ANIMAL, duas exposições

01/nov

A Galeria Marcelo Guarnieri apresenta em suas unidades de São Paulo e Ribeirão Preto a exposição “ANIMAL”, com obras de Alfredo Volpi, Ana Elisa Egreja, Ana Paula Oliveira, Claudia Jaguaribe, Cristina Canale, Edu Simões, Eleonore Koch, Ernesto De Fiori, Gabriela Machado, Guima, Guto Lacaz, Ivan Serpa, Julio Villani, Liuba, Luiz Paulo Baravelli, Lygia Clark, Marcelo Grassmann, Marianita Luzzatti, Mario Cravo Neto, Milton Dacosta, Niobe Xandó, Paola Junqueira, Pierre Verger, Ranchinho, Renato Rios, Rodrigo Braga, Rogério Degaki, Silvia Velludo, Siron Franco, Tarsila do Amaral, Tatiana Blass, Thomaz Ianelli, Victor Brecheret, Vincent Ciantar e Yamamoto Masao.

 

A mostra de 2019, dividida nas duas unidades da Galeria, é uma reedição da exposição que ocorreu na galeria de Ribeirão Preto em 2010, com texto de apresentação novamente assinado pela pesquisadora e cientista Anette Hoffmann. A partir da inclusão de novos trabalhos, a reedição pretende ampliar a leitura sobre o fascínio que, em todas as épocas, o animal despertou na mente humana. Poderão ser vistas obras em linguagens diversas como pintura, fotografia e escultura produzidas em um período que compreende meados da década de 1930 até o ano de 2016 em diferentes partes do mundo, do Vietnã de Pierre Verger às Ilhas Galápagos de Claudia Jaguaribe. Os bichos que compõem a mostra se apresentam em múltiplas configurações, de um despojado sapo à giz de cera de um Volpi da década de 1950 a um complexo “Autorretrato como gato coruja” de Luiz Paulo Baravelli.

 

O caráter das relações que se estabeleceram entre o homem e o animal ao longo da história foram das mais diversas. Mágicas, sangrentas, sagradas ou violentas, foram sendo construídas por nós a partir da necessidade de compreendermos a nossa própria humanidade – ou animalidade – e o nosso elo com o divino ou sobrenatural. Do consumo de sua carne, couro e força de trabalho, passando por sua dominação e domesticação progressiva, até a sua clonagem em laboratório, é possível observar uma dinâmica em que o animal ocupa uma posição de subalternidade. No entanto, no imaginário ou até mesmo no cotidiano de muitas culturas, as fronteiras entre o homem e o animal foram frequentemente cruzadas.

 

As obras reunidas na exposição nos convidam a refletir tanto sobre questões ancestrais quanto tecnológicas, nos localizando na iminência de um futuro pós-humano e nos conclamando a rever nosso conceito de humanidade. Anette Hoffmann, em seu texto de apresentação comenta: “como muitos viajantes que no passado aportaram no Novo Mundo, Ivan Serpa constrói um bestiário pessoal, numa espécie de inquietante transgenia poética. Marcello Grassmann percebe o animal como um espelho no qual se refletem as múltiplas facetas de seu próprio ser. Valeu-se desta percepção para desenvolver a capacidade de evadir-se em outras vidas, num procedimento metamórfico capaz de levá-lo ao fundo de si próprio. Dentro de uma concepção anímica, muito presente em sua produção artística, Mario Cravo Neto promove fusões que propiciam ao homem acesso, mediado pelos animais, ao sagrado imanente na natureza.”

 

Em Ribeirão Preto e em São Paulo até 08 de fevereiro de 2020.

 

Galeria Kogan Amaro/Zürich

29/out

A Galeria Kogan Amaro, Löwenbräukunst, Limmatstrasse 270 8005 Zürich, Switzerland, apresenta – até 21 de dezembro – exposição que reúne Frans Krajcberg e Nazareth Pacheco com curadoria de Ricardo Resende. A mostra reúne obras emblemáticas dos artistas, criações que seduzem pela beleza da matéria e forma de expressar duras realidades.

 

“A beleza salvará o mundo”. A frase do escritor russo Fiódor Dostoievski, nunca foi tão atual, pois é justamente quando tantas coisas vão mal em torno de nós que é necessário falar da beleza do planeta e do humano que o habita.” A afirmação do filósofo búlgaro Tzvetan Todorov exprime o cerne da exposição “Dangerous beauty: The essence of forestry and humanity in the works of Nazareth Pacheco and Frans Krajcberg”.

 

Com curadoria de Ricardo Resende, diretor artístico da galeria, encontram-se em exibição trabalhos icônicos da paulista Nazareth Pacheco e do polonês Frans Krajcberg (1921 – 2017). Expoente de uma geração de artistas que despontou entre as décadas de 1980 e 1990, tempo em que o País entrava em ebulição com pautas relacionadas à mulher, Nazareth Pacheco tomou sua condição feminina e sua biografia, em particular as narrativas relacionadas à história de seu corpo, como matéria-prima para suas obras tridimensionais. Sua obra é sobre a vida transformada em objetos belos, aparentemente adornos para o corpo, feitos com a matéria plástica – lâminas, agulhas, anzóis, sangue e cristais – para cortar e dilacerar a memória do corpo “retratado” na sua ausência física.

