Nazareth Pacheco na Kogan Amaro

27/maio

Expoente de uma geração de artistas que despontou entre as décadas de 1980 e 1990, tempo em que o País entrava em ebulição com pautas relacionadas à mulher, Nazareth Pacheco tomou sua condição feminina e sua biografia, em particular as narrativas relacionadas à história de seu corpo, como matéria-prima para suas obras tridimensionais. Após um mergulho no passado, em meio às lembranças afetivas, a artista emergiu dando vida a trabalhos inéditos, agora exibidos em “Registros/Records”, individual na Galeria Kogan Amaro, Jardim Paulista, São Paulo, SP..

A mostra reúne trabalhos que evidenciam sua produção artística dos últimos cinco anos, período em que Nazareth Pacheco viveu o luto de seus pais, figuras importantes em sua trajetória e formação, e algumas tantas intervenções cirúrgicas em seu corpo, decorrentes de um problema congênito que a acompanha desde a infância. É assim que a artista conjuga passado e presente, ideia aparente em Registros (2019), instalação feita a partir de recortes de exames médicos seus e dos seus pais. Fincada no teto da Galeria, a obra se esparrama até o chão e faz lembrar uma espécie de cascata, densa e fluida como a vida.

Nazareth cresceu em um ambiente de incentivo aos trabalhos artesanais, com mãe e avó adeptas ao tricô e ao bordado. Foi com elas que aprendeu o ofício, na época de extrema importância para lhe ajudar a desenvolver habilidades com as mãos, que também passaram por processos cirúrgicos. É dessa memória que surge Vida (2019), trabalho composto por camisolas de sua mãe, vestes distintas e delicadas, hoje apresentadas com restauros de pérolas e cristais, uma ressignificação singela para as avarias deixadas pelo tempo. A intimidade com os objetos clínicos é uma constante na vida e na obra da artista, não apenas pelas sucessivas operações, mas, também, por sua figura paterna. Em homenagem a seu pai, médico neurologista, Nazareth exibe DELE (2018), uma tríade de instrumentos fundidos em bronze. Sem medo ou pudor, Nazareth Pacheco convida o público a imergir em seu íntimo. É o que faz na série Momentos (2017), na qual exibe registros em polaroids do pré e do pós-operatório de uma de suas inúmeras cirurgias.

Na ocasião da abertura, a artista lançou um livro que documenta seus mais de 30 anos de trajetória. Intitulado “Nazareth Pacheco”, a publicação foi idealizada pela artista e contou com a colaboração de colegas de longa data. O livro foi organizado por Regina Teixeira da Costa e contempla análises de autores de diversas gerações, como Ivo Mesquita, Marcus Lontra da Costa e Tadeu Chiarelli, além de críticas inéditas assinadas por Cauê Alves e Moacir dos Anjos.

Até 15 de junho.

Ai Wei Wei em Curitiba

21/maio

As galerisa SIM e Simões de Assis apresentam a primeira exposição do conceituado artista internacional em Curitiba, PR.

 

AI WEIWEI

 

Para entender Ai Weiwei, é preciso conhecer seu passado e suas origens. Seu pai – o poeta Ai Qing, um libertário e membro da Revolução Chinesa – caiu em desgraça na nova sociedade que se configurou e foi enviado, junto com sua família, para campos de trabalho na área rural da China, logo depois do nascimento de Ai Weiwei. A influência do pai em sua vida é imensa.

 

Uma das imagens mais fortes para o artista é a de quando Ai Qing decidiu queimar seus livros diante do filho, para evitar mais punições caso o regime viesse à sua casa – eram principalmente livros de arte e poesia. Pai e filho fizeram uma fogueira e, página por página, foram queimando os livros, como se se despedissem daquelas imagens e palavras. Um ato de profunda violência para um poeta e intelectual e, acredito, um ato fundador para seu filho, tanto como artista quanto ativista.

 

Uma maneira de ler as obras do artista chinês é compreendê-lo em seus múltiplos pontos de vista, como um intérprete das culturas chinesa e ocidental. Ele encontra maneiras de manter ambiguidades, expressando-se de forma explícita para um dos lados (seja o Ocidente ou o Oriente), e de forma velada para o outro. Exemplo disso são as fotografias e papéis de parede icônicos e massivamente reproduzidos de Finger [Dedo], que têm um significado muito direto na maioria das culturais ocidentais, mas são vazios de sentido para os chineses, para quem gestos ofensivos não são normalmente utilizados e para quem esse, em particular, tem menos significado. As imagens inaugurais de Ai Weiwei soltando o vaso da Dinastia Han são, para qualquer ocidental, imagens perturbadoras de desrespeito e uma atrocidade em relação à memória e à história. Para um chinês acostumado aos absurdos da Revolução Cultural, todavia, tal gesto não é tão chocante.

 

O convite para Ai Weiwei vir ao Brasil era também um convite para uma interpretação e para a realização de novos trabalhos. Nesse modelo, ele seria capaz de experimentar a cultura local e digeri-la a seu modo, e o Brasil teria a chance de entender e experimentar as modalidades e o processo criativo do artista. Por outro lado, nós nos tornamos mestres na arte de absorver e digerir à nossa maneira influências exteriores. O convite não foi para uma refeição cotidiana: foi para um banquete mutuofágico, em que se come e se é comido pelo outro, em que cada lado devora o outro – seu corpo, sua alma e sua energia.

