Um diálogo transgeracional.

06/out

A aproximação entre Abraham Palatnik (Natal, 1928 – Rio de Janeiro, 2020) e Juan Parada (Curitiba, 1978) em exposição (Reverbero, Resonance) na Simões de Assis, Curitiba, PR, exibe um encontro entre os artistas que converge em um diálogo transgeracional que investiga cinetismo, luz e matéria.

Os rumos da história da arte foram recalculados pela presença de Abraham Palatnik, ao lado de Jesús Rafael Soto e Carlos Cruz-Diez. O grupo ocupa um lugar fundamental e fundador na arte cinética latino-americana ao potencializar o artesanal e a utilização de suportes pouco convencionais nas artes visuais. Os aparelhos cinecromáticos de Palatnik – estruturas de motores e luzes – obtiveram grande reconhecimento, tendo inclusive participado da primeira Bienal de São Paulo, em 1951, com menção especial do júri internacional. 

Diante da amplitude de sua dimensão matérica, Abraham Palatnik também realizou obras que dispensam a utilização de dispositivos eletrônicos e simulam o movimento na projeção de camadas e sombras. 

Há um diálogo com a poética de Juan Parada, que desenvolve sua pesquisa em cerâmica e escultura há mais de duas décadas. Ao longo de sua trajetória de pesquisa, afinou seu conhecimento técnico, como quando em 2016, realizou uma residência artística no Jingdezhen International Studio na China e posteriormente na Holanda, em 2022, no European Ceramic Workcentre em Oisterwijk. Os artistas apresentam uma dinâmica visual em ressonância, em um ritmo progressivo da forma na criação de relevos e volumetria, evidenciando a destreza técnica somada a reinvenção da linguagem.

Em Abraham Palatnik e Juan Parada nenhum processo e sistema pode ser descrito por relações lineares de causa e efeito, são atuantes e habitam o território do devir e da variabilidade. Ambos constroem sistemas completos/complexos em produção de sentido. A matemática e a precisão constroem sistemas virtuais, mas é na matéria que nos deparamos com a dimensão física e temporal dos artistas, desvelando seus desvios.

Até 17 de outubro. 

Exibição individual de Wolfram Ullrich.

05/out

Obras inéditas do artista alemão Wolfram Ullrich na Galeria Raquel Arnaud, Vila Madalena, São Paulo, SP,  “Ambiguidade Construtiva e Ativação do Espaço”, define bem as ideias por trás de suas obras. 

O nome da exposição de Wolfram Ullrich define bem as ideias por trás de suas obras. Os trabalhos transitam entre pintura, escultura e arquitetura e fazem o visitante se deslocar pelo espaço, para perceber os diferentes modos em que as formas se reorganizam diante de seus olhos. 

O artistaa nasceu em 1961, em  Würzburg, Alemanha. Vive e trabalha em Stuttgart, Alemanha. Os trabalhos de Wolfram Ullrich erigem-se sobre um processo de planejamento conceitual e um árduo trabalho manual de precisão, além de estabelecerem diálogos com os fundamentos da arte concreta, como o significado da cor definido apenas por ela mesma, a forma que obedece às leis da geometria e a relação direta entre o corpo e sua materialidade e plasticidade. No entanto, Wolfram Ullrich vai além ao criar volumes e estruturas que parecem escapar das paredes, desafiando noções de perspectiva e de ilusão. Feitas de matéria rígida, como aço, as superfícies monocromáticas de Wolfram Ullrich são testemunhas não somente da própria materialidade inabalável, mas também dos fenômenos ópticos que submetem as obras à perspectiva móvel de cada observador e fazem com que pareçam flutuar no espaço.

Wolfram Ullrich é graduado em Artes Visuais e Pintura pela Staatliche Akademie der Bildenden Künste Stuttgart (1986) e em História da Arte pela Universität Stuttgart (1985). Começou a desafiar a lógica bidimensional da pintura e as políticas da perspectiva na década de 1980, época em que participou de suas primeiras exposições na Europa. Dentre suas exposições recentes, destacam-se as individuais nas galerias Une (Suiça, 2012) e Denise René (França, 2011); e as coletivas “Mouvement et Lumière”, na Fondation Villa Datris (França, 2012); “Interferences” na Fundação Vasarely (França, 2011); e “Beyond Painting”, no Museu Bohuslan (Suécia, 2009). Nos últimos anos, foi premiado pela Fundação Messmer (Alemanha, 2010) e pela Fundação Helmut Kraft (Stuttgart, 2009). Seu trabalho é exibido regularmente nas principais feiras de arte, como Art Basel (Basileia e Miami), FIAC (Paris), Art Cologne e Zona Maco (Cidade do México). Desde 2013 o artista é representado pela Galeria Raquel Arnaud, que realizou a mostra “Planar” (2013), sua primeira mostra individual no Brasil.

