Mercedes Viegas exibe Mecarelli

17/dez

O artista ítalo-francês Adalberto Mecarelli faz sua primeira mostra no Brasil. A galeria Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, inaugurou a exposição “Adalberto Mecarelli – Luz +”, com obras do artista nascido em Terni, Itália, em 1946, e radicado há 50 anos em Paris. Esta é a primeira exposição no Brasil do escultor de matriz construtiva abstrata que se notabilizou por seu trabalho de pesquisa de luz e sombra, registros da luz solar, e está presente em vários espaços públicos em diversos países europeus, como França Itália e Alemanha. “A exposição traz sobretudo esculturas de luz que dialogam com o espaço da galeria, formas geométricas esculpidas pela sombra”, observa a curadora Elisa Byington, que selecionou obras do artista em diferentes técnicas e materiais.

 

Além das esculturas de luz, – que ocupam grande espaço na galeria – encontra-se na na mostra a obra “Jai Prakash, cr2075”, (2000), conjunto de cinco trabalhos em nitrato de prata sobre papel de algodão, feitas em Jaipur, na Índia, cidade muito frequentada por Mecarelli, desde a residência artística que fez entre 1992 e 1993, para pesquisar os notáveis observatórios solares do país; e a série “Hamlet” (1985), conjunto de nove impressões em água-tinta sobre papel de algodão, baseadas na cenografia que criou para a montagem de “Hamlet”, em 1985, no Théâtre des Quartiers d’Ivry, em Paris, com direção de Catherine Dasté, e excursionou por vários teatros franceses e europeus. A exposição traz ainda obras de 2010, em nitrato de prata sobre papel de arroz de registros solares feitos no Templo Haeinsa, na Coreia do Sul, e as obras inéditas “Demoiselles de Malakoff” (2019), desdobramentos da imagem de poliedros, impressas em nitrato de prata sobre tela crua. Malakoff é o bairro parisiense onde está o ateliê do artista, e as imagens surpreendentes que surgem do “embrulho” diferente de um mesmo poliedro, que, de modo não proposital e aleatório, remetem a imagens cubistas-futuristas, suprematistas, da abstração geométrica do início do século.

 

Elisa Byington explica que as obras em nitrato de prata são “fotografias no sentido etimológico do termo”. “É uma impressão de manchas de sol fixadas com nitrato de prata, formas resultantes de angulações diferentes da luz solar, escolhidas de forma aleatória – cada série obedece a um determinado princípio -, em diferentes momentos do dia”. “A parte pincelada de nitrato de prata – sobre tela, tecido ou papel – equivalente àquele volume desenhado pela luz solar, é imediatamente protegida da luz, mantida no escuro. Uma vez exposto à luz, o nitrato de prata escurece e adquire várias tonalidades, do marrom ao cinza chumbo, e consome lentamente aquela marca, a memória da presença, a marca deixada pelo sol naquele instante”, diz. O título das cinco obras em nitrato de prata sobre papel de algodão, “Jai Prakash, cr7520” (2000), se refere a um dos instrumentos astronômicos arquitetônicos em Jaipur, na Índia.

 

Contrastes Luz e Sombra

 

“Desde o início, a obra de escultor de Adalberto Mecarelli se constrói sobre questionamentos da visibilidade e a conceituação do não-visível. A experiência com o núcleo primordial da escultura na Escola de Belas Artes de Terni, o fogo, a transformação da matéria, e a ideia do vazio que se cria no processo da fundição com a técnica de cera perdida, um vazio perfeito, é decisiva para sua trajetória, distante da figuração. Ele vai trabalhar os opostos vazio/cheio, as relações entre o dentro e o fora, interior e exterior, contrastes entre luz /sombra, visível e invisível, os extremos luminosos do preto e do branco, recolocando-os como partes de um todo, no espaço”, comenta Elisa Byington.

 

Intervenções em espaços públicos

 

Uma característica presente em grandes esculturas de Adalberto Mecarelli é que se realizam plenamente em um único dia do ano, de acordo com cálculos precisos da inclinação do sol. Dentre as muitas intervenções em espaços públicos realizadas por Adalberto Mecarelli, está “Stomachion Solis”(harmonia infinita do sol), uma grande estrutura em aço cortén, que inicia o percurso no Parque das Esculturas, em Siracusa, Itália. Instalada no topo de uma falésia, em frente à Ilha de Ortígia, centro histórico da cidade, a obra é uma composição de quatorze peças que remetem ao Stomachion de Arquimedes (Siracusa, 287 a.C. – 212 a.C.), um dos mais antigos e fascinantes quebra-cabeças na história da humanidade. A partir de cálculos precisos, a escultura de Mecarelli, às 11h de cada dia 13 de dezembro, reflete os raios solares, que cruzam o mar e iluminam a Capela de Santa Luzia, em Ortígia, onde há a célebre tela do Caravaggio com o “Sepultamento de Santa Luzia” (1608). Uma hora mais tarde, às 12h, a mesma estrutura projeta a sua frente a sombra de um quadrado perfeito. No dia 13 de dezembro se festeja Santa Luzia (c.283 – c. 304), padroeira de Siracusa, e considerada protetora dos olhos. É o dia de seu martírio, quando arranca os olhos e os entrega ao carrasco para não renegar a própria fé, data próxima ao solstício de inverno. A obra faz alusão à luz (Lucia, em italiano), e a falta dela, a cegueira, uma passagem do caos ao cosmo. “Luz e sombra, caos e cosmo serão os quatro elementos em suspensão”, observa o artista.

 

Outras intervenções notáveis de Adalberto Mecarelli são “Eppur si muove” (1999), frase de Galileu, iluminada na fachada no Instituto Galileu, no campus da Universidade de Viltaneuse, em Paris, por meio de um complexo mecanismo de espelhos pela luz do sol no dia da sua condenação, 20 de junho; “Lux umbrae” (2011), nos Cryptoportiques, em Arles, França, e a escultura de luz, espécie de lua que surgia na fachada da Igreja de Sant’Eustache, durante a Nuitblanche, em Paris, em 2012. Em 2015, ele fez uma intervenção na abadia cisterciense de Sylvacane, na Provença, França. Em 2018, realizou “O Sol ao Sol”, uma grande escultura em pedra, de quase cinco metros de altura, instalada em um espelho d’agua junto a um poliedro irregular em aço, em Ibiúna, São Paulo. A cada dia 22 de setembro, data do equinócio de primavera, o sol, que passa no centro da fenda que divide em dois o “totem” de pedra, reflete na água sob o poliedro em aço, que devolve os raios refletidos na direção do sol.