 

Weiwei fez um firme gesto inicial ao tentar fundir a cultura, ele decidiu fundir em ferro a maior, mais antiga e ameaçada árvore ainda em pé no sul da Bahia. Apropriar esta árvore dentro de sua oeuvre é como capturar a espinha dorsal da consciência de nossa civilização -uma árvore que tem estado de pé por mais de 1200 anos viu a própria formação da nação.

 

Mas logo este processo começou a se tornar multidirecional. E nossas próprias questões começaram a ocupar sua mente. Nossa iconografia escravocrata, nossas injustiças sociais, nossa fé e códigos.  Ai Weiwei começou a ser permeado pela latência da cultura brasileira: ele incorporou o Alfabeto Armorial de Ariano Suassuna em seus escritos; ele encontrou um modo irreverente de lidar com Ex-votos para expressar sua inquietação com a injustiça; ele foi levado pelo mundo natural e suas sementes; ele começou a busca pela conexão China-Brasil; ele foi desconcertado pelas condições de escravidão tanto no passado como no presente; Ele foi agora ocupado.

 

Este jogo é um grande modelo para promover o contato, o entendimento e para desafiar as noções pré-concebidas de ambos os lados. Com fricção, barulho, um território incerto a ser descoberto e uma combinação de temperos nunca antes combinados, produzindo um novo sabor para a arte de Ai Weiwei e para nossa cultura. E com a dor e o prazer de uma mordida dada e uma mordida recebida.

 

 

Até 29 de junho.

Digigrafias e time-lapses

A Galeria São Paulo Flutuante, Jardim América, São Paulo, SP, inaugura “NIN – Novo Impressionismo Numérico”, do artista plástico, desenhista e pintor Fernando Barata, carioca residente em Paris, com 30 obras sobre papel e uma série de time-lapses projetados no ambiente da exposição, onde os temas selecionados são os históricos da pintura : paisagem, natureza morta, os quais variam ao sabor dos locais e países visitados pelo artista. A curadoria é de Regina Boni.

 

Fernando Barata exprime sua vivência utilizando-se de uma linguagem com forte conotação contemporânea e, graças a utilização de técnicas atuais, esta linguagem vai se projetar em suas obras, exprimindo-se livremente através de diversos métodos de transferência de imagens.  Em suas palavras: “Os múltiplos recursos, a simplicidade de utilização e a mobilidade do tablet iPad substituíram o bloco de desenho e a tela como material de observação e registro de viagens. A capacidade de difusão imediata das imagens por Internet, a possibilidade de associar pintura, música, cinema, fotografia e poesia no mesmo corpo de imagem, contribuíram para que eu optasse por esta nova ferramenta de expressão”.

 

Combinado com habilidades e conhecimento profundo de técnicas convencionais de pintura, o uso do iPad na produção de Fernando Barata torna-se um meio de resgatar a delicadeza da pintura e oferecer um conjunto de cores ao observador. “O Impressionismo foi um movimento que rompeu com a arte acadêmica e instaurou a arte moderna e as vanguardas. Com o aparecimento da Internet, surge uma arte numérica ou digital, em ruptura com o funcionamento das vanguardas históricas”, comenta o artista. As primeiras imagens utilizando esta ferramenta foram realizadas em 2017. A delicada passagem da tela do tablet para o papel foi sendo aprimorada com o tempo. Novas técnicas foram incorporadas e aperfeiçoadas. A edição dos time-lapses – vídeos da construção do desenho a partir do primeiro traço, em velocidade alterada – foi se enriquecendo com a inclusão de música.

 

“O trabalho se inscreve em uma História das Imagens onde todas as obras são produto de observação direta. O olhar é fundamental na captura da atmosfera”, define Fernando Barata.

 

 

Sobre o artista

 

Fernando Barata, pintor e desenhista nasceu em 1951 no Rio de Janeiro. Diplomou-se em 1977 pela Escola Nacional de Belas Artes da UFRJ. Reside em Paris desde 1982, onde vive e trabalha. Participou do 25º Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1974, e da 14ª Bienal Nacional de São Paulo, 1977. Obteve Menção Especial do Júri na 1ª Bienal de Havana, 1984, e participou da 18ª Bienal Internacional de São Paulo, 1985. Realizou um mural em Douai, França, para a Companhia de Águas de Artois-Picardie, 1990. Selecionado para o Prêmio Fortabat (Casa da América Latina, Paris, 1990), seu trabalho foi igualmente premiado no Grande Prêmio Internacional de Arte Contemporânea Michelin, 1998. A partir dos anos 1990, com o surgimento dos computadores pessoais e programas de tratamento da imagem, inicia uma série de experiências, utilizando estas novas ferramentas como complemento da pintura. Suas primeiras exposições de gravuras digitais foram realizadas na Galerie Quadra, Paris, 1998. Entre 2009 e 2015, realizou diversas viagens pela França, que resultaram em uma série de aquarelas e desenhos, retratando locais percorridos pelos artistas modernos e impressionistas: Biarritz, Bordeaux, Nice, Marseille, Cassis, Nîmes, Vallauris, Saint-Paul de Vence, Avignon, Aix-en-Provence e Albi, entre outros. Uma seleção destas aquarelas foi exposta na Galerie Covart, Luxemburgo, 2010 e no Atelier 21, Paris, 2014. Paralelamente a estas viagens na França, continuou sua exploração pelo mundo: Tunísia, Creta, Ilha da Reunião, México, Lisboa, Nova Deli, Dubrovnik, New York, São Francisco, Praga, etc. O bloco de aquarela passa a ser o material mais adequado, durante este período de observação nômade, por sua facilidade de transporte e utilização. Após uma viagem à Índia, 2014, realiza uma série de pinturas sobre sacos de juta, expostas na Galerie Marie-Laure de l’Ecotais, Paris, 2016. Duas destas obras pertencem hoje à coleção da Embaixada do Brasil em Paris. Com o lançamento do iPad Pro, da caneta Apple e de novos aplicativos de desenho tátil, substitui o bloco de aquarela pelo tablet, com o qual passa a trabalhar exclusivamente.

