Pedro David e a Fase Catarse

12/nov

 

Fotógrafo representado pela Galeria da Gávea, Rio de Janeiro, RJ, Pedro David apresenta sua “Fase Catarse” em sua primeira exposição individual na cidade. A mostra reúne três séries produzidas entre 2008 e 2011 – “Aluga-se”, “Coisas caem do Céu” e “Última Morada”. Em comum, elas trazem a interpretação do ambiente urbano particular do artista mineiro nascido em Santos Dumont.

 

A exposição traduz a leitura de Pedro David para momentos de introspecção, incômodo e superação vivenciados nestes quatro anos. Aborda a exaustiva busca para encontrar um lugar para se viver nos centros urbanos, a falta de educação de vizinhos, e o esforço de recuperação após a morte da mãe por meio de um olhar poético sobre seu ambiente e pertences.

 

Cada um dos trabalhos foi produzido enquanto o artista vivenciava tais situações cotidianas, em um processo no qual a fotografia servia, a cada registro, como instrumento de catarse. “As fotos me guiaram por essas situações, me ajudando a entendê-las e a passar por elas. Não à toa decidi reunir as três séries em uma única mostra, pois juntas representam um momento importante na minha vida”, comenta.

 

São ao todo cerca de 30 fotografias impressas em diversos tamanhos, além de uma instalação áudio visual composta por fotografias editadas em vídeo, acompanhadas por pequenos poemas autorais que introduzem cada série.

 

 

Aluga-se, 2008

 

Na primeira série, o artista apresenta uma coleção de fotografias realizadas em apartamentos vazios, oferecidos para locação e visitados em 2008 enquanto procurava um novo lar. São paredes vazias, que registram o caminho da luz dentro destes ambientes. “Aluga-se” parte de uma metáfora sobre a vida nos grandes centros. A busca da luz, presente nas fotografias, alude diretamente à observação do futuro inquilino, que observa a luminosidade dos apartamentos visitados, e simboliza a busca de sentido do urbanóide contemporâneo”, explica.

 

 

Coisas Caem do Céu, 2008/2009

 

Já no segundo momento, objetos insignificantes, lançados por vizinhos por suas janelas e depositados na área privativa de seu apartamento após busca frenética registrada na série “Aluga-se”, foram colecionados e cuidadosamente fotografados em ´close up´,  técnica semelhante à utilizada para fotografar esculturas. “Objetos que nem sequer mereceram ser dispensados à lixeira, tinham sido simplesmente lançados para fora das vidas dessas pessoas. Ganharam então uma atenção especial depois de serem encontrados sobre o piso cimentado da minha residência”, conta.

 

 

Última Morada, 2010

 

A trilogia é encerrada com 15 fotografias editadas em um vídeo, sequenciadas em lentas fusões e acompanhadas por um som ofegante de respiração. Os trabalhos representam o retorno do artista ao apartamento que antes compartilhava com sua mãe, após morte dela, para esvaziá-lo. Foi um mês de visitas antes de tirar qualquer coisa, fotografando sua última morada. Com o auxilio dos registros, a antiga presença foi transformada em permanente ausência.

 

 

Sobre o artista

 

Nascido no município de Santos Dumont, Minas Gerais, em 1977, Pedro David vive e trabalha entre Nova Lima e Belo Horizonte. Fotógrafo e artista visual, graduado em jornalismo pela PUC-MG, em 2001, cursou pós-graduação em artes plásticas e contemporaneidade na Escola Guignard, UEMG, 2002. Tem três livros publicados – “Paisagem Submersa” pela Cosac Naify 2008, “O Jardim”, pela Funceb 2012 e “Rota Raiz” pela Tempo D´Imagem 2013. O artista possui trabalhos em coleções como a do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Musée du Quai Bralnly, Paris, e a prestigiada Coleção Pirelli – MASP.

 

Entre as mostras individuais, destacam-se a realizada na Galeria Astarté, Madri, Espanha – 2014, MAM – Bahia, Salvador, 2012, Lemos de Sá Galeria, Belo Horizonte, 2012, Fauna Galeria, São Paulo, 2012, as mais recentes. Entre as coletivas, participou da I Bienal de Fotografia do MASP, São Paulo, 2013, Photoquai, Paris, 2013 e em Esquizofrenia Tropical, Photoespaña – Madri – 2012, além das realizadas no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Fortaleza-CE, 2012, Ex-Teresa arte Actual, México D.F., 2011, Museu da Imagem e do Som, São Paulo – 2011, Geração 00, Sesc Belenzinho – São Paulo, 2011, Noordelicht Photogallery, Groningen, Holanda, 2008 e na 5ª Bienal de Fotografia e Artes Visuais de Liége, Mammac – Liége, Bélgica, 2006. No currículo contam ainda prêmios como o Nexo Foto, Madri, Espanha, 2014, o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, 2011, Prêmio União Latina – Martín Chambi de Fotografia, 2010 e o Prêmio Porto Seguro Brasil de Fotografia, 2005, entre outros.

 

 

De 14 de novembro de 2014 a 30 de janeiro de 2015.