 

Até 31 de janeiro de 2020.

 

 

Dois na Galeria Evandro Carneiro

28/nov

A Galeria Evandro Carneiro Arte, Gávea, Rio de Janeiro, RJ, apresenta de 30 de novembro de 2019 a 04 de janeiro de 2020 a “Exposição Ira Etz e Uziel”. A mostra reúne 15 telas e 43 objetos de ambos os artistas.

 

Ira Etz e Uziel

 

Ira e Uziel são dois artistas talentosos na sua expressão, cada qual com as suas características. Assim os apresentamos, como unidades heterogêneas, mantendo as suas diferenças, mas evidenciando aproximações. A curadoria da exposição, mérito de Evandro Carneiro, escolheu as peças em meio ao conjunto da obra de cada artista e, ao mesmo tempo, pensando uma composição harmônica no todo porque, de alguma maneira, há um diálogo entre eles. Por isso, a mim coube resgatar uma metodologia historiadora sugerida por Walter Benjamin: a “dialética sem síntese” para organizar esse texto.

 

Ira Etz nasceu em 1937, no coração de Ipanema, Rio de Janeiro. Filha e neta de alemães, sua família inteira era afeita às artes, destacando-se o avô materno Arthur Kaufmann, pintor importante do expressionismo alemão e professor da Academia de Belas Artes de Düsseldorf até 1933. Judeu, Kaufmann migrou com o filho e a esposa para os EUA nos anos de ascensão nazista na Europa, ali refazendo sua vida e desenvolvendo uma exitosa carreira artística. Enquanto sua filha, mãe de Ira, já era casada e escolheu o Brasil para viver, juntamente com o marido. Assim, seus pais vieram morar no bucólico Arpoador, onde Ira cresceu com a brisa da praia sempre a lhe inspirar e a liberdade da criação afetuosa e vanguardista de uma família alemã, boêmia e amiga de intelectuais e artistas frequentadores de Ipanema. Essa marca libertária se expressa na sua identidade e no seu trabalho artístico.

 

Ira começou a experimentar a arte com a fotografia. Desde muito jovem fotografava e, ao casar-se, montou um estúdio com o marido que também se dedicava ao hobby. Até hoje o casal está junto e ela segue fotografando. Porém, tornou-se também pintora após a perda de seu filho querido. A dor dilacerante que sentiu fez o tempo parar no ano 1988 e ela precisou reinventar-se. Sua catarse foi a tinta jogada e trabalhada na tela, as cores fortes e expressivas, carregadas de emoção. Sublimação na arte, foi assim que surgiu essa artista corajosa e livre que foi organizando a sua linha de trabalho e procurando, então, aperfeiçoar sua técnica, primeiramente com Arthur Kaufmann, pintor importante do expressionismo alemão e professor da Academia de Belas Artes de Düsseldorf até 1933. Hoje, com 82 anos, Ira é pura potência e está no auge de sua carreira, em plena produção e em fase de expansão, como ela mesma diz (entrevista oral, 2019). Observemos esse percurso em suas obras aqui apresentadas, sendo nove telas e 23 objetos de diferentes momentos de sua trajetória.

 

Paralelamente a esta história, igualmente nos anos 1930, uma outra família europeia chegou ao Brasil fugindo do Nazismo. Os judeus poloneses Rozenwajn instalaram-se primeiramente em Natal – RN, onde chegaram com uma carta de recomendação para trabalhar com os Palatnik, em empreendimento comercial. Ali Uziel nasceu, em 1945. Porém, mudaram-se para Belo Horizonte cinco anos depois. Lá ele se criou e estudou arquitetura na UFMG. Ainda na faculdade iniciou seus desenhos com guache e nanquim e, ao final do curso, já tendo participado de alguns salões universitários, foi fazer uma residência em Haifa, Israel. Nesse tempo, produziu bastante e realizou a sua primeira exposição individual (Dany Art Gallery, 1972). No retorno ao Brasil, um ano depois, Uziel passou a se dedicar à arquitetura em escritórios e no serviço público. Contudo, jamais deixou de desenhar e aos poucos foi substituindo o nanquim pelo lápis de cor e incluindo o pastel oleoso no seu repertório.

 

Uziel mudou-se para Ouro Preto e começou a pintar suas telas com tinta acrílica, sempre tendo a linha e o traçado arquitetônico como referências, fosse no cálculo, fosse na estruturação das composições ou mesmo na técnica que usava a “régua T” e espátulas para raspar texturas, numa determinada ocasião. Nessa charmosa cidade mineira, conheceu vários artistas e quadros da cultura que o encorajaram a pintar mais e mais: Carlos Bracher, Scliar, Angelo Oswaldo, Murilo Marcondes… Foi se afirmando artisticamente e desenvolvendo seu estilo, chegando a expor individualmente na Galeria Bonino (1992), dentre outras mostras individuais e coletivas presentes em seu currículo. Mas o grande pulo do gato para a sua arte foi o ano de 2015, quando se aposentou como arquiteto da Federal de Ouro Preto. Libertou-se, então, de uma dicotomia inconsciente que o atrapalhava a liberdade artística. Enfim podia viver de sua arte! Porém, curiosamente ficou dois anos sem pintar, embora maquinasse outro tipo de construção criativa. Em um Festival de Inverno da cidade, apresentou suas novas criações: objetos feitos em metal e madeira que aproveitavam miçangas, ripas e materiais afins para criar espécies de bonecos “feiticeiros” como ele denominou inicialmente e não à toa. Embora tenha me contado (entrevista oral, 2019) que as referências por trás dos objetos sejam intuitivas, é evidente uma ancestralidade africana, indígena e oriental nessas montagens, conforme se pode observar nos seus 20 objetos que compõem esta mostra. Quanto às suas seis telas expostas na Galeria, me parece que por trás das composições harmônicas há sempre o traço do arquiteto, alinhavando com cores e cálculos as suas construções de equilíbrio espontâneo. Assim, lembrei-me da frase de Paul Klee sobre sua própria obra: “a linha aparece como elemento pictórico autônomo.” Ou seja, ela está ali o tempo todo, traçada, mas se supera dialeticamente pela autonomia da composição em si.

