Porto Alegre, a mostra chega ao Recife propondo um mergulho poético e sensorial nas múltiplas dimensões desse elemento essencial à vida.

Ao longo de mais de três décadas de investigação artística, Vera Reichert desenvolve uma poética singular em torno da água, explorando diferentes linguagens, como pintura, fotografia, vídeo, instalação e escultura. Sua trajetória é marcada por uma profunda conexão com ambientes aquáticos, inspirando-se na beleza e nas transformações de oceanos, rios, lagos e lagoas ao redor do mundo – já tendo mergulhado em mais de 30 destinos.

Reunindo mais de 100 obras, a exposição evidencia a capacidade da artista de capturar a essência da água em suas múltiplas manifestações. Fotografias subaquáticas revelam universos raros, onde luz e cor se fundem em composições delicadas; imagens de superfícies de lagoas aparecem emolduradas ou configuradas como gotas e pérolas de acrílico; escotilhas espelhadas evocam a experiência do mergulho.

Até 03 de maio.

Sobre a artista.

Vera Reichert nasceu em Não-Me-Toque, RS, 1949. Artista visual, mantém atelier em Campo Bom, RS. Sua obra, marcada pela poética das águas, transita entre fotografia, vídeo, instalação, pintura e escultura, explorando os múltiplos sentidos e simbologias desse elemento. Autora do livro “A Inquietude do Olhar”, no qual reflete sobre sua trajetória e a presença da água em sua produção. Vera Reichert já realizou 33 exposições individuais e participou de diversas mostras coletivas no Brasil e no exterior.

Sobre o curador.

André Venzon nasceu em Porto Alegre, RS, 1976. Vive e trabalha em sua casa/ateliê/galeria, no 4° Distrito da cidade. É artista visual, curador e gestor cultural. Mestre em Poéticas Visuais no PPGAV/IA-UFRGS, especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona/Espanha e graduado em Artes Visuais pelo IA-UFRGS. Dedica-se à pesquisa dos tapumes na paisagem urbana, de elemento arquitetônico a significante de operações poéticas. É coordenador da Galeria de Arte da Fundação ECARTA, desde 2018, é o atual curador geral do Museu de Arte de Porto Alegre – MAPA e da Pinacoteca Ruben Berta, em Porto Alegre, cidade onde vive e trabalha.

A captura do fato cotidiano.

26/mar

A artista Marjô Mizumoto exibe até o dia 18 de abril na Galeria Anita Schwartz, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, a exposição de pinturas “Aonde eu queria estar”. O texto de apresentação traz a assinatura de Vanda Klabin. 

Marjô Mizumoto manipula a linguagem imagética, fortemente figurativa, com alguns dispositivos narrativos aliados a imagens constitutivas de cenas domésticas, nos direcionando para o universo dos ícones da linguagem da arte pop, que solidifica a sua presença através de fragmentos do cotidiano atuantes na sua órbita poética. A pintura é o seu território preciso e ali encontramos os acordes de seu campo de ação. O plano da fotografia e alguns postulados da colagem são utilizados para aninhar a iconografia do fazer cotidiano no seu processo pictórico. Estabelece um micromundo e na soltura do seu imaginário, focado na construção da figura humana, coteja as experiências dos planos psicológicos e suas figuras emblemáticas adquirem uma função compositiva; a artista funda a sua persona em diferenciados cenários. Na sua estética narrativa, Marjô altera a sua capacidade de estar presente nas cenas efêmeras, sua matriz pessoal, e passa a ser a responsável pela captura do fato cotidiano, como alguém que descreve mundos. Traz, muitas vezes, representações de sua própria vida ou elementos constitutivos de situações visuais complexas e de um tempo saturado de significações.

A estrutura narrativa ganha novos contornos ao se colocar como a observadora de suas experiências vivenciais. Ela desenvolve um vigor cênico para acentuar esse discurso e fundar uma obra resultante da sua ausência. A presença de um outro corpo familiar como protagonista cria um regime de ambiguidades, como um dispositivo pulsional constante para as suas experiências artísticas, sem renunciar a uma contundência plástica. A maternidade é um tema recorrente na sua produção artística e envolve uma construção de códigos culturais. Marjô traz um ângulo diferente ao tocar na questão da identidade, na qual a projeção do corpo feminino não está presente na obra. Institui uma sensibilidade e uma formulação plástica que gravitam em uma linguagem visual própria.