Em São Paulo e Ribeirão Preto

06/nov

Desde que inaugurou a unidade de São Paulo em março deste ano – a Galeria Marcelo Guarnieri encerra a programação de 2014 com a coletiva “Contínuo”, unindo, simultaneamente, uma  exposição nas duas unidades, em São Paulo e Ribeirão Preto. A partir do dia 08 de novembro (sábado), no espaço da Alameda Lorena, o público pode conferir as recentes pesquisas de 27 artistas da geração contemporânea, em diversas linguagens como vídeo, instalação, pintura, fotografia e escultura. Destaques para a instalação de Amélia Toledo, para o ensaio sobre a Amazônia do fotógrafo Edu Simões, e para as obras de artistas como Deborah Paiva, Ana Paula Oliveira, Pedro Urpia, Marcus Vinicius, Luiz Paulo Baravelli, Flávia Ribeiro, Gabriela Machado e Rogério Degaki.

 

Dando continuidade em suas pesquisas acerca da pintura tridimensional, Amélia Toledo apresenta a instalação “Sem Título”, como um dos destaques inéditos da exposição. Cordas que pendem do teto ao chão, pintadas na cor azul, verbalizam um convite à relação entre o espaço, a obra e a percepção do público. “Horizonte”, instiga pelo inusitado uso de acrílico com o linho em grande dimensão.

 

Integrante do novo elenco que a galeria exibiu na edição da SP-Arte/Foto deste ano, Edu Simões propõe a série dos anos 80 com 12 imagens intituladas “Amazônia”. Na poética visual do artista, salta aos olhos o uso da linguagem P&B, como contraponto ao imaginário recorrente quando se aborda uma das regiões mais ricas em natureza do país. Há espaço nas fotografias para os nativos e trabalhadores, como para a vegetação e a paisagem com as suas texturas, dobras que criam outras figuras e refletem o papel que o jogo de luzes possui em sua fotografia autoral.

 

Na pintura, o trabalho de Deborah Paiva sugere temas do cotidiano, as relações sociais pensadas a partir das distâncias espaciais e temporais, a impossibilidade dialógica na solidão, como inevitáveis da condição humana. Suas imagens trabalham estes temas, contrapondo-os com o uso da técnica de guache sobre papel. Utilizando uma técnica diversa, a de óleo sobre papel, a artista possibilita outro olhar de seu trabalho em obras como “Dança”, “Sem Título”, “Sem Título” e “Vernissage”, todas de 2014, nas quais os tons de preto e branco prevalecem. Por seu turno, Marcus Vinicius, mostra um desdobramento de sua individual realizada na unidade de São Paulo neste ano.  Em seu universo de pesquisa, manifesta-se sua investigação a partir da materialidade das obras, de um elemento central desenvolvido em quinze anos de carreira, a Estrutura Quadro. O conceito deve ser compreendido como uma estrutura com dimensões pré-estabelecidas, que ligada à parede preserva seus caracteres bidimensionais, cujos elementos podem ser estudados separadamente e repropostos segundo uma ordem estabelecida pelo artista.

 

Ana Paula Oliveira repensa as dimensões das obras na sua pesquisa em “Harbour View”,  ao propor esculturas em pequeno formato. Criando uma espécie de sobreposições de telas de vidros transparentes colocadas assimetricamente lado a lado, os objetos sugerem espaços e perspectivas de olhares em relação com o ambiente. Pedro Urpia mostra o seu “Arquivo à deriva”, um objeto em formato de arquivo, no qual mini portas laterais guardam seis pinturas diferentes. Apresentadas na década de 80 no MAM-SP as icônicas estruturas de metal de Luiz Paulo Baravelli integram-se à exposição com mais uma série de pinturas inéditas. As esculturas vazadas podem ser compreendidas, a partir de suas interações com pontos de apoios, como a parede. Ainda nesta linguagem, duas esculturas de parede em preto e dourado de Flávia Ribeiro. Conhecido pelo seu universo com forte apelo do imaginário lúdico, Rogério Degaki – artista falecido em 2013 – terá duas peças esculturas apresentadas.

 

Num total de mais de 70 obras, o conceito curatorial de “Contínuo”, além da aproximação de diversas linguagens e artistas de vários períodos, insere a possibilidade de conhecer desdobramentos das recentes pesquisas dos 27 nomes que integram a coletiva. “Trata-se de um panorama dos artistas representados pela Galeria”, explica Marcelo Guarnieri. Em março, durante a ocasião de abertura da unidade de São Paulo, o galerista afirmou, ainda, o desejo em propor um intercâmbio entre as duas unidades.

 

“Contínuo” encerra o ano de 2014 na esteira desta proposta, trazendo a mais recente produção artística contemporânea, com nomes como Alice Shintani, Amelia Toledo, Ana Paula Oliveira, Ana Sario, Cristiano Mascaro, Deborah Paiva, Edu Simões, Flávia Ribeiro, Gabriela Machado, Gerty Saruê, Guilherme Ginane, Guto Lacaz, Ivan Serpa, João Paulo Farkas, José Carlos Machado, Liuba, Luciana Ohira e Sergio Bonilha, Luiz Paulo Baravelli, Marcello Grassmann, Marcus Vinicius, Mariannita Luzzati, Masao Yamamoto, Paola Junqueira, Pedro Hurpia, Renata Siqueira Bueno, Rogerio Degaki e Silvia Velludo.

 

 

Abertura em São Paulo: 08 de novembro (sábado), das 10 as 19 horas.

 

Abertura em Ribeirão Preto: 28 de novembro (Sexta-feira), das 19 as 22 horas.