 

Ira e Uziel, dois artistas singulares que não se conheciam até esta exposição, mas que começaram a trocar experiências desde que os apresentamos e resolvemos expor seus trabalhos conjuntamente. O que os une, além da origem europeia, é certamente a qualidade artística, notada por Evandro Carneiro que, pela ousadia de seu notório saber, resolveu reunir diferentes. Tal como propôs Walter Benjamin, nem sempre há a necessidade da síntese para pensarmos aproximações.

 

Laura Olivieri Carneiro
Novembro 2019

Bechara lança livro na Lurixs

21/nov

No próximo dia 26 de novembro de 2019, às 19h, será lançado na Lurixs: Arte Contemporânea, Leblon, Rio de Janeiro, RJ, o livro “José Bechara – Território Oscilante”, com selo da Barléu Edições. O livro será distribuído para as principais livrarias de todo o país. José Bechara é um artista ativo no circuito nacional e internacional da arte contemporânea, e este livro reúne sua produção de 2010 a 2019. Três críticos de arte e curadores de diferentes países que acompanharam seu trabalho na última década são os autores dos textos: António Pinto Ribeiro (Lisboa, 1956), Beate Reifenscheid (Gelsenkirchen, Alemanha, 1961) e David Barro (Ferrol, Espanha, 1974). O editor Carlos Leal, que já publicou mais de 50 livros dedicados à arte, desde que criou a Barléu em 2002, comemora: “Este é sem dúvida o mais bonito!”. “É o único em que usei a quinta cor, que vai trazer um grande impacto visual ao leitor”, afirma. “O livro é gostoso de ler, e as esculturas, pinturas e instalações de José Bechara são belíssimas, e bem destacadas na publicação”. O livro tem capa dura, 240 páginas e trilíngue (português/inglês/espanhol) – foi mantido o idioma original de cada texto: em alemão, espanhol e português -, projeto gráfico de Rico Lins, formato: 26 x 27cm e tiragem de dois mil exemplares.

 

Neste momento, trabalhos de José Bechara podem ser vistos em exposições em várias partes do planeta: na coletiva “Walking Through Walls”, que celebra os 30 anos da queda do Muro de Berlim, com curadoria de Sam Bardaouil e Till Fellrath, na Gropius Bau, na capital alemã (até 19 janeiro 2020); na Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra – A Terceira Margem, com curadoria de Agnaldo Farias, Lígia Afonso e Nuno de Brito Rocha, em Portugal (até 29 de dezembro de 2019); e na edição da BIENALSUR 2019 realizada no Museu Nacional de Riyadh, Arábia Saudita, com a coletiva “Recovering Stories, Recovering Fantasies”, em curadoria de Diana Wechsler (até 5 de dezembro de 2019). Até o próximo dia 15 de dezembro está em cartaz na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, “José Bechara – Território Oscilante”, uma grande mostra dedicada a sua obra, com curadoria de Luiz Camillo Osorio.

 

Galeria BASE, exposição com visão feminina

19/nov

A Galeria BASE, Jardim Paulista, SP, de Daniel Maranhão, exibe “ANNA”, com cerca de 25 obras de Anna Bella Geiger e Anna Maria Maiolino e curadoria de Paulo Azeco. Nesse momento, faz-se por bem destacar a presença feminina na construção e na crítica sociocultural da nação. Como posiciona o curador,” são arquitetas de sua história e fazem parte do importante capítulo da arte Latina como peças fundamentais da luta feminista”.

 

O fato de estarem ligadas a efervescente cena cultural da cidade de Nova Iorque dos anos 1950 e 1960, e absorverem a revolução estética causada pela Bienal “Pop” de São Paulo de 1967, é ponto chave para o início dessa exposição. A escolha dos trabalhos priorizou o papel como suporte, tanto com obras únicas como múltiplos, da década de 1960, onde sua produção é de inquestionável importância.

 

“Burocracia”, de Anna Bella Geiger, produzida no período da ditadura militar, “…questiona a função e a natureza da obra de arte no âmbito do capitalismo, refletindo sobre o poder coercivo da arte como instituição, inquirindo sobre a função, a natureza e o poder repressor do Estado brasileiro” diz Paulo Azeco. Esse trabalho vem acompanhado de um importante guache da série visceral, onde a artista sobrepôs cartões recortados.

 

Anna Maria Maiolino participa com algumas “obras únicas de séries consagradas, como “Cartilhas”, “Marcas da Gota” e as xilogravuras produzidas em 1967 – “Ecce Homo”, “Glu Glu” e “Anna” – que marcam sua incursão pelo cordel e pela Pop Arte”, diz Daniel Maranhão.

 

“Ações falam mais que palavras”, dizem as ruas. Então, o melhor registro da importância das artistas agora são os eventos nos quais ou protagonizam ou estão envolvidas. “Geiger, acaba de encerrar a exposição individual “Aqui é o Centro”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), e se prepara para uma grande individual o MASP, com abertura prevista para o próximo dia 29 de novembro, intitulada “Brasil nativo/Brasil alienígena”. Já Maiolino, atualmente está com 9 vídeos em exposição no MASP, além de uma grande mostra individual na premiada Whitechapel Gallery, em Londres. Ambas têm obras nos mais importantes museus do mundo, a exemplo do MoMa, Tate, Centre Pompidou, Reina Sofia, além dos nacionais MASP, MAM/RJ, MAM/SP, Pinacoteca de SP, dentre outros”, especifica Daniel Maranhão.

 

“As Annas dessa exposição empunham sua arte de maneira sistemática, cada qual a sua maneira, como ferramenta de denúncia de uma cultura misógina ao mesmo tempo que apontam no feminino o norte dos novos tempos”, define Paulo Azeco.

 

Em “Anna”, dois expoentes da cultura brasileira exibem trabalhos que atestam a importância e o desafio do feminino.

 

Coordenação: Daniel Maranhão, Leonardo Servolo, Cássia Saad.

Abertura: 23 de novembro de 2019, sábado, das 15 às 18h.
Período: 27 de novembro a 20 de dezembro de 2019.

 

Cildo Meireles na Mul.ti.plo

18/nov

Sem expor no Rio de Janeiro há cerca de uma década e em uma galeria carioca há mais de trinta anos, Cildo Meireles inaugura mostra na Mul.ti.plo Espaço Arte, no Leblon. A exposição “Múltiplos Singulares” abre dia 19 de novembro, às 19h, permanecendo em cartaz até 19 de janeiro de 2020.