 

 

A palavra de Regina Boni sobre a Galeria São Paulo Flutuante

 

Em 2002, a Galeria São Paulo fechou as portas depois de 21 anos febris no mercado brasileiro de arte, num ciclo em que as cinco mostras de Hélio Oiticica falam em nome de dezenas de outras dedicadas a artistas até ali inseridos com timidez no circuito comercial, pouco aberto às linguagens transgressoras e experimentais. Meu trabalho como figurinista do Tropicalismo, em 1968, fora a origem desse itinerário: muito antes de pensar em ser marchande nos anos 80, havia em mim a crença na originalidade de uma proposição artística brasileira em diálogo com o mundo. Dezesseis anos depois, aqui estamos com a Galeria São Paulo Flutuante. O retorno se deve a uma inquietação equivalente à de 1981, o ano da abertura do primeiro espaço na rua Estados Unidos – mas as razões são bem diferentes daquelas nascidas nas décadas em que contribuímos com a modernização do mercado e dos elos entre galeristas e artistas. Sinto-me hoje desafiada pelos rumos (desvios?) desse mesmo mercado, em suas vertigens de valores abusivos e curadores estelares, distanciados dos caminhos mais soberanos da criação. Não anunciamos um retorno eterno, mas efêmero e flutuante, sem as amarras de um endereço fixo: intervenções em lugares ora vazios da capital paulista, vazios também como metáfora de conceitos e conteúdos abandonados na era dos curadores, do marketing a todo custo e da percepção tola do gesto de Duchamp. Sem dúvida, esse sistema começa a desmoronar no Brasil. A Galeria São Paulo Flutuante pretende regressar às aventuras das linguagens não-domesticadas pelos conceitos da estação. Vem-me assim a lembrança inspiradora do desfile de passistas da Mangueira vestidos com parangolés de Hélio, fechando o trânsito da rua Estados Unidos, em 1986. Arte no calor da rua, no seio dos desejos, no meio do redemoinho. O nosso recomeço de viagem.

 

 

De 25 de maio 02 de julho.

Fotolivro na São Paulo Flutuante

15/maio

 


“Noite Insular: Jardins Invisíveis” é resultado de uma imersão de cinco meses em Cuba, e apresenta fotografias analógicas que tomam como ponto de referência o imaginário marítimo e exploram um conceito subjetivo de “insularidade”, evocando tensões entre o senso de isolamento e o anseio por cruzar os limites da ilha. Lançamento na galeria São Paulo Flutuante, Rua estados Unidos, 2186, Jardim América, São Paulo, SP, dia 20 de maio de 2019, ás 19h. O fotógrafo baiano Rodrigo Sombra lança seu fotolivro “Noite Insular: Jardins Invisíveis”, editado por Patricia Karallis e publicado pela prestigiada editora britânica Paper Journal. O evento de apresentação do fotolivro acontece simultaneamente em São Paulo, onde está com exposição homônima em cartaz, e em Londres, na Tate Modern. A publicação é resultado de uma imersão de cinco meses em Cuba e tem por referência o imaginário marítimo da ilha, explorando uma concepção subjetiva de “insularidade”. Traço decisivo da cultura cubana, a insularidade se faz sentir na obra de Sombra para além do seu sentido meramente geográfico. Neste projeto – composto por exposição na Galeria São Paulo Flutuante, sob curadoria de Regina Boni, e pelo presente fotolivro -, o conceito serve como chave para explorar as dinâmicas do desejo na Cuba contemporânea, evocando tensões entre o senso de isolamento e o anseio por cruzar os limites da ilha.
Ao tomar conhecimento de uma convocatória de projetos a serem editados como fotolivro pela Paper Journal, em 2018, Rodrigo Sombra inscreveu “Noite Insular: Jardins Invisíveis” e, entre 421 projetos enviados, foi um dos três selecionados. “A Paper Journal foi sempre uma referência, um norte para mim. Devo muitas descobertas à Paper Journal, ela foi sempre uma clareira à qual eu podia recorrer, um espaço aberto ao risco no mundo fotográfico. Ter sido selecionado para editar meu primeiro fotolivro com eles foi como uma confirmação de que os caminhos que eu intuía no meu trabalho poderiam encontrar ressonância com as coisas que eu mais me identifico na fotografia contemporânea”, comenta o fotógrafo.

A edição do livro ocorreu ao longo de vários meses, a partir de um diálogo frequente com a editora da Paper Journal, Patricia Karallis. Nos dizeres de Sombra: “Sinto que as rimas visuais, a força narrativa, o sentido de conjunto, cresceu muito a partir do olhar de Patricia. Ela é uma editora engenhosa. Consegue não apenas extrair um sentido narrativo, um efeito dramático, da combinação de imagens, como é atenta às variações de cor e atmosfera no sequenciamento das fotos”. Em 2018, fotógrafo e editora fizeram uma prévia do fotolivro, apresentada na feira de livros de arte do MoMA, em Nova Iorque. Após colherem várias respostas e a partir desses comentários sobre a prévia, foram realizadas seguidas revisões na edição. No início de 2019, Sombra retornou a Cuba para fotografar uma última vez, e assim foi fechada a edição final com alguns acréscimos.