O TOM DO AZUL

04/nov

O Gris Escritório de Arte, Pinheiros, São Paulo, SP,  abre a exposição coletiva “#kindofblue”, com curadoria de Sue-Elie Andrade-Dé, composta por cerca de quarenta fotografias de Beto Riginik, Cassandre Sturbois, Cholito Chowe, Julia Milward, Gabriela Portilho, Luiz Trezeta e Victor Dragonetti, dois desenhos e uma peça exclusiva do designer de mobiliários e artista plástico Rodrigo Edelstein, além de uma instalação com esculturas, da artista plástica Norma Grinberg, e um livro de Julia Milward. Inspirada na cor azul e em todas as possibilidades criativas que a envolvem, a mostra acontece sob uma perspectiva de improvisação, de multiplicidade, imersa em cores que delimitam o espaço do indefinível, construindo e desconstruindo elementos.

 

Através do tempo, o azul deixou de ser apenas uma cor – evoluiu e se tornou um conceito versátil. Em nossa sociedade, o azul tem o efeito psicológico do frio e da masculinidade, mas é também considerado como a cor da verdade, e de forma mais negativa, da melancolia e da morte. “Quem nunca se assustou ao ver aparecer o famoso ‘blue screen’ na tela do computador?”, comenta a curadora da exposição. Em “#kindofblue”, a intenção é explorar todos esses conceitos, em obras que não necessariamente reproduzem a coloração, mas que, de alguma forma, transmitem as sensações que o azul carrega. Citando algumas peças que fazem parte da mostra, uma fotografia de um crânio humano coberto com tinta azul, de Cholito Chowe; Gabriela Portilho expõe “Luz”, com uma paisagem composta por coqueiros e um fundo degradê com tonalidades que vão do cinza ao azul; Victor Dragonetti apresenta “Ana”, fotografia em preto e branco retratando uma mulher tirando a blusa, sozinha em um ambiente melancólico; e “Ópera do Malandro”, em que Beto Riginik fotografa um homem vestido de mulher em um clima vintage de câmeras analógicas antigas, com fundo que mescla diferentes tons de azul.

 

Para a mostra, destacam-se como referências o famoso disco de jazz de Miles Davis, “Kind of Blue” – do final da década de 1950, composto como uma série de esboços “modais”, com o intuito de deixar os músicos interpretarem as músicas no improviso, da forma mais espontânea possível; O artista francês Yves Klein, que se proclamava dono do céu, inventando o IKB (International Klein Blue), um pigmento azul que tem a capacidade de provocar uma sensação quase perturbadora de proximidade e de infinito simultaneamente; Claude Machurat, psicanalista da Association Lacanienne Internationale pour le Cercle Castellion, que evoca o azul como a “música dos olhos” – fazendo referência ao compositor Frédéric Chopin em sua busca da “note bleue”.
Contribuindo com a proposta original do GRIS Escritório de Arte, “#kindofblue” traz para seu acervo novas linguagens, com foco na fotografia emergente e incentivando projetos singulares, proporcionando ao público a oportunidade de vivenciar uma experiência cultural consistente, em um ambiente criativo e inspirador.

 

 

De 08 de novembro a 20 de dezembro. 

Novo Banco Photo 2014

24/out

Depois de Pedro Motta vencer no ano passado o NOVO BANCO PHOTO (ex- BESphoto),  na edição de 2014 novamente outro brasileiro, a artista Letícia Ramos, é a grande vencedora. Em sua 10ª edição, a exposição dos finalistas, no Instituto Tomie Ohtake, Pinheiros, São Paulo, SP, por meio de uma parceria entre o Novo Banco, o Museu Coleção Berardo e o Instituto Tomie Ohtake, após passar pelo museu português, será apresentada em São Paulo, de 24 de outubro de 2014 a 11 de janeiro de 2015.

 

A escolha de Délio Jasse (Angola), José Pedro Cortes (Portugal) e Letícia Ramos (Brasil) para concorrer ao prêmio foi feita pelo primeiro júri de seleção, que analisou, durante o período definido pelo regulamento, o panorama da produção fotográfica de artistas em Portugal, no Brasil e nos países africanos de língua oficial portuguesa. Compuseram esse júri: Jacopo Crivelli Visconti (Brasil), crítico e curador independente; João Fernandes (Portugal), subdirector do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid; e Bisi Silva (Nigéria), fundadora e diretora do Centre for Contemporary Art, em Lagos.

 

Despois desta etapa, os selecionados são convidados a produzir uma obra comissionada, cujo resultado é analisado por outro corpo de jurados para a decisão do vencedor. Esse segundo júri contou com Elvira Dyangani Ose, curadora de arte internacional da Tate Modern, de Londres, Luis Weinstein, fotógrafo e organizador do Festival Internacional de Fotografia de Valparaíso, no Chile, e María Inés Rodríguez, diretora do Musée d’Art Contemporain de Bordeaux, na França.

 

 

Sobre as obras produzidas pelos artistas para concorrer ao Novo Banco Photo

 

Em “Nós sempre teremos marte”, Letícia Ramos, 38 anos, que vive em São Paulo,  procurou fazer uma homenagem à imaginação científica romântica, “aos inventores descobridores de mundos distantes”. A artista foi buscar o título em um jornal que faz uma referência literal à frase “Nós sempre teremos Paris”, do filme “Casablanca”, e à chegada da nave Curiosity a Marte, no ano passado. Este conjunto de obras apresenta-se como uma narrativa de ficção-científica, um inventário de imagens que falam do cientista perdido no tempo e no espaço. A exposição é composta de fotografias produzidas a partir de processo de microfilmagem, assim como de um curta-metragem realizado a partir de miniaturas, mostrando a trajetória de um microsubmarino à deriva nas profundezes de um lago pré-histórico submerso no gelo Antártico.

