Olá, visitante

AGENDA CULTURAL

Fim é o nome do que vem antes do começo.

21/out

J.P. Cuenca reúne cerca de 70 obras nascidas de 144 processos judiciais, com curadoria de Victor Gorgulho e texto crítico de Cipriano. A exposição abre em 24 de outubro na NND|AZECO, São Paulo, SP.

Em junho de 2020, um tuíte satírico sobre o então presidente da República e a Igreja Universal rendeu a João Paulo Cuenca 144 processos quase idênticos, movidos por pastores em cidades espalhadas pelo país, além de uma enxurrada de ameaças de morte, e foi dentro de casa, enquanto a defesa corria nos tribunais, que ele começou a desenhar os próprios símbolos de proteção.

Seis anos depois, esse repertório ganha as paredes da galeria em pinturas a óleo sobre colagens, mosaicos feitos de manuscritos e originais de livros, assemblages e uma série de 15 néons, com cruzes, tridentes e setas surgindo entre camadas de grafite, penas, sementes e spray, enquanto a luz dos tubos leva o desenho para o ar, “em grandes cores e alto contraste”, como define o artista.

Victor Gorgulho, que acompanha Cuenca há mais de dez anos e assina aqui a primeira colaboração formal entre os dois, vê um artista que “esgarça amarras estéticas” até alcançar “um território livre”, onde arte e magia caminham de mãos dadas, e uma série movida por algo mais próximo do diálogo do que do revide, “um convite à proximidade, um desejo de enxergar o outro”, que encontra no sincretismo religioso brasileiro o chão para essa conversa. “Não há lados vencedores, não há bom ou mau”, resume o curador.

É desse Brasil sincrético que parte a leitura de Cipriano em Riscar o segredado: encantar a intenção, texto que aproxima os desenhos de Cuenca dos pontos riscados da umbanda, herança africana que dá forma ao que não se vê, e reconhece no artista “aquele que desenha o invisível que protege o segredo que guarda”. Nessa chave, o néon, um gás preso num vidro transparente, vira quase uma prova material da ideia, “cheio de invisível”, capaz de acordar “o suporte de seu sono”.

O 144 vem do Apocalipse, doze tribos vezes doze apóstolos, a conta dos selados no Juízo Final. O caso que dá nome à série também deixou rastro fora do ateliê, ao contribuir para que o STF reconhecesse, em 2024, o assédio judicial contra jornalistas e levar o MPF a mover, no anoseguinte, uma ação civil pública contra a Igreja Universal, e a viagem que Cuenca fez pelo país atrás dos pastores virou o longa “144 – Apocalipse Não”, premiado no Festival do Rio com a Menção Honrosa da Associação dos Correspondentes de Língua Estrangeira e em cartaz na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Sobre os artistas e o curador. 

J.P. Cuenca é escritor, cineasta e artista visual, nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. É autor de seis livros traduzidos para oito idiomas e vencedor do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional. Foi eleito um dos 20 melhores jovens romancistas brasileiros pela Granta. “144 – Apocalipse Não”, que integra a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é seu segundo longa-metragem.

Victor Gorgulho, curador, jornalista e pesquisador, mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Foi curador-chefe do Instituto Inclusartiz, realizou projetos ao lado de nomes como Hans Ulrich Obrist e Paulo Herkenhoff. Assinou exposições na Tanya Bonakdar Gallery, em Nova York, na Fortes D’Aloia & Gabriel e na Carpintaria; coeditou o livro “Paula Rego e Adriana Varejão: Entre os vossos dentes” (Lenz Press, 2025). Escreveu textos críticos para mais de cem artistas.

Cipriano, artista e pesquisador, nasceu em Petrópolis, RJ, em 1981. Sua macumba pictórica parte da gramática dos cultos afro-brasileiros, como a Umbanda, e combina materiais ligados às práticas espirituais de matriz bantu, como pemba, carvão e tecido. Mestre em Educação pela UFJF, participou de exposições no MASP, no MAR, no MAC Bahia e no Sesc. Tem obra no acervo do MASP e em 2027, estará na Bienal de Sharjah.