 

Com curadoria de Paulo Venancio, o artista exibe objetos e gravuras de diferentes formatos e materiais, produzidos ao longo de cinco décadas. Algumas peças são inéditas e serão apresentadas ao público pela primeira vez. De importância fundamental na internacionalização da arte brasileira, Cildo é um dos mais conceituados artista brasileiro na cena contemporânea mundial, com obras no acervo da Tate Modern (Londres, Inglaterra), Centro Georges Pompidou (Paris, França), MoMA (Nova York, EUA), Museu Reina Sofía (Madri e Barcelona), entre outros.

 

Cildo Meireles realizou sua última retrospectiva no Rio de Janeiro no ano 2000, apresentada no Museu de Arte Moderna. Na atual exposição na Mul.ti.plo, sendo gestada há dois anos, o público poderá ver um conjunto importante de obras, que lidam com noções de Física, Economia e Política, temas recorrentes nas obras de Cildo Meireles. Entre as 16 peças reunidas, quatro são inéditas e estão sendo produzidas em segredo. As surpresas só serão reveladas no dia da abertura.

 

“A ideia da mostra se consolidou há dois anos, no meu ateliê, com o Paulo Venancio, a partir de um objeto criado há décadas que sintetiza a instalação-performance “Sermão da Montanha: Fiat Lux”, apresentada há exatos 40 anos, em 1979, no Centro Cultural Candido Mendes. Foi uma provocação à ditadura militar, durando apenas 24 horas. Muito pouca gente viu. Desde então, guardo essa maquete e agora, finalmente, concluí o trabalho”, explica o artista. “Eu também já tinha combinado uma exposição na Mul.ti.plo com o meu amigo Maneco Müller”. Sócio da galeria, Maneco dá uma pista de outra obra surpresa da mostra: a participação da locutora Iris Lettieri, cuja voz ecoou por décadas, anunciando as partidas e chegadas no aeroporto do Galeão, no Rio. “Um dia, Cildo me revelou um projeto, concebido nos anos 70, que só poderia ser realizado com a voz única dela. Não perdi tempo. Fui ao encontro de Iris e conseguimos realizar o desejo do Cildo, com a mesma fala impecável e inesquecível”, explica Maneco.

 

“A exposição apresentará múltiplos de Cildo Meireles, que trazem em si o pensamento das grandes instalações do artista”, explica o curador. Uma delas, por exemplo, tem ligação com “Metros”, trabalho apresentado numa emblemática exposição na Documenta, em Kassel, Alemanha, em 2002. “Os objetos e gravuras reunidos exemplificam o pensamento de grandes trabalhos de Cildo, sendo alguns pouco vistos”, diz ele. O público poderá conferir uma nova edição das notas de “Zero Dólar” (1978-1994).

 

Considerado um dos artistas mais importantes de sua geração, o premiado Cildo Meireles possui obras no acervo de uma das maiores instâncias de consagração da arte contemporânea do mundo, a Tate Gallery, onde expôs ao lado de Mark Rothko, em 2008. Obras do artista fazem parte também da Coleção Cisneros (NY e Caracas), Pérez Art Museum (Miami, EUA), Fundação Serralves (Lisboa, Portugal), Inhotim (Brumadinho, Brasil), MAC (Niterói, Brasil), etc. Com sucessivas participações na Bienal de Veneza (Itália) e na Documenta (Kassel, Alemanha), Cildo traz no currículo ainda exibições individuais no MoMA e no Metropolitan, em Nova York. Atualmente, o artista está com uma grande exposição em São Paulo, SP, no SESC Pompeia. “Para essa individual no Rio, procurei reunir o mais significativo conjunto de múltiplos do Cildo, numa espécie de retrospectiva, de forma que as duas se complementassem”, conclui Paulo Venancio.

 
Sobre o artista

 

Cildo Meireles nasceu no Rio de Janeiro, RJ, 1948. Inicia seus estudos em arte em 1963, na Fundação Cultural do Distrito Federal, em Brasília, orientado pelo ceramista e pintor peruano Barrenechea (1921). Começa a realizar desenhos inspirados em máscaras e esculturas africanas. Em 1967, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde estuda por dois meses na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). Nesse período, cria a série “Espaços Virtuais: Cantos”, com 44 projetos, em que explora questões de espaço, desenvolvidas ainda nos trabalhos “Volumes Virtuais” e “Ocupações” (ambos de 1968 – 1969). É um dos fundadores da Unidade Experimental do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), em 1969, na qual leciona até 1970. O caráter político de suas obras revela-se em trabalhos como “Tiradentes – Totem-monumento ao Preso Político” (1970), “Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Coca – Cola” (1970) e “Quem Matou Herzog?” (1970). No ano seguinte, viaja para Nova York, onde trabalha na instalação “Eureka/Blindhotland”, no LP “Sal sem Carne” (gravado em 1975) e na série “Inserções em Circuitos Antropológicos”. Após seu retorno ao Brasil, em 1973, passa a criar cenários e figurinos para teatro e cinema e, em 1975, torna-se um dos diretores da revista de arte Malasartes. Desenvolve séries de trabalhos inspirados em papel moeda, como “Zero Cruzeiro” e “Zero Centavo” (ambos de 1974 – 1978) e “Zero Dólar” (1978 – 1994). Em algumas obras, explora questões acerca de unidades de medida do espaço ou do tempo, como em “Pão de Metros” (1983) ou “Fontes” (1992). Em 2000, a editora Cosac & Naify lança o livro “Cildo Meireles”, originalmente publicado, em Londres em 1999, pela Phaidon Press Limited. Participa das Bienais de Veneza, 1976; Paris, 1977; São Paulo, 1981, 1989 e 2010; Sydney, 1992; Istambul, 2003; Liverpool, 2004; Medellín, 2007; e do Mercosul, 1997 e 2007; além da Documenta de Kassel, 1992 e 2002. Tem retrospectivas de sua obra feitas no IVAM Centre del Carme, em Valência, 1995; no The New Museum of Contemporary Art, em Nova York, 1999; na Tate Modern, em Londres, 2008; e no Museum of Fine Arts de Houston, 2009. Recebe, em 2008, o Prêmio Velázquez das Artes Plásticas, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. Em 2009, é lançado o longa-metragem “Cildo”, sobre sua obra, com direção de Gustavo Moura. No mesmo ano, expõe no Museu d´Art Contemporani de Barcelona, Espanha, e no MUAC – Museu Universitário de Arte Contemporáneo, na Cidade do México. Em 2011, realiza a “Ocupação Cildo Meireles”, com curadoria de Guilherme Wisnisk, no Itaú Cultural, São Paulo. Em 2013, expõe no Centro de Arte Reina Sofía, Palácio de Velásquez, com curadoria de João Fernandes, em Madri, Espanha; e também no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, Portugal. Em São Paulo, apresenta mostra no Centro Universitário Maria Antonia, com curadoria de João Bandeira. Em 2014, expõe em Milão, Itália, no HangarBicocca, com curadoria de Vicente Todolí. No Brasil, expõe na Galeria Luisa Strina, São Paulo; na Dinamarca, na Kunsthal 44 Møen. Em 2015, expõe na Galerie Lelong, Nova York, EUA. Em 2019, abre a grande exposição “Entrevendo”, no SESC Pompeia, São Paulo.