 

Krajcberg encontrou no Brasil o que precisava após perder toda a família durante a II Guerra Mundial. Chegou no Brasil em 1948 e firmou residência no Rio de Janeiro. É o amante das florestas, teve a natureza como principal fonte de inspiração para sua obra e a explorava através de formas e aspectos cromáticos em pigmentos naturais, esculturas e gravuras. Tal qual um ativista que grita pelas plantas e animais, Frans escancara para o mundo a exuberância da sua obra feita de troncos, cascas, flores e folhas, revelando sua intimidade com a alma das florestas e matas.

 

Em comum, ambos os artistas tratam de questões audazes, perigosas, que seduzem pela beleza da matéria e pela forma de expressar duras realidades. “A beleza na obra de Pacheco e Krajcberg é a expressão de temas dramáticos sem cair ou resvalar para o trágico e feio”, explica o curador. “Pelo contrário, não estão tratando da beleza simplista e inocente no sentido semântico da palavra, comumente associada aquela ideia de um pôr do sol bonito ao fim da tarde”, completa.

 

Sobre os artistas

 

Nazareth Pacheco cursou Artes Plásticas na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1983. Desde 1980, desenvolve obras tridimensionais relacionadas com processos vivenciados pelo corpo. Feminino, histórico, literal ou simbólico. Os artefatos que cercam o corpo são transmutados em objetos e instalações que a beleza e o brilho muitas vezes travestem como dor e o sofrimento. Frequentou o curso de monitoria da 18ª Bienal de São Paulo, sob a orientação do historiador e crítico de arte Tadeu Chiarelli, em 1985. Em Paris, frequentou o ateliê de escultura da École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em 1987. Em 1998, Nazareth participou da 24ª Bienal Internacional de São Paulo. Já em 2002, tornou-se mestra na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) com a dissertação “Objetos Sedutores” e orientação de Carlos Fajardo. Nos últimos anos, participou de diversas coletivas no Brasil e no exterior, além de ter frequentado o “Salon” de Louise Bourgeois em Nova York, entre 1999 e 2006. Nazareth vem expondo há três décadas em galerias e museus no Brasil e no exterior, tanto em mostras individuais quanto coletivas.

 

Frans Krajcberg (Kozienice, Polônia, 1921 – Brasil, Rio de Janeiro, 2017), chegou no Brasil em 1948, quando residiu inicialmente no Paraná, partindo em seguida para o Rio de Janeiro. Antes disso, já havia estudado Engenharia e Carpintaria na cidade de Leningrado, na antiga União Soviética, e Artes em Stuttgart, na Alemanha. Em 1951, participou da 1a Bienal Internacional de São Paulo e, em 1957, naturalizou-se brasileiro. Participou, ainda, da XXXII Bienal de Veneza, recebendo o prêmio Cidade de Veneza, em 1964. Tem a natureza como inspiração. Krajcberg passou por um período importante na Europa (1958 – 1964) e em Minas Gerais (1964 – 1972), que o aproximou ainda mais da natureza, passando a explorar suas formas e aspectos cromáticos, através de pigmentos naturais. Depois passou a viver no sul da Bahia, no Sítio Natura, em Nova Viçosa, onde permaneceu até o final de sua vida, nessa fase assumiu um trabalho com caráter mais escultórico, tendo a biodiversidade como fonte de inspiração e o que vem dela como matéria prima. É conhecido não apenas por suas esculturas, mas também por seus desenhos, gravuras e fotografias.

Na Roberto Alban Galeria

24/out

Mostra reúne obras do Geraldo, Fabiana e Lenora de Barros, nomes de destaque na arte contemporânea brasileira. Artista múltiplo por excelência, respeitado no Brasil e no exterior por seus trabalhos em fotografia, design, pintura, gravura e desenho industrial, entre outras linguagens, o paulista Geraldo de Barros compôs com suas duas filhas, Lenora e Fabiana, uma família de destaque nacional no âmbito das artes contemporâneas.

 

É essa família que a partir do dia 31 de outubro ocupará a Roberto Alban Galeria, Rua Senta Púa, 53, em Ondina, Salvador, Bahia, apresentando, pela primeira vez em um mesmo espaço, um conjunto representativo de suas principais obras. A mostra, denominada Em Forma de Família, encerra com relevância a programação deste ano da galeria.

 

Pioneiro mundialmente reconhecido da fotografia abstrata, fundador do movimento da arte concreta e designer de grande relevância, Geraldo de Barros (1923-1998) transpôs os limites do país e da própria arte produzida no Brasil por sua irreverência conceitual e domínio linguístico em diferentes campos artísticos, notadamente vanguardistas e experimentais. Presentes na exposição em Salvador, suas famosas Fotoformas, fotografias realizadas entre 1946 e 1951, revolucionaram a fotografia brasileira ao apresentar imagens que tanto podiam ser vinculadas ao Construtivismo como ao Cubismo, bem como a poéticas ligadas ao Expressionismo. A partir da reordenação de elementos, o artista criou uma nova composição em que estão sempre presentes as questões sociais e urbanas, além da inquietude diante da relação entre a arte e a sociedade.