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Individual de Ana Calzavara no Rio de Janeiro.

Artista paulista apresenta trabalhos inéditos criados durante uma intensa temporada de trabalho em Lisboa. Em “Desenredo”, pinturas convidam a uma renovação do olhar diante de um mundo saturado de imagens. 

Como fazer uma imagem persistir em meio ao turbilhão visual do mundo contemporâneo? Como devolver duração a uma imagem em uma cultura com excesso de estímulos visuais? É a partir dessas questões que Ana Calzavara constrói “Desenredo”, sua segunda exposição individual na Maneco Müller : Multiplo Galeria, Leblon. 

A série inédita de pinturas a óleo aprofunda a investigação poética da artista sobre a experiência do olhar e a forma como apreendemos as imagens em um cotidiano atravessado por telas e fluxos incessantes de informação. Partindo dessa fragmentação, as pinturas de Ana Calzavara buscam justamente o contrário: captar do espectador um olhar mais duradouro e concentrado, no qual a atenção seja, de alguma forma, recuperada.

O texto crítico da mostra é de Pedro Duarte.

Segundo a artista, o nome da exposição, “Desenredo”, remete a esse embaralhamento do olhar, a uma narrativa que explodiu, se despedaçou e não é mais linear. “A exposição traz essa experiência da fragmentação, mas numa tentativa de subvertê-la. Quero provocar o espectador para olhar o mundo de uma forma diferente da que estamos acostumados. A exposição nasce do desejo de renovar a experiência do espectador com a imagem, de fazer com que essa imagem se relacione com ele de uma forma mais persistente, que não seja descartada, que traga uma reflexão”, explica a artista.

Mostra abre no dia 08 de outubro e pode ser visitada até 21 de novembro.

O sonho é um vasto território.

01/out

Para a Art Basel Paris 2026 entre 23 e 25 de outubro,  no Grand Palais, A Gentil Carioca (Stand A4) apresentará o tema “Sonhos e Pesadelos”. O sonho é um vasto território, onde as formas se expandem livremente e a lógica da vida cotidiana se dissolve. Sonhar não é uma fuga, mas a construção de mundos nos quais escolhemos acreditar. mundos que podem, às vezes, se transformar nos pesadelos de nossas próprias construções. Buscamos apresentar obras em que o sonho assume múltiplas formas e escalas, tornando-se uma matéria política e um confronto para imaginar outras formas de viver, recusando o que está dado e persistindo na luta.

Origem urbana ganha novas configurações.

Bruno Bogossian retorna às exposições individuais no Rio de Janeiro depois de uma década. Com mais de 25 anos de trajetória e ex-integrante do Fleshbeck Crew, coletivo fundamental para a história do grafite carioca, o artista apresenta na Artur Fidalgo galeria, Copacabana, trabalhos inéditos que transitam entre pintura, desenho e escultura. 

Em “Caleidoscópica”, sua pesquisa de origem urbana ganha novas configurações em meio a cores vibrantes, formas geométricas, fragmentos botânicos, vestígios arquitetônicos e referências ao imaginário social. A mostra também celebra uma relação especial: são 10 anos de parceria entre Bruno Bogossian e a Artur Fidalgo galeria.

Objetos simbólicos do cotidiano.

Em sua primeira exposição individual, “Uma certa memória”, sob curadoria de Vanda Klabin, na Artur Fidalgo galeria, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, Emika Takaki apresenta uma série de pinturas recentes que transitam por objetos simbólicos do cotidiano. Suas telas funcionam como potentes metáforas visuais em torno do silêncio, da ancestralidade e da diáspora nipo-brasileira.

Através de rigorosos campos monocromáticos e do uso de cores escassas, o trabalho de Emika Takaki transforma o ato de olhar em um espaço de contemplação e encontro profundo entre o passado e o presente, a nostalgia e o esquecimento.

Até 30 de outubro.

A obra de uma artesã sofisticada.

29/set

Em “Malha de Cobre”, Daniela Cutait reúne malhas metálicas, correntes e argolas de cobre sobre suporte de madeira. A composição leva para a parede a lógica construtiva da joalheria, universo que atravessou sua trajetória por quase 15 anos. Quando a luz atravessa os intervalos entre os elementos, as sombras prolongam o desenho e modificam a percepção do volume. A estrutura conserva a precisão do adorno e assume um ritmo orgânico, recorrente na pesquisa da artista.