 

Sobre a curadoria

 

Paulo Venancio Filho. Curador, crítico de arte, professor titular na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq. Publicou textos sobre vários artistas brasileiros, entre eles Antonio Manuel, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Lygia Pape, Waltércio Caldas, Mira Schendel, Franz Weissmann, Iole de Freitas, Carlos Zilio, Anna Maria Maiolino, Eleonore Koch e Nuno Ramos. Foi curador das seguintes exposicões: O corpo da escultura: a obra de Iole de Freitas 1972-1997(MAM-SP, 1997/Paço Imperial, 1997), Century City: Art and Culture in the Modern Metropolis (Tate Modern, Londres, 2001), Iberê Camargo: Diante da Pintura (Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2003), Soto: A construção da imaterialidade (CCBB, Rio de Janeiro, 2005/Instituto Tomie Othake, 2006/MON, Curitiba, 2006), Anna Maria Maiolino: Entre Muitos (Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2005/Miami Art Central, 2006), Fatos/Antonio Manuel (CCBB, São Paulo, 2007), Time and Place: Rio de Janeiro 1956-1964 (Moderna Museet, Estocolmo, 2008), Nova Arte Nova (CCBB, Rio de Janeiro, 2008), Hot Spots (Kunsthaus Zürich, 2009), Cruzamentos (Wexner Center for the Arts, Columbus, 2014), Possibilities of the Object: Experiments in Brazilian Modern and Contenporary Art (The Fruitmarket Gallery, Glasgow, 2015) e Piero Manzoni (MAM-SP, 2015).

Siron em Salvador na Paulo Darzé Galeria

08/nov

“Trabalho resultante de uma interpretação e análise peculiar, que sempre aponta para várias direções sem perder a estabilidade, busca constantemente o novo sem se olvidar de sua obra pregressa. Não tem receio em se arriscar, se expor e de não se fazer compreendido, pois tudo não passa de uma questão de tempo. Jamais se acomodou às fórmulas aclamadas, embora as revisite, como se vê a presente exposição, “Miragens”. Continua com vigor que contagia uma arte que surpreende sempre, e isso após meio século de pintura. Na mostra atual, o artista se utiliza do conceito da ilusão sedutora, do engano, do sonho e da quimera para abordar, de forma lúdica, mas marcante, o que se passa no mundo”.

 

 

Estas são palavras de Charles Cosac na apresentação da exposição “Miragens”, de Siron Franco, com abertura no dia 12 de novembro, das 19 às 22 horas, na Paulo Darzé Galeria, Salvador, Bahia, e temporada até 13 de dezembro.

 

 

Seguindo na sua apresentação afirma: “As repetidas figuras humanas são simples imagens, massas ou volumes de cores que podem deixar a interpretação clássica para ser apenas resultado do índice de refração. Quem sabe aspirando virem a se tornar uma verdade? Imagens superpostas, duplicadas, diferentes camadas de zonas pictóricas atravessadas evocam o conceito de miragem, confundindo quem as observa, como em um trompe-l’oeil.  A utilização da técnica que poderíamos mesmo chamar de pontilhismo, aqui sob nova e criativa interpretação, deixando que suas formas e cores sejam o tema e buscando ocultar o que seria o alvo a ser decantado. O colorido marcante e as diferentes texturas reforçam o conceito de trompe-l’oeil, buscando talvez esconder e, ao mesmo tempo, revelar as visões. Sem sabermos como realmente interpretá-las, algumas imagens nos levam a conceitos religiosos, outras à supostas questões do homem, da natureza e do meio-ambiente. Siron surpreende a cada nova mostra. Na última, realizada em 2018, “Em nome de Deus”, as obras também suscitavam dúvidas quanto ao “sacro” conceito do que estava sendo retratado. Agora, nos entrega e nos envolve em ilusões, exigindo e aguçando a nossa capacidade de interpretação. São obras que exigem observação demorada e repetida, sem garantia de que venhamos saber o que realmente se passa sob nossos olhos. São belas representações do ilusório, do diáfano, a miragem se faz”.

 

 

Ainda no catálogo, em outro texto-apresentação, Claudius Portugal diz: “Esta é uma arte relacionada diretamente a um compromisso de mundo, o mundo em que vive, sendo realizada na sua temática de coisas vistas, vividas, inventadas, e uma construção que privilegia não apenas o olhar, mas o viver a vida, no sentido amplo de homem e de cidadão, seus sonhos e seus pesadelos. Mas como qualquer artista, a biografia está na poesia, na trajetória desta sua arte, que tem na cor, ou na luz, uma gerando a outra como vida, a revelação da busca através das variantes de um figurativismo, hoje menos identificáveis à primeira vista, mas seja como for, uma obra que nasce da realidade para criar uma nova realidade, esta agora chamada arte, nos seus temas de natureza, bichos e homens, vigorosas na capacidade inventiva de continuar a produzir imagens enquanto pintura. Obra instigante, criativa, em primeiro lugar como pintura, mas abarcando também o desenho, a ilustração, as instalações, os monumentos em locais públicos, o que o torna com esta diversidade de atuação e de atitudes, um dos artistas brasileiros vivos mais conhecidos do grande público”.