Acerca do projeto, Rodrigo Sombra destaca que fotolivro e exposição são similares sob diversos aspectos, uma vez que várias das imagens que estão expostas na Galeria São Paulo Flutuante aparecem no livro. Além disso, o fotógrafo ainda comenta: “As relações contraditórias com o estrangeiro em Cuba; a questão da insularidade, o imaginário marítimo; a iconografia popular urbana; a estética construtiva: todos esses dados perpassam as fotos que compõem a série nas duas plataformas, livro e galeria. Por outro lado, sinto que o livro alterna a presença usual dos retratos com mais imagens de paisagens e naturezas mortas. Sondar os espaços vazios, tentar entender como como os dilemas da vida em Cuba se exprimem em vestígios dispersos pela paisagem, era algo importante para mim, e isso aparece com força no livro”.

 

Mais sobre o projeto “Noite Insular: Jardins Invisíveis”:

“Sua ida a Cuba é o encontro com um nó histórico, cultural, geopolítico e existencial”, afirma Caetano Veloso, a respeito da obra de Sombra, no texto de apresentação. “Ao invés de esconder ou congelar as figuras humanas e seus entornos em formalismo frio, tais composições sublinham-lhes o mistério, a sensualidade, o desamparo e o prazer de ser. Sombra revela-se um artista verdadeiro e um observador sensível. A beleza de suas fotos reside na aventura humana de quem capta e de quem é captado. Isso leva quem as vê a pensar mais longe e sentir mais fundo”, diz o compositor sobre “Noite Insular: Jardins Invisíveis”. O título da série é inspirado num poema do escritor cubano José Lezama Lima. Para o fotógrafo Rodrigo Sombra, “Noite Insular: Jardins Invisíveis” explora os estímulos da presença estrangeira em Cuba, cada vez mais intensos desde a recente abertura cultural e econômica da ilha. Ao abordar as relações contraditórias entre os cubanos e a influência estrangeira, Sombra esboça uma estética de forte apelo geométrico. Com frequência, a base documental de suas imagens se perde em jogos de linhas e sombras que aspiram à abstração. Descortina-se assim a de visão uma Cuba insuspeitada, em tudo avessa às imagens exóticas do turismo ou à grandiloquência da propaganda revolucionária. À diferença das multidões celebradas nas fotografias oficiais cubanas, em suas fotos Sombra privilegia o indivíduo. Nelas, veem-se corpos esquivos, frequentemente sombreados, que nos interrogam sobre o que vemos, e também sobre aquilo que é ocultado. Sua câmera se abre ainda aos signos da cultura popular: símbolos religiosos, tatuagens, logomarcas esportivas e bandeiras estrangeiras, rastros dos novos imaginários a povoar a ilha interior dos cubanos.

 

Sobre o artista

Rodrigo Sombra. Fotógrafo baiano, nasceu em Ipiaú, em 1986. Em 2012, integrou a exposição coletiva “Uma visita ao Benin – Fotografias de uma Viagem”, no Museu Afro Brasil, em São Paulo, com curadoria de Emanoel Araújo. Também participou de coletivas no Rayko Photo Center e Dryansky Gallery, em San Francisco, Califórnia, onde viveu por três anos. Em 2018, “Noite Insular: Jardins Invisíveis”, sua série sobre a Cuba contemporânea, foi selecionada para ser editada como livro pela revista e editora britânica Paper Journal. Foi um dos 3 artistas selecionados pela Paper Journal em uma convocatória que recebeu mais de 400 projetos de todo o mundo. O livro será lançado em maio de 2019, em Londres e em São Paulo.

 

Sobre a editora Paper Journal

Lançada em 2013, a revista impressa e on-line Paper Journal é atualizada regularmente com entrevistas, reportagens, visitas a estúdios e resenhas de fotolivros. Tem como objetivo oferecer o que há de melhor em artes visuais contemporâneas. É única e apresenta tipos diferentes de fotografia, de fotógrafos desconhecidos ou novos e de nomes estabelecidos. Nossos colaboradores variam entre jornalistas, editores de moda, estilistas, fotógrafos e profissionais do setor. Em 2018, passamos de on-line para off-line, com nossa primeira edição impressa. Esta edição foi lançada em Londres, na Webber Gallery, bem como na New York Art Book Fair, e foi nomeada para o Lucie Award na categoria Revista de Fotografia do Ano. Paper Journal 01 é vendida em todo o mundo, em livrarias e lojas especializadas. Com sede em Melbourne, Londres e em Nova York, e com colaboradores de todo o mundo, a Paper Journal continua a crescer com uma série de exposições independentes, publicações impressas, palestras e eventos.

Darzé exibe Florival Oliveira

A Paulo Darzé Galeria, Corredor da Vitória, Salvado, Bahia, apresenta de 16 de maio, com temporada até 15 de junho, a exposição de esculturas, painéis e objetos de Florival Oliveira. São 40 trabalhos individuais, com a montagem em processo de instalações sobre o plano horizontal e vertical da galeria feita em madeira, aço inox, alumínio plotado e MDF com jato de tinta.