 

Os seus últimos trabalhos, vinculados à série Sobras, com várias fotos inéditas que serão apresentadas na mostra em colaboração com o Instituto Moreira Salles (RJ), revelam um artista que sempre desafiou os limites entre o público e o privado. Isto é atestado no mobiliário UNILABOR, com o seu design apurado e modular, produzido de acordo com princípios coletivistas revolucionários. Vale lembrar que alguns trabalhos de Geraldo Barros integram o acervo de diversos museus do mundo, a exemplo do MoMA, de Nova Iorque (EUA).

 

Interação familiar

 

A naturalidade com que as obras da exposição Em Forma de Família interagem entre si é um testemunho do poder dos laços familiares e da força da arte como um legado a ser transmitido de geração para geração. A própria Lenora de Barros admite que herdou do pai o seu lado mais performático, que é um traço marcante em sua obra. ”Ele se autofotografava com chapéus, roupas diferentes, era um apaixonado pelo cinema noir”, observa Lenora, artista visual e poeta reconhecida internacionalmente, que constrói uma obra marcada pelo uso de diversas linguagens: vídeo, performance, fotografia, instalação sonora e construção de objetos. No seu trabalho, a artista desenvolve esse lado performático nas chamadas fotos-performance, algumas construídas como sequências fotográficas em que representa diferentes personagens.

 

As primeiras obras criadas por Lenora podem ser colocadas no campo da “poesia visual” a partir do movimento da poesia concreta da década de 1950. Palavras e imagens foram os seus primeiros materiais. Um de seus trabalhos mais significativos, produzido em 1979 com registro fotográfico da irmã, Fabiana de Barros, é Poema, que estará presente na mostra Em Forma de Família. Nesse trabalho, a artista aparece tocando as teclas de uma máquina de escrever com a própria língua, um tema que reaparecerá em obras como Língua Vertebral (1998) e Linguagem (2008).

 

Já Fabiana de Barros, que vive em Genebra (Suiça), também identifica em seu trabalho artístico um ponto coincidente com a visão que Geraldo tinha da questão social: “Assim como ele, que sonhava com um mundo igualitário, produzindo uma arte para todos, tenho uma preocupação em estabelecer uma relação direta com o público, privilegiando o contato humano e o contexto social”, justifica, observando que uma de suas obras mais famosas, o Fiteiro Cultural – um quiosque de madeira que se abre nos quatro lados e funciona como um centro cultural itinerante – nasceu para atender às necessidades e desejos da comunidade, tendo sido instalado em diversas cidades do mundo.

 

Assim como sua irmã Lenora, Fabiana de Barros enveredou pelos caminhos da arte contemporânea, utilizando variados recursos multimídias – fotografias, vídeo, colagem, internet. A interação com o outro coloca-se como um eixo primordial em seu trabalho, que se traduz em instalações, intervenções, arte pública e virtual, web art. No ciberespaço, Fabiana encontrou as melhores condições para aproximar-se do seu público, através de sites de visitas e espaços para manifestações dos visitantes, propondo viagens a outras culturas. No Brasil, obteve seu maior reconhecimento ao participar da 25ª Bienal de São Paulo, em 2002.

 

Até 11 de janeiro de 2020.

 

Livro e Geometria

23/out

O pintor Luiz Dolino inaugura exposição individual e lança novo livro na Galeria Patrícia Costa, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ. O artista é mais conhecido como Dolino, possui uma boa projeção e trânsito no exterior. Explora em suas obras as infinitas possibilidades do universo geométrico com maestria e pleno domínio em suas combinações e alternância de cores. Abertura às 19h do dia 23 de outubro.

 

Cerâmicas de Kimi Nii

A Galeria Kogan Amaro, Jardim Paulista, São Paulo, SP, apresenta esculturas inéditas de Kimi Nii. A artista nipo-brasileira exibe criações inspiradas em elementos da natureza e revela sua concepção minimalista de paisagem

 

Luz e elementos da natureza despertam encantamento da artista nipo-brasileira Kimi Nii. Ela encontrou no Brasil uma rica variedade de tons, espécies e cenários naturais que inspiram suas criações, esculturas minimalistas, nas quais convida o espectador a construir paisagens mentais. Essa é a proposta da exposição “Montanha das nuvens brancas”, individual que Kimi Nii estreia em 26 de outubro, com curadoria de Ricardo Resende.

 

A intimidade com a cerâmica proporciona à artista a habilidade de fundir elementos da cultura japonesa, guardados em sua memória e bagagem, com referências brasileiras, captadas a partir de sua vivência no País. Autora de uma pesquisa centralizada nas formas e luzes da natureza, as obras de Kimi Nii se assemelham a paisagens e aludem sobre dois lados do mundo.

 

Nascida em Hiroshima, dois anos após a explosão da bomba atômica, a artista mudou-se aos nove anos de idade para São Paulo, e seu fascínio pela luz e a natureza brasileira a fizeram ficar.