 

Já o português José Pedro Cortes, 38 anos, nascido no Porto, apresentou “Um Eclipse Distante”, conjunto de imagens em que o autor renova a exploração da relação fotógrafo-modelo. Pos sua vez, o angolano Délio Jasse, nascido em Luanda há 34 anos, criou a série “Ausência permanente”, na qual desenvolve uma reflexão acerca dos vestígios do passado – fotografias antigas sobre a época colonial em Angola – e da sua influência no presente.

 

 

 

Sobre Letícia Ramos

 

Nasceu em Santo Antônio da Patrulha,  RS, 1976. Vive e trabalha em São Paulo. Cursou arquitetura e urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e cinema na Fundação Armando Álvares Penteado. O seu foco de investigação artística é a criação de aparatos fotográficos próprios para a captação e reconstrução do movimento e a sua apresentação em vídeo, instalação e fotografia. Os seus trabalhos, com forte caráter processual, geralmente inserem-se no âmbito de projetos de investigação mais ampla. Em séries como ERBF, Escafandro, Bitácora e Vostok, desenvolve complexos romances geográficos que se desdobram e se formalizam em diferentes mídias. A artista recebeu prêmios e bolsas importantes entre os quais,  o Prémio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (2010), para o desenvolvimento do projeto Bitácora (2011-2012), com a publicação do livro de artista Cuaderno de Bitácora e a participação na residência expedicionária «The Arctic Circle» (2011). O trabalho fotográfico realizado durante a expedição foi distinguido com o Prêmio Brasil Fotografia – Pesquisas Contemporâneas (2012). Em 2013, participou no programa «Encontros na Ilha» da 9.ª Bienal do Mercosul. Neste mesmo ano, em residência no espaço PIVÔ (São Paulo), desenvolveu o projeto Vostok, constituído por um filme de 35 mm, um livro, um website e um disco LP. No mesmo ano, seu projeto Microfilme foi contemplado com a Bolsa de Fotografia 2013, do Instituto Moreira Salles e da Revista Zum. Atualmente, em São Paulo, também está em cartaz com a exposição Sabotagem, em parceria com Marcia Xavier, na Casa da Imagem.

 

 

Até 11 de janeiro de 2015.

Caio Reisewitz na Casa da Imagem

21/out

Com registros fotográficos do Pico do Jaraguá – formação montanhosa que registra o ponto mais alto da cidade de São Paulo -, Caio Reisewitz recupera uma paisagem que cada vez mais se oculta da perspectiva de horizonte, contrastando com um vertiginoso crescimento vertical/imobiliário. Como se costuma observar no trabalho de Caio, é possível perceber em “Jaraguá” a ausência da presença humana, que de forma alguma está representada, mas sim sugerida pelo confronto entre a cidade e a natureza.

 

A sucessiva reprodução do mesmo cenário geográfico recebe uma montagem instalativa (e não documental) por meio de procedimentos que se assemelham a técnicas outrora utilizadas na fotografia, indicando uma geografia de tempos passados e que tende a sobreviver apenas no imaginário e na memória dos moradores de uma cidade em expansão.

 

Segundo Henrique Siqueira, curador da Casa da Imagem, foi a pintura de um artista brasileiro ligado à representação da paisagem, Jorge Furtado de Mendonça, que estimulou a pesquisa de Reisewitz em acervos e o desenvolvimento da exposição na Casa da Imagem, Sé, São Paulo, SP. Siqueira destaca que, nestas fotografias, duas operações dimensionam a escala monumental de abordagem do Pico do Jaraguá. “Protagonista na topografia de São Paulo (‘ponta proeminente’, ‘protetor do vale’, na língua tupi-guarani), a elevação encontra-se seccionada, na atualidade, da mancha urbana que a cerca; um gesto proposital em circunscrevê-la no âmbito da idealização e de impelir autonomia no discurso poético”, completa o curador.

 

 

Sobre o artista

 

Caio Reisewitz, São Paulo, SP, Brasil, 1967. O artista – que expôs recentemente no International Center of Photografy em Nova York e que, em 2015, irá inaugurar individual na Maison Européenne de la Photographie em Paris e participar da Bienal de Gwangju na Coreia – procura estabelecer relações entre a construção do real e o registro do artificial. Ganhador de diversos prêmios, como os de aquisição do 4º e 6º salões do Museu de Arte Moderna da Bahia e o Prêmio Sérgio Motta de 2001, seu trabalho esteve presente na 51ª Bienal de Veneza, 26ª Bienal de São Paulo, 1ª Bienal del Fin del Mundo (Ushuaia), Nanjin Biennale (China). Suas obras estão nas coleções do Museu de Arte Moderna de São Paulo e da Cisneros Foundation (EUA parte do documental, da arquitetura e da apropriação do espaço para percorrer a linha tênue que separa a vida da arte.). Especializou-se em fotografia na Escola Superior de Artes de Darmstadt, e na Johannes Gutenberg-Universität Mainz, ambas na Alemanha. É mestre em poéticas visuais pela Universidade de São Paulo. Retorna ao Brasil em 1997, para consolidar-se como um dos fotógrafos mais importantes de sua geração, no campo das artes visuais. Manipulando as imagens de maneira sutil, o artista realiza encontros entre conceito e forma por meio de fotomontagens que, em alguns casos, como Joaçaba ou Parentinga, foram feitas a partir de colagens refotografadas. Sua proposta é também a de misturar realidade e subjetividade, ou seja, o que se vê, à percepção que temos do que estamos vendo. Por isso, retira de situações tensas imagens que não são apelativas, caso da série “Reforma Agrária”, feita no interior de Goiás e Iguaçu, fotografada depois de um período de chuvas fortes e enchentes. As fotos de Caio exploram principalmente temas como a paisagem, a ocupação do solo e o uso arquitetônico. Reisewitz propõe novas abordagens e recortes para paisagens familiares. Com técnicas elaboradas, o artista dá luz a obras refinadas, nas quais observa-se muitas das questões pertinentes à fotografia contemporânea.