 

Para Florival, fora as técnicas e materiais utilizados, realça a temática, implícita no título do texto de apresentação escrito por Carolina Paz, denominado Plano Fértil. “O processo se dá no coletivo com trabalhos desenvolvidos em aço inox e soda, plotagem em alumínio recortado, MDF e pintura automotiva. Os trabalhos em madeira, resultam de processo individual utilizando as sobras de madeira das carpintarias, a exemplo dos arcos em meia lua que organizam o trabalho tridimensional”.

 

“Minha última individual foi em 2013. Ao longo dos últimos seis anos surgiram propósitos bem específicos quanto ao resultado daquilo que atualmente apresento e o que deve ser mostrado. Foi salutar o amadurecimento das ideias culminando uma nova conceituação nos direcionamentos processuais. As ações nas mostras coletivas permitiram o desenvolvimento do trabalho a uma dilatação de importância paradigmática o que faz resultar em mudanças conceituais e técnicas. Acredito que esse foi e é resultado dessas minhas caminhadas como artista, buscando uma aproximação do contexto contemporâneo enquanto linguagem. Esse é um valor especificamente meu quando busco no inusitado a potência devida como expressão da minha arte”.

 

 

Apresentação da mostra

 

Escrita por Carolina Paz, artista e cientista social, sob o título Plano Fértil, é realçado em seu texto que “a obra de Florival Oliveira é puro processo derivado de sua relação íntima com os materiais, suas condições socioeconômicas de produção e o compromisso com os procedimentos que o artista impõe a si e aos objetos que produz. Conhecer essa trajetória é um privilégio que agrega ainda mais força à leitura do trabalho”.

“Quando a poesia é potente há quem acredite que ela fale por si. Diz-se que experimentá-la no presente, sem qualquer outra informação a seu respeito, é suficiente. Porém, conhecer o processo de sua produção pode ampliar as possibilidades de experiência do espectador sobre a obra. Como esse trabalho foi feito? Quais as considerações e decisões tomadas pelo artista para tal e qual gesto no trabalho?”

“A obra de Florival Oliveira é puro processo derivado de sua relação íntima com os materiais, suas condições socioeconômicas de produção e o compromisso com os procedimentos que o artista impõe a si e aos objetos que produz. Conhecer essa trajetória é um privilégio que agrega ainda mais força à leitura do trabalho”.
“As peças em exposição na Paulo Darzé Galeria são consequências de investigações anteriores e desdobramentos das formas com as quais o artista trabalha há décadas. Nesta nova série, as esculturas parecem querer ocupar mais as superfícies das paredes e do chão do que a atmosfera do lugar”.

“Formas selecionadas de uma numerosa produção orientada por um intenso interesse de Florival em explorá-las em todas suas dimensões, por dentro e por fora, para os lados, horizontal e verticalmente, como se quisesse esgotar todas as possibilidades de suas configurações e posições”.

“São quatro as formas primordiais a partir das quais Florival opera desdobramentos isolando seus conteúdos. Olhando-as a partir de seu interior cria os “módulos vazados” em aço inox. Quando as delineia e as contorce sugere um corpo em movimento. São formas-sujeito e são suas próprias trajetórias, seus passos representados em formas sólidas, “objetos” e “painéis escultóricos” em MDF cobertos pelo branco da tinta automotiva”.

“Vibrando em cópias de si mesmas e em uma proliferação de facetas querendo se mostrar por inteiro, as formas modulares conjugadas em três planos, os “relevos” recortados do papel cartão colorido com tinta acrílica de cores diferentes, parecem confirmar essa volta da escultura ao bidimensional. Não para apaziguá-la ou conformá-la à parede, mas evidenciando a capacidade infinita de cada face-plano em gerar a partir de si as demais formas que ocupam o mundo”.

“Florival revela intuitivamente uma conexão com sua história pessoal e seu desenvolvimento artístico na xilogravura. É fascinante descobrir, acompanhando sua produção bem de perto nos últimos dois anos, que talvez tudo se originou ali, na xilo: as sobras de madeira retiradas da matriz são formas que o interessam desde sempre. Curvas, meia luas… O olhar que se encanta por essas formas primordiais também as encontra, em outro contexto, nas sobras das oficinas de marcenaria locais (do sertão baiano, onde vive o artista). Lá esses indícios de madeira são encontrados em maior escala. São arcos e semiarcos do refugo dos cortes de portas e janelas feitas pela serra de fita”.

“Lidar com esses “módulos”, assim denominados por Florival, é algo que parece tomar todo seu pensamento. Sou testemunha de que é quase impossível fazê-lo enxergar quaisquer formas no mundo sem essa sua elaboração modular e matemática. Uma combinação de cálculos de adição, acoplamento e divisão está em seu olhar e em seu discurso. Sou da opinião de que este raciocínio traduz sua visão de mundo de forma profunda. E creio que esta é uma ação de procura e descoberta inesgotável”.
“A força da brutalidade introvertida dos trabalhos anteriores deu lugar à elegância, também forte, porém graciosa e expansiva. Florival, desta vez, nos propõe pensar em planos férteis de potência infinita”.
Sobre o artista

 

Florival Oliveira nasceu em Riachão do Jacuípe, Bahia, onde vive, hoje dividindo o espaço com Salvador, Bahia, em 18 de agosto de 1953. Iniciou a sua carreira em 1976. Sua obra é detentora de alguns prêmios e está representada nos acervos do Museu de Arte Moderna da Bahia; Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana; ACBEU Salvador; Biblioteca da Universidade da Bahia; Museu Regional de Feira de Santana.