 

Em “Montanhas das nuvens brancas”, Kimi Nii apresenta formas cilíndricas que se repetem, mas sem nunca se igualarem, e mimetizam a forma das nuvens brancas sobre a ação do vento. “As nuvens são mágicas para mim e, nessa exposição, quero trazer os extremos opostos: a terra e o céu”, explica a artista.

 

“É proposto pela artista o silêncio entre as nuvens que estão espalhadas pelas alturas da sala expositiva e as formas cônicas alinhadas no chão, organizadas em uma linha reta que desenha em perspectiva para quem adentra a sala”, explica o curador.

 

Em contraposição, formas cônicas são alinhadas de modo a remeter às formas montanhosas. Em meio a essas duas estruturas, estão peças que apontam para plantas da família dos Hibiscos, chamadas de fauna pela artista, concebidas a partir de sua investigação sobre as formas dessas espécies e sua dinâmica na natureza.

 

O minimalismo é um dos traços fundamentais da poética de Nii, que conserva em suas cerâmicas a essência da matéria, da forma e da cor do barro, despindo-as de elementos supérfluos e fazendo delas formas exuberantes. A produção da artista é pautada na organicidade e apenas naquilo que lhe parece fundamental. “A obra de Kimi Nii é sobre a vida transformada em objetos belos e harmoniosamente organizada com a matéria da argila”, sintetiza

 

Ricardo Resende

Até 23 de novembro.

 

 

A obra de Miguel Bakun

18/out

A partir do dia 26 de outubro a obra de Miguel Bakun entrará em exibição na Simões de Assis Galeria de Arte, Jardins, São Paulo, SP, estendendo-se até 14 de dezembro. A apresentação é do crítico Ronaldo Brito.

 

Miguel Bakun

Por Osmose

Texto de Ronaldo Brito

 

Não se enganem com a escala modesta, as cores terrosas, enfim, o aspecto de casual abandono que preside sobre as telas de Miguel Bakun. Elas não respondem passivamente ao mundo. À sua maneira enviesada, avançam decididas sobre ele e o recortam à medida do Eu do artista. Quase chegamos a vê-lo se aproximar furtivamente da paisagem para abreviá-la, tomá-la para si, impregná-la com seu lirismo pungente mas nem um pouco declamado. De fato, nosso pintor parece operar por osmose. É preciso, primeiro, reduzir a cena ao alcance de seus poderes de transfiguração e encantamento, poderes limitados porque intensos demais. Para esse autodidata de província, desamparado de tradição, isso desde logo implicava a empatia com trechos esquecidos de mundo, entregues à própria sorte, inéditos porque jamais mereciam atenção pública. Este é o lar, o único lar possível, desvalido e transitório, desse livre exercício de pintura que, por vocação, procede às avessas do mundo burguês administrado.

 

Depois, é urgente estreitar o contado físico. Muito da força poética de Bakun deriva da sensação de presença corpórea – sentimos o artista em meio à natureza, quase indistinto, a acompanhar sua pulsação orgânica; e o assistimos ainda a absorver a cena, em geral concisa e transversa, até que a tela literalmente a incorpore. É um truísmo: segundo a lógica contrária do trabalho de arte, o errado costuma dar certo. No caso de Miguel Bakun, o óleo fruste, sem brilho, quem sabe veio a ser o veículo ideal a permitir a coalescência com o vegetal, a porosidade com que assimila a matéria orgânica. As extraordinárias marinhas, por sua vez, ostentam um pronunciado acento mineral. Já os céus não exalam nada de aéreo: são quase metálicos. Trata-se sempre, porém, da mesma ânsia tátil que desobedece à vontade a regra acadêmica da textura, a correta imitação visual da sensação tátil. A matéria da pintura é o espírito do pintor. A contraprova vem em seus autorretratos despojados, gênero mimético por definição. Reparem como a figura do artista é feita do mesmo estofo do interior que, ao invés de o acolher e distinguir, expõe sua precária condição existencial. Menos do que representante típico da boêmia – habitat por excelência do pintor extraviado da época – Miguel Bakun se apresenta como o homem comum, funcionário de repartição, comerciário talvez, desgastado pelo trabalho, com a fisionomia um tanto perplexa.

 

Uma vez que o quadro pós-impressionista busca a verdade em si mesmo, em sua própria personalidade, e só se autojustifica graças à coerência e potência formais, é evidente que a natureza deixa de ser Criação, a guardar um segredo que a pintura nos ajudaria a resgatar. O humilde e isolado Bakun foi entre nós um dos primeiros paisagistas para quem o contato com a natureza, o Outro do homem, se converte no modo insigne de interrogar o destino pessoal. Modo solitário, silencioso e meditativo, que a agitação e o convívio humano anônimo e conspícuo da cidade grande tornaram impraticável. De alguma maneira, por meios e modos difusos, Miguel Bakun fez-se contemporâneo de Cézanne e Van Gogh. Ele não passava os olhos sobre as reproduções de suas telas, a essa altura, já emblemáticas; à sua medida, ele as introjetava, examinava a fundo, até as últimas partículas de seu ser.