 

De 25 de outubro a 22 de fevereiro de 2015.

Geraldo de Barros no IMS

15/out

O Instituto Moreira Salles, Gávea, Rio de Janeiro, RJ,  apresenta a exposição “Geraldo de Barros e a fotografia”. Com mais de 300 obras, essa é a maior exposição do designer, pintor e fotógrafo já realizada no Rio de Janeiro. A mostra resgata aspectos históricos e o caráter experimental da obra fotográfica do artista, enfocando sua relação com as gravuras e pinturas realizadas entre os anos 1940 e 1990. A curadoria é da pesquisadora Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do Instituto Moreira Salles. No dia da abertura, às 18h, ocorrerá visita guiada com a curadora e a artista Fabiana de Barros. E, às 16h, será exibido gratuitamente o filme “Sobras em obras”, de Michel Favre na sala de cinema.

 

Geraldo de Barros e a fotografia é organizada em três núcleos. O primeiro deles aborda a série fotográfica Fotoformas, produzida entre os anos 1940 e 1950. Serão mostrados exemplos das primeiras fotografias e desenhos feitos pelo artista no imediato pós-guerra, período em que ainda estava envolvido com uma pintura gestual de influência expressionista, monotipias que testemunham o início de seu envolvimento com a arte abstrata e pinturas concretas realizadas na década de 1950, quando o artista era membro do grupo Ruptura. Essa produção será mostrada lado a lado com as diversas experimentações fotográficas realizadas por Barros em Fotoformas: detalhes que enfatizam a estrutura geométrica de objetos do cotidiano; imagens borradas; solarizações; fotografias realizadas a partir de negativos pintados e riscados com instrumentos de gravura; fotografias abstratas realizadas a partir de múltiplas exposições do mesmo negativo; montagens de negativos etc.

 

Geraldo de Barros produzia fotografia, gravura e pintura de forma concomitante, e as diversas técnicas faziam parte de um mesmo processo criativo. Com o intuito de aproximar o público desse rico processo de trabalho, serão mostrados exemplos de negativos riscados pelo artista, bem como folhas de contatos originais que evidenciam as diferentes formas de intervenção na fotografia feitas pelo artista. Nesse núcleo, o visitante encontrará também um grande número de cópias vintage, oriundas de diversas coleções institucionais e privadas, que evidenciam as preocupações formais do artista ao ampliar suas imagens.

 

Com o objetivo de enfocar os modos originais de exibição das fotografias de Geraldo de Barros, a primeira sala da exposição será dedicada à exposição Fotoforma, que o artista realizou no Masp, ainda localizado na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, em 1951. Serão mostrados documentos fotográficos, notícias e críticas sobre aquela que foi a primeira exposição fotográfica do artista.

 

O segundo núcleo da exposição é dedicado às pinturas realizadas pelo artista nos anos 1960 e 1970. Assim como outros pintores concretos de sua geração, nessa época, Geraldo de Barros se aproximou da Pop Art e da chamada Nova Figuração, que retomava a arte figurativa no contexto da cultura de massas. Ele pintava sobre fragmentos de outdoors publicitários, apropriando-se das fotografias usadas nos cartazes. Ao destacar o aspecto grotesco e invasivo da propaganda, as obras assumem um forte teor crítico.

 

A terceira parte da exposição aborda a série Sobras, realizada em seus últimos anos de vida, um momento em que o artista se encontrava parcialmente paralisado por uma série de isquemias cerebrais que sofreu a partir dos anos 1970. Após anos afastado da fotografia, Geraldo de Barros volta-se para seu arquivo de fotos de família guardado ao longo de décadas. Com a ajuda de uma assistente, ele corta, risca e monta pequenos fragmentos de negativos 35 mm sobre placas de vidros.

 

Geraldo de Barros e a fotografia mostrará pela primeira vez o conjunto completo de 268 colagens de negativos e positivos sobre vidro realizado por Geraldo de Barros no fim dos anos 1990, além de cerca de 70 fotografias ampliadas a partir dessas pequenas colagens. Dessa maneira, a série Sobras será apresentada como um intenso e fértil processo de trabalho, no qual, mais uma vez, Geraldo de Barros se distanciou do caráter documental da fotografia, manipulando-a e transformando-a de diferentes maneiras.

 

A exposição e o catálogo que a acompanha são frutos de uma parceria entre o Instituto Moreira Salles e o Sesc/SP, a instituição brasileira detentora da maior coleção fotográfica do artista, que apresentará Geraldo de Barros e a fotografia em 2015.

 

 

De 18 de outubro a 22 de fevereiro de 2015.

​Penna Prearo na Lume

A Galeria Lume, Itaim Bibi, São Paulo, SP, inaugura a exposição “Portal de Alice em Atlantis”, individual do fotógrafo Penna Prearo, com curadoria de Agnaldo Farias. A série composta por 21 fotografias abrange elementos da pintura e do cinema, com uso de equipamentos visuais acessórios como filtros, prismas, lanternas mágicas, caleidoscópios, entre outros, perfazendo um recorte da produção recente e da pesquisa atual do artista. A coordenação é de Paulo Kassab Jr. e Felipe Hegg.