Sobre a artista.

Daniela Cutait, nasceu em 1969, em São Paulo, SP, cidade onde vive e trabalha. Estudou artes plásticas na FAAP no início dos anos 90, desde sempre curiosa, criativa, comunicativa e inquieta. A artista orbitou pelo universo das pedras, das joias, seus contornos e brilhos, desenhando acessórios de moda por quase 15 anos. 

“Sou uma andarilha, busco inspiração pela beleza na simplicidade e na delicadeza do quase invisível pelas ruas por onde passo, em qualquer lugar do mundo”. 

“A natureza passou a me chamar mais atenção por seu movimento quase esquecido nos dias de hoje devido ao distanciamento das relações pessoais engolidas por esta era cibernética em que vivemos”. 

Ao mesmo tempo orgânicos e ornamentados, espontâneos e estilizados, as esculturas de Daniela trazem uma dimensão textural e visual únicas onde as sombras dão continuidade ao trabalho, dependendo uma da outra, objeto, luz e sombra. Suas séries são o resultado do trabalho de uma artesã sofisticada que através do recolhimento criativo em seu atelier em São Paulo, surge um conjunto de peças feitas em crochê de fios de cobre, correntes em alumínio e contas que brotam de seu acervo pessoal durante os anos que manteve uma relação mais estreita com a moda. A artista examina o contraste dos materiais feitos pelo homem com as formas da natureza em suas instalações etéreas formadas a partir do crochê em fios de metal e malhas tecidas à mão. 

Criou seu próprio conceito, de “Wall Fashion Art” e transformou seus acessórios de moda em arte, sempre inspirada por joalheiros e artistas consagrados como JAR (Joel Arthur Rosenthal), Boucheron, Ruth Asawa, escultora modernista americana, entre muitos outros. As peças são únicas e numeradas. O resultado brinca com o lúdico e o paradoxo da vida efêmera capturada em uma cápsula de tempo.

“Hoje, meu prazer é vestir as paredes das casas das pessoas e não apenas “as pessoas”, afinal cada casulo reflete a nossa história e é a tradução de nossa existência a cada momento”.

Momento de renovação poética e formal.

A Athena, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, apresenta “Sair do próprio caminho e deixar o mundo entrar”, exposição de Rafael Alonso. Com texto de Luna Grimberg, a mostra reúne um conjunto inédito de pinturas realizadas em seu novo ateliê, instalado na antiga casa da pintora Lucia Laguna, no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio de Janeiro. A mudança de endereço marca também uma inflexão significativa na trajetória do artista, revelando um momento de renovação poética e formal.

A casa, seus quintais e a vizinhança característica dos subúrbios cariocas – marcada por construções em constante transformação e soluções arquitetônicas informais – passam a integrar diretamente o campo de observação do artista. Estes entornos constituem uma nova experiência do cotidiano e reorganizam o seu modo de olhar e de pintar.

As obras, inéditas, apontam para uma sensível transformação em relação à produção anterior de Rafael Alonso. Agora em formatos menores, convidam a uma aproximação mais íntima, instaurando um ritmo de observação pausado e silencioso.

Os ciclos da lua e a materialidade da cor.

28/set

Artista constrói ateliê na Serra do Cipó, MG, onde investiga os ciclos da lua e a materialidade da cor. 

A Mitre Galeria, Jardins, São Paulo, SP, apresenta “candeia”, individual de Gisele Camargo com texto curatorial de Miguel A. López. A mostra nasce da mudança da artista para a Serra do Cipó, em Minas Gerais, onde instalou um novo ateliê cercado por cachoeiras, cânions e espécies endêmicas do cerrado.

No centro da exposição, dois polípticos de grande escala ocupam as extremidades opostas da galeria: Lua Cheia e Lua Nova. Cada um traduz as variações cromáticas e luminosas de um momento do ciclo lunar – a escuridão quase total de quando a lua se posiciona entre a Terra e o Sol, e a plenitude de quando aparece inteiramente iluminada.

Para Miguel A. López, a cor na pintura de Gisele Camargo “deixa de ser um atributo estável e passa a constituir um acontecimento: uma vibração instável que oscila entre a experiência sensorial, a observação científica e a especulação poética”.

Entre os dois polípticos, quatro pinturas de médio formato apresentam formas sinuosas e ondulantes sobre fundos escurecidos. Silhuetas que podem ser vegetais, correntes de água, sombras animais, campos magnéticos ou fenômenos atmosféricos.