 

A cronologia termina, assim, quase irrelevante. O que importa é que essas pequenas telas introspectivas, que adquirem direito de cidadania como linguagem moderna inicial nos tardios anos 1940, continuam a seduzir e intrigar o olhar contemporâneo. Quer dizer, permanecem e, para muitos de nós, só agora aparecem como agentes do nosso acervo simbólico modernista, instintivamente envolvidas que estavam com o difícil processo de formação do sujeito estético moderno no Brasil. Junto às telas de uns poucos pares, Guignard, Pancetti e um Alfredo Volpi que ainda preparava o salto mortal em direção à plena pintura autônoma, elas nos levam a interrogar o presente de nosso passado modernista. Porque, visivelmente, o atualizam.

Exposição de Bruno Miguel

07/out

Com diversas exposições internacionais no currículo, Bruno Miguel mostrará obras inéditas, que o destacaram no exterior, mas nunca foram apresentadas no Brasil. Nos últimos anos, Bruno Miguel expôs mais no exterior, onde também realizou residências. Muitas de suas séries, que o destacaram nos Estados Unidos, na Alemanha e no Peru, nunca foram vistas no Brasil. Com isso, surgiu a ideia da exposição “Youdon´tknow me”, que será inaugurada no dia 8 de outubro, na Luciana Caravello Arte Contemporânea, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ. A curadoria é de Agnaldo Farias. A mostra traz um recorte dos trabalhos mais emblemáticos do artista, produzidos nos últimos cinco anos.

 

A exposição ocupará todo o espaço expositivo da galeria, com cerca de sete séries de trabalhos, que abordam a construção da memória no universo doméstico, as relações do POP e do consumo e a pintura como pensamento expandido. Conhecido por aqui por suas pinturas sobre tela, Bruno Miguel tem uma ampla produção em diversos outros suportes, como escultura, desenho e instalação, incluindo também a pintura, mas que, muitas vezes, é apresentada de forma mais ampla, a partir do pensamento sobre pintura, em obras que não necessariamente utilizam a tela.

 

Dentre as obras apresentadas estará uma instalação da série “Mesa de Jantar”, composta por diversos guardanapos de papel, pintados com tinta Epóxi e vinil adesivo. Obras desta série foram mostradas duas vezes em Nova York, na Pensilvânia, em Lima, em Buenos Aires, em Bogotá e em Berlim, mas nunca no Brasil. Utilizando as formas de objetos de uma mesa de jantar, como pratos, copos, descansos de panelas e outros, o artista vai criando as obras a partir de um jogo entre o positivo e o negativo, utilizando cores e também o branco para destacar certos contornos e dar volume. O vinil adesivo imitando diferentesmadeirascomplementa a obra, dando a sensação de se tratar de uma mesa de jantar.

 

Na série “Sala de Jantar”, o artista apresenta pinturas sobre um conjunto de pratos de porcelana e faiança, comprados em leilões de antiguidade, que são dispostos na parede e pintados com esmalte, tinta a óleo e colorjet, com imagens que perpassam e continuam de um prato para outro, formando uma unidade. “Os pratos têm relação com o rizoma Deleuziano e o grafismo urbano do Rio de Janeiro, com o subúrbio onde moro, com as grades e as pichações que quem vive na cidade está acostumado a ver”, conta o artista, que ressalta que esses trabalhos se relacionam com os guardanapos da série “Mesa de Jantar”, apesar de terem um “caráter de excesso, oposto à estética minimal dos guardanapos”.

 

“O vazio que nos consome” é um conjunto de obras feito a partir de embalagensplásticas de produtos consumidos pelo próprio artista, que são lavadas, preenchidas com resina e tinta e ao final tendo as embalagens descartadas, se tornam um híbrido de pintura e escultura, memoriais do vazio cotidiano. Sem referência à embalagem original não épossível identificar sua origem, tornando-se suportes de cores, que ficam levemente descoladas da parede. “Essas obras vêm da relação do POP com o ambiente doméstico e falam sobre a feitichizaçãodo consumo, sobre o condicionamento social de que consumir faz parte da nossa estrutura”, afirma Bruno Miguel. Essa é uma das obras em que o suporte é a escultura, mas cujo corpo da obra é construído como se fosse pintura, sobrepondo camadas de resina.

 

Farão parte da exposição, ainda, obras da série a série “Candy”, onde, em um suporte de madeira coberta de resina, são inseridas formas coloridas, também de resina, que lembram balas e doces. Essas “balas” são preparadas pelo artista em fôrmas de silicone próprias para a feitura de doces. Novamente explorando a tridimensionalização dos processos pictóricos, ampliando o campo das fronteiras sobre o que pode ser a pintura hoje. Complementa a exposição asérie “Objetos de natureza morta”, obras pictóricas tridimensionais, que reúnemglobos de luz, luminárias, sacos vazios e garrafas, que são preenchidos com resina pigmentada. Essa obra é um desdobramento da instalação “Cristaleira“, apresentada no Oi Futuro Flamengo, em 2015.