Até 20 de fevereiro de 2027.

Exposição interativa desafia a imaginação.

E se um fogão cantasse e as cores tivessem sabor? O Museu Vale, Galeria Gabinete, Parque Cultural Casa do Governador, Praia da Costa, Vila Velha, ES, abriu exposição interativa que desafia a imaginação. A inédita “Imaginalivre!”, do coletivo Opavivará! ocupa três espaços da Grande Vitória. 

Até onde a imaginação pode ir? Na exposição “Imaginalivre!”, ela é desafiada a cada obra. Um fogão canta, cadeiras de praia deixam de ser individuais, redes aproximam histórias e as cores podem até ganhar sabor. Na mostra gratuita e inédita do coletivo carioca Opavivará!, produzida pelo Museu Vale, cada instalação convida o público a participar, mostrando que, quando a arte rompe com o óbvio, o visitante também deixa de ser apenas espectador. Ao longo de sua temporada, até dezembro de 2026, a exposição ocupa três espaços da Grande Vitória, transformando a visita em uma experiência coletiva, sensorial e lúdica.

A exposição reúne instalações, vídeos e dispositivos relacionais que atravessam mais de duas décadas de produção do coletivo. A mostra se expande para o Parque Botânico Vale e o Parque Costeiro Vale, em Vitória, onde duas obras ganham novos diálogos com a paisagem natural e permanecem em cartaz até 13 de dezembro.

Um ato de abertura e sensibilidade.

20/out

A Gentil Carioca apresenta, no Stand 13, Hall: Pink A, uma seleção de obras que dialoga com o tema desta edição, “Fancy: A Flexible, Acrobatic Body” (Fancy: Um Corpo Flexível e Acrobático) em Turim, Itália. A partir dessa questão central, nossa apresentação propõe explorar a imaginação e o corpóreo enquanto ferramentas críticas e políticas, destacando a capacidade da arte de ampliar nossa percepção do mundo e a compreensão de experiências diversas.

O conjunto reunido coloca em jogo um exercício de pensamento, que convida o público a refletir sobre o presente, vislumbrar futuros possíveis e aproximar-se das complexidades culturais que nos atravessam. Ao colocar a criação artística no centro do diálogo coletivo, mostrando que imaginar é também a experiência que nos leva a reconhecer o valor de um ato de abertura e sensibilidade.

Entre 30 de outubro e 01 de novembro.

As relações entre Brasil e Índia.

A exposição “Ananta Ananda” apresenta pela primeira vez no Centro Cultural Veras, Florianópolis, SC, uma mostra individual do artista Ernesto Neto. Reconhecido por suas esculturas e instalações que envolvem o espectador, Ernesto Neto desenvolve há anos um trabalho atento em torno da imagem da serpente em diferentes tradições do mundo, compreendendo-a como símbolo de continuidade, transformação e interconexão entre formas de vida. Para o Veras, o artista se concentrará na figura de Ananta, a serpente que carrega o infinito, na tradição védica. Em associação a Ananda, a bem-aventurança inerente a toda forma de vida em seu estado espiritual, a exposição integrará as relações entre Brasil e Índia que o Veras preserva desde sua origem, especialmente no que concerne às cosmologias indígenas brasileiras e às tradições védicas.

Sobre o artista.

Ernesto Neto nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, 1964. Produz esculturas e grandes instalações imersivas, utilizando técnicas artesanais como o crochê para compor estruturas flexíveis e interativas que ativam os nossos cinco sentidos, com a incorporação de elementos botânicos, ervas e especiarias. O artista tece membranas e peles, redes e invólucros que usam a gravidade e o equilíbrio como recursos de composição. Seus trabalhos mantêm sempre uma relação com a natureza, seja por meio de suas fisionomias biomórficas, seja no caráter interligado dos elementos que compõem seus espaços. Os ambientes plurissensoriais de Ernesto Neto são percorridos e habitados, formando locais de encontro, troca e reflexão. O público não é pressuposto como um grupo de observadores, mas acolhido como um coletivo de presenças e corpos ativos nas instalações.