É necessário olhar para as zonas cromáticas e para a dinâmica de sua ocupação. A imagem reina absoluta. Os objetos se instalam em primeiro plano, deixam de ser fugazes e se consolidam em um campo de relação de cores. Agora são materiais de observação, pulsam na superfície da tela, adquirem uma sensação tátil, quase palpável que parece despertar uma outra intimidade na cena. Um desejo de intensificação da realidade se faz presente e novas membranas se interpõem no nosso olhar. A realidade aqui foi fisgada, capturada de um local sem horizontes. Amplia os significados de uma intimidade de um mundo repleto de inquietações, apreendendo nesse território privado que transborda de cor os fios entrelaçados de uma memória acumulada de vivências.

A artista prepondera uma estrutura lógica, extraída de imagens reconhecíveis na vida cotidiana, inflamadas pela matéria pulsante de uma iconografia em que um acontecimento banal ou efêmero adquire uma intensidade plástica inesperada, provocante e, por vezes, acaba por tornar estranhas as representações outrora familiares. No fluxo nervoso dos seus gestos e pinceladas, a artista vai adicionar novos significados para reconfigurar outra ordem no seu trabalho de arte. É um desafio que parece encenar a sua vida, ao discutir continuamente seus enigmas: pensar a arte a partir de uma interpretação, agregar novas entidades e significações. Marjô particulariza os relatos pessoais através da ativação de suas constelações de suas vivências ao assimilar, no seu vocabulário visual, a questão dos retratos, onde captura as sensações subjetivas, que geralmente estão submersas no inconsciente. Na elaboração do personagem central, prevalece a questão identitária do outro, sempre um território duplicado. Quase como um exercício de desejos breves – histórias vividas, vestígios de memórias reconstruídos em cenas domésticas ou de natureza cotidiana -, seu processo de trabalho, ao desarrumar o arrumado, atua como um poder transformador, dado que a artista se apropria de imagens ou objetos removidos de sua natureza cotidiana e amplia seus sentidos em uma narrativa parcial, agora vinculada a um momento transitório; o fluir do tempo não está mais presente, como uma memória suspensa, criando uma multiplicidade de possibilidades e vai redirecionar o observador para novos eixos de leitura e significados. São cenas evocativas e curtas, com tonalidades intensas que passam a ordenar o nosso olhar, que é convocado a adentrar em cenas triviais, como interiores íntimos, flagrantes existenciais ou anotações da vida urbana nesse mundo tenso, expansivo e desigual.

Sua gramática visual traz ressonâncias históricas de artistas como Lucien Freud, Marlene Dumas, Jenny Saville, Edward Hopper e Wanda Pimentel, entre outros. Nesse flerte com a linguagem do trivial, o banal torna-se objeto de investigação plástica, como uma linha decisiva para o entendimento da complexidade do mundo. As cenas deixam de ser fugazes, ganham novos contornos e se consolidam em um campo de relações de cores, pulsátil nas suas fragmentações estéticas. Um momento fraturado, um extravio do cotidiano, convertido em um acontecimento plástico e em tema central. As obras são unidades intensas; uma condensação cromática guarda memórias vivas de sua história e frequentes vestígios familiares detêm um conteúdo ao sinalizar um universo anônimo e trazem à tona as assimetrias do mundo, com suas fissuras, tensões ou enigmas. E é nesse universo que se constrói e se reconstrói, como uma malha flutuante para o olhar, que percorremos esse itinerário estético, tendo a pintura como eixo condutor e como um dispositivo plástico para o entendimento da dinâmica do mundo contemporâneo.

Vanda Klabin é cientista social, historiadora e curadora de arte. Nasceu, vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Sobre a artista.

Marjô Mizumoto nasceu em 1988 em São Paulo, SP. Vive e trabalha em São Paulo.  Marjô Mizumoto é uma artista visual conhecida por seus retratos a óleo que capturam personagens do cotidiano em cenários quase teatrais. Suas pinturas, que misturam referências da pintura tradicional e elementos do universo Pop, funcionam como crônicas visuais de memórias afetivas e familiares. Formada em Artes Plásticas pela FAAP em 2010 e com pós-graduação em História da Arte pela mesma instituição, Marjô trabalhou com artistas renomados como Rodolpho Parigi e Ana Elisa Egreja, além de colaborar no painel de Candido Portinari na PUC-Rio. Suas obras integram coleções importantes, como o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e o Museu de Arte Contemporânea de Jataí. Marjô foi contemplada com o 8° Prêmio Artes Tomie Ohtake e participou do 32° Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo. Em 2021, recebeu o 11° Prêmio DASartes, consolidando-se como uma das artistas mais promissoras da cena contemporânea brasileira.

 

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