 

 

Sobre o artista

 

 

Siron Franco nasceu em 25 de julho de 1947, na cidade de Goiás Velho, antiga capital do estado de Goiás. Em 1950 mudou-se para Goiânia, indo residir numa zona de classe média baixa, o Bairro Popular. Foi exatamente nessa localidade onde se deu o desastre com o Césio-137, em 1987. Em 1959 tem-se a primeira obra conhecida de Siron. Aos doze anos passa a frequentar a Universidade Católica de Goiás num curso livre, saindo aos dezessete, após ter mandado alguns desenhos para avaliação, sem revelar a idade. Em 1960 manteve os primeiros contatos com a atividade artística de forma sistemática e passa a frequentar o Estúdio ao Ar Livre, supervisionado por dois pintores locais, D.J. Oliveira e Cleber Gouvêa. Esteve aí apenas como um observador por lhe faltar tempo e dinheiro para as aulas. Mas foi neste espaço que encontrou, além da grande ajuda dos pintores citados, o pintor Confaloni, fundador da primeira Escola de Belas-Artes de Goiânia e seu primeiro mentor. Em 1961 começa a trabalhar numa editora, emprego que lhe permite conseguir uma coisa cara para ele: o papel. A partir de 1962, enquanto desenvolvia de maneira autodidata e através da observação e da experimentação passou a dominar as técnicas do desenho e da pintura, e começou a desempenhar a atividade de retratista. Além disso, executava trabalhos de desenho gráfico.

 

 

Datam de 1967 em Goiânia/GO suas primeiras mostras individuais. De lá para cá tem participado de exposições individuais e coletivas em importantes galerias, museus nacionais e internacionais como MASP, MAM-RJ, MAM-SP, Pinacoteca do Estado de São Paulo, The Bronx Museum of the Arts nos Estados Unidos e Nagoya City Art Museum no Japão. Participou da 2ª Bienal de Havana em 1986, de diversas edições do Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP. Seus trabalhos resultam de uma relação intensa com a matéria, facilmente observável nas generosas camadas de tinta a óleo que utiliza em suas pinturas, ou na diversidade de materiais brutos que escolhe para compor suas esculturas ou instalações, tal qual o concreto, aço, chumbo, mármore e resina. Essa intensidade ganha ares dramáticos nos corpos ou fragmentos de corpos que retrata com frequência, sejam corpos de bichos, de gente, de santos, mortos ou vivos. O ar soturno do universo que criou ao longo de seus mais de cinquenta anos de atividade incorpora a sátira e o absurdo para abordar questões políticas e sociais, como a relação violenta e desequilibrada que o homem possui com a natureza e com a sua própria humanidade.

 

 

Sua primeira aparição nacional foi na II Bienal da Bahia, 1968, mostra fechada pelo regime militar na noite de abertura, quando duas de suas obras foram destruídas, sobrevivendo apenas o “Cavalo de Troia”, que recebeu o Prêmio de Aquisição. Em 1973 recebe o prêmio Viagem do I Salão Global da Primavera/Rede Globo de Televisão, o que lhe permite uma permanência de seis meses no México. Em 1974, na XII Bienal Nacional de São Paulo, recebe prêmio em dinheiro e é eleito o melhor pintor do ano e único representante brasileiro na próxima Bienal Internacional e no XIII Salão Nacional de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, o prêmio Isenção do Júri. Em 1975, na XIII Bienal Internacional de São Paulo recebe o prêmio Internacional de Pintura, e o Prêmio Viagem ao Exterior no XXIV Salão Nacional de Arte Moderna/ Rio de Janeiro, o que lhe possibilitou permanecer na Europa durante dois anos. Em 1980 o Prêmio Críticos de Arte de São Paulo, “A Melhor Exposição do Ano”, e o Prêmio Dez Artistas da Década Hilton. São Paulo. Participa da IV Bienal Internacional de Medellín, Colômbia, 1981. Ganha em 1982 o Prêmio Mário Pedrosa “A Melhor Exposição do Ano”. Rio de Janeiro. Em 1984 participa da IV Bienal Ibero-americana de Arte, México, onde recebe o prêmio Menção Honorífica. Em 1987 recebe no Rio Grande do Sul o Prêmio Lei Sarney. Em 2002 o Prêmio Mário Pedrosa Artista Contemporâneo do ano 2000. ABCA/ Brasil. Suas obras integram coleções de museus nacionais e internacionais, como Metropolitan Museum of Art, Nova York/Estados Unidos; University of Essex Collection of Art from Latin America, Colchester/Grã Bretanha; Museu Salvador Allende, Santiago do Chile/Chile; Monterey Museum of Contemporary Art – MARCO, Monterrey/México; Museu Nacional de Belas Artes – MNBA, Rio de Janeiro/Brasil; Museu de Arte de São Paulo – MASP, São Paulo/Brasil; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ, Rio de Janeiro/Brasil; Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP, São Paulo/Brasil; Museu de Arte de Belo Horizonte, Belo Horizonte/Brasil; Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM/BA, Salvador/Bahia; Museu de Arte Moderna de Brasília, Brasília/Brasil. Sua relação com a Bahia, aonde veio a ter posteriormente atelier, começa 1968 na II Bienal Nacional da Bahia, quando ganha o prêmio Aquisição. Em seguida realiza individual, 1980, no MAM/BA. Em 1985 faz sua primeira exposição, “Pinturas Recentes”, na Paulo Darzé Galeria, ainda com o nome Escritório de Arte da Bahia. Novamente expõe na mesma galeria em 1991 e 1996. Em 2001 traz a mostra “Casulos” para o MAM/BA. Em 2002, uma nova mostra no Paulo Darzé Galeria de Arte, “Siron Franco: desenhos”. E, agora, 2019, na Paulo Darzé Galeria, a mostra “Vestígio”. Siron Franco vive e trabalha em Goiânia, Goiás.

 

 

Bruce Conner na Bergamin & Gomide

05/nov

Em sua quarta exposição do ano, Bergamin & Gomide, Jardim Paulista, São Paulo, SP, apresenta uma exposição individual do artista norte-americano Bruce Conner, trazendo mais de 20 obras de arte que ao longo da carreira do artista revolucionaram o cinema e a vídeo arte. Bruce Conner produziu desenhos, esculturas de montagens, pinturas, gravando colagens e fotografias, no entanto, foram seus filmes que definitivamente distinguiram a originalidade de sua obra, sendo reconhecida como uma das figuras mais importantes da contracultura do século XX.