Até abril de 2027.

Esculturas de formas orgânicas em Paris.

O fascinante universo de Sonia Gomes com a exposição “Cœur sauvage”, é o cartaz atual do Palais de Tokyo, em Paris. A exposição convida a apreciar uma abordagem original da arte contemporânea, na qual tecidos, cordas, rendas e materiais reaproveitados se transformam em esculturas expressivas. O Palais de Tokyo, um espaço dedicado à arte contemporânea, está localizado no número 13 da Avenue du Président-Wilson, no 16º arrondissement de Paris. 

Sobre a artista.

Nascida em 1948 em Caetanópolis, MG, Brasil, Sonia Gomes desenvolve uma prática artística reconhecida pelo uso de tecidos e materiais variados. Sua trajetória pessoal e cultural alimenta uma obra na qual os materiais ocupam um lugar essencial. Ela trabalha especialmente com tecidos reaproveitados, cordas, fios, bordados e elementos de renda para criar esculturas de formas orgânicas. Sua abordagem se baseia na transformação. O trabalho de Sonia Gomes também se insere em uma reflexão sobre as heranças culturais, especialmente as afro-brasileiras. Sua abordagem artística dialoga com tradições, práticas criativas e saberes artesanais que contribuem para a riqueza de sua identidade cultural.

Até 14 de fevereiro de 2027. 

Uma exposição especial.

Até 20 de dezembro, a Casa Baka, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS, recebe a exposição “No fundo da superfície”, que reúne obras do artista, professor e pesquisador de Santa Vitória do Palmar, Lauer Santos, e artistas convidados de diferentes gerações, como Cris Bierrenbach, Mariana Lemmertz e Rafa Curtinovi. As produções destes artistas estabelecem diálogos com a pesquisa de Lauer Santos. 

Com curadoria de Andrei Moura e Diego Groisman, a exposição parte de um conjunto de trabalhos de Lauer Santos sobre intimidades, olhares e desejos. Essa estrutura aparece em sua recente série “Vestiários”, composta por pinturas que capturam a atmosfera destes espaços, nos quais as fronteiras entre público e privado são diluídas e as interações pessoais ganham outros contornos; e também na série “Reflexos”, que explora a aparição de formas em superfícies especulares. Para além de pensar a superfície em oposição ao que está em profundidade, a mostra articula relações e tensionamentos sugeridos pelos termos, considerando essas dimensões como constituintes da experiência dos corpos, da subjetividade e das relações humanas. 

Fronteira entre o reconhecível e o incerto.

Em sua primeira exposição individual, “O Enigma da Pedra”, na Gomide&Co, Cerqueira César, São Paulo, SP, Nilda Neves apresenta um novo conjunto de pinturas em que grutas e paisagens noturnas ocupam lugar de destaque. O que ainda é possível enxergar quando quase não há luz? Nesse limite da visão, o olhar passa a operar de outra maneira: reconhece silhuetas, entrevê personagens, encontra sinais, símbolos e presenças que permanecem entre o visível e o imaginário, enquanto a luminosidade intensa da lua, das estrelas e dos pequenos pontos de luz atravessa paisagens onde a noite ainda é verdadeiramente escura.

É nessa fronteira entre o reconhecível e o incerto que Nilda Neves dá continuidade à sua observação da natureza, fazendo conviver aquilo que viu e viveu com o que ouviu, lembrou e imaginou, em uma espécie de cartografia do sertão, de suas histórias, mitos, fauna, flora e formas de vida. Macambiras, mandacarus, barrigudas e baobás, fósseis, ninhos de aves, casas de abelha, armadilhas e um conjunto de elementos compõem um sertão que não é apenas geográfico, mas também afetivo, narrativo e mental. Artista multidisciplinar, Nilda Neves estudou contabilidade e foi professora de matemática, comerciante, cabeleireira, entre outras profissões, antes de se dedicar às artes visuais e à literatura, com a pintura surgindo mais tarde na sua vida, e o amplo reconhecimento vindo em torno de 2015. Hoje, suas obras integram as coleções do Museu de Arte do Rio – MAR, do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC USP, do Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba – MACS e da Pinacoteca de São Paulo. Além da ascensão institucional, sua produção construiu ao redor de si uma comunidade de admiradores. A exposição inédita da Gomide&Co traz um novo olhar para este universo já conhecido e a oportunidade de acompanhar seus novos desdobramentos. Com texto crítico de Renato Menezes, curador da Pinacoteca, a exposição abre em 29 de outubro, encerrando a programação expositiva de 2026 da Gomide&Co.