 

Texto de Claudius Portugal

O que logo chama a atenção em seus trabalhos são as suas formas, os volumes, os espaços, os movimentos, e a escolha dos materiais. Há na sua arte uma busca incessante de uma precisão técnica por meio de uma pesquisa incisiva e paciente, através de uma linguagem contemporânea de tratar a matéria. Ao mesmo tempo, é uma arte que tem como chão a sua terra, saberes e fazeres de sua gente, o que faz tornar-se um tradutor do sentimento de universalidade do mundo que vive na sua aldeia, portas do sertão baiano.
Estas são marcas de uma obra onde o desejo de expressão ultrapassa a infância e a vivência de um homem do campo, como é a sua realidade na cidade natal, de vaqueiros e suas roupas de couro, das boiadas, dos utensílios e ferramentas indispensáveis ao dia a dia, expostos na feira semanal, passando pelo homem, agora urbano, estudante e, depois, professor de arte, com acesso à informação, à curiosidade, ao estímulo e ao estudo do que há de mais atual nos grandes centros do mundo através não só das técnicas e materiais, mas de sua inventividade em marcar o aqui e agora.
Estas duas vertentes não se chocam, pois, em sua obra, unida por signos e símbolos do Nordeste, o homem está diante do seu habitat, de seu entorno de sertão, ao lado do homem do mar que a capital lhe acrescentou, na sua navegação por portos que o levam aos quatro cantos do mundo. Levando nesta viagem a sua cidade, a sua gente em seu cotidiano, como referência, como investigação, como paciência – o seu fazer é solitário tanto quanto a sua fala é silenciosa, deixando se vir abertamente na arte que realiza – a aventura pessoal de uma linguagem que expressa sua visão de mundo, o mundo de hoje. A sua arte é seu gesto, sua caligrafia, sua escrita, sua voz, seu grito, e o seu modo de estar e ser no mundo. E isto o deixa exposto à visitação pública ao carregar com ela todos nós, admiradores, e se deixa existir como expressão por aquilo que nomeamos arte.

Objetos de Carlos Bevilacqua

09/maio

Continuará em cartaz até o dia 15 de maio, na unidade Ipanema do Centro Cultural Cândido Mendes, a exposição “Indeterminado”, individual de objetos de Carlos Bevilacqua, na Galeria de Arte Maria de Lourdes Mendes de Almeida.

 

Sobre o artista 

Nascido no Rio de Janeiro em 1965, lugar onde vive e trabalha, Carlos Bevilacqua iniciou seus estudos na Universidade Santa Úrsula. Seu início no mundo das artes foi no Projeto Macunaína em 1988, onde recebeu o Prêmio Ivan Serpa. Em 2018 Carlos lançou seu livro “Carlos Bevilacqua” trazendo uma seleção de algumas obras que foram criadas em seus 30 anos de carreira, o livro traz também uma entrevista de Bevilacqua ao curador e professor de filosofia Luiz Camillo Osorio.

Fotos de Murilo Salles

06/maio

O cineasta e fotógrafo Murilo Salles lança um livro e faz a exposição de um trabalho seu ainda inédito: a fotografia ensaística. Em exposição, ampliações em tamanhos variados, sendo ao todo 18 fotos. A abertura e o lançamento do livro serão no dia 07 de maio, às 19h, na Mul.ti.plo Espaço Arte, Rua Dias Ferreira, 417 – Sala 206, Leblon, Rio de Janeiro, RJ. A exposição fica em cartaz até 1º de junho. “Murilo Salles Fotografias 1975-1979”, da Numa Editora, apresenta 116 fotografias escolhidas dessa época, feitas entre 1975, no set de “Dona Flor e seus dois maridos”, e 1979, no set de “Cabaré Mineiro”.

Durante cinco anos, após ter fotografado “Dona Flor e seus dois maridos” e já considerado um dos mais talentosos fotógrafos do cinema brasileiro, com apenas 25 anos, Murilo se jogou na estrada com sua Nikon F2 a tiracolo. Ele rodou o mundo, de Nova York a Paris, Roma e Maputo, até voltar ao Brasil para as filmagens de “Cabaré Mineiro”. Nesse tempo, produziu um trabalho de pesquisas e treinamento que revela porque Murilo se torna, tão precocemente, uma referência como fotógrafo de cinema. Murilo ainda fotografou “Eu te amo”, “O beijo no asfalto” e “Tabu” até que passou a se dedicar à direção. Em 1984, lançou o seu primeiro longa-metragem, o premiado “Nunca fomos tão felizes”, seguido de “Faca de dois gumes”, “Como nascem os anjos”, “Nome próprio”, entre outros filmes de ficção e documentários. Voltou à fotografia em grande forma com “Árido Movie”, em 2004.

“As fotografias nesses cinco anos serviram, principalmente, para treinar o árduo caminho no uso da cor, do contraste e nos limites da exposição. Uma experiência que foi intensa e radical”, comenta Murilo no texto do livro, que tem projeto gráfico de Rara Dias, parceira também na escolha das fotos e das composições temáticas entre elas. Mauricio Lissovsky assina o ensaio crítico e o livro conta ainda com uma cronologia do autor. Mas não esperem título, lente e demais informações sobre cada foto. “Não coloco título nem digo onde tirei minhas fotografias porque isso não é importante. O que interessa é a imagem. No título do livro está escrito o período em que elas foram realizadas porque acho importante perspectivar a época que estava fazendo essas fotos. A mais nova tem 40 anos!”