Além de fotografias e desenhos, uma estrutura especial será construída para o filme BREAKAWAY (1966), uma espécie de caixa de instalação dentro da galeria, fornecendo a experiência imersiva ao universo de Bruce Conner. No filme que inspirou o título da exposição, Conner apresenta Toni Basil, sua amiga, dançarina, coreógrafa e cantora, dançando na frente de um fundo preto. Lá, ele implementa zoom estonteante de câmera, efeitos estroboscópicos e cortes rápidos que transformam a coreografia de Basil em um espetáculo psicodélico de movimento pulsante e hipnotizante. Segundo Basil, o filme nasceu de um processo colaborativo, de uma cooperação entre os dois artistas que misturaram os meios de vanguarda social, sexual, artístico e de emancipação. Surgiu como um trabalho híbrido de filme de dança ou cinema de metrô, cinema underground e videoarte, aproveitando as aspirações utópicas que permeiam o pop americano na cultura da década de 1960. A carreira de Toni Basil também vai além de seu desempenho no BREAKAWAY. Ela foi recentemente convidada pelo cineasta Quentin Tarantino a coreografar seu filme “Era uma vez em Hollywood”. Em entrevista ao The New York Times, Tarantino declarou que ele considera Basil a “Deusa do Go-Go”, estilo de dança que nasceu em boates nos anos 1960.

Simultaneamente à exposição “BREAKAWAY” na Bergamin & Gomide, o IMS Paulista – Instituto Moreira Salles – apresentará uma agenda especial de trabalhos dedicada ao corpo de Bruce Conner. O programa inclui palestras com Michelle Silva, do Conner Family Trust, além de retrospectiva de sua filmografia, destacando filmes como A MOVIE (1958), COSMIC RAY (1961), CROSSROADS (1976), entre outros.

 

Sobre o artista

 

Bruce Conner nasceu em 1933, em McPherson, Kansas, Estados Unidos da América. Iniciou sua carreira no final dos anos 1950 como artista multimídia, reconhecido por suas assemblages, esculturas surrealistas, filmes de vanguarda, pinturas, gravuras e desenhos.

Conectado com os movimentos revolucionários e contraculturais do século XX, como os poetas Beat e a cena punk, fez inovações funcionais, geralmente usando montagens de imagens existentes e incorporando música pop em seus filmes. Sua estética única e senso experimentalista inspiraram gerações de cineastas. Embora tenha sido precursor do gênero videoclipe e chamado como “o pai da MTV”, Conner evitou todos os esquemas de classificação sobre sua própria produção artística, e nunca comprometer-se com o mainstream e permanecer leal ao seu visual e conteúdo conceitual. Bruce Conner deixou um legado extenso e realizou ao longo de sua carreira várias exposições coletivas. Recentemente, seu corpo de trabalho foi apresentado em um show retrospectivo no IMS Paulista – Instituto Moreira Salles – apresentará uma agenda especial de trabalhos dedicada ao corpo de Bruce Conner. O programa inclui palestras com Michelle Silva, do Conner Family Trust, além de retrospectiva de sua filmografia, destacando filmes como A MOVIE (1958), COSMIC RAY (1961), CROSSROADS (1976), entre outros. IMS Paulista – Instituto Moreira Salles – apresentará uma agenda especial de trabalhos dedicada ao corpo de Bruce Conner. O programa inclui palestras com Michelle Silva, do Conner Family Trust, além de retrospectiva de sua filmografia, destacando filmes como A MOVIE (1958), COSMIC RAY (1961), CROSSROADS (1976), entre outros. Bruce Conner deixou um extenso legado e participou de inúmeras exposições individuais e coletivas. Recentemente o San Francisco Museum of Modern Art – SFMoMA, MoMA de Nova Iorque e o Museu Nacional Reina Sofia, em Madrid apresentaram exposição retrospectiva de sua obra. O artista faleceu aos 74 anos, em 2008, na cidade de San Francisco, Califórnia.

 

De 05 de novembro a 05 de dezembro.

 

O Jubileu de Ouro de Ricardo Camargo

04/nov

Ricardo Camargo, marchand, com décadas de atividade no mercado cultural brasileiro, comemora o seu Jubileu de Ouro com a 16ª edição da mostra coletiva “Mercado de Arte”, exibindo 60 obras de 31 artistas e homenagem aos 120 anos de nascimento do pintor Vicente do Rego Monteiro.

 

Ricardo Camargo iniciou sua atuação no mercado de arte, de forma concreta, após a realização de sua primeira venda aos 17 anos de idade. A partir daquele momento, e ao longo de sua trajetória, firmou parcerias com Ralph Camargo, Paulo Figueiredo Filho, José Duarte de Aguiar, Ugo di Pace e relacionou-se com pessoas que se tornaram importantes para a arte brasileira, como Pietro Maria Bardi, Volpi, Wesley Duke Lee, Flávio de Carvalho, entre tantos. Uma das características que diferenciam a atuação de Ricardo Camargo é a diversidade de estilos com os quais trabalha. Em seu currículo, constam exposições com obras que remontam à Arte Pré-Colombiana, passando com destaque pelas modernistas e chegando às contemporâneas.

 

Seu compromisso com a disseminação da cultura e sua dedicação ao circuito de arte está representada em projeto especial realizado em parceria com Patricia Lee, onde conceituaram e inauguraram, em 2015, o Wesley Duke Lee Art Institute, dedicado a preservar a memória e a obra do artista.

 

Entre os projetos que criou, está a exposição “Mercado de Arte”, agora em sua 16ª edição. Essa mostra coletiva tem um diferencial: apenas é apresentada quando for possível reunir, no mínimo, 20 obras inéditas ou trabalhos que estão fora do mercado há mais de 30 anos. Em ação simultânea, Ricardo Camargo faz uma homenagem aos 120 anos de nascimento de Vicente Rego Monteiro, com 8 obras do importante artista brasileiro e texto de Olivio Tavares de Araujo.

 

Todos esses eventos não representam uma celebração de conquistas do passado. A disposição, inteligência e visão do mercado de arte de Ricardo Camargo, na verdade, celebram o início de uma nova jornada: os novos 50 anos.

 

De 12 de novembro a 20 de dezembro.

 

Le Parc & OSGEMEOS no Rio

A Carpintaria, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a partir de 06 de novembro “Julio Le Parc & OSGEMEOS”, exposição com curadoria de Pedro Alonzo que dá continuidade ao programa experimental do espaço, cuja vocação é a proposição de diálogos entre diferentes criadores, linguagens e formas de expressão. Tomando a abstração geométrica como eixo central deste encontro, a mostra reúne pinturas e instalações que enfatizam as afinidades criativas destes artistas de gerações distintas. Le Parc – consagrado artista argentino radicado em Paris, pioneiro da Arte Cinética -, exibe obras que vão desde a década de 1950 até as mais atuais, incluindo um grande móbile reflexivo criado em 2018. Por sua vez, OSGEMEOS – artistas paulistanos, donos de um estilo único desenvolvido através de grandes murais e exposições imersivas – apresentam trabalhos inéditos, entre pinturas sobre madeira e uma instalação com vasos de cerâmica.