Até 22 de janeiro de 2027.

Um conflito entre rigidez e movimento.

16/out

O MAM Rio apresenta “Projeto parquinho”, da artista e professora Andréa Hygino, como parte da programação do Espaço Petrobras, dedicado à apresentação de obras de jovens artistas comissionadas especificamente para o foyer do museu. Elaborada especialmente para o espaço, a instalação reúne cinco estruturas híbridas que combinam elementos de um parque infantil com cadeiras escolares, criando brinquedos que, pela própria configuração, impossibilitam a brincadeira. A obra parte da imagem do parquinho para refletir sobre os mecanismos de disciplina e controle presentes no ambiente escolar e questionar as regras que orientam os processos de ensino e aprendizagem. Na obra de Andréa Hygino, a disciplina e o controle são desafiados pela impossibilidade de obedecer às regras do jogo. Ao impedir o uso dos brinquedos, “Projeto parquinho” cria um conflito entre rigidez e movimento, entre o desejo de utilizar o brinquedo e a frustração diante da impossibilidade de fazê-lo. A curadoria é de Phelipe Rezende.

Sobre a artista.

Andréa Hygino é artista visual, arte-educadora e professora. Possui bacharelado em artes visuais (UERJ), mestrado em linguagens visuais (UFRJ) e atualmente cursa o doutorado em artes visuais (UFMG). A artista se debruça sobre o ambiente escolar e sobre os processos de aprendizado, adestramentos, disciplina e repetição. Encontra na desobediência de estudante o lugar necessário da crítica e da criação. Em seus trabalhos, as memórias de infância – como a escola criada por sua mãe e que funcionava em casa – entrelaçam-se às experiências como artista e professora e às condições da educação pública no Brasil. Integrou exposições em espaços como Instituto Tomie Ohtake, Galeria Antônio Sibassoly, Paço Imperial e Kunstverein Bielefeld. Participou de residências no JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia,  Bag Factory Artists’ Studios, Artistes en Residence e Silo – Arte e Latitude Rural. Foi vencedora do 3º Prêmio SeLecT de Arte e Educação (categoria Camisa Educação, realizada em coautoria com Luiza Coimbra), do Prêmio FOCO ArtRio 2022 e do Prêmio PIPA 2025. Participou da equipe curatorial da 14º Bienal do Mercosul (2025), Porto Alegre, RS, como curadora educativa.

Até 17 de março de 2027.

Últimos dias de Vonta de vi dada dada.

A Fortes D’Aloia & Gabriel apresenta “Vonta de vi dada dada”, em seus últimos dias, a nova exposição individual de Ernesto Neto, que foi inaugurada simultaneamente nos espaços Barra Funda e Jardins da galeria, em São Paulo. 

Reunindo um novo conjunto de instalações escultóricas, trabalhos sobre papel e intervenções textuais, a mostra amplia a investigação de longa data do artista sobre a interdependência entre corpos, materiais e sistemas vivos. Distribuídas entre os dois espaços, esculturas em crochê de algodão, cordas trançadas, bambu, aço corten e argila assumem configurações orgânicas que evocam insetos, raízes, montanhas, florestas e outras formas híbridas, propondo a escultura como um campo de relações, movimento e transformação contínuos.

Em conjunto, as obras transformam a galeria em um ecossistema permeável, mais do que em um espaço expositivo neutro. Escultura, desenho, escrita e som articulam-se como manifestações de uma visão de mundo marcada pelo pensamento cosmológico, pela interdependência ecológica e pelo conhecimento incorporado. Em vez de estabelecer separações entre natureza e cultura, ou entre arquitetura e corpo, a exposição propõe um ambiente em que formas humanas e não humanas coexistem em constante intercâmbio, reafirmando a compreensão de Neto de que a vida se sustenta por meio das relações, da reciprocidade e da vitalidade compartilhada entre todos os seres.