 

Sobre o artista

 

Bruno Miguel nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, formado em artes plásticas e pintura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde é professor desde 2011. Possui obras em importantes coleções públicas e privadas, como Museu de Arte do Rio (MAR), Coleção Gilberto Chateaubriand – MAM- Rio, Deutsche Bank Collection, Centro Cultural São Paulo, entre outras. Recebeu menção especial de honra V Bienal Internacional de La Paz, Bolívia, e realizou residências na FountainheadResidence (2019), em Miami, EUA; no Vermont Studio Center(2018), em Vermont, EUA, e na DreamplayArtists in Residence – Fall (2013), em Lyndhurst, EUA.

 

Dentre suas principais exposições individuais estão: “Youcan´ttakeitwithyou?” (2019), no PCA&D Lancaster, na Pennsylvania, EUA;“Welcome Lima” (2018), no Espacio Tomado, em Lima, Peru; “SeductionandReason” (2017), na Sapar Contemporary, em Nova York, EUA; “A Viagem Pitoresca” (2016), no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, em Curitiba, e “Essas pessoas na sala de jantar” (2016), no Centro Cultural São Paulo; “Sientase em casa” (2015), na Sketch Gallery, em Bogotá, Colômbia; “A Cristaleira” (2015), no Oi Futuro, no Rio de Janeiro; “Essas pessoas na sala de jantar (2015), no Paço Imperial, no Rio de Janeiro; e em 2016 no Centro Cultural São Paulo, “Ex-culturas” (2013), na Galeria do Lago, no Museu da República, no Rio de Janeiro; “MakeYourselfat home” (2013), no S&J Projects, em New York; “Tudo posso naquilo que me fortalece” (2013), na Luciana Caravello Arte Contemporâna, entre outras. Dentre suas principais exposições coletivas estão: “Manjar: Para Habitar Liberdades” (2019), no Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro; “The World on Paper” (2018), no Palais Populaire, em Berlim, Alemanha; “A Luz que Vela o Corpo é a Mesma que Revela a Tela” (2017), na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro; “São Paulo não é uma cidade, invenções do centro” (2017), no SESC 24 de Maio, em São Paulo; “Arte em Revista” (2016), na Galeria do BNDES, no Rio de Janeiro; “EBA 200 anos” (2016), no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro; “Trio Bienal” (2015), no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, entre outras.

 

Sobre o Curador

 

Agnaldo Farias é professor-doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, crítico de arte, curador geral do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba e curador da 3ª Bienal de Coimbra, Portugal. Realizou curadorias de exposições para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Instituto Tomie Ohtake, Centro Cultural Banco do Brasil e para a Fundação Bienal de São Paulo, entre diversas outras instituições. Foi curador de Exposições Temporárias do Museu de Arte Contemporânea da USP (1990/1992) e curador geral do MAM/RJ (1998/2000). Na Fundação Bienal de São Paulo, participou de suas 16ª e 17ª (1981 e 1983), na seção de cinema da equipe de Walter Zanini. Curador da Representação Brasileira da 25ª Bienal de São Paulo (1992), curador adjunto da 23ª Bienal de São Paulo (1996) e da 1ª Bienal de Johannesburgo (1995). Ainda, ao lado do curador Moacir dos Anjos, assinou a curadoria geral da 29ª Bienal de São Paulo (2010) e manteve a parceria na Representação Brasileira da 54ª Bienal de Veneza (2011), com uma exposição de Artur Barrio.

 

Até 09 de novembro.

 

Palatnik: atenção perceptiva

04/out

A Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba, PR, apresenta até 23 de novembro obras de Abraham Palatnik em exposição individual.

 
PALATNIK: encantamento e reflexividade do olhar

 

Abraham Palatnik é um dos pioneiros da arte cinética na história da arte do pós-guerra. Participou da formação do grupo concreto no Rio de Janeiro – Grupo Frente – entre o final dos anos 1940 e o começo da década de 1950. Seu Cinecromático causou impacto na 1ª Bienal de São Paulo de 1951 e foi um divisor de águas. A questão que o mobilizou ao longo de toda sua longa trajetória, todavia, não se prende à tecnologia, mas está focada na articulação entre movimento (real ou virtual) e atenção perceptiva.

 

É sabida nossa dispersão sensorial circulando pelas grandes metrópoles modernas. A excitação estética que nos mobiliza, na publicidade e no entretenimento, nos faz olhar muita coisa e não parar para ver nada. Não há tempo e tudo passa. A obra de Palatnik impõe-nos outra temporalidade. O encantamento nos atrai e somos convidados e reparar no que vemos. Ao mesmo tempo em que tudo mexe, nosso olhar se fixa na magia deste jogo lúdico de linhas e cores.

 

Neste aspecto, sua obra esteve, mesmo que indiretamente, vinculada aos interesses da Op art. Uma espécie de acaso controlado define o acender e o apagar das luzes nos cinecromáticos ou o movimento inusitado das hastes nos aparelhos cinéticos ou de ripas, cordas e veios de madeira nas múltiplas séries que ele criou desde a década de 1960.