“As fotografias do Murilo são posteriores ao cinema não em virtude da cronologia ou da desconstrução, mas porque vieram depois da condenação da fotografia à imobilidade e em contraposição ao seu confinamento. Suas fotos vieram depois do cinema porque recusam a premissa de que o movimento seja uma prerrogativa do mundo que o cinema apenas imita ou reproduz. Não sai ao encalço dos objetos móveis, como fazem os fotógrafos fascinados pela velocidade, pelo milésimo de segundo; são os próprios movimentos do cinema que sua fotografia busca. Em outras palavras, sua câmera não persegue a imobilidade do mundo, para eventualmente interrompê-lo; ela se alimenta da própria mobilidade do quadro.”, escreveu Mauricio Lissovsky em seu texto no livro.

Tunga na Itália

02/maio

A Galeria Franco Noero exibe a segunda exposição individual de obras de Tunga na Itália, pela primeira vez exibida nos espaços da Piazza Carignano 2, Turim, Itália. Tunga foi um dos mais importantes e influentes artistas brasileiros de sua geração, e ele se expressou através de uma variedade extremamente eclética de mídias e linguagens artísticas, variando de desenho a escultura, instalação, fotografia, performance, cinema, vídeo e escrita. Os trabalhos expostos nesta exposição são de grande impacto simbólico. Alguns deles nunca foram exibidos antes e estão sendo apresentados pela primeira vez. O foco está nos processos e referências mais caros ao artista e nas obras que ele criou durante os últimos anos de sua carreira, antes de sua morte prematura. Eles vão desde a escala mais íntima de desenhos e pequenas esculturas ao poder e majestade de uma grande instalação de grande alcance. A exposição abre com dois elementos que são absolutamente típicos da arte de Tunga. Dois fantoches pendurados no teto da sala de entrada, suspensos em expectativa teatral, convidam o visitante a olhar atentamente para os materiais de que são feitos: cristal de rocha e esponja.

 

Até 20 de junho.

 

Exposição Tobias Marcier

22/abr

A Galeria Evandro Carneiro Arte, Shopping Gávea Trading Center, apresenta de 27 de abril a 25 de maio a exposição Tobias Marcier. A mostra, que reunirá 45 obras, sendo 28 em acrílica e 17 aquarelas, é inédita ao público. Somente agora, 37 anos depois do precoce falecimento do artista, seu irmão Matias reuniu as obras que estiveram espalhadas por coleções ao longo desse período, escolhendo a Galeria de Evandro Carneiro Arte para realizar a exposição. Filho do artista Emeric Marcier, Tobias caracterizou-se por suas pinturas fantásticas e por retratar cenas e personagens de ruas, festas populares e armazéns do interior do Brasil. O artista, considerado na época um nome promissor nas artes visuais, participou de mostras coletivas e individuais no Brasil, em especial para as individuais ocorridas na Galeria Bonino, Rio de Janeiro, 1973 e 1975, Galeria Guignard, Belo Horizonte, 1977, que tiveram grande repercussão de público e de crítica.

 

 

Sobre o artista

 

Tobias Marcier nasceu em Barbacena, MG, em 20 de março de 1948. Desde pequeno mostrou-se inventivo e interessado em arte, ajudando seu pai no ateliê e confeccionando seus próprios brinquedos e suas ferramentas. Segundo seu irmão Matias, o artista “…brincava só, pegando pedaços de vergalhão de ferro, nos quais batia com um martelo até virarem talhadeiras e ponteiras com que esculpia baixos relevos em tijolos maciços, pedra sabão, madeira etc. Daí saiam patinhos, pássaros e outras coisas, que remetiam à arte rupestre.” (Entrevista oral, 2019).

 

Em 1964, então com 16 anos e autodidata, teve seu talento reconhecido pelo famoso livreiro Trajan Coltescu da Nova Galeria de Arte (no Copacabana Palace), onde expôs seu trabalho escultórico com muito sucesso. Algum tempo depois, passou a dividir sua residência entre o Rio de Janeiro e Barbacena. Desde 1968 Tobias mergulhou na pintura, revelando, igualmente, enorme aptidão e criatividade. Pintava cada vez mais, quase sempre em tinta acrílica sobre tela, com temas figurativos e paisagens oníricas. Nesta época, participou de exposições coletivas nas galerias Irlandini (1969), Montmartre (1970) e Petite Galerie (1972). No mesmo período, fundou,  junto com Hugo Bidet e outros artistas, a Feira de Arte da Praça Gal. Osório.

 

Em 1971 surgiu uma encomenda feita pelo arquiteto Edison Musa, de uma Via Sacra em madeira, realizada para o Colégio São Luís, na Av. Paulista, em São Paulo. Sua abnegada dedicação a esta obra “…deixou o piso do seu conjugado com 20 cm de lascas de mogno dos entalhes” (contou Matias), fazendo Tobias perceber que a escultura demandava grandes espaços, algo difícil para um jovem artista na cidade grande. Além disso, não havia no Rio de Janeiro a abundância de pedra sabão que há em Minas Gerais, seu material preferido para esculpir.