 

A individual de Penna Prearo é composta por obras de diversas séries, como Ballerinas – em que o fotógrafo utiliza mosquiteiros de tule incorporados a cenários variados, como se os elementos interagissem entre si em uma apresentação de balé -, Falange Ciclope – cujos personagens, desta vez, são representados por rodas de bicicletas -, Carrossel para um Kubrick Solitário – onde um cavalinho de madeira aparece sempre no clima fantástico característico de sua obra -, Portal de Alice – série composta por cenas que parecem parodiar a realidade, entre outras.

 

Em uma miscelânea de alusões e temas para a composição de suas fotografias, Penna Prearo realiza confrontos e tensões entre imagens, enfatiza a cor em seus trabalhos e destaca um repertório que vai de Alice no País das Maravilhas (de Lewis Carroll, publicado em 1865), inserindo a fábula na lendária ilha de Atlantis, ou Atlântida, criando seu universo individual.

 

Nas séries de Penna Prearo, o registro fotográfico não se presta a apenas registrar coisas e situações comuns. Sua função ultrapassa esse patamar onde cria cenas de sonho, reais ou imaginárias, parafraseando a realidade. Seus trabalhos remetem a recortes de narrativas não lineares e à realidade cultural e underground das cidades por onde passa.

 

 

A palavra do curador

 

Penna Prearo habita um mundo ainda incógnito para nós, um universo de fábulas e desvarios, com influências que não vem de ilusões, mas das existências ali vividas. Em sua obra, nada surge da casualidade, cada escolha vem de uma razão bem pensada, de referências artísticas principalmente pictóricas e cinematográficas. “Portal de Alice em Atlantis” mostra fragmentos do planeta homônimo onde o fotógrafo vive, com narrativas elaboradas como um diretor que constrói cenas e inventa cenários. As situações retratadas tem personagens tão improváveis quanto um mosquiteiro de tule, um cavalinho de pau, a cabeça de uma escultura clássica, duas rodas de bicicletas ou um hidrante, que o artista, em suas infatigáveis peregrinações, percebe e trata como personagens enigmáticas, poderosas em suas presenças silenciosas. “Sua poética afigura-se como um diário do maravilhoso que ele consegue fazer irromper de um cotidiano que os tristes e desavisados supõem comum.”

 

 

 

 Poema do artista

 

“Albergaria de seres transmutantes,

portas de entrada de Alices fugazes,

sistemas organizados,

desertores procurando

lascas de um tempo curvado.

Flechadas de luz farpada

em alvos transitórios.

Translúcidas paisagens

convidando para uma viagem

num transatlântico enfurecido

com bilhete só de volta.

Um dia mais, um dia menos.”

 

 

De 23 de outubro a 28 de novembro.

Memória mutante

08/out

A constante reconstrução do espaço urbano central de São Paulo é tema de “Memória Mutante”, exposição de fotografias simultânea à mostra “Ibirapuera: modernidades sobrepostas”, que ocorre também na OCA, Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, Parque Ibirapuera, Portal 3, São Paulo, SP, sob realização do Museu da Cidade.

 

A curadoria de Henrique Siqueira reúne 210 fotografias pertencentes à Coleção de Fotografias Iconográficas do Museu da Cidade de São Paulo e propõe o encontro das imagens de Militão Augusto de Azevedo (1862) e Ivo Justino (1970), como forma de dimensionar a complexidade das camadas de memória urbana.

 

Siqueira destaca que, há pouco mais de 100 anos, São Paulo assistiu ao desaparecimento da antiga Igreja da Sé e de todo o quarteirão ao seu redor, operação que marcou o começo das grandes obras destinadas à edificação de uma cidade moderna e cosmopolita. Ele reforça que o binômio demolir/construir, repetido no período da verticalização da área central e da implantação do plano viário de Prestes Maia, consolidou-se como um dos pilares da renovação urbana. “Privilegiando o novo, esta lógica de reconstrução ininterrupta desafiou a permanência dos espaços públicos, conduzindo a um apagamento da paisagem e do pensamento arquitetônico vigente no passado.”

 

Essa característica paulistana tem como consequência a ampliação do papel da fotografia no registro da história da cidade. Intencionalmente, o curador selecionou fotografias pontuais de casos históricos que agitaram a identificação afetiva da cidade, como a demolição do Belvedere Trianon, o incêndio da Estação da Luz ou a construção do Hangar do Campo de Marte. A mostra também apresenta a documentação realizada pela Seção de Iconografia da Prefeitura sobre as habitações populares e ensaios que reproduzem o cotidiano nas indústrias de tecelagem.

 

O gesto oficial de colecionar fotografias na municipalidade inicia-se em 1938, com a aquisição do lote de negativos de vidro pertencente ao fotógrafo Aurélio Becherini, dando origem à atual Coleção de Fotografias Iconográficas do Museu da Cidade de São Paulo, de onde vieram todas as imagens apresentadas nessa exposição. Coube a outro fotógrafo, Benedito Junqueira Duarte, iniciar a ampliação e a primeira catalogação dessa coleção; hoje ela conta com mais de 70 mil fotografias que documentam a transformação urbana de São Paulo nos últimos 154 anos.

 

 

 De 09 de outubro de 2014 a 01 de fevereiro de 2015.