Um Brasil observado por quem o habita.

15/out

A Zipper, Jardim América, São Paulo, SP, exibe até 18 de dezembro, a exposição coletiva “Brasil em Camadas”.

A mostra, propõe romper com a tradição de distanciamento, partindo de um ponto de vista situado no território em questão e descartando a paisagem-espetáculo. Um Brasil observado por quem o habita, com suas dores e conflitos, mas também com seus prazeres, afetos e imaginações.

Nas telas de Miguel Chiquitano, o tema remete à tradição que fascinou os viajantes europeus durante o período colonial. Suas pinturas eliminam a linha do horizonte, e sem ele. E sem horizonte, não há distância: a contemplação é conduzida para dentro da mata, para o emaranhado de raízes e sombras. 

A revisão decolonial segue na obra “Mundus Hodiernus”, de Camille Kachani, na qual o artista reconstrói um mapa mundi, inspirado pelo contato com um do século XVII que representava o chamado “mundo moderno”. Os vastos oceanos azuis são compostos por cordas náuticas, miçangas e fragmentos de azulejos encontrados em antiquários de Lisboa, alguns datados de cerca de 1750.

Nas fotografias de João Castilho, a cor ocre-avermelhada, próxima da ferrugem e do minério, afasta a flora brasileira do exotismo tropical vendido no imaginário exterior. Já a escultura de Marco Tulio Resende, composta por madeira e barro de diferentes municípios mineiros.

As fotografias da série “Cabanagem”, de André Penteado, trazem à superfície conflitos históricos brasileiros pouco populares. O título remete à Revolta da Cabanagem (1835-1840), que ocorreu na Província do Grão-Pará, uma das rebeliões mais violentas da história do país, quando populações negras, indígenas e ribeirinhas se levantaram contra domínio econômico dos portugueses na região amazônica, que persistiu mesmo após a independência do Brasil. 

A camada do conflito reaparece em chave mais recente na xerografia “Sufoco” (1979), de Mario Ramiro, realizada quando o país ainda vivia sob os efeitos da ditadura militar. Pioneiro do uso de impressões xerográficas e logo depois integrante do coletivo 3NÓS3, Mario Ramiro registra um corpo comprimido contra a superfície da máquina, num gesto em que a precariedade técnica do meio se faz medida do cerceamento político. 

No presente, a construção do território avança para o espaço urbano nas pinturas de Ian Salamente. Em um contexto em que as periferias brasileiras são fetichizadas, o artista as toma como pretexto para composições marcadas pelo afeto. 

Essa atenção ao Brasil habitado se prolonga nas pinturas de Rodrigo Cunha, que recolhe o país na escala do cotidiano e do interior doméstico. Em telas de tonalidades rebaixadas, figuras solitárias surpreendidas em poses contidas dividem o quadro com paisagens emolduradas dentro da própria pintura..

Em suas composições digitais, Marcelo Tinoco parte da fotografia para reinventar tais cenários naturais por meio de cores intensificadas, contornos acentuados e intervenções que misturam realidade e fantasia. Nas pinturas de Felipe Góes, pinceladas expressivas e paletas vibrantes criam paisagens de “não-lugares”, que fazem da natureza uma experiência sensorial. Já Flávia Junqueira constrói suas instalações justamente em lugares associados ao imaginário turístico brasileiro.

Por fim, a fotografia de Rodrigo Braga projeta a paisagem para um horizonte mítico. Nascido na região amazônica, o artista desenvolve há mais de vinte e cinco anos uma pesquisa sobre as relações entre os seres vivos e o ambiente que os circunda. Em conjunto, as obras discorrem sobre como as imagens do país foram historicamente construídas e continuamente reinventadas. Dessa posição, emerge a densidade de um território assumido em sua própria complexidade.

Até 18 de dezembro.

Sua mensagem foi enviada com sucesso!