 

Passou, então, a pintar mais e mais até que, em 1973 realizou a sua primeira exposição individual, na Galeria Bonino, com pinturas expressivas, como a tela “Alegoria da Primavera”, exposta agora na Galeria Evandro Carneiro Arte, dentre outras 44 obras do artista. Em 1974 participou de coletivas na Bolsa de Arte e na Petite Galerie. No ano seguinte, outra mostra individual na Bonino o consagrava como “pintor de narrativas fantásticas” (Antônio Bento, 1973, Catálogo da primeira exposição do artista na Galeria Bonino). Desta feita de 1975, destacamos a apresentação de Roberto Alvin Correa no catálogo da exposição e a obra “Mulher”, também reapresentada na atual exibição. Realizou, ainda, uma individual na Galeria Guignard, em Belo Horizonte (1977), com grande sucesso de crítica e público.

 

Apesar da inegável dimensão fantástica em sua obra, Tobias também se caracterizou por retratar cenas e personagens de ruas, festas populares e armazéns do interior do Brasil. Além disso, Walmir Ayala nos lembra que havia nele uma “…atenção às vozes primeiras, como seu pai, mas com a liberdade prodigiosa de ter sabido verter esta audição em vocabulário pessoal e renovado…” (Walmir Ayala, 1979, Catálogo da exposição do artista na Galeria B 75 Concorde, sua última em vida).

 

Ou seja, Tobias era um pintor com estilo próprio, uma carreira promissora e muitos planos para novos projetos. Em 1982, faria uma nova exposição na Concorde B75 no Rio, uma em Santa Catarina, organizada por George Racz e outras duas na França (Paris e Grenoble), através de seu então marchand Paulo Fernandes, quando uma fatalidade do destino o parou. Faleceu de um infarto fulminante, aos 33 anos.

Laura Olivieri Carneiro.

Fotos na Galeria de Arte Ibeu 

15/abr

Cerca de vinte anos depois de inspirar o fotógrafo alemão Andreas Gursky, o Edifício Mouchotte, em Paris, ganha as lentes do artista brasileiro João Paulo Racy na exposição “Montparnasse, vingt ans après” na Galeria de Arte Ibeu, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ. A curadoria traz a assinatura de Cesar Kiraly. Buscando a mesma perspectiva da fachada retratada por Gursky, Racy se “infiltrou” em um edifício desativado do jornal Le Point para obter o mesmo ângulo do fotógrafo alemão. O resultado não poderia ser mais surpreendente, até para ele mesmo, já que registrou também o cenário apocalíptico que encontrou na extinta redação.

“Estabeleço um diálogo entre o ambiente de renovação e o uso antigo de um aparente escritório, dos recortes ainda na parede, das anotações deixadas para trás, do desconhecido que começará a ser montado. Investigo a questão da habitação nos centros urbanos com o intuito de identificar os efeitos que a gentrificação exerce sobre a configuração das grandes metrópoles. A mostra será apresentada em suportes distintos: objetos, fotografias, impressões em grande escala e em papel de lambe-lambe”, afirma João Paulo Racy.

 

A fotografia de Andreas Gursky impressiona não só pela escala, e neste caso, também pelos inúmeros apartamentos que o prédio possui. Na busca por pelo menos um dos pontos de vista de Gursky, João Paulo Racy encontrou uma nova realidade, um cenário de transição em um bairro que novamente sofre os efeitos do processo de gentrificação. Por cerca de duas semanas, o artista visitou periodicamente o edifício de quatro andares, anexo a um shopping, e que abrigava a sede do jornal francês Le Point. “Esta individual do João Paulo Racy começou a ser gestada no momento em que ele se coloca na posição em que Andreas Gursky, 20 anos antes, fotografara o edifício no bairro de Montparnasse, em Paris. Não se trata mais de simular uma fachada contínua, porém de mostrar, tal como a encontra, a perspectiva interna de uma janela diante de outras tantas, invariavelmente interrompida pela emenda da vidraça”, analisa o curador Cesar Kiraly. “O interesse é registrar, como intruso, que a interioridade não perde sua perspectiva privilegiada sobre o que acontece fora, e que, mesmo repleta de antigos usos, não precisa esconder a si própria”, completa.

 

Sobre o artista

João Paulo Racy nasceu em 1981, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha entre Rio de Janeiro e São Paulo. Artista visual e pesquisador. Graduado em fotografia e mestrando em Artes, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Participou do Programa Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV do Parque Lage e do programa de imersão EAVerão (Rio de Janeiro, 2015). Participou do Programa de Residência Artística da FAAP (São Paulo, 2016) e da Residência NUVEM – Estação Rural de Arte e Tecnologia (Rio de Janeiro, 2016). Foi contemplado com o prêmio Aquisição no 15º Salão de Artes de Jataí (2016) e com o prêmio Aquisição no 42º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (Santo André, 2014). Realizou as exposições individuais “Impróprio” (Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, 2018), “Devir Cidade” (Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro, 2017) e das coletivas “São Paulo Não é Uma Cidade, Invenções do Centro” (Sesc 24 de Maio, São Paulo, 2017); 2ª Bienal CAIXA de Novos Artistas (Caixa Cultural, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Brasília, Fortaleza, 2017-2018); XI Diário Contemporâneo de Fotografia (Museu do Estado do Pará, Belém, 2018), Abre Alas 14 (Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, 2018), entre outras. Seu trabalho integra o acervo do Museu de Arte Contemporânea de Jataí (GO), do MAB-FAAP (SP), a Coleção Joaquim Paiva (MAM-Rio) e o Patrimônio Artístico da cidade de Santo André (SP).

 

De 17 de abril a 10 de maio.