A Coleção Joaquim Paiva no MAM

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Petrobras, Bradesco Seguros, Light e Organização Techint apresentam, a exposição “Limiares – A Coleção Joaquim Paiva no MAM”,  40 fotografias do acervo pertencente ao diplomata nascido em 1946, em Vitória, que reuniu uma das mais importantes coleções do país em fotografia brasileira e estrangeira. Fotógrafo desde 1970, Joaquim Paiva começou a colecionar em 1978, quando adquiriu trabalhos da fotógrafa americana Diane Arbus, 1923-1971. Depois de se formar em Direito, ingressou na carreira diplomática em 1969, e desde então serviu em vários países, como Canadá, Venezuela, Peru, Argentina, Portugal, Espanha e Estados Unidos.

 

Completam a exposição 19 obras das coleções do MAM e Gilberto Chateaubriand, também em comodato com o Museu.  A ideia de se fazer uma mostra em que as fotografias da coleção dialogassem com obras do acervo do Museu e da coleção de Gilberto Chateaubriand, partiu do próprio Joaquim Paiva e foi prontamente aceita pela curadoria do Museu. “Mostra-se aqui uma parte da coleção de Joaquim Paiva, que não esgota nem esgotará as suas múltiplas leituras. A esse recorte confrontam-se outros trabalhos das coleções do MAM, não necessariamente fotografias, procurando contaminar aquilo que, por motivos de taxonomia, ainda permanece separado: o vídeo com a pintura, o precário com o que foi feito para durar, o documento com a arte”, explicam os curadores do MAM.

 

Em 2005, o MAM passou a abrigar a Coleção Joaquim Paiva sob o regime de comodato, e atualmente estão no Museu 1.963 trabalhos de fotógrafos brasileiros e estrangeiros, adquiridos a partir do início dos anos 1980.

“Embora tenha sido iniciada como uma coleção privada, o gesto do colecionador é invariavelmente público e coloca ao escrutínio coletivo o que foi acervo privado ou criação individual. É sobre diferentes representações do público e do privado no mundo da arte que fala “Limiares – a Coleção Joaquim Paiva no MAM”, propondo ser um recorte sobre as naturezas dos espaços representados na materialidade da imagem, em especial a imagem fotográfica”, afirmam os curadores.

 

Dois trabalhos abrem a exposição: uma série de José Diniz, na qual o aparece o próprio Joaquim Paiva e uma instalação de sacolas de instituições museológicas internacionais, de Jac Leirner, “que iguala, com humor e argúcia, o mundo da arte ao mundo dos negócios, centrando a sua atenção sobre aspectos formais”.

 

A mostra terá, ainda, a fotografia “Gol”, do importante fotógrafo Thomas Farkas, Budapeste, Hungria, 1924 – São Paulo SP, Brasil, 2011, da década de 1940; “Índio Yanomami”, de 1991, da fotógrafa Claudia Andujar, Neuchâtel, Suíça/Brasil, 1931; “Sem título”, de Alberto Ferreira Lima; fotos da série “Natureza Moderna”, de Bill Jorden, entre outras.

 

Dialogando com as fotografias da coleção Joaquim Paiva, haverá obras do acervo do MAM e da Coleção Gilberto Chateaubriand, como a escultura “Mapa Mudo”, de Ivens Machado, de 1979; “Duas casas”, de Nuno Ramos, de 1996; a pintura “A Ilha”, de Luiz Zerbini, de 1995; “Sem título”, de 1979/1988, de Miguel Rio Branco, entre outras.

 

 

Sobre a Coleção Joaquim Paiva

 

Desde 2005, o MAM Rio possui, em regime comodato, grande parte da coleção do diplomata Joaquim Paiva. A coleção teve início em 1981 quando o diplomata começou a adquirir sistematicamente fotografias brasileiras contemporâneas. No museu estão depositadas 1963 obras que registram o que há de mais representativo na fotografia brasileira de nosso tempo. Desde retratos e paisagens à experimentos fotográficos dos anos 1990. Entre os nomes mais representativos da coleção estão: Pierre Verger com a sua preciosa documentação sobre a cultura afro-brasileira; Geraldo de Barros e seus experimentalismos técnicos; Miguel Rio Branco que busca a intensidade das cores no universo mais dura da realidade brasileira, o fotojornalismo ligado à temática social e bem brasileira de Walter Firmo, a atitude questionadora sobre o ato de fotografar da artista Rosângela Rennó entre outros. Nesse sentido a Coleção Joaquim Paiva representa no MAM toda a qualidade e a pluralidade de trabalhos e tendências que a fotografia contemporânea brasileira pode oferecer.

 

 

Texto da Curadoria

 

Em 2005, sob a forma de comodato, o MAM passou a abrigar a Coleção Joaquim Paiva que conta atualmente com 1.963 trabalhos de fotógrafos brasileiros e estrangeiros, adquiridos a partir do início dos anos 80.

 

Embora tenha sido iniciada como uma coleção privada, o gesto do colecionador é invariavelmente público e coloca ao escrutínio coletivo o que foi acervo privado ou criação individual. É sobre diferentes representações do público e do privado no mundo da arte que fala “Limiares – a Coleção Joaquim Paiva no MAM”, propondo ser um recorte sobre as naturezas dos espaços representados na materialidade da imagem, em especial a imagem fotográfica.

 

Mostra-se aqui uma parte da coleção que não esgota nem esgotará as suas múltiplas leituras. A esse recorte confrontaram-se outros trabalhos das coleções do MAM, não necessariamente fotografias, procurando contaminar aquilo que, por motivos de taxonomia, ainda permanece separado: o vídeo com a pintura, o precário com o que foi feito para durar, o documento com a arte.