 

O importante no uso da tecnologia no seu caso é que ele se apropria e transforma o dispositivo tecnológico sem se submeter aos seus condicionamentos predeterminados. A tecnologia não é um imperativo de expressão determinado pela novidade, é um meio de expressão a ser deslocado por conta das potencialidades poéticas e estéticas. Neste aspecto, há um diálogo lateral entre Palatnik e Calder. O que os mobiliza é o gozo estético, o momento da experiência que nos tira da determinação cotidiana.

 

Em uma crítica de 1951, publicada no Diário Carioca, Antonio Bento já aproximava Palatnik de Calder e fazia isso pelo fato de ambos introduzirem o tempo na experiência das artes visuais. O artista americano buscava esta pulsação temporal a partir da escultura, já o brasileiro vai produzi-la como um desdobramento da experiência pictórica. São obras que nascem de gestos simples, de pequenos achados onde sobram graça e encantamento. Esta combinação do lúdico e do cinético vai singularizá-los dentro desta vertente construtiva que os perpassa.

 

A obra de Palatnik manteve-se sempre acreditando na afirmação de uma subjetividade emancipada pelo contato mobilizador com a forma artística. Qualquer tipo de determinismo, seja político, seja tecnológico, passa à margem de sua obra. É uma experiência de absorção e sedução que faz com que a obra seja um lugar de sensibilização de formas e cores. O que interessa na relação com o fenômeno estético é o parar para ver e deixar-se seduzir pelo tempo intrínseco deste ver. Não se adequa ao mero reconhecer, não há nada “fora” ou “antes” do ato de perceber, apenas o dar-se do acontecimento visual.

 

A partir da década de 1960 a obra de Palatnik tomará dois caminhos. O fascínio não é mais com a luz, mas apenas com o movimento e ele pode ser tanto real como virtual. Sua obra se desenvolverá tanto na produção de objetos cinéticos como de pinturas intituladas Progressões, feitas a partir do movimento óptico dos veios da madeira ou de efeitos cromáticos serializados pintados sobre a madeira1. Em seguida, novos materiais passam a ser explorados: do poliéster ao papel cartão, passando pelas cordas e voltando às ripas. Esta exposição na galeria Simões de Assis está focada neste segundo aspecto do movimento, mais óptico que cinético.

 

Tomando as progressões do começo da década de 1960, uma indagação pode ser feita em relação ao uso da madeira. Este uso não parece arbitrário, mas resultado do seu envolvimento àquela época na produção de mobiliário, que o punha em contato direto com a madeira. A partir daí, com sua sempre concentrada atenção estética, a madeira passa a revelar possibilidades formais até então despercebidas. O que interessava a Palatnik era o modo como a forma iria resistir ao tempo acelerado do mundo contemporâneo, obrigando o olhar a parar e deixar-se seduzir pelo acontecimento visual. Contra a manipulação sensorial da sociedade do espetáculo, há neles o primado fenomenológico do reaprender a ver o mundo.

 

Por fim, sua obra assume um compromisso ético, no sentido de uma experiência perceptiva livre e independente – sem determinações normativas nem cognitivas. A obra de Palatnik, assim como de alguns artistas importantes do movimento Op, apesar dos riscos formalistas inerentes a certa diluição decorativa, assumiu até o fim o desejo de fazer da pintura um exercício de emancipação estética da humanidade.

 

Nota:
1 Deixo de lado aqui sua atividade industrial, suas pesquisas com novos materiais como o poliéster e seus jogos e máquinas lúdicas.

 

Luiz Camillo Osorio

 

Nova exibição de Ascânio MMM

01/out

A Casa Triângulo, Jardins, São Paulo, SP, inaugurou a exposição individual de Ascânio MMM. A curadoria é de Guilherme Wisnik. As peças espaciais de Ascânio MMM têm uma vocação pública, que denota seu vínculo de base com a tradição construtiva e, mais especificamente, uma proximidade com a Arquitetura, e com a noção de estrutura. Por isso é que muitos desses trabalhos tenham sido instalados em espaços abertos, fora de galerias ou museus.

 

No caso dessa exposição, a tipologia piramidal, remetida a formas históricas totêmicas, combina-se a um novo trabalho mais aberto e abstrato (Quasos/Prisma 1), cuja escala permite que as pessoas penetrem o seu espaço interior e o atravessem. Dependendo do ângulo pelo qual olhamos as peças espaciais de Ascânio – Quasos e Piramidais -, elas assumem aspectos mais sólidos ou mais vazados, dada a profundidade dos perfis utilizados.

 

Até 01 de novembro.

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Exposição Mario Mendonça

30/set

A Galeria Evandro Carneiro Arte, Shopping Gávea Trade Center, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, apresenta de 05 de outubro a 09 de novembro a “Exposição Mario Mendonça”. A mostra conta com 37 telas, em destaque para algumas obras inéditas.