 

A obra de OSGEMEOS é frequentemente caracterizada por um estilo figurativo arrojado, imediatamente reconhecível, que tem origem em suas pinturas murais nas ruas de São Paulo. No entanto, um olhar mais atento revela também uma atenção especial no emprego da abstração geométrica, presente nos padrões coloridos que estampam seus cenários e as roupas de seus típicos personagens amarelos. Essa desconstrução do trabalho de OSGEMEOS leva a uma aproximação com Julio Le Parc, um artista de uma geração anterior, não apenas no uso da cor e da abstração geométrica, mas também na intenção de romper as barreiras que separam a arte da sociedade. Outras similaridades podem ser observadas nos grandes ambientes imersivos que empregam cor, geometria e elementos em movimento, compartilhadas pelos artistas. Demonstra-se ainda no comprometimento mútuo para engajar o público através de encantamento e surpresa, atenuando o limite entre realidade e fantasia para desafiar sua percepção.

 

Ao estabelecer um diálogo entre Julio Le Parc e OSGEMEOS, é fundamental considerar noções de Arte e Ciência, contemplando a aparente distinção entre a abordagem científica de Le Parc e o processo reconhecidamente intuitivo de OSGEMEOS. Em última instância, a exposição realça as afinidades formais e conceituais que existem entre os artistas, assim como questiona as aparentes distinções entre método científico e o processo artístico. Para obter sucesso na ciência ou na arte, há de se combinar pesquisa, intuição e principalmente a liberdade para experimentação.

 

Sobre os artistas e o curador

 

Julio Le Parc nasceu em Mendoza, Argentina, em 1928. Vive e trabalha em Paris desde 1958. Recentemente, sua obra tem sido o tema de grandes retrospectivas em instituições como o The Metropolitan Museum of Art (Nova York, 2018), Instituto Tomie Ohtake (São Paulo, 2017); Perez Art Museum (Miami, 2016), Serpentine Galleries (Londres, 2014), Malba (Buenos Aires, 2014), Palais de Tokyo (Paris, 2013). Seus trabalhos estão presentes em diversas coleções, tais como: Albright-Knox (Buffalo), Cisneros Fontanals Art Foundation (Miami), Daros Collection (Zurique), MAM-SP (São Paulo), Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris (Paris), MoMA (Nova York), Tate (Londres), Walker Art Center (Minneapolis).

 

A dupla OSGEMEOS é formada pelos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, nascidos em 1974 em São Paulo, onde vivem e trabalham. Seus projetos recentes incluem exposições individuais em: Frist Art Museum (Nashville, 2019), Hamburger Bahnhof (em colaboração com Flying Steps) (Berlim, 2019), Mattress Factory (Pittsburgh, 2018), Pirelli HangarBicocca (Milão, 2016), Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro, 2015), ICA (Boston, 2012). Suas obras estão presentes em coleções importantes ao redor do mundo, como: MOT (Tóquio), Franks-Suss Collection (Londres), MAM-SP (São Paulo), Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo), Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro).

 

Pedro Alonzo é um curador independente baseado em Boston. Atualmente curador adjunto no Dallas Contemporary, ele já foi curador adjunto no ICA Boston (2011 – 2013) e no Instituto de Artes Visuais da Universidade de Wisconsin, Milwaukee (1996 -2002). Desde 2006, especializou-se em produzir exposições que transcendem os limites das paredes dos museus e espalham-se pela paisagem urbana, apresentadas em várias instituições como: Museo Tamayo (Cidade do México City), Baltic Centre for Contemporary Art (Newcastle), Pinchuk Art Centre (Kiev), Museum of Contemporary Art (San Diego), MARCO (Monterrey).

 

A exposição conta com a parceria da Galeria Nara Roesler, representante de Julio Le Parc.

 

Até 28 de dezembro.

 

Mostra inédita de No Martins

01/nov

A Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea, Gamboa, Rio de Janeiro, RJ, exibe a exposição “Aos que foram, aos que aqui estão e aos que virão”, do artista visual paulistano, No Martins, curadoria de Marco Antonio Teobaldo. O artista aponta o seu interesse para as questões vividas pela população negra no Brasil, cuja perspectiva da desigualdade torna-se material fértil para a sua produção artística. Segundo análise do curador da mostra, “…a violência contra o povo negro que parece nunca ter cessado, é evidenciada na poética de No Martins, que emociona com a força de seu grito silencioso”.

 

Em recente viagem para África, para o programa de residência artística Angola Air, No Martins deu continuidade à pintura dos retratos iniciados no Brasil, da “série Pretos Novos”, em pequenos formatos e que remetem às fotografias 3×4, com rostos de pessoas que ele conheceu e fotografou, cujos ancestrais bantos foram brutalmente mortos e sepultados no Cemitério dos Pretos Novos (1789 – 1830). No Martins desenvolveu uma pesquisa sobre a rota escravocrata a partir do porto de Luanda, que resultou na performance que dá o título desta mostra, “Aos que foram, aos que aqui estão e aos que virão”, na qual ele acende três velas com 1,70 de altura e mais de 50 quilos cada uma, na praia do Museu da Escravatura. Este trabalho é apresentado em vídeo e propõe uma reflexão sobre o passado, presente e futuro, em que nesta linha tênue do tempo, a partida daquelas pessoas escravizadas para as Américas, ainda afeta a vida de seus descendentes nos dois continentes.

 

Na noite da abertura da exposição, ocorreu o debate “Arte Contemporânea de Angola a Diáspora”, que se propõe a gerar um diálogo intergeracional sobre arte contemporânea africana e afrodescendente, no qual foi tratada a relação entre decolonialidade ética e estética. Este recorte atravessa tempo espaço e as próprias lutas, com a participação do artista angolano Kapela Paulo, considerado o papa da Arte Contemporânea em seu país, da artista afro-escocesa Sekai Machache e de No Martins, mediado por Ana Beatriz Almeida, colaboradora da 01.01 Art Platform.