 

Dois trabalhos abrem a exposição: uma série de José Diniz, na qual o próprio Joaquim Paiva aparece mostrando as diane arbus e os geraldo de barros de sua coleção, e uma instalação de sacolas de instituições museológicas internacionais, Names (Museums), de Jac Leirner, que iguala, com humor e argúcia, o mundo da arte ao mundo dos negócios, centrando a sua atenção sobre aspectos formais.

 

Uma vez definidos os pontos de partida da exposição – o colecionador e o museu –, o percurso se torna aberto e não linear ao redor das ideias de espaço físico e mental. Os espaços da casa, da rua, da praia ou do abrigo coexistem com os lugares de passagem, a informalidade do espaço público e o enfrentamento social.

 

O espaço do íntimo e as novas relações objeto-sujeito fotografados caracterizam boa parte da produção fotográfica contemporânea. Existem vestígios de subjetividade na materialidade da fotografia que se torna campo de partilha de angústias, fraturas pessoais e afirmação do eu, com particular relevância para o diário e as narrativas/ficções pessoais.

 

Na videoinstalação Os Raimundos, os Severinos e os Franciscos, de Maurício Dias & Walter Reidweg, porteiros nordestinos na cidade de São Paulo simulam um regresso à casa depois de um dia de trabalho, entrando um a um, e agindo como se não estivessem vendo um ao outro, e quando todos estão instalados, olham diretamente para a câmera, deixando evidente a cumplicidade deles com o ato de filmar.

 

A transitoriedade do lugar de quem vê e de quem é visto é patente no “distanciamento” das imagens de Bill Jorden e Anderson Wrangle, na “narrativa em abismo” de Javier Silva Mainel ou nos sujeitos que se tornam objetos de perseguição, em Regina de Paula.

 

Finalmente, a cauda do tatu desaparecendo por baixo de uma mesa (Miguel Rio Branco). Intrigante fotografia. Intrigante animal que se transforma em bola quando ameaçado pelo perigo. Metáfora para pensar as imagens hoje numa dupla condição: a sua abertura às mais imprevistas relações e, no sentido inverso, o fato de os signos terem se tornado tão densos a ponto de formar uma casca dura, através dos quais já não se vê nada.

 

 

Até 18 de janeiro de 2015.

Fotografias de Daniel Sasso

06/out

Um verdadeiro paradoxo toma conta do Museu do Trabalho, Porto Alegre, RS, quando as fotografias de Daniel Sasso, repletas de vivacidade e frescor invadem o espaço expositivo do Museu na mostra “Ideia Morta – A Frustração em Delírios Cintilantes”. Essa exposição no Museu do Trabalho é um desdobramento da mostra “Ideia Morta – A Frustração em Devaneios Coloridos”, apresentada por Sasso em 2010, na Livraria Cultura de Porto Alegre, sucesso de público e crítica. Publicitário, artista e principalmente fotógrafo, Daniel Sasso sempre mergulhou profundamente no estudo das mais diversas técnicas fotográficas. Daí o seu perfil ousado que mistura o tradicional com a inovação, captando imagens com técnicas rudimentares como a pinhole (câmera fotográfica sem lente), até a tecnologia digital de captura e tratamento. Inquieto, Sasso já está trabalhando em um novo projeto totalmente diferente do exposto no Museu, mas que ainda está em segredo.

 

Texto de Vitor Necchi

 

Há uma tríade de efes sugerida pelas imagens reunidas na exposição Ideia Morta – A Frustração em Delírios Cintilantes, de Daniel Sasso: fato-farsa-fantasia.

 

Cada palavra decorre de uma leitura, da maneira que se reage à visão nada corriqueira de uma mulher se lançando ao espaço, quando os pés se desgrudam de uma superfície elevada. Ou ainda quando ela se detém sobre trilhos, confrontando o vagão que se aproxima. Não há fim em nenhuma delas – tudo é começo. Cada cena surpreende e instaura uma nova possibilidade, principalmente para quem traduz o mundo ancorado na vida que se tem, e não na que se poderia ter.

 

Fato. Se encaradas dessa forma, esta seria a associação imediata: suicídio. Esqueça-se disso. O mundo está farto de literalidade. No universo das possibilidades sugeridas pelo trabalho de Daniel, abandone a leitura que cumpre o protocolo da obviedade. O mundo pode ser tão previsível que o entendimento das pessoas beira a grosseria, deformação de olhos viciados, embrutecidos ou preguiçosos. A vida é mais do que fatos.

 

Farsa. Esqueça também. Não existe tapeação nessas imagens que sugerem mulheres aladas e destemidas, quase mitológicas, quase impossíveis, senhoras do acaso. Não há engodo, mentira, embuste. Não seja ingênuo em pensar que a fotografia guarda compromisso com a realidade. Nem mesmo da foto documental se poderia exigir um estatuto de verdade, como se o registro fosse testemunho de fé sobre a existência de algo. A verdade é uma perspectiva, um compromisso do autor com a situação ou o personagem fotografados. Trata-se de uma relação ética, uma intenção. A farsa resulta da traição do olhar de quem faz – ou de quem vê.

 

Fantasia. Bem-vindo seja a este reino tão necessário e abandonado. Humanos são terrestres e não nasceram para voar, mas as mulheres de Daniel conseguem mais do que meramente caminhar porque o artista se insurge. Ele desdenha a previsibilidade dos fatos e a doença coletiva que torna o olhar refém da mesmice. Se manipulou, se de fato flagrou uma das cenas, pouco importa – a fantasia independe do que se vê, ela resulta de como se vê. Sem ela, resta a loucura.

 

 

Até 23 de novembro.