 
“Se parar de pintar… paro de respirar”

 

Mario Mendonça

 

Mario Mendonça nasceu no Rio de Janeiro, em 1934. Cursou Direito e trabalhou na empresa do pai por algum tempo, mas sua vocação pela arte sempre se manifestou, desde que, nos primeiros anos do Colégio Santo Agostinho, os padres confiscavam seus cadernos quando o flagravam desatento às aulas, desenhando.
Autodidata no campo artístico e católico de formação, a pintura sacra o impactava desde as missas frequentadas em família. Mario era afetado (a palavra deriva de afeto) por esse tipo de pintura, sobretudo a de Georges Rouault e Mathias Grunewald até que, em 1961, conheceu Emeric Marcier, em uma reunião de trabalho na corretora onde trabalhava. Havia um caderno de desenho sobre sua mesa e o artista folheou, convidando o jovem para visitar seu ateliê no sábado seguinte. Ali, no pequeno apartamento da Timóteo da Costa, Mario se deparou com um Cristo em proporções monumentais, ainda no cavalete e se apaixonou irreversivelmente. Foi acometido pelo pathos que se abriu em sua vida: a partir de então, estava decidido a viver da e para a arte.

Sua primeira professora de desenho foi Caterina Baratelli, uma italiana indicada por Marcier para o pupilo aprender o básico. E o desafiou: “depois que ela o dispensar das aulas, retorne aqui para o seu curso superior” (contou-me Mario em entrevista oral, 2019). Só que paralelamente às aulas de Baratelli, frequentava também as de Ivan Serpa e Aluísio Carvão, no MAM-RJ. Este parece ter sido um dos motivos de seu desentendimento posterior com Marcier. Antes, porém, chegou a viver um tempo em Barbacena, no sítio do pintor romeno. Mario confessa que ele o influenciou intensa e profundamente por 25 anos e sua admiração por Marcier é inesgotável, mas a amizade não foi. Romperam em 1964 quando, ao final do ano, Aluísio Carvão organizou uma exposição individual do aluno no próprio museu. Desde então, Carvão seguiu sendo mestre, amigo e parceiro de ateliê de Mario Mendonça por quase 40 anos, até o seu falecimento em 2001.

Com Carvão, Mario descobriu a magia das cores que passou a aplicar em suas obras, antes em tons escuros. Os temas preferidos continuavam a ser as cenas bíblicas e as paisagens montanhosas, duas constantes em sua pintura. Além das cores, trouxe a multidão compassiva para compor seus apocalipses, crucificações e calvários. “Trazer a multidão significa trazer à cena o nosso contemporâneo”, explica (entrevista oral, 2019). Ao cenário sagrado, incorporou também o impacto dos horrores do Holocausto: seus Cristos são cadavéricos e deformados, tão lúgubres quanto esteve a condição humana naquele período de Guerra Mundial e Guerra Fria. Sobre essa dimensão de seu trabalho, Walmir Ayala acrescenta que o artista realiza uma “abstração revolucionária dos cânones clássicos das imagens sagradas” e arremata toda uma trajetória artística no resumo inconteste: a obra de Mario se trata de um “apaixonante romance da salvação”. (Apud. In: Mendonça. Espaço Mendonça, 2003).

Retornando à cronologia, após a sua inédita exposição no MAM-RJ (1964), destacaram-se alguns marcos na carreira do artista: em 1967 expôs na Maison de France e pintou o interior da primeira igreja (Matriz dos Santos Anjos, Leblon). Muitas pinturas sacras em capelas se seguiram após esse evento inaugural, tendo pintado o interior de dez igrejas entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, culminando com a Capela do Corcovado, no Rio de Janeiro, que abriga a sua solene Ressurreição de Cristo, desde 2014. Quanto às exposições, no ano 1970 realizou uma individual na Alemanha, que lhe abriu um leque de oportunidades internacionais: Portugal (ainda em 1970), Roma (1976 e 1982), Madri (1979), Bulgária (1987), Paris (1988) e Alemanha novamente, em 1989. No âmbito nacional, destacam-se a sua primeira exposição individual no Museu Nacional de Belas Artes (1972), composta de paisagens e uma impactante Via Sacra na entrada do Museu; a de arte sacra na Galeria Ipanema (1978), eleita uma das melhores naquele ano; a sua Retrospectiva na Casa do Bispo (1985, parceria da Fundação Roberto Marinho com a Arquidiocese do Rio de Janeiro, contendo 115 telas sacras do artista) e a exposição Abertura do Novo Milênio (2001, MNBA-RJ) que o consagrava como um pintor religioso secular.

Além desses marcos expositivos, Mario recebeu medalhas de honra e prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho; teve obras escolhidas para compor acervos importantes, como o do Vaticano, o do Museu Ibero Amerikanishes Institut (Berlim), o do Museu Nacional de Belas Artes, os de palácios de governos no Estado de Minas Gerais e o do Palácio do Planalto, em Brasília; foi convidado para membro das Academias Brasileira de Arte (ABA) e de Belas Artes e também para conselheiro de cultura da Arquidiocese do Rio de Janeiro; editou livros sobre sua pintura e seus desenhos; criou um instituto cultural em Tiradentes, MG (2011); manteve uma linda família e pintou, pintou e pintou, com disciplina e paixão. Hoje, com 85 anos, Mario continua devoto de sua própria arte. E depois de um período de 20 anos sem expor, apresenta 37 obras (algumas inéditas) na Galeria Evandro Carneiro Arte.

Laura Olivieri Carneiro,

setembro de 2019.