O ateliê na Serra do Cipó funcionará também como residência artística interdisciplinar, recebendo artistas, biólogos, botânicos, brigadistas do cerrado e astrônomos. “Acredito que o artista contemporâneo tem uma função com a sociedade”, diz Gisela Camargo. “Faz parte do meu trabalho trazer outras pessoas para vivenciar este lugar que eu amo tanto.”

Até 03 de outubro.

Duas gerações da pintura brasileira.

24/set

A Simões de Assis participa da Frieze London 2026, de 14 a 18 de outubro, e apresenta um diálogo entre Miguel Bakun e Thalita Hamaoui, duas gerações da pintura brasileira. Obras de Miguel Bakun realizadas entre as décadas de 1940 e 1960 e pinturas inéditas de Hamaoui, produzidas especialmente para  esta edição.

Separadas por décadas, suas produções encontram pontos de contato na maneira como transformam a paisagem em campo de sensibilidade. Entre o mundo exterior e a experiência interior, as obras articulam diferentes formas de perceber, imaginar e dar corpo ao que nos cerca.

Sobre o artista.

Miguel Bakun (Mallet, Brasil, 1909 – Curitiba, Brasil, 1952) filho de imigrantes ucranianos, nasceu no sul do estado do Paraná, Brasil. Ainda jovem, em 1926, ingressou na Escola de Aprendizes da Marinha, em Paranaguá, e em seguida foi transferido para a Escola de Grumetes do Rio de Janeiro, onde começou a realizar esboços a lápis, desenhos de observação, retratos, caricaturas e paisagens – como fazia também seu colega e contemporâneo José Pancetti. Em 1930, em virtude de um acidente, desligou-se da Marinha e mudou-se para Curitiba.

Mesmo sem formação sistematizada em artes plásticas, Miguel Bakun montou ateliê em sua residência e, para manter o sustento, trabalhou como fotógrafo lambe-lambe. Nos anos 1940, passou a compartilhar ateliê com outros artistas no centro da cidade, em prédio cedido pela Prefeitura. A década é considerada promissora para ele, marcada por suas primeiras participações e premiações no Salão Paranaense de Belas Artes e pela participação em duas edições do Salão Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Chegou a receber algum interesse da crítica: no texto mais emblemático desse período, o artista e professor Guido Viaro afirmou que Bakun “elimina o ar das paisagens como se fosse uma experiência de Física”. Os anos 1950 foram os mais prolíficos, quando pintou retratos, naturezas-mortas, marinhas e sobretudo paisagens, além de murais na residência do então governador Moysés Lupion, hoje o Castelo do Batel. Ao final da década, produziu obras com alusões animistas, em que figuras alegóricas se confundem com os contornos das paisagens.

Apesar das eventuais premiações e da amizade com agentes do circuito, Miguel Bakun não chegou a se inserir plenamente no incipiente sistema de artes local, nem pôde viver apenas da venda de suas obras. Emergiu em uma cena de gradual modernização do repertório da pintura acadêmica, na qual a expressividade assertiva de suas obras parecia fora de lugar – experimental ou subjetiva demais. Quando, porém, uma nova geração de artistas ganhou protagonismo na arte curitibana, foram as obras abstratas que tomaram o debate, o que também mantinha Miguel Bakun na periferia do olhar. Em seus últimos anos, já sofrendo por sua precária situação econômica, Miguel Bakun recebeu tratamento médico por causa de forte depressão. Encerrou sua vida em 14 de fevereiro de 1963.

Participou de diversas exposições individuais das quais destacam-se: “Miguel Bakun” (2024), Mendes Wood DM, Bruxelas; “Miguel Bakun” (2019), Simões de Assis, São Paulo; “Miguel Bakun – Na Beira do Mundo” (2010), Museu Oscar Niemeyer, Curitiba; “Miguel Bakun: Natureza e Destino” (2010), Instituto de Arte Contemporânea, São Paulo. Entre as coletivas estão: “ABERTO/02” (2023), Casa de Vilanova Artigas, São Paulo; “Aprendendo com Miguel Bakun: Subtropical” (2019), Instituto Tomie Ohtake, São Paulo; “Brasil 500 Anos de Artes Visuais” (2000), Fundação Bienal de São Paulo. Possui trabalhos em coleções importantes como Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil; Luís Antonio de Almeida Braga Collection, Rio de Janeiro, Brasil; MAC PR – Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, Brasil; MUPA – Museu Paranaense, Curitiba, Brasil; and MON – Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, Brasil.